USO DE TELAS NO CONTEXTO FAMILIAR E SEUS IMPACTOS NA EDUCAÇÃO

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18285858


Raimundo Mendes de Paula Neto1


RESUMO
O uso crescente de dispositivos digitais no contexto familiar tem provocado transformações significativas nos processos de socialização, aprendizagem e desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Tablets, smartphones, televisores e computadores tornaram-se parte integrante do cotidiano, influenciando hábitos, relações familiares e práticas educativas. Nesse cenário, a educação escolar é diretamente impactada, tanto positivamente quanto negativamente, exigindo uma atuação articulada entre família e escola. Este artigo analisa os impactos do uso de telas no contexto familiar sobre o processo educativo, destacando seus benefícios, riscos e desafios, bem como a importância da mediação parental e da parceria com a escola.
Palavras-chave: Uso de telas. Família. Educação. Tecnologias digitais. Aprendizagem.

ABSTRACT
The increasing use of digital devices in the family context has caused significant changes in the processes of socialization, learning, and development of children and adolescents. Tablets, smartphones, televisions, and computers have become an integral part of everyday life, influencing habits, family relationships, and educational practices. In this scenario, school education is directly affected, both positively and negatively, requiring coordinated action between family and school. This article analyzes the impacts of screen use in the family context on the educational process, highlighting its benefits, risks, and challenges, as well as the importance of parental mediation and partnership with the school.
Keywords: Screen use. Family. Education. Digital technologies. Learning.

Introdução

A presença das tecnologias digitais no cotidiano das famílias é um fenômeno irreversível da sociedade contemporânea. Crianças e adolescentes crescem em ambientes permeados por telas, aplicativos, jogos digitais, redes sociais e plataformas de vídeo. Essa realidade modifica profundamente as formas de comunicação, lazer, interação social e aprendizagem. Segundo Buckingham (2010), a cultura digital redefine os modos de produzir conhecimento e de se relacionar com o mundo, exigindo uma nova compreensão do papel da educação.

A expansão do acesso às tecnologias digitais transformou o espaço doméstico em um ambiente de múltiplas mediações tecnológicas. A televisão, que durante décadas foi o principal meio de entretenimento familiar, foi gradativamente substituída por dispositivos móveis que oferecem acesso contínuo à internet e a uma diversidade quase ilimitada de conteúdos. Crianças cada vez mais cedo aprendem a manusear telas sensíveis ao toque, navegar por aplicativos e interagir em ambientes digitais. Esse cenário altera profundamente os modos de socialização, de brincadeira, de comunicação e de construção do conhecimento, produzindo novos desafios para a família e para a escola.

No contexto da infância e da adolescência, o uso de telas assume um papel central no cotidiano. Jogos digitais, vídeos, redes sociais e plataformas educacionais fazem parte da rotina diária, influenciando hábitos, valores e formas de interação. De acordo com Livingstone (2014), as tecnologias digitais passaram a integrar os processos de construção da identidade, do pertencimento social e da aprendizagem, o que torna indispensável compreender seus impactos para o desenvolvimento humano. Nesse sentido, o ambiente familiar deixa de ser apenas um espaço físico de convivência e passa a se configurar também como um espaço digital de experiências, relações e aprendizagens.

A relação entre família, tecnologia e educação torna-se, portanto, cada vez mais complexa. O uso de telas no ambiente doméstico pode favorecer o acesso a informações, estimular a curiosidade e ampliar as oportunidades de aprendizagem. Crianças e adolescentes podem explorar conteúdos educativos, participar de atividades escolares online e desenvolver competências digitais relevantes para a vida acadêmica e profissional. Moran (2015) destaca que as tecnologias digitais, quando utilizadas de forma pedagógica, contribuem para a personalização da aprendizagem, permitindo que os estudantes avancem de acordo com seus ritmos, interesses e necessidades.

Entretanto, o uso excessivo ou desregulado das telas também pode gerar impactos negativos. A exposição prolongada a dispositivos digitais está associada a problemas de atenção, dificuldades de concentração, redução da leitura, distúrbios do sono e diminuição das interações sociais presenciais. Além disso, o consumo de conteúdos superficiais, repetitivos ou inadequados pode comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de reflexão. A Organização Mundial da Saúde (2019) alerta para os riscos do sedentarismo digital e da exposição excessiva às telas, especialmente na infância, período crucial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

Nesse cenário, a família desempenha um papel fundamental como mediadora do uso das tecnologias. Pais e responsáveis são chamados a estabelecer limites, orientar escolhas e promover práticas equilibradas que articulem atividades digitais, estudo, lazer, convivência social e descanso. No entanto, muitos adultos também enfrentam dificuldades para lidar com a cultura digital, seja por falta de informação, seja por insegurança diante das rápidas transformações tecnológicas. Ribeiro e Coscarelli (2017) ressaltam que o letramento digital das famílias é essencial para que possam orientar as crianças no uso crítico, ético e responsável das tecnologias.

A escola, por sua vez, também se encontra profundamente impactada pela presença das tecnologias digitais. Plataformas educacionais, ambientes virtuais de aprendizagem, recursos multimídia e aplicativos pedagógicos tornaram-se parte integrante das práticas de ensino. O uso de tecnologias na educação amplia as possibilidades didáticas, favorecendo metodologias mais interativas, colaborativas e personalizadas. No entanto, essa incorporação exige planejamento, formação docente e articulação com o contexto familiar, pois grande parte das atividades digitais ocorre fora do espaço escolar, no ambiente doméstico.

A pandemia de COVID-19 evidenciou de forma ainda mais clara a centralidade das tecnologias digitais na educação. O ensino remoto e o ensino híbrido intensificaram o uso de telas pelas crianças e adolescentes, deslocando parte significativa das atividades escolares para o espaço doméstico. Nesse período, a família passou a assumir um papel ainda mais ativo no acompanhamento da aprendizagem, mediando o acesso às plataformas, organizando rotinas e apoiando os estudantes. Essa experiência reforçou a importância da parceria entre família e escola no uso pedagógico das tecnologias.

Diante desse contexto, torna-se imprescindível refletir sobre os impactos do uso de telas no ambiente familiar para o processo educativo. Não se trata de demonizar a tecnologia nem de adotá-la de forma acrítica, mas de compreender como ela influencia a aprendizagem, o comportamento e o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. A educação contemporânea precisa considerar que o estudante é um sujeito imerso na cultura digital, cujas experiências com as telas moldam sua forma de aprender, de se relacionar e de interpretar o mundo.

Assim, discutir o uso de telas no contexto familiar implica abordar questões pedagógicas, sociais, culturais e éticas. Envolve refletir sobre os limites, as possibilidades e as responsabilidades compartilhadas entre família e escola. Conforme defende Buckingham (2010), a educação deve assumir um papel central na mediação da cultura digital, ajudando os estudantes a compreender, analisar e utilizar as tecnologias de forma crítica e produtiva.

Portanto, este artigo propõe-se a analisar os impactos do uso de telas no ambiente familiar e suas implicações para a educação, buscando compreender de que modo a mediação parental, a parceria com a escola e o uso consciente das tecnologias podem contribuir para uma aprendizagem mais significativa, equilibrada e alinhada às necessidades do século XXI.

O Uso De Telas no Cotidiano das Famílias

O avanço tecnológico possibilitou que dispositivos digitais se tornassem cada vez mais acessíveis e presentes no lar. Crianças utilizam smartphones e tablets desde a primeira infância, seja para entretenimento, seja para atividades educativas. Para Livingstone (2014), a infância contemporânea está profundamente conectada às mídias digitais, o que influencia a forma como as crianças brincam, aprendem e se relacionam.

Nas últimas décadas, as tecnologias digitais passaram a ocupar um lugar central na organização da vida cotidiana das famílias. A presença de smartphones, computadores, televisores inteligentes e tablets tornou-se quase universal, transformando o ambiente doméstico em um espaço híbrido, no qual o físico e o digital se articulam de maneira constante. Essa realidade modifica profundamente as dinâmicas familiares, os hábitos de convivência e as formas de acesso à informação. Crianças e adolescentes crescem em um contexto no qual a interação com telas é tão natural quanto brincar, conversar ou estudar, o que demanda novas formas de mediação por parte dos adultos.

No ambiente familiar, as telas assumem diferentes funções: entretenimento, comunicação, apoio às tarefas escolares e, em alguns casos, substituição da interação direta entre pais e filhos. Embora as tecnologias possam enriquecer o repertório cultural e cognitivo das crianças, o uso excessivo ou sem mediação pode comprometer o desenvolvimento da atenção, da linguagem e das habilidades sociais. De acordo com Buckingham (2010), o contato contínuo com mídias digitais influencia não apenas o que as crianças consomem, mas também como elas pensam, se expressam e constroem suas identidades.

Um dos aspectos mais evidentes do uso de telas no cotidiano familiar é a mudança nas formas de brincar. Jogos tradicionais, brincadeiras ao ar livre e interações presenciais vêm sendo progressivamente substituídos ou complementados por jogos digitais, vídeos e aplicativos interativos. Embora muitos desses recursos possuam potencial educativo, o tempo excessivo diante das telas pode reduzir oportunidades de socialização, imaginação e desenvolvimento motor. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2019), o equilíbrio entre atividades digitais, brincadeiras físicas e interação social é fundamental para o desenvolvimento saudável na infância.

Além disso, as telas influenciam os padrões de comunicação dentro da família. Em muitos lares, pais e filhos compartilham o mesmo espaço físico, mas estão conectados a universos digitais distintos, o que pode diminuir o diálogo e a convivência. Para Turkle (2011), o uso intensivo de dispositivos móveis pode criar uma ilusão de conexão, ao mesmo tempo em que fragiliza as relações interpessoais presenciais. Isso não significa que as tecnologias sejam intrinsecamente prejudiciais, mas que seu uso precisa ser equilibrado e mediado.

Por outro lado, as tecnologias digitais também oferecem oportunidades importantes para a vida familiar. Aplicativos de comunicação permitem que familiares mantenham contato mesmo à distância, plataformas educacionais possibilitam o acompanhamento das atividades escolares e conteúdos digitais podem ampliar o repertório cultural das crianças. Moran (2015) destaca que as tecnologias, quando utilizadas de forma consciente, podem fortalecer a aprendizagem e a interação, desde que estejam integradas a práticas educativas significativas.

No que se refere à educação, o uso de telas no contexto familiar tornou-se ainda mais relevante com a expansão do ensino digital e híbrido. Muitas atividades escolares são realizadas em plataformas online, exigindo que as famílias acompanhem, orientem e apoiem os estudantes. Esse cenário evidencia a necessidade de que pais e responsáveis desenvolvam competências de letramento digital, para que possam auxiliar as crianças na organização do tempo, na seleção de fontes confiáveis e no uso ético das tecnologias (RIBEIRO; COSCARELLI, 2017).

Entretanto, nem todas as famílias possuem as mesmas condições de acesso e de uso das tecnologias. A desigualdade digital ainda é uma realidade em muitos contextos, o que pode comprometer a participação dos estudantes em atividades mediadas por telas. Segundo Castells (2010), a exclusão digital aprofunda desigualdades sociais, tornando fundamental que políticas públicas e ações educacionais promovam o acesso equitativo às tecnologias e à formação para seu uso crítico.

Outro aspecto importante refere-se à exposição das crianças a conteúdos inadequados, publicidade excessiva e redes sociais. Sem a devida mediação, o ambiente digital pode expor os estudantes a riscos como cyberbullying, desinformação e consumo acrítico de informações. Buckingham (2010) ressalta que a educação para a mídia deve começar no ambiente familiar, com o apoio da escola, de modo a formar usuários críticos e responsáveis.

Nesse contexto, o papel dos pais como mediadores do uso de telas torna-se central. Estabelecer limites de tempo, dialogar sobre os conteúdos acessados e incentivar atividades diversificadas são estratégias essenciais para que as tecnologias contribuam para o desenvolvimento integral das crianças. A mediação parental não se restringe ao controle, mas envolve a orientação, o acompanhamento e o exemplo no uso equilibrado das tecnologias.

Assim, o uso de telas no cotidiano das famílias configura-se como um fenômeno complexo, que envolve oportunidades e desafios. Quando utilizadas de forma consciente, as tecnologias podem enriquecer a aprendizagem, ampliar o acesso à informação e fortalecer vínculos. Contudo, quando usadas de maneira excessiva ou sem mediação, podem comprometer o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Dessa forma, a articulação entre família, escola e políticas públicas é fundamental para garantir que o uso das telas esteja a serviço da educação e da formação integral das crianças e dos adolescentes.

Impactos do Uso de Telas Na Aprendizagem

O uso de tecnologias digitais pode favorecer a aprendizagem quando utilizado de maneira equilibrada e orientada. Recursos digitais permitem acesso a vídeos educativos, jogos pedagógicos, plataformas de leitura e ambientes de aprendizagem online. Segundo Moran (2015), as tecnologias ampliam as possibilidades de aprendizagem, tornando-a mais interativa e personalizada.

A presença das tecnologias no processo educativo possibilita que os estudantes tenham acesso a múltiplas fontes de informação, diferentes linguagens e experiências de aprendizagem diversificadas. Ambientes virtuais de aprendizagem, aplicativos educacionais e recursos multimídia permitem que o aluno aprenda no seu próprio ritmo, revise conteúdos e explore temas de acordo com seus interesses. Essa flexibilidade favorece a aprendizagem significativa, pois o estudante passa a estabelecer relações mais profundas entre o que aprende e sua realidade. Para Valente (2014), o uso pedagógico das tecnologias contribui para o desenvolvimento da autonomia, da curiosidade e da capacidade de investigação dos estudantes.

Além disso, as tecnologias digitais podem promover maior engajamento e motivação. Jogos educativos, simulações e vídeos interativos despertam o interesse dos alunos e tornam o processo de aprendizagem mais atrativo. De acordo com Bacich e Moran (2018), metodologias que integram recursos digitais favorecem a participação ativa dos estudantes, estimulando a resolução de problemas, o trabalho colaborativo e a produção de conhecimentos. Nesse sentido, o uso consciente das telas pode ampliar o repertório cognitivo e contribuir para o desenvolvimento de competências essenciais, como pensamento crítico, criatividade e letramento digital.

No entanto, o uso indiscriminado de telas pode prejudicar o desempenho escolar. Estudos apontam que o excesso de tempo diante de dispositivos digitais está associado a dificuldades de concentração, sono irregular, redução do tempo dedicado à leitura e à realização de atividades escolares (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2019). A exposição prolongada a estímulos rápidos, imagens em movimento e múltiplas notificações pode comprometer a capacidade de atenção sustentada, que é fundamental para a aprendizagem profunda.

O uso excessivo de telas também pode impactar negativamente os hábitos de estudo. Muitos estudantes alternam constantemente entre tarefas escolares e aplicativos de entretenimento, o que prejudica a concentração e a qualidade da aprendizagem. Segundo Carr (2011), a cultura digital favorece formas de leitura fragmentadas e superficiais, dificultando a construção de raciocínios mais complexos e reflexivos. Dessa forma, embora as tecnologias ofereçam acesso rápido à informação, elas podem também incentivar práticas de aprendizagem mais imediatistas e menos aprofundadas.

Outro aspecto relevante diz respeito ao sono e ao bem-estar físico e emocional dos estudantes. O uso de dispositivos eletrônicos, especialmente no período noturno, interfere na qualidade do sono, afetando a memória, a atenção e o rendimento escolar. A luz azul emitida pelas telas inibe a produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do sono, o que pode provocar cansaço, irritabilidade e dificuldades de aprendizagem (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2019).

Além disso, o consumo passivo de conteúdos digitais pode limitar o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual. Quando os estudantes se tornam apenas espectadores de vídeos, jogos ou redes sociais, sem reflexão ou mediação, tendem a assumir uma postura passiva diante do conhecimento. Buckingham (2010) alerta que a cultura digital, quando não mediada pedagogicamente, pode favorecer o consumo acrítico de informações e a reprodução de ideias, em vez da análise e da produção de conhecimento.

Por outro lado, quando o uso de telas é orientado por objetivos educacionais claros, ele pode favorecer a aprendizagem ativa. Ferramentas digitais permitem que os estudantes pesquisem, produzam textos, vídeos, apresentações e projetos, exercitando a autoria e a criatividade. Moran (2015) destaca que as tecnologias, quando integradas às metodologias ativas, ampliam as oportunidades de aprendizagem significativa, pois colocam o aluno no centro do processo educativo.

A mediação da família e da escola é, portanto, um fator determinante para que os impactos do uso de telas sejam positivos. Quando pais e professores orientam o uso das tecnologias, ajudam a selecionar conteúdos, estabelecem limites de tempo e promovem o equilíbrio entre atividades digitais e não digitais, as telas tornam-se aliadas do processo educativo. Ribeiro e Coscarelli (2017) afirmam que o letramento digital crítico é essencial para que os estudantes aprendam a utilizar as tecnologias de forma ética, produtiva e responsável.

Nesse contexto, a aprendizagem mediada por telas deve ser compreendida como parte de um ecossistema mais amplo, que inclui a interação social, o diálogo, a leitura, a escrita, o brincar e a convivência. O desafio não está em eliminar as tecnologias, mas em integrá-las de forma equilibrada e pedagógica ao cotidiano dos estudantes. Assim, o uso consciente das telas pode contribuir para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional, enquanto o uso excessivo e desregulado pode comprometer o rendimento escolar e a formação integral.

Portanto, os impactos do uso de telas na aprendizagem dependem, fundamentalmente, da forma como essas tecnologias são utilizadas. Quando mediadas por práticas educativas, familiares e escolares, elas podem enriquecer o processo de ensino-aprendizagem. Contudo, quando utilizadas de maneira indiscriminada, tendem a produzir efeitos negativos sobre a atenção, a motivação e o desempenho dos estudantes, evidenciando a necessidade de uma atuação conjunta entre família e escola na educação digital.

O Papel da Família na Mediação do Uso de Telas

A mediação parental é um fator determinante para que o uso das telas contribua positivamente para a educação. A família deve estabelecer limites, orientar os conteúdos acessados e incentivar práticas equilibradas entre atividades digitais, estudo, lazer e convivência social. Segundo Ribeiro e Coscarelli (2017), o letramento digital envolve não apenas o domínio técnico, mas também a capacidade de usar a tecnologia de forma crítica, ética e responsável.

No contexto da cultura digital, a família assume uma função educativa ampliada, que vai além do cuidado físico e afetivo, passando a incluir a orientação sobre o uso das tecnologias. Crianças e adolescentes, embora frequentemente mais habilidosos tecnicamente no manuseio dos dispositivos, nem sempre possuem maturidade cognitiva e emocional para avaliar criticamente os conteúdos acessados. Nesse sentido, a mediação dos pais é essencial para ajudar os filhos a interpretar informações, compreender riscos e fazer escolhas responsáveis no ambiente digital (BUCKINGHAM, 2010).

A mediação parental pode ocorrer de diferentes formas. A mediação restritiva envolve o estabelecimento de regras quanto ao tempo de uso, aos horários e aos tipos de conteúdos permitidos. Já a mediação ativa refere-se ao diálogo, à explicação e à reflexão conjunta sobre o que é visto e utilizado nas telas. Há ainda a mediação participativa, na qual pais e filhos utilizam as tecnologias juntos, compartilhando experiências e aprendizados. Livingstone e Helsper (2008) afirmam que a mediação ativa e participativa tende a produzir efeitos mais positivos sobre o desenvolvimento infantil, pois promove o pensamento crítico e o uso consciente das mídias.

Quando os pais acompanham o uso das tecnologias, dialogam sobre os conteúdos consumidos e estimulam a reflexão, as telas tornam-se aliadas no processo educativo. Essa prática contribui para que a criança desenvolva autonomia, senso crítico e responsabilidade no uso dos recursos digitais. Moran (2015) destaca que a aprendizagem mediada por tecnologias torna-se mais significativa quando há orientação, propósito e acompanhamento, tanto no ambiente escolar quanto no familiar.

Por outro lado, a ausência de orientação pode levar a comportamentos de dependência, exposição a conteúdos inadequados e prejuízos ao desenvolvimento emocional e acadêmico. Crianças que utilizam telas de forma excessiva ou sem supervisão tendem a apresentar maior dificuldade de concentração, menor interesse por atividades escolares e redução das interações sociais presenciais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2019), o uso prolongado de dispositivos digitais na infância está associado a impactos negativos sobre o sono, a atenção e o bem-estar psicológico.

Além disso, o ambiente digital apresenta riscos específicos, como o acesso a informações falsas, conteúdos violentos, publicidade abusiva, cyberbullying e violação da privacidade. Cabe à família orientar as crianças sobre esses riscos, ensinando-as a proteger seus dados, respeitar os outros e buscar informações confiáveis. Ribeiro e Coscarelli (2017) ressaltam que o letramento digital crítico é indispensável para que os indivíduos possam atuar de forma ética e segura no ciberespaço.

A mediação do uso de telas também envolve o exemplo dos próprios adultos. Pais que fazem uso equilibrado das tecnologias, que leem, conversam e demonstram interesse por atividades offline tendem a influenciar positivamente o comportamento dos filhos. Em contrapartida, o uso excessivo de celulares e redes sociais pelos adultos pode naturalizar hábitos de dependência digital nas crianças. Para Turkle (2011), a qualidade das relações familiares depende cada vez mais da capacidade de estabelecer momentos de desconexão e de interação presencial significativa.

No campo educacional, a parceria entre família e escola é fundamental para orientar o uso pedagógico das tecnologias. Quando os pais compreendem os objetivos das atividades digitais propostas pela escola, podem apoiar os filhos na organização do tempo, na realização das tarefas e no uso adequado das plataformas. Bacich e Moran (2018) defendem que a educação digital exige corresponsabilidade entre os diferentes atores do processo educativo, incluindo professores, estudantes e famílias.

É importante ressaltar que nem todas as famílias possuem o mesmo nível de acesso ou de conhecimento sobre tecnologias. Por isso, a escola também deve atuar como agente formador, oferecendo orientações, oficinas e espaços de diálogo para apoiar os pais no exercício da mediação digital. A inclusão das famílias nesse processo contribui para reduzir desigualdades e fortalecer a educação como um projeto coletivo.

Assim, a mediação familiar no uso de telas é um elemento central para garantir que as tecnologias cumpram um papel educativo e não apenas recreativo ou alienante. Ao estabelecer limites, dialogar, acompanhar e refletir sobre o uso das mídias digitais, a família contribui para a formação de crianças e adolescentes mais críticos, autônomos e preparados para viver e aprender em uma sociedade digital.

Considerações Finais

O uso de telas no contexto familiar configura-se como um fenômeno irreversível da sociedade contemporânea, trazendo consigo profundas implicações para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes e, consequentemente, para os processos educativos. Ao longo deste estudo, foi possível constatar que as tecnologias digitais não são, em si mesmas, nem benéficas nem prejudiciais; seus efeitos dependem fundamentalmente das formas de uso, dos objetivos a que se destinam e do nível de mediação exercido pela família e pela escola. As telas oferecem inúmeras possibilidades para a aprendizagem, ampliando o acesso à informação, diversificando linguagens e promovendo experiências educativas mais interativas e personalizadas. Recursos digitais, quando utilizados de maneira pedagógica, favorecem a autonomia, a curiosidade, o engajamento e o desenvolvimento de competências essenciais para o século XXI, como o letramento digital, o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas. Nesse sentido, a tecnologia pode atuar como uma importante aliada da educação formal e informal.

Entretanto, o estudo também evidenciou que o uso excessivo, desregulado ou não mediado das telas pode gerar impactos negativos significativos, como dificuldades de concentração, prejuízos ao sono, redução das interações sociais presenciais e empobrecimento das práticas de leitura e reflexão. Esses efeitos comprometem não apenas o desempenho escolar, mas também o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças e dos adolescentes, reforçando a necessidade de equilíbrio entre atividades digitais e experiências offline

Nesse cenário, a mediação familiar assume um papel central. Pais e responsáveis são agentes fundamentais na orientação do uso das tecnologias, seja por meio do estabelecimento de limites, seja pelo diálogo, pelo acompanhamento e pelo exemplo. A mediação ativa e participativa contribui para que os jovens desenvolvam uma postura mais crítica, ética e responsável diante das mídias digitais, transformando o consumo de conteúdos em oportunidades de aprendizagem e reflexão.

Da mesma forma, a escola deve atuar como parceira estratégica das famílias, integrando as tecnologias ao currículo de forma planejada, crítica e pedagógica. A articulação entre família e escola é indispensável para garantir que o uso de telas esteja alinhado aos objetivos educativos e às necessidades dos estudantes. Essa parceria também é fundamental para enfrentar desafios como a desigualdade digital e a falta de letramento tecnológico em parte das famílias.

Conclui-se, portanto, que o uso de telas no contexto familiar representa um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades da educação contemporânea. Quando mediado de forma consciente e articulada entre família e escola, o ambiente digital pode contribuir significativamente para uma formação mais ampla, crítica e significativa. Assim, promover uma cultura de uso equilibrado, reflexivo e educativo das tecnologias é uma tarefa coletiva e essencial para o desenvolvimento integral das novas gerações.

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1 Doutorando em Ciências da Educação. Instituição: Christian Business School. Endereço: 40 rue Alexandre Dumas, Paris (Arrondissement de Paris). E-mail: [email protected]