REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792528690
RESUMO
A maternidade e a formação acadêmica no ensino superior constituem experiências que podem demandar a conciliação de responsabilidades relacionadas ao cuidado, à vida acadêmica e, em alguns casos, ao trabalho, repercutindo na vivência psicológica das mulheres. Considerando a relevância de compreender os impactos da sobreposição dos papéis de mãe e estudante universitária, o presente estudo aborda as repercussões psicológicas relacionadas à conciliação entre maternidade e vida acadêmica, buscando contribuir para a compreensão das necessidades dessas mulheres e para discussões sobre permanência estudantil e suporte institucional. O estudo teve como objetivo analisar as repercussões psicológicas decorrentes da conciliação entre os papéis de mãe e estudante universitária, identificando fatores de estresse e sobrecarga psíquica, aspectos emocionais presentes nessa experiência e o papel das redes de apoio familiares, sociais e institucionais. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, com análise de publicações científicas localizadas nas bases de dados selecionadas, considerando produções publicadas entre 2020 e 2026, nos idiomas inglês e português. Os resultados demonstraram que a conciliação entre maternidade e formação acadêmica pode estar associada à sobrecarga física e psíquica, dificuldades de organização do tempo, culpa, ansiedade, insegurança e mal-estar, embora também possa proporcionar satisfação, realização pessoal, autonomia e perspectivas de crescimento. Verificou-se ainda que as redes de apoio familiares, sociais e institucionais constituem recursos relevantes para o compartilhamento das responsabilidades, a redução das dificuldades e a permanência acadêmica. Concluiu-se que as repercussões psicológicas dessa experiência não decorrem exclusivamente da coexistência entre maternidade e universidade, mas também das condições sociais, familiares e institucionais em que essa conciliação ocorre, evidenciando a importância de estratégias de acolhimento e suporte que favoreçam o bem-estar e a continuidade da formação acadêmica.
Palavras-chave: Maternidade; Estudantes universitárias; Saúde mental; Redes de apoio; Vida acadêmica.
ABSTRACT
Motherhood and academic education in higher education are experiences that may require the reconciliation of responsibilities related to caregiving, academic life, and, in some cases, work, affecting women’s psychological experiences. Considering the relevance of understanding the impacts of overlapping the roles of mother and university student, this study addresses the psychological repercussions associated with reconciling motherhood and academic life, seeking to contribute to understanding the needs of these women and to discussions on student retention and institutional support. The study aimed to analyze the psychological repercussions resulting from the reconciliation of the roles of mother and university student, identifying factors related to stress and psychological overload, emotional aspects present in this experience, and the role of family, social, and institutional support networks. To this end, a bibliographic study was conducted through an analysis of scientific publications retrieved from selected databases, considering studies published between 2020 and 2026 in English and Portuguese. The results demonstrated that reconciling motherhood and academic education may be associated with physical and psychological overload, difficulties in time management, guilt, anxiety, insecurity, and distress, although it may also provide satisfaction, personal fulfillment, autonomy, and prospects for growth. It was also found that family, social, and institutional support networks constitute relevant resources for sharing responsibilities, reducing difficulties, and promoting academic retention. It was concluded that the psychological repercussions of this experience do not result exclusively from the coexistence of motherhood and university life, but also from the social, family, and institutional conditions in which this reconciliation takes place, highlighting the importance of supportive and welcoming strategies that promote well-being and continuity in academic education.
Keywords: Academic life; Mental health; Motherhood; Support networks; University students.
1. INTRODUÇÃO
A maternidade representa uma transição de ciclo expressiva e complexa na trajetória de vida das mulheres, envolvendo mudanças nos diferentes aspectos de sua vida pessoal, social e emocional. Quando vivenciada simultaneamente com a formação acadêmica no ensino superior, essa experiência passa a envolver a necessidade de conciliação entre papéis distintos, mas igualmente exigentes. A mulher que vivencia a maternidade durante sua formação universitária precisa lidar, ao mesmo tempo, com as responsabilidades relacionadas ao cuidado e à parentalidade e com as demandas próprias da vida acadêmica, o que suscita questionamentos acerca das implicações desse arranjo para a saúde mental feminina.
É no seio dessas inquietações que surge esta pesquisa. Compreender a experiência da mulher que desempenha simultaneamente as funções de mãe e estudante universitária implica analisar as dinâmicas subjetivas, sociais e relacionais que perpassam esse período. A coexistência dessas responsabilidades pode produzir uma experiência marcada pela necessidade constante de organização e adaptação, além de envolver diferentes repercussões emocionais. Nesse sentido, torna-se relevante compreender como as demandas provenientes da maternidade e da formação acadêmica se articulam e podem repercutir na vivência dessas mulheres.
Dessa forma, este estudo busca compreender quais são as principais repercussões psicológicas associadas à conciliação entre a maternidade e a vida acadêmica no ensino superior. Tem como objetivo geral analisar as repercussões psicológicas decorrentes da conciliação entre os papéis de mãe e estudante universitária, a partir do levantamento da literatura científica. Para alcançar esse objetivo, busca-se identificar, na literatura, os principais fatores de estresse e sobrecarga psíquica relatados por mães estudantes; mapear os aspectos emocionais relacionados a essa experiência, com destaque para sentimentos de culpa, ansiedade e satisfação; e sintetizar o papel atribuído às redes de apoio familiares, sociais e institucionais na saúde mental dessas mulheres.
A análise desses aspectos possibilita compreender a experiência das mães estudantes para além das exigências objetivas presentes em sua rotina. As repercussões psicológicas dessa conciliação também podem ser observadas a partir das experiências emocionais produzidas pela tentativa de atender simultaneamente às expectativas relacionadas à maternidade e à formação acadêmica. Nesse contexto, sentimentos como culpa e ansiedade assumem relevância, assim como a satisfação relacionada à experiência acadêmica e materna. Do mesmo modo, as redes de apoio constituem um aspecto importante dessa vivência, uma vez que envolvem relações familiares, sociais e institucionais que podem participar da forma como essas mulheres vivenciam suas responsabilidades.
A investigação do tema se justifica pela relevância científica e social de compreender os impactos da sobreposição dos papéis de mãe e estudante universitária na saúde feminina. No contexto do ensino superior, a conciliação entre as exigências acadêmicas e as responsabilidades parentais configura um arranjo complexo, marcado por dinâmicas subjetivas e sociais que podem estar relacionadas à presença de estresse e sobrecarga psíquica.
Sob a ótica da Psicologia, a produção desse conhecimento é fundamental para mapear os aspectos emocionais emergentes dessa vivência, como os sentimentos de culpa e ansiedade, bem como evidenciar a função das redes de apoio familiares, sociais e institucionais na atenuação desses desgastes. A compreensão da literatura existente sobre o tema permite reunir diferentes perspectivas acerca das repercussões psicológicas associadas à conciliação desses papéis e contribuir para uma compreensão mais ampla da experiência das mães estudantes.
Assim, ao sintetizar os achados da literatura científica, o presente trabalho contribui para o adensamento teórico sobre o bem-estar psicológico de estudantes mães, fornecendo subsídios para discussões sobre a permanência estudantil e a formulação de estratégias de acolhimento e suporte institucional no ambiente acadêmico. A sistematização dos conhecimentos produzidos sobre o tema pode favorecer uma compreensão mais abrangente das necessidades apresentadas por essas mulheres.
Como limitações desta pesquisa, destaca-se seu caráter estritamente bibliográfico, restrito à análise de publicações disponibilizadas nas bases de dados SciELO, PubMed e LILACS, dentro do recorte temporal dos anos de 2020 a 2026 e nos idiomas inglês e português. Dessa forma, a análise está condicionada às características e aos conteúdos presentes nas produções localizadas e selecionadas dentro desses critérios.
Por se tratar de um estudo baseado na literatura existente, os achados refletem a perspectiva dos autores das pesquisas mapeadas, não abrangendo diretamente a coleta de dados empíricos primários com mães estudantes na atualidade. Para pesquisas futuras, propõe-se a realização de estudos de campo qualitativos no contexto local de instituições de ensino superior, visando investigar diretamente as vivências dessas mulheres e avaliar a eficácia de intervenções ou políticas de acolhimento.
2. MATERNIDADE E VIDA ACADÊMICA: REPERCUSSÕES PSICOLÓGICAS E REDES DE APOIO
2.1. Estresse e Sobrecarga Psíquica em Mães Estudantes
A Experiência de cursar ensino superior simultaneamente a maternidade envolve a articulação de diferentes responsabilidades e demandas que ultrapassam o cumprimento das atividades acadêmicas. A condição de mãe estudante implica administrar, de forma concomitante, compromissos relacionados aos cuidados com os filhos, a organização doméstica, às exigências da formação acadêmica e, em muitos casos, ao trabalho remunerado nesse sentido, a maternidade durante a trajetória Universitária pode ser compreendida com a experiência marcada pela necessidade permanente de reorganização da rotina, do tempo e das prioridades.
A literatura selecionada evidencia que essa conciliação não ocorre de maneira neutra, uma vez que as responsabilidade relacionados ao cuidado permanece frequentemente concentradas nas mulheres, produzindo condições que podem favorecer sobre a carga física e psíquica (Behboodi Moghadam Et. Al., 2017; Bitencourt; Andrade, 2022).
A revisão sistemática realizada por Vieira Souza e Rocha (2019) demonstra que a maternidade durante a graduação está associada a desafios relacionados à permanência Universitária, destacando a importância de apoio social e estrutural para que essas estudantes consigam concluir a formação.
As autoras identificaram, a partir da literatura analisada, que o suporte familiar e a existência de crédito universitário constitui recursos importantes para a continuidade dos estudos, enquanto a ausência desses recursos pode contribuir para a dificuldade de permanência em maior possibilidade de evasão.
Dessa maneira, a sobrecarga não deve ser compreendida apenas como uma característica individual da estudante. Mas também como resultado das condições concretas nas quais ela precisa desempenhar simultaneamente diferentes papéis. (Vieira; Souza; Rocha, 2019)
Essa compreensão é reforçada pela revisão de escopo de carneiro et al. (2024), Identificou entre os fatores relacionados à experiência das Mães estudantes a carga emocional decorrente do afastamento dos filhos, a insuficiência de apoio institucional e aumento dos encargos econômicos. Embora a permanência no ensino superior seja percebida pelas participantes dos estudos analisados como a possibilidade de crescimento pessoal E também como algo positivo para seus filhos, a tentativa de equilibrar a maternidade de formação acadêmica permanece como um desafio significativo. Assim, o sofrimento associado a conciliação Pode surgir não apenas do volume objetivo de tarefas mas também na necessidade de responder simultaneamente às expectativas associadas aos diferentes papéis desempenhados.
No estudo qualitativo desenvolvido com mulheres iranianas, Behboodi Moghadam et al. (2017) Identificaram três dimensões centrais na experiência de estudantes Mães: o gerenciamento simultâneo das responsabilidades, a existência de facilidade na presença de Barreiras. A pesquisa viva realizada por 20 estudantes mães evidencia que administrar as responsabilidades maternas, familiares e acadêmicas pode representar um desafio Especialmente quando a universidade não dispõe de condições adequadas para acolher a maternidade. Os resultados permitem observar que a sobrecarga está relacionada tanto a quantidade de responsabilidades quanto ao contexto institucional no qual elas precisam ser administrada a experiência, portanto é atravessada pela relação entre as demandas individuais e os recursos disponíveis para enfrentá-las (Behboodi Moghadam Et. Al., 2017;)
A necessidade de administrar o tempo aparece de forma particularmente expressiva no estudo de Bittencourt e Andrade (2022), realizado com dourandas Mães de uma universidade pública. As autores identificaram a necessidade de elaboração de um novo uso do tempo após a maternidade, acompanhada da responsabilidade pelo cuidado dos filhos e de processo de autocobrança relacionados desempenho acadêmico. Nesse contexto, o tempo deixa de ser organizado apenas em função das atividades acadêmicas e passa a ser constantemente dividido entre demandas de cuidado, atividades domésticas, estudos e produção acadêmica. A sobrecarga portanto não se limita a quantidade de tarefas realizadas, mas também envolve a dificuldade de estabelecer limite entre as diferentes dimensões da vida (Bitencourt; Andrade, 2022).
O estudo de Tachibana e Veloso (2022) contribui para aprofundar essa dimensão ao investigar especificamente a experiência emocional de mães universitárias. A pesquisa identificou o mal-estar associado às funções de estudante e mãe, evidenciando que as participantes vivenciavam dificuldades para integrar essas diferentes dimensões de suas vidas a percepção de carregar simultaneamente múltiplas responsabilidades demonstra que a sobrecarga possui uma dimensão subjetiva importante: não se trata somente de realizar muitas tarefas, mas de experimentar a sensação de que diferentes partes da própria identidade estão continuamente exigindo atenção. Essa dimensão emocional permite compreender porque a conciliação entre maternidade e Universidade pode repercutir na forma como essas mulheres percebem a si mesmas e seus próprios projetos de vida (Tachibana; Veloso, 2022).
A condição de mãe e mulher no ambiente Universitário está relacionada às exigências socioculturais e pessoais associadas tanto à idealização da Maternidade quanto à expectativa de produtividade acadêmica. Por um lado, a estudante precisa lidar com as demandas concretas da maternidade da Universidade, por outro, ela também pode se deparar com expectativa sobre o que significa ser uma boa mãe e uma estudante produtiva a qual a existência dessas expectativas pode ampliar a pressão vivenciada durante a formação.
A conciliação entre responsabilidades familiares e acadêmicas envolve desafios relacionados à adaptação, ao processo do ensino-aprendizagem e a permanência no curso. De acordo com os resultados dos estudos encontrados por Bereta e Rodrigues (2024), encontra-se entre pais e mães universitários, a presença de sintomas como ansiedade , insegurança e retraimento. Reforçando a importância de considerar os efeitos psicológicos associados às dificuldades de conciliação.
Assim, o estresse e a sobrecarga psíquica identificados na literatura não parecem decorrer exclusivamente da existência simultânea da Maternidade e da vida acadêmica. O que se apresenta como elemento central é a forma como essas duas experiências são organizadas socialmente e institucionalmente. Quando as demandas de cuidados são contratadas na mulher não existem recursos suficientes para sua distribuição ao consumo pode se tornar mais difícil. A partir disso torna-se necessário avançar a compreensão da sobrecarga como um problema individual para uma análise que considera as relações familiares, acadêmicas e sociais que sustentam e dificultam a permanência da mulher na universidade. Essa discussão conduz diretamente ao segundo eixo da sua fundamentação relacionada às repetições emocionais dessa experiência.
2.2. Repercussões Emocionais da Conciliação Entre Maternidade e Vida Acadêmica
As dificuldades descritas anteriormente não se restringem a organização objetiva das atividades. A literatura demonstra que a conciliação entre maternidade de vida acadêmica também produz repercussões no campo emocional, envolvendo sentimentos de culpa, ansiedade, insegurança, mal-estar, satisfação e, simultaneamente, percepção de realização pessoal. Dessa maneira, compreender a experiência psicológica das Mães universitárias requer considerar qual a existência de emoções distintas, evitando interpretar a maternidade Universitária exclusivamente como experiência negativa ou exclusivamente como experiência de realização. Os estudos indicam justamente essa complexidade, uma vez que as mulheres podem reconhecer o valor da formação acadêmica para suas vidas enquanto enfrenta o sofrimento decorrente das dificuldades de conciliação (Carneiro et al., 2024; Tachibana; Veloso, 2022).
Entre os aspectos emocionais mais recorrentes encontra-se o sentimento de culpa. a culpa, Nesse contexto, aparece associada a sensação de que o tempo de cada uma dimensão da vida representa necessariamente uma redução do tempo destinado a outra assim a estudante pode enfrentar com o fruto sem entrada dedicação a formação acadêmica é aquilo que considera ser sua responsabilidade enquanto mãe. A culpa torna-se um fenômeno relacionado à própria estrutura de expectativas que atravessa a maternidade e a vida acadêmica (Bitencourt; Andrade, 2022). Assim, a estudante pode experimentar conflitos entre a dedicação e a formação acadêmica e aquilo que considera ser sua responsabilidade enquanto mãe.
Nesta pesquisa identifica-se não apenas o sofrimento dessas mães estudantes, mas também reconhece-se a frequência ao ensino superior como uma experiência que pode representar uma mais-valia para as vidas das estudantes e para a vida dos seus filhos. Essa constatação é importante para uma compreensão menos generalizada do fenômeno. Pois demonstra que maternidade e formação acadêmica não constitui necessariamente experiências incompatíveis. O desafio está na construção de condições que permitam à mulher vivenciar as duas dimensões sem que uma precise ser permanentemente sacrificada em favor da outra. Nesse sentido, a satisfação da corrente da trajetória acadêmica pode coexistir com o sentimento de culpa, cansaço e preocupação (Carneiro et al., 2024).
A experiência de ser mãe e estudante, portanto, não é marcada apenas como uma realidade exclusivamente por prejuízos, mas com uma condição que demanda recursos e estratégias para o desempenho dos diferentes papéis. A existência de dificuldade não limita a possibilidade de bem-estar, mas evidencia a necessidade de condições que favoreçam a integração das diferentes dimensões da vida.
A dimensão das expectativas sociais torna-se particularmente relevante quando se considera a discussão apresentada por Ferreira e Borges (2023). As autoras relacionam a experiência das Mães universitárias às exigências socioculturais e pessoais de uma maternidade idealizada e, simultaneamente, a produtividade acadêmica. A mulher pode, portanto, encontrar-se diante de dois conjuntos de expectativas: de um lado espera-se corresponder a determinado modelo de maternidade. De outro, que mantenha o desempenho e produtividade compatíveis com a Vida Universitária. A tensão entre essas expectativas pode favorecer o sentimento de inadequação. Principalmente quando a estudante interpreta dificuldades como incapacidade pessoal. (Ferreira; Borges, 2023)
Essa perspectiva dialoga com a autocobrança relacionada ao ideal de acadêmica presente no contexto universitário. A maternidade pode modificar o tempo disponível para a produção acadêmica e, consequentemente, confrontar a estudante com o modelo de desempenho construído a partir de condições diferentes das suas. Nesse cenário, a comparação com o padrão acadêmico idealizado pode contribuir para o surgimento de sentimentos de culpa e insuficiência. A questão emocional, portanto, não está dissociada das condições concretas de funcionamento da universidade, uma vez que as expectativas institucionais também participam da construção da experiência subjetiva.
As repercussões emocionais também podem estar relacionadas ao afastamento dos filhos. A carga emocional decorrente dessa separação é um dos fatores comuns que influenciam as experiências das mães estudantes (Carneiro et al., 2024). A necessidade de permanecer em atividades acadêmicas, participar de aulas, cumprir estágios ou realizar outras tarefas pode produzir período de afastamento da criança. Dessa maneira, mesmo quando a atividade acadêmica é percebida como importante para o projeto de vida, ela pode ser acompanhada por sentimentos emocionalmente difíceis relacionados à distância física ou a percepção de que não está suficientemente presente na vida dos filhos.
No estudo de Sanches, Alonso e Vecchia (2025), a maternidade é compreendida como uma experiência atravessada por dimensões históricas, sociais e relacionais de gênero. Dessa forma, as repercussões emocionais vão além das características individuais, podendo elas serem relacionadas ao contexto social em que a maternidade é vivenciada. A forma como a mulher interpreta suas responsabilidades e enfrenta as expectativas relacionadas ao gênero pode interferir na maneira como ela experimenta emocionalmente a conciliação entre universidade e maternidade.
A experiência da Maternidade Universitária está situada em contexto sociais e institucionais específicos. Portanto, sentimentos como culpa, ansiedade, satisfação ou sofrimento não devem ser tratados como respostas universais e automáticas da maternidade, mas compreendidas em relação às condições concretas nas quais cada mulher desenvolve sua trajetória acadêmica. (Behboodi Moghadam et al., 2017; Carneiro et al., 2024; Loiola; Gonzales; Sampaio, 2026).
A partir do conjunto dos estudos, percebe-se que as repercussões emocionais da conciliação não podem ser reduzidas na presença ou ausência de sofrimento psicológico. A literatura apresenta uma experiência marcada por ambivalências: a formação acadêmica pode representar a realização, autonomia e investimento no futuro, ao mesmo tempo em que as demandas da Maternidade podem produzir culpa, ansiedade, insegurança e sensação de sobrecarga. Dessa forma, a compreensão psicológica do fenômeno exige considerar todos os sentimentos associados às dificuldades contra o significados positivos atribuídos a continuidade dos estudos. Essa perspectiva evita patologizar uma experiência que também pode envolver crescimento, realização e construção de projetos de vida.
Assim, os aspectos emocionais identificados na literatura parecem estar profundamente relacionados às condições de que a conciliação ocorre. Quanto maior a necessidade de administrar sozinha e as responsabilidades e quanto menor não reconhecimento institucional da Maternidade podem ser as dificuldades enfrentadas pelas estudantes, conforme indicado pelos estudos analisados Em contrapartida, a existência de suporte familiar social institucional pode modificar a forma como as demandas são vivenciadas essa relação conduz ao terceiro eixo da discussão: o papel das redes de apoio na saúde mental e na permanência acadêmica das Mães universitárias.
2.3. Redes de Apoio e Saúde Mental de Mães Universitárias
A Discussão sobre rede de apoio ocupa a posição Central na compreensão das experiências de mães estudantes, uma vez que os estudos apresentados anteriormente indicam que a possibilidade de conciliar a maternidade e universidade está relacionado não apenas os recursos individuais das mulheres, mas também aos recursos disponibilizados por suas relações familiares vírgulas sociais e institucionais. O apoio pode assumir diferentes formas, incluindo Cuidado com os filhos, auxílio nas tarefas domésticas, suporte financeiro, acolhimento emocional, flexibilização das atividades acadêmicas e criação de espaços institucionais de proteção. Assim, a rede de apoio pode ser entendida como conjunto de recursos que contribui para reduzir as dificuldades associadas à sobreposição dos papéis.
Nesse sentido, é importante destacar a existência de crenças universitárias como alternativas de apoio e estrutura para as mães estudantes. Pois o apoio não possui apenas uma função afetiva, mas também uma dimensão concreta de sustentação da trajetória acadêmica. Portanto, esses recursos dão possibilidade para conclusão do curso. visto que quando outra pessoa pode assumir temporariamente o cuidado da criança quando a universidade disponibiliza uma estrutura de acolhimento infantil, a estudante dispõe de mais condições para participar das atividades acadêmicas (Vieira; Souza; Rocha, 2019).
Os resultados de Yamamoto (2024) reforçam essa compreensão ao investigar especificamente a relação entre suporte social e estresse parental em mães universitárias. Os achados contribuem para a compreensão de que o suporte social pode funcionar como recurso relacionado à experiência do estresse parental, especialmente quando oferece apoio afetivo e instrumental. No contexto universitário, esse suporte pode representar uma condição importante para que a estudante não precise administrar sozinha todas as responsabilidades decorrentes da maternidade.
A dimensão familiar da rede de apoio também pode ser analisada a partir da participação paterna. A relação entre envolvimento paterno e estresse materno não é simples ou linear sendo influenciada pela coparentalidade. De acordo com D’Orsi, Veríssimo e Diniz (2023) a cooperação entre os pais e a redução de conflitos na coparentalidade podem contribuir para a melhor condição de bem-estar materno. Para as mães universitárias, essa contribuição é particularmente relevante porque o compartilhamento efetivo dos cuidados pode liberar tempo e reduzir a concentração das responsabilidades em uma única pessoa.
Essa discussão dialoga com Bittencourt e Andrade (2022, que identificaram a falta de participação dos pais no cuidado dos filhos e a sobrecarga das mulheres entre as doutorandas entrevistadas. Os achados permitem observar que a existência de um parceiro ou de uma estrutura familiar não significa necessariamente que haja distribuição equilibrada das responsabilidades. portanto, ao analisar redes de apoio, é necessário diferenciar simples presença de pessoas próximas da disponibilidade efetiva de suporte. uma rede pode existir formalmente e, ainda assim, não ser suficiente para atender as demandas concretas da estudante (Bitencourt; Andrade, 2022)
A falta de apoio institucional juntamente com a carga emocional e os encargos econômicos dificultam a conciliação entre a rotina materna e a rotina Universitária. Dessa forma, essa demanda não pode ser solucionada exclusivamente por estratégias individuais de organização do tempo. Mesmo que a estudante desenvolva estratégias pessoais para administrar suas responsabilidades, determinadas necessidades dependem de condições externas, como flexibilização, recursos financeiros, políticas de parentalidade e estruturas de cuidado (Carneiro et al., 2024).
Barros, Sabóia e Viana (2021) Contribuem para essa discussão aos examinarem ações desenvolvidas pelas instituições de ensino superior para auxiliar mães estudantes na conciliação entre as atividades acadêmicas e o aleitamento materno. a existência dessa literatura específica evidencia que as necessidades dos Estudantes podem mudar de acordo com o período da Maternidade e que as instituições precisam considerar diferentes situações relacionadas ao cuidado. A amamentação, por exemplo, demanda condições que não podem ser resolvidas apenas pela disponibilidade de apoio emocional, exigindo também recursos e adaptações institucionais.
Dessa maneira a presença da rede de apoio, portanto, deve ser entendida como elemento que atravessa simultaneamente a vida familiar e a Vida Universitária, podendo favorecer a adaptação e a permanência no curso. portanto as três dimensões discutidas nesta fundamentação sobre a carga, repercussões emocionais e redes de apoio encontram-se diretamente relacionados. a insuficiência de apoio pode aumentar a quantidade de responsabilidades concentradas sobre a mãe estudante; essa concentração pode contribuir para sentimentos de culpa, ansiedade, insegurança e mal-estar; e tais repercussões podem, por sua vez, afetar a experiência de permanecer acadêmica. Em sentido contrário, redes familiares, sociais e institucionais capazes de compartilhar responsabilidades e reconhecer as necessidades da Maternidade podem oferecer condições mais favoráveis para a continuidade dos estudos e para o bem-estar.
A partir desses estudos compreende-se a maternidade durante a formação superior como uma experiência complexa, na qual aspectos individuais vírgulas relacionais e institucionais estão interligados ponto as pesquisas não sustentam uma compreensão única da experiência das mais estudantes, mas dividem-se um conjunto de condições que podem favorecer o dificuldade conciliação. Ao mesmo tempo em que a universidade pode representar a realização pessoal, autonomia e investimento no futuro, ela pode também apresentar barreiras quando suas estruturas não consideram as demandas da parentalidade.
Da mesma forma, a maternidade pode constituir uma dimensão significativa da identidade da mulher se necessariamente impedir sua formação, desde que existam recursos que possibilitem a articulação entre os diferentes papéis. A maternidade pode intensificar determinadas exigências da vida acadêmica, mas as repercussões psicológicas observadas também depende das condições concretas em que essa experiência acontece. Assim, analisar as repetições psicológicas da conciliação entre maternidade e Vida acadêmica implica reconhecer tantas dificuldades vivenciadas por essas mulheres quando sua capacidade de construir estratégias, mobilizar rede de apoio e atribuir sentido à continuidade de sua formação.
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
A análise realizada permitiu compreender que a conciliação entre maternidade e vida acadêmica constitui uma experiência complexa, marcada pela interação entre demandas pessoais, familiares, acadêmicas e institucionais. A partir do problema de pesquisa, que buscou compreender as principais repercussões psicológicas associadas à conciliação entre maternidade e formação no ensino superior, identificou-se que essa experiência não produz efeitos únicos, sendo influenciada pelas condições concretas em que cada mulher vivencia seus diferentes papéis.
Em relação ao objetivo geral, os resultados evidenciaram que a sobreposição dessas responsabilidades pode favorecer estresse, sobrecarga psíquica e dificuldades na organização do tempo e na distribuição das responsabilidades. A necessidade de conciliar cuidados com os filhos, atividades domésticas e exigências acadêmicas pode resultar em uma rotina marcada pela reorganização constante das prioridades e pela dificuldade de estabelecer limites entre as diferentes dimensões da vida.
No campo emocional, foram identificados sentimentos de culpa, ansiedade, insegurança, mal-estar e preocupação, especialmente diante da percepção de que a dedicação a uma dimensão da vida poderia reduzir a atenção destinada à outra. Entretanto, os resultados também demonstraram que a experiência acadêmica pode proporcionar satisfação, realização pessoal, autonomia e perspectivas para o futuro. Dessa forma, a maternidade durante a formação universitária apresenta uma dimensão emocional ambivalente, na qual dificuldades e aspectos positivos podem coexistir.
Outro resultado relevante refere-se às redes de apoio. O suporte familiar, social e institucional mostrou-se importante para reduzir a sobrecarga e favorecer a continuidade da trajetória acadêmica. Esse apoio pode envolver divisão dos cuidados com os filhos, auxílio nas atividades domésticas, suporte financeiro, participação paterna e condições institucionais adequadas às necessidades relacionadas à maternidade. Assim, a existência de pessoas próximas não significa necessariamente a presença de uma rede de apoio efetiva, sendo necessário considerar a disponibilidade concreta desses recursos.
Diante disso, a resposta ao problema de pesquisa indica que as principais repercussões psicológicas da conciliação entre maternidade e vida acadêmica estão relacionadas à sobrecarga, ao estresse e a sentimentos como culpa, ansiedade, insegurança e mal-estar, podendo coexistir com satisfação e realização pessoal. Essas repercussões não decorrem exclusivamente da condição de ser mãe e estudante, mas também da forma como as responsabilidades são distribuídas e das condições familiares, sociais e institucionais disponíveis.
Como limitação, destaca-se o caráter exclusivamente bibliográfico da pesquisa, baseada nas publicações localizadas nas bases de dados e nos critérios previamente estabelecidos, não contemplando relatos diretos e atuais de mães estudantes. Como possibilidade de continuidade, sugerem-se pesquisas de campo, especialmente qualitativas, que investiguem diretamente essas experiências e analisem estratégias de acolhimento e suporte institucional. Assim, o estudo contribui para ampliar a compreensão das repercussões psicológicas da maternidade durante a formação universitária, reconhecendo suas dificuldades, potencialidades e necessidades de suporte.
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1 Acadêmico(a) do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA.
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail