TELEOLOGIA DO MAL NA ESTÉTICA: UMA REPRESENTAÇÃO BELA?

TELEOLOGY OF EVIL IN AESTHETICS: A BEAUTIFUL REPRESENTATION?

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782660944

RESUMO
A arte é uma das diversas formas de retratar a vida, o que Aristóteles irá caracterizar como minesis. Com essas representações busca-se transmitir e elucidar aquilo que se sente, pensa e se deseja ensinar. Aquilo que é Belo sempre é retratada de forma harmoniosa e, pelo contrário, o mal é colocado como disforme e horrendo. O Belo por sua vez, pertencente a Estética, deve ser entendido como perfeição do conhecimento sensível e orientar o indivíduo à clareza do entendimento da totalidade da arte. Aristóteles apresenta que a tragédia é a completa forma de realizar a mimesis, pois ela retrata de forma plena a realidade, de uma forma embelezada, compondo, assim, cada uma das suas partes. Dessa forma, o objetivo geral desse trabalho foi o de investigar a existência do Belo representado na forma de coisas feias, horríveis, trágicas e repulsivas, bem como a possibilidade teleológica do entendimento do bem por meio dessas representações. A hipótese inicial levantada, de que o feio se correlaciona com o Belo na representação artística foi corroborada, pois se verificou a existência teórica de que o trágico, o feio, o horrível e outras formas repugnantes de representações proporcionam ao indivíduo o entendimento do Belo, por meio do processo de katharsis, proposto por Aristóteles, onde as paixões são educadas para se chegar ao entendimento do Bem, da Verdade e do Belo, bem como das virtudes, por meio do seu contrário, ou seja, da representação do mal. 
Palavras-chave: Belo; mal; feio; katharsis.

ABSTRACT
The art is one from the various forms of depicting life, which Aristotle characterized as minesis. The main goal of these representations is to transmit and clarify the feeling, the thought and what people want to teach. What is Beautiful is always portrayed harmoniously, and on the other hand, the devil is always put as something shapeless and horrendous. Beauty in turn, that belongs to Aesthetics, should be understood as the sensitive knowledge’s perfection and it must guide the man to clarity of the art totality’s comprehension. Aristotle shows that tragedy is the complete form of mimesis, because it fully portrays reality, in an embellished way, thus composing each of its parts. Therefore, the main goal of this work was to investigate the existence of Beautiful represented in ugly, horrible, tragic and repulsive things shapes, as well as the theological possibility of understanding the Good throught these representations. The initial risen hypothesis, which says that the Ugly correlates with the Beautiful in artistic representation has been corroborated, because it is verified that the theoretical existence that says the tragic, the ugly, the horrible and other disgusting forms of representation provide the comprehension of Beautiful, throught the katharsis process, which has been proposed by Aristotle. This is where the passions are polished to achieve the understanding of Good, Truth and Beautiful, as well as the virtues, through their opposite, that is, the representation of evil. 
Keywords: Beautiful; devil; ugl; katharsis.

1. INTRODUÇÃO

A arte retrata diversos fatores vividos pelo homem na tentativa de se transmitir alguma mensagem, seja na forma de figuras ou escritas, buscando uma indistinção sobre o que é reproduzido e a vida ordinária. Algumas dessas representações relatam o cotidiano do homem; já outros manifestam fatos extraordinários, que não podem ser compreendidos ou explicados, mas que podem ser ilustrados, podendo suscitar no indivíduo prazeres sensíveis e subjetivos.

Exemplo disso é a representação na mitologia grega para os deuses e para criaturas da natureza, no qual algumas eram representadas de forma bela e outras de forma horrenda. Zeus, Atena, Hera, Poseidon, Afrodite e todos os outros moradores do Olimpo são representados de forma harmônica e com muitas afeições humanas, a fim de ressaltar a beleza e semelhança e equiparação ao homem. Entretanto, os habitantes do Hades, como Sísifos, Cerberus, Charon, Tártaro e Tifão são representados com algumas formas animalescas ou deformadas na tentativa de mostrar as suas bestialidades, além de colocá-los em lugares tenebrosos, como por exemplo, em meio ao fogo.

Todas essas criaturas míticas surgem no intuito de fomentar uma explicação suportável e lícita da existência e dos atos ocorridos na vida dos gregos. Segundo Duque (1999), os mitos e as lendas surgem como uma tentativa de entender o início do cosmos e de obter uma explicação do mal, por meio de uma articulação linguística que exprime o sentido da própria realidade.

Na Filosofia Antiga, Platão destaca aquilo que corrobora para o bem da pólis, sendo que tudo o que vai ao contrário a esse bem é caracterizado como mal. Para o filósofo, o belo não pode ser representado, mas somente contemplado no mundo sensível, sendo a única forma de se contemplar o verdadeiro, como destacado na alegoria da caverna, no livro A República. Em Aristóteles não há essa separação. O estagirita salienta que o belo não pode estar separado do homem, já que essa é uma característica do próprio ser; uma forma de interpretar a realidade e de se expressar por meio da mimesis (imitação) (Aristóteles, Poética 1447a, 8-13, 2008). Aqui se destaca o grande valor dado a tragédia, comédia, epopeia e para a música, onde, na Poética, Aristóteles apresenta as tragédias como uma forma de purificação das emoções e das paixões por meio da katharsis (catarse) (Aristóteles, Poética 1449b, 28, 2008).

Tempos depois, no cristianismo, por meio de relatos das Sagradas Escrituras, há representação do céu e do inferno, onde o céu é o lugar onde se pode contemplar Deus face a face e onde tudo é belo, como recompensa aos que viveram de forma justa e reta em suas vidas terrestres. E, o inferno, representado como um lugar de sofrimento, quente e incômodo, onde habitam os que cometeram pecados contra os mandamentos de Deus; governado por Satanás, o anjo que se rebelou contra Deus. Na perícope, segundo o Evangelho de Mateus:

“O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que faz cair no pecado e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13, 41-43).

Há também, nos escritos cristãos, a representação de pessoas que apresentam deficiências e deformações que são causadas pela situação de pecado com as quais elas viviam, mas que ao aceitarem o chamado à conversão eram curadas; como no relato do paralítico que há 38 anos estava em uma maca e que após ser curado Jesus lhe disse: “Olhe, você está curado. Não volte a pecar, para que algo pior não aconteça a você” (Jo 5, 14) e em Levítico (13, 8) no qual a orientação ao sacerdote é "verificar a extensão da inflamação por sobre a pele, o declarará impuro", referindo-se às chagas apresentadas pelas pessoas.

Devido à grande influência do cristianismo, sobretudo a partir da era medieval, as várias representações da arte incorporaram de forma substancial os conceitos sobre aquilo que eram considerado como bem e mal, sendo o bem representado de forma visivelmente agradável e harmoniosa e o mal como figuração de coisas distorcidas e trágicas.

Tal conceito perdura até o momento presente, uma vez que, de forma majoritária, as representações artísticas tendem a ser retratadas de uma forma dual, na tentativa de se separar um lado do outro e fazer com que o homem sempre tenha preferência por aquilo que esteticamente é mais agradável, cabendo ao trágico representar a maldade e a destruição, que causam repulsa ao homem. De modo análogo, há uma reflexão ética na estética, buscando associar os valores exaltados pela sociedade por meio da beleza e os vícios como algo feio e tenebroso.

Mas, independentemente da crença, religião ou doutrina de pensamento, vários autores, pintores, literatos e pessoas das artes como um todo, tendem a retratar o trágico, principalmente no período do renascimento e no pós-guerra, onde o homem passou a se colocar no centro e ter contato mais intimista com o sofrimento (CARROLL, 1999).

Na tentativa de ilustração dos fatos inexplicáveis, trágicos, maléficos ou do qual não se tem o pleno conhecimento, o que se retrata é algo apavorante e assustador, pois como o seu conhecimento é de certa forma velado, a sua representação também deve se condizente com esse entendimento.

O mal é considerado por Agostinho de Hipona como corrupção da beleza, da ordem, da vontade; na qual a sua existência está limitada a representação à uma natureza e não em si mesma, caracterizando-o como pertencente a um desvio moral da ordem natural. Para ele, a natureza quando está corrompida é má, do contrário ela é boa (AGOSTINHO, A nat. do bem, 4, 2019).

Como tentativa de entender a arte, escrita e representada, Baumgarten, na sua obra intitulada Aesthetica, funda a disciplina da Estética com a finalidade de estudar aquilo que é belo por meio de uma reflexão filosófica. Para ele, o Belo se apresenta como perfeição do conhecimento sensível, de forma a orientar as nossas representações obscuras à clareza, por meio de um caminho lógico-abstrativo (BAUMGARTEN, 1993).

No campo das Belas Artes, o Belo, segundo Nougué (2018) e Gilson (2010) é aquele que representa uma perfeição da obra em sua totalidade, sendo ele reconhecido pelo prazer que decorre da apreensão da expressão da arte, que deve ter como finalidade a integridade, a harmonia e a claridade (lumen), sendo esta última entendida como a manifestação por meio de algo diáfano.

Calheiros (2014) destaca que o Belo pode ser representado tanto de forma bela, destacando aquilo que é bonito, tal como feio, por meio de coisas trágicas, cômicas, horríveis, repulsivas e outras representações que sublima o feio. Segundo ele, o denominado feio tem um valor relativo, de realidade provisória.

Mediante o exposto, pode-se destacar a captação do bem e do mal, seja ele moral, metafísico ou natural, por meio das representações, sobretudo estéticas. Mas o que se destaca é a possibilidade de um Belo não exclusivamente por via da beleza, mas a sua possibilidade por intermédio do feio, medonho e trágico, que incutem no ser sentimentos de execração, de incômodo.

Os objetivos desse trabalho se dividem em objetivo geral e objetivos específicos, dos quais: o objetivo geral é o de investigar a existência do Belo representado na forma de coisas feias, horríveis, trágicas e repulsivas, bem como a possibilidade teleológica do entendimento do bem por meio dessas representações; e os objetivos específicos de caracterizar o conceito de Belo na literatura; analisar a possibilidade do Belo ser retratado como feio nas diferentes representações artísticas; verificar se a estética e a moral possuem correlação entre si; definir o que é entendido como mal, segundo filósofos da Filosofia da Arte e da Estética; correlacionar a contemplação do mal com o conceito de Belo; elucidar o fim último da representação do mal.

O presente trabalho é elaborado tendo como hipótese inicial que, de fato, há uma correlação entre o Belo e aquilo que é representado artisticamente como sendo feio, com características de repulsão, compostos de elementos trágicos e horríveis à primeira vista. É necessário investigar à fundo, com perspectiva filosófica, o paradigma existente de que as representações artísticas tidas como belas são somente aquelas dotadas de harmonia, simetria, clareza e proporcionalidade, sendo que em contrapartida, esse mesmo paradigma preconiza que as representações do mal são aquelas com deformações e má qualidade artística. Mais ainda, o estudo levanta a hipótese de que diante da representação do mal que se observa não é o ato de repugnância do objeto artisticamente representado, mas a compreensão de que é de fato a distorção daquilo que é moralmente bom. Ademais, propõe-se o entendimento de que algumas representações classificadas como feias ou trágicas possam também ser consideradas como Belo.

Uma vez que poucos estudos têm sido realizados com essa finalidade. Em sua grande maioria, o que se busca é uma análise filosófica da arte do Belo por aquilo que é bonito e agradável. Esquece-se, porém, que desde Aristóteles, aquilo que é representado de forma trágica, como ele destaca na Poética, tem maior valor, pois imita de forma completa as emoções da pessoa e que por meio do conceito de Katharsis se pode chegar à purificação dessas emoções, atenuando as paixões e retirando os vícios excessivos.

Com a perda dos valores morais na sociedade, almeja-se a retomada e a apreensão desses valores por parte do indivíduo. A representação do que é feio, ressaltando o contrário do bom e belo, se faz importante quanto ao fato de levar o ser ao entendimento do Belo e, por meio do processo de Katharsis poder conceber um conjunto de valores éticos e de virtudes.

Para a realização desse trabalho foi realizada uma investigação bibliográfica de cunho exploratório para o levantamento dos conceitos de Belo, estética, ética, mal, bem como a relação entre eles por meio da hermenêutica.

2. O BELO E O BEM

O termo estética, derivado do grego aisthesis, aistheton (sensação, sensível), tem como significado sensação, sensibilidade, percepção pelos sentidos ou conhecimento sensível sensorial, foi apresentado inicialmente por Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), na sua obra Aesthetica, em 1750, com a aspiração de designar uma forma de saber sensível, que tempos depois chamar-se-á de ciência de pensar o belo (CIGOGNINI, 2016; CECIM, 2014; HERMANN, 2005).

A Arte, em si mesma, teve várias alternâncias sobre o seu entendimento ao longo dos séculos. Inicialmente temos a clássica divisão das artes em liberais (lógica, gramática, retórica, aritmética, música, geometria, astronomia) e mecânicas, consideradas as atividades que eram realizadas por servos ou escravos e consideradas como atividades vulgares; contrapondo às liberais, feitas por homens livres.

O primeiro dos filósofos, Sócrates, associa o belo ao útil, atribuindo a ele uma função puramente moral e propedêutica para a construção das virtudes humanas. Em seu pensamento, a função do belo é a de enaltecer, por meio da imitação, aquilo que é digno de ser imitado, como os belos corpos (estético) e as belas ações (ético), sendo que o ético prevalece sobre o estético, para que haja uma exaltação do bem no ser e se chegar ao bem supremo (CECIM, 2014).

Para Platão, no plano sensível o que se tem é uma contemplação do Belo ideal, ideia pura transcendente, pertencente ao mundo suprassensível, cabendo ao plano sensível apenas a sua imitação. Essas representações belas tinham por finalidade conduzir o homem a sua perfeição moral. A arte e a estética se caracterizavam como mimesis imperfeita da beleza ideal, porém não podiam ser considerados como feias, pois se todas as representações almejam o suprassensível, logo elas jamais poderiam apresentar ou representar algo que não seja belo.

Seguindo o discurso sobre a justiça iniciado por Sócrates, a ideia apresentada na República, por Platão, vai além do bem agir, mas sim da procura pelo Belo ideal, que dá o perfeito entendimento da realidade e, conforme ressalta Pessoa; Costa (2016), para os amantes das virtudes. Para isso, ela apresenta todo um discurso sobre a construção da sociedade, baseado nas suas necessidades e não no que se julga ser necessário, fazendo um paralelo entre a busca pela verdade e a doxa. Em diálogo com Adimanto acerca do que pode ser ou não considerado como verdade, Platão chega à conclusão de que:

No caso, todavia, de quererem dizer que o castigo dos maus se impunha por sua própria infelicidade e que com a punição foram ajudados por Deus: isso lhes será concedido. Mas, afirmar que Deus, sendo bom, é causador de desgraça de qualquer pessoa, é o que por todos os meios teremos de combater. [...] Deus não é causa de tudo, mas apenas do bem (PLATÃO, A Republica, 380,b-c, 2000).

É pelo distanciamento a realidade metafísica que o filósofo faz a sua análise estética, pois considera a mimesis como uma inferioridade ontológica, devido ao seu grande distanciamento da verdadeira realidade, cabendo ao belo reconduzir o homem, mas pelo movimento inverso, ou seja, pela imitação, e levá-lo ao entendimento do Bem supremo.

A virtude é fortemente associada por Platão à beleza. Ele destaca que a música quando associada a movimentos do corpo são como imitadores da temperança virtuosa. Nas próprias palavras do filósofo, é destacado que: “antes de mais nada, que as primeiras criações mitológicas por eles [crianças] ouvidas sejam compostas com vistas à moralidade” (PLATÃO, A República, 378e, 2000).

Em vista disso, pode-se destacar que a beleza em Platão somente pode ser considerada bela se conduzir o ser na busca da unidade, ou seja, procurar a sua essência para além dos sentidos, que na sua filosofia é, o que de fato faz as coisas serem belas, levando a alma para além do corpo, que é a verdade suprassensível. Dessa forma, a arte do belo existente na filosofia platônica é aquela, que ele próprio realiza em suas obras, que faz com que se chegue de forma segura à cognição da verdade, por meio da ascese, possibilitando a purificação dos prazeres e sua substituição da essência das coisas. Essa arte apresentada, em Filebo, é a dialética, que faz com que passemos da doxa para epismete (PLATÃO, A República, 511 b-c, 2000).

Enquanto em Platão a imitação não pode ser considerada como algo verdadeiro, Aristóteles a designa como essencial para o homem, pois desde sua infância é oportunizado por meio dela todo o conhecimento. É na verdade, por meio do sensível, que todas as coisas podem ser conhecidas, cabendo o reconhecimento da imitação. Na Poética ele descreve que:

[...] imitar é natural nos homens desde a infância e nisto diferem dos outros animais, pois o homem é o que tem mais capacidade de imitar e é pela imitação que adquire os seus primeiros conhecimentos; a outra é que todos sentem prazer nas imitações. [...] A razão disto é também que aprender não é só agradável para os filósofos mas é-o igualmente para os outros homens, embora estes participem dessa aprendizagem em menor escala. E que eles, quando veem as imagens, gostam dessa imitação, pois acontece que, vendo, aprendem e deduzem o que representa cada uma, por exemplo, ‘este é aquele assim e assim’ (ARISTÓTELES, Poética, 1448b, 5-18, 2008).

O belo é abordado em Aristóteles no plano da criação estética, o que para ele é imitação, apresentando “a epopeia e a tragédia, bem como a comédia e a poesia ditirâmbica e ainda a maior parte da música de flauta e de cítara são todas, vistas em conjunto, imitações.” (Poética, 1447a,14-16, 2008), cabendo à arte a finalidade de recriar o ser por meio da mimesis, destacando as ações humanas boas e más com base nos seus vícios e virtudes.

Para isso, o estagirita apresenta determinadas estruturações que devem ser elaboradas, para que todas as partes que as compõem sejam devidamente ordenadas, pois acredita que

uma coisa bela - seja um animal seja toda uma ação - sendo composta de algumas partes, precisará não somente de as ter ordenadas, mas também de ter uma dimensão que não seja ao acaso: a beleza reside na dimensão e na ordem e, por isso, um animal belo não poderá ser nem demasiado pequeno [...] nem demasiado grande [...] (ARISTÓTELES, Poética, 1450b, 34-1451a, 2008).

É, então, por aquilo que o artista quer expressar, que se deve ter como finalidade o total envolvimento do ser, com o intuito de transmitir de forma efetiva a mensagem que foi elaborada. Dessa forma, temos demostrada a questão estética elaborada por Aristóteles de que o belo não obrigatoriamente precisa ser bonito, mas deve apresentar-se como bem feito.

Séneca, nas Cartas a Lucílio, elenca a arte como sendo a imitação da natureza e das atividades específicas do homem, orientando-a para o bem supremo, como sendo o objetivo de toda a sua vida, tendo o conhecimento das atitudes que se deve realizar e quais deve-se evitar. Para ele,

o único bem é aquilo que se conforma com a moral, todos os outros bens são falsos e impuros". Se tu te convenceres disto, se tu adorares a virtude (pois amá-la, apenas, de pouco serve!), então tudo quanto seja tocado pela virtude terá a teus olhos nobreza e felicidade, independentemente do que os outros possam pensar (SÉNECA, 2004, p. 272).

Considerar-se-á a virtude como o único bem, não existindo bem fora dela, sendo a razão sua morada, o que ele chama de “melhor parte de nós”, cabendo a virtude ajuizar as nossas decisões e considerar como bem tudo o que está à presença da virtude.

Articulando uma junção entre o Belo e a ética, Cícero mescla conceitos platônicos e aristotélicos para construir a ideia de que o belo não se faz somente da composição das partes do corpo, mas, de mesmo modo, da firmeza de caráter derivada da virtude. Na sua visão,

assim como no corpo se verifica o que chamamos ‘beleza’ [quando a] uma certa disposição adequada dos membros se junta uma cor agradável [da pele], assim também se dá o nome de ‘beleza da alma’ [ao equilíbrio] entre, por um lado a constância e a coerência e, por outro, uma certa firmeza e estabilidade nas opiniões e nos juízos, que, ou decorrem da virtude, ou contêm em si a essência mesma da virtude (CÍCERO, 2014, p. 236-237).

No início da Idade Média tem-se o filósofo Agostinho de Hipona, que traz na sua autobiografia, Confissões, a visão de que belo é “ o que vale por si mesmo; o adequado, como o que vale em relação a algo” (AGOSTINHO, Confissões, IV,XV, 24, 2017), devendo ele apresentar a ordem, beleza e vontade da natureza, pois a natureza é boa por si só.

Embora tudo o que foi criado e exista seja belo para Agostinho, isso não leva a concluir que tudo seja de fato belo, mas que há diferentes graus de beleza. Partindo da visão de que todas as criaturas foram feitas por Deus, sendo Ele sumo Bem, Ele não poderia criar algo feio e deformado, mas sim os graus de perfeição. Fica expresso o pensamento de Agostinho quando apresenta que:

[...] dentre todos esses bens, há alguns pequenos que, em comparação com os bens maiores, recebem nomes contrários, como na figura humana, que é uma beleza maior, em comparação com a beleza do macaco a qual se diz feia. Isto faz com que os ignorantes se enganem julgando que aquela é um bem e está um mal, sem perceber no corpo do macaco o modo que lhe é próprio, a total proporção dos seus membros, e outras coisas que seria longo enumerar (AGOSTINHO, A nat. do bem, 15, 2019).

Ainda de acordo com a Patrística, tem-se Tomás de Aquino, que defende a ideia de que o bem é aquilo ao qual todo os seres têm o intuito de alcançar, como uma finalidade última de todos os atos e ações. Para ele, o belo e o bem se identificam no sujeito, pois apresentam a mesma forma. Por outro lado, elas se diferem, dado que o bem é o fim último o qual as coisas se dirigem, e o belo é uma forma de conhecimento obtida por meio dos sentidos. A esse respeito, Aquino nos diz que:

o belo consiste na proporção devida; pois os sentidos se deleitam com os seres, devidamente proporcionados, como se lhes fossem semelhantes; porque eles, ao modo de toda virtude cognoscitiva, são, de certa maneira, proporção. Ora, o conhecimento implicando assimilação, e está supondo uma forma, o belo depende, propriamente, da noção de causa formal (TOMÁS DE AQUINO, ST. Ia. 5. iv. ad.1., 2016).

Com isso, Tomás ressalta que o belo se difere do bem por meio da razão, haja vista que o bem é a coisa para a qual nos dirigimos e tem como essência aquietar as nossas paixões, ou ponto que o belo, percebido pelos sentidos, nos conduz a um repouso, um ordenamento que é guiado pela própria razão.

Em Tomás, o Ser, o Verdadeiro, o Bem e o Belo são todos constituintes da mesma realidade, que tem como finalidade levar o homem ao encontro do Bem, necessitando para isso de um caráter afetivo, epistemológico e estético (SAVIAN FILHO, 2008). O uso da virtude aperfeiçoa a sua faculdade de agir retamente e destaca que deve existir a presença da virtude moral na arte, já que “a arte não é mais que a razão reta de acordo com a qual fazemos certas obras” (TOMÁS DE AQUINO, ST. Ia-IIae. 57. iii., 2016).

Cecim (2014, apud BAUMGARTEN, 1993), apresenta que na Filosofia Moderna há uma nova definição de arte, influenciado por Descartes, pelo antropocentrismo e pelo renascimento, onde apresenta o belo como um processo representativo do homem, deixando-o de ser reconhecido apenas como uma propriedade objetiva das coisas. Para ele, o belo passa a ser considerado como algo coletivo e subjetivo, ou seja, belo para-nós.

Para Cecim (2014, p. 12) o belo em Baumgarten

não se acha em um mundo inteligível, uno e objetivo, ele precisa, isto sim, atravessar e ser refratado por nossas representações e é assim apenas segundo nossa forma de concebê-lo, a qual, muito embora reconheça aqueles traços universais de beleza no sensível, o concebe como imanente às nossas representações, e não como uma realidade objetivamente sensível ou objetivamente suprassensível.

Gilson (2010) ao indagar sobre o motivo do estudo da arte pela filosofia, destaca que é por meio deste que se pode revelar a sua essência, o que de fato ela significa, o que a define quanto tal e negar tudo o que ela não é.

A beleza de uma obra deve apresentar “unidade, integridade e perfeição”, no sentido das qualidades apresentadas na obra e, não pelo que ela se assemelha. “Os objetos representados ou descritos podem não ser belos, desde que a obra seja. É a integridade da obra que conta, não a do tema.” (GILSON, 2010, p.49). Em suma, o belo deve ser apreciado como uma perfeição da obra, de forma que ela seja apetecível e agradável a um ser inteligente.

Contemporaneamente, tem-se no filósofo Carlos Nougué, a criação da Ciência da Arte do Belo, filosofia que se dedica ao estudo do Belo. Para ele, as artes são as ordenações racionais com a qual, na sua apresentação, se caracteriza como uma área do homem alcança com facilidade os seus respectivos fins, o que ele define como “saber, superar a ignorância”, definindo a Arte do Belo como:

“a arte (significante) de plasmar formas mimético-significantes e belas sobre determinada matéria, para fazer, mediante indução de sentimento e purgação das emoções, que o homem propenda ao verdadeiro e ao bom, e se afaste do falso e do mau” (NOUGUÉ, 2021, p.194).

No entendimento de Nougué (2021), a finalidade última da arte deve ser a de levar o homem à verdade, ao conhecimento e entendimento das coisas que são imutáveis, situadas no campo metafísico. Também, de forma aristotélica, mostra que chegamos a esse fim, por meio das representações, imitações, mimesis, das coisas que existem de forma natural.

O filósofo traz igualmente consigo a ideia da representação não somente das coisas belas, mas também das que são feias, que podem ser consideradas belas se apresentarem alguns aspectos, como a imitação de ideias em seus fonemas constitutivos, imitação de ações, paixões, integridade, harmonia, consonância e claridade.

A arte é uma guisa de retratar a vida, uma forma de nos relacionarmos com os outros, de comunicar a realidade e uma tentativa de se transmitir valores, mesmo que por meio de figurações.

Schiller (2018) destaca que assim como a natureza tem o papel de levar o homem ao contentamento, também a arte deve tem como finalidade o ato de provocar deleite e felicidade. Para isso, porém, que esse papel se cumpra perfeitamente, “a arte tem de tomar o seu caminho através da moralidade”. Ou seja, não basta fazer a arte a qualquer maneira, deve-se dar a ela um fim moral, de modo que ela possa influenciar a eticidade.

3. O MAL E A FEALDADE

De forma geral pode-se elencar o feio como aquilo que nos gera repulsa, aversão, sem proporção, que não apresenta uniformidade e que está envolto de obscuridade (CASTILHO, 2021). Abbagnano (2012), apresenta o feio de três distintas formas: como desvalor estético, como necessário à produção de diferentes qualidades estéticas e como categoria estética positiva.

Na primeira forma, o feio é caracterizado simplesmente como ausência, não ser, ou seja, ele não tem existência e não pode ter presença. A segunda forma, é a sua apresentação para além da negatividade, de maneira a proporcionar uma funcionalidade para outro. Por último, o feio é apresentado como qualidade estética, onde ele pode produzir valores estéticos (ABBAGNANO, 2012).

O feio em Platão pode ser definido como o quase nada, pois haja vista que no plano ideal não há espaço para coisas feias e, posteriormente, para a sua representação, não há, então, essa possibilidade, mas somente a produção de cópias imperfeitas e distorcidas da beleza que somente pode ser contemplada (NOLASCO, 2010).

O feio não é representado por si mesmo, mas tem o intuito de levar o homem a uma empatia dos sentimentos ali partilhados, de modo que o espectador passe a ter os mesmos sentimentos e conhecê-los, sem nunca ter tido contato com eles; e chegar a uma purificação das suas emoções.

O disforme e vergonhoso ganha discussão como feio quando Aristóteles passa a discutir sobre a comédia, e a apresenta como sendo uma expressão do feio, por apresentar aspectos risíveis. Rufino (2013, p. 28) lendo Aristóteles, destaca que:

a imitação do disforme e do vergonhoso é louvável como arte da imitação, porque pode servir, inclusive, como uma pedagogia moral, não podendo - por essa razão - receber uma qualificação negativa (do ponto de vista estético) somente porque o disforme e o vergonhoso são - em si - feios no sentido estritamente moral.

O estagirita argumenta que a arte de imitar é própria do homem, sendo por meio dela que ele adquire os seus primeiros conhecimentos, e que por meio dessa imitação o homem também é levado a sentir prazer (ARISTÓTELES, Poética, 1448b, 5, 2008).

Tendo em vista as colações de Aristóteles, a arte deve apresentar algo de belo, ou seja, ser bem-feita, e ter uma finalidade última, uma teleologia, uma intenção de sentido. Com isso, as representações trágicas, feias, repugnantes e más ganham sentido quando abordam o ser e os fatos em toda a sua completude, não destacando somente aquilo que é bom, mas apresentando de fato todos os seus acidentes. Com isso, ao se retratar os vícios e virtudes, o que se tem é um enriquecimento da narrativa, por ela se conformar a realidade.

Na Idade Média o feio é intimamente ligado com a corrupção do Bem, mais especificamente à sua entidade transcendente que é o demônio, representado como disforme, assimétrico, nebuloso, envolto a cores escuras e formas repulsivas, para contrastar com a harmonia e a beleza de Deus, do Bem e do Belo. Além disso, o feio é o contrário daquilo que é ético.

Segundo Tolstói (2019), quando as classes sociais mais elevadas passaram a perder a fé no cristianismo e na Igreja, a arte passou a valorizar somente a beleza, desprezando o que é feio, tendo interesse somente no prazer proporcionado pela arte que encantava aos olhos, ou seja, da beleza.

Com isso, Tolstói apresenta três consequências para a arte: a perda do conteúdo religioso, bem como da sua diversificação da produção artística; o foco em determinada classe e a perca da beleza da forma; e a perca da sinceridade na elaboração, tornando-se a arte artificial e racional.

Na época do Renascimento, do século XIV ao XVII o feio passa a ser retratado como as ameaças que o homem sofre, bem como o medo e as ameaças à sua vida. Para Calheiros (2014), o feio artístico retratado no século XVII mostra explicitamente os aspectos relacionados à finitude humana, ligados ao erotismo e com a morbidez.

No século XX, com as mais diversas crises, as Guerras Mundiais e tantos outros enfrentamentos pelo homem, as artes irão ter um grande aumento da retratação do feio, como uma ideia de descontinuidade e ruptura. Calheiros (2014, p. 237) argumenta que passa a existir “uma abrupta e intempestiva ruptura com o anterior sentido das manifestações históricas da arte, negando os valores sacralizados, erroneamente julgados intemporais e inultrapassáveis.”

O que se pode perceber é que o feio sempre foi retratado na arte, mas o que se altera é a sua finalidade. Como visto, na Grécia Antiga até o período Medieval, o feio e o mal tinham o papel de educar, de proporcionar a experimentação de sentimentos entre o artista e o ser que a contempla; já em tempos mais contemporâneos essa finalidade foi se alterando e o que passou a existir foi basicamente a retratação do feio somente pelo feio. Há então uma falta de sentimento, de uma autonomia artística que leve o ser a uma verdadeira contemplação, mesmo que a arte ainda houve beleza.

O filósofo Schiller enaltece a utilização o mal na estética, pois é por meio dele que o ser consegue fazer os seus juízos morais. Em sua visão, a experiencia com o mal e com o desagradável apresenta-se como um maior atrativo para o homem, estabelecendo ele uma relação inversa com a natureza do seu conteúdo. Na obra Objetos trágicos, objetos estéticos ele destaca que:

[...] uma maldade plena de espírito ganha o nosso favor primordial porque é um meio para prover-nos do gozo da conformidade a fins moral. [...] quanto mais duras são as provas que a atrocidade inventiva de uma déspota impõe à obstinação de sua vítima inocente, tanto maior o brilho com que vemos triunfar a conformidade a fins moral (SCHILLER, 2018, p. 36).

O pecado, o sofrimento e a morte, como destaca Duque (1999, p. 305), exprimem “na sua unidade, algo da condição profunda do ser humano, marcada pelo fenómeno do mal. E essa condição articula-se, sempre, em símbolos e mitos, os quais proporcionam uma primeira mediação linguística a um fenómeno, de si mudo e confuso.”

4. O BELO PODE SER REPRESENTADO DE FORMA FEIA?

A visão de Agostinho para a explicação do feio e do mal no mundo e nas artes é necessária para validar e valorizar o Belo e do Bem, por meio do contraste. Para essa explicação, o hiponense faz uso da teoria aristotélica que apresenta a unidade na variedade, ou seja, a expressão total da realidade para que ela possa ser contemplada em sua totalidade, onde ele defende que mesmo que as partes sejam compostas de coisas belas e feias, as feias teriam o papel de valorizar os elementos belos (SUASSUNA, 2012).

De Bruyne corrobora com Agostinho ao dizer que o objetivo do feio é enaltecer o Belo, por contraste. Para ele, assim consegue-se captar melhor o sentido da vida, que não é composto somente de beleza, de modo que leve a refletir sobre o valor da vida e o modo das ações. Em suas palavras:

Quando o Feio surge na Arte, é um meio de nos fazer admirar a vitória do gênio sobre o dado, de fazer o Belo brilhar mais, e, sobretudo, de nos fazer captar, de modo intuitivo, o sentido da vida, de contemplar coisas que a vida ordinária não nos permite admirar (SUASSUNA, 2012, apud, DE BRUYNE, 1963, p.121).

Há quem defenda a necessidade do feio, assim como Agostinho, justamente por essas contraposições, mas tem-se em outros a sua visão de completude. Aristóteles apresenta que a plena forma de se retratar a realidade é a tragédia, sendo ela a “imitação de uma ação elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes [...]” (ARISTÓTELES, Poética, 1449b, 24-26, 2008).

Constata-se, portanto, que a visão do filósofo não é somente por representar aquilo que é belo, mas sim por expressar a beleza do que é percebido, ou seja, realizar representações bem-feitas, capazes de levarem o ser ao entendimento da sua realidade, afinal, é por meio da

imitação que adquire os seus primeiros conhecimentos [...]. Uma prova disto é o que acontece na realidade: as coisas que observamos ao natural e nos fazem pena agradam-nos quando as vemos representadas em imagens muito perfeitas como, por exemplo, as reproduções dos mias repugnantes animais e de cadáveres (ARISTÓTELES, Poética, 1448b, 8-14, 2008).

Afirma Schiller (2018, p. 50) que, “não se pode poupar o espectador [...] do desagradável [...]”. Sua visão de arte como imitação, herdado do aristotelismo, atesta que a arte trágica deve imitar a natureza das ações humanas, fazendo com que se desperte parar o afeto compassivo e que o mais alto deleite da arte está contido justamente nas coisas que se apresentam como tristes e trágicas, devido ao seu poder de semelhança com o sujeito.

Pode-se depreender que o Belo não se apresenta tão somente pelas coisas bela, mas, de mesmo modo, pelas que se apresentam como feias, necessitando, porém, de um processo dialético para a sua compreensão e apreensão.

É evidente que nem todos, em seu entendimento, compreendem a dialética realizada no processo de abstração do feio para o Belo, mas como elenca Aristóteles, Schiller e outros filósofos, a tragédia é aquela que nos faz chegar ao entendimento do bem e do Belo.

Aristóteles afirma que associamos à imitação sentimentos de temor e compaixão, pois a imitação

representa não só uma ação completa mas também fatos que inspiram temor e compaixão, estes sentimentos são muito [mais] facilmente suscitados quando os fatos se processam contra a nossa expectativa, por uma relação de causalidade entre si. Desta forma, a imitação será mais surpreendente do que se surgisse do acaso e da sorte, [...]. Tais fatos parecem não acontecer por acaso; portanto, enredos deste género são necessariamente mais belos (ARISTÓTELES, Poética, 1452a, 1-11, 2008).

Antes de alcançar essa beleza é necessário o entendimento do motivo que leva tal representação e o que ela causa no ser ao entrar em contato com essa arte. Na Poética, ao inserir a tragédia como a perfeita forma de representação da vida, será também apresentado o conceito de katharsis, que em sua definição é a purificação das paixões, causadas pela compaixão e o temos ao contemplar a tragédia. Aristóteles apresenta a tragédia como a:

a imitação de uma ação elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da ação e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões (ARISTÓTELES, Poética, 1449b, 25-30, 2008).

Rocha Pereira (1968), no prefácio da obra Poética, faz um breve panorama histórico do conceito de katharsis. Antes de Platão, os Coribantes realizavam danças violentas que levavam ao esgotamento até levá-los a uma “purificação pelo delírio”. Nesse caso, o termo está associado a religião, mas posteriormente e ele se apresenta relacionado à medicina, em Platão, na obra Leis, apresentando três significados diferentes: purgação, depuração e purificação, sendo este último ligado à katharsis do corpo e da alma.

Em Política, Aristóteles associa o termo katharsis com a educação. Quando ele apresenta as diversas formas de melodias da música, que se dividem em éticas, práticas e entusiásticas, cada uma com um determinado tipo de melodia, argumenta que a o seu uso se refere à prática educativa, que ele associa à katharsis, porém não explica o seu significado, sendo ele apresentado na Poética.

Por meio das obras aristotélicas, Oliveira (2014, apud LEAR, 1992) aponta três possibilidades para a interpretação do termo katharsis: “como purgação resultando na cura medicinal, [...] como purificação ritualística e religiosa e, [...] como educação dos sentidos.”

Com isso, adotando essa afirmação da katharsis como forma de educação dos sentidos e de purificação das emoções, no âmbito do prazer estético, da moralidade e do reconhecimento dos casos singulares, Oliveira (2014, p. 198-199) propôs que:

a educação das emoções pode [...] ser direcionada a homens adultos e educados, o que também é uma maneira de responder às suas refutações. Isso acontece porque uma educação das virtudes não pode se dar em casos abstratos e gerais, mas sim na educação de uma sensibilidade para distinguir o modo correto de agir considerando as circunstâncias da ação. É exatamente pelo motivo não estar na agenda da ética das virtudes encontrar imperativos com pretensão de validade universal que Aristóteles parece compreender o papel fundamental da arte trágica para educar a sensibilidade que habilita o público a reconhecer e agir virtuosamente nos casos singulares que as tragédias nos apresentam.

Adotando a katharsis como expressão do drama trágico que purifica o espírito, Rufino (2013, p. 26) diz que por meio do contato com as desventuras do herói trágico, o “espectador infunda em si uma postura que lhe faça não cometer ações similares”, fazendo com que o espectador possa ser educado em sua conduta moral, por meio do sentimento de piedade e medo.

A katharsis, portanto, é a forma pela qual se realiza a sublimação da mimesis, por meio da purificação da natureza humana, da essência do ser, pela purgação dos vícios, dos desejos, das paixões.

Diante do exposto, fica evidente a intenção de Aristóteles em demonstrar que a mimesis tem como finalidade nos ensinar e nos educar, apresentando, para isso, a representação trágica como a mais bela e mais real contemplação, que nos leva à maior satisfação.

A apreciação leva o homem a sentir prazer com as imagens às quais ele é exposto, seja ela “as reproduções dos mais repugnantes animais e de cadáveres” (ARISTÓTELES, Poética, 1448b, 13-14, 2008), ou por meio das cores e figuras que que “realizam imitação põe meio do ritmo das palavras e da harmonia [...] (Aristóteles, Poética, 1447a, 22-23, 2008). Todas essas formas de contemplação levam o homem a discernir a arte e a entender, pois “vendo, aprendem e deduzem o que representa cada uma, por exemplo, ‘este é aquele assim e assim’” (ARISTÓTELES, Poética, 1448b, 17-19, 2008).

Afinal, mediante a exposição a tragédia, ao horror, ao mal e a representação da arte que expressa o caos e a completude do homem, e a da sociedade; e por meio da Katharsis, que nos leva ao processo de purificação das paixões, dos sentimentos e de educação dos vícios; será que se tem a condição de chegar ao entendimento do Bem, seja ele o moral ou metafísico?

Assim como a tragédia é mimesis das ações e retrata de forma completa os acontecimentos, diferente da comédia que tem a função simplesmente de provocar o riso, representando na sua narrativa o drama, com a finalidade de suscitar a piedade e a compaixão, diante do horror, por meio do processo de Katharsis, tem-se em Rosenstock-Huessy (2002) a sua afirmação de que “quando descobrimos por que determinado estado de coisas é negativo e ruim, começamos a entender a origem do bom”, corroborando com o fato de que por meio do contato com o mal, podemos, por semelhança e assimilação, chegar-se ao entendimento do bem, por ele suscitar no homem o reconhecimento dos fatos que levam a tal ocasião negativa.

Duque (1999) expõe que a primeira reação do homem em contato com o mal é fundamentalmente de silencio ou pré-reflexiva, levando-o a ter um ato de protesto, de desespero e de ira; mas quando se tem distância em relação ao fenômeno, ele regressa para a razão provocando a elaboração de tentativas de explicação e de solução para o problema. Para ele o sofrimento deve ser “situado exclusivamente na ordem moral, como resultado de uma falta histórica do ser humano, que deve ser punida, como meio de purificação [...].”

O deleite arte é obtido por meio da comoção com representações tristes, afirma Schiller (2018), e que a arte trágica, por meio da imitação, é capaz de despertar o pleno afeto compassivo do homem. Por isso, não é aconselhado poupar o homem do desagradável, visto que, é por meio dela que se alcança a fins morais.

Pode-se entender, com o exposto, que o contato com a tragédia, o mal e o medonho, o indivíduo realiza um processo de reflexão, que o possibilita o auto entendimento mais aprofundado das suas emoções e da razão. É por meio de casos reais, ou representados como tal, que o homem faz associações à sua vida e compreende, de forma complementar, como deve ser seus atos. Hermann (2005, p. 43) apresenta que “educado pelo estético, o homem não despreza os sentimentos e impulsos provenientes da natureza sensível, mas eleva-se à vida moral.”

Como exposto até aqui, obteve-se que as representações horrendas, trágicas e disformes levam o homem a obter prazer e purificação das emoções e chegar ao entendimento do bem. Apresentou-se também, que a finalidade da arte é justamente a de levar individuo a obtenção de prazer e a, como exposto por Nougué (2021), chegar ao entendimento do verdadeiro e do bem e afastar-se do falso e do mal.

Na percepção de Rufino (2013), é plausível a representação do disforme, do vergonhoso e do mal na arte, como imitação, pois ela se caracteriza como um meio pedagógico para a moral. De forma alguma a imitação pode deixar de lado o feio, para promover o belo ideal e perfeito, haja vista que o belo e o feio são constituições da mesma realidade. A representação da completude do homem é que compõe a beleza.

O feio e o mal são representados também como como forma de se conhecer integralmente a vida, conforme afirma Calheiros (2014). Para ele, a representação do feio é na verdade o que move a curiosidade e o fascínio, pelo fato de proporcionar um melhor entendimento e conhecimento do mundo físico e da realidade que o envolve, um estado de completude existencial e mais próxima da vida. O feio na arte é “tudo o que remete para a ideia ética de mal, para a vivência da adversidade mais desagradável [...]”, “[...] tudo o que nos mostra o lado mais sombrio e cruel da nossa relação com o mundo, com a vida, com os outros, nossas fraternas alteridades, conosco na mesma aventura existencial” (CALHEIROS, 2014, p. 109).

Quando se tem uma perfeita imitação do feio e do trágico, o que se obtém como resultado é o prazer e a purificação das emoções, obtido por meio do processo de katharsis, de modo que, quanto melhor a representação, melhor será a resposta do indivíduo.

É por meio da experiencia estética, em contato com a representação do mal, do feio, do trágico, do medonho, que se vê a existência com maior clareza, fazendo com que desse modo possa se realizar um processo de identidade e identificação lógica entre o bem e o mal, afastando-se dele.

Para conhecer algo, não necessariamente é preciso que o realize. Para isso temos arte, que por meio da imitação da realidade nos transmite o aprendizado que devemos ter das coisas. A representação das coisas más, trágicas e horrendas faz com que possamos abstrair o mal que as levaram a ser assim, e não de outra forma, e por meio do processo de purificação das emoções afastar-se elas e voltar-se para o bem, para o bom, para o bem, para o Belo e para o verdadeiro. Com a contemplação do mal e do feio, consegue-se entender o fundamento da desordem do real, e da moral, e ver o bem que podemos alcançar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tem-se o Belo não somente como o que é representado por coisas bonitas e agradáveis aos olhos, mas como imitação das formas com o intuito de levar o homem ao conhecimento da verdade e do bem, se afastando do falso e do mal.

Analisou-se a visão de vários filósofos sobre a representação do feio na arte. A princípio, como a arte é imitação, mimesis, logo o feio, o mal, o horrendo, o trágico devem ser sim retratados nas suas diversas formas. A visão de Agostinho de Hipona mostrou que todas as representações podem ser consideradas belas, haja a vista a não existência do mal, mas uma falta de proporção; e quando temos a representação do mal, está se dá para que o bem possa ser exaltado por contraste.

É por meio da representação do feio e do mal que se tem a possibilidade de realizar uma retratação mais exata da vida, possibilitando o verdadeiro entendimento da realidade. Para isso, observou-se que o mal é considerado como uma imputação ética, a suposição de uma corrupção, a imperfeição ou deformação.

Para a análise das representações feias não foram consideradas neste trabalho aquelas que tem o papel de somente serem feias por si mesmo, ou seja, que não apresentam uma finalidade última, a não ser a de simplesmente causar horror, sem levar em consideração a realidade humana e o intuito de realizar a mimesis.

Na Filosofa Medieval, há a associação entre bom e belo que corresponde aos valores morais almejados para que se possa assemelhar ao Bem supremo, e o mal como a corrupção desses valares. Posteriormente, o mal passou a ser um meio de possibilitar a compreensão dos juízos morais, onde o contato com o desagradável é tido como um atrativo para o homem, e a possibilidade dele realizar o verdadeiro entendimento da sua representação.

Para tanto, apresentou-se o conceito de Katharsis, que é a purificação das paixões, causadas pela compaixão que temos ao contemplar a tragédia. É o meio pelo qual pode-se realizar a sublimação da imitação, por meio da purificação, da essência do ser, proporcionando a purgação dos vícios, dos desejos e das paixões. O papel da katharsis é um meio para que se possa utilizar casos concretos para se chegar no entendimento das virtudes, sendo utilizada então para a educação moral do indivíduo.

Conhecer o mal, não é somente ver aquilo que se apresenta “ruim”, mas é importante para o conhecimento do bem, pois, como visto, é por meio de um estado violento que o mais alto deleite moral irá florescer, mesmo que acompanhado do sentimento de dor.

Tudo o que se apresenta como mal é merecedor de ser reconhecido como bem, a partir do momento em que nos leva ao entendimento dos valores morais, do bem e do Belo, por meio de um aprendizado e do domínio da situação.

Com isso, pode-se verificar que há uma correlação entre Belo e a representação feio, para que o Belo possa ser exaltado ou para que se possa chegar ao entendimento da purificação, por meio da katharsis. A repugnância pode aparecer em um primeiro momento, mas o processo de cognição faz com o indivíduo passe a ter prazer e deleite com o mal e o feio na medida em que ele o leva ao entendimento dos valores morais e ao conhecimento do Bem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBAGNANO, NICOLA. Dicionário de Filosofia. 6º ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

AGOSTINHO, SANTO. A natureza do bem. O castigo e o perdão dos pecados. O batismo das crianças. São Paulo: Paulus, 2019. (Patrística 40)

AGOSTINHO, SANTO. Confissões. Tradução: Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das letras, 2017.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Ana Maria Valente. 3ª ed. Lisboa, Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

BAUMGARTEN, A. G. Estética: a lógica da arte e do poema. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2017.

CALHEIROS, L. F. F. B. Elogio do feio na arte: fealdade no século XX. 2014. Tese (Doutorado em História da Arte) - Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal.

CARROLL, N. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.

CASTILHO, W. B. A tessitura do medo na Literatura Brasileira: o insólito terror naturalista em "Demônios", de Aluísio Azevedo. Dissertação (Mestrado em literatura e crítica literária) - Pontifícia Universidade Católica. São Paulo, p. 126. 2021.

CECIM, A. M. Baumgarten, Kant e a teoria do belo: conhecimento das belas coisas ou belo pensamento?. Paralaxe. v. 2, n. 1, p. 2-19, 2014.

CIGOGNINI, E. A possibilidade de uma reflexão estética em Tomás de Aquino a exemplo do juízo estético de Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo. Revista Seara Filosófica. n. 13, p. 77-86, 2016.

DUQUE, J. O mal: Deus em questão (?). Didaskalia, v. 29, n. 1-2, p. 301-334, jan. 1999.

GILSON, É. Introdução às artes do belo: o que é filosofia sobre a arte? São Paulo: É Realizações, 2010.

HERMANN, N. Ética e estética: a relação quase esquecida. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

NOLASCO, A. Transgressões do belo: invenções do feio na arte contemporânea portuguesa. Tese (Doutorado em Filosofia Estética e Filosofia da Arte) – Universidade de Lisboa. Lisboa, p. 293, 2010.

NOUGUÉ, C. Da arte do belo. FORMOSA: Edições Santo Tomás, 2021.

PESSOA, F; COSTA, R. Estética. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2016.

PLATÃO. A República. Tradução: Carlos Alberro Nunes. Belém: EDUFPA, 2000.

ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. A origem da linguagem. Rio de Janeiro: Record, 2002.

RUFINO, E. A. O feio e seu estatuto de identidade artística entre Platão e Aristóteles. Revista Investigações. v. 26, n 1, p. 1-33, 2013.

SAVIAN FILHO, J. O tomismo e a ética: uma ética da consciência e da liberdade. Bioethicos. v. 2, n. 2, p. 177-184, 2008.

SCHILLER, F. Objetos trágicos, objetos estéticos. Tradução: Vladimir Vieira. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

SÉNECA, L. A. Cartas a Lucílio. Lisboa, Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

SUASSUNA, A. Iniciação à estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

TOLSTÓI, L. O que é arte?. Tradução: Bete Torii. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Volume 1. Tradução: Alexandre Correia. Campinas: Ecclesiae, 2016.


1 Graduado em Engenharia de Produção pela Universidade de Franca (UNIFRAN) e em Filosofia pelo Instituto Agostiniano de Filosofia (IAF). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Ciências Fisiológicas pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) e professor do, Instituto Agostiniano de Filosofia (IAF). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.