A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR NA PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS NO CONTEXTO EDUCACIONAL

THE ROLE OF THE SCHOOL PSYCHOLOGIST IN PROMOTING CHILDREN'S MENTAL HEALTH IN THE EDUCATIONAL CONTEXT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792381915

RESUMO
A saúde mental na infância está relacionada ao desenvolvimento emocional, social e relacional da criança, sendo influenciada pelas experiências vivenciadas nos diferentes contextos em que ela está inserida, incluindo o ambiente educacional. Considerando a importância da escola para a aprendizagem, a convivência, a construção de vínculos e o desenvolvimento infantil, torna-se relevante compreender como a Psicologia Escolar pode contribuir para a promoção da saúde mental nesse espaço. O presente estudo aborda a atuação do psicólogo escolar na promoção da saúde mental de crianças no contexto educacional e tem como objetivo analisar essa atuação, considerando suas possibilidades de contribuição para o desenvolvimento e o cuidado em saúde mental. Para alcançá-lo, buscou-se compreender a importância da promoção da saúde mental durante a infância, identificar possibilidades de atuação voltadas à promoção e à prevenção no ambiente educacional, discutir a contribuição da Psicologia Escolar para as relações entre criança, família e escola e analisar os desafios e as possibilidades relacionados à atuação do psicólogo escolar no contexto educacional. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, fundamentada na análise de produções científicas e documentos relacionados à saúde mental infantil e à Psicologia Escolar. Os resultados demonstraram que a atuação do psicólogo escolar pode envolver ações de promoção e prevenção, escuta, orientação e fortalecimento de vínculos, além da articulação entre criança, família, escola, profissionais e serviços. Com base na análise realizada, concluiu-se que uma atuação contextualizada, preventiva e articulada pode contribuir para a promoção da saúde mental infantil no contexto educacional brasileiro.
Palavras-chave: criança; educação; psicologia escolar; saúde mental; promoção da saúde.

ABSTRACT
Mental health in childhood is related to children’s emotional, social, and relational development and is influenced by their experiences in the different contexts in which they are inserted, including the educational environment. Considering the importance of school for learning, social interaction, the development of bonds, and child development, it is relevant to understand how School Psychology can contribute to promoting mental health in this setting. This study addresses the role of school psychologists in promoting children’s mental health in the educational context and aims to analyze this role, considering its possibilities for contributing to development and mental health care. To achieve this objective, the study sought to understand the importance of mental health promotion during childhood, identify possibilities for promotion and prevention in the educational environment, discuss the contribution of School Psychology to relationships among children, families, and schools, and analyze challenges and possibilities related to school psychologists’ practice in the educational context. A bibliographic study was conducted using a qualitative and descriptive approach, based on the analysis of scientific publications and documents related to children’s mental health and School Psychology. The results demonstrated that school psychologists’ work may involve promotion and prevention actions, listening, guidance, and strengthening of bonds, as well as articulation among children, families, schools, professionals, and services. Based on the analysis, it was concluded that contextualized, preventive, and collaborative practice can contribute to promoting children’s mental health in the educational context. The analysis highlighted the importance of considering children’s contexts and strengthening dialogue among those involved.
Keywords: child; education; mental health; mental health promotion; school psychology.

1. INTRODUÇÃO

A infância constitui uma etapa fundamental do desenvolvimento humano, marcada por transformações nos aspectos cognitivos, emocionais, sociais e relacionais. Nesse período, a criança estabelece vínculos, desenvolve recursos para lidar com diferentes situações e constrói elementos importantes para sua constituição subjetiva. Esses processos ocorrem em interação com os contextos sociais nos quais está inserida, entre os quais se destaca a escola. Além de possibilitar a aprendizagem formal, o ambiente educacional constitui espaço de convivência, construção de vínculos e desenvolvimento, apresentando relevância para a promoção da saúde mental infantil.

A saúde mental na infância não deve ser compreendida apenas pela ausência de transtornos ou sofrimento psicológico, mas também pelas condições que favorecem o desenvolvimento emocional, social e relacional da criança. Nessa perspectiva, Faria e Rodrigues (2020) ressaltam a importância de ações de promoção e prevenção em saúde mental na infância, considerando os contextos nos quais a criança se desenvolve. A escola, por acompanhar parte significativa da trajetória infantil, apresenta-se como espaço relevante para a identificação de demandas e para o desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde mental. Cid et al. (2019), ao investigarem as percepções de profissionais de uma escola sobre a saúde mental infantil, evidenciaram a presença de situações de sofrimento psíquico no cotidiano escolar e a importância de ações articuladas entre diferentes atores e serviços.

Diante desse cenário, o presente estudo delimita-se à atuação do psicólogo escolar na promoção da saúde mental de crianças no contexto educacional, considerando possibilidades de atuação que ultrapassem práticas exclusivamente individualizantes. Nesse sentido, o psicólogo escolar pode desenvolver ações preventivas e educativas, espaços de escuta, mediação de relações e articulação entre crianças, família, professores e demais profissionais. Essa compreensão está alinhada às Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica, que orientam uma prática comprometida com a realidade educacional e com os processos institucionais, sociais e relacionais que constituem a escola (Conselho Federal de Psicologia, 2019).

A relevância da temática está relacionada à necessidade de ampliar a discussão sobre a saúde mental infantil no ambiente educacional, evitando que dificuldades apresentadas pelas crianças sejam compreendidas exclusivamente como problemas individuais. No Brasil, a Lei nº 13.935/2019 estabelece a prestação de serviços de Psicologia e Serviço Social nas redes públicas de educação básica, por meio de equipes multiprofissionais, considerando a participação da comunidade escolar e a mediação das relações sociais e institucionais (BRASIL, 2019). Assim, discutir a atuação do psicólogo escolar possibilita refletir sobre práticas de promoção e prevenção em saúde mental articuladas às necessidades da comunidade escolar.

Diante disso, estabelece-se como problema de pesquisa a necessidade de compreender de que maneira a atuação do psicólogo escolar pode contribuir para a promoção da saúde mental de crianças no contexto educacional. A questão norteadora é: Como a atuação do psicólogo escolar pode contribuir para a promoção da saúde mental de crianças no contexto educacional? O objetivo geral consiste em analisar a atuação do psicólogo escolar na promoção da saúde mental de crianças no contexto educacional. Como objetivos específicos, pretende-se: compreender a importância da promoção da saúde mental durante a infância; identificar possibilidades de atuação do psicólogo escolar voltadas à promoção e à prevenção em saúde mental no ambiente educacional; discutir a contribuição da Psicologia Escolar para as relações entre criança, família e escola; e analisar os desafios e as possibilidades relacionados à atuação desse profissional no contexto educacional.

Para alcançar os objetivos propostos, será realizada uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, fundamentada na análise de produções científicas e documentos relacionados à saúde mental infantil, à Psicologia Escolar e à atuação profissional no contexto educacional. A escolha dessa abordagem possibilitará reunir e interpretar contribuições teóricas sobre o fenômeno investigado. Como limitação, destaca-se que a pesquisa bibliográfica não permite observar diretamente a atuação de psicólogos em instituições específicas nem produzir dados empíricos próprios, além das diferenças entre os estudos quanto aos contextos, participantes e perspectivas teóricas.

Como proposição inicial, considera-se que o psicólogo escolar pode contribuir para a promoção da saúde mental infantil por meio de uma atuação preventiva, contextualizada e articulada com a comunidade escolar. Parte-se da compreensão de que práticas exclusivamente centradas na identificação de dificuldades individuais não contemplam toda a complexidade das experiências infantis, sendo necessárias ações de escuta, prevenção, orientação, fortalecimento de vínculos e articulação entre escola, família e demais serviços.

Por fim, o artigo está organizado em três momentos principais. Inicialmente, será discutida a relação entre saúde mental, infância e contexto educacional. Em seguida, será abordada a atuação do psicólogo escolar e suas possibilidades de intervenção na promoção da saúde mental infantil. Posteriormente, serão analisados os desafios e as possibilidades dessa atuação, seguidos das considerações finais, nas quais serão retomados os principais aspectos discutidos em relação aos objetivos do estudo.

2. SAÚDE MENTAL INFANTIL E A ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA ESCOLAR

2.1. Saúde Mental na Infância e o Contexto Educacional

A compreensão da saúde mental durante a infância exige considerar que o desenvolvimento infantil ocorre em interação com diferentes contextos e experiências. Aspectos emocionais, sociais, cognitivos e relacionais são construídos ao longo desse período e sofrem influência das relações estabelecidas pela criança nos espaços em que participa. Por essa razão, discutir saúde mental infantil envolve não apenas situações de sofrimento, mas também as condições que favorecem o desenvolvimento e o bem-estar.

Faria e Rodrigues (2020) destacam a importância de compreender a promoção e a prevenção em saúde mental infantil de maneira contextualizada. Nessa perspectiva, as ações de cuidado não precisam ocorrer somente diante de dificuldades já instaladas, podendo também contemplar estratégias destinadas a favorecer condições mais adequadas ao desenvolvimento. A promoção e a prevenção, portanto, ampliam a possibilidade de atuação para os diferentes ambientes frequentados pela criança.

Entre esses ambientes, a escola ocupa lugar relevante por fazer parte da rotina infantil e por possibilitar experiências de aprendizagem, convivência e estabelecimento de vínculos. Dessa forma, o contexto educacional pode constituir um espaço importante para ações relacionadas à saúde mental, especialmente quando as necessidades das crianças são compreendidas considerando as relações e as condições presentes na própria instituição.

Cid et al. (2019), ao investigarem as percepções de profissionais de uma escola sobre a saúde mental infantil, identificaram manifestações presentes no cotidiano escolar, como agressividade, agitação, isolamento, dificuldades de atenção e problemas relacionados ao cumprimento de acordos. Esses achados permitem observar que situações relacionadas à saúde mental podem aparecer de diferentes maneiras no cotidiano escolar. Entretanto, sua compreensão não deve se limitar às características individuais da criança, uma vez que aspectos familiares, escolares e socioculturais também podem participar dessas experiências.

Essa perspectiva se aproxima das contribuições de Correia, Lima e Araújo (2001), que discutem a atuação da Psicologia no contexto escolar considerando a relação entre aspectos psicológicos, aprendizagem e desenvolvimento. Os autores contribuem para uma compreensão na qual os fenômenos educacionais não são explicados somente pelas características individuais dos estudantes, sendo necessário considerar a realidade em que estão inseridos.

Assim, uma dificuldade apresentada por uma criança no ambiente escolar não deve ser automaticamente interpretada como um problema exclusivamente individual. A análise precisa considerar as circunstâncias nas quais determinada manifestação ocorre, as relações estabelecidas e as características do contexto educacional. Essa compreensão é especialmente importante para a saúde mental infantil, pois permite deslocar a atenção de uma perspectiva centrada somente no comportamento para uma análise mais ampla da experiência da criança.

A escola, portanto, não deve ser compreendida apenas como um espaço de identificação de possíveis dificuldades. Também pode constituir um ambiente de promoção e prevenção, no qual sejam desenvolvidas ações voltadas à convivência, ao fortalecimento de vínculos e à construção de relações favoráveis ao desenvolvimento. Vieira et al. (2025), embora abordem especificamente a atuação da orientação educacional, contribuem para essa discussão ao tratar da promoção da saúde mental no espaço escolar e da importância de ações articuladas no cotidiano educacional.

A partir dessas contribuições, compreende-se que a saúde mental infantil no contexto educacional está relacionada tanto às características do desenvolvimento da criança quanto às experiências e relações que fazem parte de sua vida escolar. Portanto, promover saúde mental nesse espaço exige considerar a criança em seu contexto, evitando explicações exclusivamente individualizantes e ampliando as possibilidades de prevenção.

Dessa forma, compreender a relação entre infância, saúde mental e escola constitui o ponto de partida para discutir a atuação da Psicologia nesse campo. Se as demandas infantis são atravessadas por diferentes relações e contextos, a atuação do psicólogo escolar também precisa considerar essa complexidade, o que conduz à discussão sobre suas possibilidades de promoção, prevenção e articulação com a comunidade escolar

2.2. A Atuação do Psicólogo Escolar na Promoção e Prevenção da Saúde Mental e nas Relações Entre Criança, Família e Escola

A compreensão contextualizada da saúde mental infantil amplia a discussão sobre o papel do psicólogo no ambiente educacional. Se as dificuldades apresentadas pelas crianças não podem ser compreendidas isoladamente, a atuação profissional também não deve se restringir à identificação ou ao atendimento individual de estudantes. Nesse sentido, o trabalho da Psicologia Escolar envolve a compreensão das demandas presentes na instituição e das relações que participam da construção dessas experiências.

Pereira-Silva et al. (2017) identificam diferentes concepções de professores e gestores acerca do papel do psicólogo escolar. Essa diversidade de expectativas demonstra que a inserção desse profissional na escola envolve também a construção de uma compreensão compartilhada sobre suas funções. Assim, sua atuação precisa considerar as características da instituição e dialogar com as necessidades apresentadas pelos diferentes integrantes da comunidade escolar.

Ronchi, Iglesias e Avellar (2018) também contribuem para essa discussão ao abordarem a interface entre educação e saúde e a presença do psicólogo na escola. A diversidade das demandas educacionais evidencia que a atuação psicológica nesse espaço envolve questões que ultrapassam uma perspectiva exclusivamente clínica. Dessa maneira, a Psicologia Escolar pode contribuir para a compreensão dos processos que atravessam o cotidiano educacional e para a construção de ações voltadas ao desenvolvimento e à saúde mental.

Essa compreensão também está presente na discussão de Braga e Morais (2007) sobre a queixa escolar. Para as autoras, compreender uma dificuldade apresentada pelo estudante exige considerar o contexto em que ela se constitui, evitando que a demanda seja automaticamente atribuída ao indivíduo. Essa perspectiva é importante para a atuação do psicólogo, pois permite analisar a relação entre a criança e o ambiente educacional antes de definir formas de intervenção.

Correia, Lima e Araújo (2001) reforçam a importância de uma atuação psicológica relacionada aos processos de aprendizagem e desenvolvimento. Nesse sentido, o profissional pode contribuir para a compreensão das relações entre os aspectos psicológicos e educacionais, considerando as características da instituição e as experiências vivenciadas pelos estudantes.

No campo da promoção e prevenção, Faria e Rodrigues (2020) ressaltam a relevância de ações voltadas à saúde mental infantil antes que situações de sofrimento se intensifiquem. No ambiente escolar, essa perspectiva pode envolver atividades educativas, espaços de escuta, orientação e estratégias de fortalecimento de vínculos. Assim, a atuação preventiva permite que a Psicologia participe de ações que não dependam exclusivamente da existência de uma queixa individual.

As relações estabelecidas na escola também podem envolver situações de violência e bullying, que exigem atenção preventiva. Freire e Aires (2012) discutem a contribuição da Psicologia Escolar na prevenção e no enfrentamento do bullying, enquanto Rodrigues e Andrade (2024) abordam estratégias de prevenção à violência nas escolas. Bezerra (2026), por sua vez, discute a atuação da Psicologia Escolar na prevenção da violência e na promoção da cultura de paz no ambiente educacional. Esses estudos demonstram possibilidades de atuação relacionadas à qualidade das relações e à convivência escolar.

A relação entre criança, família e escola também constitui dimensão importante desse trabalho. Cid et al. (2019) demonstram que situações relacionadas à saúde mental infantil podem estar associadas a diferentes fatores, incluindo aspectos familiares e escolares. Dessa maneira, compreender as necessidades da criança pode ser favorecido pelo diálogo entre os diferentes atores envolvidos em seu desenvolvimento.

Essa articulação pode envolver ainda outros profissionais e serviços. Fernandes et al. (2019), ao discutirem a intersetorialidade no campo da saúde mental infantojuvenil em relação ao contexto escolar, destacam a importância da articulação entre diferentes áreas. Embora o estudo tenha como foco a Terapia Ocupacional, sua contribuição permite compreender que determinadas demandas relacionadas à saúde mental infantil podem ultrapassar os limites de uma única área profissional.

No cotidiano escolar, o diálogo com professores e demais profissionais também se mostra necessário. Pereira-Silva et al. (2017) evidenciam a existência de diferentes concepções sobre o trabalho do psicólogo, enquanto Silva et al. (2026) discutem a promoção da saúde mental de crianças e adolescentes nas escolas a partir da percepção de uma equipe multiprofissional. Esses estudos reforçam a importância de ações construídas de maneira articulada, respeitando as atribuições dos diferentes profissionais.

Oliveira et al. (2024) também discutem a colaboração intersetorial como elemento relevante para a promoção da saúde mental no contexto escolar. A articulação entre educação, saúde e outros serviços pode ampliar as possibilidades de cuidado diante de demandas que não podem ser acompanhadas somente pela escola.

Nesse sentido, as Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica orientam uma prática profissional comprometida com a realidade educacional e com os processos institucionais, sociais e relacionais que constituem a escola (Conselho Federal de Psicologia, 2019). A atuação do psicólogo escolar pode, portanto, envolver promoção, prevenção, orientação, escuta e articulação, considerando as necessidades da comunidade escolar.

Desse modo, os objetivos relacionados às possibilidades de atuação do psicólogo e às relações entre criança, família e escola encontram-se articulados. A promoção da saúde mental infantil não depende apenas de ações direcionadas à criança, mas envolve também o modo como a escola compreende suas demandas, como estabelece diálogo com a família e como se articula com outros profissionais e serviços. A partir dessa compreensão, torna-se necessário analisar os desafios que atravessam essa atuação e as possibilidades de fortalecê-la no contexto educacional.

2.3. Desafios e Possibilidades da Atuação do Psicólogo Escolar no Contexto Educacional

A atuação do psicólogo escolar voltada à promoção da saúde mental infantil envolve diferentes possibilidades, mas também apresenta desafios relacionados à forma como esse profissional é compreendido e inserido no cotidiano educacional. A diversidade de demandas presentes na escola exige uma prática que considere os diferentes atores e as condições institucionais nas quais as experiências das crianças se desenvolvem.

Pereira-Silva et al. (2017) demonstram que professores e gestores podem apresentar diferentes concepções sobre o papel do psicólogo escolar. Essa diversidade de expectativas pode interferir na compreensão acerca das funções do profissional e das possibilidades de contribuição da Psicologia na escola. Nesse sentido, um dos desafios consiste na construção de uma atuação compreendida pela comunidade escolar para além do atendimento individual de estudantes.

Essa questão também se relaciona à maneira como as demandas escolares são interpretadas. Braga e Morais (2007) discutem a necessidade de evitar a individualização da queixa escolar, considerando os diferentes elementos envolvidos nas dificuldades apresentadas pelos estudantes. Quando determinada situação é atribuída exclusivamente à criança, aspectos relacionados às relações, às práticas escolares e às condições institucionais podem deixar de ser considerados. Para a Psicologia Escolar, ampliar essa compreensão constitui uma possibilidade de atuação contextualizada.

Ronchi, Iglesias e Avellar (2018) evidenciam a complexidade da interface entre educação e saúde e da inserção do psicólogo na escola. A diversidade das demandas presentes nesse espaço demonstra que os fenômenos educacionais não podem ser compreendidos a partir de uma única perspectiva profissional. Assim, a atuação psicológica precisa dialogar com os processos educacionais e com os demais profissionais que fazem parte da instituição.

As situações relacionadas à saúde mental infantil reforçam essa necessidade de contextualização. Cid et al. (2019) demonstram que as percepções dos profissionais sobre as manifestações apresentadas pelas crianças envolvem diferentes aspectos da experiência escolar e familiar. Dessa forma, compreender uma dificuldade exige considerar as circunstâncias nas quais ela aparece e as relações que podem estar relacionadas à sua expressão.

Outro desafio está relacionado à articulação entre profissionais e serviços. Fernandes et al. (2019) discutem a importância da intersetorialidade no campo da saúde mental infantojuvenil, evidenciando que o cuidado pode envolver diferentes áreas. No contexto escolar, essa articulação pode ampliar as possibilidades de acompanhamento de situações que ultrapassam os limites da instituição.

Oliveira et al. (2024) também destacam a importância da colaboração intersetorial para a promoção da saúde mental no contexto escolar. Da mesma forma, Silva et al. (2026) abordam a percepção de uma equipe multiprofissional sobre a promoção da saúde mental nas escolas. Essas contribuições indicam que ações relacionadas à saúde mental podem envolver diferentes conhecimentos e responsabilidades, especialmente diante da complexidade das demandas escolares.

As situações de violência e bullying também constituem demandas que podem exigir ações preventivas. Freire e Aires (2012) discutem a contribuição da Psicologia Escolar na prevenção e no enfrentamento do bullying, enquanto Rodrigues e Andrade (2024) abordam estratégias de prevenção à violência nas escolas. Bezerra (2026) amplia essa discussão ao tratar da prevenção da violência e da promoção da cultura de paz no ambiente educacional. Essas produções permitem compreender a prevenção da violência como uma das possibilidades de atuação profissional no campo educacional.

A promoção e a prevenção em saúde mental também representam possibilidades de fortalecimento do trabalho psicológico. Faria e Rodrigues (2020) ressaltam a importância de ações preventivas durante a infância, considerando os contextos nos quais a criança se desenvolve. Na escola, essa perspectiva pode favorecer ações de escuta, fortalecimento de vínculos e orientação, sem depender exclusivamente da existência de uma queixa individual.

O diálogo com a comunidade escolar constitui outra possibilidade importante. A aproximação com professores, familiares, gestores e demais profissionais pode favorecer uma compreensão mais ampla das demandas infantis e contribuir para a construção conjunta de estratégias. As discussões de Pereira-Silva et al. (2017) e Cid et al. (2019) reforçam a importância de considerar diferentes percepções na compreensão das experiências relacionadas à saúde mental infantil.

As Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica destacam a importância de uma prática comprometida com a realidade educacional e com os processos institucionais e sociais que constituem a escola (Conselho Federal de Psicologia, 2019). Essa orientação contribui para compreender que os desafios da atuação psicológica estão relacionados também à necessidade de construir práticas coerentes com a realidade da instituição e com os direitos dos estudantes.

Cavalheiro Félix (2023), ao discutir a atuação do psicólogo escolar em relação à saúde mental e à cidadania da criança, contribui para ampliar essa compreensão ao relacionar a atuação profissional às condições de participação e desenvolvimento da criança no espaço educacional. Nesse sentido, promover saúde mental envolve não apenas lidar com dificuldades, mas também favorecer condições para o desenvolvimento e a participação da criança na comunidade escolar.

Dessa maneira, os desafios relacionados à atuação do psicólogo escolar envolvem as diferentes concepções sobre sua função, a interpretação das demandas escolares, a necessidade de diálogo entre os integrantes da comunidade e a articulação com outros profissionais e serviços. Ao mesmo tempo, as produções analisadas apontam possibilidades relacionadas à promoção e prevenção em saúde mental, à escuta, ao fortalecimento de vínculos, à prevenção da violência e à construção de ações articuladas.

Assim, os quatro objetivos específicos encontram-se relacionados ao longo da fundamentação: inicialmente, discute-se a importância da saúde mental na infância e sua relação com o contexto educacional; em seguida, são apresentadas possibilidades de atuação do psicólogo voltadas à promoção e prevenção, juntamente com sua contribuição para as relações entre criança, família e escola; por fim, são analisados os desafios e as possibilidades presentes nessa atuação. Essa sequência permite compreender a atuação do psicólogo escolar como parte de um processo que começa pela compreensão da saúde mental infantil em seu contexto e avança para as formas de intervenção e os desafios presentes na prática profissional.

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

A análise da literatura indicou que a saúde mental infantil, no contexto educacional, está relacionada às experiências, relações e condições presentes nos diferentes espaços em que a criança está inserida. Os estudos analisados apontaram que a escola possui um papel importante nesse processo, por ser um espaço de aprendizagem, convivência e construção de vínculos. A literatura consultada permitiu identificar, portanto, que a promoção da saúde mental nesse ambiente envolve não apenas a atenção às dificuldades apresentadas pelas crianças, mas também ações de prevenção e condições que favoreçam seu desenvolvimento.

A partir dos estudos analisados, foi possível compreender que a atuação do psicólogo escolar pode contribuir para esse processo por meio de ações de promoção e prevenção, escuta, orientação e fortalecimento das relações no ambiente educacional. A revisão também permitiu identificar que essa atuação não deve se restringir ao atendimento individual da criança. A compreensão das demandas escolares envolve considerar o contexto em que elas aparecem e as relações estabelecidas entre criança, família e escola.

Os estudos analisados apontaram ainda a importância do diálogo entre os diferentes integrantes da comunidade escolar. A aproximação entre família, professores, gestores e demais profissionais pode favorecer uma compreensão mais ampla das necessidades infantis e possibilitar a construção de estratégias de cuidado no próprio contexto educacional. A articulação com outros profissionais e serviços também se apresentou como uma possibilidade diante de demandas que ultrapassam os limites da escola ou de uma única área de atuação.

Em relação aos desafios, a literatura consultada permitiu identificar diferentes compreensões sobre o papel do psicólogo escolar, além da necessidade de ampliar o entendimento sobre suas possibilidades de atuação. Também foram identificados desafios relacionados à articulação entre profissionais, família, escola e serviços. Ao mesmo tempo, os estudos analisados apontaram possibilidades de atuação relacionadas à prevenção da violência e do bullying, à escuta, ao fortalecimento de vínculos e à construção de ações articuladas no espaço educacional.

Diante dos resultados encontrados, conclui-se que o psicólogo escolar pode contribuir para a promoção da saúde mental de crianças por meio de uma atuação contextualizada, preventiva e articulada com a comunidade escolar. A literatura analisada permitiu compreender que essa contribuição se fortalece quando a criança é considerada em suas relações e no contexto em que está inserida, evitando que as dificuldades sejam compreendidas exclusivamente como problemas individuais. Dessa forma, a promoção da saúde mental no contexto educacional envolve tanto a atenção às necessidades da criança quanto a construção de relações e práticas que favoreçam seu desenvolvimento.

Assim, o objetivo geral da pesquisa foi alcançado, pois a revisão possibilitou analisar a atuação do psicólogo escolar na promoção da saúde mental infantil. Os objetivos específicos também foram contemplados ao longo da análise, considerando a importância da saúde mental na infância, as possibilidades de promoção e prevenção, as relações entre criança, família e escola e os desafios presentes na atuação profissional.

Como limitação, destaca-se o caráter bibliográfico da pesquisa, que não envolveu observação direta do cotidiano escolar nem coleta de dados com crianças, famílias, professores ou psicólogos. Dessa forma, os resultados correspondem à literatura analisada e não permitem generalizações para todas as realidades educacionais. Para pesquisas futuras, considera-se relevante realizar estudos diretamente no contexto escolar, contemplando diferentes perspectivas sobre a atuação do psicólogo e as condições que favorecem ou dificultam seu trabalho na promoção da saúde mental infantil.

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1 Acadêmico(a) do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail