REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774491673
RESUMO
O presente artigo apresenta uma análise de metáforas do filósofo indígena Ailton Krenak, tal como se apresentam nos livros Ideias para adiar o fim do mundo, Avida não é útil e Futuro ancestral. Com o aporte teórico da metáfora conceitual (Lakoff e Johnson, 2002; Guedelha, 2025), as metáforas krenakianas são compreendidas como dispositivos filosóficos, epistemológicos e políticos que tencionam a racionalidade ocidental moderna. O estudo investiga como suas metáforas articulam uma cosmologia relacional, na qual natureza e humanidade não se separam, mas coexistem em interdependência. Essa cosmopercepção desestabiliza paradigmas hegemônicos e instaura outras formas de perceber o tempo, a vida e o pertencimento. Assim, as metáforas de Ailton Krenak atuam como instrumentos de resistência epistêmica e reencantamento do mundo, contribuindo para a valorização de saberes indígenas e para a reconfiguração das noções de humanidade e existência.
Palavras-chave: Ailton Krenak. Metáfora conceitual. Humanidade. Cosmopercepção indígena.
ABSTRACT
This article presents an analysis of metaphors by the indigenous philosopher Ailton Krenak, as they appear in the books Ideias para adiar o fim do mundo, A vida não é útil and Futuro ancestral. Using the theoretical framework of conceptual metaphor (Lakoff and Johnson, 2002; Guedelha, 2025), Krenak's metaphors are understood as philosophical, epistemological, and political devices that challenge modern Western rationality. The study investigates how his metaphors articulate a relational cosmology, in which nature and humanity are not separate but coexist in interdependence. This cosmoperception destabilizes hegemonic paradigms and establishes other ways of perceiving time, life, and belonging. Thus, Ailton Krenak's metaphors act as instruments of epistemic resistance and re-enchantment of the world, contributing to the valorization of indigenous knowledge and the reconfiguration of notions of humanity and existence.
Keywords: Ailton Krenak. Conceptual metaphor. Humanity. Indigenous worldview.
INTRODUÇÃO
Este estudo tem como objetivo analisar as principais metáforas criadas pelo filósofo indígena Ailton Krenak para demonstrar a sua cosmopercepção sobre a humanidade. As metáforas selecionadas foram recolhidas dos livros Ideias para adiar o fim do mundo (2020a), A vida não é útil (2020b) e Futuro ancestral (2022). Essas obras são compilações de palestras, lives e entrevistas de Krenak que provocam reflexões sobre o que somos enquanto humanidade, nossa relação com a natureza e sobre como poderíamos adiar (mas não evitar necessariamente) os efeitos devastadores de nossos modos de existência. Os livros perfilam-se entre as obras mais influentes do pensamento contemporâneo brasileiro. Neles, o autor, que é líder indígena, ambientalista e filósofo, reúne reflexões sobre a crise civilizatória que atravessamos, articulando saberes ancestrais dos povos originários com críticas contundentes à modernidade ocidental.
Embora breves, os livros funcionam como manifestos em defesa da vida, da diversidade e da terra, ao mesmo tempo em que questionam as bases do que chamamos de “humanidade”. Ao longo dos textos, Krenak mobiliza metáforas expressivas para provocar deslocamentos de percepção no leitor. Essas imagens não são apenas recursos retóricos ou figuras de linguagem, mas dispositivos de pensamento que evidenciam a artificialidade das instituições modernas, a precariedade das promessas de progresso e a urgência de repensarmos nossa relação com o planeta. Podemos concluir, a partir da leitura dos textos, que Ailton Krenak é metaforista.
Um escritor metaforista é aquele cujo discurso se estrutura predominantemente pela elaboração e articulação sistemática de metáforas como eixo de construção do sentido. Nesse caso, a metáfora funciona como princípio organizador da linguagem e da visão de mundo que sustenta a obra. O escritor metaforista tende a interpretar a realidade por meio de imagens simbólicas recorrentes, criando redes de associações que deslocam significados do concreto para o abstrato, ou que tensionam diferentes campos de experiência para produzir densidade semântica. Sua escrita revela, assim, uma inclinação para a condensação imagética e para a transfiguração do real, de modo que o discurso metafórico se torna espaço de revelação que subsiste em mecanismos psicoassociativos.
O discurso metafórico pode ser conceituado como a modalidade discursiva em que a significação se constrói por meio de projeções sistemáticas entre domínios distintos da experiência, permitindo que um campo semântico seja compreendido à luz de outro. Nesse tipo de discurso, as metáforas não aparecem como ocorrências isoladas, mas como redes coerentes que configuram modos de interpretar a realidade, influenciando valores, práticas sociais e visões de mundo. Assim, o discurso metafórico constitui uma forma estruturada de construção simbólica, por meio da qual o sujeito articula experiências abstratas a partir de esquemas mais concretos, produzindo efeitos cognitivos, culturais e argumentativos. Veremos como isso se materializa no discurso de Ailton Krenak.
1. SOBRE A TEORIA DA METÁFORA CONCEITUAL
Para este estudo, adotamos a teoria da metáfora conceitual, desenvolvida pelos pesquisadores George Lakoff e Mark Johnson (2002) em Metáforas da vida cotidiana. Essa teoria parte da ideia de que a metáfora não é apenas uma figura de linguagem ou um recurso estilístico da linguagem poética para embelezar a linguagem. Pelo contrário, ela é um mecanismo fundamental do pensamento humano. Segundo eles, a metáfora permite que um determinado domínio da experiência seja entendido em termos de outro domínio. Aliás, este é o conceito de metáfora que os autores apresentam: “A essência da metáfora é compreender e experenciar uma coisa em termos de outra” (Lakoff & Johnson, 2002, p. 47-48). Fazemos isso o tempo todo e de forma tão natural que, na maioria das vezes, nem sequer percebemos que estamos utilizando metáforas. E na verdade, conceitos tão abstratos como amor, felicidade, tempo, vida e tantos outros só podem ser compreendidos metaforicamente.
Segundo a teoria da metáfora conceitual, nós pensamos, compreendemos e explicamos o mundo através de sistemas conceituais metafóricos, nos quais um domínio de experiência mais concreto, chamado domínio-fonte, é usado para estruturar e compreender outro mais abstrato ou difícil de explicar, chamado domínio-alvo. Em outras palavras, o alvo é aquilo que pretendemos compreender, conceituar, experenciar ou explicar; já a fonte é de onde retiramos as referências metafóricas para elucidar o nosso alvo (Lakoff e Johnson, 2002). Assim, a metáfora conceitual apresenta a seguinte fórmula: DOMÍNIO-ALVO É DOMÍNIO-FONTE (sempre em caixa alta), como no exemplo: A VIDA É UMA VIAGEM.
Por exemplo, quando eu digo “morrer é fazer a travessia para outra margem do rio”, estou estruturando o conceito metafórico A VIDA É UMA VIAGEM. Nessa metáfora, o domínio-fonte é “viagem”, que pressupõe caminho, estrada, travessia, parada, guia, destino, retorno, etc.; já o domínio-alvo é “vida”, que engloba nascer, crescer, aprender, envelhecer, morrer, reencontrar os ancestrais, etc.
Na língua (escrita ou falada), utilizamos expressões metafóricas que verbalizam a metáfora que se encontra em nosso pensamento ou cognição. Dessa forma, a metáfora A VIDA É UMA VIAGEM licencia o sentido de expressões como estas: “chegou ao mundo uma nova criança”, “ele está no começo da caminhada”, “ela seguiu um novo rumo”, “a Maria já passou dos quarenta”, “o João se perdeu nos caminhos da vida”, “sigo a longa estrada da vida”, “Estamos vivendo em uma nova estação”, “Ele terminou em paz a sua jornada”, “um dia cada um de nós partirá para a eternidade”. Na oralidade de muitos povos, a vida é entendida como um caminho, um percurso espiritual e físico em que se anda junto com a floresta, os rios, os animais e os ancestrais.
De modo mais específico, podemos conceptualizar a “vida” como uma “viagem pelo rio”, de onde é possível compreender a morte como sendo a “travessia para outra margem” (MORRER E ATRAVESSAR O RIO). Essa metáfora específica estrutura-se como uma metáfora ontológica de caráter espacial, nos termos de George Lakoff e Mark Johnson (2002), ao projetar sobre o conceito abstrato de morte o esquema imagético concreto de deslocamento no espaço. O domínio-fonte (a travessia de um rio) fornece categorias como percurso, margem, passagem e continuidade, que reorganizam o domínio-alvo (a morte) como processo transitivo e não como aniquilamento.
Trata-se de uma metáfora liminar, pois mobiliza o símbolo do rio como fronteira entre estados ontológicos distintos – vida e além –, recorrente em tradições míticas e literárias. No plano semântico-discursivo, a metáfora atenua a ruptura associada ao morrer e reconfigura o evento como transformação, instaurando uma perspectiva teleológica implícita: há um “outro lado”, ainda que indeterminado. Assim, a formulação desloca a morte do campo do término para o da passagem, produzindo um efeito de continuidade simbólica e reorganizando o imaginário existencial em torno da ideia de trânsito.
Lakoff e Johnson (2002) sustentam que o conhecimento humano é estruturado por sistemas metafóricos que organizam a experiência antes mesmo de sua formulação proposicional. A metáfora, nessa concepção, é um mecanismo cognitivo que possibilita a apreensão do abstrato por meio de esquemas concretos, configurando o modo como inferimos, deliberamos e projetamos ações: “Em todos os aspectos da vida, definimos nossa realidade em termos de metáforas e então começamos a agir com base nelas. Fazemos inferências, fixamos objetivos, estabelecemos compromissos e executamos planos, tudo na base da estruturação consciente ou inconsciente de nossa experiência por meio de metáforas” (Lakoff & Johnson, 2002, p. 260).
Desse modo, a construção da realidade não é neutra nem transparente, mas mediada por mapeamentos conceituais que operam como matrizes interpretativas da experiência. A dimensão epistêmica da metáfora reside, portanto, em seu papel constitutivo: ela não apenas expressa o pensamento, mas participa da própria formação do conhecimento, estruturando categorias, valores e práticas sociais.
Assim, Lakoff e Johnson sugerem três implicações teóricas fundamentais do discurso metafórico. Primeiramente, a dimensão epistemológica: nossa compreensão da realidade é mediada por esquemas metafóricos. Não acessamos o mundo de forma “neutra”; interpretamos a experiência por meio de modelos conceituais; a dimensão pragmática: as metáforas influenciam comportamentos. Nesse sentido, metáfora organiza práticas sociais; dimensão ética e política: quem controla as metáforas dominantes influencia a percepção coletiva da realidade. As metáforas nunca são inocentes, elas orientam políticas e atitudes.
Como se vê, Lakoff e Johnson deslocam a metáfora do campo da retórica para o da cognição. A metáfora deixa de ser figura e passa a ser fundamento, não apenas um modo de falar sobre a realidade, mas um modo de constituí-la simbolicamente.
Referindo-se à teoria da metáfora conceitual, a pesquisadora Lilian Ferrari explicita:
A metáfora é, essencialmente, um mecanismo que envolve a conceptualização de um domínio de experiência em termos de outro. Sendo assim, para cada metáfora, é possível identificar um domínio-fonte e um domínio-alvo. O domínio-fonte envolve propriedades físicas e áreas relativamente concretas da experiência, enquanto o domínio-alvo tende a ser mais abstrato (Ferrari, 2011, p. 92).
A metáfora movimenta os conceitos do domínio-fonte em direção ao domínio-alvo. “O repertório de conhecimentos, informações, concepções e crenças que temos relativamente ao domínio-fonte é deslocado para o domínio-alvo” (Guedelha, 2025, p. 11). Ferrari destaca a distinção entre domínio-alvo e domínio-fonte: o domínio-fonte corresponde a áreas mais concretas da experiência humana, geralmente perceptíveis pelos sentidos, ligadas ao corpo, ao espaço, ao movimento, ao tempo cronológico, etc.; já o domínio-alvo tende a ser abstrato – conceitos como tempo, amor, morte, poder, vida em sociedade.
O que Ferrari ressalta, com base em Lakoff e Johnson, é que esse processo não se limita a expressões linguísticas isoladas, mas revela formas sistemáticas de compreender o mundo. A metáfora cria mapas conceituais que estruturam nosso raciocínio, muitas vezes de maneira inconsciente, orientando, inclusive, comportamentos e valores culturais. Isso nos leva a entender a metáfora como um mapeamento estruturado entre áreas de experiência, um dispositivo cognitivo que explica por que certas metáforas são recorrentes em diferentes línguas e culturas. Em síntese, a metáfora não “enfeita” a linguagem, mas modela o pensamento, deslocando significados do concreto para o abstrato e permitindo que realidades complexas sejam concebidas por meio de mecanismos psicoassociativos.
2. METÁFORAS DE AILTON KRENAK
Selecionamos treze metáforas de Ailton Krenak, que analisamos com base nesse escopo teórico da metáfora conceitual, assumindo, juntamente com Lakoff e Johnson, que a metáfora, para além de uma figura de linguagem, é um mecanismo psicoassociativo da cognição e da experiência humana com as coisas do mundo, ou seja, ela é a força motriz da cosmopercepção. Metodologicamente, apresentamos um texto de Krenak que contém a metáfora selecionada e em seguida procedemos ao desempacotamento da metáfora, que diz respeito à análise da mesma. Para a seleção das metáforas, adotamos como critério básico aquelas em que o autor mobiliza categorias ocidentais (não-indígenas) para desvelar a cosmovisão ocidental e, em seguida, apresentar a cosmopercepção indígena como contraponto.
Os livros Ideias para adiar o fim do mundo (2020a), A vida não é útil (2020b) e Futuro ancestral (2022) foram organizados a partir de palestras, conferências, lives, entrevistas e outras falas públicas do autor. As obras resultaram da transcrição e edição dessas falas orais, preservando o tom ensaístico, reflexivo e performativo característico do autor.
Publicados pela Companhia das Letras a partir de 2019, os textos funcionam como ensaios autônomos, mas interligados por um mesmo eixo temático: a crítica à ideia moderna de “humanidade” como categoria homogênea e a denúncia do projeto civilizatório que separa ser humano e natureza. A estrutura do livro mantém a fluidez da oralidade, evitando o excessivo aparato acadêmico, o que reforça sua força discursiva e acessibilidade.
A organização privilegia a continuidade argumentativa: parte-se da problematização do conceito de humanidade, avança-se para a crítica ao modelo desenvolvimentista e à devastação ambiental, e culmina-se na proposição de outras formas de existência e imaginação do mundo. Assim, os livros não são apenas reuniões de palestras, mas sim conjuntos coerentes de reflexões que articulam pensamento indígena, filosofia política e crítica cultural, preservando a potência da palavra falada como gesto de resistência e reinvenção do futuro. Para rastrear o discurso metafórico do autor, selecionamos as metáforas mais expressivas dos livros, com foco naquelas que articulam categorias ocidentais como domínio-fonte.
A) Metáfora: A HUMANIDADE É UM CLUBE EXCLUSIVO
Krenak critica a ideia moderna de humanidade como se fosse um condomínio fechado: poucos entram, muitos ficam de fora (indígenas, natureza, rios, florestas). É esse “clube da humanidade” que decide quem merece existir. Ele desmonta essa lógica mostrando que a Terra não é um recurso, é parente:
As andanças que fiz por diferentes culturas e lugares do mundo me permitiram avaliar as garantias dadas ao integrar esse clube da humanidade. E fiquei pensando: “Por que insistimos tanto e durante tanto tempo em participar desse clube, que na maioria das vezes só limita a nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade?” Será que não estamos sempre atualizando aquela nossa velha disposição para a servidão voluntária? Quando a gente vai entender que os Estados nacionais já se desmancharam, que a velha ideia dessas agências já estava falida na origem? Em vez disso, seguimos arrumando um jeito de projetar outras iguais a elas, que também poderiam manter a nossa coesão como humanidade (Krenak, 2020a, p. 13).
A metáfora do “clube da humanidade” é carregada de ironia crítica e questionamento político-existencial. Um clube é uma instituição com regras de admissão, hierarquias, exclusões e privilégios. Ao falar em “clube da humanidade”, Krenak sugere que a humanidade foi organizada como um círculo fechado, onde nem todos têm acesso igual, e onde a pertença vem acompanhada de normas restritivas. Assim, a metáfora denuncia a falsa universalidade do conceito de “humanidade”: há quem seja admitido como “membro pleno” e quem viva às margens, tratado como menos humano.
Krenak sugere que as pessoas, ao aceitarem entrar no “clube”, aceitam também suas regras de exclusão, subordinação e controle, abrindo mão da potência de existir fora desse enquadramento. O “clube”, portanto, não liberta, mas limita a invenção, a criação, a existência e a liberdade. Para ele, os Estados nacionais já se desmancharam e que a ideia de instituições globais (ONU, Banco Mundial etc.) nasceu falida, pois nunca incluíram de fato todas as formas de vida e existência.
O “clube” é uma metáfora da própria modernidade ocidental: projetos de universalização que prometem coesão, mas funcionam como máquinas de homogeneização e controle. O texto critica a insistência humana em criar novos “clubes” (novas instituições multilaterais, novas formas de “coesão”), sempre repetindo a mesma lógica de exclusão. A metáfora traz, portanto, uma crítica à reprodução da servidão voluntária: em vez de reinventar a vida em liberdade, criamos versões atualizadas do mesmo cárcere institucional. E o “clube da humanidade” não é só político, mas também ontológico: questiona quem define o que é ser humano, quem controla esse estatuto e quais vidas ficam fora dele. É uma metáfora que desconstrói a noção de humanidade universal e abre espaço para pensar outras formas de pertencimento, mais plurais e abertas, ligadas ao que Krenak chama de “existência” e não de “humanidade regulada”.
Em suma, a metáfora do clube da humanidade denuncia a humanidade como um dispositivo excludente, que funciona como uma associação fechada, restringindo a liberdade e impondo normas que domesticam a vida. Em vez de afirmar a pluralidade de existências, esse clube reproduz a lógica de dominação e homogeneização, sustentada pela servidão voluntária. Krenak propõe, implicitamente, que saiamos desse clube, ou ao menos que questionemos seu valor, para recriar modos de viver que não dependam das amarras institucionais da modernidade.
B) Metáfora: A HUMANIDADE É UM GRANDE LIQUIDIFICADOR
A imagem do “liquidificador chamado humanidade”, em Ailton Krenak, é brutal e ao mesmo tempo precisa, cirúrgica.
Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos (Krenak, 2020, p. 14).
A metáfora do “liquidificador humano” articula a crítica à modernidade e ao processo de desenraizamento das populações tradicionais. O liquidificador é um mecanismo que tritura, mistura e transforma elementos diversos em uma massa homogênea. Assim, o liquidificador representa o processo de triturar e dissolver as diferenças. Assim como frutas e legumes perdem suas formas quando entram na máquina, os povos, quando arrancados de seus contextos originários (campo, floresta, coletivos), perdem suas referências culturais, identitárias e espirituais. A modernidade, nesse enquadramento, aparece como uma força que desarticula as coletividades e transforma sujeitos em “massa” indistinta de mão de obra para os centros urbanos.
Krenak denuncia que esse processo não é neutro: é alienador e enlouquecedor. Sem vínculos com memória ancestral e referências de identidade, os indivíduos ficam vulneráveis ao adoecimento psíquico e social. A metáfora também critica a noção de “humanidade” como universal abstrato. No liquidificador, a humanidade não é pluralidade harmoniosa, mas mistura caótica que anula singularidades. A imagem do liquidificador é cotidiana, acessível, mas ao mesmo tempo brutal. Ela causa estranhamento porque contrasta com a ideia idealizada de “humanidade una e solidária”. Ao escolher um utensílio doméstico para representar um processo global, Krenak mostra como a modernidade industrial banalizou a destruição da diversidade cultural, tornando-a quase uma operação técnica, automática.
Quando Krenak diz que populações foram “jogadas nesse liquidificador”, ele está denunciando um processo histórico de desenraizamento, urbanização forçada, apagamento cultural e padronização de modos de vida. O que antes era plural – povos, cosmologias, ritmos, territórios – vira “mão de obra”. A humanidade, que deveria ser diversidade viva, torna-se mistura sem rosto. Ele usa verbos fortes: “arrancadas”, “jogadas” para explicitar que não se trata de migração natural. É deslocamento violento. A modernização aparece como força centrífuga que retira as pessoas do campo e da floresta para encaixá-las no sistema urbano-industrial. É um cenário de violência simbólica exacerbada.
Então o liquidificador é ícone do capitalismo moderno: gira rápido, produz ruído, exige energia constante e transforma tudo em matéria funcional. Krenak assinala que, vivendo sem vínculo com memória ancestral, as pessoas “vão ficar loucas”. Essa “loucura” não é patologia clínica, é desorientação existencial. Porque quando o território é perdido, os rituais se rompem e a ancestralidade é deslegitimada, a identidade se fragmenta. Ele desmonta a noção iluminista de humanidade homogênea. Para ele, essa humanidade única é um projeto colonial. O liquidificador é também essa falsa universalização.
Todavia, Krenak não escreve para paralisar. Ele sugere o contrário do liquidificador: vínculos profundos, memória ancestral, identidade sustentada e diversidade preservada: se o liquidificador homogeneíza, a memória singulariza.
C) Metáfora: IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE SÃO PARAQUEDAS COLORIDOS
Uma das ideias que atravessam a obra de Ailton Krenak é da “queda” da humanidade como expressão da crise civilizatória moderna. Um despencar contínuo provocado pela ruptura entre humanidade e natureza, entre técnica e sentido, entre progresso e vida. A queda representa o colapso do projeto moderno de civilização, que está nos arrastando para o abismo. É no âmbito dessas considerações filosóficas que Krenak introduz a metáfora dos paraquedas coloridos:
Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos (Krenak, 2020a, p. 30).
Ao afirmar que “a gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar”, o autor sugere que o colapso não é evento futuro, mas condição histórica já em curso, marcada por desintegração ambiental, social e subjetiva. A repetição do verbo “cair” intensifica a sensação de vertigem e performa linguisticamente o próprio movimento que descreve, instaurando um ritmo que mimetiza a instabilidade do presente. Entretanto, a proposição de “construir paraquedas coloridos” opera uma inflexão semântica decisiva: se a queda é inevitável, é possível reinventar o modo de atravessá-la. O paraquedas, símbolo de imaginação crítica, diversidade cultural e criação coletiva, converte a experiência do abismo em possibilidade estética e política, enquanto a ampliação do “espaço confinado” ao “cosmos” reconfigura ontologicamente a percepção do mundo, substituindo a clausura moderna por uma abertura plural. Assim, a metáfora articula diagnóstico e horizonte de ação, configurando a imaginação como prática de resistência diante do esgotamento do paradigma civilizatório dominante.
Assim temos duas metáforas em interação: a metáfora orientacional da queda e a metáfora inventiva dos “paraquedas coloridos”. Ambas dialogam entre si, construindo uma crítica e uma proposta de reinvenção. As metáforas orientacionais, segundo Lakoff & Johnson (2002), estruturam o nosso pensamento a partir de experiências corporais básicas, como cima/baixo, dentro/fora, frente/atrás. “Cair” carrega, culturalmente, valores negativos: perder estabilidade, fracassar, morrer. É a imagem de algo que sai do controle. A “queda” aludida é o colapso de modelos civilizatórios, ambientais e políticos – a crise planetária. Krenak provoca essa associação: lembra que já estamos em queda contínua (“cair, cair, cair”), seja em termos ambientais, políticos ou civilizatórios. O desconforto com a sensação de cair seria, então, uma ilusão: a queda não é ameaça futura, mas condição presente.
Frente à inevitabilidade da queda, a proposta não é negá-la, mas ressignificá-la. Os paraquedas coloridos simbolizam: criatividade: cores sugerem diversidade, imaginação, arte; possibilidade de suavizar o impacto: não se trata de evitar a queda, mas de transformar a experiência em algo estético e coletivo; nova perspectiva espacial: em vez de medo do precipício, uma abertura ao cosmos, à amplitude do espaço, ao voo como experiência. Assim, a metáfora desloca a queda de um sentido trágico para um sentido criativo e existencial.
Ao propor que pensemos o espaço como cosmos, não como prisão, Krenak amplia a metáfora: a queda não é dentro de um buraco ou confinamento, mas um movimento dentro de uma totalidade maior. Isso remete ao pensamento indígena de integração com o universo, em contraste com a visão moderna de queda como perda absoluta. Então temos a reflexão: a metáfora orientacional da queda revela nossa condição atual de crise e instabilidade: já estamos caindo, não adianta fingir que não. A metáfora dos paraquedas coloridos propõe uma saída simbólica: transformar a queda em experiência criativa, plural e cósmica, que nos permita inventar novas formas de vida. Juntas, essas imagens desconstruem o medo do colapso e abrem espaço para uma política da imaginação e da reinvenção coletiva.
Em A vida não é útil, Krenak inclui as artes – como a música, a dança, a poesia – entre as formas de paraquedas coloridos ao nosso dispor. Porque é do ofício da arte a reinvenção da vida. Afirma que para ele o poeta Carlos Drummond de Andrade “é daqueles paraquedas coloridos que eu menciono em Ideias para adiar o fim do mundo. Drummond é meu escudo” (Krenak, 2020b, p. 24). Cita especialmente o poema “O homem; as viagens”, no qual Drummond mostra o homem colonizando todo o sistema solar e se preparando para colonizar todos os sistemas fora do solar. Mas o poeta questiona se algum dia o homem estará equipado para a perigosíssima viagem de si a si mesmo, a fim de pôr o pé no chão do seu coração e colonizar a si mesmo. Krenak cita também Gilberto Gil e Milton Nascimento entre outros artistas que fabricam paraquedas coloridos capazes de amenizar a nossa queda.
D) Metáfora: O MUNDO É UMA ENCOMENDA
A metáfora do mundo como encomenda desloca a discussão ecológica e histórica para o campo da responsabilidade intergeracional, convertendo o mundo em objeto simbólico de consumo e herança. Por isso prisma, todos somos responsáveis pela situação em que se encontra o planeta:
O estado de mundo que vivemos hoje é exatamente o mesmo que os nossos antepassados recentes encomendaram para nós. Na verdade, a gente vive reclamando, mas essa coisa foi encomendada, chegou embrulhada e com o aviso: “Depois de abrir, não tem troca”. Há duzentos, trezentos anos ansiaram por esse mundo. Um monte de gente decepcionada, pensando: “Mas é esse mundo que deixaram para a gente?”. Qual é o mundo que vocês estão agora empacotando para deixar às gerações futuras? O.k., você vive falando de outro mundo, mas já perguntou para as gerações futuras se o mundo que você está deixando é o que elas querem? A maioria de nós não vai estar aqui quando a encomenda chegar. Quem vai receber são os nossos netos, bisnetos, no máximo nossos filhos já idosos. Se cada um de nós pensa um mundo, serão trilhões de mundos, e as entregas vão ser feitas em vários locais. Que mundo e que serviço de delivery você está pedindo? Há algo de insano quando nos reunimos para repudiar esse mundo que recebemos agorinha, no pacote encomendado pelos nossos antecessores; há algo de pirraça nossa sugerindo que, se fosse a gente, teríamos feito muito melhor” (Krenak, 2020a, p. 68).
Ao afirmar que o “estado de mundo” foi “encomendado” pelos antepassados e entregue com a cláusula “depois de abrir, não tem troca”, Krenak ironiza a lógica mercantil que estrutura a modernidade, sugerindo que o projeto civilizatório – industrial, desenvolvimentista e predatório – foi desejado, solicitado e agora recebido como produto acabado. A imagem do pacote enfatiza a irreversibilidade das escolhas históricas e evidencia o caráter cumulativo das decisões humanas, enquanto o vocabulário do “delivery” intensifica a crítica ao imaginário consumista que transforma até o destino planetário em mercadoria sob demanda.
Ao questionar que mundo estamos “empacotando” para as gerações futuras, o autor amplia a metáfora para uma ética da responsabilidade: se cada geração faz seu pedido, alguém inevitavelmente arcará com a entrega. Assim, a figura da encomenda articula ironia e denúncia, revelando a contradição entre o desejo moderno de progresso e a incapacidade de assumir as consequências do próprio pedido civilizatório.
Assim, a metáfora mobiliza imagens do consumo contemporâneo (pacote, delivery, aviso de troca) para pensar a responsabilidade histórica e a transmissão entre gerações. A metáfora apresenta o mundo atual como algo “embrulhado” e entregue a nós, tal qual um objeto que chega pelo correio. Isso reforça a ideia de que o presente não surgiu do nada: é o resultado de escolhas históricas feitas no passado (pelos antepassados que “encomendaram” esse modelo de mundo). O detalhe “depois de abrir, não tem troca” ironiza a lógica do consumo, aplicando-a à vida coletiva: o mundo que recebemos não pode ser devolvido. O gesto de “reclamar do pacote” mostra nossa postura contraditória: criticamos o mundo herdado, mas esquecemos que ele foi o fruto de desejos e decisões de outros tempos. A frustração (“é esse o mundo que deixaram para a gente?”) revela o choque entre expectativa e realidade, comum em toda recepção de herança histórica.
A metáfora se desdobra: assim como recebemos um pacote, também estamos empacotando um mundo para os que virão. Essa virada provoca uma reflexão ética: que tipo de “encomenda” estamos preparando? A imagem do delivery atualiza a metáfora, conectando-a ao nosso presente tecnológico e às práticas de consumo imediatista. O que hoje pedimos e escolhemos como humanidade será entregue às futuras gerações. Quando Krenak diz que se cada um pensa um mundo, teremos “trilhões de mundos”, ele expande a metáfora: não existe um único pacote, mas infinitas possibilidades de encomenda. O problema está em como esses mundos são articulados coletivamente e em como o serviço de “entrega” (as instituições, as práticas sociais) organiza o que de fato chega ao futuro.
A imagem ainda aponta uma certa pirraça nossa, quando imaginamos que faríamos melhor do que os antepassados, sem reconhecer que também estamos produzindo contradições que serão herdadas. Ou seja, ela desarma a ilusão de superioridade moral diante do passado, lembrando que nossos netos também poderão se decepcionar com o pacote que vamos deixar.
Dessa forma, a metáfora do mundo como encomenda transforma a história em uma cadeia de pedidos e entregas, onde cada geração recebe um pacote dos antepassados e prepara outro para o futuro. Ela articula consumo, herança e responsabilidade ética, desmontando a postura de mera queixa diante do presente e convidando a pensar que mundo estamos “empacotando”. A ironia do “não tem troca” enfatiza que não há como devolver a história: só podemos lidar com o que recebemos e cuidar melhor do que vamos deixar.
E) Metáfora: A MODERNIDADE É UM VÍCIO
A metáfora da modernidade como vício estrutura uma crítica contundente ao imaginário civilizatório contemporâneo. Ao afirmar que “estamos viciados em modernidade”, Krenak desloca o debate do campo meramente histórico ou sociológico para o plano psíquico e existencial, sugerindo que a adesão ao progresso técnico não é apenas escolha racional, mas dependência compulsiva:
Estamos viciados em modernidade. A maior parte das invenções é uma tentativa de nós, humanos, nos projetarmos em matéria para além de nossos corpos. Isso nos dá sensação de poder, de permanência, a ilusão de que vamos continuar existindo. A modernidade tem esses artifícios. Isso é uma droga incrível, muito mais perigosa que as que o sistema proíbe por aí. Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da terra (Krenak, 2020b, p. 17-18).
A modernidade aparece como uma “droga incrível”, mais perigosa que as substâncias proibidas, porque seu consumo é socialmente legitimado e celebrado. Trata-se de um entorpecimento coletivo que produz sensação de poder, permanência e transcendência material. As invenções tecnológicas, descritas como tentativas de projetar o humano para além do corpo, funcionam como mecanismos de negação da finitude, oferecendo a ilusão de continuidade e controle. Contudo, esse estado de dopagem resulta em desconexão do “organismo vivo da Terra”, metáfora que reintroduz a ideia de interdependência ecológica e denuncia o rompimento ontológico promovido pelo paradigma moderno. Assim, ao associar modernidade e vício, Krenak não apenas critica o consumismo, mas também revela a dimensão narcótica do próprio projeto civilizatório, cuja promessa de progresso opera como dependência estrutural que anestesia a percepção do colapso ambiental e espiritual em curso.
F) Metáfora: O CAPITALISMO É UM CÂNCER
A crítica ao capitalismo se constrói por meio de um conjunto de metáforas orgânicas e ambientais que configuram a crise contemporânea como patologia civilizatória. Ao afirmar que “estamos vivendo uma tragédia global”, Krenak estabelece o tom dramático da análise, sugerindo não um episódio isolado, mas uma condição estrutural que atinge a totalidade do planeta:
Estamos vivendo uma tragédia global. Mesmo que alguns coletivos humanos pensem para além da linha d’água, são apenas uma amostra grátis dessa humanidade. Precisamos evocar, por meio disso, alguma visão para sairmos desse pântano. Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável (Krenak, 2020b, p. 43-44).
A expressão “pensar para além da linha d’água” introduz a imagem de submersão iminente: a humanidade estaria à beira do afogamento, e apenas alguns coletivos conseguem manter a cabeça acima da água, embora ainda representem uma “amostra grátis”, isto é, uma parcela minoritária incapaz de reverter sozinha o quadro. A metáfora do “pântano” intensifica essa sensação de estagnação e aprisionamento, evocando um ambiente viscoso, difícil de atravessar, onde o movimento se torna lento e arriscado.
Contudo, é na imagem da “metástase” que a crítica atinge maior densidade simbólica: ao comparar o capitalismo a um câncer que se espalha de forma incontrolável, infiltrando-se na vida e ocupando o planeta inteiro, Krenak equipara esse sistema econômico ao domínio do corpo doente, sugerindo que o problema não é apenas ideológico, mas vital e sistêmico. Assim, o texto articula tragédia, submersão, pântano e doença como figuras convergentes de um mesmo diagnóstico: a expansão desmedida do capitalismo produz um estado global de colapso, exigindo não apenas reformas pontuais, mas uma nova “visão” capaz de reconfigurar radicalmente nossa forma de habitar o mundo.
A metáfora do câncer é especialmente expressiva porque não sugere apenas crescimento, mas crescimento descontrolado, invasivo e autodestrutivo. Diferentemente de um organismo saudável, cujo desenvolvimento é regulado por equilíbrio e interdependência, o câncer prolifera ignorando os limites do corpo que o sustenta, e, ao fazê-lo, compromete a própria vida do hospedeiro. Nessa chave interpretativa, o capitalismo aparece como sistema que transforma expansão em princípio absoluto: precisa crescer continuamente, explorar novos territórios, extrair mais recursos, ampliar mercados. Assim como a célula cancerígena não reconhece o limite do tecido que invade, o capitalismo não reconhece os limites ecológicos do planeta. A metáfora, portanto, enfatiza a lógica expansiva e ilimitada do sistema, que consome o próprio corpo da Terra enquanto depende dele para existir.
Outro aspecto importante da imagem é a ideia de infiltração silenciosa. A metástase não é apenas o tumor original, mas sua disseminação para diferentes órgãos, muitas vezes de maneira imperceptível até que o quadro se torne crítico. Krenak sugere que o capitalismo deixou de ser apenas um modelo econômico e se infiltrou na cultura, nas subjetividades, nos afetos e nos modos de vida. Ele passa a organizar desejos, relações e percepções de mundo, naturalizando o consumo, a competição e a utilidade como valores universais.
Há ainda uma dimensão ética nessa metáfora: o câncer não é um inimigo externo, mas algo que emerge do próprio corpo. Ao empregar essa imagem, Krenak indica que o problema não está fora da humanidade, mas no modo como estruturamos nossa convivência e nossas escolhas históricas. A crítica, portanto, não é apenas sistêmica, mas também existencial. Portanto, a metáfora aponta para uma encruzilhada: diante de um câncer, ou se intervém radicalmente para restabelecer o equilíbrio, ou o organismo entra em colapso. Ao caracterizar o capitalismo como metástase, Krenak sugere que pequenas reformas não bastam; é preciso repensar profundamente o paradigma civilizatório que transforma crescimento ilimitado em sinônimo de progresso. Assim, a imagem convoca uma reconfiguração das formas de habitar a Terra, antes que o “corpo” planetário não suporte mais a proliferação desmedida.
G) Metáfora: A TERRA VIROU UM BRINQUEDO HUMANO
A metáfora do “brinquedo”, em Krenak, opera como eixo crítico para desmontar o imaginário triunfalista da técnica moderna. Ao afirmar que “tudo que a técnica nos deu foram brinquedos”, ele reduz ironicamente as grandes conquistas tecnocientíficas, inclusive a exploração espacial, à condição de objetos lúdicos destinados a poucos privilegiados. O foguete, símbolo máximo do progresso, é rebaixado a artefato de entretenimento para “trinta, quarenta caras”, revelando o caráter elitista e espetacular da modernidade tecnológica. A imagem do brinquedo sugere imaturidade: uma humanidade que celebra suas engenhocas enquanto ignora as consequências históricas e ambientais de sua expansão revela, nas palavras do autor, “infantilidade espiritual”:
A verdade é que tudo que a técnica nos deu foram brinquedos. O mais sofisticado que conseguimos é esse que bota a gente no espaço; e também o mais caro. É um brinquedo que só dá para uns trinta, quarenta caras brincando. E, claro, tem uns bilionários querendo brincar disso. O que me faz pensar que essa humanidade imaginária, além de ter uma tremenda infantilidade espiritual, não consegue tecer críticas sobre a sua história. História que, na maioria das vezes, é uma vergonha. O que há para ser celebrado no fato de que podemos falar numa live para 3 mil ou 4 mil pessoas por um aparelhinho que é produto de uma civilização que está comendo a Terra para fazer brinquedos? Só que a Terra é um organismo muito maior que nós, muito mais sábio e poderoso, e nós, seu brinquedo mais inútil. A Terra pode nos desligar tirando nosso ar, não precisa nem fazer barulho (Krenak, 2020b, p. 59-60).
Como vemos, o autor questiona o fetiche da conectividade: a live transmitida para milhares de pessoas por um “aparelhinho” produzido por uma civilização que “está comendo a Terra”. O brinquedo, nesse sentido, não é apenas objeto de diversão, mas resultado de um processo predatório que consome o planeta para sustentar o entretenimento e a sensação de poder. A metáfora, portanto, articula dois níveis: por um lado, denuncia a superficialidade celebratória da técnica; por outro, expõe o custo ecológico invisibilizado por essa mesma celebração.
A inversão final é decisiva: se a humanidade trata a tecnologia como brinquedo, Krenak sugere que nós é que somos “o brinquedo mais inútil” da Terra. Essa reviravolta simbólica desloca o centro da hierarquia antropocêntrica e reinsere o humano como parte frágil de um organismo maior. A Terra, descrita como entidade sábia e poderosa, pode “nos desligar” sem esforço, imagem que remete à simplicidade de um gesto banal, como apertar um botão. Assim, a metáfora do brinquedo sintetiza a crítica à arrogância tecnológica e reafirma a vulnerabilidade humana diante da potência do planeta, desestabilizando a narrativa de domínio que sustenta o projeto moderno.
Na metáfora da terra como um brinquedinho tecnológico, Krenak assinala, em referência à pandemia de covid-19: “Estamos passando por um ajuste de foco no qual temos a oportunidade de decidir se queremos ou não apertar o botão da nossa autoextinção, mas todo o resto da Terra vai continuar existindo” (Krenak, 2020b, p. 58). Ao evocar a pandemia como “ajuste de foco”, sugere que a crise sanitária não é apenas desastre, mas revelação: ela desmonta a ilusão de domínio técnico sobre a vida e expõe a fragilidade humana.
O “botão da autoextinção” condensa a ideia de que a humanidade, ao operar o mundo como se fosse um dispositivo manipulável, age como criança fascinada por seus próprios artefatos, sem medir consequências. Contudo, mesmo que apertemos esse botão, “todo o resto da Terra vai continuar existindo”. Em outras palavras, não é o planeta que está ameaçado em termos absolutos, mas a permanência da espécie humana. Assim, Krenak desestabiliza o antropocentrismo e reafirma a autonomia da Terra como organismo maior, para o qual a humanidade pode ser apenas um episódio transitório.
H) Metáfora: O MUNDO MODERNO É UM SHOPPING CENTER
A metáfora do mundo como um grande shopping veicula uma forte crítica: o shopping é espaço paradigmático do consumo, da circulação incessante de mercadorias e do desejo administrado. Ao dizer que os “grandes templos contemporâneos são shoppings”, o autor funde economia e espiritualidade, indicando que o consumo substituiu o sagrado, e que até templos religiosos reproduzem essa lógica mercantil:
As religiões, a política, as ideologias se prestam muito bem a emoldurar uma vida útil. Mas quem está interessado em existência utilitária deve achar que este mundo está ótimo: um tremendo shopping. Os grandes templos contemporâneos são shoppings (inclusive alguns que são templos mesmo). Os povos originários ainda estão presentes neste mundo não porque foram excluídos, mas porque escaparam, é interessante lembrar isso. Em várias regiões do planeta, resistiram com toda força e coragem para não serem completamente engolfados por esse mundo utilitário. Os povos nativos resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado, e, na maioria das vezes, são tratados como loucos. Escapar dessa captura, experimentar uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida, cria um lugar de silêncio interior. Nas regiões que sofreram uma forte interferência utilitária da vida, essa experiência de silêncio foi prejudicada (Krenak, 2020b, p. 111-112).
Ao afirmar que religiões, política e ideologias “emolduram uma vida útil”, Krenak sugere que até mesmo esferas tradicionalmente associadas ao sentido e à transcendência foram capturadas pela lógica funcional e produtivista. A contraposição surge quando Krenak afirma que os povos originários permanecem não por exclusão, mas porque “escaparam”. O verbo é decisivo: escapar implica consciência do risco e gesto deliberado de resistência à captura pelo mundo utilitário. A metáfora da “captura” sugere aprisionamento simbólico, como se a racionalidade ocidental fosse uma rede que tenta engolfar todas as formas de vida. Resistir, nesse contexto, é preservar outro regime de existência – não orientado pela utilidade, mas por vínculos cosmológicos e comunitários.
O texto culmina na imagem do “lugar de silêncio interior”, contraponto ao ruído permanente do consumo e da produtividade. O silêncio aparece como experiência ontológica profunda, prejudicada nas regiões onde a interferência utilitária foi intensa. Assim, Krenak articula uma crítica civilizatória que vai além da economia: ele denuncia uma colonização do sensível e do espiritual, contrapondo ao “shopping” do mundo moderno a possibilidade de uma existência que não se mede por função, lucro ou desempenho, mas por relação e interioridade.
I) Metáfora: AS CIDADES SÃO IMPLANTES NO CORPO DA TERRA
As cidades como “implante sobre o corpo da Terra” materializam uma metáfora cirúrgica da intervenção moderna no planeta. O termo “implante” sugere algo artificial, inserido de modo invasivo em um organismo vivo, evocando a ideia de enxerto que não nasce do corpo, mas é acoplado a ele. Assim, as cidades deixam de ser vistas como expressão natural da cultura humana e passam a figurar como próteses que violentam a integridade do território. A metáfora corporal reorganiza o debate ecológico: a Terra não é cenário ou recurso, mas corpo sensível, dotado de integridade própria:
Eu sempre olhei as cidades do mundo como um implante sobre o corpo da Terra. Como se, não satisfeitos com a beleza dela, pudéssemos fazê-la diferente do que ela é. A gente deveria é diminuir a investida sobre seu corpo e respeitar sua integridade. Quando os indígenas falam: “A Terra é nossa mãe”, outros dizem: “Eles são tão poéticos, que imagem mais bonita!”. Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra. Quando alguém a fura, machuca ou arranha, desorganiza nosso mundo (Krenak, 2020b, p. 113-114).
Quando Krenak retoma a expressão indígena “a Terra é nossa mãe”, ele recusa sua leitura como simples figura poética e a reivindica como enunciado ontológico. Trata-se de uma afirmação de pertencimento radical: “estamos colados no corpo da Terra”. Essa formulação dissolve a separação moderna entre sujeito e natureza, substituindo-a por uma lógica de interdependência. Ferir a Terra, portanto, não é dano externo: é autolesão civilizatória. Ao afirmar que “quando alguém a fura, machuca ou arranha, desorganiza nosso mundo”, o autor explicita que o desequilíbrio ambiental é também desorganização simbólica e existencial.
Desse modo, a metáfora do implante confronta o antropocentrismo e a lógica transformadora da modernidade, propondo uma ética de contenção e respeito. O corpo da Terra não é matéria inerte a ser moldada segundo o desejo humano, mas organismo do qual fazemos parte, e cuja integridade condiciona a nossa própria possibilidade de existência. A cidade, tradicionalmente celebrada como ápice da civilização, aparece como prótese invasiva, algo inserido no organismo terrestre sem necessariamente respeitar sua lógica vital.
A palavra “implante” carrega sentidos médicos e cirúrgicos: pressupõe incisão, perfuração, adaptação forçada. Um implante pode até funcionar, mas altera a integridade do corpo que o recebe. Essa imagem sugere que o crescimento urbano não decorre de um diálogo com o território, mas de uma intervenção que impõe ao solo, aos rios e às florestas uma racionalidade externa. O traçado geométrico das ruas, o concreto que impermeabiliza o chão, a verticalização que substitui a paisagem natural, tudo isso pode ser lido como camadas artificiais sobrepostas a um corpo vivo.
A metáfora também implica uma crítica à ideia moderna de aperfeiçoamento da natureza. Ao dizer que agimos como se pudéssemos “fazê-la diferente do que ela é”, Krenak denuncia o impulso transformador que entende a Terra como matéria bruta a ser corrigida ou superada. O implante, nesse sentido, é expressão de uma vontade de remodelar o mundo segundo parâmetros técnicos e estéticos humanos, ignorando os ritmos ecológicos que sustentam a vida. E sendo a Terra corpo, e não cenário, a cidade não está fora dela, mas colada, incrustada. Isso elimina a ilusão de exterioridade: não existe “ambiente” separado da vida urbana. Quando rios são canalizados, solos são escavados ou florestas são suprimidas para expansão imobiliária, não se trata apenas de alteração paisagística, mas de reorganização violenta de um organismo maior do qual dependemos.
Ampliando essa leitura, a cidade como implante evidencia a tensão entre dois paradigmas: o da integração orgânica e o da imposição técnica. No primeiro, o humano se percebe parte de um sistema vivo; no segundo, assume-se como engenheiro de um mundo a ser moldado. Ao optar pela metáfora cirúrgica, Krenak não nega a existência das cidades, mas questiona sua forma e escala, sugerindo que o problema não é habitar coletivamente, e sim fazê-lo como se o planeta fosse matéria inerte. Assim, a metáfora do implante artificial não é mera crítica urbanística; é denúncia de uma cosmovisão que rompe o vínculo simbólico entre humanidade e Terra. Ao propor “diminuir a investida sobre seu corpo”, Krenak convoca uma ética de contenção, na qual o espaço urbano deixe de ser prótese agressiva e passe a buscar formas de coexistência menos invasivas com o organismo planetário.
J) Metáfora: A HUMANIDADE SEGUE NO PILOTO AUTOMÁTICO
Krenak, problematiza a forma como a modernidade transformou a técnica em condição “natural” da existência humana. Ao afirmar que naturalizamos as máquinas como próteses do corpo, o autor mobiliza uma metáfora potente: a tecnologia deixa de ser instrumento e passa a funcionar como extensão orgânica, quase inevitável, da vida. A palavra “prótese” sugere algo que substitui ou complementa uma falta. Porém, no contexto do discurso do autor, essa substituição não é neutra, ela implica dependência e perda de autonomia:
Nós naturalizamos, desde o século XX, o uso de um monte de máquinas como se fossem próteses do nosso corpo (...) Nós estamos virando todos involuntários de um mundo que naturalizou mil traquitanas como extensões nossas. Assim, o tal progresso vai comandando a gente, e seguimos no piloto automático, devorando o planeta com fúria (Krenak, 2022, p. 52).
Quando Krenak afirma que estamos nos tornando “involuntários” de um mundo que naturalizou “mil traquitanas”, ele denuncia a internalização acrítica do discurso do progresso. O sujeito contemporâneo já não escolhe plenamente; ele opera no “piloto automático”, expressão que reforça a ideia de automatização da consciência. O progresso, que deveria servir à humanidade, passa a comandá-la. Há aqui uma inversão de papéis: o humano, criador das máquinas, torna-se governado por elas e pela lógica que as sustenta, a lógica produtivista, consumista e acelerada.
Piloto automático é o mecanismo que faz um avião voar sozinho, sem intervenção humana. Quando Krenak diz que a humanidade está no piloto automático, ele afirma que que estamos vivendo no modo automático, sem reflexão. Seguimos hábitos, rotinas e consumos sem consciência das consequências. Não questionamos o ritmo destrutivo do capitalismo e da exploração da Terra. Perdemos a capacidade de escolha consciente, de perceber o mundo e de nos relacionar de forma sensível com ele. Ou seja: vivemos sem pilotar nossa própria vida, nem o destino coletivo. Isso porque o piloto automático sugere desconexão do presente (estamos “desligados”); risco (um avião sem piloto pode colapsar); alienação (agimos como máquinas); falta de agência (não escolhemos o rumo); perda da escuta da Terra, tema central em Krenak. A metáfora sintetiza a crítica dele ao modo de vida moderno, centrado no progresso cego e na mercantilização da vida. Nesses termos, a metáfora revela que a humanidade está vivendo de forma automática e inconsciente, repetindo padrões destrutivos, incapaz de reajustar o rumo, e Krenak convoca justamente a retomar o controle da vida, reencantar o mundo e reabrir espaços de sensibilidade.
K) Metáfora: A CIDADE É A CAIXA-PRETA DA CIVILIZAÇÃO
Ailton Krenak constrói uma crítica contundente à forma como a civilização urbana se organizou historicamente e se consolidou na modernidade. Ao afirmar que “a cidade virou a caixa-preta da civilização”, ele sugere que a cidade é um dispositivo fechado, opaco, cujo funcionamento raramente é questionado. Assim como a caixa-preta de um avião guarda dados de um sistema complexo, a cidade concentra as engrenagens econômicas, políticas e energéticas do mundo contemporâneo, mas sem transparência quanto aos seus custos humanos e ambientais:
A cidade virou a caixa-preta da civilização. O corpo da Terra não aguenta mais cidades, pelo menos não essas que se configuram como uma continuidade da pólis do mundo antigo, com gente protegida por muros, e o resto do lado de fora – que pode, inclusive, tanto ser bichos selvagens quanto indígenas, quilombolas, ribeirinhos, beiradeiros. Além disso, as metrópoles são um sorvedouro de energia. Ainda há quem tenha a pachorra de dizer que o Brasil é vanguarda na produção de energia limpa. Eu não sei que história é essa, se você botar um filtro de sangue nas hidrelétricas de Tucuruí, Balbina, Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, ele entope (Krenak, 2022, p. 52-53).
Quando Krenak afirma que o “corpo da Terra não aguenta mais cidades”, retoma a postulação orgânica que atravessa seu pensamento: a Terra como organismo vivo. As cidades, sobretudo as metrópoles, aparecem como implantes agressivos nesse corpo. Ao relacioná-las à continuidade da pólis do mundo antigo, ele denuncia a permanência de uma lógica de exclusão: muros que separam os “protegidos” dos que ficam “do lado de fora”. A enumeração: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, beiradeiros, explicita que o projeto urbano-civilizatório historicamente marginaliza modos de vida não alinhados ao padrão ocidental moderno. A cidade, portanto, não é apenas espaço físico, mas modelo político que delimita quem pertence e quem é descartável.
A crítica se intensifica quando o autor chama as metrópoles de “sorvedouro de energia”. A cidade é vista como máquina insaciável, dependente de fluxos constantes de recursos extraídos de territórios distantes. Ao ironizar o discurso que apresenta o Brasil como vanguarda em energia limpa, Krenak expõe a contradição entre a retórica sustentável e os impactos socioambientais concretos. A menção às usinas hidrelétricas de Tucuruí, Balbina, Belo Monte, Santo Antônio e Jirau funciona como evidência concreta: são obras associadas a deslocamentos populacionais, impactos sobre rios e comunidades tradicionais. A imagem do “filtro de sangue” que entope é especialmente forte: ela humaniza os rios e sugere que a energia produzida carrega violência histórica e ambiental.
Retomando a metáfora central da caixa-preta, convém lembrar que, na aviação, a caixa-preta registra tudo: erros, rotas, falhas, decisões e causas de catástrofes. Pode-se dizer que ela é o depósito da memória de um desastre. Quando Krenak afirma que a cidade virou a “caixa-preta da civilização”, ele explicita que é na cidade que ficam registrados os efeitos mais graves do modo de vida moderno: poluição, desigualdade, violência, colapso ambiental, desumanização. É na vida urbana também que os erros da civilização industrial se materializam inelutavelmente. Nesse sentido, a cidade se tornou o arquivo vivo da crise, um repositório das ruínas que estamos produzindo. Ou seja, a cidade guarda, como uma caixa-preta, as marcas do desastre civilizatório em andamento. E se a cidade é o registro da falha, ao mesmo tempo ela expõe o que deu errado na relação humana com a Terra.
O texto, assim, articula três níveis de crítica: (1) a cidade como modelo excludente herdado da tradição ocidental; (2) a metrópole como máquina predatória de energia; (3) a falácia do progresso “limpo” quando sustentado por grandes empreendimentos que sacrificam territórios e povos. Krenak propõe uma revisão radical da ideia de civilização que sustenta essas estruturas. Trata-se de questionar não só como produzimos energia, mas que tipo de mundo estamos legitimando ao chamá-lo de desenvolvimento.
L) Metáfora: A URBANIZAÇÃO TEM MENTALIDADE DE CATACUMBA
Krenak aprofunda sua crítica ao modelo urbano moderno, denunciando a violência simbólica e material exercida contra a paisagem natural. A expressão “fúria de meter asfalto e cimento em tudo” revela uma lógica de ocupação agressiva, marcada pela ideia de que progresso é sinônimo de impermeabilização, retificação e controle. O asfalto e o concreto tornam-se símbolos de uma racionalidade que busca domesticar a natureza, sufocando córregos e apagando a presença visível da água.
Temos que parar com essa fúria de meter asfalto e cimento em tudo. Nossos córregos estão sem respirar, porque uma mentalidade de catacumba, agravada com a política do marco sanitário, acha que tem que meter uma placa de concreto em cima de qualquer corregozinho, como se fosse uma vergonha ter água correndo ali. As sinuosidades do corpo dos rios é insuportável para a mente reta, concreta e ereta de quem planeja o urbano. Hoje, na maior parte do tempo, o planejamento urbano é feito contra a paisagem (...) Temos que reflorestar o nosso imaginário e, assim, quem sabe, a gente consiga se reaproximar de uma poética de urbanidade que devolva a potência da vida, em vez de ficarmos repetindo os gregos e os romanos. Vamos erguer um bosque, jardins suspensos de urbanidade, onde possa existir um pouco mais de desejo, alegria, vida e prazer, ao invés de lajotas tapando córregos e ribeirões. Afinal, a vida é selvagem e também eclode nas cidades (Krenak, 2022, p. 66-71).
Ao afirmar que “nossos córregos estão sem respirar”, Krenak sugere que a canalização e o tamponamento dos cursos d’água evidenciam uma mentalidade que considera a água corrente um problema urbano, algo a ser escondido sob “placas de concreto”. A metáfora da “mente reta, concreta e ereta” contrapõe-se às “sinuosidades do corpo dos rios”: de um lado, a linearidade rígida do planejamento técnico; de outro, a curva orgânica da vida natural. Trata-se de um conflito entre duas racionalidades, a geométrica e a ecológica.
Quando o autor afirma que o planejamento urbano é feito “contra a paisagem”, ele sugere que a cidade deixou de dialogar com o território para impor-lhe um modelo abstrato, herdado da tradição clássica ocidental (“repetindo os gregos e os romanos”). A referência não é apenas histórica, mas civilizatória: trata-se da persistência de um ideal de ordem e domínio que exclui o selvagem, o imprevisível e o diverso.
A metáfora da “mentalidade de catacumba” é uma das imagens mais densas de sua crítica ao urbanismo contemporâneo. A catacumba é, historicamente, um espaço subterrâneo ligado à morte, ao ocultamento e ao confinamento. Ao associar o planejamento urbano a essa mentalidade, Krenak sugere que há uma lógica necropolítica e subterrânea orientando as decisões sobre a cidade: esconder, tamponar, soterrar. Quando córregos são cobertos por concreto, quando rios são canalizados e enterrados, a cidade passa a operar como uma catacumba, porque transforma o que é vida em algo a ser ocultado. A água corrente, que representa fluxo, fertilidade e renovação, é tratada como inconveniente, quase como algo vergonhoso. A mentalidade de catacumba, portanto, é uma mentalidade que prefere a morte controlada à vida imprevisível.
Há também uma dimensão cultural nessa metáfora. A catacumba é um espaço fechado, escuro, isolado do mundo exterior. Assim, a “mente de catacumba” é aquela que não tolera a exposição ao vivo, ao orgânico, ao selvagem. Ela prefere superfícies lisas, retas, impermeáveis, o oposto das sinuosidades dos rios. Trata-se de uma racionalidade que associa ordem à supressão da natureza. Além disso, a metáfora denuncia uma inversão ética: o que deveria ser celebrado – a água correndo, o rio urbano, a paisagem viva – é tratado como problema técnico. A cidade deixa de ser espaço de convivência com a natureza para se tornar espaço de seu sepultamento. Nesse sentido, a “mentalidade de catacumba” não é apenas urbanística; é civilizatória. Ela expressa uma cultura que teme a vida indomada e tenta contê-la sob camadas de concreto. Ao criticar essa mentalidade, Krenak propõe o contrário: abrir a cidade à luz, ao ar, ao fluxo – substituir a lógica do sepultamento pela lógica do encontro. A metáfora, portanto, condensa uma crítica ao urbanismo que sufoca e, ao mesmo tempo, convoca uma transformação imaginativa e ética da forma como habitamos o espaço urbano.Parte superior do formulário
Parte inferior do formulárioA proposta de “reflorestar o imaginário” direciona a crítica para o plano simbólico. Não basta restaurar rios ou criar áreas verdes. É preciso transformar a maneira como imaginamos a cidade. A ideia de “jardins suspensos de urbanidade” sugere uma reinvenção poética do espaço urbano, onde natureza e cidade não sejam antagonistas. Ao afirmar que “a vida é selvagem e também eclode nas cidades”, Krenak rompe a dicotomia entre urbano e natural, defendendo uma urbanidade capaz de acolher a potência vital em vez de sufocá-la. O texto, portanto, articula denúncia e utopia: denuncia o urbanismo que cimenta e silencia a paisagem; e anuncia a possibilidade de uma cidade mais sensível, desejante e viva, uma cidade que não esconda seus rios, mas que aprenda a conviver com suas curvas e seus fluxos.
M) Metáfora: SISTEMA EDUCACIONAL É SEQUESTRO DE CRIANÇAS
Krenak é contundente em sua crítica ao modelo institucional de educação, deslocando o debate do campo administrativo para o campo simbólico e afetivo. Ao afirmar que a política educacional “pensa que a escola é um prédio”, ele denuncia a redução da educação a uma infraestrutura física, como se bastasse reunir crianças em um espaço fechado para que o processo formativo aconteça. A imagem de “encher a sala e trancar a porta” sugere confinamento, burocratização e ausência de sentido – a escola como depósito de corpos, não como território de experiências:
Infelizmente, a política educacional no Brasil pensa que a escola é um prédio, e por isso desvaloriza tanto o trabalho dos educadores. Enchem a sala de meninos e trancam a porta: pronto, estão na escola. Esse lugar pode ser, inclusive, de renúncia da família à educação de suas crianças. Muitas estão a tal ponto privadas de serem orientadas em seu núcleo coletivo familiar, que, em dado momento, não conseguem mais conversar com seus pais. São sequestradas pelo sistema educacional e não há mais linguagem entre eles (Krenak, 2022, p. 112-113).
Como se vê, Krenak entende que as crianças seriam “sequestradas pelo sistema educacional”. O termo “sequestro” evoca violência, ruptura abrupta de vínculos e perda de liberdade. Ao utilizá-lo, Krenak não está falando de um crime literal, mas de uma captura simbólica: a criança é retirada do seu núcleo cultural e familiar e inserida em um sistema que muitas vezes ignora sua origem, sua linguagem e seus saberes comunitários. O sequestro, aqui, é epistemológico e afetivo.
A metáfora aponta para a ruptura da linguagem entre gerações. Quando ele afirma que “não há mais linguagem entre eles”, evidencia-se uma fratura cultural: a escola, ao invés de dialogar com o universo da família e da comunidade, pode substituí-lo ou deslegitimá-lo. A criança passa a operar com códigos que seus pais não dominam ou que não reconhecem como seus. Nesse sentido, o sistema educacional pode funcionar como agente de desenraizamento, produzindo distanciamento identitário.
Há, portanto, uma crítica à escola como instrumento de homogeneização cultural. Em vez de ser espaço de encontro entre saberes, o acadêmico e o comunitário, ela pode se tornar mecanismo de padronização, desvalorizando experiências familiares e tradições locais. O “sequestro” simboliza essa captura da subjetividade pela lógica institucional, que frequentemente privilegia conteúdos abstratos e universais em detrimento das histórias concretas das crianças.
Ao problematizar esse modelo, Krenak sugere outra concepção de educação: uma prática viva, comunitária, relacional. A escola, nessa perspectiva, não deveria romper laços, mas fortalecê-los; não sequestrar, mas ampliar o diálogo. A metáfora, portanto, funciona como alerta: quando a educação se desconecta da vida, ela deixa de formar sujeitos enraizados e passa a produzir indivíduos apartados de sua própria origem cultural. Em contraponto, ele dá o seu depoimento sobre as práticas educacionais indígenas:
Algumas escolas indígenas, com muitas dificuldades na tentativa de reconfigurar o aparelho escolar, tentam ficar o mais próximo possível disso que estou argumentando, buscando preparar cada um no contexto da sua comunidade, para agir ali. Essas escolas não são plataformas de lançamentos de meninos, mas lugares para eles estarem. Nós, que persistimos em uma experiência coletiva, não educamos crianças para que elas sejam campeãs em alguma coisa, mas para serem companheiras umas das outras (Krenak, 2022, p. 115).
Neste excerto, Ailton Krenak contrapõe o modelo hegemônico de escolarização, orientado pela competição, pela performance e pela mobilidade individual, a uma concepção comunitária de educação enraizada nos territórios indígenas. Ao afirmar que tais escolas não são “plataformas de lançamento de meninos”, o autor critica a lógica meritocrática que entende a escola como trampolim para o sucesso individual, frequentemente desvinculado da comunidade de origem. Em vez disso, propõe a escola como “lugar para estar”, isto é, espaço de permanência, pertencimento e fortalecimento dos vínculos coletivos. A formação, nesse horizonte, não visa produzir “campeões”, mas sujeitos capazes de sustentar relações de companheirismo e responsabilidade mútua. Trata-se, portanto, de uma pedagogia da reciprocidade, que desloca o eixo da competição para a cooperação e redefine o sentido de êxito: não o triunfo individual, mas a continuidade da vida comunitária. Ele complementa:
As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o indivíduo conta menos que o coletivo. Esse é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a colocar o coração no ritmo da terra (Krenak, 2022, p. 117-118).
Vê-se que o autor estabelece uma distinção conceitual entre “educar” e “orientar”, propondo uma crítica implícita ao paradigma ocidental de formação centrado na competição e na lógica do êxito individual (o sistema educativo que sequestra as crianças). Ao afirmar que as crianças indígenas não são preparadas para “vencer”, o autor questiona o modelo meritocrático que pressupõe a derrota do outro como condição de sucesso. Em seu lugar, apresenta uma pedagogia da partilha, em que o aprendizado se dá na convivência com o território, com o alimento e com a comunidade.
A primazia do coletivo sobre o indivíduo não implica anulação da singularidade, mas inserção do sujeito em uma rede de reciprocidade que sustenta a vida comum. A expressão “colocar o coração no ritmo da terra” sintetiza essa cosmopercepção, articulando ética, sensibilidade e territorialidade: trata-se de formar sujeitos capazes de harmonizar existência humana e mundo natural. Assim, o chamado “mistério indígena” não é enigma exótico, mas legado civilizatório que propõe outra racionalidade educativa, fundada na continuidade intergeracional e na integração entre cultura e natureza.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise das metáforas presentes em Ideias para adiar o fim do mundo, A vida não é útil e Futuro ancestral, de Ailton Krenak, permitiu evidenciar que seu discurso não se limita ao uso ocasional de metáforas expressivas, mas se organiza estruturalmente por meio de um pensamento metafórico coerente e reiterado. As metáforas da humanidade como um clube exclusivo, como um grande liquidificador, da imaginação e criatividade como paraquedas coloridos, da Terra como encomenda, da modernidade como um vício, do capitalismo como câncer, da Terra como um brinquedo humano, do shopping, das cidades como implantes, do piloto automático, da caixa-preta da civilização, da mentalidade de catacumba e da educação como sequestro constituem núcleos simbólicos articulados que sustentam uma cosmopercepção específica: a crítica à racionalidade moderna e a defesa de uma ética da interdependência entre humanidade e natureza.
Verificamos que, em Krenak, a metáfora opera como dispositivo cognitivo e político. Cognitivo, porque reorganiza a percepção do leitor, deslocando categorias naturalizadas – como progresso, desenvolvimento, urbanização ou educação – e expondo seus pressupostos ocultos; político, porque tais deslocamentos produzem efeitos argumentativos que tensionam o paradigma civilizatório ocidental, questionando a centralidade do individualismo, da competitividade e da exploração ilimitada dos recursos naturais. Assim, o discurso metafórico krenakiano revela-se estratégia de intervenção crítica no debate contemporâneo.
Além disso, constatamos que as metáforas analisadas configuram uma rede simbólica integrada, na qual a vida é concebida como fluxo, relação e pertencimento. Ao mobilizar imagens orgânicas e territoriais, Krenak contrapõe-se à abstração tecnocrática que reduz a Terra a recurso e a humanidade a agente produtivo. Seu pensamento reafirma a ancestralidade como horizonte de futuro, propondo uma reorientação ética fundada na partilha, na cooperação e no reconhecimento da pluralidade de mundos possíveis.
Dessa forma, o estudo confirma a hipótese inicial de que Ailton Krenak pode ser compreendido como um escritor metaforista, cuja obra se estrutura pela densidade imagética e pela articulação sistemática de metáforas que configuram uma visão de mundo alternativa à modernidade hegemônica. Ao iluminar o funcionamento desse discurso metafórico, este artigo contribui para os estudos literários e discursivos contemporâneos, ao mesmo tempo em que reforça a relevância do pensamento indígena como campo teórico capaz de ampliar as fronteiras epistemológicas da crítica cultural. Assim, ler as metáforas de Krenak, com o apoio de Lakoff e Johnson (2002), significa compreender como ele propõe a invenção e propagação de modos de existência que escapem à homogeneização, ao consumo desmedido e à destruição ecológica. Os livros nos convidam a revisitar o sentido de humanidade, abrir espaço para outras cosmologias e reconhecer que o futuro das próximas gerações depende das escolhas que fazemos agora.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERRARI, Lilian. Introdução à linguística cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011.
GUEDELHA, Carlos. Metáfora conceitual. Manaus: Manauara Editorial, 2025.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020b.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020a.
LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2002.
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