REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787008113
RESUMO
Este estudo tem como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura para investigar a relação entre as práticas de gestão financeira e a sobrevivência de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Tais organizações enfrentam desafios estruturais únicos, frequentemente descritos como "responsabilidade da pequenez" (liability of smallness), que envolvem restrições financeiras e carência de expertise gerencial, impactando negativamente sua competitividade. Metodologicamente, a pesquisa adotou o instrumento de intervenção ProKnow-C (Knowledge Development Process-Constructivist) para a seleção e análise de um Portfólio Bibliográfico qualificado. A busca inicial na base Scopus, compreendendo o período de 2015 a 2025, retornou 972 artigos, que após rigorosas etapas de filtragem sistêmica resultaram em um portfólio final de 25 artigos aderentes ao tema. Os achados indicam que a gestão financeira nas MPMEs tende a ser rudimentar, baseando-se frequentemente na experiência empírica do proprietário-gestor e no uso de técnicas simplificadas, como o método de payback. Demonstrou-se que a literacia financeira, aliada à gestão eficiente do capital de giro e do fluxo de caixa, atua como um recurso estratégico vital para mitigar riscos e promover a resiliência. Constatou-se, ainda, uma ausência de produções focadas no contexto empresarial brasileiro no portfólio selecionado, revelando uma importante lacuna de pesquisa. Conclui-se que a educação financeira transcende a dimensão individual, consolidando-se como um fator determinante para o desenvolvimento sustentável destas entidades.
Palavras-chave: Gestão Financeira; Micro e Pequenas Empresas (MPMEs); Responsabilidade da Pequenez (.Liability of Smallness); Literacia Financeira; ProKnow-C; Sobrevivência Empresarial.
ABSTRACT
This study aims to conduct a systematic literature review to investigate the relationship between financial management practices and the survival of micro, small, and medium-sized enterprises (MSMEs). These organizations face unique structural challenges, often described as "liability of smallness," involving financial constraints and a lack of managerial expertise, negatively impacting their competitiveness. Methodologically, the research adopted the ProKnow-C (Knowledge Development Process-Constructivist) intervention instrument for the selection and analysis of a qualified bibliographic portfolio. The initial search in the Scopus database, covering the period from 2015 to 2025, returned 972 articles, which, after rigorous systematic filtering steps, resulted in a final portfolio of 25 articles relevant to the topic. The findings indicate that financial management in MSMEs tends to be rudimentary, often based on the owner-manager's empirical experience and the use of simplified techniques, such as the payback method. It has been demonstrated that financial literacy, combined with efficient working capital and cash flow management, acts as a vital strategic resource for mitigating risks and promoting resilience. Furthermore, a lack of research focused on the Brazilian business context was found in the selected portfolio, revealing a significant research gap. It is concluded that financial education transcends the individual dimension, consolidating itself as a determining factor for the sustainable development of these entities.
Keywords: Financial Management; Micro and Small Enterprises (MSMEs); Liability of Smallness; Financial Literacy; ProKnow-C; Business Survival.
1. INTRODUÇÃO
O setor de Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) é amplamente reconhecido como um pilar fundamental para o crescimento socioeconômico, a criação de empregos e o fomento à inovação em diversas economias (FRANCISCO, 2024; KARADAG, 2017; RAHIM; BALAN, 2020). Contudo, essas entidades enfrentam desafios estruturais únicos, frequentemente encapsulados no conceito de “responsabilidade da pequenez” (liability of smallness), que limita sua capacidade de crescimento e competitividade (ALDRICH; AUSTER, 1986; FONSECA et al., 2022). Essa restrição advém principalmente da escassez de recursos financeiros, apoio gerencial e expertise especializada (ALDRICH; AUSTER, 1986), resultando em problemas críticos como instabilidade do fluxo de caixa e dificuldades no acesso a crédito (ANG, 1991; BERGER; UDELL, 2006).
Embora os princípios de finanças corporativas sejam teoricamente universais, as MEs (Microempresas) frequentemente buscam implementar práticas eficientes devido aos seus recursos limitados e baixa literacia financeira (FRANCISCO, 2024). A gestão financeira eficaz, abrangendo Gestão de Capital de Giro, decisões de financiamento e investimento, e a adoção de sistemas de informação contábil é, portanto, vital para a performance e sustentabilidade do negócio (HUNJRA et al., 2011; ZADA et al., 2021). A análise empírica revela que as práticas tendem a ser rudimentares: o envolvimento do CEO/Gestor, na gestão de caixa e contas a receber é direto, mas há uma subutilização de ferramentas sofisticadas (FRANCISCO, 2024). Por exemplo, o critério de decisão de investimento mais comum é o simples regime de payback (prazo de retorno) (FRANCISCO, 2024; ALI et al., 2024), preterindo o Valor Presente Líquido (VPL) ou a Taxa Interna de Retorno (TIR).
O grau de sofisticação dessas práticas é, em grande parte, determinado pelas características da firma e de seu gestor. Fatores como o tamanho da empresa, sua idade (FRANCISCO, 2024), e, sobretudo, a educação do gestor em finanças (FRANCISCO, 2024; KARADAG, 2017) são cruciais. A Literacia Financeira (FLR) é destacada como um determinante do capital humano, influenciando positivamente o desempenho das PMEs (ABDALLAH et al., 2019; LUSARDI; MITCHELL, 2014). Adicionalmente, o contexto comportamental é relevante, com a tomada de decisão na Gestão de caixa sendo baseada predominantemente na experiência pessoal do gestor, e não em conhecimento teórico (HOQUE, 2017; FRANCISCO, 2024).
Este panorama complexo, evidenciado em estudos que abrangem contextos tão diversos como Portugal (FRANCISCO, 2024), Japão (TSURUTA, 2018), Kuwait (ABDALLAH et al., 2020) e amostras multinacionais (LUSSIER; SONFIELD, 2015), sublinha a necessidade de ampliar a visão do conhecimento sobre esse importante campo de conhecimento.
O presente artigo visa a seleção e construção de uma base de referência bibliográfica sobre gestão financeira para micro e pequenas empresas, além da análise desta construção como base de discussão utilizando como instrumento de intervenção o desenvolvimento do processo estruturado ProKnow-C (Knowledge Development Process-Constructivist). A pesquisa propõe-se a selecionar, de forma sistemática, as referências mais alinhadas ao tema para a construção de um portfólio bibliográfico representativo e qualificado sobre o tema.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Esta seção visa estabelecer o arcabouço conceitual que sustenta a pesquisa sobre a gestão financeira e o desempenho das Micro e Pequenas e Médias Empresas (MPMEs), organizando a discussão em quatro eixos temáticos: Contextualização do Tema, Trajetória Histórica, Conceitos e Componentes. A literatura demonstra um campo de estudo em evolução, que se afasta dos modelos de grandes corporações para incorporar a singularidade das MPMEs, o comportamento do proprietário-gestor e a importância das práticas operacionais ( FRANCISCO, 2024; KARADAG, 2017).
O principal desafio enfrentado pelas MPMEs reside na sua "responsabilidade da pequenez”. Este conceito seminal destaca as restrições à competitividade e ao crescimento inerentes ao pequeno porte das firmas. Tais restrições têm raízes na escassez de recursos financeiros, de apoio gerencial e de expertise especializada. De acordo com Aldrich e Auster (1986), a origem dessa responsabilidade reside na escassez de recursos financeiros, suporte e expertise gerencial (FRANCISCO 2024).
2.1. Contextualização do Tema
O setor de Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) é amplamente reconhecido como um motor essencial para a vitalidade e o desenvolvimento socioeconômico em escala global. Sua relevância reflete-se de maneira robusta no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), na promoção sistemática da inovação e, primordialmente, na geração massiva de postos de trabalho em diversas nações. Em muitos países, as MPMEs constituem a vasta maioria das empresas não financeiras, atuando como a espinha dorsal da economia e garantindo a manutenção da competitividade tanto em mercados domésticos quanto internacionais(FRANCISCO,2024;KARADAG,2017;RAHIM;BALAN,2020;TSURUTA,2018).
Entretanto, a pesquisa acadêmica demonstra que essa categoria de empresas possui particularidades que impedem sua análise exclusiva através das lentes da teoria de finanças corporativas desenvolvida para grandes corporações. Existe uma lacuna notável na adaptação da teoria financeira moderna ao contexto único dessas entidades, que enfrentam restrições severas de recursos humanos e financeiros, além de dificuldades persistentes no acesso aos mercados de crédito. O tamanho da firma atua como um determinante crítico na sofisticação das funções financeiras, e o conceito de "responsabilidade da pequenez" (liability of smallness) sublinha as limitações estruturais e gerenciais que distinguem as práticas das MPMEs das observadas em firmas de grande porte (FRANCISCO,2024; LÓPEZ;HIEBL, 2025).
2.1.1. A Responsabilidade da Pequenez (Liability of Smallness)
Para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) é a "responsabilidade da pequenez" (liability of smallness), é marco teórico que evidencia as barreiras estruturais ao crescimento e à competitividade decorrentes da escala reduzida das operações (FRANCISCO, 2024; FONSECA et al.,2022). De acordo com Aldrich e Auster (1986), a gênese dessa vulnerabilidade reside na escassez crítica de recursos financeiros e na carência de apoio gerencial e expertise técnica especializada. No plano das finanças corporativas, tal condição é exacerbada por assimetrias de informação severas e custos de agência elevados, que dificultam o acesso aos mercados de capitais e crédito formais, forçando essas entidades a uma dependência excessiva de fundos internos ou crédito comercial para financiar suas necessidades de capital de giro (ALDRICH; AUSTER,1986; FRANCISCO, 2024).
Sob a perspectiva operacional e técnica, a responsabilidade da pequenez manifesta-se na subutilização de sistemas de informação contábil (AIS) e na adoção de métodos rudimentares de tomada de decisão, como o uso predominante do regime de payback em detrimento de técnicas mais sofisticadas como o Valor Presente Líquido (ALI, et al. 2024). A falta de infraestrutura administrativa e a baixa difusão tecnológica, evidenciada pela ausência frequente de sistemas de Enterprise Resource Planning (ERP), limitam a capacidade de análise de dados e o monitoramento eficaz do fluxo de caixa (MANG’ANA, et al. 2023). Consequentemente, a sustentabilidade dessas empresas torna-se altamente dependente do capital humano e da literacia financeira do proprietário-gestor, cuja educação e experiência são determinantes para mitigar riscos, gerenciar a opacidade financeira e garantir a resiliência do negócio perante as elevadas taxas de insolvência que historicamente caracterizam o setor (KARADAG, 2017; TROMBETA, 2023).
As microempresas enfrentam significativas restrições de financiamento, que se traduzem em dificuldades persistentes para acessar os mercados de crédito formais. Esse cenário é severamente agravado pela presença de assimetrias de informação e problemas de agência, além dos custos de transação elevados que onera as operações financeiras (ANG, 1991; BERGER; UDELL, 2006; FRANCISCO, 2024)
Estas empresas também encontram dificuldades ao tentarem implementar princípios de gestão financeira, uma vez que o seu tamanho reduzido, a escassez de recursos e a baixa literacia financeira podem dificultar a adoção de práticas administrativas sofisticadas (ABDALLAH et al. 2019; FRANCISCO, 2024). No que concerne à gestão de risco, a carência de informações estratégicas e de capacidades técnicas adequadas torna o setor extremamente vulnerável às incertezas do mercado, resultando na elevada taxa de falhas e insolvência que historicamente caracteriza essas organizações(CARTER; VAN AUKEN, 2026; HALL; YOUNG, 1991).
2.2. Trajetória Histórica
A pesquisa em finanças de MPMEs evoluiu ao reconhecer a inadequação dos modelos tradicionais e ao integrar aspectos comportamentais e do ciclo de vida (HOQUE, 2017; WONG et al. 2018).
2.2.1. Evolução do Paradigma de Financiamento
A literatura tradicional, baseada em trabalhos como o de Modigliani e Miller (1963), que sugeria que o valor de uma firma era independente da sua estrutura de capital, serviu de contraponto para os modelos de PMEs (FRANCISCO, 2024).
A necessidade de modelos específicos levou à adaptação de teorias como a Teoria da Ordem de Preferência (Pecking Order Theory - POT), que propõe a preferência por financiamento interno em relação ao externo. Evidências empíricas frequentemente apoiam a POT no contexto das MEs, refletindo seu comportamento de financiamento em meio a desafios únicos (ALVES et al., 2015; MATIAS; SERRASQUEIRO, 2017; SÁNCHEZ-VIDAL; MARTÍN-UGEDO, 2005; FRANCISCO, 2024).
2.2.2. Ciclo de Vida e Profissionalização
O paradigma do Ciclo de Crescimento Financeiro, proposto por Berger e Udell (1998), ilustra a trajetória evolutiva das MPEs, que dependem inicialmente de fundos internos e se abrem gradualmente ao financiamento externo à medida que o negócio amadurece (FRANCISCO, 2024).
A evolução da empresa é marcada pela profissionalização, evidenciada na comparação entre empresas "micro" (0–9 empregados) e "pequenas" (10–49 empregados):
No processo de profissionalização gerencial às "Pequenas empresas" tendem a ter um estilo de gestão mais formal e usam métodos de gestão financeira mais sofisticados do que as "Microempresas", já as “Médias empresas” por sua vez tendem a ter modelos e sistemas ainda mais sofisticados dentro de suas possibilidades, mas ainda distantes das grandes corporações(LUSSIER; SONFIELD, 2015).
Com relação ao tempo de vida da empresa, é possível observar que o envelhecimento da empresa apresenta correlação direta ao acúmulo de experiência e conhecimento do proprietário (ANG, 1992; KARADAG, 2017). Empresas mais maduras (cinco anos ou mais, na Turquia) demonstram um desempenho significativamente melhor na gestão financeira (KARADAG, 2017).
2.2.3. Adoção da Perspectiva Comportamental
Estudos mais recentes integram os insights da Finança Comportamental (Behavioral Finance) para entender como a psicologia econômica e cognitiva influencia as decisões financeiras das PMEs (HOQUE, 2017). A tomada de decisão é frequentemente baseada na experiência pessoal do CEO, e não no conhecimento teórico (HOQUE, 2017; FRANCISCO, 2024), sendo suscetível a vieses como a orçamentação mental (HOQUE, 2017).
2.3. Conceitos
2.3.1. Práticas de Gestão Financeira (Financial Management Practices – FMPs)
FMPs são definidos como os procedimentos operacionais padronizados projetados para a execução adequada de tarefas como contabilidade, reporting e orçamentação, visando aprimorar a eficiência técnica da firma (SAEED et al., 2020).
O nível de sofisticação e a adoção de FMPs variam significativamente com o tamanho da empresa (LÓPEZ; HIEBL, 2015; GRAHAM; HARVEY, 2001; FRANCISCO, 2024). O nível de envolvimento do CEO é alto em decisões de financiamento (FRANCISCO, 2024).
A utilização de ferramentas tecnológicas como Sistemas de Informação Contábil (ERPs) é uma ferramenta fundamental. Empresas com altos valores de ativos e vendas tendem a fazer maior uso da informação gerada pelo ERP no processo de tomada de decisão (FRANCISCO, 2024).
2.3.2. Capital Humano e Literacia Financeira (Financial Literacy – FLR)
A literacia financeira (FLR) é considerada um componente essencial do capital humano do empreendedor. Lusardi e Mitchell (2014) definem a FLR como crucial para o sucesso das pequenas empresas e para a melhoria do processo de tomada de decisões.
Um alto nível de educação em finanças e experiência prévia estão positivamente correlacionados com o desempenho das PMEs ao ponto que geram uma conduta do proprietário, como gestor, mais rigorosa nos registros de movimentos (ADOMAKO et al., 2016; KARADAG, 2017; UTOMO et al., 2020).
A Literacia Financeira é vista como uma capacidade ágil que permite às empresas executar operações financeiras de forma mais dinâmica, porém com segurança e eficácia (HELFAT et al., 2009; ABDALLAH et al., 2020).
2.3.3. Perspectiva Baseada em Recursos (Resource-Based View – RBV)
A RBV fornece a base teórica para entender a sustentabilidade e o desempenho das MPMEs (MANG’ANA et al., 2023; SINGH et al., 2020).
A RBV sustenta que o desempenho é determinado pela utilização eficaz de seus recursos e capacidades, permitindo que a empresa obtenha vantagem competitiva sustentável (BARNEY, 1991; DYER; SINGH, 1998; MANG’ANA et al., 2023).
No contexto das MPMEs, as FMPs (como Gestão do Capital de Giro) são vistas como capacidades cujo uso adequado impacta o desempenho (MANG’ANA et al., 2023). A FLR também é considerada um recurso valioso e um determinante da capacidade dinâmica da firma (GUEDES et al., 2022).
2.4. Componentes
2.4.1. Tipologia da Literacia Financeira
A Literacia Financeira pode ser segmentada, com diferentes níveis de impacto:
Literacia Básica: Associada a conceitos tradicionais, como juros compostos e diversificação de risco (LUSARDI; MITCHELL, 2014; TROMBETTA, 2023).
Literacia Avançada (Contábil e Financeira): Envolve a compreensão de conceitos de contabilidade de exercício, depreciação e lucratividade econômica versus financeira (TROMBETTA, 2023). Estudos sugerem que um comportamento financeiro "conservador" (avesso à dívida e diversificado), promovido pela literacia, é mais propenso a garantir a resiliência e a sobrevivência do negócio (TROMBETTA, 2023).
2.4.2. Gestão do Capital de Giro (Working Capital Management – WCM)
O WCM, que envolve a administração de contas a receber, estoques e contas a pagar, é uma FMP fundamental para a performance das MPMEs (MANG’ANA et al., 2023).
O Ciclo de Conversão de Caixa (CCC) é a métrica mais popular e amplamente aceita para medir a eficiência do WCM, superando as métricas estáticas tradicionais (BAÑOS-CABALLERO et al., 2012; ENQVIST et al., 2014).
A gestão adequada de capital de giro tem um impacto significativo na lucratividade e no desempenho financeiro (TSURUTA, 2018; MANG’ANA et al., 2023).
2.4.3. Orçamentação de Capital (Capital Budgeting - CB)
O processo de avaliação de projetos de investimento tende a ser simplificado nas MPMEs (ALI et al., 2024).
A maioria das empresas pesquisadas, quase 93%, em um estudo realizado no Iraque se baseiam no período de payback como método principal de avaliação de projetos, em vez de metodologias avançadas como o VPL ou TIR. Essa dependência de técnicas mais simples indica restrições em expertise técnica ou de recursos ( ALI et al., 2024).
2.4.4. Práticas de Negócio (Business Practices – BPs) e Auto-Financiamento
A literatura mais recente adota uma abordagem holística para o financiamento, indo além do bootstrapping (auto-financiamento) e das práticas financeiras estritas (FADIL; ST-PIERRE, 2021).
Certas Práticas de Negócio não financeiras estão diretamente associadas à capacidade de autofinanciamento da MPME. Empresas que utilizam tecnologia de promoção de eficiência, realizam manutenção preventiva e mantêm controle de custos e rotatividade estão mais inclinadas a usar menos financiamento externo (FADIL; ST-PIERRE, 2021).
Tais práticas de negócios reduzem a pressão sobre o fluxo de caixa, aumentando a liquidez, o que é um determinante crucial para proteger a independência financeira e decisória da MPME durante o crescimento (FADIL; ST-PIERRE, 2021).
3. METODOLOGIA
O artigo adota uma abordagem metodológica estruturada fundamentada no processo Knowledge Development Process – Constructivist (ProKnow-C). Este método, desenvolvido no Laboratório de Metodologia Multicritério de Apoio à Decisão (LabMCDA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é definido como um instrumento de intervenção que permite a seleção e análise da literatura científica de forma sistemática. Sob uma perspectiva construtivista, o ProKnow-C visa gerar a estrutura de conhecimento necessária para que o pesquisador possa iniciar e conduzir um estudo científico com rigor acadêmico, identificando as fontes de maior relevância e reconhecimento dentro de um tema delimitado.
O percurso metodológico organiza-se em etapas rigorosas que visam a constituição de um Portfólio Bibliográfico (PB) representativo e a realização de análises bibliométricas. O processo iniciou-se com a busca na base de dados Scopus e seguiu através de filtros sistêmicos que incluem a eliminação de duplicados, leitura de títulos e resumos, e análise do reconhecimento científico até a leitura integral dos artigos alinhados ao tema. Essa estruturação garante que o referencial teórico da pesquisa seja construído a partir de critérios validados, permitindo a identificação de lacunas de pesquisa e autores de destaque na área investigada.
3.1. Seleção do Banco Bruto de Artigos
O eixo de pesquisa deste estudo foi delimitado pela interseção entre as práticas de gestão financeira e os termos determinantes para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) conforme definido pelo enquadramento legal no Brasil inicialmente. Sob a perspectiva metodológica do ProKnow-C, essa definição inicial atuou como um instrumento para identificar na literatura textos que relacionam a eficiência operacional com o modelo de práticas financeiras adotado por estas empresas.
Definição dos Eixos de Pesquisa e Palavras-Chave:
As palavras-chave foram selecionadas para refletir os pilares centrais da investigação, integrando termos como "Micro empresas" Gestão Financeira (palavras-chave incluem "Financial Management", "Financial Practices", "Financial Control", "Cash Flow", "Financial Planning", e "Working Capital"). A escolha estratégica desses descritores permitiu capturar estudos específicos sobre o "capital de giro" (working capital) e o "orçamento de capital" (capital budgeting), sub temas essenciais para compreender como a expertise técnica do proprietário-gestor mitiga a "responsabilidade da pequenez" e promove a resiliência do negócio no longo prazo. Já com relação ao eixo Microempresas foram utilizados os termos: "Micro entrepreneurs", "Small Business", "Micro Enterprises", "Self-Employed", "Micro and Small enterprises", "Micro Companies" e “Entrepreneur”, buscando fundamentalmente afunilar o processo de pesquisa em volta das praticas nesta classe empresarial.
Bases de Dados e Período: A busca utilizou a base de dados Scopus e foi limitada a artigos publicados de 2015 até o período de 2025. Resultado Inicial: A somatória das buscas de cada combinação de termos resultou na entrada de 972 arquivos (artigos), considerando as combinações de palavras-chave no Título, Palavras-Chave ou Resumo.
3.2. Filtragens do Banco de Artigos
O processo de filtragem do banco de artigos constituiu uma fase rigorosa de refinamento da metodologia ProKnow-C, tendo como objetivo transformar uma base bruta de dados em um Portfólio Bibliográfico (PB) de alta relevância científica. Esta etapa organiza-se através de funis sistêmicos que envolvem a eliminação de artigos duplicados, a triagem por títulos e a análise do reconhecimento científico das obras por meio de seu número de citações. Este processo sistemático visa garantir a aderência do material.
Exclusão de Duplicatas e Limpeza Inicial:
Entrada de 972 artigos. Foram removidos 22 artigos. O Banco de artigos brutos não repetidos resultou em 950 artigos.
Alinhamento pela Leitura dos Títulos:
Dos 950 artigos, 849 artigos foram eliminados por falta de alinhamento. O portfólio resultante da leitura dos títulos foi de 101 artigos.
Alinhamento Quanto ao Reconhecimento Científico (Citações):
Esta etapa visa construir um gráfico de Pareto e estabelecer um ponto de corte. O ponto de corte foi definido onde 30% dos artigos continham aproximadamente 82% das citações, correspondendo a artigos com 26 citações.
Dos 101 artigos, 71 artigos (70%) foram eliminados por baixo reconhecimento. O número de artigos selecionados por reconhecimento científico foi de 30 artigos.
Filtragem Quanto ao Alinhamento do Resumo (Abstract):
Nesta etapa do processo ProKnow-C, os 101 artigos que tiveram seus títulos avaliados na fase anterior e passaram pela análise de reconhecimento científico foram submetidos a uma triagem baseada na leitura integral de seus resumos. O objetivo fundamental deste filtro foi assegurar que as obras possuíam aderência estrita aos eixos de pesquisa definidos: as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) e suas práticas de gestão financeira.
Seguindo o rigor metodológico, buscou-se identificar nos resumos se os estudos de fato investigam variáveis críticas como a gestão do capital de giro, decisões de investimento (como o uso da regra do payback) ou o impacto do conhecimento contábil na resiliência do negócio. O processo de filtragem atuou como um instrumento de intervenção para descartar artigos que, apesar de possuírem títulos condizentes, tratavam de temas periféricos ou contextos não alinhados ao escopo deste estudo.
Conforme o fluxo de filtragem demonstrado no modelo de referência:
Dos 101 artigos remanescentes do filtro de título, foram excluídos aqueles sem reconhecimento científico imediato (citações insuficientes) ou cujos autores não foram confirmados como relevantes no banco de dados.
A leitura dos resumos resultou na exclusão de 71 artigos que não atendiam aos critérios de pesquisa, restando 30 artigos com potencial para compor o referencial teórico.
Este procedimento garantiu a redução do banco bruto inicial (951 artigos) para uma base qualificada, permitindo que a pesquisa avançasse para a etapa de leitura integral, na qual se consolidou o Portfólio Bibliográfico final de 23 artigos aderentes ao tema
Com objetivo de melhorar a base de artigos para o estudo, foi realizada a verificação dos outros artigos até então dispensados com uma filtragem mais criteriosa, onde se buscou artigos que ainda não apresentam número relevante de citações, porém se encontram com potencial futuro de representatividade. Está verificação utilizou primeiramente a busca por artigos de autores que já compunham o portfólio dos 23 artigos mais alinhados, depois os artigos publicados nas revistas que tiveram recorrência na base também dos 23 mais alinhados, e ainda assim foram verificados os demais artigos a fim de encontrar algum artigo que tivesse um alinhamento absoluto ou muito relevante, ou até mesmo algum ponto extremamente importante que não houvesse sido apresentado até então pelo demais artigos. Desta busca foram encontrados mais 4 artigos que apresentaram alinhamento e potencial relevância ao tema.
Filtragem Quanto ao Alinhamento do Artigo Integral (Leitura Completa):
Após a leitura na íntegra dos 27 artigos, buscou-se a aderência final ao tópico da pesquisa, aí então baseado na compreensão do pesquisador com relação ao assunto e suas expectativas sobre o tema, o resultado final para o Portfólio Bibliográfico (BP) foi uma lista composta por 25 artigos.
4. CONCLUSÃO
Dada a necessidade premente de fortalecer a resiliência das Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) como pilares do desenvolvimento socioeconômico global, torna-se crucial realizar pesquisas acadêmicas que aprimorem o entendimento sobre suas práticas de gestão financeira e os fatores que mitigam a responsabilidade da pequenez (liability of smallness).
Portanto, este estudo propôs um Portfólio Bibliográfico (PB) teórico relevante, detalhando o processo sistemático utilizado (ProKnow-C), que se iniciou com a filtragem de uma base bruta de dados e resultou em um portfólio de 25 artigos alinhados e aderentes ao tema proposto.
As análises bibliométricas realizadas com base no PB e em suas referências revelaram que os periódicos mais proeminentes na área são o Journal of Entrepreneurship in Emerging Economies (JEEE) e o Journal of Small Business and Enterprise Development (JSBED), indicando onde se concentra a produção de maior impacto sobre o tema. Os autores como Lussier, Karadag e Trombetta lideram as discussões, estabelecendo-se como referências centrais para a compreensão da sobrevivência e do comportamento financeiro das MPEs.
Nossa análise da produção científica sobre a gestão financeira de MPMEs fornece informações que contribuem para uma melhor compreensão do tema pelas comunidades científica, empresarial e social. Os resultados demonstram que a educação financeira não é apenas um recurso individual, mas um ativo estratégico que permite a transição bem-sucedida da fase de incubação do negócio para a maturidade e o crescimento sustentável.
Um fato substancialmente curioso vem do caso de que nenhum dos artigos levantados pela técnica adotada é de pesquisadores brasileiros ou teve como campo de estudo empresas brasileiras , o que pode ser entendido como uma falta de interesse no âmbito de pesquisas sobre finanças na área entre pesquisadores brasileiros ou pesquisadores que estudam as micro e pequenas empresas do Brasil.
Uma limitação deste estudo é que ele considerou apenas artigos indexados em bases de dados Scopus e dentro de um recorte temporal específico. Estudos futuros poderiam realizar uma análise de conteúdo sistêmica do portfólio selecionado para identificar lacunas específicas em finanças comportamentais uma vez que ficou evidente que o comportamento do gestor tem influência direta nas práticas financeiras de pequenas empresas.
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1 Mestrando em Administração no eixo de Finanças pela UFSC. Bacharel em Administração, pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Educação Profissional e Tecnológica, Instituto Federal do Espirito Santo. Professor titular dos cursos de administração e contabilidade no modelo de educação profissional no CEDUP Jorge Lacerda- Florianópolis-SC.
2 Pedagoga formada pela UDESC, Universidade do Estado de Santa Catarina. Funcionaria efetiva da secretaria municipal de educação de Florianópolis-SC.