REABSORÇÃO RADICULAR APÓS TRATAMENTO ORTODÔNTICO


REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10344521


Fernanda Celano Cordeiro¹
Orientador: Leonardo Medeiros Allan²


RESUMO
Movimentar dentes de forma eficiente, no menor tempo possível e com o mínimo de danos ou efeitos indesejáveis, é um dos objetivos do tratamento ortodôntico.  Uma das principais iatrogenias que a movimentação ortodôntica pode causar é a reabsorção radicular, onde os tecidos dentários mineralizados são eliminados pelas células clásticas, na superfície interna ou externa do dente.  Elas apresentam magnitude variável e na maioria dos casos, são imprevisíveis. 
A redução do comprimento radicular normalmente não chega a comprometer a longevidade dos dentes ou mesmo sua função. Porém, quando são de moderadas a extremas, para tentar minimizar o custo biológico dos dentes, o tratamento deve ser simplificado ou finalizado o mais rapidamente possível. Por isso, deve-se conhecer bem as variáveis mecânicas e biológicas de cada um, para que se possa identificar os riscos e tentar reduzir as cicatrizes deixadas pelo tratamento ortodôntico.
Palavras-chave: movimentação dentária, reabsorção radicular, tratamento ortodôntico.

ABSTRACT
Moving teeth efficiently, in the shortest possible time and with minimal damage or undesirable effects, is one of the goals of orthodontic treatment. One of the main iatrogenies that orthodontic movement can cause is root resorption, where mineralized dental tissues are eliminated by clastic cells on the inner or outer surface of the tooth. They vary in magnitude and in most cases are unpredictable.
The reduction of root length usually does not compromise the longevity of the teeth or even their function. However, when they are moderate to extreme, to try to minimize the biological cost of teeth, treatment should be simplified or finalized as soon as possible. Therefore, the mechanical and biological variables of each one must be well known so that risks can be identified, and the scars left by orthodontic treatment can be reduced.
Keywords: tooth movement, root resorption, orthodontic treatment.

INTRODUÇAO

Todos nós sabemos que a Ortodontia é baseada na movimentação do dente dentro do osso. E para que essa movimentação ocorra, existe uma força que impele o dente e o seu periodonto na direção da oclusão normal, movimentando também as estruturas periodontais.

Para termos êxito no tratamento ortodôntico, precisamos entender a biologia do periodonto de sustentação. O dente move-se através do osso levando toda a sua estrutura de suporte. Desse modo, uma vez que a resposta óssea é mediada pelo ligamento periodontal, o movimento dentário é, antes de tudo, um fenômeno ligado ao mesmo (Proffit, Fields, 2000).

A reabsorção radicular é um processo patológico na dentição permanente e pode causar a perda do dente. Dependendo do local onde se inicia, pode ser interna, se ocorrer nas paredes do canal, ou externa, se acontecer na superfície radicular (Andreasen, 1985; Shafer et. al., 1985; Costa e Miranda, 1988).

É uma condição comumente observada durante e após o tratamento ortodôntico, levando a um arredondamento do ápice radicular. Segundo Capelozza Filho et. al. (2002), resulta da combinação das atividades biológicas de cada paciente, com as forças mecânicas empregadas.

Durante a movimentação ortodôntica, a compressão no ligamento periodontal pode provocar necrose dos cementoblastos desta região, expondo a dentina à ação das células de reabsorção (osteoclastos e macrófagos), que iniciam o processo de reabsorção radicular externa proveniente do tratamento ortodôntico (Moyers, 1991). 

Apesar da natureza das reabsorções ser multifatorial, é muito importante que o profissional conheça todos os fatores que possam desencadeá-las e faça um diagnóstico correto e mecânica que respeitem as estruturas biológicas dos dentes, além de um acompanhamento radiográfico periódico. Deve-se também entender sobre as reações tissulares resultantes da compressão do ligamento periodontal, e sobre todas as variáveis mecânicas e biológicas envolvidas na movimentação ortodôntica.

REVISÃO DE LITERATURA

Podemos definir a reabsorção radicular como um processo patológico ou fisiológico, resultando na perda de cemento ou dentina. Segundo a literatura, os fatores que podem estar relacionados à reabsorção radicular incluem: predisposição individual, idade e gênero do paciente, anatomia da raiz, movimentação de dentes tratados endodonticamente, hábitos adversos como onicofagia, estágio de desenvolvimento radicular, o tipo de aparelhagem ortodôntica utilizada, o tipo de movimentação dentária, magnitude das forças aplicadas e a duração do tratamento. 

Para Shafer et. al., 1985, a reabsorção radicular apresenta uma grande variedade de agentes etiológicos, como: inflamação periapical, inflamação nos tecidos pulpares, traumatismos, cistos e tumores, forças mecânicas, problemas periodontais, podendo até mesmo ser idiopática.

Na população ocidental, 7 a 10% das pessoas sem qualquer tipo de tratamento ortodôntico tem reabsorção radicular (Brezniak; Wassertein, 2002). Se estas reabsorções não forem diagnosticadas em radiografias periapicais antes do início do tratamento ortodôntico, elas serão exacerbadas durante a movimentação e a culpa recai sobre a Ortodontia, pela falta de diagnóstico prévio. Vale lembrar que devemos usar radiografias periapicais, e não panorâmicas, para diagnosticar reabsorções. 

A reabsorção radicular representa um custo biológico frequente da movimentação dentária induzida, apresentando magnitude variável e imprevisível (Kurol et. Al., 1996; Owman-Moll et. al., 1996; Taithogchai et. al., 1996). Na maioria dos casos, a reabsorção consequente à movimentação ortodôntica é mínima e sem significado clínico, atingindo valores médios de 0,5 a 3mm de encurtamento radicular (Brezniak, Wasserstein, 1993). Essas reabsorções acometem 90,5% dos dentes permanentes tratados ortodonticamente, principalmente os incisivos, sendo sempre reparadas com cemento celular (Harris, 2000; Henry, Weinmann, 1951). 

A maior parte das reabsorções causadas por tratamento ortodôntico não diminuem a longevidade nem a capacidade funcional dos dentes. Porém, se mais da metade do comprimento radicular é perdido, a função e a manutenção do dente poderão estar comprometidas (Hendrix et. al. 1994; Tavares e Sampaio 1997; Parker e Harris, 1998; Ritter et. al. 1999).

Levander, Malmgren (1988), avaliaram radiograficamente os índices de reabsorção radicular durante a terapia ortodôntica, e as classificaram como mínima, moderada, severa ou extrema, dependendo do grau de reabsorção. Diante de cada nível de reabsorção, eles procuraram estabelecer uma conduta clínica individual, com o objetivo de minimizar o custo biológico da terapia ortodôntica.

A ocorrência de reabsorção radicular severa (maior que 3mm) tem sido relatada com uma frequência de 10 a 20% (Levander et. al., 1994). Por isso, total controle sobre os riscos envolvidos é um requisito indispensável para todos os pacientes submetidos a tratamento ortodôntico. A reabsorção radicular extrema (maior que 1/3 do comprimento radicular normal) é muito rara, mas para impedir que isto ocorra, seriam necessárias algumas modificações na mecânica ortodôntica do caso em questão. 

A reabsorção radicular dentinária é considerada por alguns autores como imprevisível (Silva Filho et. al., 1993; Brezniak e Wasserstein, 1993) e indesejável (Hall, 1978; Pereira e Monteiro, 1981; Hendrix et. al., 1994). Harris e Butler, em 1992, afirmou ser inesgotável e iatrogênica. Já Piasente et. al., em 1991, concluíram ser possível prevenir a reabsorção dentinária. O mesmo não acontece com a reabsorção cementária, que apesar de inevitável durante a movimentação, não provoca danos permanentes.

Ketcham, em 1927, publicou o primeiro estudo que, por meio de uma análise radiográfica de vários casos, verificou a relação entre o tratamento ortodôntico e a remodelação radicular apical. Neste estudo, ficou estabelecido que a reabsorção radicular é uma cicatriz da terapia ortodôntica.

Bate, em 1856, foi o primeiro a evidenciar a reabsorção radicular associada ao trauma do ligamento periodontal. Depois, em 1914, Ottolengli relatou a existência de uma peculiaridade na reabsorção radicular provocada pelo movimento ortodôntico, ou seja, a polpa permanece viva enquanto as raízes são reabsorvidas. Segundo ele, neste processo, uma atividade osteoblástica preenche com tecido ósseo o espaço causado pela reabsorção radicular, mantendo o elemento dentário sem mobilidade.

Em 1989, Almeida et. al. discutiram 5 possíveis agentes desencadeantes da reabsorção radicular, que são: duração do tratamento, quantidade de movimento dentário, quantidade de força empregada, predisposição individual e traumatismo. Quanto à duração do tratamento, concluíram que quanto maior o tempo de tratamento, maior a quantidade de reabsorção. A quantidade de movimento foi considerada um fator causal primário das reabsorções. Em relação à quantidade de força empregada, os autores concluíram que a quantidade de reabsorção foi diretamente proporcional à intensidade da força aplicada. E sobre a predisposição individual, concluíram que é a responsável pelas diferenças encontradas na quantidade de reabsorção entre pacientes submetidos a uma mesma mecânica, e está intimamente relacionada à existência de um potencial individual de reabsorção. Já Capelozza Filho, em 2002, disse que todos os trabalhos que procuraram estabelecer esta suscetibilidade ou predisposição genética ou hereditária, não conseguiram ou apresentaram falhas metodológicas graves. Para ele, a maior ou menor predisposição ou suscetibilidade relaciona-se a fatores locais realmente individuais, como a forma da raiz e da crista óssea alveolar. Quanto aos traumatismos, estes tornam os dentes mais suscetíveis à reabsorção radicular durante a movimentação ortodôntica.  Os dentes traumatizados apresentam uma predisposição especial para a reabsorção radicular espontânea, ou seja, sem o tratamento ortodôntico. Esta predisposição à reabsorção radicular guarda relação direta com a gravidade do traumatismo do periodonto (Brezniak, Wasserstein, 1993; Malmgren et. al., 1982).

O tratamento endodôntico parece não intervir no grau de reabsorção radicular durante o tratamento ortodôntico (Mattison et al., 1984; Remington et al. 1989; Spurrier et al, 1990). Os estudos que levantaram hipótese dos dentes tratados endodonticamente serem mais suscetíveis à reabsorção apresentam metodologia questionável, ao incluírem dentes com traumatismo prévio no grupo experimental, visto que o trauma dental aumenta o risco de encurtamento radicular (Wickwire et. al., 1974). Além disso, uma reabsorção radicular excessiva ocorrida durante a movimentação ortodôntica de dentes tratados endodonticamente pode estar mais associada ao insucesso da terapia endodôntica do que o tratamento ortodôntico em si. Toda mecânica, por menores que sejam as forças aplicadas, não estará livre de reabsorção (Owman-Moll et al., 1995; Owman-Moll, Kuriol, 1995; Owman-Moll et al., 1996; Owman-Moll, Kuriol, 1998). Uma mecânica consistente vai provocar reabsorção discreta e pouco significante na maioria dos pacientes, mas será agressiva em 10% deles (Linge, 1991).

Estudos comparativos entre dentes traumatizados e não-traumatizados demonstraram que os primeiros são mais suscetíveis à reabsorção radicular durante a movimentação dentária (Brezniak, Wasserstein, 1993; Linge 1983; Mattison et. al., 1994; Mirabella, Artun, 1995; Taithongchai et. al., 1996). Segundo Malmgren et. al. em 1982, os traumatismos dentários provocam danos ao ligamento periodontal e ao cemento, aumentando o risco de reabsorção radicular. Apesar disso, segundo Consolaro (2002), não se contraindica a movimentação dentária destes dentes, desde que a mesma tenha um planejamento e controle especial.

Brezniak e Wassertein em 1993, citaram fatores que podem afetar a reabsorção radicular, dentre os quais o tipo de aparelho utilizado (fixo ou móvel), o tipo de movimentação dentária e a força utilizada. Destacam também a presença de reabsorção radicular antes do tratamento ortodôntico, dentes traumatizados previamente e suscetibilidade individual.

As raízes são classificadas quanto a sua forma geométrica em romboidal, triangular e retangular. A raiz triangular concentra a força na região apical, tornando esta região bem delicada, o que possibilita que as lesões na camada cementoblástica ocorram com maior frequência e gravidade. Na raiz retangular, a força dissipa-se melhor no dente, no ligamento periodontal e na estrutura óssea vizinha, possibilitando menor chance de reabsorção dentária.

Ápices afilados em forma de pipeta ou de garrafa e dentes com dilaceração apical apresentam maior chance de reabsorção. A raiz curta também apresenta maior frequência de reabsorção. 

Quanto às cristas ósseas, na movimentação de dentes com cristas ósseas retangulares, a dissipação das forças será menor, pois a deflexão óssea apresenta-se diminuída. As romboides dissipam essa força de forma intermediária. E nas triangulares, a deflexão óssea é maior e a força dissipa-se mais uniformemente, diminuindo a chance de lesionar os tecidos periodontais (Furquim, 2002).

Consolaro (2002) estabeleceu critérios para a classificação das reabsorções dentárias patológicas como: superfície dentária afetada (interna, externa ou interna-externa), fase de evolução do processo (ativa, paralisada ou reparada), região dentária afetada (coronária, cervical ou apical) e extensão do comprometimento da raiz (simples ou múltiplas), dimensão da causa do processo (local, sistêmica ou idiopática) e mecanismo de ocorrência do processo (inflamatória ou por substituição). Consolaro observou ainda, que precauções maiores deverão ser tomadas em casos de pacientes com raízes curtas, podendo até ser fator determinante de contraindicação.

Lopes, Siqueira Jr. (2004), afirmam que a reabsorção substitutiva é assintomática. Clinicamente o dente anquilosado mostra-se imóvel (sem mobilidade fisiológica) e, frequentemente, em suboclusão. O dente permanece estável no arco, até uma pequena porção remanescente da raiz.

Sabemos que não há uma previsão de prognóstico de reabsorção radicular baseado no tipo de má oclusão. Mas acredita-se que as chances aumentam de acordo com a amplitude e o tipo de movimento realizado. Tratamentos que envolvam uma grande amplitude de movimentos dentários no intuito de camuflar discrepâncias esqueléticas acentuadas e com objetivos quase heroicos, são mais predispostos à reabsorção radicular devido aos limites biológicos impostos pela má oclusão (Brezniak, Wasserstein, 2002; Capelozza Filho, Silva Filho, 1998). Dentre os tipos de movimento mais associados à reabsorção radicular, estão os movimentos de retração do segmento anterior, devido à extensão do deslocamento apical dos incisivos contra a cortical óssea (Beck, Harris, 1994; Goldin 1989; Kaley, Phillips, 1991) e o movimento de intrusão que implica em uma maior concentração de força por área do ligamento periodontal (Baumrind et.al. 1996; Brezniak, Wasserstein 1993; Proffit, Fields, 2000). No entanto, nenhuma má oclusão é imune à reabsorção dentária induzida pela movimentação ortodôntica, independentemente da técnica aplicada (Baumrind et. al., 1996; Beck, Harris, 1994; Mirabella, Artun, 1995). 

Harris e Butler em, 1992, avaliou pacientes com mordida aberta, e mostrou que a língua provoca movimentos de intrusão nos incisivos, e que este movimento é capaz de produzir reabsorções das raízes nestes dentes. Logo, evitando movimentos de intrusão, controla-se o possível surgimento de reabsorções radiculares, segundo eles.

Segundo Consolaro, 2002, entre as características demarcadas do sucesso no tratamento ortodôntico, podem ser detectadas: a ausência de sintomas, a movimentação rápida dentro do possível, a duração breve do tratamento, a estabilidade dos resultados e o menor dano tecidual possível.

Para reduzir o índice de reabsorções dentárias durante o tratamento ortodôntico, devemos construir parâmetros e critérios que permitam a previsibilidade das mesmas durante o planejamento de cada caso. A reabsorção dentária prevista não se caracterizará como insucesso, mas sim estará enquadrada no contexto do prognóstico e prognosticar é a arte de prever com antecedência a evolução do caso, a partir do tratamento a ser efetuado (Consolaro, 2002).

Segundo Costa et. al. (2002), existem 10 tópicos a serem lembrados durante o tratamento ortodôntico, para prevenirmos as reabsorções dentárias e suas consequências:
- Realizar uma anamnese minuciosa para resgatar tratamentos anteriores, história de traumatismos dentários, reimplantes e cirurgias dos maxilares;
- Fazer uma avaliação radiográfica periapical de todos os dentes durante o planejamento do caso;
- Compatibilizar o uso de forças e movimentos menos agressivos com a morfologia radicular, da crista óssea maxilar, quando esses aspectos forem desfavoráveis;
- Sempre que planejar movimentos extensos, revelar a maior probabilidade de ocorrer reabsorções dentárias nesses casos;
- Indicar extrações estritamente quando necessárias;
- Considerar como o emprego de mecânicas intrusivas é favorável à ocorrência de reabsorções dentárias;
- Se possível, não utilizar elásticos intermaxilares;
- Preocupar-se com a distribuição das forças preferencialmente à sua intensidade;
- Seis meses depois, avaliar radiograficamente se houve ou não reabsorções significantes. Se assim diagnosticadas, suspender o tratamento por 5 a 8 semanas e retomá-lo normalmente. Essa manobra reduz significativamente o encurtamento dentário no final do tratamento ortodôntico.
- Em casos de retratamento ou transferência de pacientes, promover previamente uma avaliação radiográfica minuciosa periapical para ter pleno conhecimento diagnóstico da situação atual do caso.

DISCUSSÃO

Prestes et. al. (1997) e Silva et. al. (1997) relataram que a reabsorção só ocorre devido a interação da biologia individual com as forças mecânicas, e recomendam ainda, iniciar o tratamento com forças leves para avaliar o limiar reabsortivo de cada paciente.

Segundo Owman-Moll et. al. em 1995, tanto a força leve e contínua quanto a força dissipante (interrompida), possuem efeito similar sobre as raízes, embora a força dissipante pareça ser um pouco mais segura. Segundo Brezniak, Wasserstein e Capelozza Filho em 2000, após a remoção do aparelho ortodôntico, não existe a progressão do nível de reabsorção, a menos que permaneçam interferências oclusais grosseiras. Portanto, de um modo geral, segundo eles, a perda radicular resultante do tratamento ortodôntico não diminui a longevidade ou a capacidade funcional dos dentes envolvidos.

Segundo Parker & Harris (1998), forças intrusivas são consideradas prejudiciais às superfícies radiculares porque a forma das raízes concentra pressão no ápice cônico. Os mesmos autores descreveram que quando combinados o movimento intrusivo e o torque radicular lingual, foram os principais fatores indutores de reabsorção radicular apical externa.

Os tipos de movimentos, como os de intrusão e torque, são mais preocupantes para Prates et. al. (1997), Beliváquia e Santana (1999) e Souza et. al. (1999). Já para Nouer et.al. (1997), este fator não tem valor frente a reabsorção. Tsubono (2006) ressaltou ainda a importância dos movimentos de vai e vem, e de tracionamento de canino retido na potencialização do processo.

Segundo Mcnab et. al. (2000) e Sameshima e Sinclair (2001), tratamentos ortodônticos com extrações apresentam significativa associação com a reabsorção radicular, enquanto que Hendrix et. al. (1994), Parker e Harris (1998) não relataram associação deste tipo de tratamento com a reabsorção radicular. Portanto, há uma controvérsia da ocorrência desta patologia, em virtude deste tipo de tratamento.

Para Prates et. al. (1997), Teixeira e Zollner (2003) e Tsubono (2006), não importa o aparelho e sim a potencialidade com que ele é utilizado. Forças intermitentes ajudam na reorganização do cemento. Para Nouer et. al. (1997) e Teixeira e Zollner (2003), o tempo de tratamento agrava a reabsorção.

A anatomia radicular também foi um fator a ser considerado por Prates et. al. (1997), Beliváquia e Santana (1999), Souza et. al. (1999) e Younis et. al. (2008), afirmando que a raiz de forma agulhada é um fator agravante. Para Tsubono (2006), raízes dilaceradas, pontiagudas ou em forma de pipeta são mais propensas. Já para Marinho e Noel (2007), além da anatomia radicular, deve-se dar atenção também para a morfologia da crista alveolar. Outros fatores citados como importantes foram a densidade óssea, por Prates et. al. (1997) e mal hábito como onicofagia e deglutição atípica, segundo Paiva et. al. (1998).

Segundo Silva et. al. (1997), Valdrighi et. al. (1998) e Goldner et. al. (2002), dentes com tratamento endodôntico não influenciam a reabsorção, desde que a endodontia esteja bem realizada, e sugere um tempo entre os dois tratamentos. Já Beliváquia e Santana (1999) afirmaram que os dentes vitais reabsorvem mais que os tratados endodonticamente, e Prates et. al. (1997) observaram uma tendência maior para os dentes com tratamento de canal.

Quanto aos dentes com rizogênese incompleta, parece consenso na literatura que os mesmos apresentam um menor custo biológico do que os dentes com rizogênese completa (Hendrix et. al., 1994; Mavagrani et. al., 2002; Rosenberg 1972; Steinvik, Mjor 1970). Porém, quando forças forem aplicadas sobre dentes com rizogênese incompleta em estágios precoces de formação radicular, pode ocorrer um encurtamento do que seria o comprimento original do dente (Consolaro et. al., 2001). Já para Silva Filho et. al. (2004), o tratamento ortodôntico em dentes com rizogênese incompleta não prejudicou o término do desenvolvimento radicular e nem reabsorveu os ápices radiculares.

Bassigny, em 1984, foi o único autor a recomendar o controle radiográfico em particular nas mulheres em idade pré-puberal. Pereira e Monteiro, 1981, Kaley e Phillips, 1991, concluíram que as mulheres apresentaram maiores índices de reabsorção radicular ao final do tratamento. Segundo Beck e Harris (1994); Hendrix et. al. (1994); Parker e Harris (1998) e Sameshima e Sinclair (2001), não há presença de dimorfismo sexual em relação a ocorrência da reabsorção radicular. Silva Filho et. al. (1993) e Souza et. al. (1999) também não detectaram diferenças entre os sexos.

Em relação à idade, Braum et al. em 1993, relataram que a dentição adulta exibe uma diminuição no suporte alveolar e que os riscos ao tratamento são maiores, necessitando de uma intervenção mais cuidadosa e lenta. Silva et. al. (1997) também pedem atenção especial no início do tratamento de pacientes adultos, pois a resposta biológica é mais lenta. Já para Beliváquia e Santana (1999), Nouer et. al. (1997) e Souza et. al. (1999), a idade não se mostrou um fator relevante.

Sobre a reabsorção causada por fatores hormonais, Tavares e Sampaio (1997) afirmaram que o desequilíbrio hormonal não é o agente causal do processo de reabsorção, mas pode influenciá-lo. Mas Silva Filho em 1993, afirma que mulheres adultas na fase de menopausa, osteoporose e alterações hormonais, estariam mais propensas à reabsorção radicular. Há controvérsias acerca deste assunto. Consolaro em 2002, afirma que alterações endócrinas ou hormonais não induzem ou influenciam o índice de reabsorções.

Silva et. al. (1997) verificaram que a hipocalcemia pode aumentar a reabsorção, e Beliváquia e Santana (1999) afirmaram que administrar algumas substâncias sistêmicas pode diminuir ou evitar a reabsorção radicular. Tavares et. al. (2002) salientaram a importância de o profissional estar atento, e orientar o paciente a comunicar qualquer tipo de medicação que está sendo ou vai ser utilizada, para evitar surpresas desagradáveis, pois estas substâncias, associada ao tratamento ortodôntico, podem potencializar a reabsorção radicular.

Dentre os hábitos nocivos que podem causar reabsorções radiculares, roer unha (onicofagia) e o pressionamento atípico da língua, associados a mordida aberta, são capazes de predispor à reabsorção radicular (Bresniak e Wasserstein, 1993; Tavares e Sampaio, 1997). 

Paiva et. al. (1998), Prestes et. al. (1997) e Nouer et. al. (1997) foram incisivos em relatar que a predisposição é um fator a considerar nesta patologia.

Para Silva Filho et. al. (1993), Silva et.al. (1997), Nouer et.al. (1997), Teixeira E Zolner (2003), os incisivos são os dentes mais acometidos, e dentre eles, os superiores são os que têm maior chance de reabsorver.  Para Martins et.al. (2005), estes sofrem mais reabsorção quando o tratamento é feito com extrações. Gadben et.al. (2006) não encontraram diferença significativa entre a quantidade de reabsorção dos centrais e os laterais. Para Kennedy et al. 1983; Philips, 1995; Sharpe et al. 1987; Silva Filho et al. 1993, os dentes mais vulneráveis por ordem decrescente de prevalência são os incisivos laterais superiores, seguidos pelos incisivos centrais superiores, incisivos inferiores, raiz distal dos primeiros molares inferiores, segundos pré-molares inferiores, segundos pré-molares superiores, molares superiores e inferiores. Segundo Sharpe et al., 1987; Silva Filho et al., 1993, a maior predisposição à reabsorção dos incisivos superiores está relacionada à extensão de movimentação destes dentes, em decorrência da má-oclusão, função e estética.

Caso haja indício de reabsorção, Silva et. al. (1997) recomendam parar o tratamento imediatamente para uma nova reavaliação. Neste caso, Levander et.al. (1996) e Capelozza Filho et. al. (2002) orientam para um período de repouso de 2 a 3 meses para que haja uma reorganização dos tecidos periodontais.

Para Martins et. al. (1994), Teixeira e Zollner (2003) e Younis et. al. (2008), a reabsorção cessa após a remoção do aparelho fixo, podendo haver apenas uma remodelação apical, e recomenda o ajuste oclusal após 6 meses da remoção. Para Beviláquia, Santana (1999), períodos de repouso evitam ou diminuem a reabsorção.

Segundo Levander et al., em 1994, quando, ao exame radiográfico, evidencia-se uma reabsorção mínima ou ausência de reabsorção, pode-se afirmar que o paciente apresenta risco pequeno de reabsorção severa ao final do tratamento. Ao detectar-se uma reabsorção moderada, tem-se um risco regular de reabsorção severa e risco pequeno de reabsorção extrema ao final do tratamento. Nesses casos recomenda-se um período de repouso de 60 a 90 dias e deve-se comunicar a suscetibilidade ao paciente. Diante de reabsorções severas existe um alto risco de reabsorções extremas no final do tratamento (Silva Filho 1993; Levander et al., 1994; Capelloza Filho 1998). Nos casos de reabsorções extremas, recomenda-se um descanso obrigatório de 90 dias e adota-se obrigatoriamente, a interrupção ou simplificação do tratamento (Capelozza Filho, Silva Filho, 1998; Levander et. al., 1994).

Machado et. al. salientaram a importância do esclarecimento ao paciente de possíveis danos causados pela Ortodontia.

É unânime a posição dos autores a respeito da necessidade do controle radiográfico (Hall, 1978; Hollender et. al., 1980; Ronnerman e Larsson, 1981; Cansação, 1981; Bassigny, 1984; Copeland e Green, 1986; Brezniak e Wasserstein, 1993; Silva Filho et. al, 1993). Mas existe controvérsias sobre a frequência e a região a ser radiografada. Para Hollender et. al, em1980, o controle radiográfico deve ser concentrado nos dentes submetidos aos movimentos ortodônticos mais extensos. Já Langford e Sims (1981) afirmam que os molares também podem ser afetados por reabsorções radiculares extensas, apesar destas serem dificilmente detectadas nas radiografias. Por outro lado, Copeland e Green, 1986; Brezniak e Wasserstein, 1993; Bassigny, 1984, afirmam que os dentes anteriores são os que devem receber controle radiográfico periódico, por serem os mais frequentemente afetados. Para eles, quando os incisivos não mostram sinais de reabsorção radicular, a possibilidade de ocorrer em outros dentes é menor.

Consolaro, em 2002, disse que apenas 10% das reabsorções dentárias em Ortodontia são severas, sendo assim, indica-se que sejam realizadas rotineiramente radiografias periapicais dos incisivos superiores e inferiores em pacientes adolescentes, e uma série de radiografias em pacientes adultos como conduta preventiva habitual, previamente ao início do tratamento. Uma vez que esse tenha sido iniciado, recomenda-se que sejam feitas radiografias periapicais dos incisivos superiores e inferiores a cada 6 meses, para controle do custo biológico da mecanoterapia (Brezniak, Wassertein, 1993; Silva Filho, 1993; Levander et Al., 1994; Capelloza Filho, 1998; Brezniak, Wassertein, 2002). 

Já Zachrisson, 1976; Hollender et. al., 1980; Bassigny, 1984, acreditavam que a alta frequência de radiografias deve ser empregada apenas em pacientes que relatam traumas ou portadores de reabsorções prévias ao tratamento ortodôntico.

Consolaro (2007) lembrou que a radiografia panorâmica não é indicada para avaliação de reabsorção radicular, pois quando se torna possível a sua visualização, ela já está em um estágio mais avançado.

Consolaro e Freitas, em 2007, sugeriram o uso de tomografia computadorizada volumétrica, pois com ela a reabsorção pode ser detectada mais precocemente, já que com a radiografia periapical, ela só aparece quando atinge a dentina.

Segue abaixo algumas imagens de reabsorções radiculares:
Reabsorção inflamatória por pressão provocada por tratamento ortodôntico.
Fonte: LOPES, SIQUEIRA JR. (2004).

Esquema que representa os diferentes graus de reabsorção radicular externa segundo Levander e Malmgren. Fonte: LEVANDER E MALMGREN (1988).