UM ELO DE IDENTIDADE: A RELIGIOSIDADE DOS IMIGRANTES UCRANIANOS EM PRUDENTÓPOLIS

A BOND OF IDENTITY: UKRAINIAN IMMIGRANTS’S RELIGIOSITY IN PRUDENTÓPOLIS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775134434

RESUMO
A imigração ucraniana ao Brasil se inicia em fins do século XIX, com a propaganda imperial incentivando a vinda de pessoas sobretudo da Europa para substituição da mão de obra escrava. Ao longo do território brasileiro, o município de Prudentópolis se destaca por ser o que mais atraiu a vinda e o assentamento dos recém-chegados ucranianos. Conhecida como “Ucrânia brasileira”, a cidade possui uma forte presença não apenas de descendentes desses primeiros colonos eslavos, mas também de práticas, ritos, e aspectos simbólicos que remetem as tradições, a cultura e a religiosidade ucraniana. Tais aspectos podem ser observados tanto no cotidiano das pessoas, quanto nos múltiplos eventos anuais que permitem o reconhecimento e a afirmação identitária local, expressa através das celebrações e dos costumes entre seus habitantes. Para tal feito, utilizaremos de uma bibliografia que conta com autores referência para os estudos da imigração ucraniana no Paraná, como Paulo Renato Guérios, Oksana Boruszenko, entre outros. Procuraremos também investigar de que maneira a religiosidade serviu como alento para estes primeiros imigrantes no Brasil, que em meio as adversidades do processo imigratório encontraram nos seus ritos e práticas, um forte elo com seu país de origem, abordando as relações e representações que envolvem suas tradições com um universo simbólico coletivo e individual da identidade do imigrante ucraniano em Prudentópolis.
Palavras-chave: Religiosidade. Ritos. Práticas.

ABSTRACT
Ukrainian immigration to Brazil began in the late 19th century, encouraged by imperial policies aimed at attracting European labor to replace enslaved Workers. Within the Brazilian territory, the municipality of Prudentópolis stands out as the main destination that attracted the coming and settlement of the new Ukrainian immigrants. Known as “Brazilian Ukraine”, the city possesses a strong presence not only of descendants of these first Slavs colonizers, but of practices, rites, and symbolic aspects that remember traditions, culture, and the Ukrainian religiosity as well. Such aspects can be observed on the daily routine of the people, but also in the multiple annual events that allow for the recognition and affirmation of their local identity, expressed through celebrations and customs among their inhabitants. For such effect, we will utilize of a bibliography that counts with referenced authors for the studies of Ukrainian immigration in Paraná, like Paulo Renato Guérios, Oksana Boruszenko, among others. We seek also to investigate from which manner religiousness has served as comfort for these first immigrants in Brazil, that in the middle of adversities of the immigratory process found in their rites and practices, a strong bond with their country of origin, approaching the relations and representations that involve their traditions with a collective and individual symbolic universe of the identity of the Ukrainian immigrant in Prudentópolis.
Keywords: Religiosity. Rites. Practices.

1. INTRODUÇÃO

Para compreendermos os aspectos simbólicos e religiosos presentes em Prudentópolis ainda atualmente, é essencial nos voltarmos também para as levas imigracionistas que chegariam ao Brasil a partir de finais do século XIX e como esses imigrantes iriam trazer consigo todo um conjunto de práticas ritualísticas e culturais que se mostrariam necessários em seus primeiros anos de assentamento e principalmente em seu processo de identificação e assimilação de mundo através de todo um aparato cultural, assim como nos fala Maria Inêz Skavronski (2015, p. 16):

O rito, entendido como uma forma de expressar a religiosidade desse grupo étnico através da linguagem, de símbolos, de crenças e de bençãos particularizadas apresenta uma dimensão religiosa por assumir um caráter simbólico e transcendental e também por reafirmar a identidade étnica de seus participantes por ser uma ação, um momento comunicativo e constitutivo de uma visão de mundo.

Nesse sentido é preciso compreender como o fenômeno da imigração afeta a realidade do imigrante e sua autocompreensão de si e de mundo, à medida que o ato de partir não significa apenas um desapego material, mas sim um desprendimento de realidade, de forma que o sujeito abandona o seu espaço de nascença, vivência, e consequentemente, boa parte do que contribuiu para sua formação identitária.

Dessa maneira abre-se um lócus que nos leva a refletir que, qualquer espécie de vestígio deixado pelo ser humano pode nos revelar como viveram o seu tempo. A religiosidade pode nos mostrar as transformações ocorridas durante determinada época, bem como traços deixados por representantes de uma cultura especifica, nesse caso os imigrantes ucranianos.

Ao nos referirmos à cultura, pensamos em vários aspectos para definir, e quando esse conceito vem ligado a uma determinada etnia, logo pensamos em fatores como: língua, costumes, tradições, culinária, folclore, música e artes em geral. São significações produzidas por uma rede de fatores. Conforme, Denys Cuche (2002, p.45):

Cada cultura é dotada de um “estilo” particular que se exprime através da língua, das crenças, dos costumes, também da arte, mas não apenas desta maneira. Este estilo, este “espirito” próprio a cada cultura influiu sobre o comportamento dos indivíduos.

O que Cuche nos fala é que a cultura refere-se à capacidade de o homem adaptar-se ao seu meio, mas também adaptar esse meio ao próprio homem. O termo identidade pode, então, ser utilizado para expressar, de certa forma, uma singularidade construída na relação com outros homens. O sociólogo Stuart Hall, ao definir o conceito de identidades culturais, nos apresenta que são “aqueles aspectos de nossas identidades que surgem de nosso “pertencimento” a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais” (HALL, 2011, p.8).

Pensamos então como a identidade dos imigrantes está ligado a religião e as suas práticas, o que nos leva a alguns questionamentos. Como a identidade do imigrante ucraniano interferiu na sua adaptação no Paraná? De que maneira o sentido de pertencimento está condicionado as práticas religiosas? Como a religiosidade ucraniana atua no cotidiano imigrante?

Dessa forma buscaremos através dos conceitos de identidade, representações e religiosidade, um norte para pensarmos tais questões e novas possibilidades. Segundo Roger Chartier (2011, p. 20):

Assim construído, o conceito de representação foi e é um precioso apoio para que se pudessem assinalar e articular, sem dúvida, melhor do que nos permitia a noção de mentalidade, as diversas relações que os indivíduos ou os grupos mantêm com o mundo social: em primeiro lugar, as operações de classificação e hierarquização que produzem as configurações múltiplas mediante as quais se percebe e representa a realidade; em seguida, as práticas e os signos que visam a fazer reconhecer uma identidade social, a exibir uma maneira própria de ser no mundo, a significar simbolicamente um status, uma categoria social, um poder; por último, as formas institucionalizadas pelas quais uns “representantes” (indivíduos singulares ou instâncias coletivas) encarnam de maneira visível, “presentificam” a coerência de uma comunidade, a força de uma identidade ou a permanência de um poder.

É nesse sentido que aqui buscaremos explorar como a religiosidade ucraniana que se assentou em Prudentópolis sobretudo com a presença da Igreja e de missionários, e as práticas e representações dos colonos contribuíram assim para a sua assimilação dentro do território brasileiro, transformando-se com o passar dos anos, mas sem perder o pertencimento da comunidade ucraniana ao que se refere a identidade.

2. A IMIGRAÇÃO UCRANIANA

Em fins do século XIX o Brasil desenvolveu uma forte política imigracionista, buscando entre um de seus objetivos a atração de mão de obra para trabalhar e colonizar o território, dentre eles, o Estado do Paraná, emancipado em 1853. Com isso, um dos países a receber oferta da coroa que prometeria terras produtivas e inexploradas seria justamente a Ucrânia, que na época se encontrava dividida sobretudo entre o império russo e Austro-húngaro.

Nessa conjuntura em que a população, sobretudo os rutenos da Galicia Ocidental3, procuravam uma alternativa para escapar de sua condição de pobreza, muitos desses sujeitos iriam iniciar sua jornada ao novo continente, e assim buscavam um novo começo para suas vidas, com toda assistência do estado brasileiro, e o acesso a uma terra própria. Em contrapartida a entrada desses imigrantes no território paranaense representaria a oportunidade não apenas de angariar mão de obra para a terra, mas nessa esteira, era reclamado como uma maneira de modernizar o território através do abastecimento agrícola, e de trazer visibilidade ao alto grau de miscigenação do estado do Paraná, o que segundo Santos (2017, p.74):

Os imigrantes europeus são apresentados como uma alternativa que solucionaria o problema de “escassez” de produtos agrícolas, agrupamentos de pequenas propriedades, formados por imigrantes e nacionais, geralmente, com o objetivo de produzis alimentos para subsistência [...] Neste ponto da narrativa – fim do século XIX e início do século XX – variedade étnica passa a ser considerada como maior característica da população paranaense. Negros e índios somem da narrativa, ao passo que os imigrantes passam a ser o seu centro.

As levas de imigração ucranianas que chegariam ao Brasil em fins do século XIX inicialmente seriam alocadas em sua grande maioria na Ilha das Flores, localizada no atual Estado do Rio de Janeiro. Segundo Guérios (2012) além de um recorrente longo tempo de espera para que as autoridades brasileiras designassem os sujeitos as áreas de colonização indicadas, um dos principais problemas que os colonos encontraram de início no Brasil seria o surto de doenças provocadas pelo grande acúmulo de pessoas vivendo em barracas improvisadas e muitas vezes insalubres. No entanto, o espectro das doenças e da fome não foram questões isoladas desse primeiro momento.

Em diversas colônias, mesmo Prudentópolis, os colonos iriam se deparar com um terreno inóspito e pouco produtivo, o que nos primeiros anos iria resultar em momentos dramáticos entre as famílias, que ao contrário do esperado, também não contariam com o auxílio do estado brasileiro, mas sim sua ausência. Um fato notório e relevante para compreendermos toda a carga dramática desses anos iniciais de assentamento, este que inclusive iria afastar muitas das pessoas de todo o seu universo simbólico e religioso. Segundo Guérios (2007, p. 136):

Assim, frente às dificuldades encontradas ao chegar ao Paraná, vários rutenos afastaram-se cada vez mais das práticas cotidianas a que estavam habituados. Sem encontrar-se, sem reunir-se e sem organizar-se em grupos, isolados frente às dificuldades do imenso trabalho de limpeza de seus lotes para plantio, enfrentando a fome, as doenças e a morte de seus familiares, eles seguiam um caminho de transformação social radical.

A partir das dificuldades apontadas, que perpassavam não apenas uma questão material mas uma perspectiva religiosa, uma das estratégias organizadas pelos colonos foi inicialmente de protocolar um pedido juntamente as autoridades brasileiras, para que o governo permitisse a entrada de padres e missionários ucranianos no território brasileiro, com a função de auxiliar o assentamento e continuidade dos trabalhos nas colônias, de acordo com Oksana Boruszenko4 (1969, p. 423) quando fala sobre os primeiros assentamentos, a autora nos ensina que:

Nesta fase a Igreja teve importante papel na conservação das suas tradições. Em uma segunda etapa da imigração ucraniana, melhoraram as condições de manutenção e reavivamento das tradições culturais ucranianas. À vinda de imigrantes de nível de instrução mais avançada que atuaram neste sentido, propiciou o início de um movimento para a sobrevivência da identidade dos ucranianos.

Sobre a vinda de missionários ucranianos ao Paraná, e sobretudo sua atuação na colônia de São João de Capanema (futuramente o município de Prudentópolis), precisamos inicialmente estabelecer algumas questões. Primeiramente, devemos nos atentar a majoritária presença do rito greco-católico em Prudentópolis e como a igreja conseguiu promover um espaço de cooptação e mediação cultural dentre a comunidade. A seguir é necessário comentarmos também sobre os dissensos apresentados nas décadas iniciais de colonização, ou seja, os embates ideológicos e políticos que perpassaram a colônia, principalmente através dos embates entre a igreja e os leigos da ­intelligentsia5 ucraniana.

Quando em finais do século XIX os padres ucranianos chegaram ao Brasil após solicitação dos colonos, as atividades basicamente se desdobraram através de projetos educacionais e letramento, ou seja, partindo da ideia de que grande parte das pessoas que ali estavam não eram alfabetizadas, ficou a cargo dos eruditos religiosos a educação comunitária.

Nos seus primeiros anos uma das formas que os padres acharam de ao mesmo tempo em que auxiliavam na educação, pudessem promover a cultura e religiosidade, era a distribuição de folhetins aos colonos, estes que em sua maioria eram escritos em idioma ucraniano e contavam com calendários litúrgicos, relembrando as pessoas de seus deveres paroquiais.

Em fato, a presença da religião naquele meio foi como já discorremos, uma espécie de “porto seguro” para as pessoas, pois o distanciamento cultural a que elas estavam sujeitas levava consequentemente a um deslocamento de todo seu universo identitário, e a partir do momento em que a presença religiosa se confirmou, os moradores passaram a obter não apenas melhores condições materiais, mas sim espirituais.

Levando em conta atividades despendidas com fervor e que contavam com a presença de boa parte dos moradores, como a construção de capelas, a comunidade além de dispender de um senso de pertencimento e unidade, contava com um alivio espiritual, pois se na medida que o afastamento de seus ritos traz a possibilidade de danação da alma, a reconciliação do sujeito com esses mecanismos traz a possibilidade de redenção celestial.

Contudo, apesar de a igreja ter atuado como uma instância mediadora para com a comunidade em seus anos iniciais, fator que ainda atualmente persiste no município de certa forma, não foram eles os únicos agentes que buscavam consolidar seus projetos entre as comunidades ucraniano-brasileiras. O grupo que mais disputou espaço com a igreja até a década de 20 fora a chamada intelligentsia ucraniana, que destarte os objetivos religiosos do clero, buscava inflamar o nacionalismo e o letramento dos colonos.

Dessa forma, podemos dizer grosso modo, que tais intelectuais buscavam mais atender as causas nacionalistas da Ucrânia, do que verdadeiramente promover o apelo religioso. Um dos produtos diretos dessas disputas por hegemonia foi a criação da imprensa ucraniano-brasileira, que inicialmente seria originada a partir do Zoriá em Curitiba. Esse primeiro jornal teria sido o único a cargo inteiramente da intelligentsia, mesmo que em seus períodos iniciais contasse com financiamento da Igreja.

Após desentendimentos entre as partes o primeiro periódico é encerrado e sob inteira direção da igreja, dá lugar ao Prápor em 1910 e em seguida ao Prácia. Símbolo da imprensa ucraniano-brasileira, contando com uma trajetória centenária, fundado em 1912, e atualmente redigido em Prudentópolis, o Prácia pode ser considerado um das grandes instancias mediadoras entre padres e comunidade, auxiliando tanto nas “funções” religiosas da comunidade, como na identidade dos sujeitos. Por fim, devemos esclarecer que se a legitimidade da Igreja fora disputada até meados de 1920, tendo sua última expressão com a Karmanchtchêna6, após isso, ela se manteve como instituição hegemônica em Prudentópolis e na maioria das colônias paranaenses até os dias atuais.

3. IDENTIDADE E RELIGIÃO: O PERTENCIMENTO UCRANIANO

Quando falamos sobre identidade logo buscamos envolver relações que nos levam ao pertencimento com uma cultura. As relações identitárias são construções em volta de fatores e aspectos, que levam o sujeito ao encontro daquilo que lhe pertence. Na visão de Stuart Hall a identidade do sujeito é um complemento adquirido através das relações sociais e culturais de cada grupo. Segundo Hall (2009, p.110): “A unidade, a homogeneidade interna, que o termo ‘identidade’ assume como fundacional não é uma forma natural, mas uma forma construída de fechamento: toda identidade tem necessidade daquilo que lhe ‘falta’”.

A partir das palavras de Hall pensamos como a comunidade de imigrantes ucranianos tinha a necessidade de afirmação em torno da religião, visto que seus ritos, práticas e toda simbologia representada pela religiosidade, está diretamente ligada com o pertencimento a identidade em se dizer ucraniano. O que percebemos é que através das práticas religiosas da comunidade e de cada pessoa, encontra-se uma fuga daquilo que lhe pertence, em outras palavras não basta apenas se dizer ucraniano ou descendente, mas sim fazer parte e colocar em prática.

A necessidade religiosa dos imigrantes, se deve as dificuldades encontradas em solo brasileiro, as comunidades instaladas em Prudentópolis em sua grande maioria foram direcionadas para zonas não exploradas e inóspitas, o que aumentava a dificuldade de adaptação dos ucranianos. A religiosidade causa ainda sentimento de pertença aos descendentes ucranianos que mantem práticas e ritos de seus antepassados. Muitas comunidades de imigrantes ucranianos se moldavam conforme a religiosidade, o que, segundo Batista e Martins (2013, p. 53), sintetiza a essência da religião no aspecto cultural dos imigrantes:

A religião é essencial para o povo ucraniano visto que evidencia sua cultura e para eles manter a sua devoção é fazer com que perpetuem sua língua, costumes e até mesmo a união de seus descendentes. Haja vista, que também é uma maneira de reformular a sociedade. Os primeiros ucranianos a chegarem ao Brasil, tiveram que se reorganizar e se unir para trazer os padres para suas colônias. Dessa forma, a estrutura das comunidades foi se moldando à medida que ia se restabelecendo a doutrina religiosa.

Com as comunidades se estabelecendo em torno da Igreja, o lado espiritual dos imigrantes tornou-se uma forma de resistência e de imposição da sua cultura em território paranaense. Destaca-se entre os imigrantes a manutenção da religiosidade e das práticas, elementos subjetivos que reforçam os laços da comunidade, preservando a língua e os costumes dos ucranianos. A busca pela representação do imaginário ucraniano está relacionada à identidade cultural ucraniana principalmente na cidade de Prudentópolis, entre a comunidade ucraniana, os laços culturais são preservados e abastecem as gerações que mantém os costumes principalmente os que envolvem a religião.

Fredrik Barth (1998) afirma ser, “o próprio indivíduo que procura juntar-se aos seus semelhantes e por isso é ele quem determina a sua identidade, pois a partir de suas crenças e valores se insere em um determinado grupo social, que reconhece e é por ele reconhecido”. Fica expresso o sentimento pelo reconhecimento dos antepassados, pela cultura e identidade. Essa identidade dos imigrantes ucranianos em Prudentópolis se deve pela construção em torno do seu meio, familiar ou social. Segundo Hall (2000, p.109) “as identidades são construídas dentro e não fora dos discursos”.

E com essas questões percebemos que os imigrantes ucranianos em Prudentópolis sempre buscaram de um certo modo manter a identidade da comunidade com a igreja, desde o início com a dependência dos sacerdotes, encontramos discursos que são construídos em busca da manutenção e afirmação ucraniana em solo brasileiro. Para muitos desses ascendentes eslavos, tal dependência refere-se ao pertencimento e aquilo que fora enraizado, manter as tradições, os ritos e as práticas religiosas são também uma maneira de se preservar aquilo que foi edificado entre as gerações.

A fé dos imigrantes está visível, mesmo sofrendo mudanças ao longo dos anos sempre se manteve como a base e o elo identitário da comunidade, visto que todas as identidades se transformam e se adaptam com as mudanças. Para Bourdieu (2004), “o espaço social é determinado por estruturas sociais objetivas”, ou seja, por uma multiplicidade de campos sociais, independente da consciência e da vontade dos indivíduos, mas que são capazes de orientar suas práticas e representações. Ou seja, a identidade ucraniana representada na religiosidade se dá pela visão de mundo, de pensar, de agir e de perceber o ciclo cultural no cotidiano dos imigrantes ou para ela própria na sua condição social.

4. ENTRE RITOS E PRÁTICAS: A PÁSCOA COMO EXEMPLO DO ELO DE IDENTIDADE

Como já expressamos ao longo do artigo, as práticas e ritos de uma determinada comunidade auxiliam para o entendimento e assimilação de mundo por parte dos sujeitos. No caso em específico dos ucranianos, as expressões ritualísticas que envolvem a comunidade, são mais do que apenas celebrações eventuais, formas de envolver a comunidade em torno de uma causa ou sentimento comum, logo, tal sentimento é continuamente preservado através dos momentos de sociabilidade da mesma forma. Além disso, as expressões tidas como uma tradição ucraniana, também podem manter presente no imaginário social prudentopolitano um elo de ligação para com a Ucrânia e suas tradições ancestrais, nesta perspectiva, observamos que dentro do município abordado, muitas vezes mesmo que o morador local não tenha tido um contato material com a realidade ucraniana, o senso de pertencimento da pessoa a um contexto próximo a ela ainda assim é um fator relevante em sua trajetória.

Por fim, antes de abordarmos mais a fundo uma das maiores e mais conhecidas expressões culturais de Prudentópolis, a tradicional Páscoa ucraniana, devemos ter em mente que as perspectivas geracionais acerca dessa questão podem também influir na visão que os moradores detêm acerca do assunto, assim como em seus engajamentos acerca desses ritos, porém não pretendemos nos aprofundar em tais questões geracionais, mas segundo Nadalin (2004, p. 81) apenas reforçar que:

Dito de outra maneira, a visão que cada indivíduo tem do mundo depende não só do lugar social que ele ocupa, da forma como ele se insere na sociedade organizada, mas também do referencial que tem do passado, função também do seu amadurecimento psico-biológico e educacional, ou seja, da sua idade.

Acerca da Páscoa ucraniana e os ritos que a precedem, Skavronski (2015, p. 98) elucida a questão quando reitera que “sendo considerada a maior festa cristã, a Páscoa para os fiéis da Igreja Greco Católica Ucraniana é precedida de várias celebrações e rituais específicos para essa festa litúrgica”. Vemos então que as tradições estão intrinsicamente em conjunto com a religiosidade ucraniana, e mais do que apenas uma data comemorativa, precede a ela uma série de outras práticas.

Um destes momentos pode ser exemplificado através da tradicional benção dos ramos, onde se recorda a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém, através do comparecimento dos fiéis as igrejas ligadas a Paróquia São Josafat, onde os ramos levados são devidamente abençoados pelos padres. Ainda segundo a autora, as suas origens estão ligadas ao domingo da Verbá, que em território ucraniano se consistia em um culto as árvores que prenunciavam o fim do inverno. Na sequência das práticas típicas temos ainda a benção dos alimentos, ocorrida aos sábados de Aleluia, e que objetiva o benzimento dos itens que serão consumidos na data de Páscoa, assim como retrata Skavronski (2015, p. 101):

No Sábado Santo, como os fiéis o denominam, as famílias descendentes de ucranianos preparam os alimentos que serão consumidos na manhã do Domingo de Páscoa. Esses alimentos, arrumados em cestas geralmente ornamentadas com flores e pêssankas são cobertas com toalhas bordadas com a saudação na língua ucraniana: Xrestós Voskrés – Cristo Ressuscitou, representando o significado dessa festa cristã”.

Posteriormente a isso, os alimentos então são abençoados pelos padres e guardados para o consumo das famílias no dia posterior aos ritos. Dito isso, procuramos brevemente por esse meio explicitar um dos ritos tradicionais dos ucraniano-brasileiros, porém, outros, como as bençãos de flores7 e as tradições de casamento são exemplos da manifestação cultural ucraniana.

Por fim, cabe nos atentarmos que como pudemos observar, as práticas ucranianas estão frequentemente ligadas a questões da natureza, assim o benzimento de ramos e flores por exemplo, são presença marcada no calendário local. Tal fato não é fator isolado da etnia aqui abordada, mas no caso dos ucranianos, além de se entrelaçar com questões precedentes ao Brasil, tomaram novos significados a partir do assentamento dos sujeitos nas colônias, dado as dificuldades iniciais para com a sobrevivência das pessoas nos locais a que foram designados, portanto, a ligação entre os colonos e a terra seria uma constante.

Afora isso, a dinâmica entre natureza e religiosidade, nas palavras de Skavronski (2015, p. 81) servem ainda para dar um sentido ao cotidiano do sujeito através de um senso de pertença do praticante: “Assim, os ritos e a natureza se fundem para dar significado a existência humana, e essa significação do rito para quem participa dele, é diferenciada em relação a quem o observa”.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do artigo proposto, trabalharmos a partir da presença religiosa em Prudentópolis, para isso, coube nos debruçarmos também acerca de aspectos ritualísticos e práticas culturais presentes no município. Para exemplificarmos a questão utilizamos aqui as celebrações da Páscoa ucraniana, que diferentemente das festividades brasileiras para a data, contam com todo um arcabouço ritualístico específico da comunidade étnica aqui em análise. Porém, ainda mais do que analisar uma prática isolada, procuramos por meio dos escritos destacar a importância do elo religioso para a formação e manutenção das identidades imigrantes ucranianas no Brasil. Para isso, consideramos necessário o reforço também do contexto que levou a partida dos sujeitos, e principalmente, sua assimilação em meio a realidade brasileira.

Tal compreensão nos é fundamental para conseguirmos processar o papel da religiosidade na vida e cotidiano das colônias em seu início. Assim, partindo do pressuposto de que a religiosidade, como já discorremos, busca dar sentido a vida do imigrante, podemos conceber a ideia de que em um momento dramático para a sobrevivência das pessoas em um contexto e solo impróprio, distantes de todo um universo simbólico e idiomático, e percebendo a ausência do estado brasileiro nos locais, a religiosidade ucraniana impulsionada a partir de 1896 com a entrada desses missionários foi fator preponderante para as famílias alojadas, pois não apenas as atividades religiosas como as primeiras construções de igrejas contavam com atividades conjuntas.

Assim pensamos a religiosidade ao ponto de ser uma condução da comunidade ucraniana, de forma que os imigrantes precisassem da religião como elemento primordial para sua vida no novo território. A manutenção das práticas, dos ritos e dos elementos culturais ucranianos através da religião, permite que o elo continue em meio as transformações identitárias através dos anos.

Para Ortiz (2008), a cultura é vista amplamente e composta por elementos materiais e imateriais de um povo, transmitidos ou compartilhados, dessa forma a religiosidade como elemento cultural dos imigrantes torna-se uma referência para toda a comunidade e é compartilhada com as gerações, mantendo assim os aspectos culturais ucranianos. Já nos falava Hall (1997), nossas identidades culturais refletem as experiências históricas em comum, e dessa maneira representamos o universo dos imigrantes e descendentes ucranianos através do apego a religião e sustentação dos ritos, práticas e símbolos como um plano identitário que transpõem os anos e reverencia toda a cultura da comunidade.

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1 Doutor em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Atualmente, realiza estágio pós-doutoral no PPGG (UNICENTRO), vinculado ao Programa PROEXT-PG, iniciativa da CAPES e do MEC voltada à integração entre ensino, pesquisa e extensão na pós-graduação, sediado na UNICENTRO. PR. E-mail: [email protected]

2 Mestre em história pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), atualmente doutorando pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná (PPGHIS-UFPR). E-mail: [email protected].

3 Nesse contexto a maioria da porção oriental do território ucraniano ficou sob cuidado da Rússia, sendo que a parte ocidental recairia sob fisco do Império Austro-húngaro, dito isso, a maioria dos imigrantes que chegariam ao Brasil e subsequentemente fundariam o município de Prudentópolis, seriam oriundos do território da Galicia ocidental, tal comunidade étnica por sua vez, era frequentemente denominada de rutenos.

4 Boruszenko destaca pelo menos 3 fases importantes das levas imigracionistas ucranianas ao Brasil. A primeira leva se daria a partir de 1895, quando especialmente por questões internas da Ucrânia, as pessoas buscavam sair do país, a segunda seria a partir da Primeira Guerra Mundial, por questões políticas, e a última se daria no pós Segunda Guerra, quando refugiados políticos, prisioneiros de guerra, entre outros, iriam chegar ao Paraná.

5 A intelligentsia ucraniana fora basicamente atuante durante o século XIX a partir de clubes de leitura que buscavam, através de textos e erudição, promover a cultura e a formação de um imaginário nacionalista ucraniano.

6 Em 1920 a igreja convida o poeta e nacionalista Petró Karmans’kei para assumir a redação do jornal Prácia, logo porém, fica evidente que os intuitos nacionalistas que Karmans’kei transpõe ao jornal, divergem radicalmente dos rumos desejados pela igreja, logo Petró é afastado do jornal e parte para União da Vitória, onde em 1924 fundaria o Chliborob, periódico em que durante anos iniciais serviria entre outras coisas, para atacar os padres e a instituição greco-católica de Prudentópolis, acusando-os de entre outras questões, desvios de verba e imoralidade.

7 A benção de flores ocorre nas vésperas da Festa Cristã de Assunção de Maria Santíssima, quando os fiéis benzem suas flores e ramos, e em seguida depositam em suas casas para proteção.