REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774948686
RESUMO
Este texto traz uma abordagem sobre o simbolismo, marcadamente o uso do número 3 como recurso estilístico no conto novelístico “A hora e vez de Augusto Matraga”, que compõe a obra Sagarana (1946), de João Guimarães Rosa. Busca-se responder à seguinte questão-problema: em que medida o número 3 atua como um elemento estruturante e simbólico na construção da narrativa e na composição do personagem central? Para tanto, tem-se como objetivo geral investigar a recorrência desse recurso linguístico e a contribuição para o desenvolvimento do enredo e do processo de redenção do protagonista, conforme o esquema teórico dado por Walnice Galvão (2008), Mircea Eliade (1989) e Santos (2023), no que tange aos símbolos e mitos universais, cotejando as contribuições críticas de autores como Antonio Candido (1995) e Alfredo Bosi (1996). O procedimento de pesquisa é dado pelo método filológico de Leo Spitzer (1961) e desenvolve-se em três momentos, os quais alinham-se aos seguintes objetivos específicos: i) apresentar algumas críticas envolvendo a teoria do simbolismo numérico e o objeto de estudo; ii) identificar elementos linguísticos de construção tipológica discursiva com foco no número 3 como repetição simbólica e como organizador narrativo e; iii) avaliar os aspectos estruturais e simbólicos do número 3 como potenciais definidores da composição de Sagarana e, consequentemente, do estilo autoral, bem como o impacto desse recurso na construção da jornada de Augusto Matraga e no diálogo com tradições mitológicas e religiosas. Os resultados apontam que o uso do número 3 é crucial para reforçar a trajetória de queda, redenção e elevação do protagonista em níveis narrativos, simbólicos e espirituais. O simbolismo numérico de Rosa dialoga com a tradição mítica e a cultura brasileira, conferindo à sua obra densidade universal.
Palavras-chave: Literatura; Simbolismo numérico; Trindade; Sagarana.
ABSTRACT
This paper addresses symbolism, specifically the use of the number 3 as a stylistic device in the novella “A hora e vez de Augusto Matraga,” which is part of the work Sagarana (1946) by João Guimarães Rosa. It seeks to answer the following problem: to what extent does the number 3 act as a structural and symbolic element in the narrative construction and the composition of the central character? To this end, the general objective is to investigate the recurrence of this linguistic device and its contribution to the plot development and the protagonist's redemption process, according to the theoretical framework provided by Walnice Galvão (2008), Mircea Eliade (1989), and Santos (2023) regarding universal symbols and myths, while cross-referencing critical contributions from authors such as Antonio Candido (1995) and Alfredo Bosi (1996). The research procedure follows Leo Spitzer’s (1961) philological method and develops in three stages: i) presenting critiques involving the theory of numerical symbolism; ii) identifying linguistic elements focused on the number 3 as symbolic repetition and narrative organizer; and iii) evaluating the structural and symbolic aspects of the number 3 as defining elements of Rosa’s style and the protagonist’s journey. The results indicate that the use of the number 3 is crucial for reinforcing the protagonist’s trajectory of fall, penance, and redemption on narrative, symbolic, and spiritual levels.
Keywords: Literature; Numerical symbolism; Trinity; Sagarana.
1. ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A literatura de João Guimarães Rosa constitui uma das expressões mais complexas e simbólicas da modernidade literária brasileira. Seu sertão transcende a geografia, tornando-se metáfora do mundo e do próprio ser humano. Dentro desse universo, “A hora e vez de Augusto Matraga” ocupa lugar singular por representar, de forma concentrada, o percurso espiritual de um homem que cai, sofre e se eleva, um ciclo que ecoa a simbologia do número três. João Guimarães Rosa, nos apresenta a jornada de transformação e redenção de seu protagonista, Augusto Matraga, ambientado no árido, ensolarado e místico sertão brasileiro.
O presente artigo propõe-se a investigar o papel do número três como estrutura narrativa, simbólica e filosófica no conto, buscando compreender de que modo esse número organiza o enredo e dá sentido à jornada do protagonista. Para tanto, adota-se a leitura simbólica proposta por Walnice Galvão (2008), Mircea Eliade (1989), e o método filológico de Leo Spitzer (1961), que parte do detalhe linguístico e estilístico para alcançar a totalidade espiritual da obra onde combina a análise formal da linguagem com a interpretação cultural, histórica e psicológica, buscando compreender de que modo os traços estilísticos refletem a “forma interna” do autor, sua visão de mundo e sensibilidade estética. A análise, também, se baseia nas contribuições de Santos (2023), que interpreta Sagarana como um conjunto de narrativas que integram o regional e o universal, o popular e o metafísico. Em consonância com essa leitura, a trajetória de Augusto Matraga é vista como uma parábola trinitária: o homem pecador, o penitente e o redimido. Essa tríade se reflete em múltiplos níveis -estrutural, temático e simbólico-, revelando o poder do três como princípio organizador da obra. O número três, portanto, é aqui entendido como cifra de completude, símbolo de equilíbrio e expressão da unidade espiritual que permeia toda a obra rosiana. Rosa transforma o simples em metafísico, o sertão em cosmos, e o homem em arquétipo da alma humana em busca da salvação.
Nesse sentido, adota-se como suporte metodológico, as contribuições de Leo Spitzer (1968). O filólogo desenvolve um método de análise literária que combina a análise formal da linguagem com a interpretação cultural, histórica e psicológica, buscando compreender de que modo os traços estilísticos refletem a “forma interna” do autor, sua visão de mundo e sensibilidade estética. Por meio dessa abordagem, é possível identificar as camadas simbólicas e linguísticas que sustentam o papel do número três na narrativa, revelando suas conexões com mitos e símbolos universais que atravessam tanto a literatura de Guimarães Rosa quanto a experiência humana em geral. O método de Spitzer permite que se vá “do detalhe à totalidade”, isto é, de uma observação linguística aparentemente simples à descoberta de um princípio criador que organiza toda a obra. Como explica o próprio autor:
Spitzer concebeu um método de estudo de estilo que chamou ‘círculo filológico’. Consistia, bem resumidamente, no seguinte: inicialmente lia e relia, paciente e confiantemente uma obra, de grande artista, pois a escolha do autor já pressupõe uma valoração; graças à intuição, encontrava um traço estilístico significativo que servia como ponto de partida para a penetração no centro da obra, isto é, o espírito do autor, o princípio de coesão; a associação desse pormenor a outros permitia a apreensão do princípio criador, da forma interna, enfim levava à visão totalizadora da obra. E esse princípio criador devia ser confirmado pelos múltiplos aspectos da obra (Spitzer, 1968, p. 17).
A partir dessa concepção, este estudo busca seguir o caminho proposto por Spitzer, que parte do detalhe para o todo, do traço estilístico para a essência da obra. Desse modo, pretendemos iluminar, com o mesmo olhar atento e intuitivo sugerido por Spitzer, as conexões profundas entre a literatura de Guimarães Rosa e os mitos, símbolos e arquétipos que atravessam a cultura e o imaginário humano, revelando como o número três, em “A hora e vez de Augusto Matraga”, se torna um fio simbólico que costura o espiritual e o terreno, o humano e o divino.
2. SIMBOLOGIA DO TRÊS EM SAGARANA: NHÔ AUGUSTO ESTEVES, NHÔ AUGUSTO E AUGUSTO MATRAGA
Para começar, importa destacar as palavras de Walnice Galvão sobre o quanto os emblemas ou elementos simbólicos têm ocupado espaço no campo dos estudos de convenções emblemáticas que revelam o cerne da narrativa.
A questão dos emblemas tem ocupado algumas cabeças ilustres para quem, sem recurso a eles, muito da arte medieval, renascentista e neoclássica não poderia ser compreendida. Auerbarch se ocupou do caráter figural da literatura, Curtius estudou a tópica, Panofsky a iconografia, mario Praz os emblemas e as impresas, Jung os símbolos, êmile Mâle principalmente a produção religiosa. Do resultado das investigações, hoje podemos saber algumas coisas que auxiliam a compreender outras. (Galvão, 2008, p. 48).
Galvão sugere que Guimarães Rosa entra para a lista com uma composição literária carregada de simbologias e cita essa típica emblemaria empregada, por exemplo, em Matraga – um “triângulo inscrito numa circunferência”. Este pode ser interpretado, a partir de alusões às “escrituras sagradas”. Nessa perspectiva, o símbolo ultrapassa o nível meramente estético ou ornamental e atua como um meio de acesso ao transcendente, revelando aspectos profundos da experiência humana e espiritual.
Eliade (1991, p. 18) escreve: “o símbolo revela certos aspectos da realidade, os mais profundos, que desafiam qualquer outro meio de conhecimento”. O historiador das religiões entende que parte da oposição entre o sagrado e o profano e busca identificar, nas narrativas, hierofanias que são manifestações do sagrado em formas, imagens e gestos cotidianos. Assim, a leitura simbólica possibilita reconhecer na literatura as estruturas míticas e arquetípicas que expressam a necessidade humana de sentido e de reencontro com o sagrado.
Em Sagarana de JGR, quanto ao simbolismo numérico, o número três, em particular, emerge com força como um símbolo de transformação, plenitude e equilíbrio, elementos essenciais para a compreensão no conto novelístico “A hora e vez de Augusto Matraga”. No contexto literário, o simbolismo numérico é entendido não só uma técnica narrativa, mas também como um meio de expressar camadas profundas de significado e podemos perceber esse simbolismo em obras além daquelas construídas por Rosa. Um exemplo clássico do uso do número três em obras, além da analisada neste estudo, é a estrutura tripartida em A Divina Comédia de Dante Alighieri, onde o poema épico é dividido em três partes: inferno, purgatório e paraíso onde cada seção reflete uma fase da jornada espiritual do protagonista, reforçando o simbolismo do número três como um ciclo de queda, purificação e ascensão. Assim como Dante percorre três estágios até alcançar a redenção, Matraga também vive três momentos essenciais: sua queda moral e social após ser espancado e abandonado, o período de penitência e isolamento na serra, e por fim, a ascensão espiritual, quando enfrenta Joãozinho Bem-Bem e morre com o “rosto radiante” (Rosa, 1946, p. 332).
Outro exemplo é o uso do número sete em Sete Contra Tebas, de Ésquilo, em que as sete portas da cidade simbolizam uma totalidade ameaçada pela guerra e pelos inimigos. Esse número, tradicionalmente ligado à perfeição e à plenitude, confere ao conflito uma dimensão mítica, ultrapassando o plano terreno e alcançando o espiritual e o cósmico. De modo semelhante, em “A hora e vez de Augusto Matraga”, Guimarães Rosa utiliza símbolos numéricos para representar forças que atuam além do humano, como quando Matraga, após sua queda, busca purificar-se por meio de uma rotina quase ritualística de oração e penitência. Assim como as sete portas de Tebas guardam o destino da cidade, os ciclos de dor e fé de Matraga representam suas “portas interiores”, que precisam ser atravessadas para que ele alcance a plenitude e a redenção. Sobre a ideia de perfeição, Walnice Galvão cita o triângulo marcado nas nádegas de Matraga como marcas que o levaria a um rito de passagem para um processo de santitude e argumenta
O triângulo, particularmente o equilátero, é uma figura de perfeição. Na simbologia Tantra, como nos grafitti modernos, se com o vértice para baixo indica o princípio feminino; se com o vértice para cima, o princípio masculino; sobrepostos, a união dos dois princípios, essa sobreposição se encontra na estrela-de-Davi, o mesmo sino salamão (signo de Salomão) da indumentária cangaceira [...]. No caso de Matraga, o significado é claramente cristão, pois o triângulo é sinal clássico da Santíssima Trindade e dele temos notícia, gráfica ou verbal, desde os primeiros séculos do cristianismo (Galvão, 2008, p. 50-51).
Esses exemplos revelam como o simbolismo numérico, seja pelo três, pelo sete ou por outros números carregados de sentido, vai muito além de um simples recurso literário. Ele funciona como uma linguagem silenciosa, capaz de traduzir as inquietações mais profundas da alma humana. Em autores como Guimarães Rosa, Dante e Ésquilo, esses números se transformam em pontes entre o concreto e o espiritual, entre o que vivemos e o que pressentimos. O número deixa de ser apenas um elemento de composição para se tornar expressão de mistério, fé e destino que é aquilo que une todas as histórias, inclusive a nossa, à eterna busca por sentido.
Guimarães Rosa, ao lançar mão desse recurso linguístico – o uso do 3 – na composição narrativa, revela o sertão como espaço de trindades – um dos espaços mais densos da literatura universal. Longe de ser apenas cenário físico, ele constitui o território simbólico onde se desenrola o drama da existência. Walnice Galvão, uma das principais estudiosas da obra de Guimarães Rosa, oferece uma análise detalhada da forma como o autor constrói suas narrativas a partir de elementos da cultura popular brasileira, especialmente em sua representação do sertão.
Em "Sagarana, o Voo de Tântalo", a autora explora como Rosa utiliza a oralidade, os mitos e o folclore sertanejo para criar uma prosa que, embora enraizada na realidade regional, transcende para alcançar uma universalidade estilística e temática, ele consegue falar de questões e temas que são compreensíveis e relevantes para pessoas de diferentes lugares e culturas. Segundo Galvão, Rosa transforma o sertão em um espaço mítico, onde as histórias populares ganham uma complexidade estilística que as eleva ao patamar da literatura erudita (Galvão, 1972, p. 47). Ela destaca que a obra de Rosa não simplesmente retrata o sertão como um lugar físico, mas como um universo simbólico onde se desenrolam questões universais sobre a existência, a identidade e o destino humano, ou seja, ele faz o leitor criar uma ligação e profundidade com o sertão além do que é palpável e rompe com as narrativas tradicionais ao mesclar o erudito com o popular, criando um estilo inovador que dialoga com a cultura popular de maneira sofisticada.
Outro crítico da obra de Rosa é Antonio Candido, haja vista que oferece uma análise profunda da obra de Guimarães Rosa, enfatizando a dimensão transcendental de suas narrativas. Para Candido, Rosa não se limita a contar histórias sobre o sertão ou seus habitantes; ele utiliza a narrativa como uma ferramenta para explorar as relações entre o homem, o mundo e o divino.
Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, o sertão aparece como paisagem, mito e espírito - três dimensões que se interpenetram, formando a base trina da experiência humana e literária. Como observa Santos (2023, p. 108), o sertão é o “Sertão-Mundo”, uma categoria simbólica que condensa todas as contradições da vida. Ele é o espaço do limite e da travessia, da provação e da graça. O número três, nesse contexto, manifesta-se como lógica interna da paisagem: o sertão é físico, porque impõe a luta pela sobrevivência; é mítico, porque dialoga com arquétipos universais de queda e redenção e; é espiritual, porque serve de caminho para o encontro com o divino. A topografia do conto reforça essa trindade. Rosa alterna entre três espaços fundamentais: o arraial, que representa o mundo da violência e do pecado; a serra isolada, símbolo do recolhimento e da penitência; e o campo de batalha final, onde ocorre a morte e a redenção. Cada espaço corresponde a uma etapa da jornada interior do herói. Assim, o sertão é ao mesmo tempo palco e personagem: um espelho da alma humana em busca de equilíbrio.
Bosi (1996) destaca que o regionalismo de Rosa se torna universal porque “o sertão deixa de ser geografia e passa a ser condição de alma”. O sertão trino, real, mítico e espiritual, é o cenário onde o homem enfrenta o caos e busca a harmonia. É nesse espaço que o três se materializa como princípio de estrutura e de sentido.
Para tratar da reflexão de Mircea Eliade, em Mito e Realidade (1972, p. 67), importa destacar que o historiador entende que "os números não são apenas símbolos matemáticos, mas expressam uma realidade mais profunda e uma organização do cosmos". Então, nessa perspectiva e de acordo com esse embasamento, concebe-se que o número 3 em “A hora e vez de Augusto Matraga” não só organiza a narrativa, mas também simboliza a busca do protagonista por uma plenitude espiritual que se faz necessária dada a sua trajetória na narrativa.
A história de Augusto Matraga pode ser dividida em três momentos distintos, que são, simultaneamente, etapas de sua jornada interna: a queda, a penitência e a redenção. Cada um desses momentos é marcado pela presença de três elementos centrais, que tornam o número três um princípio organizador da narrativa.
O enredo de “A hora e vez de Augusto Matraga” segue uma estrutura ternária evidente, que se manifesta tanto na sequência dos acontecimentos quanto no desenvolvimento psicológico e espiritual do protagonista. A narrativa se organiza em três momentos fundamentais: a queda, a penitência e a redenção. A trajetória de Augusto Matraga, desde seu nascimento até o momento de sua queda, é caracterizada por uma vida de violência, egoísmo e desrespeito pelas normas sociais e espirituais. Sua vida no sertão é pautada por ações cruéis, imorais e insensíveis, o que o leva a um destino de decadência. A primeira fase é a da queda. Nhô Augusto Esteves (nome de batismo – estão em três: ele, esposa e filha), senhor poderoso e temido, encarna o homem dominado pela soberba e pelo pecado. O adultério da esposa que sai de casa com a filha, rende-lhe a perda do respeito social precipitam sua ruína moral e física. Brutalmente castigado pelos capangas do rival, ele é deixado quase morto, nu e sem nome: metáfora da morte simbólica do homem antigo. Essa etapa corresponde à descida ao inferno, necessária para a posterior ascensão. Rosa constrói essa queda com vigor trágico e ao mesmo tempo místico, fazendo do sofrimento o início da redenção. Neste ponto da história, Guimarães Rosa já nos prepara para os próximos passos de Augusto Matraga: sua busca por uma morte simbólica, a purificação de sua alma e a possibilidade de transformação que só surgirá quando ele for capaz de confrontar e entender a profundidade do mal que ele mesmo criou.
A segunda fase é a da penitência. Salvo por um casal de lavradores humildes, Nhô Augusto (nome social) é acolhido em uma casa isolada, no alto da serra por um casal de pretos (permanecem em três por um longo período de purificação da alma e do corpo). Ali, passa anos em recolhimento, dedicando-se à oração e ao trabalho simples. Essa etapa é marcada pela repetição: três orações diárias, três jejuns por semana, três anos de espera pela “hora e vez”. A vida ascética e o silêncio preparam-no para a transformação interior. Como aponta Santos (2023, p. 151), Rosa “recria a jornada do herói como processo espiritual de expiação e purificação, à imagem dos ritos de iniciação”.
A terceira fase é a da redenção. O reencontro com o jagunço Joãozinho Bem-Bem marca o momento da prova final. Ao se sacrificar para salvar o outro, Nhô Augusto, por fim, Augusto Matraga realiza o gesto máximo da fé e da compaixão. Sua morte é morte de corpo e elevação da alma, a síntese das etapas anteriores. Ao pronunciar o nome de Jesus no instante final, ele cumpre o ciclo: pecado, penitência e graça. A tríade narrativa se fecha, e o herói atinge a completude espiritual. Rosa, em sua arquitetura literária, constrói o conto de modo que cada parte se reflita nas demais. A estrutura ternária é a própria respiração do texto. Há ritmo trino nas frases “rezava de manhã, rezava de tarde, rezava de noite” (Rosa, 1946, p.292-333), nas ações, nos espaços e nas imagens. O três é a medida da totalidade, da perfeição, o número do equilíbrio entre o homem e o mistério.
A simbologia do número três em Rosa está profundamente enraizada na tradição cristã. O conto novelístico de Rosa apresenta-se, em essência, uma parábola sobre o mistério da Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não se trata de uma presença literal ou dogmática, mas se manifesta na estrutura da narrativa e na espiritualidade do protagonista. O Pai corresponde à justiça divina que pune o pecado e conduz o homem à purificação. O Filho encarna a via do sofrimento e da entrega; Matraga é figura do Cristo sertanejo, que carrega sua cruz sob o sol do agreste. O Espírito Santo é o sopro de graça que guia a transformação interior — o vento que atravessa o sertão e o coração humano. Candido (1995, ano, p. 28) observa que Rosa “traduz a fé do povo como força vital e estética”, e é justamente essa fé simples, mas profunda, que move Matraga. Sua religiosidade não é institucional, mas vivencial; não depende do dogma, e sim da experiência direta com o sagrado. Ao rezar, o protagonista cria uma relação íntima com o divino, que o conduz à regeneração. Essa dimensão trinitária não se limita à personagem. Ela permeia toda a obra: a voz narrativa, a linguagem e a mensagem compõem uma tríade inseparável. A religiosidade popular, misturada a elementos míticos e bíblicos, forma um cristianismo poético, em que o sagrado e o profano coexistem. Eliade (1989) explica que o símbolo é sempre duplo: manifesta e oculta, ao mesmo tempo, o mistério que representa. O número três, nesse sentido, é o símbolo da união dos opostos — o humano e o divino reconciliados pela fé.
O número três possui, nas culturas antigas e nas tradições religiosas, um valor universal. Representa o equilíbrio dinâmico entre os contrários, a síntese que dá origem à harmonia. Mircea Eliade (1972, p. 67) afirma que “o três é o número do cosmos e da ordem”. Guimarães Rosa, ao construir “A hora e vez de Augusto Matraga”, parece consciente desse poder simbólico. Em sua narrativa, o número três estrutura o tempo, o espaço e a linguagem. Temporalmente, a vida de Matraga divide-se em três momentos. Espacialmente, o sertão se organiza em três territórios simbólicos: o arraial, a serra e o campo da morte. Linguisticamente, a prosa de Rosa é marcada por repetições ternárias e por uma cadência que lembra a tríplice invocação litúrgica.
Santos (2023, p. 18) identifica na obra rosiana “um jogo de múltiplas camadas simbólicas que conduzem o leitor do visível ao invisível”. Essa ascensão interpretativa reflete também o poder do três: o leitor, ao percorrer as camadas do texto, refaz o caminho do herói, passando da aparência à essência, do humano ao espiritual. No plano filosófico, o número três expressa a dialética do ser. Assim como na tradição hegeliana a síntese resulta da tensão entre tese e antítese, em Rosa a redenção nasce do conflito entre pecado e graça. Matraga é o homem dividido que, ao reconciliar suas partes, atinge a unidade interior. Há também uma tríade metafísica que estrutura o pensamento rosiano: Deus, o homem e a palavra. Deus é o princípio, o homem é o meio, e a palavra é o elo. A literatura de Rosa realiza o encontro entre esses três polos, transformando o verbo em revelação.
Spitzer (1961) entende que o estilo é o ponto de convergência entre o espírito e a forma; em Rosa, o estilo é trino, feito de som, sentido e símbolo. O número três, portanto, é mais do que um recurso formal: é uma filosofia de mundo. Ele representa o movimento da existência, o ciclo vital da criação, destruição e renovação. Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, esse número traduz a crença de que o homem só alcança a plenitude quando integra corpo, alma e espírito em um mesmo gesto de fé.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em A hora e vez de Augusto Matraga, Guimarães Rosa converte o número três em princípio de composição e em símbolo de transcendência. A tríade estrutura a narrativa, define o percurso do herói e traduz a cosmovisão rosiana, em que o sertão é o espelho da alma humana e o lugar da experiência sagrada.
Numa incursão filológica na narrativa como sugere Leo Spitzer, atenta-se ao texto e os seus detalhes estilísticos, reconhecendo como pequenas escolhas de linguagem, repetições e estruturas narrativas contribuem para a construção de significados mais amplos. Da mesma forma, a leitura simbólica como propõe Mircea Eliade permite compreender o número três não apenas como um recurso formal, mas como uma verdadeira hierofania, uma manifestação do sagrado no mundo profano, que orienta a trajetória de transformação do protagonista.
O número três manifesta-se nos níveis: e enredamento (queda, penitência e redenção), espaço (arraial, serra e campo), fé (Pai, Filho e Espírito Santo) e, na linguagem (som, sentido e símbolo). Essa multiplicidade trina revela a engenhosidade de Rosa em transformar o regional em universal, o simples em cósmico, o humano em divino. Assim como em A divina comédia, de Dante Alighieri, e em Sete contra Tebas, de Ésquilo, os números ultrapassam a função de simples estrutura narrativa e se tornam símbolos capazes de conectar o humano ao divino, o cotidiano ao mítico, o individual ao coletivo. Esses paralelos demonstram que Rosa insere sua obra em uma tradição literária universal, transformando o sertão em espaço simbólico e metafísico, onde o real e o transcendente se encontram.
O sertão, como espaço de trindades, é também o lugar da transformação interior. Ele representa o caminho árduo, mas necessário, para a integração do ser. Rosa faz da palavra um instrumento de revelação, e da narrativa, um rito de passagem. Como afirma Santos (2023, p. 160), “Rosa faz da linguagem um campo de revelação e do sertão um espaço de transcendência”. Portanto, a análise demonstra que os números e os símbolos em Rosa não são meros detalhes formais: são instrumentos de sentido, capazes de conectar o leitor à experiência universal de queda, aprendizado e redenção, e de revelar, de maneira sensível e poética, o poder transformador da literatura. Ao final, o conto reafirma a capacidade da narrativa de nos tocar profundamente, de nos fazer refletir sobre nossas próprias escolhas, caminhos e possibilidades de reconstrução interior, mostrando que mesmo nas circunstâncias mais duras, há espaço para a esperança, a renovação e a reconciliação com o mundo e consigo mesmo. O número três, por sua vez, é o fio invisível que une os elementos dispersos da existência. Ele simboliza a harmonia, a síntese e a plenitude. Em Matraga, o três se torna destino e salvação: ao morrer em nome da fé, o herói alcança o equilíbrio entre o humano e o divino. O sertão, enfim, revela-se o verdadeiro templo onde o homem encontra Deus e onde a literatura encontra sua eternidade.
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