SOCIEDADE, CULTURA E EDUCAÇÃO: UMA ANÁLISE HISTÓRICA DAS PRÁTICAS CULTURAIS E EDUCATIVAS NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS DO PIAUÍ

SOCIETY, CULTURE AND EDUCATION: A HISTORICAL ANALYSIS OF CULTURAL AND EDUCATIONAL PRACTICES IN THE MUNICIPALITY OF SÃO LUÍS DO PIAUÍ

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791484834

RESUMO
Este artigo apresenta os resultados de uma investigação sobre a organização sociocultural e educacional de São Luís do Piauí, tendo como objeto as práticas culturais e educativas constituídas desde sua formação como fazenda de gado e povoação até a emancipação político-administrativa, estabelecida pela Lei Estadual nº 4.810, de 14 de dezembro de 1995. A pesquisa histórico-documental mobilizou legislação educacional, correspondências administrativas, produções literárias e acadêmicas e documentos governamentais dos séculos XVIII, XIX e XX. Fundamentou-se na perspectiva da História Local, conforme Gonçalves Neto e Magalhães, e no conceito de práticas culturais de Chartier, compreendidas como ações e modos de fazer que configuram costumes, relações de convivência e formas de organização cotidiana. Os resultados indicam que a formação histórica do município decorreu de um processo de longa duração, anterior ao marco tradicional de 1818, marcado pela ocupação territorial, pela pecuária, pela agricultura e por práticas culturais vinculadas aos modos de viver e trabalhar no sertão. No campo educacional, as práticas educativas antecederam a institucionalização da escola, desenvolvendo-se inicialmente nos espaços familiares e comunitários e, posteriormente, mediante a escolarização domiciliar conduzida por mestres-escolas. A criação progressiva de instituições escolares evidencia a ampliação da atuação do poder público e das iniciativas comunitárias na oferta educacional. Conclui-se que território, cultura e educação constituem dimensões articuladas da formação histórica da sociedade de São Luís do Piauí, cujos processos educativos abrangem tanto a transmissão cotidiana de saberes quanto a escolarização.
Palavras-chave: Cultura; Educação; São Luís do Piauí; Sociedade.

ABSTRACT
This article presents the findings of a study on the sociocultural and educational organization of São Luís do Piauí, examining the cultural and educational practices that developed from its origins as a cattle ranch and settlement to its political and administrative emancipation, established by State Law No. 4,810 of December 14, 1995. The historical documentary research drew on educational legislation, administrative correspondence, literary and scholarly works, and government documents from the eighteenth, nineteenth, and twentieth centuries. It was grounded in the local history approach articulated by Gonçalves Neto and Magalhães and in Chartier’s concept of cultural practices, understood as actions and ways of doing that shape customs, social relations, and everyday organization. The findings indicate that the municipality’s historical formation resulted from a long-term process predating the conventional benchmark of 1818, characterized by territorial occupation, cattle raising, agriculture, and cultural practices associated with ways of living and working in the Brazilian hinterland. Educational practices preceded institutional schooling, developing initially within families and communities and subsequently through home-based instruction provided by schoolmasters. The gradual establishment of schools demonstrates the expanding role of public authorities and community initiatives in educational provision. The study concludes that territory, culture, and education are interconnected dimensions of the historical formation of society in São Luís do Piauí, whose educational processes encompass both the everyday transmission of knowledge and formal schooling.
Keywords: Culture; Educatio; São Luís do Piauí; Society.

1. INTRODUÇÃO

A história da educação na perspectiva local e regional tem se consolidado como um campo relevante de investigação, na medida em que permite compreender os processos formativos que se desenvolvem para além da educação escolar, articulando-se às dinâmicas sociais, culturais e econômicas de cada território. Nesse sentido, o município de São Luís, situado no semiárido piauiense, constitui um campo fértil para análises históricas que busquem compreender a constituição de práticas educativas em contextos marcados pela cultura agropastoril.

O presente trabalho tem como objetivo delinear um esboço histórico da organização sociocultural de São Luís do Piauí, adotando como tema as práticas culturais e educativas desenvolvidas no território que hoje é reconhecido como o município de São Luís do Piauí em suas configurações administrativas como fazenda de gado e povoação, até o processo de emancipação política formalizado pela Lei Estadual nº 4.810, de 14 de dezembro de 1995.

Partindo do entendimento de que a educação não se restringe à instituição escolar, mas se manifesta em diferentes espaços e práticas sociais, o presente trabalho se propões analisar as formas educativas presentes no cotidiano da população, considerando dimensões como o trabalho, a religiosidade, a vida familiar e as práticas culturais. Dessa forma, busca-se compreender como tais práticas contribuíram para a formação sociocultural do município, adotando como eixo condutor da investigação o seguinte questionamento: quais práticas culturais e educativas presentes na organização sociocultural de São Luís do Piauí, desde sua constituição como fazenda de gado até sua emancipação política, contribuíram para a formação histórica e educativa do município?

A realização deste estudo justifica-se pela necessidade de ampliar as investigações sobre a História da Educação em âmbito local, especialmente nos municípios do interior do Piauí, onde as práticas educativas se constituíram, em grande medida, fora dos espaços escolares formais. Ao privilegiar a análise das práticas culturais e dos processos educativos, a pesquisa contribui para uma compreensão ampliada da educação como fenômeno social e histórico desenvolvido em múltiplos espaços. Essa abordagem possibilitou reconhecer saberes e experiências construídos pelas populações locais, frequentemente invisibilizados nos currículos escolares. Os resultados poderão, ainda, subsidiar práticas pedagógicas contextualizadas, fortalecer as relações entre escola e comunidade e favorecer a valorização das identidades culturais dos estudantes, contribuindo para uma educação significativa e crítica.

Em síntese, a relevância deste estudo reside na possibilidade de contribuir para o campo da História da Educação no Piauí, ampliando o conhecimento sobre processos educativos em contextos locais e subsidiando práticas pedagógicas que valorizem a cultura regional, em consonância com as diretrizes da educação contemporânea, como aquelas previstas na Base Nacional Comum Curricular (2018).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A presente investigação fundamenta-se em um conjunto de referenciais teóricos que permitem compreender a organização sociocultural de São Luís do Piauí a partir da articulação entre História Local, práticas culturais e processos educativos. Tal abordagem possibilita analisar a educação como um fenômeno histórico e social que ultrapassa os limites da instituição escolar, manifestando-se em múltiplos espaços da vida cotidiana.

Inicialmente, destaca-se a perspectiva da História Local em consonância com a definição proposta por Gonçalves Neto e Magalhães (2009), que reconhece o município como espaço legítimo de produção de conhecimento histórico. Segundo os autores, a história local possibilita a compreensão das especificidades das experiências históricas vividas em contextos determinados, conferindo sentido às práticas sociais e educativas que ali se desenvolveram. Nessa direção, o estudo da realidade municipal permite compreender como processos históricos mais amplos se concretizam em dinâmicas locais, evidenciando a relação entre o particular e o geral.

Ao investigar São Luís do Piauí em sua formação como fazenda de gado e povoação, torna-se necessário considerar o papel da pecuária na ocupação dos sertões nordestinos. Conforme assinala Capistrano de Abreu (2000), a criação de gado foi o grande fator de expansão para o interior, estruturando formas de vida adaptadas às condições do sertão. Tal processo contribuiu para a constituição de uma sociabilidade marcada pelo trabalho rural, pela dispersão populacional e pela formação de redes comunitárias específicas, elementos fundamentais para a compreensão da organização sociocultural do Piauí.

Para a análise dessas dinâmicas, a pesquisa adota como categoria central o conceito de práticas culturais, conforme elaborado por Chartier (1990). De acordo com o autor, as práticas culturais devem ser compreendidas como formas de apropriação do mundo social, através das quais os indivíduos produzem sentidos, organizam suas experiências e constroem modos de vida. Nessa perspectiva, as práticas culturais dizem respeito aos modos de fazer, aos costumes e às formas de convivência que estruturam o cotidiano dos sujeitos.

Ainda segundo Chartier (1990), não existem práticas sem significações que as sustentem, assim como não existem significações desligadas das práticas que as produzem. Essa afirmação evidencia a indissociabilidade entre ação e sentido, permitindo compreender as práticas culturais como espaços de produção simbólica e social. Dessa forma, ao analisar práticas como o trabalho na pecuária, a religiosidade e a vida comunitária, torna-se possível identificar os processos de construção de identidades e de organização social no município.

A articulação entre práticas culturais e educação também se insere no campo da História da Educação, ao considerar que tais práticas envolvem processos de transmissão de saberes e valores. Nessa direção, a educação é compreendida em sentido ampliado, não restrita à escola, mas presente em diferentes instâncias da vida social. Como destaca Saviani (2008) a educação é um fenômeno próprio dos seres humanos e se realiza como um processo de transmissão e assimilação dos conhecimentos historicamente produzidos. Essa concepção permite reconhecer que práticas cotidianas, como o trabalho e a convivência social, também desempenham funções educativas.

No contexto do sertão piauiense, tais processos educativos manifestam-se de forma particular, articulados às práticas culturais locais. A vida cotidiana, marcada pelo trabalho na pecuária, pela religiosidade popular e pelas relações comunitárias, constitui um espaço privilegiado de aprendizagem. Nessas práticas, os indivíduos aprendem normas, valores e saberes que orientam sua inserção na vida social.

Por fim, o referencial teórico adotado possibilita compreender a organização sociocultural de São Luís do Piauí como resultado de processos históricos complexos, nos quais práticas culturais e formas educativas se entrelaçam na constituição de modos de vida específicos. Ao privilegiar essa abordagem, a pesquisa contribui para ampliar o entendimento da educação em contextos locais, valorizando saberes historicamente produzidos e frequentemente marginalizados pelos discursos educacionais hegemônicos.

3. METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada, com abordagem histórico-documental, articulada a procedimentos de análise qualitativa interpretativa realizada a partir do diálogo teórico e metodológico entre a História da Educação e a História Local, à luz de algumas categorias respectivas a cada área tais como práticas culturais Chartier (1990) na perspectiva da História Local, conforme discutida por Gonçalves Neto e Magalhães (2009), que reconhecem o município como espaço legítimo de produção de conhecimento histórico e educativo, associada a noção de lugar pensada pelo geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan (1983) como uma construção política e simbólica, antes de ser físico-geográfica, porque tem história e significados que lhe são atribuídos pelas relações ali empreendidas que nomeiam, inventariam e produzem sentido, visibilidade e reconhecimento do espaço físico, que estabelece, os modos de ver e estar no mundo.

A partir dessas categorias de análise foi possível conduzir as investigações na perspectiva de considerar o município de São Luís do Piauí não somente como um recorte administrativo fixo de freguesia ou municipalidade, mas a partir de uma perspectiva mais ampla, misturando pedaços de unidades paroquiais distintas e vazando limites de municípios circunvizinhos.

Para tal feito, foi utilizada a revisão de literatura das obras dos autores a exemplo de Araújo, Oliveira e Vieira (2025) e Franco (1977), entre outros. A pesquisa documental, realizada através do Projeto Resgate, no qual foram consultadas as fontes do Arquivo Histórico Ultramarino relacionadas à política colonial portuguesa de expansão territorial, instalação dos currais, criação de aldeamentos missionários e escolas nas povoações civis. Com intenção de compreender os desmembramentos territoriais que resultaram nas fundações de freguesias, povoações, vilas e cidades, compilamos fontes no Arquivo Público do Estado do Piauí e no Instituto de Regularização Fundiária e Patrimônio Imobiliário do Piauí (INTERPI).

A utilização de fontes documentais diversas insere a pesquisa no campo da história cultural, que valoriza a multiplicidade de registros como forma de acesso às práticas e representações sociais. Conforme afirma Chartier 1990), a análise das fontes documentais deve considerar que os documentos não são reflexos transparentes da realidade, mas construções que expressam as relações de poder e as formas de organização social de uma época. Essa perspectiva orienta a análise crítica das fontes, permitindo compreender os documentos como produções históricas situadas.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Embora as primeiras referências sobre a formação do município de São Luís do Piauí adotem como marco inicial a chegada de Cristóvão José de Carvalho e de sua esposa, Paulina da Rocha Carvalho, à região, em 1818, para a fundação da Fazenda das Guaribas, estudos realizados por Vieira (2025) demonstram que suas origens históricas remontam ao período colonial. A exemplo de outros municípios piauienses, a ocupação desse território esteve relacionada à concessão de grandes extensões de terras a particulares, sob a forma de sesmarias, especialmente em áreas situadas às margens do rio Guaribas.

Vieira (2025) ressalta, entretanto, que o sistema de sesmarias coexistia com outras formas de apropriação e ocupação da terra. Muitos colonizadores estabeleciam-se em áreas consideradas devolutas antes mesmo de qualquer regularização oficial, legitimando sua presença pela ocupação de fato. Em outros casos, a posse fundamentava-se em títulos pouco precisos, derivados de antigas sesmarias mal demarcadas que, ao longo do tempo, foram subdivididas, dando origem a sítios e novas propriedades.

Nesse processo, as terras localizadas às margens dos rios eram particularmente valorizadas por assegurarem melhores condições de acesso à água, recurso fundamental para a criação de gado. Desse modo, é plausível considerar que famílias sertanejas, criadores e vaqueiros já ocupassem e utilizassem áreas da ribeira do Guaribas antes mesmo de sua efetiva regularização jurídica.

Outro aspecto destacado por Vieira (2025) refere-se à imprecisão dos limites das sesmarias coloniais. Muitas cartas de concessão definiam as propriedades por meio de referências naturais pouco precisas, como riachos, serras e ribeiras, circunstância que dificulta a delimitação atual das áreas originalmente concedidas e, consequentemente, a reconstituição exata do processo de formação das propriedades.

Essa interpretação encontra respaldo na análise do documento intitulado Relação dos possuidores de terras situadas na Fazenda das Guaribas – Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios da Povoação dos Picos (1855–1856). A fonte permite compreender que a constituição da Fazenda das Guaribas não ocorreu de forma isolada, mas esteve articulada ao movimento de interiorização de famílias criadoras de gado oriundas de núcleos mais antigos da Capitania de São José do Piauí. Nesse contexto, a ocupação territorial realizava-se por meio de deslocamentos familiares, relações matrimoniais e abertura de novas propriedades em áreas ainda pouco povoadas.

A documentação evidencia, ainda, que nem todos os indivíduos declarados como possuidores de terras na Fazenda das Guaribas estabeleceram seus núcleos familiares naquela parte da ribeira. Alguns residiam em propriedades vizinhas e mais antigas, como as fazendas Bocaina, Sussuapara e Rodeador, entre outras localidades. Esse dado demonstra que a formação territorial das Guaribas estava inserida em uma rede mais ampla de propriedades, famílias e relações sociais constituídas na região.

A fonte registra também a posse de terras pertencentes a órfãos, provavelmente administradas sob a tutela de parentes, além de referências explícitas a propriedades adquiridas por “herança”. Tais registros constituem indícios de que, em meados do século XIX, já se encontrava em curso um processo de transmissão intergeracional da propriedade. Assim, a Fazenda das Guaribas apresentava núcleos familiares relativamente estabilizados e um processo de fragmentação patrimonial decorrente das sucessões hereditárias.

Dessa perspectiva, a formação do território que posteriormente constituiria o município de São Luís do Piauí deve ser compreendida como um processo histórico anterior ao marco tradicionalmente estabelecido em 1818. Sua configuração resultou da expansão da pecuária, da ocupação das ribeiras, da mobilidade de famílias sertanejas e das sucessivas formas de posse, transmissão e fragmentação da terra, elementos que contribuíram para a constituição social e territorial da Fazenda das Guaribas.

4.1. As Práticas Culturais Predominantes no Período Estudado

Outro documento que permite identificar aspectos da organização sociocultural do território em estudo é o Registro de Terras Estadual do Piauí (1898), produzido no contexto de reorganização e maior controle estatal sobre a propriedade da terra no final do século XIX. Os registros referentes às propriedades situadas na Data-Sesmaria Guaribas/Picos fornecem indícios importantes acerca dos modos de viver, trabalhar e ocupar o território naquele período.

Para interpretar essas informações, adota-se a noção de práticas culturais proposta por Chartier (1990), compreendendo que a cultura se manifesta nas formas pelas quais os sujeitos se apropriam do mundo social e produzem maneiras de agir, viver e atribuir sentidos à realidade. Nessa perspectiva, as informações registradas nas fontes sobre roças, cultivos, vazantes, currais, cercados e criação de animais não são tomadas apenas como indicadores das atividades econômicas, mas também como vestígios de práticas historicamente construídas no cotidiano das famílias sertanejas.

4.2. Agricultura, Alimentação e Apropriação do Espaço

As benfeitorias registradas revelam uma economia rural baseada principalmente no cultivo de milho, feijão, mandioca e cana-de-açúcar, associado à criação de animais. Expressões recorrentes na documentação, como “cultiva cereais”, “roça”, “vazante” e “barreiro”, permitem identificar formas específicas de apropriação e utilização do território. As roças destinavam-se, em grande medida, à produção de gêneros necessários à subsistência familiar, enquanto as vazantes possibilitavam o aproveitamento das áreas úmidas próximas ao rio Guaribas.

Na perspectiva de Chartier (1990), essas atividades podem ser compreendidas como práticas culturais, pois expressam saberes e modos de fazer construídos historicamente na relação entre os sujeitos e as condições materiais do lugar. O conhecimento dos períodos de plantio, das áreas mais adequadas ao cultivo e das possibilidades oferecidas pelas vazantes constituía parte de um repertório de experiências necessárias à sobrevivência no sertão.

4.3. Posse da Terra e Formas de Ocupação

A documentação registra também número significativo de propriedades classificadas como “incultas”, isto é, sem cultivo ou benfeitorias produtivas declaradas naquele momento. Esse dado demonstra que a relação com a terra não se restringia necessariamente à exploração agrícola permanente. A manutenção da propriedade, mesmo sem cultivo registrado, permite considerar outras formas de apropriação do território e de constituição do patrimônio familiar.

Desse modo, a posse da terra também pode ser analisada como componente das práticas sociais e culturais daquele universo rural, relacionada às formas de organização familiar, transmissão patrimonial e ocupação do espaço. Como propõe Chartier (1990), as práticas são produzidas no interior de condições históricas específicas e expressam maneiras pelas quais os diferentes grupos constroem e organizam o mundo social.

4.4. Pecuária e Cultura Pastoril

A pecuária aparece como outra atividade estruturante daquele modo de vida na Fazenda das Guaribas. A recorrência de termos como “curral”, “cercado” e terras “próprias para criar” evidencia a permanência da tradição pastoril que marcou historicamente a ocupação do sertão piauiense. A criação do gado pressupunha um conjunto de atividades cotidianas relacionadas ao manejo dos rebanhos, como reunir animais dispersos, separar bezerros, conduzir, marcar e capturar reses.

Essas atividades permitem compreender o ofício do vaqueiro como parte das práticas culturais constituídas naquele território. Mais do que uma atividade estritamente econômica, a lida com o gado mobilizava conhecimentos sobre os animais, a vegetação, os caminhos, as fontes de água e as características do ambiente sertanejo. Eram saberes produzidos pela experiência e necessários à continuidade da atividade pastoril. Nesse sentido, a perspectiva de Chartier (1990) possibilita interpretar o trabalho do vaqueiro como uma prática historicamente situada, vinculada às condições materiais de existência e às formas de organização social das populações sertanejas.

Os dados analisados permitem, portanto, identificar um conjunto de práticas relacionadas à agricultura, à pecuária, à ocupação da terra e à organização familiar que contribuíram para configurar os modos de viver naquele território. Tais práticas não permaneceram necessariamente inalteradas ao longo do tempo; foram transmitidas, transformadas e ressignificadas pelas sucessivas gerações, acompanhando as mudanças econômicas, sociais e territoriais.

Nesse processo, a antiga Fazenda das Guaribas foi progressivamente fragmentada em propriedades familiares e transformada em espaço de ocupação mais permanente. A agricultura, a criação de animais, as relações familiares e as formas de apropriação da terra contribuíram para a constituição de um núcleo populacional que posteriormente deu origem ao povoado São Luís das Guaribas, então pertencente ao município de Picos. Esse processo culminou, em 14 de dezembro de 1995, com a emancipação política de São Luís do Piauí, por meio da Lei Estadual nº 4.810/1995.

4.5. Das Práticas Educativas à Escolarização

Desde as primeiras décadas do século XX, a antiga Fazenda Guaribas passou por transformações em sua organização sociocultural, com a formação de núcleos populacionais mais permanentes, entre os quais se encontrava São Luís das Guaribas, posteriormente constituído como povoado pertencente ao município de Picos (PI). Em 1987, com o movimento de criação do município de São João da Canabrava, mediante desmembramento territorial de Picos, a área inicialmente prevista para compor o novo município abrangia as datas Guaribas, Santos, Úrsula e partes das datas Buriti das Éguas e Colônia, incluindo, portanto, o povoado de São Luís das Guaribas.

As narrativas acerca da formação do povoado de São Luís das Guaribas, compiladas e organizadas por Sousa (2018), indicam que, no início do século XX, em 1909, foi edificado o primeiro templo religioso da localidade. Oito anos depois, em 1917, teria sido oficialmente criada a comunidade, que posteriormente ascendeu à categoria de povoado. Em 1920, ocorreu a implantação da primeira feira livre, importante espaço de circulação de pessoas, mercadorias e sociabilidades, que contribuiu para a dinamização econômica local e para a posterior criação do mercado público. Nas décadas de 1950 e 1960, São Luís das Guaribas já possuía estabelecimentos comerciais diversos e apresentava significativa produção artesanal, destacando-se a confecção de crochês, balaios, chapéus, surrões e esteiras de palha de carnaúba.

No campo educacional, entretanto, ainda são escassos os estudos dedicados especificamente à história da educação em São Luís do Piauí. Essa ausência instigou a busca por indícios em pesquisas referentes a localidades historicamente próximas e integrantes do mesmo espaço territorial da antiga Fazenda Guaribas. Nesse sentido, o estudo de Araújo, Oliveira e Vieira (2025), acerca da organização socioeducacional de São João da Canabrava, oferece elementos importantes para compreender algumas das formas de educação existentes nesse contexto antes da consolidação de uma rede pública de escolas.

Segundo os autores, nas localidades de Brejo e Barras, pertencentes à Data Canabrava, as práticas educativas assumiam, inicialmente, duas dimensões articuladas: uma educação familiar e cotidiana, voltada à transmissão de valores, comportamentos e saberes necessários à vida social e ao trabalho; e uma educação de caráter escolar, realizada no espaço domiciliar por mestres-escolas contratados pelas famílias.

A primeira ocorria nas relações familiares e comunitárias e estava diretamente relacionada aos modos de viver e trabalhar no meio rural. Araújo, Oliveira e Vieira (2025), recorrendo a Bezerra Neto et al. (2021), mostram que, entre as décadas de 1930 e 1960, a educação dos filhos em Brejo e Barras seguia padrões comuns às comunidades rurais situadas as margens do rio Guaribas, qual seja, uma educação doméstica fundamentados no temor a Deus, respeito aos pais, disciplina, honestidade e valorização do trabalho.

Paralelamente a essas práticas educativas cotidianas, desenvolvia-se uma modalidade de escolarização domiciliar. As famílias contratavam professores particulares, conhecidos como mestres-escolas, para ensinar crianças, jovens e, eventualmente, adultos. Os conteúdos concentravam-se nas aprendizagens elementares da leitura, da escrita e das quatro operações aritméticas. O período de aprendizagem não obedecia necessariamente a um calendário escolar regular: as aulas podiam ocorrer durante três meses consecutivos ou em períodos alternados, prolongando-se, em alguns casos, por vários anos. Considerava-se concluída a aprendizagem quando o aluno se encontrava apto a “ler, fazer cartas e realizar cálculos simples” (Bezerra Neto et al., 2021, p. 32).

Conforme Araújo, Oliveira e Vieira (2025), entre os materiais utilizados encontravam-se tabuadas, cartas de ABC, jornais antigos, lápis e cadernos destinados principalmente aos exercícios caligráficos. As práticas de ensino apoiavam-se na tomada de lições, memorização da tabuada, soletração em coro e leituras realizadas de forma cantada. A disciplina era rigorosa e podia envolver ameaças e castigos físicos, inclusive o uso da palmatória.

Entre os mestres-escolas identificados pelos autores estavam Luís Belizário, da povoação de Bocaina; Antônio Pereira, da localidade Conceição; um mestre idoso proveniente de Guaribas; e Miguel Borges de Moura, conhecido como Miguel Guarani, da povoação do Jenipapo, que conciliava o ofício de mestre-escola com a atividade de violeiro. As aulas geralmente reuniam filhos e filhas das famílias contratantes, além de parentes e moradores de outras localidades próximas.

A presença de um mestre-escola proveniente de Guaribas constitui um indício particularmente significativo para esta investigação. Embora a informação, isoladamente, não permita afirmar como se organizava a educação escolar em São Luís das Guaribas, ela demonstra a circulação desses agentes educativos pelo território e reforça a necessidade de investigar a possível existência de experiências semelhantes no próprio povoado.

Vieira (2011) observa que os mestres-escolas fizeram parte da história da educação piauiense durante um longo período. Sua presença permaneceu especialmente significativa nos lugares onde a escola pública ainda não havia se estabelecido ou apresentava oferta insuficiente. A partir da expansão da escolarização pública e do fortalecimento de formas estatais e hierarquizadas de profissionalização docente, sobretudo ao longo do século XX, esses sujeitos perderam progressivamente espaço e prestígio, tornando-se menos requisitados pelas famílias.

Esse quadro permite compreender a distância existente entre a institucionalização legal do ensino e sua efetiva presença nas comunidades rurais piauienses. Embora a Reforma do Ensino de 1910, instituída pela Lei nº 565/1910, tenha procurado estruturar a instrução pública no Piauí e ampliar a rede de escolas primárias, sua expansão ocorreu de forma desigual, privilegiando os centros mais populosos e deixando muitas localidades rurais dependentes de iniciativas familiares, comunitárias e particulares.

No território da antiga Fazenda Guaribas, um marco importante desse processo de institucionalização da educação escolar ocorreu somente em 1955, quando a Câmara Municipal de Picos aprovou o Projeto de Lei nº 20, de 2 de agosto daquele ano, criando uma escola pública no lugar Canabrava da Fazenda das Guaribas:

Art. 1º – Fica criada uma escola no lugar “Canabrava”, da Fazenda “Guaribas”, deste município, com a denominação de “Escola Municipal Padre Marcos de Carvalho”.

Art. 2º – Perceberá o professor da referida Escola os vencimentos de Cr$ 250,00 (duzentos e cinquenta cruzeiros), ficando aberto no orçamento vigente o crédito especial de Cr$ 1.000,00 (hum mil cruzeiros), para ocorrer às despesas com a execução da presente lei.

Art. 3º – Revogadas as disposições em contrário, esta lei entrará em vigor na data de sua publicação.

José Leôncio de Barros

Vereador, (Picos, 1955).

A criação dessa escola evidencia a progressiva presença do poder público na oferta de educação escolar no interior da Fazenda Guaribas. Ao mesmo tempo, sua data relativamente tardia ajuda a compreender por que as formas domiciliares de ensino e a atuação dos mestres-escolas permaneceram importantes durante tantas décadas.

Outro movimento de expansão das oportunidades educacionais ocorreu por meio da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). No Piauí, a Campanha iniciou suas atividades em 1952 e posteriormente alcançou dezenas de municípios, buscando ampliar as possibilidades de continuidade dos estudos, especialmente em localidades onde a oferta pública de níveis posteriores ao ensino primário era limitada. Sua atuação tornou-se particularmente importante para crianças e jovens de famílias que não dispunham de recursos para se deslocar aos centros urbanos mais desenvolvidos a fim de prosseguir a escolarização.

Foi nesse processo que, no povoado de São Luís das Guaribas, que em 1981, a Unidade Escolar Cenecista Raimundo Barros e Silva foi instalada. Sua existência representa, até o momento, um dos marcos identificados na trajetória da escolarização institucionalizada da localidade. Entretanto, sua curta duração — com encerramento das atividades em 1983 — abre um conjunto de questões ainda não respondidas pelas fontes consultadas.

Qual era sua matriz curricular? Quem foram seus professores e alunos? Em que espaço funcionava? Como se organizava o cotidiano escolar? Quais famílias participaram de sua implantação? Que significado a escola assumiu para os moradores do povoado? E, sobretudo, quais circunstâncias determinaram o encerramento de suas atividades apenas dois anos depois de sua instalação?

Essas lacunas documentais, longe de constituírem apenas limitações da investigação, apontam para um campo de pesquisa ainda pouco explorado. A trajetória que se inicia nas práticas educativas familiares, passa pela atuação dos mestres-escolas e pela escolarização domiciliar, alcança a institucionalização da escola pública e chega à experiência cenecista de São Luís das Guaribas revela que a história da educação nesse território não começou com a emancipação política do município. Ela foi construída muito antes, nas casas, nas relações familiares e comunitárias, na circulação de mestres pelo sertão e, posteriormente, nas iniciativas públicas e comunitárias de criação de escolas. Reconstruir essa trajetória constitui, portanto, uma possibilidade fecunda para a produção de uma História da Educação no município de São Luís do Piauí.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados desta investigação permitem concluir que a formação histórica de São Luís do Piauí não pode ser compreendida exclusivamente a partir do marco tradicional de 1818, associado à constituição da Fazenda Guaribas. As fontes analisadas indicam que esse território estava inserido em processos de ocupação mais antigos, relacionados à expansão da pecuária pelo sertão piauiense, à concessão e ocupação de terras, à mobilidade de famílias e às sucessivas formas de transmissão e fragmentação das propriedades.

Nesse processo, a constituição territorial esteve estreitamente relacionada à formação de determinados modos de viver. A agricultura de subsistência, o aproveitamento das vazantes, a criação de animais, o trabalho pastoril, as relações familiares e as formas de apropriação e transmissão da terra não representavam somente atividades econômicas, mas práticas sociais e culturais por meio das quais os sujeitos organizavam sua existência e estabeleciam relações com o território. À luz da concepção de práticas culturais de Chartier (1990), compreende-se que essas experiências produziram saberes, formas de fazer e maneiras de interpretar e organizar o mundo social, transmitidas e ressignificadas entre diferentes gerações.

A investigação evidencia, ainda, que a educação fez parte desse processo antes mesmo da presença institucional da escola. Nos espaços familiares e comunitários, crianças e jovens aprendiam valores, comportamentos e saberes relacionados ao trabalho, à religiosidade, à disciplina e às responsabilidades atribuídas aos diferentes membros da família. Tratava-se de práticas educativas inscritas no cotidiano e diretamente relacionadas às condições materiais e culturais da sociedade rural.

Paralelamente, desenvolveram-se formas de escolarização que também antecederam a expansão da escola pública. A atuação dos mestres-escolas no território próximo constitui um importante vestígio dessa experiência. Contratados pelas famílias, esses sujeitos ensinavam principalmente a ler, escrever e contar, utilizando materiais simples e métodos baseados na memorização, repetição, soletração e tomada de lições. A referência à presença de um mestre-escola proveniente de Guaribas demonstra a circulação desses agentes educativos e constitui uma pista importante para futuras investigações sobre as primeiras experiências de escolarização em São Luís das Guaribas.

Desse modo, os resultados permitem distinguir, sem separar rigidamente, práticas educativas e escolarização. As primeiras estavam disseminadas nas relações familiares, no trabalho e na vida comunitária; a segunda foi progressivamente adquirindo formas específicas, inicialmente por meio do ensino domiciliar ministrado por mestres-escolas e, posteriormente, mediante a intervenção do poder público e de iniciativas comunitárias na criação de instituições escolares.

A criação da Escola Municipal Padre Marcos de Carvalho, em Canabrava, em 1955, evidencia que a presença institucional do poder público na oferta escolar chegou tardiamente a determinadas áreas rurais da antiga Fazenda Guaribas. Décadas depois, a instalação da Unidade Escolar Cenecista Raimundo Barros e Silva, no povoado de São Luís das Guaribas, no ano de 1981, representa outro momento desse movimento de ampliação das oportunidades de escolarização. Sua curta existência, encerrada em 1983, demonstra, contudo, que a expansão escolar não ocorreu de maneira contínua ou linear.

Pode-se concluir, portanto, que a história da educação em São Luís do Piauí não começa com a criação do município, tampouco com a instalação de uma instituição escolar específica. Suas raízes encontram-se nas práticas educativas construídas no interior das famílias e comunidades, nos saberes produzidos pelo trabalho e pela convivência, nas experiências de escolarização domiciliar e, posteriormente, na progressiva institucionalização do ensino. Trata-se, assim, de uma passagem histórica das práticas educativas à escolarização, sem que a expansão da escola tenha eliminado as formas educativas existentes na família e na comunidade.

Por fim, a pesquisa também revelou importantes silêncios documentais. Ainda permanecem pouco conhecidos os primeiros mestres que ensinaram em São Luís das Guaribas, os espaços utilizados para as aulas, as primeiras escolas públicas do povoado, seus professores e alunos, bem como a organização e o encerramento da experiência cenecista. Tais lacunas não diminuem os resultados alcançados; ao contrário, demonstram que a História da Educação de São Luís do Piauí constitui um campo ainda aberto à investigação, especialmente por meio do cruzamento de fontes documentais, legislação municipal, arquivos escolares, fotografias, objetos escolares e narrativas orais de antigos professores, estudantes e moradores.

Em síntese, conhecer a história de São Luís do Piauí significa compreender conjuntamente a formação do território, as práticas culturais de seus habitantes e as maneiras pelas quais sucessivas gerações ensinaram, aprenderam e instituíram espaços de escolarização. Nessa perspectiva, território, cultura e educação constituem dimensões indissociáveis do processo histórico de formação da sociedade são-luisense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Graduanda em Pedagogia, Universidade Federal do Piauí, Picos, Piauí Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Graduando em Pedagogia, Universidade Federal do Piauí, Picos, Piauí, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutora em Educação, Universidade Federal do Piauí, Picos, Piauí, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail