LABIRINTOS TEMPORAIS EM CONTOS DE JORGE LUIS BORGES

LABYRINTHINE REPRESENTATIONS OF TIME IN JORGE LUIS BORGES' SHORT STORIES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775437534

RESUMO
Tempo e labirinto são temas recorrentes na produção literária e ensaística do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e, muitas vezes, aparecem associados. Este artigo toma como base o conto Os teólogos, a fim de comentar a presença de diferentes noções de tempo em narrativas do autor e destacar como essa categoria constitui um aspecto labiríntico desses textos, visto que confunde e inquieta a existência humana, manifestando-se por meio de múltiplas modalidades: linear, circular, simultânea, entre outras. A análise assenta-se em concepções filosóficas sobre o tempo, na simbologia do labirinto, nas características do gênero conto, na construção das categorias narrativas e na fortuna crítica de Borges. Uma rivalidade de dois teólogos no combate a heresias é o mote para afirmar a existência de tempo linear, circular e discutir a complexidade da identidade, aspectos que lançam o homem em um labirinto em busca da compreensão desses conceitos que tanto o intrigam.
Palavras-chave: Jorge Luis Borges; Labirinto; Tempo.

ABSTRACT
Time and labyrinth are recurring themes in the literary and essayistic production of the Argentinian writer Jorge Luis Borges (1899-1986) and often appear associated. This article takes as its basis the short story "The Theologians" in order to comment on the presence of different notions of time in the author's narratives and to highlight how this category constitutes a labyrinthine aspect of these texts, since it confuses and unsettles human existence, manifesting itself through multiple modalities: linear, circular, simultaneous, among others. The analysis is based on philosophical conceptions of time, the symbolism of the labyrinth, the characteristics of the short story genre, the construction of narrative categories, and Borges's critical reception. A rivalry between two theologians in the fight against heresies is the starting point for affirming the existence of linear and circular time and discussing the complexity of identity, aspects that throw man into a labyrinth in search of understanding these concepts that intrigue him so much.
Keywords: Jorge Luis Borges; Labyrinth; Time.

INTRODUÇÃO

Jorge Luis Borges (1899-1986), autor argentino cujas obras transcendem as fronteiras do tempo e da lógica convencional, abordou uma vasta gama de temas filosóficos e metafísicos em sua produção literária. Segundo Williamson (2011, p. 11), o escritor antecipou em suas narrativas curtas muitos dos temas pós-modernos: reflexões sobre o tempo e o eu, a dinâmica da escrita e da leitura, o caráter arbitrário da identidade pessoal, o sujeito descentrado, a morte do autor, as limitações da linguagem e da racionalidade, a intertextualidade, a natureza historicamente relativa e construída do conhecimento humano, entre outros.

Além disso, é notável nos textos borgianos uma fixação pela figura do labirinto, que, segundo o próprio autor (Borges, 1999, p. 247), surgiu desde a infância, quando se deparou com representações do labirinto de Creta, obra de Dédalo, símbolo que, ao longo da história humana ganhou contornos interpretativos de profunda confusão e busca incessante (Mello, 2007).

Nas obras de Borges, que renunciou à produção de romances e se dedicou à escrita de gêneros curtos como contos, poemas e ensaios, afloram muitas de suas obsessões temáticas. Nesse contexto, pode-se perceber que tempo e labirinto são elementos recorrentes e interligados em seus textos, funcionando não apenas como símbolos de uma busca incessante pela verdade, pelo sentido das coisas, mas também como metáforas do aprisionamento do corpo e da mente humana. Em diversos de seus contos, Borges desenvolve a ideia de um tempo que não é linear ou fixo, mas sim maleável, circular, repetitivo e até mesmo simultâneo. Por meio de narrativas como Os Teólogos (O Aleph, 1949), ele reflete sobre diferentes concepções temporais, conduzindo o leitor a confrontar-se com a fragmentação do tempo e da identidade. A imagem do labirinto e a compreensão do tempo são duas dessas concepções interligadas. Entretanto, mais do que uma simples estrutura narrativa ou física, o labirinto em Borges representa as múltiplas possibilidades do tempo e os caminhos intrincados que o ser humano percorre em sua tentativa de compreender sua própria existência.

Dessa forma, o tempo constitui uma inquietação humana, devido às indagações sobre a imortalidade ou sobre a finitude. De acordo com Nemi, Borges “toca em suas obras, em diferentes problemas teológicos e filosóficos. Dentre eles, o do tempo é um dos mais abordados, em poemas, ensaios e contos” (Nemi, 2017, p. 479). Além disso, tratando-se de um escritor, é preciso lembrar que:

[...] o caráter comum da experiência humana que é marcado, articulado, clarificado pelo ato de narrar em todas as suas formas, é o seu caráter temporal. Tudo o que se narra acontece no tempo, desenvolve-se temporalmente; e o que se desenvolve no tempo pode ser contado. (Ricoeur, 1989, p. 24)

Na concepção de Borges, o tempo se destaca como uma das questões metafísicas mais relevantes, sendo, para ele, um problema que nos atinge de maneira única e profunda. Como ele próprio afirma, "o problema do tempo nos afeta mais que os outros problemas metafísicos. Porque os outros são abstratos. O tempo é nosso problema" (Borges apud Nemi, 2017, p. 479). Essa obsessão pelo tempo é exposta de forma clara em suas narrativas, que não apenas exploram suas diversas facetas, mas também refletem sobre as múltiplas maneiras pelas quais ele pode ser entendido e experimentado. Em suas obras, o tempo aparece não como uma abstração distante, mas como uma questão concreta que molda a realidade e a existência humana de maneira complexa.

Em muitos de seus contos, Borges associa o conceito de labirinto à representação do tempo. O labirinto remonta à mitologia greco-romana com a construção de Dédalo, tradicionalmente visto como um símbolo de aprisionamento e confusão, representando caminhos tortuosos e impenetráveis, com um objetivo ou saída inalcançáveis. Segundo Mello (2007, p. 372), essa imagem de desorientação e busca obsessiva por um centro ou uma saída ressoou em diversas culturas, sendo adotada como um símbolo de obstáculos difíceis de superar.

Na obra de Borges, o labirinto se torna uma metáfora não apenas para a confusão espacial, mas também para a complexidade do tempo, que, em muitas de suas narrativas, se apresenta de maneira fragmentada e multifacetada. O tempo, assim, se transforma em um labirinto cujos caminhos não são fixos, e onde os indivíduos se veem perdidos em tentativas de compreender conceitos como a imortalidade, a finitude e as diferentes percepções do tempo que as pessoas têm ao longo da vida.

Essa incapacidade de dominar ou de entender plenamente o tempo gera um sentimento de aprisionamento e desorientação, em que os seres humanos se veem como viajantes errantes, tentando compreender algo que, por sua própria natureza, resiste a uma explicação definitiva. Esse labirinto temporal não é apenas uma representação de confusão, mas também de uma busca constante por sentido, abordada por muitos estudiosos e escritores ao longo da história, como reflexo de uma questão fundamental da existência humana.

Um exemplo clássico dessa reflexão sobre o tempo pode ser encontrado no conto Os Teólogos, presente na coletânea O Aleph (1949). Neste conto, a história gira em torno de uma rivalidade entre dois teólogos que buscam combater heresias e defender suas respectivas ortodoxias. Essa luta ideológica está impregnada de discussões sobre a natureza do tempo, com uma clara defesa do tempo linear, associado à ideia de progresso e causa e efeito, mas também com a presença de um tempo circular, embora negado pelos teólogos envolvidos. Essa ambiguidade temporal revela a complexidade com que Borges lida com o conceito de tempo, demonstrando que ele não se limita a uma única perspectiva ou interpretação, mas sim a uma multiplicidade de possibilidades que se entrelaçam.

Além disso, o conto Os Teólogos aborda questões relativas à identidade. De acordo com Chevalier (1994), o labirinto pode ser visto como uma metáfora para a jornada interior do ser humano, levando-o a confrontar-se com aspectos profundos de sua própria essência. Nesse contexto, os dois protagonistas do conto, com suas características contrastantes, apresentam-se quase como personas duplas: ora semelhantes, ora opostos, ora complementares. Esse jogo de identidade reflete a maneira como Borges lida com a ambiguidade e a fragmentação, tanto do tempo quanto da identidade, duas dimensões profundamente interconectadas em sua obra.

Portanto, ao analisar o conto Os Teólogos (1949), pode-se perceber como o escritor utiliza a imagem do labirinto, as concepções de tempo linear e circular e a reflexão sobre a identidade para construir uma narrativa que desafia a compreensão convencional do tempo. Essa análise revela a complexidade e labiríntica natureza do tempo em sua obra, com objetivo de instigar o leitor a embarcar em uma jornada de busca e questionamento que nunca se resolve completamente, mas que, ao contrário, se mantém sempre aberta a novas interpretações e possibilidades.

DESENVOLVIMENTO

O conto Os Teólogos constitui uma das narrativas mais emblemáticas do autor argentino no que diz respeito à exploração do tempo, da identidade e do labirinto. Ambientada na atmosfera sombria da Idade Média, marcada pela força esmagadora da Igreja, pela Inquisição e pelo fervor teológico, a história traça uma complexa trama de rivalidades, simbolismos e reflexões metafísicas. Essa ambientação transcende o cenário físico e se apresenta como um estado de espírito, evocando a opressão intelectual e o peso das crenças religiosas em uma era de perseguições. Como destaca Mello (2007), o labirinto não é apenas um espaço físico, mas um reflexo da mente humana, simbolizando a busca incessante por respostas em meio à confusão.

A história começa narrando uma conquista dos povos hunos (antiga confederação de povos eurasianos composta por nômades ou seminômades equestres, com uma aristocracia central de origem altaica) e a queima de livros dos dominados, à qual só teria resistido Civitas Dei, de Santo Agostinho (426 d.C.). Livros emergem como símbolo de tempos acumulados e da persistência de ideias ao longo da história. Ricoeur (1989) aponta que os textos, enquanto artefatos culturais, são portadores de significados que atravessam o tempo e estabelecem diálogos com diferentes contextos históricos. Assim, o livro de Agostinho se torna uma metáfora da resistência do conhecimento frente à destruição e à censura.

Na obra preservada, o Santo menciona ideias de Platão sobre um eterno retorno (sobre um momento em que as coisas recuperariam seu estado anterior), a fim de refutar essa ponderação, mas é justamente nessa ideia de tempo cíclico que tempos depois se apoia a seita dos monótonos ou anulares, heresia da Roda e da Serpente, que “professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e não será” (Borges, 2017, p. 33). Essa seita contradiz o tempo linear pregado pela Igreja e, por isso, é alvo de refutações de dois teólogos, Aureliano e João de Panônia.

A estrutura do conto, com seu caráter fortemente reflexivo, aproxima-se de um tratado teológico. Borges rejeita o modelo tradicional de contos centrados em acontecimentos, optando por uma construção baseada na intensidade filosófica e na tensão metafísica. Essa escolha reflete o contexto histórico da narrativa, em que a força da Igreja e a autoridade dos teólogos moldavam a compreensão do mundo. Williamson (2011) observa que Borges, ao lidar com temas como tempo e identidade, transcende as limitações da linguagem convencional, criando narrativas que são, ao mesmo tempo, literárias e filosóficas.

Embora não se conheçam pessoalmente, Aureliano nutre certa inveja por João, sendo este último o primeiro a escrever sobre a seita herética dos monótonos e a estimular, por meio de seu escrito, a morte de Euforbo, um heresiarca que é condenado à fogueira e que afirma em seus minutos finais que tudo voltará a acontecer, ratificando o tempo cíclico. Os dois protagonistas, embora rivais, são muito parecidos, são teólogos, seguem as mesmas crenças, escrevem tratados e refutações. Contudo, o texto deixa claro que a escrita de João era muito superior à de Aureliano, de períodos confusos, com solecismos e cacofonias.

Os dois teólogos, da forma como são caracterizados no conto, representam o duplo (personas duplas: ora semelhantes, ora opostos, ora complementares) na narrativa. Embora rivais, eles são espelhos um do outro, como as duas faces de uma mesma moeda. Essa dinâmica é reforçada pelo desfecho da história, em que Deus confunde as identidades dos dois, sugerindo que, em essência, eram manifestações de um mesmo ser. Para Chevalier et al. (1994), o espelho é um símbolo de duplicidade e reflexão, remetendo à ambiguidade inerente à identidade humana. Nesse sentido, Borges utiliza o contexto de espelhamento para explorar a fragmentação do sujeito “eu” e a relatividade da identidade, conceitos amplamente discutidos em sua obra.

O espelhamento entre os teólogos se coaduna com outra seita a ser combatida, a dos histriões (atores de farsas), especulares, abismais, cainitas, formas, simulacros. A abundância de nomes reflete a multiplicidade de ideologias do grupo: ascetismo, mutilação, mortificação, tolerância a crimes, roubo, homicídio, incesto, sodomia, bestialismo, negação do cristianismo, invenção de livros sagrados, nos quais afirmavam o reflexo invertido entre céu e terra (o céu espelha e imita a terra e não o contrário) e a não repetição do tempo. Essas ideias refletem a complexidade das interpretações sobre o tempo e a existência, como aponta Fernández (2013), ao discutir a metafísica do tempo na obra de Borges. Segundo o autor, o eterno retorno em Borges não se limita à repetição mecânica, mas engloba nuances filosóficas que desestabilizam as certezas teológicas.

Aureliano vê na refutação aos histriões sua chance de superar João. Ao escrever seu texto às autoridades romanas, em uma miscelânea de referências para contrariar e condenar a seita, redigiu uma oração de vinte palavras, “escreveu-a, prazeroso; imediatamente depois, inquietou-o a suspeita de que era de outrem” (Borges, 2017, p. 40) e se deu conta de que a frase era idêntica a um trecho da refutação de Panônia aos anulares. O teólogo pensa que tirar a citação empobreceria o texto, manter as palavras seria plagiar seu adversário, dar os créditos era acusar seu rival de opiniões heréticas, já que a frase, no contexto colocado, parecia concordar com o grupo rebelde. Embora decidisse manter o trecho e atribuir autoria a um “varão doutíssimo”, teve de confessar o dono das palavras, o que culminou na condenação de Panônia à morte na fogueira, não antes de ter sido torturado de forma semelhante a Jesus: despido, amarrado, coroado de palha untada de enxofre.

A execução de João é assistida por Aureliano, que, pela primeira vez, vê o rosto do inimigo e sente que a expressão lhe lembrava alguém. A repetição da morte na fogueira, as circunstâncias torturantes que remetem a Jesus condenado, a expressão facial que lembra um rosto já visto (talvez o próprio rosto de Aureliano refletido em João), a semelhança entre os dois protagonistas, o combate a seitas, intensificam e, de certo modo, confirmam a existência de um tempo circular, cíclico, repetido, tão refutado pelos teólogos, defensores da linearidade do tempo, de uma ação após outra, tal qual ocorre na escrita de uma narrativa.

O desfecho do conto coroa o conflito de identidade, a repetição e o tempo cíclico. Após a morte de João, Aureliano, sentindo-se culpado, isolou-se em lugares ermos para contemplação e tentativa de compreender seu destino. Ouvindo um ruído de chuva igual ao que já ouvira em outra ocasião no passado, Aureliano teve a cabana na selva em que habitava atingida por um raio, que incendiou tudo e o fez morrer no fogo. Ao chegar ao céu, percebe o distúrbio da mente divina, quando Deus o confunde com João, demonstrando o pouco interesse pelas desavenças dos dois teólogos. Para Deus, Aureliano e João “(o ortodoxo e o herege, o abominador e o abominado, o acusador e a vítima) constituíam uma única pessoa” (Borges, 2017, p. 42).

O labirinto, símbolo recorrente na obra borgiana, aparece como uma metáfora para a compreensão do tempo e da identidade. Mello (2007) observa que o labirinto é um espaço de confusão e busca incessante, onde cada caminho percorrido reflete as incertezas da mente humana. Não é gratuito que o conto é permeado por vários símbolos ligados à circularidade (sem início ou fim) e à repetição, como o anel, a roda e a serpente (aquela que come sua própria cauda, formando um círculo) da seita dos anulares, a moeda (óbulo), o espelho (que repete a imagem), mortes nas mesmas circunstâncias, semelhança entre os teólogos, sensações de déjà-vu (sensação de já ter visto ou vivido algo). Para Chevalier et al. (1994), o círculo é um símbolo de perfeição e infinito, mas também de confinamento e repetição. Essa ambiguidade é central na narrativa, de forma que o tempo circular revela tanto uma prisão quanto uma revelação.

Do mesmo modo há elementos que apontam para a identidade: a dupla imagem do espelho, o espelhamento terra e céu, João e Aureliano como duplos e a ideia de representação, imitação, falseamento, simulacro, nos nomes atribuídos à seita dos histriões. Importa notar a ironia do conto, que, no âmbito das ideias nega o tempo cíclico, mas na expressão dos acontecimentos o corrobora. Essa abordagem dialoga com as reflexões de Nietzsche sobre o eterno retorno, destacadas por Fernández (2013), que associa o retorno cíclico à impossibilidade de escapar do destino.

O conto também discute a relatividade da compreensão histórica. O que outrora era considerado ortodoxia, em outro momento tornar-se heresia, mais um par de ideias antagônicas. Há também o relativismo das crenças e de livros ora dogmáticos, ora inventados. As diferentes leituras e a importância do contexto fazem parte da narrativa. Os anulares basearam-se em uma afirmação que seria refutada em Civitas Dei, João foi condenado por uma frase tirada de seu contexto original, o que fez transformar (e negar) sua interpretação inicial. Essa fluidez das verdades religiosas e filosóficas evidencia a dinâmica histórica do conhecimento humano, conforme apontado por Nemi (2017) e demonstra como o tempo é muitas vezes responsável por permitir mudanças de perspectivas. Para Borges, essa relatividade é não apenas um tema literário, mas também uma crítica à rigidez das instituições que tentam controlar o pensamento, que buscam exprimir verdades únicas e incontestáveis, que possivelmente não existem.

Como se nota, a oposição entre tempo linear e tempo circular permeia toda a narrativa. O tempo linear, associado à ideia de progresso e causalidade, é defendido pelos teólogos como um dogma. Já o tempo circular, negado por eles, manifesta-se nas repetições cíclicas dos acontecimentos, como as mortes na fogueira e a confusão final entre Aureliano e João de Panônia. Essa tensão reflete a complexidade do conceito de tempo em Borges, que, como observa Fernández (2013), não se limita a uma única perspectiva, mas explora múltiplas possibilidades que se entrelaçam. A confusão entre Aureliano e João de Panônia no céu é uma síntese da visão borgiana do universo, ou seja, um lugar de interseções e espelhos, onde o tempo e a identidade se entrelaçam em um ciclo infinito. Para Nemi (2017), essa abordagem reflete a incapacidade humana de compreender plenamente o tempo, que permanece um mistério labiríntico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conto Os Teólogos, de Jorge Luis Borges (1949), revela-se uma obra profundamente reflexiva, cuja análise nos permite compreender a riqueza temática e filosófica de sua narrativa. Inserido no contexto da Idade Média, com seus dogmas, perseguições e debates teológicos, o texto explora temas centrais como o tempo, a identidade e o labirinto, trazendo à tona questões que desafiam tanto os protagonistas quanto os leitores. Borges constrói uma narrativa que transcende o relato linear, privilegiando uma estrutura complexa e ensaística, em que as ideias se entrelaçam em um movimento de constante reflexão e tensão.

O principal objetivo de Borges em Os Teólogos (1949) parece ser a investigação do tempo sob diferentes perspectivas, contrapondo a linearidade defendida pelos teólogos ao conceito de tempo circular, associado à repetição e ao eterno retorno. Por meio da rivalidade entre Aureliano e João de Panônia, o conto mostra como o tempo pode ser interpretado de maneira contraditória, mas também complementar. A presença de seitas que discutem diferentes concepções temporais e o desfecho que sugere a fusão das identidades dos protagonistas reforçam a ideia de que a compreensão do tempo é profundamente labiríntica, um reflexo da mente humana em busca de respostas que, paradoxalmente, escapam ao controle.

Ao longo da narrativa, Borges utiliza símbolos como o espelho, o círculo e o labirinto para aprofundar a discussão sobre a identidade e a percepção temporal. O espelhamento entre os protagonistas, que culmina na confusão de suas identidades no céu, ressalta a relatividade da compreensão do eu e reforça a circularidade da existência. O conto também se destaca por sua capacidade de integrar filosofia, religião e literatura em uma narrativa curta, mas extremamente densa.

A luta dos teólogos contra as heresias, a resiliência dos livros como símbolos de saber acumulado e as discussões sobre a ortodoxia e a heresia ao longo da história revelam o caráter multifacetado da obra. Borges não apenas propõe reflexões sobre o tempo, mas também sobre como as verdades humanas são construídas, desconstruídas e reinterpretadas, em um movimento que se assemelha à dinâmica cíclica de sua visão temporal.

Em síntese, Os Teólogos é uma narrativa que encapsula a essência da obra de Borges: a busca incessante por compreender o inefável, explorando os limites da linguagem, do tempo e da identidade. A história não oferece respostas definitivas, mas sim múltiplas camadas de interpretação, que convidam o leitor a se perder e a se encontrar no labirinto criado pelo autor. Ao questionar as fronteiras entre o real e o simbólico, entre o linear e o circular, Borges reafirma sua posição como um dos maiores exploradores das profundezas do pensamento humano, oferecendo uma obra que permanece atual e instigante em suas discussões.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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