REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792902074
RESUMO
O envelhecimento é um processo inerente à existência humana, em que o indivíduo experimenta mudanças em diferentes áreas da vida, sejam elas físicas, cognitivas ou psicossociais. No Brasil, o crescimento da população idosa evidencia que o envelhecimento populacional já é uma realidade. Diante disto, surgem novos desafios relacionados à qualidade de vida na velhice, entre eles o fenômeno da solidão. Considerando a necessidade de ampliar o debate sobre o bem-estar da pessoa idosa, o presente estudo aborda a solidão e sintomas depressivos em pessoas idosas e tem como objetivo analisar a relação entre a solidão e os sintomas depressivos em pessoas idosas, com base na literatura científica. Para alcançá-lo, buscou-se conceituar a solidão na velhice, considerando suas características enquanto fenômeno psicossocial, identificar, na literatura científica, a presença e as características dos sintomas depressivos associados à experiência de solidão em pessoas idosas e analisar a influência das redes de apoio social e familiar na experiência de solidão. Realizou-se uma pesquisa de natureza básica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, por meio de uma revisão bibliográfica, a partir do levantamento de produções científicas publicadas entre 2016 e 2026 em língua portuguesa e disponíveis na íntegra. As buscas foram realizadas no Google Acadêmico, SciELO e PEPSIC, utilizando descritores relacionados ao envelhecimento, à solidão e aos sintomas depressivos e as redes de apoio na velhice. Os resultados demonstraram que a experiência de solidão está relacionada a diferentes fatores individuais, relacionais e sociais, além de apresentar relação com a presença de sintomas depressivos. Evidenciou-se também a relevância das redes de apoio social e familiar diante da solidão na velhice. Com base na análise realizada, concluiu-se que há relação entre a vivência e percepção da solidão e a presença de sintomas depressivos em pessoas idosas.
Palavras-chave: Envelhecimento; Redes de apoio na velhice; Sintomas depressivos; Solidão na velhice.
ABSTRACT
Aging is an inherent process of human existence in which individuals experience changes in different areas of life, including physical, cognitive, and psychosocial aspects. In Brazil, the growth of the older population demonstrates that population aging is already a reality. In this context, new challenges related to quality of life in old age arise, including the phenomenon of loneliness. Considering the need to broaden the discussion on the well-being of older adults, this study addresses loneliness and depressive symptoms in older adults and aims to analyze the relationship between loneliness and depressive symptoms in this population based on the scientific literature. To achieve this objective, the study sought to conceptualize loneliness in old age, considering its characteristics as a psychosocial phenomenon; identify, in the scientific literature, the presence and characteristics of depressive symptoms associated with the experience of loneliness among older adults; and analyze the influence of social and family support networks on the experience of loneliness. A basic research study with a qualitative approach and exploratory nature was conducted through a literature review of scientific publications in Portuguese, published between 2016 and 2026 and available in full text. Searches were conducted in Google Scholar, SciELO, and PEPSIC using descriptors related to aging, loneliness, depressive symptoms, and support networks in old age. The results showed that the experience of loneliness is associated with various individual, relational, and social factors and is also related to the presence of depressive symptoms. The relevance of social and family support networks in addressing loneliness in old age was also highlighted. Based on the analysis conducted, it was concluded that there is a relationship between the experience and perception of loneliness and the presence of depressive symptoms among older adults.
Keywords: Aging; Depressive symptoms; Loneliness in old age; Support networks in old age.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento é um processo inerente à existência humana, no qual o indivíduo experimenta mudanças em diferentes áreas da vida, sejam elas físicas, cognitivas ou psicossociais. Embora seja um processo comum a cada indivíduo, o envelhecimento não é linear e sofre interferência de variáveis internas e externas, como os fatores culturais, religiosos, financeiros, étnicos e de gênero que afetam diretamente a qualidade de vida e a forma como este indivíduo vive e percebe esse processo (Rocha; Costa; Apratto Júnior, 2025).
No Brasil são consideradas pessoas idosas aquelas com idade igual ou superior a 60 anos, conforme estabelece a Lei nº 10.741/2003. Os resultados do Censo Demográfico, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE em 2022 apontaram que o número de pessoas idosas no Brasil cresceu 57,4% em 12 anos, chegando a cerca de 22,2 milhões de pessoas, o que representa 10,9% da população brasileira, demonstrando que o envelhecimento populacional brasileiro já é uma realidade.
Diante disso, deve-se considerar que viver muito, não significa necessariamente viver bem, assim, o aumento da expectativa de vida no Brasil impõe novos desafios que repercutem em diferentes aspectos sociais, principalmente no que se refere à qualidade de vida na velhice considerando os aspectos emocionais e psicológicos (Souza; Maciel; Pereira, 2026).
Entre os aspectos psicossociais que podem ser vivenciados na velhice, destaca-se a solidão, que é um fenômeno complexo de caráter subjetivo que está relacionado à percepção do indivíduo sobre a qualidade das suas relações interpessoais. Embora a solidão seja comum a qualquer fase da vida, os idosos podem ser ainda mais vulneráveis diante das mudanças nas relações e nos papéis sociais (Cavalcanti et al., 2016; Rodrigues, 2018).
Nesse contexto, a experiência da solidão torna-se ainda mais expressiva quando relacionada aos sintomas depressivos, uma vez que associadas às mudanças características do envelhecimento podem promover efeitos deletérios na qualidade de vida do idoso (Corsso et al., 2026). Diante disso, o presente estudo delimita-se à análise da relação entre a solidão e os sintomas depressivos na velhice, com base nas evidências disponíveis na literatura científica.
A relevância desta pesquisa está na necessidade de ampliar o debate sobre o bem-estar da pessoa idosa, especialmente diante das transformações demográficas atuais, além de contribuir para a compreensão dos aspectos psicossociais envolvidos na relação entre solidão e sintomas depressivos nessa população. O presente estudo parte da seguinte questão norteadora: Qual é a relação entre a solidão e os sintomas depressivos em pessoas idosas, segundo a literatura científica?
Para responder a essa questão, o estudo tem como objetivo geral analisar a relação entre a solidão e os sintomas depressivos em pessoas idosas, com base na literatura científica. Para alcançar este objetivo geral, os objetivos específicos estabelecidos foram: conceituar a solidão na velhice, considerando suas características enquanto fenômeno psicossocial; identificar, na literatura científica, a presença e as características dos sintomas depressivos associados à experiência de solidão em pessoas idosas; analisar a influência das redes de apoio social e familiar na experiência de solidão.
Quanto aos procedimentos metodológicos, trata-se de uma pesquisa de natureza básica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, realizada por meio de revisão bibliográfica. A pesquisa foi desenvolvida a partir do levantamento de produções científicas relacionadas à solidão, aos sintomas depressivos e às redes de apoio social e familiar na velhice, considerando artigos científicos, livros, dissertações, teses e outras publicações acadêmicas.
As buscas foram realizadas no Google Acadêmico, na Scientific Electronic Library Online (SciELO) e no PePSIC, utilizando descritores relacionados à velhice, à solidão, aos sintomas depressivos e às redes de apoio social e familiar. Para a realização das buscas, utilizaram-se os termos envelhecimento, solidão na velhice, sintomas depressivos e tipos de rede de apoio na velhice.
Para a seleção dos estudos, foram estabelecidos critérios de inclusão e exclusão. A seleção contemplou publicações em língua portuguesa, disponíveis na íntegra e publicadas entre 2016 e 2026, que apresentassem relação com a temática. Excluíram-se publicações em outros idiomas, materiais incompletos, trabalhos publicados fora do período estabelecido. Após o levantamento dos dados, os materiais selecionados foram analisados de acordo com a sua relevância para o problema e os objetivos do estudo.
Quanto às limitações, por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, este estudo não realizou coleta de dados em campo, o que impossibilitou o acesso direto às experiências e percepções de pessoas idosas sobre a solidão e os sintomas depressivos na velhice. Diante disso, este estudo propõe-se a ampliar a compreensão acerca da relação entre solidão e os sintomas depressivos em pessoas idosas.
Quanto à organização, o presente estudo está estruturado em três eixos de discussão. Inicialmente, são apresentados os principais conceitos de solidão. Em seguida, discutem-se as manifestações dos sintomas depressivos. Por fim, aborda-se o papel das redes de apoio social e familiar diante da solidão na velhice. Após o Desenvolvimento, são apresentadas as Considerações e Resultados do estudo.
2. SOLIDÃO, SINTOMAS DEPRESSIVOS E REDES DE APOIO NA VELHICE
2.1. Solidão na Velhice: Conceitos, Dimensões e Aspectos Biopsicossociais
Na atualidade, observa-se uma sociedade caracterizada por transformações sociais significativas, decorrentes do avanço demográfico, do aumento da expectativa de vida populacional e da crescente inserção das mídias digitais, as quais têm afetado diretamente a forma como as relações interpessoais são estabelecidas, sendo os idosos particularmente vulneráveis a esses impactos dada a maior suscetibilidade ao isolamento e à solidão (Azeredo; Afonso, 2016).
No Brasil, o envelhecimento populacional consolidou-se como uma realidade, devido ao aumento expressivo da expectativa de vida nos últimos anos; contudo, viver mais não implica, necessariamente, melhor qualidade de vida (Bezerra; Nunes; Moura, 2021). O processo de envelhecimento é experienciado de maneira particular para cada indivíduo, que sofre interferência de diversos fatores, tais como a religião, as condições econômicas e a cultura (Almeida et al., 2022).
Além disso, o indivíduo experimenta transformações em diversas esferas da vida, podendo ser de natureza biológica, psicológica e social, as quais podem favorecer o surgimento de sentimentos de solidão (Cavalcanti et al., 2016). Nessa perspectiva, Azeredo e Afonso (2016, p. 314) definem a solidão como “[...] um sentimento penoso e angustiante, que conduz a um mal-estar em que a pessoa se sente só, ainda que rodeada de pessoas, por pensar que lhe falta suporte, sobretudo de natureza afetiva”.
A definição apresentada evidencia que a solidão apresenta uma dimensão essencialmente subjetiva, na qual depende em sua grande maioria dos aspectos internos do indivíduo, tal qual a percepção. Essa compreensão aproxima-se de Rodrigues (2018, p. 1), que destaca que “o indivíduo que se sente sozinho percepciona as relações sociais como insuficientes ou de baixa qualidade, tendo em conta as suas preferências de envolvimento social”. Diante disso, Barroso et al. (2016) ampliam essa discussão ao afirmar que:
A solidão tem um componente cognitivo, de interpretação de uma situação, e um componente emocional, derivado dessa percepção. A solidão não depende de estar objetivamente sozinho, pois caso não haja sentimentos negativos associados ao fato de estar sozinho, essa condição não representa solidão. De forma equivalente, mesmo estando cercado por diversas pessoas, alguém pode se sentir solitário (Barroso et al., 2016, p. 69).
Segundo Weiss (1957 apud Bastos; Costa, 2004), a solidão pode ser compreendida em duas dimensões principais: social e emocional. A solidão social surge diante da percepção de déficits nas relações interpessoais, que podem levar o indivíduo a experienciar sentimentos de exclusão, marginalidade e aborrecimento, levando-o à necessidade de fortalecer sua rede de apoio social. Já a solidão emocional ocorre quando o indivíduo percebe que há ausência de vínculos íntimos e afetivos que proporcionem segurança, aceitação, proteção e compreensão, este sentimento move-o na busca de estabelecer relações de proximidade (Weiss, 1957 apud Bastos; Costa, 2004).
Embora a solidão possa se assemelhar a conceitos como solitude e isolamento social, suas características diferem entre si. A solitude está relacionada a um estado em que o indivíduo escolhe de forma voluntária por ficar sozinho, para que por meio do silêncio e da introspecção este possa estabelecer uma conexão ainda mais profunda consigo mesmo (Almeida et al., 2022, Colombo; Brognoli, 2024).
Já o isolamento social é um estado objetivo relacionado à quantidade e frequência de interações sociais, em que o indivíduo experimenta uma vivência com contatos sociais pouco frequentes, baixos níveis de atividades sociais, com privações de relações sociais significativas (Sandy Júnior; Borim; Neri, 2023). Embora o isolamento social possa coexistir com o sentimento de solidão, esses fenômenos apresentam características distintas. O isolamento social possui uma natureza objetiva, referindo-se ao quanto o indivíduo está isolado. Já a solidão apresenta caráter subjetivo, pois envolve a percepção do indivíduo sobre a qualidade e a suficiência de seus vinculos afetivos e sociais (Bezerra; Nunes; Moura, 2021; Rodrigues, 2018).
A partir desta distinção, compreende-se que a solidão não está relacionada unicamente a ausência de contatos sociais, mas envolve a forma como o indivíduo percebe e vivencia suas relações. Trata-se, portanto, de um fenômeno complexo que possui um caráter subjetivo, e pode ser vivenciado em qualquer fase da vida, sendo os idosos particularmente vulneráveis especialmente diante das mudanças biopsicossociais associadas ao envelhecimento (Cavalcanti et al., 2016).
Essas mudanças estão relacionadas às diferentes transformações que ocorrem ao longo do processo de envelhecimento. Sob essa perspectiva, Neri (2001, p.29) afirma que “o desenvolvimento envolve o equilíbrio constante entre ganhos e perdas. A proporcionalidade entre eles sofre alterações ao longo do curso da vida: na infância preponderam ganhos e, na velhice perdas”.
Diante disto, as mudanças características dessa fase podem tornar o idoso ainda mais vulnerável aos efeitos deletérios da solidão, uma vez que estes experimentam uma diminuição da plasticidade comportamental e da resiliência, comprometendo assim a capacidade do idoso de recuperar-se de eventos estressores (Barbosa; Bonfantil; Rodrigues, 2025; Cochar-Soares; Delinocente; Dati, 2021; Neri, 2001).
Nesse contexto, destacam-se as alterações fisiológicas e as mudanças físicas associadas ao envelhecimento, que também podem estar relacionadas à solidão, uma vez que interferem na capacidade funcional do indivíduo, na forma como o indivíduo se percebe, se relaciona e até mesmo na tomada de decisão (Cochar-Soares; Delinocente; Dati, 2021; Fechine; Trompieri, 2012).
Somam-se a essas transformações os fatores psicossociais relacionados à solidão, que envolvem os aspectos internos e externos. Em relação aos fatores internos, Cunha e Rabinovich (2024, p. 4) afirmam que “[...] às características pessoais, timidez, introversão ou até mesmo transtornos psicológicos podem tornar o sujeito mais propício a vivenciar sentimentos de solidão”. A partir desta perspectiva, compreende-se que as características pessoais podem influenciar a forma como o idoso estabelece suas relações sociais (Cunha; Rabinovich, 2024).
Em relação aos fatores externos, consideram-se a cultura, o nível econômico, e a baixa escolaridade, como elementos que de modo geral, influenciam as condições de inserção social (Araújo et al., 2024). Além disso, há elementos mais particulares relacionados à solidão na velhice, como o estreitamento nas relações sociais, o luto e a viuvez; a aposentadoria; problemas de saúde; falta de afeto; e privação da convivência com os familiares apresentam-se como fatores de risco para estados profundos de solidão na velhice (Barbosa; Bonfantil; Rodrigues, 2025).
Portanto, a solidão na velhice revela-se como um fenômeno complexo capaz de impactar significativamente a qualidade de vida e o bem-estar do indivíduo, ultrapassando a esfera social e afetando os aspectos psicológicos e emocionais.
2.2. Sintomas Depressivos e Suas Manifestações na Velhice
Os sintomas depressivos podem envolver diferentes manifestações emocionais, cognitivas e físicas, entre elas destacam-se a “[...] tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimento de culpa ou diminuição da autoestima, distúrbios de sono ou apetite, cansaço e dificuldade para se concentrar” (Sguerri; Castro-Costa; Loyola Filho, 2025, p. 2). Esses sintomas podem assumir características particulares na velhice, especialmente diante das mudanças comuns dessa fase (Corsso et al., 2026).
Na velhice, os sintomas depressivos podem estar associados a declínios cognitivos e funcionais, que tornam seu diagnóstico particularmente desafiador, marcado pela prevalência de sintomas somáticos e queixas cognitivas. Os fatores de risco comuns incluem doenças incapacitantes, perdas significativas, aposentadoria, viuvez, abandono, institucionalização, isolamento social, eventos estressantes, baixa renda, dependência, idade e gênero (Carmo; Freire; Párraga, 2017; Ferraiuoli; Ferreira, 2017; Santos; Souza, 2022).
Embora a solidão e os sintomas depressivos apresentem etiologias distintas, estudos apontam uma relação de bidirecionalidade. De acordo com Canuto, Salles e Bastos (2025, p. 471), os “sintomas depressivos e a solidão são bidirecionais, ou seja, ao se desenvolver uma destas condições, a outra é estimulada no sujeito”. Embora a solidão não implique necessariamente o desenvolvimento de sintomas depressivos, idosos depressivos possuem maior risco de se sentirem solitários (Oliveira et al., 2019). De acordo com Santos et al. (2024):
A solidão, especialmente em idosos não institucionalizados, configura- se como um dos principais fatores predisponentes à depressão. A falta de rede de apoio familiar e social, aliada às limitações físicas e à perda de entes queridos, contribui para um quadro emocional de maior fragilidade, impactando diretamente a saúde mental e o bem-estar geral dos idosos (Santos et al., 2024, p. 501).
Nesse contexto, a complexidade dessa interação, quando associada à sobreposição de elementos característicos do envelhecimento, pode dificultar a identificação de sintomas depressivos na pessoa idosa, impedindo que esse indivíduo receba a assistência adequada (Corsso et al., 2026). De modo geral sintomas depressivos na velhice, “[...] pode interferir em vários aspectos da vida diária, desde a capacidade de realizar atividades simples até a diminuição da motivação para interações sociais, aumentando o risco de isolamento e deterioração das funções cognitivas e físicas” (Santos et al., 2024, p. 506).
Portanto, faz-se necessário garantir que a pessoa idosa tenha acesso ao suporte emocional, social e profissional necessário para que haja vínculos significativos, identificação precoce dos sintomas depressivos e tratamento adequado considerando as particularidades do processo de envelhecimento (Cruz et al., 2024).
2.3. Redes de Apoio Social e Familiar no Enfrentamento da Solidão na Velhice
Considerando que a solidão possui um caráter essencialmente subjetivo associada principalmente à qualidade das interações sociais e dos vínculos estabelecidos, e não com a quantidade de contato estabelecidos, compreender a importância das redes de apoio social e familiar se mostra um aspecto relevante para a análise das implicações da solidão na velhice (Damas; Pereira; Castro, 2023; Parreira, 2022).
De acordo com Rocha, Oliveira e Mota (2017, p. 2) “o apoio social é encarado como qualquer tipo de comportamento que tenha por objetivo suprir as necessidades de outras pessoas e/ou grupos e que resulte em efeitos positivos sobre a vida de quem o recebe”. Nessa perspectiva, o apoio oferecido por familiares, amigos e pela comunidade, favorece a diminuição dos efeitos do desamparo, exclusão e preconceitos, além de fortalecer as relações, promover autoestima, segurança e bem-estar (Neuana; Sarmento, 2024).
Costa et al. (2023) afirmam que idosos que possuem relações familiares e comunitárias significativas, apresentam melhor percepção sobre a sua qualidade de vida, evidenciando que o suporte emocional e o apoio social podem atuar como um fator protetivo no enfrentamento da solidão. No processo de envelhecimento, o núcleo familiar é considerado o principal meio de apoio social imediato à pessoa idosa, responsável por garantir que todas as suas necessidades sejam supridas (Neuana; Sarmento, 2024).
Deste modo, a família representa um elemento fundamental para o bem-estar das pessoas idosas, configurando-se como um elemento de natureza ambivalente, uma vez que podem favorecer sentimento de pertencimento, sendo uma fonte de apoio, cuidado e proteção emocional, mas também pode estar associada a experiências de conflitos e negligência, interferindo diretamente na qualidade de vida da pessoa idosa (Silva et al., 2018; Silva et al., 2022).
Além do núcleo familiar, a rede de apoio social da pessoa idosa também é composta pelas relações de amizade, as quais desempenham um papel complementar e essencial na manutenção do bem-estar. As relações de amizade contribuem para a ampliação dos vínculos e aprimoramento das habilidades sociais, proporcionando apoio emocional, de modo que sua eficácia pode ser mais positiva do que o da rede familiar, em termos de convivência, uma vez que em determinadas situações os vínculos familiares podem estar associados mais a obrigações sociais do que a vínculos genuínos (Neuana; Sarmento, 2024).
Destaca-se ainda a importância da rede de apoio comunitária, por meio dos Centros de Convivência e dos Grupos de Convivência. Nesse contexto, a importância dos Centros de Convivência pode ser compreendida a partir do conceito de envelhecimento ativo, que destaca a participação social de acordo com as necessidades, desejos e capacidades do indivíduo por meio de políticas e programas que promovam relações sociais saudáveis (OMS, 2005).
Já os grupos de Convivência atuam como facilitadores para a interação social, a inclusão e a socialização, além de resgatar a autonomia, melhorar a autoestima, a qualidade de vida, o senso de humor, favorecer a autoaceitação, propiciar sentimentos positivos como a felicidade e a alegria e promover aprendizados referente a assuntos como autocuidado e saúde (Souza et al., 2025; Araújo et al., 2017).
Portanto, é importante que a pessoa idosa esteja engajada em atividades que reafirmem sua participação social ativa, que o façam sentir-se útil, como a frequência em grupos de convivência e centros de Convivência ou em outras atividades que favoreçam a socialização e o sentimento de pertencimento (Silva et al., 2022).
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
O presente estudo teve como objetivo analisar a relação entre solidão e os sintomas depressivos em pessoas idosas com base na literatura científica. A partir da análise dos estudos, foi possível identificar que a experiência de solidão é um fenômeno que está relacionado à interação de vários fatores, não podendo atribuir a esta, uma única causa. Entre esses fatores, destacam-se os aspectos individuais em que se consideram as características de personalidade, bem como os aspectos externos e relacionais, que incluem cultura, religião, idade e sexo.
Além disso, os estudos analisados indicaram que mudanças características do envelhecimento também podem contribuir para a experiência da solidão, assim a diminuição da resiliência e da plasticidade comportamental pode interferir na forma como o indivíduo percebe as suas relações e enfrenta as mudanças características do envelhecimento.
Esses achados permitem compreender que a solidão na velhice não depende exclusivamente de aspectos individuais, mas também das condições oferecidas pelo meio. Nesse sentido, há uma interação entre a forma como o indivíduo se percebe diante das transformações relacionadas à velhice, a maneira como suas relações estabelecidas nessa fase da vida e o seu contexto social. Além disso, as mudanças características do envelhecimento também podem modificar a forma como o indivíduo se relaciona e enfrenta situações estressoras.
Diante dos estudos analisados, observa-se que a literatura científica aponta para uma relação entre a vivência e percepção da solidão e a presença de sintomas depressivos em pessoas idosas. Os estudos analisados apontaram que idosos que vivenciam níveis elevados de solidão, seja ela emocional ou social, podem apresentar maior sofrimento psíquico e maior ocorrência de sintomas depressivos.
Embora seja uma relação significativa, esta não se apresenta ou se compreende de forma isolada, uma vez que se deve considerar os aspectos individuais e sociais, que podem influenciar na forma como a pessoa idosa estabelece suas relações e como ela percebe a própria experiência diante das manifestações de cada um desses fenômenos.
Neste contexto, o papel das redes de apoio se mostra relevante, uma vez que o apoio social e familiar desempenha um papel importante na promoção da qualidade de vida da pessoa idosa, e na garantia da inclusão social do idoso, bem como o sentimento de pertencimento. Diante disto, é relevante considerar a inserção efetiva do idoso, tanto na dinâmica familiar quanto na sociedade, uma vez que este pode estar aparentemente inserido na dinâmica familiar e ainda assim sentir-se sozinho ou deslocado.
Em suma, os resultados da literatura analisada permitiram compreender que a relação entre a solidão e os sintomas depressivos se dá por meio de uma interação complexa e multifatorial que requer uma análise ampla que considere a pessoa idosa em sua complexidade. Assim, os achados indicam que a experiência da solidão pode estar associada aos sintomas depressivos embora essa relação não possa ser compreendida como causal e direta.
Considerando as limitações decorrentes da metodologia adotada, destaca-se a necessidade de ampliar as investigações sobre a temática a partir de diferentes perspectivas. Nesse sentido, estudos futuros poderão aprofundar a análise dessa temática por meio de pesquisas que possibilitem uma maior aproximação com as experiências vivenciadas pelas pessoas idosas. Dessa forma, as novas pesquisas poderão ampliar a compreensão dos diferentes aspectos envolvidos nessa relação e contribuir para a discussão sobre as implicações da solidão e os sintomas depressivos na velhice.
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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail