VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA PARENTAL NA ADOLESCÊNCIA: REPERCUSSÕES NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE, NO DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL E NA FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE NA VIDA ADULTA

PARENTAL PSYCHOLOGICAL VIOLENCE DURING ADOLESCENCE: REPERCUSSIONS FOR IDENTITY CONSTRUCTION, SOCIOEMOTIONAL DEVELOPMENT, AND PERSONALITY FORMATION IN ADULTHOOD

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793697423

RESUMO
A violência psicológica parental constitui uma forma de violência intrafamiliar frequentemente invisibilizada, apesar de seus impactos significativos sobre o desenvolvimento humano. Este estudo teve como objetivo analisar as repercussões da violência psicológica parental vivenciada durante a adolescência na construção da identidade, no desenvolvimento socioemocional e na formação da personalidade na vida adulta. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, caráter descritivo e exploratório, fundamentada em produções científicas nacionais e internacionais relacionadas à violência psicológica, adolescência, trauma, identidade e personalidade. Os resultados evidenciaram que práticas parentais marcadas por rejeição, humilhação, desqualificação, negligência emocional e controle excessivo estão associadas ao desenvolvimento de baixa autoestima, ansiedade, depressão, dificuldades de regulação emocional e comprometimentos nas relações interpessoais. Observou-se ainda que experiências de violência psicológica durante a adolescência podem influenciar a construção da identidade e favorecer o desenvolvimento de padrões de apego inseguros e traços disfuncionais de personalidade na vida adulta. Conclui-se que a violência psicológica parental produz impactos duradouros sobre a saúde mental e o desenvolvimento socioemocional, tornando indispensáveis ações preventivas, intervenções multiprofissionais e estratégias de fortalecimento dos vínculos familiares.
Palavras-chave: Adolescência; Desenvolvimento socioemocional; Identidade; Personalidade; Violência psicológica parental.

ABSTRACT
Parental psychological violence is a form of intrafamily violence that often remains invisible despite its significant impact on human development. This study aimed to analyze the repercussions of parental psychological violence experienced during adolescence on identity construction, socioemotional development and personality formation in adulthood. This research consists of a bibliographic review with a qualitative, descriptive and exploratory approach, based on national and international scientific literature related to psychological violence, adolescence, trauma, identity and personality. The findings revealed that parental practices characterized by rejection, humiliation, devaluation, emotional neglect and excessive control are associated with low self-esteem, anxiety, depression, emotional regulation difficulties and impairments in interpersonal relationships. The literature also indicates that psychological violence experienced during adolescence may influence identity development and contribute to insecure attachment patterns and dysfunctional personality traits in adulthood. It is concluded that parental psychological violence has long-lasting effects on mental health and socioemotional development, highlighting the importance of preventive actions, multidisciplinary interventions and strategies aimed at strengthening family bonds.
Keywords: Adolescence; Identity; Parental psychological violence; Personality; Socioemotional development.

1. INTRODUÇÃO

A violência constitui um dos principais desafios enfrentados pelas sociedades contemporâneas, sendo reconhecida como um importante problema de saúde pública devido aos impactos que provoca no desenvolvimento humano e na qualidade de vida dos indivíduos. Entre as diversas formas de violência presentes nas relações interpessoais, a violência psicológica destaca-se por sua natureza silenciosa, muitas vezes invisibilizada socialmente e subnotificada, apesar de seus efeitos potencialmente duradouros sobre a saúde mental e emocional das vítimas.

No contexto familiar, a violência psicológica manifesta-se por meio de comportamentos recorrentes de rejeição, humilhação, desqualificação, ameaças, intimidações, controle excessivo, negligência emocional e invalidação dos sentimentos da criança ou do adolescente, comprometendo processos fundamentais para o desenvolvimento saudável.

Embora a família seja tradicionalmente concebida como espaço de acolhimento, proteção e socialização, diversos estudos apontam que esse ambiente também pode configurar-se como um local de produção e reprodução de práticas violentas. Nesse contexto, a violência psicológica parental assume especial relevância em razão da posição de autoridade e influência exercida pelos pais ou cuidadores sobre o desenvolvimento dos filhos.

A exposição contínua a interações marcadas pela hostilidade, pela crítica excessiva ou pela ausência de suporte emocional interfere não apenas na percepção que o adolescente desenvolve sobre si mesmo, mas também na forma como interpreta o mundo e estabelece relações interpessoais (Abranches; Assis, 2011; Quixadá; Santos, 2022).

A adolescência representa uma etapa particularmente sensível do desenvolvimento humano. Caracterizada por intensas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais, essa fase envolve processos fundamentais de construção da identidade, consolidação da autoestima, ampliação das relações sociais e desenvolvimento da autonomia. Durante esse período, o apoio familiar desempenha papel central na formação de recursos emocionais necessários para o enfrentamento dos desafios próprios da transição para a vida adulta.

Quando o ambiente familiar é permeado por experiências de violência psicológica, esses processos podem ser significativamente prejudicados, favorecendo o surgimento de sentimento de insegurança, baixa autoestima, ansiedade, depressão, isolamento social, dificuldades acadêmicas e problemas comportamentais.

Pesquisas nacionais e internacionais têm evidenciado associações consistentes entre experiências de violência intrafamiliar e prejuízos à saúde mental de adolescentes (Paixão; Patias; Dell'aglio, 2018; Antunes; Machado; Malta, 2020). Estudo realizado com adolescentes brasileiros identificou que contextos familiares marcados por conflitos e violência estão relacionados ao aumento de sintomas psicológicos, enquanto ambientes caracterizados por apoio emocional e coesão familiar atuam como fatores de proteção para o desenvolvimento saudável.

Investigações demonstram que adolescentes expostos à violência intrafamiliar apresentam maior vulnerabilidade a transtornos mentais, comportamentos de risco, uso de substâncias psicoativas e dificuldades de ajustamento social.

Sob a perspectiva do desenvolvimento humano, as consequências da violência psicológica parental não se restringem à adolescência. Estudos sobre trauma do desenvolvimento indicam que experiências adversas vivenciadas nas relações familiares podem produzir efeitos persistentes ao longo da vida, influenciando a construção da identidade, a formação da personalidade e os padrões de relacionamento estabelecidos na idade adulta. Nesse sentido, a exposição prolongada à violência psicológica compromete a capacidade de autorregulação emocional, favorece o desenvolvimento de estilos de apego inseguros e interfere na construção de uma autoimagem positiva e estável. Tais repercussões podem manifestar-se por meio de dificuldades afetivas, sentimentos crônicos de inadequação, hipervigilância, transtornos emocionais e padrões relacionais disfuncionais.

Além dos impactos individuais, a literatura explorada, aponta que a violência psicológica parental pode contribuir para a perpetuação de ciclos transgeracionais de violência. Isso ocorre porque experiências traumáticas vivenciadas durante o desenvolvimento tendem a influenciar crenças, comportamentos e práticas relacionais futuras, reproduzindo padrões de interação aprendidos no ambiente familiar (Ferreira; Santos, 2025). Dessa forma, compreender os efeitos da violência psicológica parental na adolescência torna-se fundamental não apenas para a promoção da saúde mental das vítimas, mas também para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção voltadas ao fortalecimento das relações familiares e à redução dos danos psicossociais associados a esse fenômeno.

Diante desse cenário, emerge o seguinte questionamento: de que maneira a violência psicológica parental vivenciada durante a adolescência influencia a construção da identidade, o desenvolvimento socioemocional e a formação da personalidade na vida adulta?

Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar as repercussões da violência psicológica parental vivenciada na adolescência sobre a construção da identidade, o desenvolvimento socioemocional e a formação da personalidade na vida adulta, por meio de uma revisão bibliográfica da literatura científica nacional e internacional.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa bibliográfica possibilita ao pesquisador entrar em contato direto com produções científicas já publicadas, favorecendo a análise crítica e a sistematização do conhecimento existente (Lakatos; Marconi, 2021). A escolha desse delineamento fundamenta-se na possibilidade de reunir, analisar e discutir produções científicas acerca da violência psicológica parental na adolescência e suas repercussões no desenvolvimento humano, permitindo a compreensão ampliada do fenômeno a partir de diferentes perspectivas teóricas e empíricas.

A pesquisa bibliográfica constitui um importante instrumento para a construção do conhecimento científico, uma vez que possibilita o levantamento, a sistematização e a análise crítica das evidências já produzidas sobre determinado tema.

A investigação foi desenvolvida mediante consulta a artigos científicos, relacionados à violência psicológica intrafamiliar, ao desenvolvimento psicológico do adolescente, à construção da identidade, à formação da personalidade e às consequências dos traumas decorrentes de relações familiares disfuncionais.

Para a composição do referencial teórico foram priorizados estudos nacionais e internacionais disponibilizados em bases de dados amplamente utilizadas na área da saúde e das ciências humanas, tais como Scientific Electronic Library Online - SciELO, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde - LILACS, PubMed, Portal de Periódicos CAPES e Google acadêmicos. Para (Prodanov; Freitas, 2013) esse procedimento permitiu a reunião de diferentes contribuições teóricas e empíricas relacionadas ao objeto de estudo, favorecendo uma compreensão abrangente do fenômeno investigado, conforme recomendam os autores para pesquisas bibliográficas.”

Foram utilizados descritores relacionados ao tema da pesquisa, entre eles: “violência psicológica AND adolescência”, “violência parental” AND violência psicológica”, “violência intrafamiliar AND adolescência”, “trauma psicológico AND identidade”, “personalidade” AND desenvolvimento socioemocional” e “saúde mental AND violência parental”. Também foram considerados estudos que abordavam terminologias correlatas, como abuso emocional, maus-tratos psicológicos, trauma do desenvolvimento e violência doméstica contra crianças e adolescentes. As obras selecionadas apresentavam relação direta com o problema investigado e contribuíam para a compreensão das repercussões da violência psicológica parental ao longo do desenvolvimento humano.

Como critérios de inclusão, a definição prévia dos critérios de seleção constitui etapa fundamental para garantir a consistência metodológica da revisão e a adequação dos estudos aos objetivos da pesquisa (Prodanov; Freitas, 2013). Foram excluídos materiais que tratavam exclusivamente de outras formas de violência sem estabelecer relação com aspectos psicológicos, assim como estudos cujo conteúdo não apresentava aderência aos objetivos da presente investigação, estudos duplicados nas bases de dados, aqueles que estiverem disponíveis na íntegra ou que não apresentem relação direta com o tema investigado.

Após a seleção do material, realizou-se a leitura exploratória, seguida de leitura analítica e interpretativa das produções científicas. De acordo com Lakatos e Marconi (2021), a análise do material bibliográfico requer um processo sistemático de leitura, interpretação e organização das informações, de modo a possibilitar a construção de inferências consistentes sobre o tema investigado. De acordo com Gil (2008, p. 50), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida “a partir de material já elaborado, constituído principalmente de artigos científicos relacionados ao tema”.

Posteriormente, os conteúdos foram organizados em categorias temáticas que permitiram a identificação dos principais aspectos discutidos pela literatura acerca das manifestações da violência psicológica parental, dos impactos sobre o desenvolvimento socioemocional durante a adolescência e das repercussões observadas na construção da identidade e da personalidade na vida adulta. Essa estratégia de análise favoreceu a sistematização dos achados e a construção de uma discussão crítica fundamentada nas evidências científicas disponíveis.

Por se tratar de uma revisão bibliográfica baseada em estudos previamente publicados e acessíveis ao público, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, visto que não houve contato direto com participantes nem produção de dados oriundos de investigação envolvendo seres humanos.

3. RESULTADOS

A busca e seleção dos estudos resultaram na inclusão de seis artigos que apresentaram aderência aos objetivos desta revisão bibliográfica. Os trabalhos selecionados abordaram diferentes aspectos relacionados à violência psicológica parental, contemplando suas repercussões no desenvolvimento socioemocional, na construção da identidade e nas experiências observadas na vida adulta.

Figura 1. Fluxograma do Processo de Seleção de Artigos

Fonte: Elaborado pela autora, 2026.

Segue abaixo, um quadro de caracterização dos estudos incluídos na revisão bibliográfica, especificando os autores, objetivos dos trabalhos de cada um deles, bem como os métodos e principais resultados dos seus estudos.

Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão bibliográfica

Autor/Ano

Objetivo

Método

Principais resultados

Abranches e Assis (2011)

Analisar a invisibilidade da violência psicológica

Revisão teórica

Dificuldade de identificação da violência psicológica e associação com prejuízos emocionais e sociais

Paixão, Patias e Dell'Aglio (2018)

Investigar violência, clima familiar e saúde mental

Estudo correlacional

Associação entre violência familiar e sintomas psicológicos em adolescentes

Antunes, Machado e Malta (2020)

Identificar fatores de risco e proteção

Estudo epidemiológico

Maior vulnerabilidade a transtornos mentais e comportamentos de risco

Quixadá e Santos (2022)

Discutir impactos psíquicos da violência psicológica

Revisão de literatura

Baixa autoestima, insegurança emocional e dificuldades relacionais

Alves, Sá e Fernandes (2021)

Compreender violência simbólica na família

Estudo teórico

Naturalização e reprodução de práticas abusivas

Ferreira e Santos (2025)

Analisar os impactos da violência parental na identidade adulta

Revisão teórica

Experiências traumáticas interferem na formação da identidade, da personalidade e dos vínculos afetivos

Fonte: Elaborado pela autora, 2026.

4. DISCUSSÃO

Os estudos analisados apresentaram resultados convergentes quanto aos impactos da violência psicológica parental sobre o desenvolvimento socioemocional dos adolescentes. Paixão, Patias e Dell'Aglio (2018), Antunes, Machado e Malta (2020) e Quixadá e Santos (2022) identificaram associações entre experiências de violência intrafamiliar e prejuízos à saúde mental.

Embora cada estudo tenha investigado aspectos distintos, observou-se predominância de resultados relacionados à insegurança emocional, baixa autoestima, sintomas ansiosos e dificuldades de relacionamento interpessoal. Enquanto Paixão, Patias e Dell'Aglio (2018) enfatizam o aumento de sintomas psicológicos em contextos familiares marcados por violência, Antunes, Machado e Malta (2020) destacam a maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos mentais e comportamentos de risco. Já Quixadá e Santos (2022) concentraram sua análise nos impactos subjetivos, ressaltando sentimentos de desvalorização e dificuldades relacionais.

Em conjunto, os achados sugerem que a violência psicológica parental pode comprometer dimensões importantes do desenvolvimento socioemocional durante a adolescência, especialmente aquelas relacionadas à autoestima, à regulação emocional e à construção de vínculos sociais. Os parágrafos seguintes caracterizarão de maneira mais específica a violência psicológica parental no contexto familiar.

4.1. Caracterização da Violência Psicológica Parental no Contexto Familiar

A literatura científica evidencia que a violência psicológica parental constitui uma das formas mais frequentes e menos perceptíveis de violência intrafamiliar. Diferentemente das agressões físicas, a violência psicológica apresenta características sutis, o que dificulta sua identificação por familiares, profissionais e até pelas próprias vítimas (Abranches; Assis, 2011). A violência psicológica caracteriza-se por um conjunto de comportamentos recorrentes praticados pelos pais ou responsáveis que comprometem o desenvolvimento emocional da criança e do adolescente, afetando sua autoestima, sua percepção de valor pessoal e sua capacidade de estabelecer vínculos saudáveis.

Entre as principais manifestações de violência psicológica, destacam-se comportamentos como comparações depreciativas, desqualificação sistemática e ausência de reconhecimento das necessidades emocionais do adolescente (Quixadá; Santos, 2022; Abranches; Assis, 2011).

Estudos revisados indicam que esse tipo de violência ocorre predominantemente no ambiente doméstico, sendo muitas vezes naturalizado como método educativo ou estratégia disciplinar (Alves; Sá; Fernandes, 2021). Tal naturalização contribui para a perpetuação de práticas parentais coercitivas, dificultando o reconhecimento dos danos psicológicos produzidos por essas experiências ao longo do desenvolvimento humano.

4.2. Efeitos da Violência Psicológica no Desenvolvimento Socioemocional do Adolescente

Os estudos analisados indicam que a violência psicológica parental pode repercutir de diferentes maneiras no desenvolvimento socioemocional dos adolescentes. Apesar das especificidades de cada pesquisa, observa-se uma aproximação entre os resultados no que se refere aos prejuízos emocionais associados à vivência de relações familiares marcadas por violência, conflitos e fragilidade dos vínculos afetivos.

Ao investigarem a relação entre violência, clima familiar e saúde mental, Paixão, Patias e Dell'Aglio (2018) identificaram que adolescentes inseridos em contextos familiares conflituosos apresentavam maior ocorrência de sintomas psicológicos. As autoras também destacam que ambientes caracterizados por diálogo, apoio emocional e coesão familiar tendem a funcionar como elementos de proteção ao desenvolvimento saudável.

Resultados semelhantes foram encontrados por Antunes, Machado e Malta (2020), que observaram maior vulnerabilidade a transtornos mentais e comportamentos de risco entre adolescentes expostos à violência intrafamiliar. Embora o foco do estudo estivesse voltado aos fatores de risco e proteção, os achados reforçam a importância do ambiente familiar para a saúde mental nessa fase do desenvolvimento.

Por sua vez, Quixadá e Santos (2022) enfatizam os impactos subjetivos da violência psicológica, destacando manifestações como insegurança emocional, baixa autoestima e dificuldades nas relações interpessoais. Diferentemente dos demais estudos, que direcionam maior atenção aos indicadores de saúde mental, as autoras concentram sua análise na experiência emocional decorrente do abuso psicológico e nos efeitos produzidos sobre a forma como o adolescente percebe a si mesmo e se relaciona com os outros.

Quando esses resultados são analisados em conjunto, percebe-se que a baixa autoestima, o sofrimento emocional e as dificuldades de relacionamento aparecem de maneira recorrente nas diferentes pesquisas. Embora os estudos adotem abordagens distintas, todos apontam para a existência de associações entre a violência psicológica parental e prejuízos ao desenvolvimento socioemocional. Ao mesmo tempo, evidenciam que relações familiares pautadas pelo acolhimento, pela escuta e pelo suporte emocional podem contribuir para minimizar tais impactos.

Dessa forma, os achados da literatura sugerem que a violência psicológica parental não se restringe a episódios isolados de conflito familiar, mas pode estar relacionada a dificuldades emocionais e sociais que acompanham o adolescente durante um período importante de sua formação pessoal.

4.3. Impactos da Violência Psicológica na Construção da Identidade e da Personalidade

A análise dos estudos selecionados sugere que a violência psicológica parental pode repercutir de maneira significativa na construção da identidade durante a adolescência. Entre os resultados encontrados, destacam-se aspectos relacionados à autoestima, à autoimagem e à percepção que o indivíduo desenvolve sobre si mesmo ao longo do processo de amadurecimento.

Quixadá e Santos (2022) observam que experiências marcadas por desvalorização, rejeição e ausência de validação emocional tendem a afetar a forma como crianças e adolescentes se percebem, favorecendo sentimento de insegurança e baixa autoestima. Na mesma direção, Ferreira e Santos (2025) discutem que vivências traumáticas no ambiente familiar podem influenciar a construção da identidade e permanecer presentes mesmo em fases posteriores do desenvolvimento, repercutindo na maneira pela qual o indivíduo compreende sua própria trajetória e estabelece relações com outras pessoas.

Embora partam de perspectivas distintas, os achados de Alves, Sá e Fernandes (2021) contribuem para ampliar essa discussão ao destacarem que determinadas práticas de violência psicológica são frequentemente naturalizadas nas relações familiares. Segundo os autores, essa naturalização dificulta o reconhecimento dos prejuízos emocionais produzidos por comportamentos abusivos, fazendo com que experiências de desqualificação e controle excessivo sejam incorporadas ao cotidiano sem serem percebidas como formas de violência.

Ao comparar os estudos, percebe-se que todos apontam para a relevância das experiências familiares na formação do autoconceito. As diferenças aparecem principalmente no foco das análises: enquanto Quixadá e Santos (2022) enfatizam os efeitos emocionais imediatos da violência psicológica, Alves, Sá e Fernandes (2021) concentram-se nos mecanismos sociais que favorecem a permanência dessas práticas, e Ferreira e Santos (2025) destacam possíveis repercussões observadas ao longo da vida. Apesar dessas particularidades, os estudos convergem ao indicar que relações familiares marcadas por rejeição, humilhação e invalidação emocional podem interferir negativamente nos processos de construção identitária.

Nesse sentido, os resultados analisados permitem compreender que a identidade não se desenvolve de forma isolada, mas é construída a partir das interações estabelecidas no contexto familiar. Assim, os achados contribuem para responder ao objetivo da pesquisa ao indicar que a violência psicológica parental pode estar associada a dificuldades na formação de uma percepção positiva e estável de si mesmo, especialmente durante a adolescência, período marcado por intensas transformações pessoais e sociais.

4.4. Repercussões da Violência Psicológica Parental na Vida Adulta

Além dos impactos observados durante a adolescência, os estudos analisados indicam que experiências de violência psicológica parental podem produzir repercussões que se estendem para a vida adulta. Embora os resultados não permitam generalizações absolutas, as pesquisas apontam associações relevantes entre vivências familiares adversas e dificuldades emocionais, relacionais e psicológicas observadas posteriormente.

Ferreira e Santos (2025) identificaram que experiências traumáticas relacionadas à violência parental podem influenciar aspectos ligados à identidade, à personalidade e ao estabelecimento de vínculos afetivos na vida adulta. Segundo os autores, as marcas deixadas por relações familiares abusivas podem refletir na forma como os indivíduos interpretam a si mesmos e constroem seus relacionamentos ao longo da vida.

De maneira complementar, Quixadá e Santos (2022) destacam que os impactos emocionais decorrentes da violência psicológica nem sempre se limitam ao período em que ela ocorre. Os autores observam que sentimento de insegurança, baixa autoestima e dificuldades relacionais podem permanecer presentes ao longo do desenvolvimento, influenciando diferentes áreas da vida do indivíduo.

Embora o foco de Antunes, Machado e Malta (2020) esteja direcionado à adolescência, os resultados apresentados pelas autoras também contribuem para essa discussão ao demonstrarem que a exposição à violência intrafamiliar está associada a maior vulnerabilidade psicológica. Considerando que os processos de desenvolvimento ocorrem de forma contínua, tais fragilidades podem repercutir em etapas posteriores, especialmente quando não existem mecanismos de proteção ou apoio adequados.

Ao analisar os estudos em conjunto, observa-se que as principais repercussões mencionadas estão relacionadas às dificuldades na construção e manutenção de relacionamentos, à persistência de sofrimento emocional e à maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Por outro lado, os próprios estudos ressaltam que essas trajetórias não são determinadas exclusivamente pelas experiências de violência. Elementos como suporte psicológico, relações afetivas seguras, redes de apoio e processos de ressignificação das experiências vividas podem contribuir para reduzir ou minimizar os impactos observados.

Dessa forma, os achados da revisão indicam que a violência psicológica parental pode ultrapassar os limites da adolescência e influenciar diferentes dimensões da vida adulta. Ao relacionar esses resultados ao objetivo da pesquisa, torna-se possível compreender que as consequências dessa forma de violência não se restringem ao momento em que ela ocorre, podendo acompanhar o indivíduo em seu percurso de desenvolvimento, especialmente nos aspectos relacionados à saúde mental, aos vínculos afetivos e à construção da própria identidade.

4.5. Diálogo Entre os Achados da Revisão e os Referenciais Teóricos

Por fim, os resultados evidenciaram que a violência psicológica parental constitui um fator de risco significativo para o desenvolvimento biopsicossocial do adolescente, produzindo repercussões que frequentemente se estendem até a vida adulta. Segundo essa perspectiva, para Bowlby (2015, p. 21), “o apego constitui um mecanismo fundamental para a busca de proteção e segurança ao longo do desenvolvimento.” As evidências analisadas demonstraram que práticas parentais caracterizadas por rejeição, humilhação, negligência emocional, desqualificação constante e controle excessivo afetam diretamente a construção da identidade, o desenvolvimento socioemocional e a formação da personalidade dos indivíduos.

Nesse contexto, a teoria do apego proposta por John Bowlby contribui para compreender os impactos das relações parentais na constituição psicológica dos filhos. O autor Erikson (1976, p. 96) “afirma que a formação da identidade representa uma das tarefas centrais do desenvolvimento humano.” Segundo essa perspectiva, as primeiras relações de cuidado exercem papel fundamental na formação dos modelos internos de funcionamento que orientam as percepções sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo.

Segundo Winnicott (2011, p. 62), “o desenvolvimento saudável depende da oferta de um ambiente suficientemente bom, capaz de favorecer a maturação emocional do indivíduo.” Entretanto, quando predominam atitudes de rejeição, hostilidade ou instabilidade emocional, aumentam as probabilidades do desenvolvimento de padrões de apego inseguros, frequentemente associados a dificuldades emocionais e relacionais ao longo da vida. Os achados identificados na literatura corroboram essa compreensão ao apontarem que adolescentes expostos à violência psicológica apresentam maiores dificuldades na construção da autoestima, da confiança interpessoal e da regulação emocional.

Os resultados também podem ser interpretados à luz da teoria psicossocial de Erik Erikson. Para o autor, a adolescência representa uma etapa central para a consolidação da identidade, na qual o indivíduo procura integrar suas experiências pessoais, sociais e familiares em uma percepção relativamente estável de si mesmo. Nesse período, a presença de relações familiares marcadas por violência e invalidação emocional pode dificultar a resolução adequada da crise identidade versus confusão de papéis, favorecendo sentimentos de inadequação, insegurança e fragilidade emocional. As evidências encontradas sugerem que a violência psicológica interfere justamente nesse processo, comprometendo a construção de uma identidade consistente e saudável.

As contribuições de Donald Winnicott também auxiliam na compreensão dos resultados observados. O autor enfatiza a importância de um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento emocional saudável da criança e do adolescente. A presença de cuidadores capazes de oferecer suporte afetivo, proteção e estabilidade favorece a construção do verdadeiro self e o fortalecimento do sentimento de segurança psicológica. Em contrapartida, ambientes marcados pela violência psicológica tendem a produzir adaptações defensivas que limitam a expressão espontânea do indivíduo, podendo resultar em dificuldades emocionais e relacionais persistentes durante a vida adulta.

Os estudos analisados, demonstram que a ausência de acolhimento e validação emocional contribui para o desenvolvimento de sentimentos de inadequação, baixa autoestima e dificuldades na formação de vínculos afetivos satisfatórios (Bourdieu, 1989).

Sob uma perspectiva sociológica os achados dialogam com os pressupostos acerca da violência simbólica. Conforme discutido nas literaturas, determinadas práticas parentais abusivas podem ser socialmente naturalizadas e legitimadas como formas de educação e disciplina. Nesse sentido, a violência psicológica frequentemente deixa de ser reconhecida como violência, passando a ser compreendida como estratégia corretiva ou expressão legítima da autoridade parental. Essa naturalização contribui para a reprodução de padrões relacionais violentos e para a incorporação de disposições psicológicas que afetam a formação da identidade dos adolescentes.

Os resultados encontrados reforçam essa interpretação ao evidenciarem a persistência de comportamentos abusivos transmitidos entre gerações e mantidos por meio de processos culturais e familiares de socialização.

Outro aspecto relevante refere-se à compreensão do trauma psicológico decorrente das experiências de violência parental. Os estudos fundamentados na abordagem do trauma do desenvolvimento indicam que a exposição prolongada a situações de abuso emocional produz alterações significativas nos processos de autorregulação emocional, percepção de segurança e funcionamento interpessoal.

Conforme discutido por pesquisas recentes, o trauma decorrente das relações parentais não se limita à experiência vivida no momento da agressão, mas repercute na forma como o indivíduo interpreta eventos futuros, estabelece relações afetivas e constrói sua própria identidade. As evidências levantadas nesta revisão demonstraram associações entre violência psicológica parental e sintomas de ansiedade, depressão, hipervigilância, insegurança afetiva e dificuldades interpessoais, corroborando os pressupostos da literatura sobre trauma complexo.

Além dos impactos individuais, observou-se que a violência psicológica se relaciona à reprodução de ciclos transgeracionais de sofrimento. Estudos revisados indicam que experiências traumáticas não elaboradas podem favorecer a repetição de padrões disfuncionais nas relações familiares futuras, perpetuando formas de violência aprendidas durante os processos de socialização. Tal constatação reforça a necessidade de intervenções preventivas voltadas à promoção de práticas parentais saudáveis e ao fortalecimento dos vínculos familiares.

Por outro lado, a literatura também evidencia a existência de fatores protetivos capazes de minimizar os efeitos da violência psicológica. O apoio emocional familiar, a presença de vínculos afetivos seguros, a supervisão parental adequada, o diálogo aberto e o acesso a redes de apoio social e psicológico mostraram-se importantes mecanismos de proteção para a saúde mental dos adolescentes. Esses fatores atuam favorecendo o desenvolvimento da autoestima, da resiliência e das habilidades socioemocionais, contribuindo para a redução dos impactos negativos decorrentes das experiências adversas vivenciadas no contexto familiar.

Dessa forma, os resultados desta revisão permitem compreender que a violência psicológica parental transcende os limites do período em que é vivenciada, influenciando diretamente aspectos centrais do desenvolvimento humano. Sua ocorrência durante a adolescência compromete processos fundamentais relacionados à identidade, à personalidade e à saúde mental, evidenciando a necessidade de políticas públicas, estratégias preventivas e intervenções multiprofissionais voltadas à proteção integral de crianças e adolescentes.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão bibliográfica teve como objetivo analisar as repercussões da violência psicológica parental vivenciada durante a adolescência sobre a construção da identidade, o desenvolvimento socioemocional e a formação da personalidade na vida adulta. A partir da análise da literatura científica, constatou-se que a violência psicológica constitui uma forma de agressão frequentemente invisibilizada no contexto familiar, embora apresente potencial significativo para comprometer diferentes dimensões do desenvolvimento humano.

Os estudos analisados evidenciaram que a exposição contínua a práticas parentais caracterizadas por humilhação, rejeição, desvalorização, negligência emocional, intimidação e controle excessivo pode afetar negativamente a saúde mental dos adolescentes. Nesse contexto, foram identificadas associações entre a vivência da violência psicológica e o desenvolvimento de sintomas ansiosos e depressivos, dificuldades de socialização, baixa autoestima, insegurança emocional e prejuízos na construção de relações interpessoais saudáveis.

Observou-se ainda que os efeitos da violência psicológica parental não se restringem ao período da adolescência. As evidências encontradas indicam que experiências traumáticas vivenciadas nessa fase podem influenciar a construção da identidade, a percepção de si mesmo e a formação da personalidade, repercutindo na vida adulta por meio de dificuldades emocionais, fragilidade dos vínculos afetivos, padrões de apego inseguros e maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos psicológicos.

Outro aspecto relevante identificado na literatura refere-se à possibilidade de reprodução intergeracional da violência. A naturalização de práticas abusivas no ambiente familiar pode favorecer a perpetuação de padrões relacionais disfuncionais, contribuindo para a manutenção de ciclos de sofrimento emocional entre diferentes gerações. Tal constatação reforça a necessidade de ações preventivas voltadas à promoção de relações familiares mais saudáveis e à conscientização sobre os impactos da violência psicológica no desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Como contribuição para a área das Ciências da Saúde, este estudo amplia a compreensão acerca dos efeitos duradouros da violência psicológica parental e destaca a importância do fortalecimento de estratégias de prevenção, identificação precoce e intervenção multidisciplinar. A atuação integrada entre profissionais da saúde, educação, assistência social e demais setores envolvidos na proteção de crianças e adolescentes mostra-se fundamental para minimizar os danos decorrentes dessa forma de violência e promover o desenvolvimento integral dos indivíduos.

Entre as limitações deste estudo, destaca-se sua natureza exclusivamente bibliográfica, o que impossibilita a observação direta das experiências vivenciadas pelos sujeitos investigados. Além disso, a diversidade conceitual presente na literatura acerca da violência psicológica representa um desafio para a uniformização das análises e comparações entre os estudos

Por fim, recomenda-se a realização de novas pesquisas empíricas que investiguem, de forma longitudinal, as relações entre violência psicológica parental, construção da identidade e desenvolvimento da personalidade, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento científico e para a elaboração de políticas públicas e estratégias de intervenção mais eficazes no enfrentamento dessa problemática.

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WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2011.


1 Acadêmico do curso de Bacharelado em Psicologia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Acadêmico do curso de Bacharelado em Psicologia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail