REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776130434
RESUMO
O artigo intitulado A Constituição Social das Funções Psicológicas Superiores na Teoria Vygotskyana" realiza uma revisão de literatura as obras de Vygostky(1998;2009;2018) e tem o objetivo de investigar: Como se constituem as funções psicológicas superiores segundo a perspectiva de Lev Vygotsky? A pesquisa parte do princípio fundamental de que essas funções não são meramente produtos do desenvolvimento individual, mas emergem das interações sociais e culturais nas quais os indivíduos estão inseridos. O artigo conclui que a constituição das funções psicológicas superiores em Vygotsky é um fenômeno complexo que envolve a interação entre o social e o psicológico, e que essa compreensão tem implicações significativas para a educação e o desenvolvimento humano. O desenvolvimento das funções psicológicas superiores é um processo dinâmico que ocorre em contextos históricos e culturais específicos, ressaltando a influência das práticas culturais nas capacidades cognitivas e emocionais. A pesquisa reafirma a relevância da perspectiva sociocultural na análise do comportamento e do aprendizado, propondo uma abordagem que considere o indivíduo em seu contexto social e cultural.
Palavras-chave: Vygostky; Funções psicológicas superiores; Desenvolvimento humano
ABSTRACT
The article entitled The Social Constitution of Higher Psychological Functions in Vygotskyan Theory presents a literature review of the works of Vygotsky (1998; 2009; 2018) and aims to investigate: How are higher psychological functions constituted according to the perspective of Lev Vygotsky? The study is based on the fundamental assumption that these functions are not merely products of individual development, but rather emerge from the social and cultural interactions in which individuals are embedded. The article concludes that the constitution of higher psychological functions in Vygotsky is a complex phenomenon involving the interaction between the social and the psychological, and that this understanding has significant implications for education and human development. The development of higher psychological functions is a dynamic process that occurs within specific historical and cultural contexts, highlighting the influence of cultural practices on cognitive and emotional capacities. The research reaffirms the relevance of the sociocultural perspective in the analysis of behavior and learning, proposing an approach that considers the individual within their social and cultural context.
Keywords: Vygotsky; Higher psychological functions; Human development.
INTRODUÇÃO
A compreensão das funções psicológicas superiores, conforme delineada na teoria vygotskyana, é um campo de estudo que se revela fundamental para a psicologia e a educação contemporâneas. Lev Vygotsky, um dos principais teóricos do desenvolvimento humano, enfatiza que as funções psicológicas não são apenas produtos do desenvolvimento individual, mas sim construções sociais que emergem das interações entre o indivíduo e seu contexto sociocultural. Vygotsky (1998) afirma que "todas as funções psicológicas superiores se constituem inicialmente nas relações sociais" e, portanto, a análise dessas funções deve considerar o papel das interações sociais e culturais na formação do sujeito.
A perspectiva de Vygotsky é complementada por outros autores que também abordam a intersecção entre o social e o psicológico. Martins (2015) ressalta que "as funções psicológicas superiores são mediadas por instrumentos e signos que são socialmente construídos", o que implica que a linguagem e outros sistemas simbólicos desempenham um papel crucial na constituição dessas funções. Essa mediação não apenas facilita a aprendizagem, mas também transforma a maneira como os indivíduos percebem e interagem com o mundo ao seu redor.
Gisele Toassa (2020) reforça essa ideia ao afirmar que "o desenvolvimento das funções psicológicas superiores é um processo dinâmico que se dá em um contexto histórico e cultural específico". Essa visão destaca a importância de considerar as particularidades do ambiente em que o indivíduo está inserido, reconhecendo que as práticas culturais e as relações sociais moldam as capacidades cognitivas e emocionais dos indivíduos. Assim, a constituição das funções psicológicas superiores não pode ser dissociada do contexto social em que se desenvolvem.
Por sua vez, Leontiev (1978) contribui para essa discussão ao enfatizar que "a atividade humana é a base da formação das funções psicológicas". Ele argumenta que as funções psicológicas superiores emergem a partir da prática social e da atividade, sendo moldadas pelas necessidades e objetivos dos indivíduos em suas interações com o mundo. Essa abordagem coloca a atividade como um elemento central na compreensão do desenvolvimento psicológico, sugerindo que a aprendizagem e a construção do conhecimento são processos intrinsicamente ligados à ação e à prática social.
Diante desse panorama, o presente artigo busca responder à questão: Como se constituem as funções psicológicas superiores em Vygotsky? Através de uma análise crítica das obras de Vygotsky e de seus contemporâneos, pretendemos explorar as interações entre o social e o psicológico, destacando a importância das relações sociais e culturais na formação das funções psicológicas superiores. Essa investigação não apenas ilumina os fundamentos teóricos da psicologia vygotskyana, mas também oferece implicações práticas para a educação e o desenvolvimento humano, reafirmando a relevância da perspectiva sociocultural na compreensão do comportamento e do aprendizado. Este artigo é formado pela introdução; e pelas seções: As funções psicológicas superiores e o desenvolvimento humano em Vygostky; Sentido e Significado em Vygostky: Fundamentos para o desenvolvimento integral do indivíduo e Considerações Finais.
AS FUNÇÕES PSICOLÓGICAS SUPERIORES E O DESENVOLVIMENTO HUMANO EM VYGOSTKY
A teoria de Vygotsky destaca a importância da interação social e cultural na formação das funções psicológicas superiores. Para Vygotsky (2009), "todas as funções psicológicas superiores (FPS) se originam de relações sociais". Essa afirmação sublinha a ideia de que o desenvolvimento cognitivo não ocorre em um vácuo, mas é profundamente influenciado pelo contexto social em que o indivíduo está inserido. A linguagem, por exemplo, é um dos principais mediadores desse processo, funcionando como uma ferramenta que permite a construção do pensamento.
Veronezi et al (2005), p. 539), ao destacar o caráter histórico e cultural das funções psicológicas superiores, bem como as funções elementares das crianças como sensações, associações, atenção involuntária, ações reflexas e outas, que os demais animais também possui, são processos mentais básicos e inatos que formam a base para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, pontua que:
A origem das mudanças que ocorrem no homem, ao longo do seu desenvolvimento, está vinculada às interações entre o sujeito e a sociedade, a cultura e a sua história de vida, além das oportunidades e situações de aprendizagem. Para o desenvolvimento do indivíduo, as interações com os outros são, além de necessárias, fundamentais, visto que esses são portadores de mensagens da própria cultura. Nesta interação, o papel essencial corresponde aos signos e aos diferentes sistemas semióticos que, do ponto de vista genético, têm primeiro uma função de comunicação e logo uma função individual. Começam a ser utilizados como instrumentos de organização e de controle do comportamento individual, o que significa que as FPS não poderiam surgir e constituir-se no processo do desenvolvimento sem a contribuição construtora das interações sociais. (Veronezi et al, 2005, p. 539)
As interações com outras pessoas são essenciais, pois são através delas que o indivíduo recebe e internaliza as mensagens da cultura. Essas interações não se limitam à comunicação verbal; elas envolvem o uso de signos e sistemas semióticos que, inicialmente, servem para a troca de informações, mas que, com o tempo, se tornam ferramentas que ajudam o indivíduo a organizar seus pensamentos e comportamentos.
Assim, as funções psicológicas superiores (FPS), como a memória, a atenção e o raciocínio, não se desenvolvem isoladamente, mas emergem a partir dessas interações sociais. A aprendizagem, portanto, é um processo coletivo e contextual, onde o sujeito não apenas absorve informações, mas também constrói seu conhecimento a partir das experiências compartilhadas. Dessa forma, a contribuição das interações sociais é fundamental para a formação da identidade e das capacidades cognitivas do indivíduo, reforçando a ideia de que o desenvolvimento humano é um fenômeno social e cultural.
Ligia Martins (2013) complementa essa visão ao afirmar que "a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um instrumento que molda a maneira como pensamos e percebemos o mundo". Essa perspectiva enfatiza que as funções psicológicas superiores, como a memória, a atenção e o raciocínio, são moldadas e transformadas através das interações sociais e culturais. Martins (2015) ainda ressalta que "o aprendizado é um processo social que se dá na relação com o outro", reforçando a ideia de que a cognição é um fenômeno coletivo.
Leontiev (1978), um dos seguidores da linha vygotskiana, também contribui para essa discussão ao afirmar que "a atividade humana é sempre mediada por instrumentos e signos, que são produtos da cultura". Essa mediação é fundamental para a constituição das funções psicológicas superiores, pois é através da cultura que os indivíduos adquirem as ferramentas necessárias para pensar e agir no mundo. Assim, a cultura não é apenas um contexto, mas um elemento ativo na formação da cognição.
Portanto, ao analisarmos a constituição social das funções psicológicas superiores na teoria vygotskiana, é essencial reconhecer que a cognição é um processo dinâmico e interativo. As contribuições de Vygotsky, Ligia Martins e Leontiev nos mostram que a cultura e a interação social são fundamentais para o desenvolvimento humano, moldando não apenas o que pensamos, mas também como pensamos. A compreensão dessas interações nos permite valorizar a importância do contexto social na educação e no desenvolvimento psicológico, promovendo práticas que reconheçam e integrem essa dimensão social no processo de aprendizagem.
A teoria de Vygosty, a psicologia histórico cultural, refuta a ideia das velhas psicologias que defendiam que o desenvolvimento humano e suas capacidades era desenvolvidas naturalmente. Com sua teoria desenvolvida no século XIX, e considerando o ser humano, como um ser concreto, histórico e cultura, ou seja, determinado pelo social e pelo cultural, e que este precisa ter acesso aos bens materiais e imateriais para se desenvolver, surge, a nova psicologia que denota as determinações da realidade no desenvolvimento da linguagem, pensamento, imaginação, criatividade, leitura, calculo, consciência dentre outros.
Vygotsky propõe uma visão mais integrada do desenvolvimento psicológico, onde a cultura e a interação social desempenham papéis cruciais. A linguagem, como mediadora dessas interações, não é apenas um meio de comunicação, mas uma ferramenta fundamental que molda o pensamento e a cognição. Assim, a proposta de Vygotsky nos convida a repensar a educação e o desenvolvimento humano, reconhecendo que as funções psicológicas são determinadas pelo contexto social e cultural em constante transformação. Essa abordagem não apenas enriquece a compreensão do desenvolvimento humano, mas também enfatiza a importância das relações sociais na formação e desenvolvimento das subjetividades humanas.
Ao fazermos a defesa da linguagem como função psicológica humana superior que articula com as demais no cérebro humano, Gomide Tosta, com base nos estudos de Lúria(1991) afirma que:
A linguagem promoveu na atividade consciente humana três mudanças essenciais: a condição de lidar com os objetos do mundo exterior, inclusive em sua ausência, ou seja, pela palavra o homem torna presente o ausente, a possibilidade de assegurar o processo de abstração e generalização, por exemplo, as palavras ―caneta‖ e ―colher‖ designam não apenas certos objetos, mas a função dos mesmos e, independente dos materiais utilizados para sua confecção designam todas as modalidades desses objetos. E finalmente, ao possibilitar aos homens o trabalho de análise e classificação dos objetos, por meio da abstração a linguagem mais do que meio de comunicação assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo
Através da palavra, o ser humano consegue evocar e trazer à mente aquilo que não está imediatamente diante dele. Isso é crucial para a comunicação e o pensamento, pois possibilita discussões sobre eventos passados, planos futuros ou conceitos abstratos. A linguagem, portanto, atua como um meio de conectar o presente ao ausente, ampliando a capacidade de reflexão e planejamento. Quando usamos palavras como "caneta" e "colher", não estamos apenas nos referindo a objetos específicos, mas também a categorias que englobam diversas instâncias desses objetos. Essa capacidade de generalizar permite que os indivíduos reconheçam semelhanças e diferenças entre objetos e ideias, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico e da categorização. Assim, a linguagem não é apenas um rótulo, mas um instrumento que organiza e estrutura o conhecimento.
Através da abstração, a linguagem permite que os indivíduos façam uma transição do nível sensorial, onde as experiências são percebidas de forma imediata e concreta, para um nível mais racional e reflexivo. Isso significa que a linguagem ajuda a transformar percepções sensoriais em conceitos e ideias, permitindo uma compreensão mais profunda e complexa do mundo. A linguagem é uma ferramenta poderosa que não apenas facilita a comunicação, mas também transforma a maneira como os seres humanos interagem com o mundo, promovendo a capacidade de pensar de forma abstrata, generalizar experiências e analisar a realidade de maneira mais racional. Essa perspectiva é fundamental para entender o desenvolvimento cognitivo e a construção do conhecimento humano.
O pensamento abstrato se constitui com uma fase superior do desenvolvimento humano que ocorre quando a pessoa já possui a capacidade de articular ideias no pensamento, prever situações concretas, planejar atividades e o seu resultados, resolver problemas do cotidiano e problemas complexos bem como organizar atividades individuais e coletivas e planejar a produção material da vida humana.
Leontiev (2014, p. 26) destaca que:
Na medida em que o pensamento abstrato ocorre fora dos contatos diretos com o mundo objetivo, então, porque de sua relação com ele e o problema da prática como uma base e critério para a verdade do conhecimento, ainda outro problema surge. Isso diz respeito ao fato de que testar a verdade dos resultados teóricos do pensamento raramente podem ser realizados imediatamente depois que esses resultados são obtidos. O teste pode estar separado dos resultados por muitas décadas e não pode ser sempre direto, o que torna necessário que a experiência da prática social deva ser uma parte da própria atividade do pensamento. Tal requisito é cumprido pelo fato de que o pensamento é subordinado a um sistema lógica (e matemático) de leis, regras e regulações. Uma análise de sua natureza mostra como a experiência da prática social entre no próprio curso do processo do pensamento humano.
O pensamento abstrato, que ocorre fora do contato direto com a realidade, levanta questões sobre sua validade e relação com o mundo objetivo. Isso sugere que, embora o pensamento possa ser desenvolvido em um nível teórico, sua conexão com a realidade prática é fundamental para garantir que esse conhecimento seja verdadeiro e aplicável.
Desse modo, Leontiev (2014) aborda a complexa relação entre o pensamento abstrato e a prática social, destacando a importância da experiência prática na validação do conhecimento teórico. O pensamento abstrato é desenvolvido na relação com a realidade objetiva, com os outros seres humanos e consigo próprio. Muitas vezes, pode levar décadas até que um conceito ou teoria seja testado na prática. Essa separação temporal e a dificuldade de realizar testes diretos indicam que o conhecimento teórico não é algo que pode ser validado de forma instantânea ou simples. Isso significa que o conhecimento não deve ser visto como algo isolado, mas sim como algo que deve ser constantemente relacionado e testado em contextos sociais e práticos.
A prática social fornece um contexto no qual as teorias podem ser aplicadas, testadas e, eventualmente, ajustadas ou confirmadas. O autor também menciona que o pensamento é subordinado a um sistema lógico e matemático de leis e regras. Isso implica que, embora o pensamento abstrato possa ser complexo e teórico, ele ainda opera dentro de estruturas lógicas que ajudam a organizar e validar esse conhecimento. O pensamento humano é um processo dinâmico que deve integrar a experiência prática para garantir sua validade e relevância. Essa perspectiva reforça a ideia de que a teoria e a prática estão interligadas, e que a experiência social é essencial para a construção de um conhecimento verdadeiro e aplicável.
Na pratica social, de acordo com Vygotsky(1998), o ser humano desenvolve e melhora outras funções psíquicas superiores. Lev Vygotsky, um dos principais teóricos do desenvolvimento humano, enfatizou a importância da memória, da atenção dirigida, da imaginação e da criatividade no processo de aprendizagem e na formação do pensamento. Para Vygotsky, esses elementos não são apenas funções cognitivas isoladas, mas estão interligados e desempenham papéis cruciais na construção do conhecimento.
A memória, segundo Vygotsky, é fundamental para a formação da identidade e do conhecimento. Ele afirma que "a memória não é um simples repositório de informações, mas um processo ativo que envolve a reconstrução e a interpretação de experiências passadas" (Vygotsky, 1998). Essa perspectiva destaca que a memória não apenas armazena informações, mas também influencia como interpretamos e reagimos a novas experiências. Enquanto a atenção dirigida, por sua vez, é um aspecto essencial para o aprendizado eficaz. Vygotsky argumenta que "a atenção é um processo que se desenvolve socialmente e que é moldado pelas interações com os outros" (Vygotsky, 1998). Isso implica que a capacidade de focar em determinados estímulos e ignorar outros é influenciada pelo contexto social e cultural, ressaltando a importância das interações sociais na formação das habilidades atencionais.
A imaginação, segundo Vygotsky, é uma ferramenta poderosa que permite ao indivíduo transcender a realidade imediata. Ele observa que "a imaginação é a capacidade de criar novas combinações de experiências e ideias, permitindo ao ser humano explorar possibilidades além do que é dado" (Vygotsky, 1998). Essa habilidade é crucial para a resolução de problemas e para a inovação, pois possibilita a visualização de cenários alternativos e a elaboração de soluções criativas. A criatividade é vista por Vygotsky como um produto da interação entre a imaginação e a experiência social. Ele afirma que "a criatividade não surge no vácuo, mas é alimentada pela cultura e pelas interações sociais" (Vygotsky, 1998). Isso sugere que a criatividade é uma habilidade que pode ser desenvolvida e aprimorada através da colaboração e do compartilhamento de ideias, reforçando a ideia de que o aprendizado é um processo social.
Em suma, Vygotsky nos oferece uma compreensão integrada da memória, atenção dirigida, imaginação e criatividade, mostrando que esses elementos são interdependentes e fundamentais para o desenvolvimento cognitivo. Através de suas interações sociais e culturais, os indivíduos não apenas constroem conhecimento, mas também desenvolvem a capacidade de pensar criticamente e criar novas realidades.
SENTIDO E SIGNIFICADO EM VYGOSTKY: Fundamentos para o Desenvolvimento Integral do Indivíduo
As origens do significado e do sentido são temas centrais na obra de Lev Vygotsky, um dos mais influentes teóricos do desenvolvimento humano e da psicologia educacional. Vygotsky (1998) argumenta que o significado não é uma propriedade intrínseca das palavras ou dos objetos, mas sim um produto das interações sociais e culturais. Ele afirma que "o significado é construído na prática social e é mediado pela linguagem, que serve como um instrumento fundamental para a formação do pensamento" (Vygotsky, 1998). Essa perspectiva destaca a importância do contexto social na construção do conhecimento, sugerindo que o aprendizado é um processo colaborativo que ocorre através da comunicação e da interação.
Vygostky (2018, p.19) destaca que:
[...] entre o sentido e a palavra há muito mais relações de independência que entre o significado e a palavra. As palavras podem dissociar-se do sentido nelas expresso, podem mudar de sentido, assim como os sentidos mudam as palavras. O sentido tanto pode estar separado da palavra que o exprime quanto pode ser facilmente fixado em outra palavra. O sentido se separa da palavra e se conserva. Ao perceber que o significado das palavras muda, que o sentido é móvel, mais amplo e mais rico que o significado, e que todo o comportamento humano é mediado por signos.
Vygotsky sugere que existe uma relação de maior independência entre o sentido e a palavra do que entre o significado e a palavra. Isso implica que o sentido pode existir independentemente da palavra que o expressa. Por exemplo, uma ideia ou emoção pode ser comunicada de várias maneiras, utilizando diferentes palavras, o que mostra que o sentido é mais fluido e adaptável. As palavras podem dissociar-se do sentido que expressam e que tanto as palavras quanto os sentidos podem mudar. Isso reflete a ideia de que a linguagem é um fenômeno dinâmico, onde o uso e a interpretação das palavras podem evoluir ao longo do tempo e em diferentes contextos. Assim, uma mesma palavra pode adquirir novos sentidos conforme a cultura, a experiência e o contexto social mudam.
Este autor, também defende que o sentido pode se separar da palavra que o exprime e ainda assim ser conservado. Isso sugere que o sentido é uma construção mental que pode ser transferida para outras palavras ou expressões. Por exemplo, uma ideia pode ser articulada de diferentes formas sem perder sua essência, o que demonstra a riqueza e a complexidade do significado. O sentido é uma construção mais complexa e multifacetada. O significado, por outro lado, tende a ser mais fixo e relacionado a definições específicas.
A distinção entre sentido e significado, conforme abordada por Vygotsky, é fundamental para entender a complexidade da linguagem e do pensamento humano. Vamos explorar essa diferença e a razão pela qual o sentido é considerado uma construção mais complexa e multifacetada em comparação ao significado.
Vygotsky (1998) descreve o significado como uma relação mais estável e fixa entre uma palavra e sua definição ou referência. O significado é frequentemente associado a definições específicas que podem ser encontradas em dicionários ou glossários. Ele é mais objetivo e tende a ser compartilhado de maneira uniforme entre os falantes de uma língua. Por exemplo, o significado da palavra "árvore" refere-se a uma planta perene, com um tronco lenhoso, ramos e folhas. O sentido de uma palavra pode mudar dependendo da situação em que é usada, das emoções que evoca e das associações que cada pessoa faz. Por exemplo, a palavra "árvore" pode ter diferentes sentidos para diferentes pessoas: para uma criança, pode evocar a ideia de brincar em um parque; para um artista, pode representar inspiração ou beleza natural. O sentido é moldado pelas interações sociais e pelo contexto cultural em que as pessoas estão inseridas. Vygotsky (2018) enfatiza que a linguagem é um produto da cultura e que o desenvolvimento do pensamento ocorre em um contexto social. Assim, o sentido é influenciado por normas, valores e experiências compartilhadas, tornando-o multifacetado.
Cada indivíduo traz suas próprias experiências e vivências para a interpretação de uma palavra. Isso significa que o sentido pode variar amplamente entre diferentes pessoas, mesmo que todos compartilhem o mesmo significado. Por exemplo, uma palavra como "liberdade" pode ter um sentido profundamente pessoal e emocional para alguém que tenha vivido em um regime opressivo, enquanto para outra pessoa pode ser uma abstração sem um forte impacto emocional.
O sentido é também uma construção que evolui ao longo do tempo. À medida que as sociedades mudam e as pessoas têm novas experiências, o sentido das palavras pode se transformar. Vygotsky (1998) argumenta que o desenvolvimento humano é um processo contínuo, e isso se reflete na linguagem, onde o sentido se adapta e se expande.
A compreensão dessa distinção tem implicações significativas para a educação e a comunicação. Ao ensinar, por exemplo, é importante não apenas transmitir o significado das palavras, mas também explorar os sentidos que elas podem ter em diferentes contextos e para diferentes indivíduos. Isso enriquece a experiência de aprendizado e promove uma compreensão mais profunda da linguagem e do pensamento.
Para Veronezi et al (2005), com base nas ideias de Vygosky (1998)
A questão do significado deve ser entendida tanto do ponto de vista semântico – componente indissociável da palavra, sem o qual esta seria um som vazio - quanto do ponto de vista psicológico - generalização ou conceito, fenômeno do pensamento. O caráter generalizante do significado das palavras é possível tendo-se como base as funções da linguagem que a articulam com o pensamento (funções comunicativa e representativa). Faz-se necessário entender que o significado da palavra transforma-se ao longo do desenvolvimento do sujeito, pois evolui, uma vez que incorpora novos sentidos e conotações. Além disso, deve-se considerar que as palavras adquirem seu sentido no contexto do discurso. Esta como instrumento do pensamento, age decisivamente na reestruturação das funções psicológicas, como ferramenta básica para a construção de conhecimento e para desenvolvimento das FPS, do mesmo modo que os instrumentos criados pelos homens modificam as formas humanas de vida.
A citação começa destacando que o significado deve ser entendido tanto do ponto de vista semântico, que se refere à relação entre palavras e seus significados, quanto do ponto de vista psicológico, que diz respeito à forma como essas palavras se tornam conceitos ou generalizações no pensamento. Isso sugere que as palavras não são meros sons ou símbolos vazios; elas carregam significados que são fundamentais para a comunicação e para a construção do conhecimento. O caráter generalizante do significado das palavras é possível devido às funções da linguagem, que se articulam com o pensamento. As funções comunicativa e representativa da linguagem são essenciais, pois permitem que as palavras não apenas transmitam informações, mas também representem ideias e conceitos complexos. À medida que o sujeito se desenvolve, as palavras incorporam novos sentidos e conotações. Isso reflete a ideia de que a linguagem e o pensamento estão em constante transformação, influenciados pelas experiências e pelo contexto social do indivíduo. Assim, o significado é moldado não apenas pela estrutura da linguagem, mas também pelas vivências e interações sociais. Outro ponto importante é que as palavras adquirem seu sentido no contexto do discurso. Isso significa que o significado de uma palavra pode variar dependendo da situação em que é utilizada, das intenções do falante e das interpretações do ouvinte. Essa flexibilidade é crucial para a comunicação eficaz e para a compreensão mútua.
Ligia Martins (2013) complementa essa visão ao afirmar que "o sentido é uma construção que emerge das experiências vividas e das relações estabelecidas entre os indivíduos e o mundo ao seu redor". Para Martins, a construção do sentido está intrinsecamente ligada à prática social e à cultura, enfatizando que o significado é dinâmico e evolui à medida que as pessoas interagem com seu ambiente. Essa ideia ressoa com a concepção vygotskiana de que o desenvolvimento humano é um processo social, onde a linguagem e a cultura desempenham papéis cruciais na formação do pensamento e na construção do significado.
Asbahr (2014) também aborda a questão das origens do significado, destacando que "a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um veículo de construção de significados que moldam a percepção do mundo". Essa afirmação reforça a ideia de que a linguagem é um instrumento fundamental na formação do pensamento e na construção do conhecimento. Vygotsky (1998) enfatiza que "a linguagem é a ferramenta mais poderosa que temos para organizar nossos pensamentos e para interagir com os outros", sugerindo que o desenvolvimento do significado está profundamente enraizado nas interações sociais mediadas pela linguagem.
Essa perspectiva destaca a importância da cultura na formação do significado, sugerindo que as experiências culturais moldam a maneira como os indivíduos percebem e interpretam o mundo. Vygotsky (2018) argumenta que "a cultura é o contexto no qual o desenvolvimento humano ocorre, e é através dela que os indivíduos aprendem a dar sentido às suas experiências". Essa visão ressalta a interdependência entre cultura, linguagem e desenvolvimento cognitivo.
A obra de Vygotsky, ao longo de suas diferentes publicações, reflete uma preocupação constante com a relação entre significado, sentido e desenvolvimento humano. Em seus escritos, ele explora como a linguagem e a interação social são fundamentais para a construção do conhecimento e para o desenvolvimento do pensamento. Vygotsky (2009) afirma que "o desenvolvimento do pensamento é um processo social que ocorre através da mediação da linguagem e das interações com os outros", enfatizando que o aprendizado não é um ato isolado, mas sim um fenômeno social que se dá em contextos específicos.
Em suma, as origens e desenvolvimento do significado e do sentido, conforme discutido por Vygotsky e complementado por autores como Ligia Martins, Asbahr e Barros, revelam a complexidade do desenvolvimento humano. O significado é construído através de interações sociais e mediado pela linguagem, enquanto o sentido emerge das experiências vividas e das relações estabelecidas com o mundo. Essa compreensão é fundamental para a educação e para a prática pedagógica, pois destaca a importância de criar ambientes de aprendizagem que promovam a interação social e a construção colaborativa do conhecimento. Assim, a obra de Vygotsky continua a ser uma referência essencial para aqueles que buscam entender as dinâmicas do aprendizado e do desenvolvimento humano em contextos sociais e culturais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo, buscou explicar a complexa inter-relação entre o social e o psicológico na constituição das funções psicológicas superiores, conforme delineado nas obras de Lev Vygotsky. Através de uma revisão de literatura abrangente, foi possível evidenciar que, para Vygotsky, essas funções não emergem isoladamente, mas são profundamente enraizadas nas interações sociais e culturais que permeiam a vida dos indivíduos.
As análises realizadas demonstraram que as funções psicológicas superiores, como a linguagem, o pensamento abstrato e a memória, são mediadas por instrumentos e signos que são socialmente construídos. Essa mediação, conforme destacado por Martins (2015), é fundamental para a formação do conhecimento e para a maneira como os indivíduos interpretam o mundo ao seu redor. Além disso, a perspectiva de Gisele Toassa (2020) sobre o desenvolvimento dessas funções como um processo dinâmico, situado em contextos históricos e culturais específicos, reforça a necessidade de considerar as particularidades do ambiente social na análise do desenvolvimento psicológico.
A ênfase de Leontiev (1978) na atividade humana como base da formação das funções psicológicas também se mostrou crucial. A atividade não apenas propicia a aprendizagem, mas também molda as capacidades cognitivas e emocionais dos indivíduos, evidenciando que o desenvolvimento psicológico é um fenômeno intrinsecamente ligado à prática social.
Diante dessas considerações, fica claro que a constituição das funções psicológicas superiores em Vygotsky é um processo complexo e multifacetado, que exige uma abordagem que considere o indivíduo em sua totalidade, inserido em um contexto social e cultural rico e diversificado. Essa compreensão tem implicações significativas para a educação, sugerindo que práticas pedagógicas devem ser orientadas para promover interações sociais significativas e o uso de instrumentos culturais que favoreçam o desenvolvimento das funções psicológicas superiores.
Desse modo, a teoria vygotskyana nos convida a repensar o papel das relações sociais e culturais no desenvolvimento humano, ressaltando que a aprendizagem e o desenvolvimento psicológico são processos coletivos e contextuais. Assim, o estudo das funções psicológicas superiores não apenas enriquece nosso entendimento sobre o ser humano, mas também nos desafia a criar ambientes educacionais que reconheçam e valorizem a dimensão social do aprendizado.
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1 Doutor em Educação Pela Universidade Federal do Piauí. Professor Adjunto I da Universidade Estadual do Piauí. E-mail: [email protected]