TERAPIA OCUPACIONAL E AMBIENTE ESCOLAR: ESTRATÉGIAS DE APOIO PEDAGÓGICO PARA CRIANÇAS COM DIFICULDADES SENSORIAIS: REVISÃO INTEGRATIVA

OCCUPATIONAL THERAPY AND THE SCHOOL ENVIRONMENT: PEDAGOGICAL SUPPORT STRATEGIES FOR CHILDREN WITH SENSORY DIFFICULTIES: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793697615

RESUMO
Introdução: A participação escolar é importante para o desenvolvimento infantil, pois envolve a aprendizagem, a interação social e o envolvimento nas atividades do cotidiano escolar. As dificuldades no processamento sensorial podem comprometer essas experiências, interferindo na autonomia e no desempenho das crianças. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional pode contribuir para identificar necessidades e desenvolver estratégias que favoreçam a inclusão escolar. Objetivo: Analisar as contribuições da Terapia Ocupacional para a participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial, identificando as principais intervenções e suas repercussões no ambiente educacional. Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo. A busca foi realizada no Google Acadêmico, na Scientific Electronic Library Online (SciELO) e na PubMed, considerando artigos publicados entre 2022 e 2026, nos idiomas português, espanhol e inglês. Foram utilizados termos relacionados à Terapia Ocupacional, ao processamento sensorial, à integração sensorial, às crianças e à participação escolar, combinados com os operadores booleanos AND e OR. Foram incluídos artigos científicos relacionados à temática e excluídas publicações duplicadas, fora do período estabelecido, sem relação direta com o tema ou que não fossem artigos de periódicos. Resultados: Foram identificadas 1.247 publicações nas bases e fontes de informação consultadas. Após a triagem inicial, 1.198 publicações foram excluídas por duplicidade, inadequação ao tema, período incompatível ou formato não elegível. As 49 publicações restantes foram avaliadas quanto à elegibilidade por meio da leitura integral. Após essa etapa, 36 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos, resultando em 13 estudos incluídos na revisão. Conclusão: A Terapia Ocupacional apresenta possibilidades de contribuição para a inclusão e a participação escolar de crianças com dificuldades sensoriais. Entretanto, são necessárias novas pesquisas e maior articulação entre saúde e educação para fortalecer essas práticas.
Palavras-chave: Terapia Ocupacional; Processamento Sensorial; Participação Escolar; Inclusão Escolar; Crianças.

ABSTRACT
School participation is important for child development, as it involves learning, social interaction, and engagement in everyday school activities. Sensory processing difficulties can affect these experiences, interfering with children's autonomy and performance. In this context, Occupational Therapy can help identify individual needs and develop strategies to support school inclusion. Objective: To analyze the contributions of Occupational Therapy to the school participation of children with sensory processing difficulties, identifying the main interventions and their effects in the educational environment. Methods: This study is an integrative literature review with a qualitative approach and descriptive design. Searches were conducted in Google Scholar, the Scientific Electronic Library Online (SciELO), and PubMed, considering scientific articles published between 2022 and 2026 in Portuguese, Spanish, and English. Search terms related to Occupational Therapy, sensory processing, sensory integration, children, and school participation were combined using the Boolean operators AND and OR. Articles related to the topic were included, while duplicate publications, studies published outside the specified period, publications unrelated to the research topic, and documents other than journal articles were excluded. Results: A total of 1,247 publications were identified in the databases and information sources consulted. After the initial screening, 1,198 publications were excluded due to duplication, lack of relevance to the topic, incompatibility with the specified time frame, or ineligible publication format. The remaining 49 publications were assessed for eligibility through full-text reading. Following this stage, 36 studies were excluded because they did not meet the established criteria, resulting in 13 studies included in the review. Conclusion: Occupational Therapy offers strategies to support the inclusion and school participation of children with sensory processing difficulties. However, further research and stronger collaboration between healthcare and education professionals are needed to strengthen these practices.
Keywords: Occupational Therapy; Sensory Processing; School Participation; School Inclusion; Children.

INTRODUÇÃO

A participação escolar é uma dimensão importante do desenvolvimento infantil, relacionada à presença e ao envolvimento da criança nas atividades de aprendizagem, interação, brincadeiras e rotinas escolares. Alterações no processamento sensorial podem dificultar a forma como a criança percebe e responde aos estímulos presentes no ambiente, repercutindo em seu desempenho, autonomia e participação nas atividades escolares. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional pode contribuir para identificar essas dificuldades e desenvolver estratégias que favoreçam o desempenho e a participação da criança no cotidiano escolar (1,2).

A Terapia Ocupacional possui como uma de suas características a compreensão do indivíduo a partir de sua relação com as ocupações e com os diferentes contextos em que está inserido. Na infância, essa perspectiva envolve atividades como brincar, realizar atividades de vida diária, aprender e participar socialmente. Alterações motoras e psicomotoras também podem comprometer o desempenho nessas ocupações, repercutindo sobre a autonomia e o engajamento da criança na educação e na participação social (3). Dessa forma, a atuação do terapeuta ocupacional não se limita ao espaço clínico, podendo envolver a escola, a família e outros profissionais, com o propósito de favorecer condições que possibilitem maior participação e desempenho da criança nas atividades escolares (4,5).

No ambiente escolar, as demandas relacionadas à participação de crianças com alterações no desenvolvimento podem envolver comunicação, interação social, organização das atividades, habilidades motoras, atenção e adaptação às características do ambiente. Estudos sobre a atuação da Terapia Ocupacional na inclusão escolar apontam possibilidades como adaptação de materiais, utilização de tecnologias assistivas, desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras, promoção de brincadeiras e experiências coletivas, além da colaboração com professores e familiares (6).

Apesar dessas possibilidades, ainda existem desafios relacionados à inserção e à definição do papel do terapeuta ocupacional no contexto educacional. A produção científica nacional sobre essa atuação permanece limitada em algumas áreas, sendo identificada a necessidade de ampliar as pesquisas sobre as contribuições da Terapia Ocupacional para a inclusão e a participação escolar de crianças com TEA (5,7). Além disso, embora estudos apontem resultados favoráveis de intervenções baseadas na integração sensorial e em outras estratégias terapêutico-ocupacionais, a literatura também apresenta limitações quanto à consistência das evidências, indicando a necessidade de novos estudos e de maior rigor metodológico na investigação dessas intervenções (2,8).

Nesse sentido, torna-se pertinente compreender de que maneira a Terapia Ocupacional pode contribuir para a participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial, considerando as demandas presentes no ambiente educacional e as possibilidades de intervenção centradas nas ocupações. A relevância deste estudo está relacionada à necessidade de fortalecer a compreensão sobre a atuação do terapeuta ocupacional para além do atendimento clínico, considerando sua contribuição para a autonomia, o desempenho ocupacional, a inclusão e a participação da criança nos diferentes espaços da infância. Evidências reunidas em revisão integrativa sobre intervenções de Terapia Ocupacional no contexto escolar também apontam benefícios relacionados a habilidades sociais, habilidades de processo e aspectos cognitivos de crianças transtornos do neurodesenvolvimento.

Diante desse contexto, este estudo apresenta como problema de pesquisa: quais são as contribuições da Terapia Ocupacional para a participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial, segundo as evidências disponíveis na literatura? Assim, o objetivo geral é analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as contribuições da Terapia Ocupacional para a participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial, identificando as principais intervenções, possibilidades de atuação e repercussões sobre o desempenho e a participação no contexto escolar.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida com o propósito de reunir e analisar estudos científicos relacionados à atuação da Terapia Ocupacional na participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial. Esse tipo de revisão permite reunir diferentes estudos sobre uma temática e identificar os principais resultados disponíveis na literatura.

Foram considerados elegíveis artigos científicos publicados entre os anos de 2022 e 2026, correspondendo aos últimos cinco anos, disponíveis nos idiomas português, espanhol ou inglês. Foram incluídos estudos publicados em revistas científicas que abordassem a Terapia Ocupacional, o processamento sensorial e sua relação com a participação, desempenho ou inclusão escolar de crianças.

Foram excluídos trabalhos que não apresentassem relação direta com a temática investigada, estudos fora do período estabelecido, publicações em idiomas diferentes dos definidos e documentos que não fossem artigos científicos publicados em periódicos, como teses, dissertações, monografias, trabalhos de conclusão de curso, livros, capítulos de livros e resumos de eventos.

A busca dos estudos foi realizada nas bases e fontes de informação Google Acadêmico, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e PubMed, selecionadas por possibilitarem o acesso a produções científicas relacionadas às áreas da saúde, educação e Terapia Ocupacional.

A estratégia de busca foi realizada por meio da utilização de termos relacionados aos principais elementos da pesquisa, considerando combinações entre Terapia Ocupacional, processamento sensorial, participação escolar, crianças e integração sensorial. Foram utilizados os termos em português, espanhol e inglês, de acordo com as características de cada fonte consultada.

A seleção ocorreu inicialmente pela análise dos títulos e resumos dos artigos encontrados. Em seguida, os estudos potencialmente relevantes foram avaliados na íntegra, verificando-se sua relação com o objetivo da pesquisa e o atendimento aos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Após essa etapa, foram considerados para a revisão somente os artigos que apresentaram pertinência com a temática e atenderam aos critérios definidos.

A organização e descrição das etapas de busca e seleção dos estudos consideraram princípios de transparência recomendados pelo PRISMA 2020, especialmente quanto à identificação das fontes de informação, definição dos critérios de elegibilidade, processo de seleção e apresentação dos estudos incluídos. O PRISMA 2020 foi utilizado como referência para favorecer a clareza e a transparência do percurso metodológico, sem caracterizar a presente pesquisa como uma revisão sistemática (Page et al., 2021).

Após a seleção dos artigos, foi realizada a leitura dos estudos incluídos e a organização das informações relevantes para a pesquisa. Os dados foram analisados de forma descritiva, buscando identificar as características dos estudos, as intervenções ou estratégias relacionadas à Terapia Ocupacional e suas possíveis contribuições para a participação escolar de crianças com alterações no processamento sensorial.

Para a organização dos dados, foram considerados os seguintes elementos: autor e ano de publicação, objetivo do estudo, características da população investigada, abordagem ou intervenção terapêutico-ocupacional, aspectos relacionados ao processamento sensorial, contexto escolar e principais resultados encontrados.

A qualidade metodológica e o risco de viés dos estudos foram considerados durante a leitura e análise dos artigos selecionados, observando-se a clareza dos objetivos, a adequação dos métodos utilizados, as características da amostra, os procedimentos de coleta de dados e a apresentação dos resultados. A análise teve caráter descritivo, considerando as limitações metodológicas identificadas nos estudos, sem aplicação de instrumento específico de avaliação do risco de viés.

RESULTADOS

A busca inicial nas bases Google Acadêmico, SciELO e PubMed resultou na identificação de 1.247 publicações. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, foram excluídos 1.198 estudos por duplicidade, foco em outras populações, período incompatível ou formato inadequado (teses, livros, resumos). As 49 publicações restantes foram avaliadas na íntegra e, após essa etapa, 36 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos. Ao final, 13 artigos compuseram a amostra.

Figura 1. Fluxograma da pesquisa

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2026.

Os estudos foram organizados em três categorias temáticas:

  • Categoria 1: Fundamentos e Impactos das Disfunções Sensoriais na Participação Escolar: Os estudos evidenciaram que alterações no processamento sensorial comprometem o desempenho acadêmico e a participação escolar, com dificuldades em discriminação visual, controle visuomotor, praxia e discriminação tátil (9,6). O Transtorno do Processamento Sensorial (TPS) foi associado a impactos negativos nas esferas comportamental, motora, funcional, cognitiva, emocional e social (1). Mais de 50% das crianças com TEA apresentam dificuldades sensoriais significativas, afetando diretamente o engajamento ocupacional (9).

  • Categoria 2: Intervenções da Terapia Ocupacional Baseadas na Integração Sensorial: A Abordagem de Integração Sensorial de Ayres (ISA) foi a intervenção mais documentada. Estudos indicam forte evidência de que a ISA apoia o alcance de metas individualizadas relacionadas ao desempenho ocupacional e à participação de crianças autistas (10,2). Intervenções com frequência de duas a três sessões semanais, por 10 a 12 semanas, produziram melhorias significativas no processamento sensorial (1). Foram identificadas estratégias complementares no ambiente escolar: modificações ambientais (controle de luminosidade e ruído), pausas sensoriais estruturadas, rotinas com recursos visuais e tecnologias assistivas de baixa tecnologia (6,9).

  • Categoria 3: Modalidades de Atuação do Terapeuta Ocupacional no Contexto Escolar: A consultoria colaborativa foi apontada como o arranjo mais propício para a inclusão, fundamentada na relação de igualdade entre terapeuta, professores, equipe especializada e família, atuando como facilitador da relação escola-estudante-família (5,7). Estudos demonstraram melhorias em habilidades sociais, desempenho ocupacional, cognição e processamento sensorial. Contudo, a literatura aponta desafios estruturais: carência de formação continuada de professores, precariedade de infraestrutura, escassez de recursos e, principalmente, a inserção irregular do terapeuta ocupacional nas escolas públicas brasileiras, devido à ausência de políticas públicas consistentes (5,6).

Os estudos selecionados foram organizados em quadros para facilitar a apresentação e a análise das principais características das publicações incluídas na revisão. Foram considerados o autor e ano de publicação, país de realização, objetivo, método empregado e principais resultados, permitindo identificar as diferentes abordagens relacionadas à Terapia Ocupacional, ao processamento sensorial e à participação escolar. A partir dessas informações, foi realizada uma síntese dos achados, destacando os aspectos que apresentaram maior relação com o objetivo da presente revisão.

Quadro 1. Caracterização dos estudos analisados

Autor/ano

País

Objetivo

Método

Principais resultados

Fagundes, Farias e Andrade (2024)

Brasil

Destacar a atuação da Terapia Ocupacional no desenvolvimento infantil e sua contribuição junto à família, escola e equipe multiprofissional.

Não especificado de forma clara no resumo disponível.

A TO contribui para habilidades motoras, cognitivas, afetivas e sensoriais, além de favorecer autonomia, qualidade de vida e inclusão.

Leite e Sposito (2024)

Brasil

Analisar o perfil psicomotor de crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanhadas pela Terapia Ocupacional.

Estudo descritivo, transversal, com abordagem quantitativa. Participaram crianças de 3 a 11 anos com diagnóstico de TEA, que realizavam Terapia Ocupacional havia pelo menos seis meses. Foram utilizados a Childhood Autism Rating Scale (CARS), um questionário de caracterização da amostra e a Escala de Desenvolvimento Motor (EDM III). Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva.

A maioria das crianças avaliadas apresentou dispraxia e déficits nos componentes psicomotores. O atraso motor geral médio foi de aproximadamente dois anos. O equilíbrio foi o domínio mais comprometido, enquanto a organização espacial apresentou menor comprometimento relativo. Os autores destacam que as alterações psicomotoras podem afetar a autonomia, as atividades de vida diária, o brincar, a educação e a participação social.

Bittencourt et al. (2025)

Brasil

Descrever a percepção de professores sobre a inclusão de alunos com TEA e o papel da Terapia Ocupacional.

Pesquisa exploratória, observacional e descritiva, qualitativa, com análise de conteúdo de Bardin. Entrevistas com 12 participantes.

Foram identificados desafios na comunicação e interação social, falta de formação continuada e profissionais qualificados, além de sobrecarga dos professores. A TO pode atuar com adaptações, tecnologia assistiva, desenvolvimento cognitivo e atividades lúdicas.

Andrade (2025)

Brasil

Analisar a aplicação da neurociência ao ensino e aprendizagem de alunos com déficits cognitivos mediante práticas orientadas pela Terapia Ocupacional.

Estudo qualitativo e bibliográfico, baseado em artigos, livros, teses e dissertações.

Música, movimento, arte e jogos educativos podem favorecer habilidades cognitivas, coordenação, concentração e aprendizagem. Ambientes adaptados também podem melhorar o desempenho ocupacional.

Silva et al. (2026)

Brasil

Relatar experiência de terapeuta ocupacional com crianças com TEA e descrever o papel da TO na regulação sensorial.

Relato de experiência, baseado na abordagem da Integração Sensorial.

A abordagem busca favorecer respostas adaptativas e contribuir para o desenvolvimento integral e a regulação sensorial.

Kerne, Reis e Nascimento (2026)

Brasil

Identificar e analisar a produção científica sobre ações da TO na educação infantil com alunos com TEA.

Revisão integrativa, com estudos de 2012 a 2025, em português, inglês e espanhol.

A TO pode favorecer independência, autonomia e participação escolar em conjunto com escola e família. O estudo também aponta indefinição profissional e escassez de pesquisas.

Santos e Pansonato (2025)

Brasil

Identificar contribuições da TO, por meio da consultoria colaborativa, para inclusão de alunos com TEA.

Pesquisa bibliográfica em periódicos específicos da Terapia Ocupacional. Foram encontrados 15 artigos e selecionados 3.

A consultoria colaborativa favorece a troca entre Educação e Saúde e posiciona o terapeuta ocupacional como facilitador da relação escola-aluno-família.

Bonott, Jahn e Zatta (2024)

Brasil

Identificar o conhecimento de professores sobre o atendimento de alunos com TEA.

Estudo descritivo, quanti-qualitativo.

Os autores apontam a importância dos conhecimentos relacionados à Terapia Ocupacional para o processo de aprendizagem e inclusão escolar.

Carvalho (2026)

Brasil

Analisar a atuação da TO no desenvolvimento das atividades de vida diária e seus impactos na autonomia e participação ocupacional.

Revisão integrativa, qualitativa e descritiva, com artigos de 2020 a 2026.

Intervenções envolvendo integração sensorial, treinamento de habilidades, adaptação ambiental, recursos visuais e orientação familiar apresentaram resultados positivos para independência e participação.

Donneys-Valencia e Varela-Bejarano (2026)

Não informado no documento

Analisar evidências sobre o uso da terapia de integração sensorial em intervenções de fala e linguagem.

Revisão de escopo segundo PRISMA-ScR, com estudos em diferentes bases e nos idiomas espanhol, inglês e português.

Foram observados resultados promissores em aspectos relacionados à comunicação e linguagem, embora os autores apontem limitações e falta de consistência metodológica.

Táparo, Constantinidis e Cid (2024)

Brasil

Identificar a perspectiva de terapeutas ocupacionais e outros profissionais sobre a atuação da TO na saúde mental infantojuvenil.

Estudo qualiquantitativo em duas fases: questionário com 107 profissionais e quatro grupos focais com 32 participantes.

Destacaram-se ocupações, atividades de vida diária, rotinas, cotidiano, perspectiva integral, redes de cuidado e intersetorialidade como elementos da atuação da TO.

Arévalo-Rodríguez (2022)

Não informado no documento

Discutir a integração sensorial e a importância da Terapia Ocupacional no atendimento de crianças com TEA.

Estudo qualitativo, de revisão documental bibliográfica.

A integração sensorial pode favorecer desempenho ocupacional, respostas adaptativas, participação e brincar, embora os autores reconheçam que as evidências ainda são limitadas e não conclusivas.

Jaicks (2024)

Turquia

Avaliar os benefícios da Terapia Ocupacional em crianças com TEA, especialmente quanto ao processamento sensorial, habilidades sociais e autocuidado.

Estudo com 40 crianças de 3 a 9 anos. Aplicação do Autism Behavior Checklist antes, após cinco e após dez sessões de TO.

Após dez sessões, houve redução dos escores relacionados a aspectos sensoriais, relacionamento, uso do corpo e objetos, linguagem, habilidades sociais, autocuidado e escore total.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).

Quadro 2. Síntese dos achados

Categoria temática

Síntese dos resultados

Integração sensorial

Os estudos apontam a integração sensorial como uma possibilidade de intervenção da Terapia Ocupacional, especialmente diante de dificuldades relacionadas à regulação sensorial e às respostas adaptativas. Os resultados, contudo, não são uniformes e alguns autores destacam a necessidade de pesquisas com maior rigor metodológico.

Participação escolar

A atuação da Terapia Ocupacional aparece relacionada à ampliação da participação e do desempenho escolar, principalmente por meio de adaptações, recursos assistivos, atividades lúdicas e articulação com professores e familiares.

Autonomia e desempenho ocupacional

Os estudos relacionam as intervenções da TO ao desenvolvimento da autonomia, independência funcional, atividades de vida diária e participação nas ocupações próprias da infância.

Ambiente escolar

A adaptação do ambiente, dos materiais e das atividades aparece como estratégia para facilitar o desempenho e a participação das crianças, considerando suas necessidades individuais.

Relação escola-família-profissionais

A colaboração entre terapeuta ocupacional, professores, familiares e outros profissionais é apontada como importante para favorecer inclusão e participação. A consultoria colaborativa aparece como uma possibilidade de articulação entre os campos da Saúde e da Educação.

Atividades lúdicas

Jogos, brincadeiras, música, movimento e arte são descritos como recursos capazes de estimular habilidades motoras e cognitivas e favorecer o envolvimento das crianças nas atividades.

Lacunas científicas

Os estudos apontam limitações na produção científica, indefinição sobre o papel profissional da TO no ambiente escolar e necessidade de novas pesquisas que aprofundem a relação entre Terapia Ocupacional, processamento sensorial e participação escolar.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).

A análise dos estudos indica que a Terapia Ocupacional pode contribuir para a participação infantil em diferentes contextos por meio de intervenções voltadas à regulação sensorial, adaptação de atividades e ambientes, desenvolvimento de habilidades e fortalecimento da autonomia. Os trabalhos também destacam que a atuação não precisa ficar restrita ao espaço clínico, podendo envolver a escola, a família e outros profissionais na construção de estratégias que favoreçam o desempenho ocupacional da criança.

No contexto escolar, os achados apontam que adaptações de materiais, tecnologias assistivas, atividades lúdicas e estratégias voltadas às necessidades individuais podem favorecer o envolvimento da criança nas atividades educacionais. A participação do terapeuta ocupacional em articulação com professores e familiares aparece como um elemento relevante, sobretudo quando existem dificuldades de comunicação, interação, organização das atividades ou processamento sensorial.

Os estudos sobre integração sensorial apresentam resultados favoráveis em diferentes aspectos do desempenho infantil, incluindo respostas adaptativas, participação, habilidades sociais e autocuidado. Entretanto, parte da literatura ainda apresenta limitações metodológicas, o que impede afirmar de forma definitiva a efetividade dessas intervenções para todos os casos. Essa questão reforça a necessidade de ampliar a produção científica e utilizar delineamentos metodológicos mais consistentes.

Outro aspecto recorrente é a necessidade de uma atuação articulada entre Terapia Ocupacional, escola e família. A literatura analisada sugere que a compreensão das necessidades da criança e a adaptação das demandas escolares podem favorecer sua participação nas atividades cotidianas. Ao mesmo tempo, a indefinição sobre a inserção do terapeuta ocupacional no ambiente escolar ainda representa uma dificuldade para a consolidação dessa prática.

DISCUSSÃO

O processamento sensorial é um mecanismo importante do sistema nervoso que permite à pessoa receber, organizar, interpretar e responder às informações do ambiente e do próprio corpo (1,6). Essas informações são captadas pelo Sistema Nervoso Central (SNC) por diferentes sentidos, como tato, audição, visão, olfato, paladar, equilíbrio, propriocepção e percepção interna do corpo (1,6). Quando há dificuldades para registrar, organizar ou controlar esses estímulos, pode ocorrer o Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), também chamado de Disfunção de Integração Sensorial (DIS) (1,6). Esse transtorno pode afetar aspectos comportamentais, motores, cognitivos, emocionais e sociais da criança, trazendo dificuldades para sua participação na escola, onde são necessárias atenção, coordenação motora, equilíbrio, consciência corporal e interação com outras pessoas (6).

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver dificuldades na comunicação e na interação social, além de comportamentos repetitivos e interesses restritos (9,4,8). As alterações no processamento sensorial são frequentes em crianças com TEA. Estima-se que mais de 50% delas apresentem dificuldades relacionadas ao processamento dos estímulos sensoriais, o que pode interferir na participação em diferentes atividades (9,1). Algumas crianças apresentam hiper-reatividade, quando respondem de forma intensa aos estímulos, enquanto outras apresentam hiporreatividade, com respostas reduzidas ou busca por determinados estímulos (2,8). Texturas de alimentos, tecidos, materiais, luzes fortes e ruídos inesperados na sala de aula podem causar desconforto e desorganização, prejudicando o desenvolvimento da fala, da linguagem, da motricidade e da aprendizagem (8,6).

Na escola, esses comportamentos nem sempre são compreendidos de forma adequada. Muitas vezes, as dificuldades relacionadas à regulação sensorial são interpretadas pelos educadores como desinteresse, indisciplina ou imaturidade (4). Quando o ambiente escolar não considera as necessidades sensoriais da criança, ela pode apresentar frustração, ansiedade e baixa autoestima (4). Essas dificuldades também podem levar ao isolamento, à resistência em participar das atividades e, em situações mais graves, ao afastamento da escola (11,6).

Na Terapia Ocupacional, uma das abordagens utilizadas para trabalhar as dificuldades sensoriais de crianças com TEA é a Integração Sensorial de Ayres (ISA) (10,2,1). Desenvolvida pela terapeuta ocupacional e neuropsicóloga A. Jean Ayres (1920–1988), essa abordagem utiliza experiências sensoriais planejadas e realizadas em um ambiente controlado. O objetivo é ajudar o sistema nervoso a organizar e responder melhor aos estímulos recebidos (10,2,1). A literatura científica aponta essa abordagem como uma prática baseada em evidências para o tratamento de alterações do processamento sensorial em crianças com TEA (2).

Estudos mostram resultados positivos da Terapia Ocupacional no desenvolvimento infantil. Pesquisas que utilizaram sessões estruturadas e o Autism Behavior Checklist (ABC) identificaram melhorias em habilidades sensoriais, relacionamento, uso do corpo e de objetos, linguagem, socialização e autocuidado (10). Intervenções que trabalham os sistemas proprioceptivo, tátil e vestibular, com recursos como balanços, equipamentos suspensos, almofadas, piscinas de bolinhas e materiais com diferentes texturas, também apresentaram resultados favoráveis para crianças com defensividade tátil e hipersensibilidade auditiva. Essas intervenções contribuíram para uma maior participação nas atividades do dia a dia e na convivência social (1).

As intervenções da Terapia Ocupacional também podem contribuir para a aprendizagem. Atividades lúdicas, dinâmicas e que envolvem diferentes sentidos podem estimular diferentes áreas do cérebro e favorecer a plasticidade cerebral (6). Esse tipo de atividade pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades como memória de trabalho, atenção, linguagem e pensamento abstrato (11).

Para que a inclusão escolar aconteça de forma efetiva, as estratégias de regulação sensorial e as adaptações do ambiente precisam fazer parte da rotina da sala de aula, e não ficar restritas ao atendimento clínico (5,7). Apenas matricular o estudante público-alvo da educação especial (PAEE) não garante sua inclusão. É necessário que ele tenha condições de participar das atividades, aprender e permanecer na escola com qualidade (5,7). Nesse processo, o Plano Educacional Individualizado (PEI) pode ajudar a organizar as ações, pois permite definir estratégias, adaptações, objetivos e metas de acordo com as necessidades de cada estudante (6,9).

Entre as estratégias que podem ser utilizadas na sala de aula, destacam-se:

  1. Adaptação do ambiente: reduzir estímulos que possam causar desconforto, como excesso de luz, barulho e informações visuais. Quando necessário, podem ser utilizados recursos como fones de ouvido para crianças com hipersensibilidade auditiva (6,9,5).

  2. Estratégias de regulação sensorial: incluir pausas durante as atividades e disponibilizar objetos ou materiais que ofereçam estímulos táteis e proprioceptivos, ajudando a criança a se organizar e manter a atenção (5,6).

  3. Rotina estruturada: utilizar recursos visuais, como agendas, imagens, sinalizações e painéis de atividades. Esses recursos ajudam a criança a entender o que acontecerá durante o dia e podem diminuir a ansiedade diante de mudanças na rotina (6,9).

  4. Recursos pedagógicos adaptados: utilizar materiais que facilitem a realização das atividades, como lápis engrossados, tesouras adaptadas, materiais antiderrapantes e mobiliário adequado. Esses recursos podem facilitar principalmente as atividades que exigem coordenação motora fina (5,6,7).

Essas adaptações podem contribuir para o desempenho escolar de crianças com TEA. Dificuldades na coordenação entre visão e movimento, assim como atrasos nas habilidades motoras, podem prejudicar atividades do dia a dia e o desempenho acadêmico. Por isso, estratégias como dividir as tarefas em etapas, repetir as atividades e utilizar vídeos de demonstração podem facilitar a aprendizagem. Recursos visuais, como fichas com sílabas, também podem ajudar no processo de alfabetização (9).

A tecnologia também pode ser utilizada como recurso de apoio. Jogos em tablets que ajustam o nível de dificuldade de acordo com o desempenho da criança podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades relacionadas às atividades de vida diária e às mudanças de rotina. Da mesma forma, apresentações organizadas e plataformas digitais de escrita podem ajudar a manter a atenção, estimular a participação e favorecer a aprendizagem em sala de aula (12).

A realização dessas práticas depende também da relação entre os profissionais da saúde e da educação (5,7). Nesse sentido, a consultoria colaborativa pode ser uma estratégia importante para apoiar a inclusão escolar. Diferente de um modelo baseado apenas em encaminhamentos para atendimento clínico, essa proposta busca aproximar terapeuta ocupacional, professor, equipe do Atendimento Educacional Especializado e família. Cada profissional contribui com seus conhecimentos e participa das decisões relacionadas ao estudante (5,7).

Nesse trabalho, o terapeuta ocupacional pode atuar como um facilitador da relação entre escola, estudante e família, ajudando a encontrar soluções que façam sentido para a realidade da criança (5,7). O apoio ao professor também pode ajudar a diminuir sentimentos de frustração e insegurança diante das dificuldades encontradas em sala de aula, além de oferecer estratégias para lidar com situações do cotidiano escolar (7).

Essa forma de trabalho também representa uma mudança na maneira de compreender a atuação da Terapia Ocupacional na educação. Durante muito tempo, a atuação esteve mais ligada ao modelo médico e à tentativa de corrigir as dificuldades apresentadas pelo aluno. Atualmente, busca-se uma visão mais ampla, considerando não apenas as características individuais da criança, mas também suas atividades, sua rotina, o ambiente escolar, a participação social e sua autonomia (13,5).

Apesar da importância desse trabalho, ainda existe uma dificuldade relacionada à presença de terapeutas ocupacionais nas escolas públicas brasileiras (5,6,7). Embora a atuação da Terapia Ocupacional no contexto escolar seja reconhecida e regulamentada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), ainda existem limitações relacionadas à criação de políticas públicas e ao financiamento para a contratação desses profissionais de forma permanente nas escolas ou em equipes de apoio à educação (5). Ampliar essa atuação pode contribuir para que as escolas estejam mais preparadas para atender às necessidades dos estudantes com alterações sensoriais e promover sua participação e desenvolvimento (5,6).

CONCLUSÃO

A análise dos 13 artigos selecionados nesta revisão integrativa permitiu compreender as contribuições da Terapia Ocupacional para a participação escolar de crianças com dificuldades no processamento sensorial. Os resultados indicam que essas dificuldades podem interferir na aprendizagem, na interação social, na autonomia e no envolvimento das crianças nas atividades escolares. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional pode contribuir para identificar as necessidades de cada criança e desenvolver estratégias que favoreçam seu desempenho e sua participação no ambiente educacional.

Entre as principais intervenções identificadas, destacam-se a integração sensorial, as adaptações do ambiente e dos materiais pedagógicos, o uso de recursos visuais e tecnologias assistivas, as pausas sensoriais e as atividades lúdicas. Essas estratégias podem ajudar a reduzir as barreiras presentes no cotidiano escolar e facilitar a participação das crianças nas atividades de aprendizagem e convivência. Os estudos também apontam que o trabalho conjunto entre terapeutas ocupacionais, professores, familiares e outros profissionais favorece a construção de práticas mais inclusivas, respeitando as necessidades e as características individuais de cada estudante.

Apesar dos resultados positivos apresentados na literatura, ainda existem desafios para ampliar a atuação da Terapia Ocupacional nas escolas, especialmente na rede pública brasileira. A falta de formação continuada dos professores, a limitação de recursos, as dificuldades de infraestrutura e a presença ainda irregular desses profissionais no contexto educacional são aspectos que podem comprometer a oferta de apoio adequado às crianças com alterações sensoriais.

Dessa forma, considera-se que o objetivo deste estudo foi alcançado, pois foi possível identificar as principais intervenções da Terapia Ocupacional e suas possíveis contribuições para o desempenho, a autonomia e a participação escolar das crianças. Entretanto, as limitações metodológicas de parte dos estudos analisados indicam que os resultados devem ser interpretados com cautela, sem generalizar os benefícios para todas as crianças ou situações.

Recomenda-se ampliar as pesquisas sobre a atuação da Terapia Ocupacional no ambiente escolar, com estudos de campo, amostras mais diversificadas e acompanhamento dos resultados das intervenções ao longo do tempo. Também é importante investir na formação dos profissionais da educação, fortalecer a parceria entre escola, família e serviços de saúde e ampliar as possibilidades de inserção do terapeuta ocupacional nas instituições de ensino. Essas ações podem contribuir para a construção de ambientes escolares mais acessíveis, acolhedores e preparados para atender às necessidades das crianças, promovendo não apenas sua aprendizagem, mas também sua autonomia, seu bem-estar e sua participação nas atividades escolares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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