TERRA, ENCANTAMENTO E ANCESTRALIDADE: DIÁLOGOS ENTRE AGROECOLOGIA E AILTON KRENAK NA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL SUSTENTÁVEL

LAND, ENCHANTMENT, AND ANCESTRALITY: DIALOGUES BETWEEN AGROECOLOGY AND AILTON KRENAK FROM THE PERSPECTIVE OF SUSTAINABLE TERRITORIAL DEVELOPMENT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779716745

RESUMO
O modelo de mundo atual, baseado no antropocentrismo, no extrativismo e na separação entre humanidade e natureza, revela-se esgotado por uma crise civilizatória profunda. Diante desse cenário, Ailton Krenak, em suas obras Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019) e Futuro Ancestral (2022), nos oferece fundamentos éticos e cosmológicos que dialogam profundamente com os princípios da Agroecologia. O objetivo desta pesquisa consiste em identificar as possíveis convergências entre o pensamento de Ailton Krenak e os princípios e saberes do escopo da Agroecologia, analisando como essas perspectivas podem contribuir para o desenvolvimento territorial sustentável. Para seu alcance, foi adotado uma abordagem qualitativa de natureza básica e caráter exploratório, realizando-se um estudo bibliográfico e análise de conteúdo afim de identificar diálogos/convergências entre as reflexões de Krenak e os saberes agroecológicos, com ênfase nos saberes tradicionais, na ancestralidade e nas epistemologias do Sul, e como esse diálogo contribui para o desenvolvimento territorial sustentável. Os resultados apontam que é necessária uma reconexão com a Terra de forma espiritual, ecológica e comunitária, propondo alternativas ao modelo hegemônico de agricultura e mostrando caminhos para construção de sistemas agroalimentares mais justos, resilientes e sustentáveis. Conclui-se que a integração entre ancestralidade, Agroecologia e desenvolvimento territorial sustentável oferece conceitos e práticas para fortalecer vínculos comunitários, proteger a biodiversidade e promover a autonomia local, dessa forma contribuem para a construção de futuros possíveis e integrados à vida.
Palavras-chave: Agroecologia; Ailton Krenak; Saberes Tradicionais; Ancestralidade; Desenvolvimento Territorial Sustentável.

ABSTRACT
The current worldview, based on anthropocentrism, extractivism, and the separation between humanity and nature, proves to be exhausted by a profound civilizational crisis. In this context, Ailton Krenak, in his works Ideas to Postpone the End of the World (2019) and Ancestral Future (2022), offers ethical and cosmological foundations that resonate deeply with the principles of Agroecology. The objective of this research is to identify the possible convergences between Ailton Krenak’s thought and the principles and knowledge within the scope of Agroecology, analyzing how these perspectives can contribute to sustainable territorial development. To achieve this, a qualitative approach of a basic and exploratory nature was adopted, using a bibliographic study and content analysis to identify dialogues/convergences between Krenak’s reflections and agroecological knowledge, with emphasis on traditional knowledge, ancestry, and Southern epistemologies, as well as how this dialogue contributes to sustainable territorial development. The results indicate that reconnection with the Earth—spiritually, ecologically, and communally—is essential, proposing alternatives to the hegemonic agricultural model and showing pathways for building fairer, more resilient, and sustainable agri-food systems. It is concluded that the integration of ancestry, Agroecology, and sustainable territorial development provides concepts and practices that strengthen community bonds, protect biodiversity, and promote local autonomy, thus contributing to the construction of possible futures integrated with life.
Keywords: Agroecology; Ailton Krenak; Traditional Knowledge; Ancestrality; Sustainable Territorial Development.

1. INTRODUÇÃO

O mundo contemporâneo passa por uma grave crise ambiental, como a intensificação das mudanças climáticas, o aumento do aquecimento global, da poluição hídrica, dos solos e rios, desmatamento, queimadas, a desertificação e a perda de biodiversidade. Soma-se a isso a desigualdade social e a intolerância cultural, resultando em crise social. Ailton Krenak, em suas obras: Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019) e Futuro Ancestral (2022), traz reflexões que conduzem à análise sobre a forma como a humanidade interage com a natureza, levando-nos a questionar a visão antropocêntrica. Os pensamentos trazidos por Krenak encontram repercussão na Agroecologia, uma ciência, prática e movimento social que tem como princípio o respeito aos saberes tradicionais, bem como à diversidade cultural e social para construir sistemas agroalimentares sustentáveis (Krenak, 2019; 2022; Shiva, 2022).

Esta pesquisa delineia-se a partir de duas vertentes interdependentes: por um lado, investiga-se a inter-relação entre as reflexões trazidas por Krenak e os princípios agroecológicos, defendidos por autores como Miguel Altieri e Clara Nicholls (2020) e Francisco Caporal (2009); por outro lado, intenciona-se a valorização dos saberes ancestrais como promotores de práticas agrícolas sustentáveis, políticas públicas e ações voltada para convivência harmônica com a natureza. Ambos os caminhos podem levar a pensamentos que ajudem a construir um futuro sustentável e práticas que fortaleçam o desenvolvimento de territórios. Segundo Krenak (2019; 2022), torna-se necessário desconstruir a mentalidade colonial e valorizar os saberes indígenas, essa é a fonte para um futuro mais sustentável.

A despeito de situar-se no campo teórico, o estudo dialoga com experiências da Agroecologia vivenciadas por comunidades tradicionais brasileiras, envolvendo sujeitos ligados aos povos indígenas e ao movimento agroecológico. Considera, também, questões socioeconômicas e ambientais. É necessário repensar o modo como a humanidade se relaciona com o planeta. O fim do mundo deve ser encarado como uma oportunidade para imaginar um futuro sustentável e justo para todos os povos (Krenak, 2019; Danowski; Viveiros, 2014).

Diante desse contexto, o objetivo da pesquisa constituiu em identificar as possíveis convergências entre o pensamento de Ailton Krenak e os princípios e saberes do escopo da Agroecologia, analisando como essas perspectivas podem contribuir para o desenvolvimento territorial sustentável. Ailton é da etnia Krenak, assumindo-se como liderança indígena e ambientalista. Também é filósofo, poeta, escritor e jornalista. Nos livros Ideias para adiar o fim do Mundo e Futuro Ancestral, ele traz a visão do mundo indígena, no qual seres humanos e meio ambiente são interdependentes. Este estudo busca, também, compreender como essa visão pode colaborar com alternativas que contraponham o modelo de agricultura tradicional. Destarte, questiona-se: como as reflexões de Krenak podem fortalecer a construção de práticas agroecológicas focadas na sustentabilidade ambiental e na justiça social na perspectiva do desenvolvimento territorial?

Nesse sentido, o presente trabalho torna-se relevante por aproximar os saberes originários às práticas agroecológicas, além de trazer uma contribuição centrada no diálogo entre epistemologias, reconhecendo os saberes tradicionais como fundamentais para construir caminhos mais justos e sustentáveis. Afinal, um diálogo de saberes é necessário para se construir alternativas às assimetrias sociais e as desigualdades impostas por práticas hegemônicas (Santos; Meneses 2013).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Crise Civilizatória e o Pensamento Ocidental Moderno

Na atualidade, a humanidade enfrenta uma crise civilizatória que vai além dos limites ambientais e econômicos, chegando a atingir dimensões éticas, espirituais e culturais. O nascimento dessa crise vem de um pensamento contemporâneo ocidental que tem como base a separação entre ser humano e natureza, legado que vem da ideia cartesiana e iluminista que instaurou uma visão de mundo antropocêntrica a partir da consolidação do dualismo sujeito-objeto. Um modelo, onde a natureza se apresenta como um recurso que deve ser dominado e explorado em prol do progresso e do lucro (Latour, 2004; Santos, 2018). A crise ambiental não é apenas ecológica, mas uma crise da racionalidade moderna, baseada na lógica produtivista, no utilitarismo capitalista e na redução da natureza à condição de matéria-prima (Leff, 2006).

Esse império cognitivo se dá como um regime de pensamento que trata outros modos de ser e conhecer o mundo de forma marginalizada, desconsiderando saberes não científicos, como os indígenas, camponeses e tradicionais (Santos, 2018). A partir do momento em que se pretende universalizar esse modelo de pensamento instaura-se uma hegemonia do saber e do ser, tornando inviáveis epistemologias diversas e modos que se baseiam na reciprocidade com a Terra. Essa dominação cognitiva tem base no que Santos (2018) chama de epistemicídio, o extermínio sistemático de outras formas de conhecimento (Santos; Meneses, 2013).

Atualmente vivemos um “colapso do mundo moderno”, que ocorre por consequência da expansão sem limites do capitalismo e do rompimento na relação entre humanidade e planeta (Danowski; Viveiro de Castro, 2014). Outro sintoma dessa desconexão ontológica, e provavelmente o mais visível, é o Antropoceno, época geológica marcada pela ação destrutiva humana. Tudo isso culmina na aceleração das mudanças climáticas, perda da biodiversidade e o aumento das desigualdades sociais, o que Krenak (2019) chama de “esgotamento da imaginação humana". 

Ailton Krenak reflete sobre essa crise e propõe: compreender que o “fim do mundo” não se enquadra apenas no campo metafórico da ecologia, mas também uma consequência direta de uma forma de existir que rompeu o vínculo espiritual com a mãe Terra. Ele faz críticas a ideia de humanidade homogênea traz uma proposta de reconhecermos um mundo plural, múltiplas cosmologia e experiências de coexistir e sustentar a vida (Krenak, 2019; 2022). O autor aponta para uma ética do encantamento e da interdependência. 

A compreensão da crise civilizatória requer reconhecer que ela é também uma crise epistemológica, evidenciando o colapso de uma modelo de conhecimento que separou o humano do não humano, reduzindo o planeta à condição de mercadoria (Santos, 2018; Morin, 2001). A superação desse impasse passa pelo início de novas perspectivas epistemológicas e ontológicas, perspectivas essas que contemplam a coexistência, a diversidade e a ancestralidade como fundamentos de uma nova racionalidade ecológica e social (Krenak, 2019; 2022). 

2.2. Pensamento de Ailton Krenak: Ancestralidade e Futuro

As ideias de Krenak surgem como uma crítica potencial ao pensamento moderno e ao distanciamento entre humano e natureza. Nas suas reflexões, o autor aborda uma proposta onde enxerga-se o ser humano como parte da Terra e não como ser superior/dominador. A crise atual mostra a exaustão de uma coletividade que perdeu o encantamento e o sentimento de pertencimento, substituindo a identidade espiritual com o planeta pela lógica da exploração e do consumo (Krenak, 2019). Ainda conforme Krenak (2019) esse afastamento demonstra o “fim do mundo” como falência de uma forma de existir. 

No seu livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019), Krenak faz um convite a recusar a noção de um “homem universal” e reconhecer múltiplos mundos e formas de viver. Para o autor, é necessário restabelecer a interdependência entre todas as formas de vida, interrompendo assim a crença de que o ser humano é superior em relação aos outros seres e da mesma forma, a crença no progresso linear. Ele destaca que os povos originários, no decorrer da história, sempre viveram a partir da percepção que sustenta práticas de convivência e reciprocidade com o território. A ancestralidade não se refere apenas ao passado, ela constitui uma forma de estar no mundo que preserva a continuidade da vida.   

Apenas um futuro é possível, se ele for ancestral, ou seja, um futuro que tem suas raízes na memória, na sabedoria e na ética dos povos que ainda mantêm viva a relação de comunhão com a Terra (Krenak, 2022). Na obra Futuro Ancestral (2022), Krenak traz uma proposta de um futuro inspirado na ancestralidade, guiado pela espiritualidade, solidariedade e equilíbrio ecológico, o que vai de encontro ao paradigma de futuro que se orienta pelo progresso material e pela tecnologia. Nessa perspectiva, o tempo é cíclico, e não linear, e o passado continua a existir no presente como símbolo de resistência e continuidade da vida.

Ainda em sua obra Futuro Ancestral (2022), o autor defende que cada ser partícipe do equilíbrio do todo, onde se entenda o mundo como uma rede de relações vivas, ou seja, uma ética do encantamento. Ele faz um chamado coletivo para responsabilidade, que vai além das fronteiras políticas e culturais, indo em direção a interdependência e respeito aos ciclos da natureza. Krenak (2022) propõe como princípio de existência um reencontro com a Terra e oferece uma perspectiva de reconstrução social e espiritual como contraponto à racionalidade moderna.

Ailton Krenak convida a humanidade a repensar o futuro, partindo da memória, da ancestralidade e do reconhecimento de que todos os seres compartilham o mesmo destino. Seu pensamento constitui uma epistemologia da resistência e do reencantamento. Ao propor reconciliar cultura e natureza como condição necessária para a sustentabilidade e a justiça social, as ideias de Krenak vão ao encontro dos princípios da Agroecologia; ambos se interconectam em um forte diálogo em direção a um futuro sustentável (Krenak, 2022).

2.3. Agroecologia Como Ciência, Prática e Movimento

A Agroecologia integra ciência, prática e movimento social em busca de construir sistemas agrícolas sustentáveis e justos. Ela traz uma proposta científica inter/multi/transdisciplinar que incorpora conhecimentos da ecologia, agronomia, sociologia, economia, entre outras áreas, juntas orientam para uma transição dos modelos produtivos convencionais para modelos baseados na cooperação e na diversidade. A Agroecologia estuda os princípios ecológicos aplicados ao manejo de agroecossistemas sustentáveis, possibilitando o equilíbrio entre produção, conservação e justiça social (Altieri; Nicholls, 2020).

A Agroecologia, na prática, se apresenta na vivência/experiência de agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais que oferecem alternativas ao modelo agroindustrial dominante. Cuidar do solo é cuidar da própria existência, nesse contexto deve-se entender o solo como um organismo vivo que dá sustentação à vida em todas as suas formas. Essa visão resgata o sentido ecológico da agricultura, rompendo com a lógica produtivista e instrumental (Primavesi, 2018).

O mundo passa por uma grave/grande crise em seu sistema alimentar, e a Agroecologia, como ferramenta de transformação social, apresenta-se como uma resposta política a esse problema. Guiada por valores sociais, pela equidade e soberania alimentar, ela surge como uma nova ciência para dar sustentação à transição a agriculturas mais sustentáveis. Em articulação com as lutas sociais em defesa da terra, da biodiversidade e dos modos de vida tradicionais, a Agroecologia assume um papel de resistência frente ao avanço do agronegócio e das monoculturas que ameaçam a diversidade biocultural dos territórios (Caporal, 2009).

Seres humanos e natureza devem conviver em modelo de reciprocidade, esse é um paradigma de regeneração proposto pela Agroecologia. Nesse contexto, regenerar significa reconstruir as relações vitais que o capitalismo fragmentou, devolvendo à terra sua capacidade de autorrenovação (Shiva, 2022). Essa ideia dialoga com as da epistemologia do sul (Santos; Meneses, 2013): ambas valorizam os saberes secundários e reconhecem a pluralidade dos conhecimentos que são construídos nos territórios, em especial dos povos que vivem em íntima relação com o ambiente. 

A ética do cuidado, da solidariedade e do respeito à diversidade são fundamentos da Agroecologia que vão além da esfera técnica da produção agrícola, consolidando-se como um projeto civilizatório alternativo (Caporal, 2009). Ela propõe uma racionalidade ecológica, onde o conhecimento é construído de forma coletiva e há um permanente diálogo entre ciência e tradição. O pensamento de Krenak e a Agroecologia convergem ao convocar a humanidade a reencontrar-se com a Terra, restabelecendo laços de pertencimento e encantamento com a vida (Krenak, 2019;2022).  

2.4. Saberes Tradicionais e Epistemologias do Sul na Construção de Alternativas Socioambientais

Legitimar os saberes tradicionais e as racionalidades produzidas nos territórios é necessário para a construção de alternativas socioambientais  que superem a crise civilizatória contemporânea. Os modos de vida que articulam relações de pertencimento, respeito à natureza e manejo coletivo dos bens comuns, são constituídos justamente por esses saberes, que, historicamente foram marginalizados pela ciência moderna ocidental. Trata-se da afirmação das Epistemologias do Sul, às quais reconhecem a pluralidade de conhecimentos e denunciam o processo de epistemicídio que desqualifica as formas de saber indígenas, camponesas e comunitárias  (Santos; Meneses, 2013).  

Os saberes tradicionais emergem da experiência histórica das comunidades e constituem formas legítimas de produção de sentido ecológico. Esse conhecimentos constituem matrizes que articulam identidade, cultura, territorialidade e modos próprios de gestão do ambiente (Leff, 2006; 2011)

As diversas formas de relação com o território e as práticas sustentáveis são orientadas pelos saberes tradicionais, que vão além de heranças culturais, são também matrizes de organização da vida em comum. São conhecimentos que demonstram uma racionalidade ecológica que se contrapõe à lógica produtivista e à separação entre humanidade e ambiente, conhecimentos produzidos/construídos a partir da experiência, da oralidade e da observação dos ciclos naturais (Santos, 2018). 

Construir alternativas que associam memória, pertencimento e sustentabilidade passam, fundamentalmente, pelo reconhecimento dos saberes tradicionais, os quais possuem raízes profundas relacionadas à Ecologia. Esses saberes exercem um papel indispensável na continuidade dos sistemas agrícolas locais e na manutenção da biodiversidade. O território é um espaço fértil para a construção dessas alternativas, pois é um lugar de cuidado, memória, reprodução de práticas sustentáveis e base da diversidade biocultural, assim como a comunidade, onde sua força está na cooperação, na reciprocidade e no cuidado (Shiva, 2022).

Nessa conjuntura, os saberes tradicionais devem ser compreendidos como uma forma legítima de conhecimento, e para isso, torna-se necessário um diálogo horizontal entre ciência e tradição. Os saberes tradicionais não são apenas fontes de informação, mas fundamentos éticos e políticos para a construção de futuros possíveis. Ao valorizar os conhecimentos e práticas de cada território, a Agroecologia dá sustentação para a construção de epistemologias participativas e coletivas, produzidas no encontro de diferentes realidades. Faz-se necessário um diálogo horizontal entre ciência e tradição, de forma que saberes tradicionais sejam compreendidos como forma legítima de conhecimento (Altieri; Nicholls, 2020). 

2.5. Desenvolvimento Territorial Sustentável: Território, Saberes e Comunidade

Para que se tenha um desenvolvimento territorial sustentável efetivo/concreto, parte-se da compreensão de que território vai além de um espaço físico delimitado, é um espaço vivo de relações, significados e identidades. Ele é a conexão de dimensões ecológicas, culturais, espirituais e políticas que formam a estrutura e o modo como as comunidades se relacionam consigo mesmas e com o ambiente. Desenvolvimento territorial envolve o fortalecimento de vínculos comunitários, da autonomia local e garantem a continuidade da vida, não se reduz a uma intervenção técnica ou indicadores econômicos (Santos, 2000).    

Sentir-se pertencente à Terra/território/local, guardar memórias coletivas, modos de manejo adaptados aos ecossistemas locais e racionalidades que valorizam o cuidado e a reciprocidade são temas ligados aos saberes tradicionais, que desempenham um papel central nesse processo. A sustentabilidade é orientada por tecnologias sociais composta por esses saberes e fundamentadas em relações de respeito à Terra e aos ciclos naturais. É essencial reconhecer esses saberes como legítimos para a construção de modelos de desenvolvimento territorial enraizados na diversidade e na valorização dos modos de vida comunitários (Santos; Meneses, 2013; Altieri; Nicholls, 2020; Shiva, 2022).

Deve-se reconhecer os territórios como entidades vivas, compostos de memórias e espiritualidade, para que, a partir dessa condição, se tenha a construção de futuros sustentáveis. O desenvolvimento territorial carece de restituir o encantamento com a Terra, resgatar o pertencimento e cultivar relações de responsabilidade coletiva, para que dessa forma ele seja verdadeiramente sustentável. Nesse contexto, práticas que restauram ecossistemas e ampliam a resiliência dos territórios possuem a ancestralidade, o cuidado e a comunidade como pilares éticos e cosmológicos (Krenak, 2022).

A articulação entre saberes tradicionais, Agroecologia e cosmologia indígena é base para que o desenvolvimento territorial sustentável surja como um projeto civilizatório alternativo. Ele reconhece o território como sujeito de direito, pois expressa uma racionalidade ecológica em que esses territórios são base simbólica e material da vida (Santos, 1996; Escobar, 2014). A integração entre território, saberes e comunidade além de fortalecer a gestão local, também promove a criação de modos de vida mais justos, integrados e capazes de enfrentar os desafios socioambientais contemporâneos (Santos; Meneses, 2013).

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa de natureza básica, analisando as ideias de Ailton Krenak e os princípios da Agroecologia em busca de compreender sentidos, perspectivas e racionalidades convergentes. Devido à necessidade de interpretar fenômenos sociais complexos, atribuindo significado aos discursos, às epistemologias entre saberes, territórios e práticas sustentáveis é que se justifica a opção pelo método qualitativo (Gil, 2002; Schwartzman, 2002).

Quanto aos objetivos, trata-se de um estudo exploratório, pois busca ampliar a compreensão sobre as reflexões indígenas trazidas por Krenak e os princípios da Agroecologia, buscando as convergências entre eles no caminho do desenvolvimento territorial, elaborando ideias, categorias e perspectivas que contribuam para práticas, pesquisas e políticas futuras.  Em se tratando do diálogo entre ancestralidade, sustentabilidade e territorialidade, o cunho exploratório permitirá a construção conceitual e analítica ainda pouco discutida na literatura convencional (Gil, 2002).  

Para este estudo, foram adotados como procedimentos técnicos a pesquisa bibliográfica, construída a partir da leitura e análise de obras de Ailton Krenak, especificamente Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019) e Futuro Ancestral (2022) e de referências da Agroecologia, como Caporal (2009), Primavesi (2018), Altieri e Nicholls (2020), e Shiva (2022), além de autores como Santos e Meneses (2013) que tratam das Epistemologias do Sul. A partir da pesquisa, foi possível  investigar as relações entre saberes tradicionais, sustentabilidade ecológica e processos de desenvolvimento territorial. 

O material foi analisado à luz da análise de conteúdo proposta por Bardin (2016), entre os meses de julho a setembro de 2025, seguindo as etapas de pré-análise, categorização e interpretação. Categorias como ancestralidade, interdependência ecológica, reciprocidade com a Terra, saberes tradicionais, desenvolvimento territorial sustentável e práticas agroecológicas, se destacaram e surgiram do próprio material bibliográfico. Os dados foram organizados em quadros e descrições analíticas, com o intuito de tornar as convergências mais claras e acessíveis.  

Considerando que práticas agroecológicas e saberes ancestrais não podem ser desconectados dos territórios e das comunidades que lhes dão sentido, esta pesquisa une as dimensões epistemológica, ecológica e territorial (Shiva, 2022). Dessa forma, os procedimentos metodológicos adotados proporcionam a compreensão de como os pensamentos de Krenak e os princípios da Agroecologia oferecem conceitos para ações de desenvolvimento territorial sustentável, orientadas na memória, na justiça social e na convivência harmônica com a natureza (Caporal, 2009; Santos; Meneses, 2013; Altieri; Nicholls, 2020).

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Os resultados indicam profundas convergências entre as ideias de Krenak e os princípios e saberes da Agroecologia, evidenciando a importância e necessidade do estabelecimento de relações saudáveis entre os seres humanos e o planeta Terra na perspectiva da construção de sistemas agroalimentares justos, resilientes e sustentáveis. Estabelecem-se diálogos pautados na interdependência entre seres e natureza, rompendo com a visão antropocêntrica do mundo, ancorada no pensamento monocultural e nas práticas hegemônicas (Santos, 2018). 

Em se tratando de território, o desenvolvimento não se reduz à indicadores econômicos, envolve também a capacidade de fortalecer vínculos comunitários, proteger a biodiversidade e garantir autonomia produtiva e cultural. Na perspectiva de desenvolvimento territorial sustentável a Agroecologia em diálogo com os pensamentos de Krenak mostra que esse desenvolvimento não pode ser desconectado das relações que as comunidades estabelecem com seus ecossistemas. Os pensamentos de Krenak (2019; 2022), em particular sua defesa do pertencimento e da responsabilidade com a Terra, oferecem fundamentos para uma territorialidade pautada na memória, na cooperação e na justiça socioambiental. Isso contribui, também, para que práticas agroecológicas baseadas na reciprocidade e no cuidado ampliem a resiliência dos territórios.  

A Agroecologia se assenta em um campo de conhecimento interdisciplinar no qual os sistemas agrícolas respeitam e dialogam com os ecossistemas locais, reconhecendo os ciclos naturais como aliados no cultivo e preservação da vida (Primavesi, 2018; Altieri; Nicholls, 2020). Essa perspectiva repercute nas ideias trazidas por Krenak que faz o convite para compreender e fazer parte da natureza em uma interação de igualdade entre as partes e não de superioridade humana. O autor defende o respeito aos conhecimentos ancestrais/tradicionais/indígenas. A agroecologia incorpora esses conhecimentos na prática, desde o manejo do solo, na preservação das sementes crioulas, na promoção dos policultivos até a proteção da biodiversidade (Caporal, 2009).  

Krenak também recusa a ideia de um pensamento ordenado pela história única, um “mundo único”, o autor defende um modelo de muitos mundos, cada um com sua visão, interação e significado. Ele sugere que precisamos abandonar o modelo de vida baseado no pensamento ocidental.  Essa ideia converge com os princípios da Agroecologia, que sugere múltiplas culturas, paisagens, espécies e técnicas como base para uma maior resiliência de sistemas alimentares que sejam mais justos e saudáveis (Caporal, 2009). No livro Ideias para adiar o fim do mundo, ele incentiva a construção de vínculos coletivos, apontando como um caminho essencial para resgatar a humanidade e criar modos de vida sustentáveis, em harmonia com a Terra e com todos os seres. A Agroecologia por meio de redes de agricultores, troca de sementes, mutirões e feiras que fortalecem a cooperação e autonomia das comunidades também prática de forma concreta esse pensamento (Altieri, Nicholls; 2020).

Em Futuro Ancestral (2022), Krenak defende que os territórios sejam vistos como espaços vivos, em que futuro e passado se conectam em tempo não linear. Essa ideia contribui com a noção de desenvolvimento territorial, a qual assume uma dimensão simbólica, espiritual e comunitária, deixando de ser um projeto meramente técnico. As reflexões de Krenak (2022) interconectam com a Agroecologia, pois, ele defende que cada território é guardião de suas próprias cosmologias e modos de existir, reforçando que a sustentabilidade emerge do diálogo entre ancestralidade, autonomia local e práticas que fortaleçam a continuidade da vida.  

Outro ponto convergente entre as duas perspectivas é a crítica ao extrativismo e ao consumo desenfreado. Krenak chama atenção para os riscos de uma exploração predatória como sintomas de uma sociedade em desconexão com a Terra e com a essência da vida, enquanto a Agroecologia defende o uso racional e equilibrado dos recursos naturais (Caporal, 2009). Por fim, conforme Caporal (2009) os sistemas agroecológicos partilham de uma visão que traz o cuidado com as plantas, animais, florestas e águas não apenas como uma técnica produtiva, mas como um gesto de reverência e celebração da própria vida. Essa visão também é defendida por Krenak, que ressalta a necessidade de recuperar o encantamento com a vida e com a Terra, apontando como um caminho para curar a relação entre humanos e natureza. Para o autor, reencontrar o encantamento pode, além de preservar o planeta, curar a própria vida. 

Os territórios não devem ser compreendidos como recursos a serem explorados, mas, sim, como sujeitos coletivos de direito, pois só assim se concretizará o caminho para o desenvolvimento territorial. Krenak (2019; 2022), ao criticar o extrativismo, revela que os territórios sofrem perda de autonomia, erosão cultural e processos de expropriação. Segundo Krenak e a Agroecologia, reverter esses processos é necessário para o fortalecer os territórios, e o caminho para essa reversão é através de práticas que restaurem os ecossistemas, valorizem os saberes locais e reconheçam a vida comunitária como base do cuidado com a Terra (Caporal, 2009; Shiva, 2022). 

O estudo mostra, ainda, que as convergências entre Krenak e a Agroecologia indicam que o desenvolvimento territorial sustentável vai além da noção de intervenção externa: ele é elaborado como um processo endógeno, construído a partir dos saberes, das práticas e dos vínculos comunitários. Alinhar a proposta de Krenak (2019) de “adiar o fim do mundo” a territórios que fortalecem sua ancestralidade, sua biodiversidade e suas redes de solidariedade torna-se capaz de produzir modos de vida mais justos e resilientes. 

Diante do exposto, verifica-se a integração entre os saberes tradicionais e os princípios e saberes da Agroecologia como alternativa ao modelo hegemônico de agricultura que temos hoje. As reflexões de Krenak dialogam com os princípios da Agroecologia (ciência e prática). Essas convergências apontam para a necessidade de seres humanos partilharem da cosmovisão indígena de que somos parte da natureza e, sendo assim, deve-se combater o consumo desregrado de recursos naturais e reconstruir os vínculos coletivos dentro da sociedade. Os dados indicam que os caminhos para a construção de uma humanidade equilibrada e harmônica vão além de requisitos técnicos. O encantamento e a conexão com o meio ambiente têm um papel relevante nessa trajetória (Krenak 2019).

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões de Krenak e os princípios da Agroecologia apresentam fortes conexões, ambas criticam o modelo de agricultura convencional e caminham na direção da construção de práticas de vida sustentáveis. Essa junção traz evidências de que, para superar a crise civilizatória atual, é necessário uma rever de forma profunda a relação entre sociedade e natureza, partindo da restauração do vínculo espiritual com Terra, baseada no respeito à diversidade cultural e no reconhecimento dos saberes tradicionais. 

Na perspectiva tratada por Krenak e os princípios da Agroecologia, o desenvolvimento territorial passa por fortalecer os vínculos comunitários, proteger a biodiversidade, ampliar a autonomia local e promover práticas coletivas de cuidado com a natureza. O território torna-se, assim, base material e simbólica para a construção dos futuros sustentáveis e possíveis. O desenvolvimento territorial surge como um aspecto central nesse diálogo, as duas correntes de pensamentos/princípios tratam o território como recurso vivo de relações e produção de sentido e não como recurso a ser explorado.  

Nas reflexões trazidas por Krenak em Futuro Ancestral, o autor apresenta fundamentos éticos e cosmológicos para um desenvolvimento territorial baseado na memória, no pertencimento e na justiça socioambiental, enquanto a reciprocidade, a diversidade e o cuidado são fundamentais para ampliar a resiliência dos territórios, segundo as práticas agroecológicas. Os caminhos para reconstruir relações equilibradas entre humanidade e ambiente são apresentados no diálogo entre ancestralidade e Agroecologia. 

Por fim, às análises empreendidas revelam/reforçam que, para promover o equilíbrio entre sociedade e natureza, é importante integrar saberes tradicionais e práticas agroecológicas. O encantamento com a vida e com a terra deve ser (re)ativado, como é proposto por Krenak e a Agroecologia, conectando-se como eixo para o desenvolvimento territorial sustentável. Essas diretrizes apresentam um grande potencial para orientar práticas, pesquisas e políticas públicas capazes de conduzir a humanidade a modos de vida mais harmoniosos, resilientes e justos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Doutorando em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial (Universidade do Estado da Bahia - UNEB), Mestre em Matemática (Universidade Federal do Ceará - UFC), Especialista em Educação Matemática (Universidade Regional do Cariri - URCA), Professor da rede Estadual do Ceará. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-5317-7780.

2 Mestre em Educação (Universidade Internacional de Lisboa, 2005-UFBA portaria 055/2008) e Engenharia (UFRN, 2010). Doutor em Ciências (UFRN,2014). Pós-doutorado no PPGDC, Professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2679-864X

3 Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal da Paraíba (1990), com mestrado (1994) e doutorado (2009) em Agronomia (Meteorologia Agrícola) pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente, é Professor Titular na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6703-0605

4 Doutorando em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial (Universidade do Estado da Bahia - UNEB), Especialista em Ensino de Geografia pela Faculdade de Juazeiro do Norte - FJN (2013), Especialista em Tecnologias Digitais para a Educação Básica pela Universidade Estadual do Ceará - UECE (2019), Mestre em Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano - IFSertãoPE, Professor da rede Estadual do Ceará. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8811-3744.

5 Professora EBTT de Administração do Instituto Federal do Piauí (IFPI), Campus Paulistana. Doutoranda do Programa de Pós graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial (PPADT), UNEB Juazeiro-BA. Mestre em Dinâmicas de Desenvolvimento do Semiárido, pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF)- PE. Especialista em Gestão de Pessoas com Ênfase em Gestão por Competências, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Francisco de Juazeiro (FASJ-BA) e Licenciada em História, pela Universidade de Pernambuco (UPE).

6 Doutoranda em Agroecologia e Planejamento Territorial, possui Graduação em Economia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (2009), formação complementar em Geografria. Agente de Desenvolvimento Territorial da Secretaria de Planejamento do Estado da Bahia, Especialista em Planejamento de Cidades - UESC, especialista em Desenvolvimento Regional Sustentavél - IFBaino, e Especialista em Economia das Sociedades Cooperativas Universidade Estadual de Santa Cruz . Mestre em Planejamento Territorial pela Universidade Estadual de Feira de Santana. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-0769-3989