A BUSCA DA FELICIDADE NA OBRA VIDAS SECAS, DE GRACILIANO RAMOS: TERRÍTÓRIO SIMBÓLICO, IDENTIDADE E CULTURA

THE PORSUIT OF HAPPINESS IN GRACILIANO RAMOS, VIDAS SECAS: TERRITORY SYMBOLIC, IDENTITY AND CULTURE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781549504

RESUMO
O presente artigo analisa as representações da felicidade na obra Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, a partir das categorias de território simbólico, identidade cultural e cultura nordestina. O estudo articula contribuições teóricas da geografia cultural (Haesbaert), dos Estudos Culturais (Hall) e da filosofia da felicidade (Aristóteles, Epicuro, Comte-Sponville) para examinar como as personagens Fabiano, Sinhá Vitória e Baleia constroem seus modos específicos de buscar o bem-estar em condições de extrema precariedade no semiárido nordestino. A pesquisa adota metodologia qualitativa, de cunho bibliográfico e analítico, tomando Vidas Secas como fonte primária e articulando os recortes textuais com o referencial teórico interdisciplinar. Os resultados demonstram que a felicidade, no universo da obra, distancia-se de uma plenitude metafísica, mas como resistência, persistência e lampejos de bem-estar que as personagens constroem a despeito da desterritorialização compulsória, da identidade fragmentada e da exclusão socioeconômica estrutural. A análise revela, ainda, que o Sertão nordestino opera como território de contenção que sistematicamente nega às personagens as condições mínimas para o florescimento humano, enquanto o território simbólico da família e da esperança constitui o único espaço de dignidade acessível aos retirantes.
Palavras-chave: Vidas Secas; Graciliano Ramos; Felicidade; Identidade cultural; Território simbólico.

ABSTRACT
This article analyzes the representations of happiness in the work Vidas Secas (1938) by Graciliano Ramos, based on the categories of symbolic territory, cultural identity, and Northeastern culture. The study articulates theoretical contributions from cultural geography (Haesbaert), Cultural Studies (Hall), and the philosophy of happiness (Aristotle, Epicurus, Comte-Sponville) to examine how the characters Fabiano, Sinhá Vitória, and Baleia construct their specific ways of seeking well-being under conditions of extreme precariousness in the Northeastern semi-arid region. The research adopts a qualitative methodology of a bibliographic and analytical nature, taking Vidas Secas as the primary source and articulating the textual excerpts with the interdisciplinary theoretical framework. The results demonstrate that happiness, within the universe of the work, distances itself from a metaphysical plenitude, emerging instead as resistance, persistence, and flashes of well-being that the characters construct despite compulsory deterritorialization, fragmented identity, and structural socioeconomic exclusion. Furthermore, the analysis reveals that the Northeastern Sertão operates as a territory of containment that systematically denies the characters the minimum conditions for human flourishing, while the symbolic territory of family and hope constitutes the only space of dignity accessible to the migrants.
Keywords: Barren Lives; Graciliano Ramos; Happiness; Cultural identity; Symbolic territory.

1. INTRODUÇÃO

A obra Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, constitui um dos marcos mais expressivos da literatura brasileira do século XX. Publicada no auge do Modernismo, ela desvela a vida árida de uma família de retirantes nordestinos composta por Fabiano, vaqueiro resiliente; Sinhá Vitória, sua companheira sonhadora; os dois filhos sem nome — o Menino Mais Velho e o Menino Mais Novo — e a cachorra Baleia, paradoxalmente a mais humanizada entre todos. A narrativa, construída com um estilo parcimonioso que espelha a própria aridez do Sertão, coloca em cena uma família que migra ciclicamente pelo semiárido nordestino em razão da seca implacável e da exploração social.

A pergunta que orienta esta investigação pode ser formulada nos seguintes termos: como a felicidade é representada em Vidas Secas, em meio ao território simbólico do semiárido nordestino? Desdobrando essa questão central, busca-se compreender de que maneira cada personagem constrói e vivencia seu próprio modo de buscar o bem-estar, e em que medida o território simbólico e a identidade cultural interferem nas possibilidades de alcançar essa felicidade.

A pertinência da investigação fundamenta-se na articulação inovadora entre literatura, geografia cultural e filosofia. Conforme assinala Candido (2003, p. 204), Graciliano Ramos é "um dos poucos ficcionistas realmente grandes da nossa literatura", e em Vidas Secas encontra-se, segundo Lins (2000, p. 153), "tamanha beleza e tanta harmonia na construção verbal" que a tornam a obra mais importante do escritor. A análise das personagens pela lente específica da felicidade, em sua interseção com o território simbólico e a identidade cultural, constitui uma abordagem relativamente inexplorada que abre campo fértil de investigação.

Do ponto de vista social, a pesquisa justifica-se pela atemporalidade da denúncia construída por Graciliano Ramos. As personagens do romance funcionam como representações da sociedade nordestina, metáforas de uma máscara social anônima do sofrimento e da violência simbólica (Holanda, 1992). A felicidade, nesse contexto, não se apresenta como um estado de plenitude metafísica, mas como um desejo de dignidade básica: ter trabalho estável, moradia, alimentação, educação para os filhos. Essa busca mantém relação direta com a realidade brasileira contemporânea, demonstrando que Vidas Secas permanece como um documento artístico e crítico de inestimável valor.

A investigação ancora-se em um referencial teórico interdisciplinar que articula contribuições dos estudos literários, da história cultural, da geografia cultural, da sociologia e da filosofia. Haesbaert (2004; 2007) oferece o conceito de território e de multiterritorialidade, fundamental para compreender os deslocamentos físicos e simbólicos da família de Fabiano. Hall (2005) fornece as ferramentas analíticas para discutir a fragmentação e a fluidez da identidade cultural das personagens, enquanto Bauman (2013) contribui com o conceito de modernidade líquida, que ilumina a precariedade existencial dos retirantes. No campo filosófico, mobilizam-se Aristóteles (2014), Epicuro (1997) e, de modo especial, Comte- Sponville (2001) para compreender as diferentes dimensões da busca pela felicidade na obra.

Assim, a presente pesquisa tem como objetivo geral compreender as representações da felicidade buscada pelas personagens na obra Vidas Secas a partir de suas relações com o território, a cultura e a identidade. Para tanto, o estudo está estruturado de modo a afunilar as bases teóricas até o seu objeto de estudo. A seção seguinte apresenta a fundamentação teórica; a terceira seção detalha a metodologia empregada; a quarta seção expõe os resultados e discussões focados na análise de cada personagem; e, por fim, apresentam-se as considerações finais que respondem à problemática central.

2. TERRITÓRIO, IDENTIDADE E FELICIDADE EM VIDAS SECAS

2.1. Território Simbólico e Identidade

O Sertão nordestino não é apenas o cenário central de Vidas Secas, mas um protagonista que molda a existência de todas as personagens. Graciliano Ramos apresenta-o como um espaço hostil, caracterizado pela seca e por chuvas escassas, um ambiente de aridez que permeia tanto a vida quanto a linguagem da narrativa. Para compreender o papel do Sertão, parte-se do conceito de território desenvolvido por Haesbaert (2004). Para o autor, o território não se limita a uma dimensão física; trata-se de um campo de manifestação de processos concretos de dominação e de apropriação imaterial, que envolve a produção de identidade, subjetividade e simbolismo.

Para compreender o papel que o Sertão desempenha na obra, é necessário partir do conceito de território desenvolvido por Rogério Haesbaert. Para o autor, o território não se limita a uma dimensão física do espaço; trata-se, antes, de um campo de manifestação de processos concretos de dominação e de apropriação imaterial, que envolve a produção de identidade, subjetividade e simbolismo. O território é profundamente multidimensional, englobando aspectos políticos, econômicos e culturais (Haesbaert, 2004). Em suas palavras, o território é sempre relacional, ligado ao movimento e às conexões, e engloba as dimensões biológica/natural, política, cultural-simbólica e econômica (Haesbaert, 2007).

O Sertão retratado corresponde a um território de contenção. A noção de multiterritorialidade (Haesbaert, 2004) é central para entender a condição dos retirantes. No caso da família de Fabiano, essa multiterritorialidade não representa liberdade voluntária, mas uma transiterritorialidade compulsória imposta pela seca e pela exploração. Eles habitam um espaço ambivalente de identidade: são estigmatizados e excluídos pelo sistema dominante, mas resistem à dissolução identitária.

A linguagem torna-se tão estéril quanto o solo castigado. Fabiano, muitas vezes, percebe-se como animal. Essa inversão simbólica é uma denúncia da fragmentação da identidade humana promovida pelo território de precariedade (Holanda, 1992). Conforme Hall (2005, p. 13), "a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia". As personagens habitam identidades em crise não por escolha, mas por imposição, o que afeta diretamente sua busca pelo bem-estar.

Enquanto o território físico lhes é negado, os retirantes habitam um território simbólico construído de sonhos, esperanças e memórias (Haesbaert, 2007). Os sonhos de Fabiano e a cama de couro de Sinhá Vitória constroem um território simbólico da esperança que resiste à crueza material. Esse território imaterial funciona frequentemente como o único espaço de dignidade acessível — mesmo que a felicidade seja elusiva.

2.2. Perspectivas Filosóficas e Culturais da Felicidade

De Aristóteles a Bauman, passando por Epicuro e Comte-Sponville, as definições de felicidade espelham as transformações das condições materiais. Aristóteles (2014) defende a eudaimonia (felicidade/florescimento) como atividade da alma em consonância com a virtude, exigindo bens exteriores indispensáveis — estabilidade e recursos — dos quais a família de Fabiano carece.

Epicuro (1997) propõe a ataraxia, alcançada pela ausência de dor e pela satisfação das necessidades básicas. Essa perspectiva ressoa profundamente: quando a família encontra um pouso e come, aproxima-se da ataraxia epicurista, que logo se desfaz com a volta da seca. Comte-Sponville (2001) oferece a contribuição de que a felicidade não reside em desejar o que falta, mas em aprender a desejar o que já se tem. A tensão com a obra é reveladora: Fabiano não pode "desejar o que tem", pois o que tem é a fome. O ideal filosófico pressupõe um patamar mínimo de satisfação.

Entretanto, a distinção feita por Comte-Sponville (2001) entre alegria (aumento de potência) e felicidade (estado duradouro) ilumina a obra. As personagens experimentam "alegrias", lampejos de potência no meio da aridez. Além disso, Russell (2017) argumenta que a felicidade é uma conquista que exige coragem, qualidade inerente a Fabiano em sua marcha teimosa. Assim, a felicidade em Vidas Secas emerge não como plenitude, mas como teimosia vital e resistência diante da modernidade líquida e excludente teorizada por Bauman (2013).

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, de cunho bibliográfico e analítico. Segundo Minayo (2002, p. 16), a metodologia é "o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade". O foco qualitativo foi escolhido por permitir o aprofundamento na dimensão subjetiva e simbólica dos dados literários, indispensável para a análise de conceitos abstratos como identidade e felicidade.

O corpus (universo da pesquisa) é constituído pela obra literária Vidas Secas, de Graciliano Ramos, adotada como fonte primária. A amostragem foi intencional, focando especificamente nas cinco figuras centrais da narrativa: Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Mais Velho, o Menino Mais Novo e a cachorra Baleia, por serem eles os vetores de construção identitária do texto.

Os procedimentos e instrumentos de coleta de dados envolveram a leitura temática e fichamentos estruturados da obra, buscando recortes textuais (falas, pensamentos, descrições do narrador) em que os afetos, os desejos e as noções de espaço/pertencimento das personagens se manifestassem.

A tabulação e análise dos dados ocorreram por meio do cruzamento dos trechos literários selecionados com o arcabouço teórico. Os recortes não foram feitos a priori, mas pela regularidade com que os efeitos de sentido de felicidade, opressão e resistência surgiram na escritura. A análise interpretativa foi realizada confrontando o comportamento de cada personagem com os conceitos de território (Haesbaert), identidade cultural (Hall) e as vertentes filosóficas de felicidade (Aristóteles, Epicuro e Comte-Sponville), de modo a gerar os resultados discutidos a seguir.

4. A FELICIDADE ATRAVÉS DAS PERSONAENS EM VIDAS SECAS

A análise das personagens de Vidas Secas constitui o núcleo desta pesquisa. Examina- se como cada figura manifesta, a seu modo, a busca pela felicidade em condições de extrema precariedade, articulando-se a teoria cultural com os conceitos filosóficos, sobretudo a visão de Comte-Sponville (2001) e a eudaimonia aristotélica.

4.1. A Busca da Felicidade em Fabiano

Fabiano é a personagem central e Vidas Secas, e sua busca pela felicidade é, ao mesmo tempo, a mais explicitamente articulada e a mais sistematicamente frustrada da obra. Vaqueiro rude, de expressão verbal limitada, Fabiano compensa com ações o que lhe falta em palavras: sua vida é um encadeamento de esforços para garantir a sobrevivência da família, de resistências silenciosas à opressão e de sonhos intermitentes de uma vida melhor. Sua felicidade, quando se manifesta, é sempre concreta, ligada ao mundo material: ter trabalho estável, uma moradia segura, comida na mesa, roupa para vestir, escola para os filhos.

O projeto de felicidade de Fabiano está, desde o início da obra, em tensão com as condições objetivas de sua existência. Ele sonha com uma casa e uma escola para os filhos. Essa aspiração, aparentemente modesta, é radicalmente utópica para Fabiano: o sistema que o explora não foi construído para oferecer-lhe nenhuma dessas coisas. O patrão o engana nos cálculos das contas, o soldado amarelo o humilha sem razão, o Estado simplesmente não existe para ele. Nesse quadro, o desejo de felicidade se confunde com o desejo de um patamar mínimo de dignidade — o que, nos termos de Aristóteles, seria simplesmente o acesso aos bens exteriores necessários para a atividade virtuosa.

O episódio da festa é o momento de maior densidade na representação da felicidade de Fabiano. A família toda se veste com roupas novas — paletó de brim para ele Fabiano, gravata, botina de vaqueta, chapéu de beata para Sinhá, vestido vermelho de ramagem, sapatos de salto — e vai à festa como uma família comum. Nesse momento, Fabiano ocupa o território simbólico da dignidade social: ele é, por algumas horas, igual aos outros, visível, reconhecível como membro de uma comunidade. Esse é o instante de felicidade mais pleno que a obra registra para Fabiano, e é precisamente o momento em que ele mais se aproxima do ideal filosófico: um ser social, reconhecido, participante da vida coletiva.

4.2. A Busca da Felicidade em Sinhá Vitória

Se Fabiano manifesta sua busca pela felicidade sobretudo pelo trabalho e pela proteção silenciosa da família, Sinhá Vitória a expressa de forma mais articulada e deliberada. Mulher de Fabiano, mãe dos meninos sem nome, companheira incansável nas caminhadas e nas lutas cotidianas, ela é ao mesmo tempo a força motivadora da família e a portadora de seus sonhos mais concretos. Sua busca pela felicidade é mais articulada do que a de Fabiano: ela sabe o que quer, nomeia seus desejos com precisão, e não cessa de lutar por eles. Sua felicidade está fundada em uma visão muito clara do que seria uma vida digna: uma cama de couro, roupas adequadas, uma casa estável, a segurança de não ter que fugir da seca.

A cama de couro é o símbolo mais poderoso da felicidade de Sinhá Vitória. Ela a menciona repetidamente ao longo da narrativa, com uma intensidade que transcende o objeto em si: a cama representa dignidade, permanência, o direito de ter um lar. Para Sinhá Vitória, que sempre dormiu em camas de vara — duras, frias —, ter uma cama de couro seria a materialização de sua aspiração por uma vida menos precária. 'A cama de Sinhá Vitória surge como uma aspiração bem próxima e bem concreta, um símbolo de conforto e dignidade que se transforma em um desejo quase obsessivo, representando a possibilidade de um mínimo de bem-estar'.

À luz de André Comte-Sponville, Sinhá Vitória apresenta uma relação com a felicidade ligeiramente diferente da de Fabiano. Ela deseja o que lhe falta, como Fabiano, mas seus desejos são mais concretos e mais próximos da realidade — uma cama, roupas, uma casa. Há, nessa concretude, uma aproximação maior ao ideal de Comte-Sponville: ao desejar o que é alcançável (mesmo que não alcançado), Sinhá Vitória manifesta uma capacidade de ancorar a felicidade no mundo real, de não a projetar em um futuro impossível. Quando a família encontra um pouco de abundância, é Sinhá Vitória quem primeiro percebe e aproveita esse momento de 'quase felicidade'.

O papel de Sinhá Vitória como força motivadora é essencial para compreender a dinâmica da família. É ela quem mantém a esperança viva nos momentos de maior desespero, quem insiste em continuar marchando, quem convence Fabiano de que a vida pode ser melhor. Sua felicidade não é apenas pessoal: ela é o motor da felicidade familiar. Nesse sentido, Sinhá Vitória incorpora uma dimensão da felicidade aristotélica — a felicidade como atividade, como projeto, como ação orientada para o bem. Ela não espera passivamente que a felicidade chegue: ela a constrói, tijolo por tijolo, sonho por sonho.

Na festa, Sinhá Vitória manifesta sua busca pela felicidade de forma especialmente intensa. Vestida com o vestido vermelho de ramagem e os sapatos de salto — mesmo não sabendo usar, Sinhá tinha que se equilibrar nos sapatos para se tornar igual às moças das ruas, fazendo pose para mostrar que era digna tanto quanto os outros — ela reivindica visivelmente seu direito ao território simbólico da dignidade social. Esse ato de se vestir, de ocupar espaço no espaço público, de se fazer visível e reconhecível, é um ato de afirmação identitária e de busca ativa pela felicidade.

A relação de Sinhá Vitória com Fabiano é também uma dimensão central de sua felicidade. O amor entre os dois, expresso não em palavras, mas em gestos, na cumplicidade das decisões compartilhadas, na solidariedade diante das adversidades, é uma fonte de felicidade que a obra registra com delicadeza. Quando Fabiano bebe na festa e Sinhá Vitória se preocupa com ele, quando ela o incentiva a continuar marchando, quando ambos planejam juntos um futuro melhor, estamos diante de uma forma de felicidade relacional — a felicidade do amor compartilhado nas condições mais adversas. Sinhá Vitória é, em suma, uma personagem que vive a felicidade como projeto e como conquista diária.

4.3. A Felicidade no Menino Mais Velho

A representação da felicidade no Menino Mais Velho ancora-se na descoberta e na curiosidade pelo território simbólico da linguagem. Privado da educação formal, o menino encontra um fragmento de felicidade na palavra "inferno". Sua inquietação para compreender o significado da palavra reflete o desejo intrínseco humano pelo saber.

Sua fome de linguagem ilustra uma resistência contra a alienação imposta pelo Sertão. Ele tenta acessar o capital cultural (Bourdieu; Passeron, 1982) que foi historicamente negado aos seus pais. A sua busca pelo significado atua como uma tentativa de sair do silêncio de Fabiano. Para ele, a felicidade revela-se como o desvelamento do mundo através da imaginação e da compreensão, uma busca epistêmica por pertencimento.

4.4. A Felicidade no Menino Mais Novo

O Menino Mais Novo estrutura sua identidade e busca de bem-estar na admiração pela figura paterna. Seu referencial de sucesso e de pertencimento no mundo é Fabiano, o vaqueiro. A sua felicidade é relacional e imitativa; ele tenta domar bodes e agir como o pai, buscando aprovação.

Essa dinâmica revela o processo de territorialização existencial familiar, mas também expõe a circularidade trágica da obra. Ao desejar ser exatamente como o pai em um sistema fechado, o menino reproduz a identidade do sujeito subalterno e colonizado. A felicidade para ele, no curto prazo, é o amparo e a aprovação familiar, o único espaço (o único território simbólico) onde ele possui algum valor, em contraste com o exterior que lhe nega até mesmo um nome próprio.

4.5. O Conceito de Felicidade em Baleia

Se Sinhá Vitória busca a felicidade por meio de projetos concretos e da resistência cotidiana, Baleia a encarna de forma paradoxalmente mais plena. A cachorra da família de Fabiano é a personagem que, no universo da obra, mais se aproxima da felicidade possível — justamente por estar à margem do sistema que desumaniza os humanos. Enquanto as personagens humanas são progressivamente desumanizadas pelo território de precariedade, Baleia é humanizada: ela possui vida interior, sentimentos, sonhos. Essa inversão, que é um dos recursos mais ousados da narrativa de Graciliano Ramos, serve a um propósito crítico profundo: ao mostrar que o animal é mais capaz de usufruir de momentos de felicidade pura do que os humanos, a obra denuncia a desumanização radical que a exploração e a seca impõem às personagens humanas.

Os sonhos de Baleia, narrados com uma ternura que contrasta com a dureza que caracteriza o resto da obra, são os momentos de maior proximidade com a felicidade plenamente realizada que Vidas Secas nos oferece. Baleia sonha com ossos, com caça, com a tranquilidade de um dia sem ameaças. Esses sonhos são modestos, proporcionais ao que ela poderia efetivamente ter, e é precisamente essa modéstia que os torna possíveis — ao contrário dos sonhos das personagens humanas, que são sistemática e estruturalmente impossibilitados pelo sistema. Baleia deseja o que poderia ter: isso a torna, nos termos de Comte-Sponville, o ser mais próximo da felicidade no universo da obra.

À luz do pensamento de André Comte-Sponville, Baleia é a personagem de Vidas Secas que melhor encarna o ideal filosófico: ela deseja o que tem (ou o que poderia ter), vive no presente, não projeta sua felicidade para um futuro impossível. Sua relação com os meninos, sua satisfação com os pequenos prazeres do cotidiano, sua ausência de rancor ou de ambição excessiva — tudo isso a define como um ser capaz de uma forma de felicidade que as personagens humanas perderam. Isso não é um elogio à condição animal: é uma denúncia da desumanização que o sistema impõe aos humanos, tornando-os menos capazes de felicidade do que o animal que deveriam ter domado.

A perspectiva epicurista ilumina especialmente bem a situação de Baleia. Epicuro propunha que a felicidade reside na satisfação das necessidades básicas e na ausência de dor. Baleia, quando alimentada, quando próxima dos meninos, quando em seu ambiente natural, vive em um estado que se aproxima da ataraxia: a ausência de necessidade imediata, a satisfação das carências básicas, produz nela um bem-estar que é descrito com precisão psicológica pelo narrador. Seus sonhos são a projeção dessa ataraxia para um futuro que, na lógica de Baleia, é continuação do presente — não ruptura, não transformação radical, mas a manutenção do que é bom.

A morte de Baleia é o momento mais perturbador da obra, e também o mais revelador sobre a questão da felicidade. Fabiano é obrigado a matar a cachorra, que está doente, para proteger a família. Nesse ato, ele elimina a única personagem da obra que havia alcançado uma forma de felicidade pura e relativamente estável. Nos últimos momentos de Baleia, o narrador descreve com intensidade incomum: ela sonha com os meninos e com a caça. A morte de Baleia é a morte da felicidade possível: com ela, a obra elimina o único ser que conseguia, ainda que de forma fugaz, habitar o presente sem projetar toda a felicidade para um futuro impossível.

A humanização de Baleia e a animalização de Fabiano e dos meninos constituem, juntas, o comentário mais radical de Graciliano Ramos sobre as condições da felicidade. A inversão revela que a felicidade, em Vidas Secas, é inversamente proporcional ao grau de inserção no sistema social de exploração. Quanto mais o sujeito é oprimido pelo sistema — quanto mais é explorado, desumanizado, invisibilizado —, menos capaz ele se torna de desfrutar de momentos de felicidade. Baleia, por estar à margem do sistema de exploração, pode existir de uma forma mais plena, mais presente, mais feliz. Nos termos de Stuart Hall, Baleia encarna uma identidade que o sistema não consegue fragmentar completamente, o que a torna o ser de maior possibilidade de bem-estar em todo o romance.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa responde à problemática central demonstrando que a felicidade, no universo de Vidas Secas, é representada não como uma abstração metafísica inatingível, mas como o exercício teimoso da resistência, manifestado em pequenos desejos de dignidade, na sobrevivência familiar e na ocupação de territórios simbólicos. Constata-se que o Sertão atua como um território de contenção que precariza a vida, forçando os personagens a uma transiterritorialidade que fratura a identidade e torna as condições ideais de bem-estar estrutural- mente inviáveis.

Os objetivos fixados na introdução são plenamente atingidos, visto que a análise con-firma como a identidade e a cultura operam de modo indissociável na narrativa. Fabiano en-contra bem-estar no corpo que resiste; Sinhá Vitória ancora seus desejos na estabilidade de um lar (a cama de couro); os meninos buscam a linguagem e o espelhamento identitário; e Baleia, isenta da exclusão capitalista humana, atinge as alegrias momentâneas do presente. Confirma-se a suposição de que as teorias filosóficas clássicas requerem adequações ao se depararem com a extrema carência, onde a busca pelo mínimo vital já é, em si, o auge da afirmação de humanidade.

As limitações deste estudo circunscrevem-se ao recorte puramente textual da obra e à lente metodológica focada unicamente nos protagonistas centrais. Por tratar-se de uma análise de representações em um corpus literário específico, a generalização sociológica direta dos resultados encontra fronteiras, refletindo as condições de um determinado tempo e lugar histó- rico da ficção de Graciliano Ramos.

Sugere-se, para investigações futuras, a aplicação dessa mesma matriz teórica que re-laciona geografia cultural e filosofias da felicidade a outras obras do romance regionalista de 1930, de forma a mapear o estado da arte do imaginário nordestino em perspectiva compara-da. Estudos posteriores podem ainda investigar o fenômeno da resiliência dos retirantes sob o prisma da psicologia ambiental ou da antropologia da escassez, aprofundando o impacto da modernidade nas populações subalternas do país.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; São Paulo: Cortez, 2011.

ARAUJO, Gabriela. A cultura de resistência em Vidas Secas de Graciliano Ramos. In: Gelne, 2014. Disponível em: https://gelne.com.br/arquivos/anais/gelne-2014/anexos/476.pdf. Acesso em: 18 jun. 2025.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2014.

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas: a modernidade e seus párias. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

BENEDICT, Ruth. Padrões de Cultura. Petrópolis-RJ: Vozes, 2013. BONNEMAISON, J.; CAMBREZY, L. Le lien territorial: entre frontières et identités. Géographies et cultures (le territoire), n. 20, Paris: L'Harmattan, 1996.

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

BULHÕES, Marcelo Guimarães. Literatura em campo minado: a metalinguagem em Graciliano Ramos e a tradição literária brasileira. São Paulo: Annablume/FAPESP, 1999.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. 3. ed. São Paulo: Editora Ática, 2003.

CASTANHEIRAS, Marques. Ética e felicidade em Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2017.

CESAR FILHO, Júlio. Intermitências da esperança em Vidas Secas. Disponível em: https://periodicos.ufcat.edu.br/index.php/emblemas/article/view/35718. Acesso em: 18 jun. 2025.

COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil, volume 5, era modernista. 6. ed. São Paulo: Global, 2001.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1991.

DÓRIA, Carlos Alberto. Graciliano Ramos e o paradigma do papagaio. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros - IEB, São Paulo, n. 35, p. 19-34, 1993.

EPICURO, Samos. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: UNESP, 1997.

GODELIER, M. L'idéel et le materiel. Paris: Fayard, 1984.

HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2004.

HOLANDA, Lourival. Sob o signo do silêncio: Vidas Secas e o Estrangeiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.

HAESBAERT, Rogério. Território e multiterritorialidade: um debate. GEOgraphia, Rio de Janeiro, v. 9, n. 17, 2007.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2013. HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Organização Liv

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

LINS, Álvaro. Valores e misérias das Vidas Secas. In: RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 80. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 127-155.

MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004. MONDIN, Battista. O homem: quem é ele? São Paulo: Paulinas, 1981.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

PLATÃO. A República. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 80. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000. RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. 21. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

RUSSELL, Bertrand. A conquista da felicidade. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 2017.

SILVA, Cristiano Cezar Gomes da. Espelhos da história na escritura de Graciliano Ramos: os múltiplos sentidos do discurso na cena político-literária. 2011. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011.

Sovik. Tradução Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2005.


1 Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura, da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). Arapiraca, Alagoas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orientadora: Prof. Drª.

2 Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura, da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). Arapiraca, Alagoas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura, da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). Arapiraca, Alagoas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.