A ATUAÇÃO DA EACH-USP NO JARDIM KERALUX COMO TERRITÓRIO DE CONHECIMENTO E MITIGAÇÃO DE DESIGUALDADES

EACH-USP'S WORK IN JARDIM KERALUX AS A SPACE FOR KNOWLEDGE AND MITIGATION OF INEQUALITIES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791152040

RESUMO
O artigo analisa a atuação social da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) no Jardim Keralux, bairro contíguo ao campus, situado em Ermelino Matarazzo, zona leste paulistana. O objetivo é compreender em que medida a presença universitária favorece visibilidade pública, ações comunitárias, oportunidades socioculturais e produção compartilhada de conhecimento, sem ocultar as fronteiras materiais e simbólicas que ainda separam instituição e território. Trata-se de estudo qualitativo, bibliográfico e documental, baseado em livros, artigos, teses, relatórios, narrativas de moradores, documentos públicos e fontes institucionais, complementado por levantamento on-line sobre episódios em relação às enchentes e invisibilidade em torno das políticas públicas. A análise reúne a formação do bairro, a mobilização pelo direito à moradia, a recorrência de alagamentos e indicadores de vulnerabilidade social. Em seguida, examina iniciativas como o Censo Vizinhança USP, o Fórum do Jardim Keralux, o Programa Adapta Keraciaba, oficinas de cartografia social, projetos culturais e de direitos humanos. Os resultados indicam que a EACH funciona como infraestrutura de reconhecimento, articulação e circulação de saberes, embora sua territorialização seja contraditória, pois revelam o baixo uso dos serviços pelos moradores, relatos de restrição de acesso e as práticas de pesquisa sem devolutiva limitam o pertencimento. Conclui-se que a superação do estigma periférico exige extensão coproduzida, abertura institucional, devolutivas públicas e incidência continuada sobre políticas urbanas e climáticas.
Palavras-chave: Extensão universitária; Justiça ambiental; Periferia urbana; Vulnerabilidade social; Universidade pública.

ABSTRACT
This article analyzes the social role of the School of Arts, Sciences and Humanities of the University of São Paulo (EACH-USP) in Jardim Keralux, a neighborhood adjacent to the campus, located in Ermelino Matarazzo, in the eastern part of São Paulo. The objective is to understand to what extent the university presence favors public visibility, community actions, sociocultural opportunities, and the shared production of knowledge, without obscuring the material and symbolic boundaries that still separate the institution and the territory. This is a qualitative, bibliographic, and documentary study, based on books, articles, theses, reports, residents' narratives, public documents, and institutional sources, complemented by an online survey on episodes related to flooding and invisibility surrounding public policies. The analysis brings together the formation of the neighborhood, the mobilization for the right to housing, the liabilities of contamination, the recurrence of flooding, and indicators of social vulnerability. Next, it examines initiatives such as the USP Neighborhood Census, the Jardim Keralux Forum, the Adapta Keraciaba Program, social cartography workshops, cultural and human rights projects. The results indicate that EACH functions as an infrastructure for the recognition, articulation, and circulation of knowledge, although its territorialization is contradictory, as it reveals the low use of services by residents, reports of restricted access, and research practices without feedback that limit a sense of belonging. It concludes that overcoming the peripheral stigma requires co-produced extension, institutional openness, public feedback, and continued advocacy on urban and climate policies.
Keywords: University extension; Environmental justice; Urban periphery; Social vulnerability; Public university.

1. INTRODUÇÃO

A instalação de uma universidade pública em uma periferia metropolitana influencia na produção material e simbólica do espaço, alterando circuitos de mobilidade e atraindo serviços, além de motivar expectativas de formação e trabalho e conferir legitimidade pública a demandas historicamente invisibilizadas. Também pode reproduzir separações, uma vez que o campus pode permanecer socialmente distante, operar como enclave valorizado e converter o território vizinho em campo de pesquisa sem compartilhar decisões e resultados. Essa ambivalência pode ser manifestada na relação entre a Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), inaugurada em 2005, e o Jardim Keralux.

O bairro está inserido em uma área de várzea próxima ao rio Tietê, à linha ferroviária e a antigas plantas industriais. A ocupação pela comunidade se deu a partir de meados da década de 1990, sobre uma área antes associada à fábrica de cerâmicas Keralux, a comunidade se consolidou por meio da autoconstrução das moradias, pela compra informal de lotes e resistência coletiva a ameaças de remoção. A memória social do lugar não é, portanto, a de uma ocupação passiva. É a história de famílias, muitas de origem nordestina, que produziram habitações e redes de solidariedade enquanto reivindicavam regularização fundiária, pavimentação, saneamento, transporte, saúde e proteção ambiental (Reis, 2025; Silva et al., 2021).

Este artigo busca compreender de que maneira a atuação social e comunitária da EACH-USP contribui para constituir o Jardim Keralux como território de conhecimento e quais contradições limitam essa contribuição. O objetivo geral é analisar a relação entre universidade e bairro considerando simultaneamente os efeitos de visibilidade e oportunidade, as práticas de coprodução de saberes e as fronteiras materiais, institucionais e simbólicas ainda existentes. Como objetivos específicos, pretende-se reconstruir aspectos da formação territorial, sistematizar evidências sobre vulnerabilidade social, contaminação e enchentes, identificar ações universitárias com participação comunitária e discutir o estigma associado à localização periférica.

A relevância do estudo é acentuada pela vulnerabilidade diante das recorrentes inundações. O material participativo do Programa Adapta Keraciaba registra perdas de bens, interrupção da mobilidade, exposição a água contaminada e sofrimento emocional (Dias; Rodrigues; Sato, 2023). Em 2025, a própria EACH voltou a afirmar institucionalmente que Jardim Keralux e Vila Guaraciaba lidam com problemas de alagamentos todos os anos (EACH-USP, 2025). A permanência do problema, duas décadas após a abertura do campus, convida a avaliar a atuação universitária para além de eventos isolados, considerando se ela produz memória pública, continuidade, formação de moradores, dados utilizáveis e influência sobre as decisões urbanas.

A hipótese sustentada é que a EACH já opera como infraestrutura territorial de reconhecimento e articulação, sobretudo quando pesquisa, extensão e cultura são construídas com moradores. O Censo Vizinhança USP, a cartografia social de riscos, o Fórum do Jardim Keralux e ações realizadas com escolas e coletivos mostram essa capacidade. Entretanto, os próprios dados do censo e as narrativas periféricas revelam pertencimento incompleto. A relação torna-se transformadora quando o bairro participa da formulação das perguntas, recebe devolutivas, ocupa os espaços universitários e vê seu conhecimento convertido em agenda institucional; torna-se extrativa quando a comunidade aparece apenas como fonte de dados ou cenário de intervenção.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Território de Conhecimento e Coprodução de Saberes

Adota-se a noção de território de conhecimento para designar um espaço no qual a experiência social vai além de observação acadêmica, é fonte de conceitos, prioridades, métodos e soluções. Nessa perspectiva, o conhecimento sobre inundações não se limita à medição pluviométrica ou ao mapa técnico, pois inclui a memória das ruas que se tornam intransitáveis, dos caminhos pelos quais a água retorna às casas, do tempo necessário para que seu nível baixe e das pessoas que precisam de apoio. O conhecimento sobre o acesso à universidade inclui as experiências de moradores diante de portarias, linguagem institucional e formas de divulgação. A ciência mantém sua especificidade, porém se torna mais pertinente quando reconhece a competência territorial de quem vive o problema.

Essa formulação evita reducionismos ao representar o Keralux como um local de carências — saneamento incompleto, renda baixa, enchentes e contaminação —, imagem que alimenta preconceito territorial e naturaliza a desigualdade, assim como pressupor a resiliência comunitária e transferir aos moradores a obrigação de compensar omissões públicas. A mobilização local constitui potência política, mas não substitui políticas públicas voltadas a moradia digna, saneamento básico e recuperação ambiental. Do mesmo modo, projetos universitários podem ampliar capacidades, porém não dispensam a responsabilidade do poder público nem autorizam que a universidade fale em nome da comunidade.

2.2. Universidade Pública, Periferia e Pertencimento

Na relação entre universidade pública e periferia, a implementação da EACH resulta de antigas mobilizações da zona leste por educação pública e rompe uma geografia universitária concentrada em áreas centrais e de maior renda, contudo, a proximidade física não garante democratização. Dantas (2019) observa que a chegada do campus desestabiliza a representação da periferia como espaço de ausência, mas lembra que um equipamento público pode constituir uma conquista cidadã incompleta quando a integração com a população do entorno permanece limitada. O problema analítico, assim, não é decidir se a universidade “ajudou” ou “não ajudou”, mas compreender quais mediações fazem sua presença converter-se — ou não — em direito, pertencimento e poder coletivo.

A EACH foi inaugurada em 2005 como resultado de um processo de expansão da Universidade de São Paulo e de mobilizações de longa duração na zona leste por ensino superior público. Desde a década de 1980, movimentos educacionais, fóruns e organizações populares reivindicavam equipamentos compatíveis com a dimensão populacional e a contribuição econômica da localidade. Por isso, interpretar a USP Leste como simples concessão institucional apagaria a agência política que ajudou a tornar sua criação possível (Dantas, 2019). Sua localização produz efeito simbólico relevante. Dantas (2019) denomina esse deslocamento “USP da periferia” como uma instituição cuja localização expõe que a periferia também formula projetos de cidade e reivindica ciência, cultura e formação superior. O campus torna o território visível em mapas acadêmicos, políticas e redes que antes o ignoravam.

Para o Jardim Keralux, a visibilidade é concreta, a comunidade identificou que aspectos positivos da proximidade, destacando a valorização e a visibilidade do bairro e as oportunidades de conhecimento. No Keralux, 359 domicílios indicaram melhora, valorização ou visibilidade, equivalentes a 13,1% de todos os domicílios e 30,6% dos que citaram algo positivo (Silva et al., 2021, p. 174-175).

Visibilidade, porém, é ambivalente, ela pode atrair serviços e reforçar reivindicações, assim como transformar o bairro em cenário de problemas. Pesquisas, reportagens e relatórios apontam a vulnerabilidade devido a contaminação, enchentes e violência; quando não mostram cultura, trabalho e organização, fixam uma identidade negativa. A universidade possui autoridade social para legitimar narrativas e deve examinar que imagens produz. Reconhecer risco não obriga a reduzir pessoas ao risco, pois a escrita científica pode contextualizar desigualdades, nomear responsabilidades e registrar capacidades comunitárias.

A relação cotidiana também é atravessada pela forma física do campus, muros, controles de entrada e caminhos para a estação comunicam quem é percebido como usuário legítimo. Moradores narraram situações em que, apesar de terem participado da construção do campus ou viverem ao lado dele, sentiram-se barrados ou tratados como visitantes suspeitos. A estação chamada USP Leste, acessível por trajetos que tangenciam o campus, acentua a expectativa de passagem e uso público. Quando os controles são pouco transparentes, a fronteira física converte-se em fronteira de cidadania (Silva et al., 2021, p. 172-173; Pinto, 2020).

Esse contraste ajuda a definir territorialização universitária. Estar situado no bairro é condição geográfica; pertencer ao território é relação social. Pertencimento requer portas inteligíveis, informação, atividades em horários compatíveis com o trabalho, acolhimento de públicos não universitários, presença fora do campus e participação local na governança. A implantação da EACH foi conquista histórica; sua consolidação como universidade territorial é processo ainda aberto.

2.3. Justiça Ambiental, Vulnerabilidade e Estigma Territorial

A leitura do Jardim Keralux também exige considerar as desvantagens produzidas por decisões urbanas tomadas em diferentes escalas. O histórico de contaminação por substâncias vinculadas às atividades industriais, a insuficiência da drenagem, a proximidade dos cursos d’água, a recorrência das inundações e a precariedade de parte da infraestrutura constituem expressões de injustiça ambiental, uma vez que os riscos e os danos se concentram sobre uma população com menor capacidade institucional de definir o uso do solo e exigir respostas do Estado. (Magalhães; Gonçalves-Dias, 2023). Interpretar o bairro apenas pela chave da carência apaga, contudo, sua capacidade de organização, sua vida cultural e o conhecimento cotidiano produzido diante desses riscos.

O estigma territorial transforma endereço em julgamento sobre pessoas, ao Keralux são associados termos como invasão, contaminação, enchente, perigo e pobreza. Tais palavras podem descrever dimensões reais, mas tornam-se estigmatizantes quando apresentadas como essência do lugar, desligadas dos processos que produziram a irregularidade fundiária, o passivo industrial e a precariedade urbana. O resultado é um processo circular em que o território é desvalorizado por ter recebido menos proteção e continua recebendo menos investimentos por ser considerado desvalorizado.

3. METODOLOGIA

Foi realizada uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, organizada como estudo de caso bibliográfico e documental. A unidade de análise é a relação territorial entre a EACH-USP e o Jardim Keralux, sem pretensão de generalização estatística para outras universidades ou periferias. O procedimento reúne produção acadêmica e técnico-científica sobre a formação do bairro, os riscos socioambientais e a implantação da USP Leste; abrange publicações construídas com participação de moradores, incluindo narrativas autobiográficas, cartografias sociais e resultados do Censo Vizinhança USP, além de documentos e páginas institucionais da Universidade, da Prefeitura de São Paulo, da Câmara Municipal e de órgãos de defesa civil e planejamento urbano.

A base documental compreendeu: o livro Censo Vizinhança USP — características domiciliares e socioculturais do Jardim Keralux e da Vila Guaraciaba (Silva et al., 2021); a obra Caminhos para diálogos cartografados dos riscos socioambientais (Dias; Rodrigues; Sato, 2023); o livro Narrativas periféricas (Peçanha, 2020); o artigo de Dantas (2019) sobre a USP da periferia; o capítulo de Magalhães e Gonçalves-Dias (2023) sobre risco e justiça ambiental; o estudo de Magalhães, Cseh e Gonçalves-Dias (2022) sobre resíduos; e o trabalho histórico de Reis (2025). Foram consultados, ainda, a tese de Aguiar (2021) sobre revitalização de áreas contaminadas e materiais institucionais relativos à cultura, direitos humanos, extensão, infraestrutura e planejamento.

Para atualizar a discussão sobre enchentes, foi efetuada busca on-line orientada pelas combinações: “Jardim Keralux”, “enchente”, “alagamento”, “drenagem” e “Adapta Keraciaba”. Foram priorizadas fontes primárias ou institucionais, documentos oficiais e produção acadêmica. Notícias e testemunhos de movimentos sociais foram utilizados para registrar percepções e acontecimentos, não como substitutos de laudos técnicos. O recorte temporal estende-se da formação do bairro, na década de 1990, a 2025, último ano para o qual foram localizadas evidências documentais consolidadas no levantamento.

A análise foi desenvolvida em quatro eixos: formação e resistência territorial; vulnerabilidade socioambiental; atuação universitária e coprodução de conhecimento; e fronteiras, estigma e pertencimento. Os dados quantitativos foram empregados de modo descritivo, preservando a base e a unidade de medida de cada fonte. Especial atenção foi dada ao Censo Vizinhança, realizado entre 2019 e 2021, porque oferece levantamento domiciliar específico: 8.418 moradores e 2.736 domicílios no Jardim Keralux, além de 713 moradores e 221 domicílios na Vila Guaraciaba (Silva et al., 2021, p. 8). Estimativas administrativas de outros anos foram mantidas apenas quando necessárias para contextualizar políticas e obras.

Cuidados interpretativos orientaram o estudo, neles foram diferenciados o passivo ambiental do bairro, relacionado a usos industriais anteriores e vizinhos, e os episódios de contaminação identificados na área do campus. Segundo entrevistas e relatos publicados nas fontes não foram apresentados como dados coletados pelo presente artigo. Eles são evidências secundárias, produzidas em contextos metodológicos próprios. Essa distinção é importante para não apropriar a voz dos moradores nem simular trabalho de campo inexistente.

Como limitações, são caraterizadas a heterogeneidade temporal das fontes, a ausência de microdados públicos recentes sobre todos os indicadores e o fato de que projetos institucionais divulgam mais facilmente seus resultados positivos do que conflitos ou descontinuidades. A combinação entre estatísticas, documentos oficiais, relatos comunitários e análises acadêmicas buscou reduzir esse viés. O interesse foi examinar iniciativas que permitam discutir, com evidência, o papel da universidade na produção territorial do conhecimento.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Formação Territorial, Resistência e Vulnerabilidade Social

O Jardim Keralux começou a se formar em meados da década de 1990, em uma gleba de aproximadamente 247 mil metros quadrados anteriormente ligada à indústria de cerâmicas que deu nome ao bairro. A comercialização irregular de lotes e as disputas de propriedade expuseram famílias a insegurança fundiária e ameaças de reintegração. Ainda assim, a aquisição foi vivida por muitos moradores como compra legítima, realizada com economias familiares e acompanhada da construção progressiva das casas. A categoria genérica “invasão”, recorrente em discursos externos, elimina essa complexidade e funciona como marcador moral que desqualifica o direito de permanência (Silva et al., 2021, p. 26-27; Reis, 2025).

A consolidação física ocorreu por autoconstrução e por reivindicações coletivas, objeto de pressão e negociação. A organização que hoje atua como Instituto União Keralux preserva a memória de associações criadas para impedir remoções e buscar regularização. Os relatos também registram a presença expressiva de migrantes nordestinos e de trabalhadores inseridos em ocupações de baixa renda, cuja participação foi central na formação do tecido social local (Silva et al., 2021).

O bairro é delimitado por infraestruturas e barreiras de grande escala, como o rio Tietê e seus afluentes, a linha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a rodovia Ayrton Senna, as áreas industriais e, desde 2005, o campus da EACH. A Rua Arlindo Béttio constitui o principal acesso viário, essa configuração combina conectividade metropolitana e isolamento local. A estação ferroviária aproxima o bairro de outros pontos da cidade, mas passagens, muros, cursos d’água e vias rápidas limitam a circulação cotidiana. Em episódios de chuva intensa, o único acesso motorizado pode tornar-se um corredor de água, ampliando a vulnerabilidade não apenas das casas atingidas, mas do conjunto da população (Dias; Rodrigues; Sato, 2023).

O Censo Vizinhança mostra que a precariedade não deve ser confundida com ausência completa de serviços. Em 2019-2020, 98,7% dos domicílios do Jardim Keralux declararam ligação à rede de água; ainda assim, 6,3% relataram problemas de abastecimento. A rede de esgoto alcançava 84,7% dos domicílios, enquanto 311 casas informaram despejo em rio ou córrego. A coleta de lixo na porta atendia 92,8% das residências, mas parte das famílias precisava levar resíduos a pontos determinados. Também foram registrados problemas no fornecimento de energia em 17,7% dos domicílios (Silva et al., 2021, p. 67-69). Os números descrevem cobertura relevante e, simultaneamente, lacunas com grande impacto ambiental.

É nesse intervalo entre presença e insuficiência que se produz a vulnerabilidade, uma ligação formal de água não garante regularidade; coleta parcial ou recipientes mal posicionados podem concentrar resíduos junto às escolas e aos córregos. Políticas setoriais avaliadas isoladamente podem parecer satisfatórias, embora seus efeitos combinados permaneçam desiguais. A experiência local aponta, portanto, para a necessidade de planejamento integrado, capaz de relacionar habitação, saneamento, mobilidade, saúde, recuperação ambiental e proteção contra inundações.

A renda domiciliar do Jardim Keralux concentra-se em faixas baixas e intermediárias, o Censo Vizinhança apontou que a maior parte dos domicílios se situava entre meio e três salários mínimos no período pesquisado. Em 40,5% das casas, apenas uma pessoa contribuía para a renda e, em 40,4%, duas pessoas o faziam. Embora 73% dos adultos tivessem trabalho remunerado, emprego não significava estabilidade ou proteção suficiente. O levantamento também registrou trabalho remunerado entre 10,8% das crianças e dos adolescentes, proporção superior à referência nacional utilizada no estudo (Silva et al., 2021, p. 70-72).

A desigualdade racial atravessa esses indicadores, pretos e pardos correspondiam a cerca de 60% dos moradores, percentual superior ao do município. A sobreposição entre desigualdade racial, renda, escolaridade, condições de saúde e exposição ambiental exige reconhecer mecanismos de racismo ambiental, entendidos como distribuição racialmente desigual de riscos e proteção (Silva et al., 2021; Magalhães; Gonçalves-Dias, 2023).

Ao mesmo tempo, vulnerabilidade deve ser usada com cautela, uma vez que pessoas e territórios são vulnerabilizados por processos históricos. No Keralux, a vida associativa, as práticas religiosas, as festas comunitárias, as escolas, a unidade básica de saúde e as organizações de moradores compõem uma infraestrutura social que não aparece quando o diagnóstico se limita à renda ou ao déficit urbano. O mapeamento sociocultural do Censo encontrou poucos equipamentos culturais públicos formais no distrito, mas identificou práticas e redes produzidas pelos próprios moradores (Silva et al., 2021, p. 177-182).

Peçanha (2020) propõe deslocar o olhar que associa periferia exclusivamente a falta e violência, esse deslocamento não nega problemas objetivos; modifica quem possui autoridade para nomeá-los e enfrentá-los. Um córrego assoreado é uma carência de infraestrutura, mas o conhecimento acumulado sobre seus transbordamentos é um ativo territorial. A baixa presença de equipamentos culturais é uma desigualdade, mas o slam, o forró comunitário e os coletivos são formas de produção estética e política. O território é simultaneamente atingido por desigualdades e produtor de respostas.

Essa distinção tem consequências para a universidade. Se o bairro é definido somente como “comunidade carente”, a extensão tende ao assistencialismo e a pesquisa busca confirmar déficits previamente supostos. Se ele é reconhecido como sujeito coletivo, a agenda começa com escuta, contratação de articuladores locais, construção compartilhada de instrumentos e devolução inteligível dos resultados. O Censo Vizinhança adotou parte dessa orientação ao incluir moradores na mobilização e na produção de dados. O Programa Adapta Keraciaba avançou na mesma direção ao articular cartografia social, memória oral e informação técnica sobre riscos.

O desafio é transformar experiências pontuais em política duradoura. A vulnerabilidade não desaparece com uma oficina, e a potência comunitária não deve ser celebrada como justificativa para a ausência do Estado. Uma atuação universitária territorialmente responsável combina reconhecimento dos saberes locais com produção de evidências capazes de sustentar reivindicações por recursos públicos. O valor da EACH, nesse sentido, depende tanto do que oferece no campus quanto de sua capacidade de reforçar a voz política do bairro sem substituí-la.

4.2. Contaminação do Solo e (In)justiça Ambiental

O histórico ambiental do Jardim Keralux é inseparável dos usos industriais anteriores, em 1997, laudo do Instituto Adolfo Lutz identificou hexaclorociclohexano, associado ao pesticida BHC, na água consumida por moradores. A área havia abrigado atividades da antiga fábrica de cerâmica, e a proximidade da indústria química Bann acrescentou emissões atmosféricas e lançamentos em cursos d’água. Segundo registro da Câmara Municipal, a fábrica foi fechada em 2006 após reiteradas autuações, e ações de remoção e tratamento foram realizadas em parte do terreno (Câmara Municipal de São Paulo, 2014).

Estudos posteriores encontraram metais e outras substâncias em amostras ambientais, mas a interpretação do risco variou conforme concentração, meio de exposição e uso da água subterrânea. Em depoimento a uma comissão parlamentar em 2014, a Cetesb afirmou que os estudos então disponíveis não indicavam risco atual significativo à saúde dos moradores, embora recomendasse pavimentação preventiva e investigação de metano. Magalhães e Gonçalves-Dias (2023) retomam resultados com presença de metais e compostos organoclorados e destacam que a conclusão de risco controlado dependia de condições como a não utilização da água subterrânea para consumo.

Essa formulação requer precisão, uma vez que a avaliação não demonstrou risco significativo em determinado momento não equivale a declarar o território definitivamente “descontaminado”. Avaliação de risco é condicionada à via de exposição, ao padrão de uso do solo, à manutenção de barreiras, à qualidade do monitoramento e à comunicação com a população. Pavimentar reduz contato dérmico com solo exposto, mas não substitui investigação, remediação, vigilância da água e transparência. A insegurança dos moradores também é produzida pela falta de informação compreensível e pela demora institucional, não apenas pela concentração química medida.

É igualmente necessário separar o passivo do bairro dos problemas identificados no campus, a USP Leste foi implantada em área de várzea que recebeu material de aterro e sedimentos. A presença de metano e de contaminantes no terreno universitário levou à interdição temporária do campus em 2014 e a medidas de controle. Embora ambos os processos pertençam ao mesmo contexto regional de degradação industrial e manejo inadequado do solo, possuem responsáveis, trajetórias técnicas e regimes de monitoramento próprios. Fundi-los em uma narrativa única pode gerar erro causal e reforçar o estigma de que toda a região seria indistintamente tóxica.

A contribuição universitária mais coerente é justamente qualificar a distinção, pois a proximidade de laboratórios e pesquisadores pode ampliar a interpretação de laudos, apoiar protocolos de comunicação de risco e formar moradores para acompanhar políticas ambientais. O Fórum do Jardim Keralux e outras articulações intersetoriais criaram espaços para aproximar lideranças, serviços de saúde, técnicos e comunidade acadêmica. Quando a universidade traduz resultados sem minimizar incertezas, ela converte conhecimento especializado em capacidade pública de controle.

O caso também revela uma desigualdade de velocidade institucional, a interdição do campus, por afetar uma universidade de grande visibilidade, mobilizou rapidamente imprensa, órgãos ambientais e administração pública. As dúvidas acumuladas por moradores durante anos tiveram menor capacidade de produzir resposta. Uma política territorialmente justa exige que o direito à segurança ambiental seja equivalente nos dois lados do muro. Monitoramento do campus e monitoramento do bairro não devem competir; podem compor uma agenda integrada, com dados abertos, reuniões periódicas e linguagem acessível.

Assim, a contaminação não deve funcionar como rótulo permanente do Keralux, o estigma ambiental reduz o território a risco e pode desvalorizar moradias, atrasar regularização ou legitimar propostas de remoção. A resposta adequada combina memória do dano, responsabilização, controle continuado e reconhecimento de que ali existe vida social, cultura e conhecimento. A universidade contribui quando transforma a experiência de exposição em agenda de justiça ambiental.

4.3. Enchentes e Produção Social do Risco

A recorrência de enchentes é uma das experiências mais persistentes narradas pelos moradores, tecnicamente, a inundação corresponde ao extravasamento de cursos d’água; ao acúmulo de água por deficiência de drenagem; e à elevação do nível do canal. No Keralux, esses processos podem ocorrer de maneira articulada, pois as chuvas intensas elevam o nível dos córregos e do rio, a drenagem urbana é insuficiente, os resíduos e sedimentos reduzem a vazão e a topografia de várzea dificulta o escoamento.

A cartografia participativa do Adapta Keraciaba identificou como áreas frágeis, o mapa produzido por moradores apresentou convergência com o mapeamento de risco elaborado pela Coordenação Municipal de Defesa Civil em 2022, evidenciando complementaridade entre saber vivido e análise técnica (Dias; Rodrigues; Sato, 2023, p. 50-52).

Relatos reunidos na mesma obra registram a intensidade do evento de 2020, onde famílias perderam móveis e outros bens; em alguns pontos a água teria alcançado cerca de dois metros. Moradores descreveram o retorno de água por ralos e vasos sanitários, bloqueio do único acesso e aumento do tempo necessário para a água baixar. As perdas materiais se somaram a atrasos no trabalho, interrupção escolar, risco de doenças e sofrimento psíquico (Dias; Rodrigues; Sato, 2023, p. 54-56; 93-97; 148-149).

As fontes locais associam o agravamento a múltiplos fatores, entre os quais estão a impermeabilização, a pavimentação sem drenagem compatível, as galerias obstruídas, o descarte irregular, o assoreamento e a insuficiência de obras estruturais. Essa pluralidade desaconselha explicações simplistas, pois resíduos podem obstruir dispositivos, mas responsabilizar somente hábitos dos moradores ignora falhas de coleta, posicionamento inadequado de contêineres, ausência de ecopontos e manutenção pública insuficiente. A oficina de mapa falado realizada em 2019 na EACH, com 26 participantes, mostrou que a gestão de resíduos é responsabilidade compartilhada e requer coordenação entre comunidade, empresas e poder público (Magalhães; Cseh; Gonçalves-Dias, 2022).

Em 2020, a Prefeitura anunciou pavimentação, drenagem de águas pluviais e implantação de rede de esgoto, outras ruas, situadas abaixo do nível do rio, dependeriam da implantação prévia de um pôlder — sistema de diques, reservação e bombeamento destinado a proteger áreas rebaixadas (São Paulo, 2020). O anúncio revelou duas escalas de solução, que abrangem intervenções locais de micro drenagem e medidas estruturais relacionadas ao comportamento hidráulico da planície do Tietê. Sem articulação entre ambas, uma obra pode apenas deslocar a água ou acelerar sua chegada a um ponto já vulnerável.

Em fevereiro de 2025, o material de planejamento urbano da SP Urbanismo voltou a registrar a situação do Jardim Keralux após inundação e apresentou propostas de parque inundável e requalificação viária, no mesmo mês, a EACH descreveu as inundações como problema anual (SP Urbanismo, 2025; EACH-USP, 2025). Mapear risco é indispensável, mas o mapa não drena a rua, não indeniza perdas e não garante rota segura. A função pública da universidade consiste em conservar a memória técnica, comparar promessas e execução, produzir indicadores verificáveis e oferecer arenas nas quais moradores possam interpelar órgãos responsáveis.

Também é preciso incorporar adaptação climática. Eventos extremos tendem a pressionar sistemas de drenagem desenhados para chuvas menos intensas, mas a mudança climática não cria do zero a vulnerabilidade local. Ela agrava uma exposição previamente produzida por urbanização desigual, ocupação de várzeas sem alternativa habitacional adequada e investimento público insuficiente. Falar apenas em “evento natural” oculta decisões de uso do solo; falar apenas em clima global pode diluir responsabilidades municipais e metropolitanas.

O Adapta Keraciaba ofereceu uma resposta pedagógica relevante, criado em 2020 por estudantes da EACH, pesquisadores, parceiros institucionais e moradores, o programa combina educação para redução de riscos, visitas ao território, mapas, história oral e comunicação. Em 2025, o curso de difusão “Conhecer para Adaptar” previu cinco encontros gratuitos em formatos presencial, on-line e de visita aos bairros, reunindo graduação, pós-graduação, pesquisadores e população (EACH-USP, 2025). A iniciativa aproxima conhecimento científico e ação comunitária sem prometer substituir obras públicas.

Para avançar, a produção acadêmica deve conectar-se a um observatório territorial permanente, com registro georreferenciado de ocorrências, altura e duração da água, rotas bloqueadas, perdas, agravos à saúde e respostas do poder público. Dados comunitários precisam ter governança compartilhada, proteção de informações pessoais e utilidade prática. Alertas pluviométricos escolares, protocolos de vizinhança, comunicação com a defesa civil e avaliação pública das obras podem transformar a EACH em plataforma de prevenção. O critério de sucesso não é quantos projetos mencionam o Keralux, mas quanto o conhecimento reduz exposição, amplia direitos e aumenta o controle social sobre decisões.

4.4. Ações Sociais, Comunitárias e Culturais

O Censo Vizinhança USP é uma das iniciativas mais abrangentes de aproximação, coordenado no âmbito do Instituto de Estudos Avançados e construído com a EACH e atores locais, realizou levantamento domiciliar, mapeamento sociocultural e sistematização de propostas. Moradores atuaram como articuladores e pesquisadores, ajudando a explicar objetivos, obter confiança e interpretar o território. A participação local não foi acessória, uma vez que viabilizou a cobertura e qualificou a leitura dos dados (Silva et al., 2021; Jornal da USP, 2019).

O produto possui utilidade social porque converte experiências dispersas em evidências mobilizáveis. Informações sobre saneamento, renda, trabalho, escolaridade, saúde, raça, cultura e relação com a USP podem fundamentar projetos, reivindicações e avaliação de políticas, mais importante, o livro termina com recomendações elaboradas a partir das falas dos moradores: participação remunerada em todas as fases da pesquisa; prioridade a pesquisadores periféricos e negros; devolutivas em linguagem acessível; circulação de informações sobre serviços; apoio a cursinhos e ações afirmativas; abertura dos recursos universitários; e inserção da produção cultural do território na programação da USP (Silva et al., 2021, p. 183-184).

O Fórum do Jardim Keralux cumpre função complementar, ao reunir lideranças, docentes, servidores, serviços públicos e representantes governamentais, cria um ponto de continuidade entre demandas que de outro modo seriam tratadas separadamente. Problemas ambientais, regularização, resíduos, saúde e infraestrutura podem ser conectados. Segundo balanço institucional dos vinte anos da EACH, o fórum permanece ativo e organiza suas pautas a partir de necessidades comunitárias (Jornal da USP, 2025). Seu potencial depende, entretanto, de atas públicas, acompanhamento de encaminhamentos e poder efetivo de convocação dos órgãos responsáveis.

Essas ações constituem o Keralux como território de conhecimento em três sentidos. Epistêmico, porque reconhecem experiência e memória como fontes válidas. Político, porque organizam informação para reivindicação de direitos. Pedagógico, porque estudantes aprendem a relacionar teoria, ética, método e consequência pública. O ganho é recíproco, uma vez que a comunidade acessa redes e ferramentas, enquanto a universidade aprimora suas perguntas, seus métodos e sua responsabilidade social.

A aproximação também ocorre por práticas culturais e educacionais, o projeto Democracia, Artes e Saberes Plurais e o grupo nPeriferias criaram espaços para que pesquisadores e produtores culturais de territórios populares participassem da universidade como autores. As narrativas de Kaio Pinto e Rafael Pompeu da Silva, moradores da Vila Guaraciaba e do Jardim Keralux, mostram o efeito dessa mudança de posição, pois eles não aparecem como “casos” descritos por terceiros, mas como sujeitos que analisam os muros, a pesquisa sem retorno, as enchentes, a entrada na universidade e a transformação de sua própria trajetória (Pinto, 2020; Silva, 2020).

Em 2023, a Clínica de Direitos Humanos das Mulheres promoveu, com a Escola Estadual Irmã Annette e organizações locais, o projeto “Diminuindo Muros”, a atividade abordou direitos da juventude, saúde mental, relações raciais, violência de gênero, poesia e cultura periférica. A agenda foi construída com a escola; a saúde mental, por exemplo, surgiu como demanda local, não como tema previamente imposto pela equipe universitária. Uma estudante da EACH, ex-aluna da escola e moradora do bairro, participou da formulação e destacou que ocupar a universidade envolve mais do que ingressar na graduação (Jor-Nal da USP, 2023).

O próprio nome do projeto condensa a questão territorial, o muro entre campus e escola é material, mas simboliza diferenças de acesso e reconhecimento. Diminuí-lo não significa eliminar toda regra de segurança; significa desenhar regras que não presumam o morador como ameaça, ampliar comunicação e criar rotinas de presença recíproca. Quando profissionais do bairro são contratados e saberes locais entram na programação, a extensão deixa de ser serviço levado de fora e se aproxima de coprodução.

Outras ações do campus — cursinho popular, Festa do Livro, atividades esportivas, iniciativas de ciência para meninas e incubação social e tecnológica — aumentam a oferta cultural e formativa da região. Em balanço de 2025, a EACH informou onze cursos de graduação, cerca de quatro mil estudantes e dezenas de cursos de extensão, além de destacar o cursinho e a incubadora Habits (Jornal da USP, 2025). Esses números demonstram capacidade institucional, mas não permitem inferir automaticamente o alcance no Keralux. A avaliação territorial deve informar quantos moradores participam, quem permanece, quais barreiras enfrentam e que benefícios percebem.

O Censo Vizinhança oferece uma medida dessa distância, entre 2.957 domicílios do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba, 92,1% não tinham morador utilizando atividades ou serviços da USP; no Keralux, a proporção era 92,4%. Apenas 0,5% dos 9.131 residentes estudavam então em algum curso da Universidade e 1,3% havia frequentado curso em algum momento, incluindo modalidades livres e preparatórias (Silva et al., 2021, p. 167-170). A proximidade geográfica não se converteu em uso massivo.

Entre os domicílios que utilizavam a USP, atividades físicas, esportivas e de lazer tinham peso expressivo; ações em parceria com escola ou associação e atividades culturais também apareciam. O dado sugere que a abertura do campus não deve ser pensada apenas pelo vestibular. Quadras, biblioteca, teatro, feiras, cursos curtos, espaços de convivência e programação cultural são portas de entrada legítimas, para famílias cuja trajetória escolar não incluiu o ensino superior, uma primeira experiência acolhedora pode alterar a imagem da instituição e criar repertório para gerações futuras.

A universidade territorial, portanto, precisa operar em múltiplos tempos. Há o tempo imediato de uma oficina, consulta ou evento; o tempo formativo de cursinhos, bolsas e trajetórias escolares; e o tempo estrutural de mudanças urbanas e culturais. Ações isoladas ganham potência quando conectadas por uma política de extensão com orçamento, indicadores, comunicação local e participação na governança. Sem continuidade, projetos dependem excessivamente de docentes e estudantes específicos e podem desaparecer quando bolsas ou equipes se renovam.

4.5. O Estigma Territorial

A localização transforma endereço em julgamento sobre pessoas, a EACH desafia essa lógica, pois associa o bairro a ensino, pesquisa, cultura e inovação. Entretanto, também pode reproduzi-la quando o campus é descrito como ilha de excelência “apesar” do entorno. Essa fórmula preserva a hierarquia simbólica entre uma instituição portadora de conhecimento e uma vizinhança definida pela falta. A alternativa é reconhecer que a universidade integra o território e que parte de sua excelência deriva da capacidade de aprender com ele. Dizer “EACH no Keralux” não deve funcionar como alerta de localização, mas como compromisso público.

As narrativas dos moradores mostram que a fronteira é percebida em situações cotidianas, como a exigência pouco clara de identificação, o impedimento de atravessar o campus para acessar a estação, o desconhecimento sobre atividades gratuitas e a sensação de que as pesquisas coletam informações sem apresentar devolutivas. No Censo, entre os domicílios que apontaram incômodos, apareceram restrição de passagem, problemas de acesso, relação insuficiente com a comunidade, falta de serviços e pouca divulgação (Silva et al., 2021, p. 172-173). Pinto (2020) relata que, embora vivesse ao lado da USP, durante muito tempo não compreendia que aquele espaço pudesse integrar sua própria trajetória educacional.

Essas experiências não anulam as ações descritas na seção anterior; são o critério crítico para avaliá-las. Uma instituição pode promover projetos participativos e, ao mesmo tempo, manter rotinas administrativas excludentes. Pode contratar articuladores em uma pesquisa e invisibilizar trabalhadores locais em outra. Pode abrir um evento e conservar linguagem, horários e formulários inacessíveis. A contradição não é argumento para abandonar a extensão, mas para transformá-la em política transversal que alcance portarias, comunicação, compras, bolsas, currículos e gestão do espaço.

Há também risco de extrativismo epistêmico, a repetição de entrevistas sobre enchente e precariedade pode cansar moradores se cada nova equipe reiniciar o diagnóstico, não compartilhar resultados e não conectar os dados à ação pública. A pesquisa eticamente territorial precisa verificar o que já foi produzido, explicar limites, pactuar usos das informações, remunerar trabalho comunitário quando houver função de pesquisa e devolver produtos em formatos úteis. Publicar artigo científico é insuficiente se o conhecimento não retorna ao lugar que o tornou possível.

A crítica ao estigma demanda mudar a representação e a distribuição de recursos, no plano simbólico, a universidade deve incluir autores, artistas, lideranças e memórias locais em sua programação e em seus acervos. No plano material, pode priorizar bolsas de extensão, formação de jovens, contratação de serviços compatíveis com regras públicas e apoio a iniciativas econômicas e culturais do entorno. No plano político, deve usar sua capacidade técnica para tornar transparentes os impasses de drenagem, regularização, saneamento e contaminação, sem substituir a autonomia das organizações.

O pertencimento pode ser mensurado, indicadores possíveis incluem proporção de moradores que conhece o caráter público da USP, frequência de uso de biblioteca e equipamentos, participação local em conselhos, número de projetos com coautoria comunitária, devolutivas realizadas, bolsas destinadas a articuladores, estudantes oriundos do entorno e demandas encaminhadas pelo fórum com resposta oficial. Publicar esses dados anualmente permitiria avaliar se os muros simbólicos estão de fato diminuindo.

O ponto central é recusar duas imagens igualmente inadequadas: o Keralux como problema externo à EACH e a EACH como solução total para o Keralux. Ambos fazem parte de um mesmo território urbano desigual. A universidade possui recursos e deveres específicos; a comunidade possui conhecimento, organizações e direito de definir prioridades; o Estado detém responsabilidades indelegáveis. Uma relação democrática depende de tornar explícitas essas posições e construir cooperação sem tutela.

Os resultados sustentam a hipótese de territorialização contraditória, a EACH ampliou a visibilidade do Jardim Keralux, sediou fóruns, produziu dados inéditos, apoiou cartografias de risco e abriu oportunidades educacionais e culturais. O bairro, por sua vez, influenciou agendas de pesquisa, formou estudantes em contato com problemas públicos complexos e obrigou a instituição a refletir sobre justiça ambiental, acesso e pertencimento. A troca já existe e produz valor social.

Contudo, a escala e a continuidade permanecem aquém da proximidade física e da capacidade institucional. O dado de que 92,4% dos domicílios do Keralux não utilizavam atividades ou serviços da USP no período do censo é incompatível com uma narrativa de integração plenamente realizada. Não significa fracasso absoluto, contudo registra um ponto de partida e orienta prioridades. Também impede que a avaliação se apoie apenas no número de projetos ou participantes gerais do campus, que pode ocultar baixa presença de vizinhos imediatos.

  • Uma agenda territorial pode organizar-se em compromissos como: fortalecer o Fórum do Jardim Keralux, assegurar representação comunitária no conselho gestor do campus, publicar atas e manter painel de encaminhamentos;

  • Acesso e circulação ao revisar protocolos de entrada e passagem, divulgar atividades em escolas, UBS, associações e comércio, oferecer horários noturnos e de fim de semana e formar equipes de acolhimento. Segurança institucional e abertura pública devem ser compatibilizadas de modo transparente;

  • Justiça do conhecimento, onde projetos devem prever articuladores locais remunerados, consentimento sobre usos de dados, coautoria quando houver contribuição intelectual, devolutivas e repositório público das pesquisas, antes de iniciar novo levantamento, equipes precisam consultar a memória existente;

  • Permanência e oportunidade com cursinhos, bolsas, iniciação científica júnior, visitas continuadas, ações culturais e apoio a empreendimentos locais precisam formar trajetórias, não apenas eventos, assim como contratação de moradores e coletivos, quando juridicamente possível, reconhece competências e faz circular recursos;

  • Uma plataforma permanente de justiça ambiental e climática, universidade, moradores, escolas, UBS, defesa civil e órgãos urbanos poderiam manter observatório de chuvas e inundações, mapa vivo de pontos críticos, protocolo de alertas, inventário de perdas e monitoramento das obras, o mesmo espaço poderia acompanhar água, solo, resíduos e saneamento, distinguindo risco comprovado, incerteza e boato.

A função da EACH seria dar consistência metodológica, memória e acesso público; as prioridades seriam definidas com quem vive o território, essa agenda produzir evidências, formar agentes, preservar memória e apoiar o controle social, como formas legítimas de incidência pública.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Jardim Keralux é parte constitutiva do território no qual a EACH-USP realiza ensino, pesquisa e extensão sua história combina resistência, produção cultural e elaboração cotidiana de respostas a riscos. Contaminação, saneamento incompleto e inundações recorrentes expressam injustiças urbanas; não definem o valor de seus moradores nem podem ser usados para culpabilizá-los.

A instalação da Universidade proporcionou ganhos relacionados à visibilidade, à circulação, à produção de dados, à formação de redes institucionais, às atividades socioculturais e às oportunidades de formação. Censo Vizinhança, Fórum do Keralux, Adapta Keraciaba, mapas falados, DASP/nPeriferias e Diminuindo Muros demonstram que a relação é mais fecunda quando moradores participam como pesquisadores, autores e formuladores. Nessas experiências, o território deixa de ser laboratório e torna-se interlocutor.

Os limites são igualmente claros, o baixo uso dos serviços universitários, relatos de barreiras de acesso, informação insuficiente e pesquisas sem retorno mantêm distância simbólica apesar da vizinhança. A crítica ao estigma deve começar dentro da própria instituição, substituindo a imagem de uma USP cercada por carência pela de uma universidade pública situada em território produtor de conhecimento. Isso requer orçamento, continuidade, regras de acesso inclusivas, participação remunerada, coautoria, devolutivas e indicadores públicos.

As enchentes sintetizam a urgência dessa mudança, o problema foi narrado, fotografado, mapeado e novamente reconhecido em 2025 como ocorrência anual. O próximo passo é conectar conhecimento a proteção efetiva, preservando a responsabilidade do Estado e ampliando a capacidade comunitária de influir. A EACH pode ser uma ponte decisiva, desde que a ponte seja atravessável nos dois sentidos. Sua contribuição social mais profunda não será falar pelo Jardim Keralux, mas ajudar a criar condições para que o bairro seja ouvido, reconhecido e participante das decisões que definem seu futuro.

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1 Doutora em Geografia Humana (Universidade de São Paulo). Cursou doutorado em Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco. É mestra em Planejamento e Gestão do Território (Universidade Federal do ABC), graduada em Comunicação Social (Universidade Presbiteriana Mackenzie) e especialista em Comunicação, Design e Humanidades (Centro Universitário Maria Antônia da USP). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7110-5641.