REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776730768
RESUMO
O presente artigo analisa o Sermão do 4º Domingo da Ascensão, de Padre Antônio Vieira (1608–1697), sob perspectiva filosófica e antropológica, buscando estabelecer pontes entre o pensamento barroco seiscentista e os dilemas existenciais do homem contemporâneo. O objetivo central consiste em demonstrar que a reflexão vieiriana sobre o paradoxo entre a dignidade humana conferida pelo sacrifício de Cristo e a autodesvalorização provocada pelo pecado ressoa profundamente nas questões da alienação, do vazio existencial e das vicissitudes políticas que marcam a modernidade tardia. A metodologia adotada é de natureza qualitativa, com abordagem hermenêutica e bibliográfica, articulando o texto do sermão com pensadores como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Søren Kierkegaard, Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Fritz Pappenheim, entre outros. Os resultados apontam que o sermão vieiriano constitui uma antecipação notável de questões que a filosofia e a antropologia modernas viriam a sistematizar: a tensão entre autenticidade e inautenticidade, a alienação como condição estrutural da sociedade capitalista, e a instrumentalização do ser humano pelo poder político. Conclui-se que a obra de Vieira permanece como um espelho crítico da condição humana, capaz de interpelar o homem de qualquer época sobre o preço pelo qual escolhe vender-se.
Palavras-chave: Condição humana; Alienação; Autenticidade; Redenção.
ABSTRACT
This article analyzes the Sermon of the 4th Sunday of the Ascension by Father Antônio Vieira (1608–1697) from a philosophical and anthropological perspective, seeking to establish bridges between seventeenth-century Baroque thought and the existential dilemmas of contemporary man. The central objective consists of demonstrating that Vieira's reflection on the paradox between human dignity conferred by Christ's sacrifice and the self-devaluation provoked by sin resonates profoundly in questions of alienation, existential emptiness, and the vicissitudes of politics that mark late modernity. The methodology adopted is qualitative in nature, with a hermeneutic and bibliographic approach, articulating the sermon's text with thinkers such as Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Søren Kierkegaard, Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Fritz Pappenheim, among others. The results indicate that Vieira's sermon constitutes a remarkable anticipation of questions that modern philosophy and anthropology would come to systematize: the tension between authenticity and inauthenticity, alienation as a structural condition of capitalist society, and the instrumentalization of the human being by political power. It is concluded that Vieira's work remains as a critical mirror of the human condition, capable of challenging man of any era about the price for which he chooses to sell himself.
Keywords: Human condition; Alienation; Authenticity; Redemption.
INTRODUÇÃO
A história do pensamento ocidental é, em grande medida, uma longa meditação sobre o valor do ser humano. Desde os pré-socráticos até os filósofos da pós-modernidade, a questão central que atravessa as mais diversas correntes de pensamento pode ser resumida numa única indagação: o que é o homem e qual o seu valor?
Nenhuma outra tradição intelectual respondeu a essa pergunta com mais eloquência e profundidade do que a tradição teológico-filosófica, e poucos pensadores encarnaram essa tradição com tanta intensidade quanto o jesuíta Padre Antônio Vieira (1608–1697), considerado por muitos o maior orador sacro da língua portuguesa e um dos mais importantes intelectuais do século XVII.
O Sermão do 4º Domingo da Ascensão, objeto central desta análise, constitui uma das mais densas e perturbadoras meditações sobre a condição humana já pronunciadas em língua portuguesa. Em poucas linhas, Vieira condensa um paradoxo que a filosofia moderna demoraria séculos para articular com a mesma precisão: o homem é, ao mesmo tempo, o ser de maior valor no universo — pois Deus o comprou com todo o seu sangue — e o ser mais propenso à auto-desvalorização, pois se vende pelos "nadas do mundo".
O objetivo deste artigo é triplo. Em primeiro lugar, busca-se analisar o sermão em seu contexto histórico e retórico, compreendendo como a oratória barroca de Vieira funcionava como instrumento de persuasão e transformação social.
Em segundo lugar, pretende-se estabelecer um diálogo entre o pensamento vieiriano e as principais correntes filosóficas e antropológicas que, nos séculos XIX, XX e XXI, se debruçaram sobre questões análogas: a alienação, o vazio existencial, a autenticidade e a identidade.
Em terceiro lugar, o artigo busca refletir sobre as vicissitudes políticas contemporâneas, analisando como o poder político moderno reproduz, em escala ampliada, o mecanismo de auto-desvalorização que Vieira identificou no pecado: a venda do ser humano pelos "nadas" do poder, do consumo e da ideologia.
A relevância deste estudo reside na constatação de que, passados mais de três séculos desde a pregação de Vieira, as questões que ele levantou continuam a ser as mais urgentes da condição humana.
Em um mundo marcado pela fragmentação da identidade, pela alienação política, pelo consumismo compulsivo e pela crise de sentido, o sermão de padre Antônio Vieira se posiciona como um diagnóstico preciso e um convite à reflexão, visto que, compreendendo Vieira possibilita, nesse sentido, compreender algo essencial sobre nós mesmos.
O PÚLPITO BARROCO COMO ESPAÇO DE PERSUASÃO: PADRE ANTÔNIO VIEIRA E SUA ÉPOCA
O Sermão do Quarto Domingo da Ascensão não é plenamente compreendido sem o contexto histórico e cultural em que foi produzido, pois o século XVII foi uma época de inúmeras mudanças radicais em Portugal: a Restauração da independência portuguesa em 1640 após sessenta anos sob o controle dos espanhóis; as guerras de reconquista contra os Países Baixos no Brasil; o conflito interno entre os nobres, o clero e a Coroa; e o surgimento do Barroco como o estilo cultural mais dominante no país.
A pregação sagrada desempenhou um instrumento político, pedagógico e social muito real — muito além do religioso, nesta situação turbulenta (FAGUNDES, 2018). Padre Antônio Vieira, nascido em Lisboa em 1608, imigrou para o Brasil ainda criança e ingressou na Companhia de Jesus.
A educação jesuíta moldou seu pensamento e oratória, sendo estabelecida por Inácio de Loyola em 1540, através da Companhia de Jesus que empregava uma linguagem magistral de retórica baseada na lógica, pathos e persuasão como fundamento de sua missão educacional.
Vieira é também, indiscutivelmente, o maior expoente dessa forma retórica no mundo português (NASCIMENTO, 2007), figurando por ser possuidor de um estilo único na oratória portuguesa devido a uma série de características diferentes.
Primeiro, temos aqui o uso brilhante de figuras de linguagem: metáforas, antíteses, paradoxos, hipérboles, alegorias são usadas com precisão cirúrgica para criar significados de efeitos que não são meramente literais.
Em segundo lugar, Vieira demonstra uma habilidade notável para expressar argumentos teológicos difíceis de forma eficaz em termos leigos que fazem sentido e tocam o coração.
Terceiro, seus sermões demonstram uma consciência aguda de seu público: Vieira estava ciente de exatamente quem ele estava dirigindo e era responsivo à situação e linguagem particulares de cada sermão (SILVA, 2017).
O Sermão do 4º Domingo da Ascensão é um excelente exemplo de como ele se encaixa bem nessa tradição retórica. A Ascensão de Cristo — o mistério teológico que celebra a ascensão de Jesus ao Céu após a Ressurreição — fornece a Vieira o pretexto para uma meditação sobre a condição humana que transcende até mesmo a ocasião litúrgica.
A imagem de Cristo subindo ao Céu serve como ponto de partida para considerar o que o homem faz com a liberdade que lhe é concedida no sacrifício redentor.
A natureza retórica do sermão não é meramente ornamental, mas sim o veículo através do qual Vieira guia o ouvinte pela experiência do autoconhecimento e da conversão (FERNANDES, 2022).
Vale também mencionar que a pregação barroca não era apenas um evento religioso, mas também um espetáculo público, um entretenimento e uma construção cultural, havendo muitas expectativas e respostas entusiásticas aos sermões de Vieira.
Nesse sentido, o púlpito funcionava como uma espécie de espaço público avant la lettre, onde as questões mais urgentes da vida individual e coletiva eram debatidas e elaboradas simbolicamente.
A função da retórica política de Vieira na Restauração portuguesa, como demonstra Hansen (1989), era precisamente a de articular uma visão de mundo que justificasse e orientasse as escolhas políticas e morais de seu tempo.
O estudo sobre figuras retóricas nos sermões de Vieira reflete uma estrutura argumentativa intrincada que incorpora o apelo ao logos (razão), pathos (emoção) e ethos (a autoridade moral do pregador).
Essa tríade retórica se manifesta particularmente de forma contundente no Sermão do 4º Domingo da Ascensão: a razão é convocada para compreender o paradoxo da redenção; a emoção é mobilizada pela imagem do Cristo crucificado e pela imagem dos próprios pecados; e a autoridade de Vieira como pregador confere credibilidade e peso moral à reflexão (PÉCORA, 1994).
Em suma, o púlpito, nesse sentido, como a nomenclatura de uma dissertação "major" sobre este assunto indica, era de fato uma verdadeira cátedra, um espaço de ensino e aprendizagem, que antecipava em muitos aspectos o que a filosofia e as humanidades viriam a desempenhar nos séculos vindouros (NASCIMENTO, 2007).
O PARADOXO DA CONDIÇÃO HUMANA: DIGNIDADE E INSIGNIFICÂNCIA NO PENSAMENTO VIEIRIANO
O núcleo filosófico do Sermão do 4º Domingo da Ascensão, resumido em uma frase, é sintetizado em uma expressão que alcança toda a sua força contraditória, quando no sermão é mencionado: “Para mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais do que esta imagem de Cristo crucificado."
Com esta declaração aparentemente contraditória, Vieira lança uma meditação que se equilibra entre os dois polos da experiência humana: grandeza e miséria, dignidade e degradação, valor infinito e valor zero.
A primeira imagem que Vieira evoca é a do Cristo crucificado e diante dessa imagem, o pregador confessa ser "levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou."
A lógica subjacente a essa afirmação é de uma profundidade filosófica notável: se Deus, o ser supremo, pagou com "todo o seu sangue" para adquirir o ser humano, então o ser humano deve ter um valor extraordinário e o preço pago pelo comprador revela o valor do objeto comprado.
Nessa perspectiva, o sacrifício de Cristo não é apenas um ato de amor: é também uma declaração ontológica sobre o valor do ser humano.
Essa intuição vieiriana encontra ressonância em diversas tradições filosóficas e teológicas, pois na teologia cristã, a doutrina da redenção afirma que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Imago Dei – Imagem de Deus) e que, mesmo após a queda, essa dignidade fundamental não foi completamente destruída.
O sacrifício de Cristo representa, nessa perspectiva, a restauração da dignidade humana — um ato pelo qual Deus reafirma o valor infinito de cada ser humano (TILLICH, 1951). A redenção, nesse sentido, não é apenas um evento histórico ou teológico: é uma declaração filosófica sobre a natureza e o valor do ser humano.
Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês do século XIX considerado o pai do existencialismo, desenvolveu uma reflexão sobre a condição humana que dialoga profundamente com essa perspectiva vieiriana.
Para Kierkegaard, o ser humano é uma síntese de finitude e infinitude, de temporalidade e eternidade, de necessidade e liberdade, além de perceber que o desespero — que Kierkegaard analisa em sua obra "O Desespero Humano" (1849) — surge precisamente quando o ser humano não consegue manter essa síntese em equilíbrio, quando se perde na finitude ou na infinitude, quando nega sua liberdade ou sua responsabilidade (KIERKEGAARD, 1849/2010).
A redenção, para Kierkegaard, não é uma solução mágica para o desespero: é um convite à autenticidade, ao reconhecimento pleno da própria condição e à abertura para a relação com o Absoluto.
A conexão entre a perspectiva de Vieira e a de Kierkegaard é reveladora. Ambos identificam no ser humano uma tensão fundamental entre grandeza e miséria, entre o que ele é e o que poderia ser.
Ambos reconhecem que a consciência dessa tensão é dolorosa, mas necessária e ambos apontam para a relação com o divino como o caminho para a superação do desespero e a recuperação da dignidade.
A diferença está no método: Vieira usa a retórica barroca para mover as emoções e a vontade; Kierkegaard usa a dialética filosófica para iluminar a razão. Mas o diagnóstico e a prescrição são surpreendentemente semelhantes.
A Imagem dos Pecados: A Auto-Desvalorização Humana
A segunda imagem evocada por Vieira é a dos próprios pecados e diante dessa imagem, o pregador confessa apequenamento: "Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi."
O contraste com a primeira imagem é brutal: se diante de Cristo o homem se ensoberbece por seu valor, diante de seus pecados ele se aniquila por sua autodesvalorização.
A lógica é igualmente precisa: se o homem se vende pelos "nadas do mundo", então ele revela que se considera um nada — ou, pior, que prefere ser um nada a ser o que realmente é.
Essa reflexão sobre a autodesvalorização humana ressoa de forma perturbadora com as análises filosóficas e sociológicas sobre a alienação que se desenvolveram nos séculos XIX e XX.
Karl Marx, em seus Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), identificou a alienação como a condição fundamental do trabalhador na sociedade capitalista: o trabalhador se aliena de seu produto, de seu processo de trabalho, de sua espécie e de seus semelhantes.
Porém, como observa Fritz Pappenheim em sua análise da alienação moderna, a questão vai além do econômico: trata-se de uma alienação existencial, de uma separação do ser humano de si mesmo, de sua autenticidade e de suas possibilidades mais profundas (PAPPENHEIM, 1967; BRESSER PEREIRA, 1968).
A conexão entre o "vender-se pelos nadas do mundo" de Vieira e a alienação de Marx e Pappenheim é iluminadora e em ambos os casos, trata-se de uma troca desvantajosa: o ser humano entrega algo de valor infinito — sua liberdade, sua autenticidade, sua dignidade — em troca de algo de valor nulo ou mínimo.
No caso do trabalhador alienado, essa troca é mediada pelo sistema econômico; no caso do pecador vieiriano, ela é mediada pela fraqueza moral e pela sedução dos "nadas". Mas a estrutura é a mesma: uma auto-desvalorização que se manifesta como escolha, mas que é, na verdade, uma forma de servidão.
O Paradoxo Fundamental: Entre o Ser Muito e o Ser Nada
O ponto culminante da reflexão vieiriana é a articulação explícita do paradoxo: "Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito, mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada."
Essa oscilação entre o "ser muito" e o "ser nada" constitui o núcleo existencial do sermão e o ponto de maior convergência com o pensamento filosófico moderno, a exemplo do pensamento de Martin Heidegger, em sua obra fundamental "Ser e Tempo" (1927), onde desenvolveu uma análise da existência humana que ilumina esse paradoxo vieiriano de forma notável.
Para Heidegger, o Dasein — o ser-aí, o ser humano em sua existência concreta — é caracterizado pela possibilidade de ser autêntico ou inautêntico. A autenticidade consiste em assumir plenamente a própria existência, com suas possibilidades e seus limites, sua liberdade e sua finitude.
A inautenticidade, por outro lado, consiste em fugir dessa responsabilidade, em deixar-se absorver pelo "se" impessoal (das Man), em viver como todo mundo vive, sem assumir a singularidade e a responsabilidade da própria existência (HEIDEGGER, 1927/2012; BRAGA, 2017).
A conexão com Vieira é precisa: o homem que se vende pelos "nadas do mundo" é o homem inautêntico de Heidegger — aquele que renuncia à sua singularidade e à sua dignidade para conformar-se com as expectativas do mundo, para ser como todo mundo é, para viver pelos valores que o sistema impõe.
A angústia que Heidegger identifica como o estado de ânimo fundamental da existência autêntica — a angústia diante do nada, diante da morte, diante da liberdade — é análoga ao apequenamento que Vieira descreve diante da imagem dos próprios pecados: em ambos os casos, trata-se de um confronto com o próprio vazio, com a própria nulidade, que pode ser o ponto de partida para a autenticidade ou o pretexto para a fuga (WERLE, 2003).
Jean-Paul Sartre, em "O Ser e o Nada" (1943), aprofundou essa análise com o conceito de má-fé. Para Sartre, a má-fé consiste em negar a própria liberdade, em fingir que não se é livre, que as circunstâncias determinam completamente as escolhas.
O homem de má-fé é aquele que se trata como uma coisa, como um objeto determinado por forças externas, recusando a responsabilidade que acompanha a liberdade.
A má-fé é, portanto, uma forma de autodesvalorização: o homem que nega sua liberdade nega também sua dignidade, reduz-se a um nada de escolha e de responsabilidade (SARTRE, 1943/2015; PICININI, 2018).
A convergência entre a má-fé sartriana e o pecado vieiriano é reveladora. Em ambos os casos, trata-se de uma escolha — paradoxalmente, a escolha de não escolher, a escolha de não ser livre, a escolha de ser um nada e, em ambos os casos, essa escolha tem um preço: a perda da dignidade, a alienação de si mesmo, a venda pelos "nadas".
A diferença fundamental está na perspectiva de saída: para Sartre, a saída é o engajamento, o assumir plenamente a liberdade e a responsabilidade; para Vieira, a saída é a conversão, o reconhecimento do próprio valor diante de Deus e a recusa de vender-se pelos nadas.
Entretanto, aprofundadamente na análise dos dois casos, o ponto de partida é o mesmo: o reconhecimento honesto da própria condição.
O HOMEM MODERNO E A ALIENAÇÃO: DIÁLOGO ENTRE VIEIRA E A CONTEMPORANEIDADE
A reflexão vieiriana sobre a auto-desvalorização humana adquire uma dimensão nova e perturbadora quando confrontada com as análises sociológicas e antropológicas da modernidade.
O que Vieira descrevia como pecado — a venda do ser humano pelos "nadas do mundo" — tornou-se, na modernidade capitalista, uma condição estrutural da existência social.
A alienação, que Marx identificou como o produto necessário do sistema capitalista, e que Pappenheim analisou como o problema central do mundo moderno, é precisamente a condição de quem se vende pelos nadas: de quem troca sua autenticidade, sua liberdade e sua dignidade por mercadorias, por status, por poder.
A Alienação do Homem Moderno: Revisitando Pappenheim e Bresser Pereira
Fritz Pappenheim, em sua obra "A Alienação do Homem Moderno" (1967), oferece uma análise que dialoga diretamente com as intuições de Vieira. Baseando-se na distinção do sociólogo Ferdinand Tönnies entre Gemeinschaft (comunidade) e Gesellschaft (sociedade), Pappenheim argumenta que a modernidade representa uma transição irreversível da primeira para a segunda: da sociedade orgânica, baseada em laços profundos de pertencimento e autenticidade, para a sociedade contratual, baseada em interesses calculados e relações instrumentais.
Nessa transição, o homem perde sua integração profunda com a comunidade e com si mesmo, tornando-se vítima da solidão e da alienação (PAPPENHEIM, 1967; BRESSER PEREIRA, 1968).
A análise de Pappenheim ilumina de forma notável o diagnóstico vieiriano. O homem que se vende pelos "nadas do mundo" é precisamente o homem da Gesellschaft — aquele que substituiu os valores profundos e autênticos da Gemeinschaft pelos valores superficiais e instrumentais da sociedade moderna.
Ele não age mais por "inclinação profunda, por amizade real", mas "em face das vantagens que podem ser auferidas". Ele não trabalha porque o trabalho é "intrinsecamente algo bom", mas porque o trabalho é um meio para ganhar dinheiro.
Em suma, ele se vende pelos nadas porque aprendeu a valorizar apenas o que tem valor de troca, e não o que tem valor de uso — ou, nos termos de Vieira, porque aprendeu a valorizar os "nadas do mundo" mais do que a si mesmo.
A solução que Marx propõe para a alienação — o comunismo — e a que Tönnies propõe — o desenvolvimento de cooperativas — são ambas insuficientes, como observa Pappenheim.
Outros pensadores propõem a volta à religião, o desenvolvimento do pensamento filosófico, a educação, sendo que Vieira, três séculos antes, já havia apontado nessa direção: a saída para a autodesvalorização não é política nem econômica, mas existencial e espiritual, reconhecimento o próprio valor diante de Deus, a recusa de vender-se pelos nadas, a conversão a uma vida autêntica e digna.
O Vazio Existencial Contemporâneo
A crise de sentido que caracteriza a modernidade tardia — o que alguns filósofos chamam de vazio existencial — é, em muitos aspectos, a versão contemporânea do diagnóstico vieiriano.
O homem moderno, privado das grandes narrativas religiosas e metafísicas que davam sentido à existência, encontra-se diante de um vazio que tenta preencher com consumo, entretenimento, poder e ideologia.
Entretanto esses substitutos são precisamente os "nadas do mundo" que Vieira identificava como o preço pelo qual o homem se vende: eles não têm valor intrínseco, não satisfazem as necessidades mais profundas do ser humano, e deixam um vazio ainda maior do que aquele que pretendiam preencher (FEITOZA, 2020).
A análise do abandono dos fundamentos cristãos e da crise de identidade na pós-modernidade revela que a perda das referências transcendentes não levou à libertação que os pensadores iluministas prometiam, mas a uma nova forma de servidão: a servidão ao consumo, ao poder, à ideologia, ao espetáculo.
O homem pós-moderno, privado de Deus, não se tornou mais livre: tornou-se mais alienado, mais fragmentado, mais vulnerável à manipulação e o vazio deixado pela ausência do transcendente foi preenchido pelos "nadas" que o mercado e a política oferecem em substituição (GIDDENS, 2002).
Bittencourt (2009), em sua análise da fragilidade das relações humanas na pós-modernidade, observa que o vazio existencial do ser humano contemporâneo manifesta-se precisamente na incapacidade de estabelecer relações autênticas e duradouras.
O homem pós-moderno é um ser de conexões superficiais e vínculos frágeis, que se relaciona com os outros não por "inclinação profunda" ou "amizade real", mas por interesse, conveniência ou entretenimento.
Essa fragilidade relacional é, ao mesmo tempo, causa e efeito da alienação: o homem alienado não consegue relacionar-se autenticamente, e a incapacidade de relacionar-se autenticamente aprofunda a alienação.
A Identidade Fragmentada: Entre Bourdieu, Foucault e a Condição Humana
A análise da condição humana na modernidade não pode prescindir das contribuições de Pierre Bourdieu e Michel Foucault, dois dos mais importantes pensadores sociais do século XX.
Bourdieu, com seu conceito de poder simbólico, e Foucault, com sua análise do poder disciplinar, oferecem ferramentas conceituais indispensáveis para compreender como o mecanismo de autodesvalorização identificado por Vieira opera na sociedade contemporânea.
Para Bourdieu, o poder simbólico é a forma mais eficaz de dominação precisamente porque é invisível: ele opera através da inculcação de disposições, valores e percepções que fazem com que os dominados percebam e avaliem a realidade social a partir das categorias dos dominantes.
O poder simbólico não precisa de coerção física: ele funciona porque os dominados aceitam, sem saber, as regras do jogo que os coloca em posição de inferioridade.
Nesse sentido, o poder simbólico é a forma moderna de vender-se pelos nadas: o dominado aceita sua condição de inferioridade como natural, como justa, como inevitável — e, ao fazê-lo, colabora ativamente com sua própria dominação (BOURDIEU, 1989; VILLACORTA BAÑOS, 2017).
Foucault, por sua vez, analisou os mecanismos de poder disciplinar que operam nas instituições modernas — a prisão, o hospital, a escola, o exército — para produzir corpos dóceis e sujeitos normalizados, dissertando que o poder disciplinar não apenas reprime: ele produz, forma e molda.
Ele cria sujeitos que se autovigiam, que internalizam as normas e as aplicam a si mesmos, que se tornam seus próprios carcereiros e, nessa perspectiva, a autodesvalorização que Vieira identificava no pecado é, na modernidade, um produto do poder disciplinar: o sujeito moderno aprende a desvalorizar-se, a conformar-se, a aceitar sua condição de objeto — e chama a isso de liberdade (FOUCAULT, 1975/1987; MATEO, 2013).
A convergência entre Bourdieu, Foucault e Vieira é notável, pois os três identificam um mecanismo pelo qual o ser humano colabora ativamente com sua própria dominação e desvalorização.
Todos três reconhecem que esse mecanismo não é apenas externo — não é apenas o sistema que aliena, que domina, que desvaloriza — mas também interno: o ser humano internaliza os valores do sistema e os aplica a si mesmo.
Através dessa análise, todos os três apontam para a necessidade de uma ruptura, de um momento de consciência crítica, de um reconhecimento da própria condição que permita a transformação.
POLÍTICA, PODER E DIGNIDADE: REFLEXÕES SOBRE O HOMEM POLÍTICO NA MODERNIDADE
As vicissitudes políticas que o mundo contemporâneo coloca às pessoas em geral constituem, talvez, a dimensão mais urgente e perturbadora do diagnóstico vieiriano.
O homem político moderno — o cidadão que participa, ou tenta participar, da vida pública — enfrenta uma série de desafios que reproduzem, em escala ampliada e com instrumentos mais sofisticados, o mecanismo de auto-desvalorização que Vieira identificava no pecado: a tentação de vender-se pelos "nadas" do poder, do prestígio, da ideologia e do interesse particular.
O Poder Disciplinar e o Controle Social
Foucault demonstrou, em "Vigiar e Punir" (1975), que o poder moderno opera não apenas através da repressão, mas principalmente através da normalização: da criação de padrões de comportamento, de pensamento e de identidade que os sujeitos internalizam e reproduzem espontaneamente, sendo que essa análise foucaultiana do poder disciplinar adquire uma dimensão nova e perturbadora quando aplicada ao contexto político contemporâneo.
O cidadão moderno não é apenas governado: ele se governa a si mesmo, aplicando às suas próprias escolhas e comportamentos os critérios e os valores que o sistema político e econômico lhe fornece (FOUCAULT, 1975/1987).
Essa análise ilumina de forma perturbadora o mecanismo que Vieira descrevia como pecado, no passo que o homem que se vende pelos "nadas do mundo" não o faz necessariamente por fraqueza moral: ele o faz porque aprendeu, através de um processo de normalização, que esses "nadas" são o que realmente importa.
O sistema político e econômico moderno é extraordinariamente eficaz em fazer com que as pessoas valorizem o que o sistema quer que valorizem — o consumo, o status, o poder, a ideologia — e desvalorizem o que o sistema quer que desvalorizem — a autenticidade, a solidariedade, a transcendência, a dignidade.
Nesse sentido, a venda pelos "nadas" não é uma escolha livre: é o resultado de um processo de condicionamento que começa na infância e se aprofunda ao longo de toda a vida.
A biopolítica — o conceito foucaultiano que descreve o poder moderno como um poder que se exerce sobre a vida biológica das populações — acrescenta uma dimensão ainda mais perturbadora a essa análise.
O poder biopolítico não apenas controla os corpos individuais: ele gerencia as populações, regula a natalidade e a mortalidade, define quem vive e quem morre, quem é incluído e quem é excluído.
Nesse contexto, a dignidade humana — o valor infinito que Vieira reconhecia em cada ser humano como imagem de Deus — torna-se uma variável a ser gerenciada, um recurso a ser explorado, um obstáculo a ser contornado (GUGLIELMI, 2015).
A Manipulação das Preferências e a Alienação Política
A alienação política — a sensação de que o sistema político não representa os interesses e os valores dos cidadãos, de que as escolhas políticas são determinadas por forças que escapam ao controle individual — é uma das manifestações mais visíveis do vazio existencial contemporâneo.
O cidadão alienado é aquele que se sente impotente diante do sistema, que não acredita que sua participação possa fazer diferença, que aceita passivamente as decisões que outros tomam em seu nome.
Essa passividade política é, em muitos aspectos, a versão contemporânea do apequenamento que Vieira descrevia diante da imagem dos próprios pecados: o reconhecimento de que se é nada, de que se vale nada, de que não há nada a fazer.
A manipulação das preferências de consumo — analisada por diversos autores como uma das formas mais eficazes de alienação na sociedade contemporânea — tem uma dimensão política que vai muito além do econômico.
O consumismo não é apenas uma forma de organizar a economia: é uma forma de organizar a vida, de definir identidades, de criar pertencimentos e exclusões.
O homem que se define pelo que consome — pelo carro que dirige, pela roupa que veste, pelo smartphone que usa — é o homem que se vende pelos "nadas do mundo" de Vieira: ele troca sua autenticidade, sua singularidade, sua dignidade por mercadorias que prometem, mas não entregam, a satisfação que ele busca (MARCHESINI JUNIOR, 2012).
A dimensão política dessa alienação manifesta-se de forma particularmente aguda nas sociedades contemporâneas marcadas pela polarização ideológica, proporcionando que o homem que se identifica completamente com uma ideologia política — que faz da ideologia a sua identidade, que não consegue distinguir entre o que ele pensa e o que a ideologia manda pensar — possa vir a ser o homem que se vendeu pelos "nadas" da política.
Ele abdicou de seu julgamento crítico, de sua liberdade de pensar, de sua responsabilidade de escolher: entregou tudo isso a um sistema de crenças que promete certeza e pertencimento, mas que, na prática, produz servidão e fragmentação.
Caminhos para a Autenticidade: Redenção Política e Existencial
Diante desse diagnóstico sombrio, é legítimo perguntar: há saída? Há caminhos para a autenticidade, para a recuperação da dignidade, para a recusa de vender-se pelos nadas?
A resposta que emerge da confluência entre Vieira e os pensadores modernos é, ao mesmo tempo, simples e exigente: a saída passa pelo autoconhecimento, pela consciência crítica e pela responsabilidade.
Para Vieira, a saída passa pelo reconhecimento honesto da própria condição: reconhecer que se é muito — que se tem um valor infinito, conferido pelo sacrifício de Cristo — e que, ao mesmo tempo, se tende a vender-se pelos nadas.
Esse reconhecimento não é paralisante: é libertador e abre o espaço para a conversão, para a transformação, para a escolha de uma vida mais autêntica e mais digna e a redenção, nessa perspectiva, não é um evento mágico que acontece de fora para dentro: é um processo que começa com a consciência e se realiza na escolha.
Para Heidegger, a saída passa pela assunção da própria existência, pela aceitação da angústia como estado de ânimo fundamental da autenticidade, pela recusa de deixar-se absorver pelo "se" impessoal.
O homem autêntico é aquele que assume a singularidade de sua existência, que não foge para a mediocridade do anonimato, que enfrenta a finitude e a liberdade sem evasões (HEIDEGGER, 1927/2012).
Para Sartre, a saída passa pelo engajamento, pelo assumir plenamente a liberdade e a responsabilidade, pela recusa da má-fé (SARTRE, 1943/2015). Para Bourdieu, a saída passa pela consciência do poder simbólico, pela capacidade de reconhecer e questionar as categorias de percepção que o sistema impõe (BOURDIEU, 1989).
Todas essas perspectivas convergem num ponto fundamental: a saída para a autodesvalorização — seja ela chamada de pecado, de alienação, de má-fé ou de inautenticidade — passa pelo autoconhecimento e pela consciência crítica.
O homem que se conhece a si mesmo, que reconhece seu valor e suas tendências, que é capaz de questionar os "nadas" que o sistema lhe oferece, é o homem que pode escolher uma vida mais autêntica e mais digna, sendo essa escolha individual, portadora de dimensões coletivas e políticas, isto posto que o homem autêntico é também o cidadão responsável, o sujeito político que não se vende pelos nadas do poder e da ideologia.
CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS: O SERMÃO VIEIRIANO EM DIÁLOGO COM O PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO
A análise desenvolvida nas seções anteriores permite agora uma síntese das principais convergências e divergências entre o pensamento vieiriano e as correntes filosóficas e antropológicas modernas.
Essa síntese não pretende ser exaustiva: o diálogo entre Vieira e a modernidade é inesgotável, e cada nova leitura do sermão revela novas camadas de sentido e novas possibilidades de conexão, mas o que se busca aqui é identificar os pontos de maior convergência e as diferenças fundamentais que tornam esse diálogo fecundo e necessário.
Convergências Fundamentais
A primeira e mais fundamental convergência entre Vieira e os pensadores modernos é o diagnóstico da condição humana como paradoxal, pelo que se percebe que todos os autores analisados neste artigo — de Kierkegaard a Heidegger, de Sartre a Bourdieu, de Marx a Pappenheim — reconhecem que o ser humano é um ser fundamentalmente contraditório: capaz de grandeza e de miséria, de autenticidade e de alienação, de liberdade e de servidão.
Vieira expressa esse paradoxo com a linguagem da teologia cristã — o homem que vale muito porque Deus o comprou com seu sangue, e que vale nada porque se vende pelos nadas — mas a estrutura do paradoxo é a mesma que os filósofos modernos identificarão com outras linguagens e outros conceitos.
A segunda convergência diz respeito ao mecanismo da auto-desvalorização. Vieira, Heidegger, Sartre, Marx e Bourdieu concordam que a condição mais comum do ser humano não é a grandeza, mas a miséria; não a autenticidade, mas a alienação; não a liberdade, mas a servidão.
Neste diapasão, todos os autores mencionados concordam que essa condição não é imposta de fora: ela é, em alguma medida, escolhida pelo próprio possuidor do livre arbítrio.
O homem que se vende pelos nadas, o Dasein inautêntico, o homem de má-fé, o trabalhador alienado, o dominado que aceita sua dominação — todos são, em algum sentido, responsáveis por sua condição e essa responsabilidade não elimina as determinações estruturais e históricas que condicionam as escolhas, mas tampouco as anula completamente.
A terceira convergência diz respeito à necessidade de uma ruptura, de um momento de consciência que permita a transformação. Para Vieira, essa ruptura é a conversão; para Heidegger, é a assunção da autenticidade; para Sartre, é o engajamento; para Marx, é a consciência de classe; para Bourdieu, é a reflexividade.
Em todos os casos, trata-se de um processo que começa com o reconhecimento honesto da própria condição — com o olhar direto para a imagem dos próprios pecados, para usar a linguagem vieiriana — e que se realiza na escolha de uma vida mais autêntica e mais digna.
Divergências Significativas
Vieira e os pensadores modernos divergem significativamente, e essa diferença é igualmente importante e merece consideração, pois chama a atenção a divergência mais básica: a que diz respeito ao fundamento do valor humano.
Para Vieira, o valor de um ser humano é conferido por Deus: o homem vale muito precisamente porque Deus o comprou com Seu sangue, ao passo que, para os pensadores modernos — especialmente os existencialistas — uma instância externa não confere valor a um ser humano; ao contrário, o ser humano cria seu próprio valor através de suas escolhas e engajamento.
Esta é uma diferença crítica: para Vieira, a autodesvalorização é uma afronta a Deus, uma negação do valor que Ele conferiu ao ser humano; para Sartre, é uma violação da liberdade, uma negação da responsabilidade que o ser humano tem de criar seu próprio valor.
A segunda divergência diz respeito à natureza da solução. Para Vieira, a solução para a autodesvalorização é a conversão religiosa, o retorno a Deus, o reconhecimento do próprio valor à luz da fé.
Para os pensadores modernos, a solução é imanente; não requer referência transcendente, mas apenas o desenvolvimento da consciência crítica, da autenticidade existencial ou a transformação das estruturas sociais.
Essa divergência reflete, em última análise, o contraste entre uma visão de mundo teocêntrica e uma visão de mundo antropocêntrica — que é, por si só, um dos traços definidores da modernidade.
A terceira divergência diz respeito ao papel da comunidade e da tradição. Para Vieira, o remédio para a autodesvalorização reside na comunidade de fé, na Igreja, na tradição teológica que transmite o conhecimento do valor humano de geração em geração.
Para os pensadores modernos — especialmente os existencialistas — a solução é fundamentalmente individual: é o sujeito singular que deve assumir sua existência, que deve criar seu valor, que deve se engajar, ao passo que essa diferença reflete uma tensão fundamental na modernidade entre individualismo e comunitarismo, entre autonomia e tradição.
O Sermão como Espelho Crítico
No entanto, por todas as maneiras em que o Sermão do 4º Domingo da Ascensão diverge de seus predecessores históricos, ainda hoje ele permanece um espelho existencial, um homem, de fato uma pessoa do século XVII e ainda hoje é um homem de todos os tempos.
O que torna o sermão particularmente poderoso é o fato de que ele articula uma verdade que seria, com linguagem simples e imagens poderosas, confirmada e aprofundada pela filosofia e antropologia modernas, precisamente que o ser humano é um ser de valor infinito que é estruturalmente propenso a diminuir seu valor.
Essa inclinação não é um defeito aleatório, no entanto: é intrínseca ao que é ser humano e se manifesta de formas muito diferentes em diferentes épocas e contextos culturais, mas sempre com a característica gravada em pedra.
O que torna a lição do sermão particularmente pertinente para o mundo moderno, não apenas por sua beleza literária e profundidade teológica, mas por como nós, como homens modernos, examinamos as decisões que tomamos e os valores que cultivamos.
O homem que se vende pelos "nadas do mundo" de Vieira é o mesmo homem que se aliena no consumismo, que se divide em polarização ideológica, que se afoga no vazio existencial da pós-modernidade.
E a pergunta, que Vieira lança dos telhados do púlpito barroco, mantém toda a urgência quando se trata de sua relevância — por que você se vende tão barato?
METODOLOGIA
A presente pesquisa classifica-se, quanto à sua natureza, como pesquisa básica, uma vez que seu propósito é a ampliação do conhecimento acerca de um objeto de reflexão filosófica, teológica e antropológica: a condição humana tal como se manifesta no pensamento de Padre Antônio Vieira e em seus desdobramentos na modernidade.
Quanto à abordagem, a pesquisa é qualitativa, pois o objeto investigado — um texto literário e teológico do século XVII — exige interpretação e compreensão, não mensuração estatística. Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa é bibliográfica, elaborada com base em material já publicado: livros, artigos de periódicos e documentos em repositórios acadêmicos (GIL, 2002).
O método central adotado é o hermenêutico. A análise foi conduzida em três movimentos articulados: leitura cuidadosa e anotada do texto integral do sermão para identificar temas centrais, estrutura argumentativa e implicações filosóficas; pesquisa bibliográfica sistemática de obras de filósofos, antropólogos e teólogos com temas convergentes, selecionadas segundo critérios de relevância temática e reconhecimento acadêmico; e análise comparativa e dialógica entre o texto vieiriano e os pensadores modernos.
A perspectiva filosófica adotada é predominantemente fenomenológica e existencialista, com incursões na teoria crítica e na antropologia filosófica.
A pesquisa bibliográfica foi realizada em múltiplas bases de dados acadêmicas: repositórios institucionais de universidades, SciELO, Portal de Periódicos CAPES e Google Scholar. As obras consultadas abrangem um período que vai do século XVII ao XXI, permitindo demonstrar que as questões levantadas por Vieira constituem problemas filosóficos de longa duração.
Os instrumentos utilizados para coleta e organização das informações incluíram fichamento de textos, elaboração de mapas conceituais e redação de notas analíticas, garantindo o rigor metodológico necessário à pesquisa qualitativa (LAKATOS; MARCONI, 2003).
CONCLUSÃO
Esta jornada analítica desenvolvida neste artigo, no entanto, nos dá algumas conclusões que, embora provisórias e abertas ao debate, indicam a contínua relevância do modo de pensar do Padre Antônio Vieira até os dias de hoje em nossa compreensão da condição humana na modernidade.
A conclusão, portanto, é que o Sermão do 4º Domingo da Ascensão é um dos exames mais precisos e perturbadores da condição humana conhecidos por terem sido proferidos na língua portuguesa.
Em poucas linhas, Vieira expressa um paradoxo sobre o qual sistemas posteriores de filosofia e antropologia seriam organizados com outras categorias e linguagens: que a pessoa humana é simultaneamente a criatura mais valiosa do cosmos e a mais vulnerável à autodesvalorização.
Essa tensão entre grandeza e miséria, entre dignidade conferida e dignidade desperdiçada, é a essência do sermão e onde podemos facilmente pensar na maior convergência com o pensamento filosófico e antropológico moderno.
A segunda conclusão é que a conversa entre Vieira e pensadores modernos, Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Marx, Pappenheim, Bourdieu, Foucault, é produtiva e, em última análise, necessária.
Cada um dos pensadores acima lança alguma luz sobre o diagnóstico de Vieira por sua vez: Kierkegaard aprofunda a análise do desespero e da fé; Heidegger articula o conceito de autenticidade e inautenticidade; Sartre aprofunda a análise da má-fé e da responsabilidade; Marx e Pappenheim identificam as estruturas econômicas e sociais que geram alienação; Bourdieu e Foucault analisam os mecanismos de poder que perpetuam a autodesvalorização.
A terceira conclusão é que as vicissitudes políticas contemporâneas — polarização ideológica, manipulação de preferências, alienação política, consumismo político — são equivalentes modernos do mecanismo que Vieira vinculou ao pecado: a venda do humano pelos "nadas do mundo".
E a solução, que Vieira ofereceu — autoconhecimento, reconhecimento do próprio valor, recusa em se vender por nadas — sempre permanecerá, mutatis mutandis, a solução mais promissora.
A quarta e última conclusão é que a obra de Vieira ainda é um patrimônio intelectual e espiritual da mais alta ordem, capaz de provocar em qualquer um (idade) da época que deve reconsiderar as escolhas que faz e os valores que incentiva.
Ler Vieira hoje não é um exercício de arqueologia literária: é autoconhecimento, um ato de obrigação, um reconhecimento que, com a honestidade que o próprio sermão exige, somos muito — temos um valor que nenhum sistema político ou econômico pode nos atribuir ou tirar — que somos estruturalmente projetados para nos vender por nada.
Por fim e com o desfecho que se acredita ser o mais adequado, é escolhendo um modo de vida melhor a partir desse entendimento, que seremos capazes de ser, de fato, mais autênticos, dignos e livres.
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TCC produzido para obtenção do título de Especialista em Antropologia, apresentado à FACUMINAS, em 07 de março de 2026.
1 Bacharel em Ciências Militares - Área de Defesa Social (ACADEMIA DE POLÍCIA MILITAR/RS). Bacharel em Sociologia (UNINTER). E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-8757-4252