RAÍZES DO CAMPO: TERRITORIALIDADES, ESCOLAS RURAIS E FORMAÇÃO CRÍTICA NA DISCIPLINA EDUCAÇÃO DO CAMPO: HISTÓRIA, CONCEPÇÕES E PRINCÍPIOS

ROOTS OF THE COUNTRYSIDE: TERRITORIALITIES, RURAL SCHOOLS AND CRITICAL EDUCATION IN THE COURSE RURAL EDUCATION: HISTORY, CONCEPTIONS AND PRINCIPLES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779740537

RESUMO
O presente artigo analisa a experiência formativa desenvolvida durante o segundo semestre de 2025 na disciplina EDA895 – Educação do Campo: História, Concepções e Princípios, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A proposta pedagógica articulou ensino, pesquisa e extensão universitária por meio de visitas técnicas às escolas do campo, observação participante, levantamento de dados censitários e produção coletiva de artigos científicos posteriormente organizados no livro Raízes do Campo – Volume 1. As investigações envolveram diferentes realidades territoriais do Rio Grande do Sul, contemplando a Escola Municipal de Ensino Fundamental João Hundertmark, situada na área rural de Santa Maria (RS), a Escola Municipal do Campo de Ensino Fundamental Ernesto José Annoni, localizada em São Gabriel (RS), e a Escola Estadual Joceli Corrêa, situada no Assentamento Rondinha, em Jóia (RS). O estudo articulou análises qualitativas e levantamento de dados do Censo Escolar, Censo Agropecuário e Censo Demográfico, buscando compreender as relações entre território, políticas educacionais, transformações produtivas e permanência das populações rurais. Metodologicamente, caracteriza-se como relato de experiência de abordagem qualitativa fundamentado na pesquisa participante, análise documental e territorialização das práticas pedagógicas. Os resultados evidenciaram que as escolas do campo permanecem como espaços estratégicos de resistência territorial, fortalecimento comunitário e valorização das identidades camponesas, mesmo diante do avanço do agronegócio, da redução populacional rural e do fechamento de escolas do campo. A experiência demonstrou ainda a relevância das práticas pedagógicas territorializadas na formação crítica de pós-graduandos, fortalecendo a articulação entre universidade, território e comunidade.
Palavras-chave: Educação do Campo; Territorialidade; Escolas do Campo; Extensão Rural; Formação Crítica.

ABSTRACT
This article analyzes the formative experience developed during the second semester of 2025 in the course EDA895 – Rural Education: History, Conceptions and Principles, linked to the Graduate Program in Rural Extension at the Federal University of Santa Maria (UFSM). The pedagogical proposal articulated teaching, research, and university extension through technical visits to rural schools, participant observation, census data collection, and collective production of scientific articles later organized into the book Roots of the Countryside – Volume 1. The investigations involved different territorial realities in the state of Rio Grande do Sul, including João Hundertmark Municipal School, located in the rural area of Santa Maria (RS), Ernesto José Annoni Rural Municipal School, located in São Gabriel (RS), and Joceli Corrêa State School, located in the Rondinha Settlement, in Jóia (RS). The study articulated qualitative analyses and data collection from the School Census, Agricultural Census, and Demographic Census, aiming to understand the relationships between territory, educational policies, productive transformations, and the permanence of rural populations. Methodologically, this study is characterized as a qualitative experience report grounded in participatory research, documentary analysis, and territorialized pedagogical practices. The results demonstrated that rural schools remain strategic spaces of territorial resistance, community strengthening, and valorization of peasant identities, even in the face of agribusiness expansion, rural population decline, and closure of rural schools. The experience also demonstrated the relevance of territorialized pedagogical practices in the critical education of graduate students, strengthening the articulation between university, territory, and community.
Keywords: Rural Education; Territoriality; Rural Schools; Rural Extension; Critical Education.

1. INTRODUÇÃO

A Educação do Campo constitui-se como uma construção política, epistemológica e pedagógica produzida historicamente a partir das lutas sociais protagonizadas pelos povos do campo em defesa do direito à educação pública, gratuita, territorializada e socialmente referenciada. Mais do que uma modalidade educacional destinada às populações rurais, a Educação do Campo configura-se como um movimento político-pedagógico comprometido com a transformação social, com a valorização das territorialidades camponesas e com a construção de projetos educativos vinculados às realidades concretas dos sujeitos do campo. Conforme destaca Roseli Salete Caldart, a Educação do Campo nasce “das contradições da realidade social do campo brasileiro” e das resistências construídas historicamente pelos movimentos sociais camponeses frente aos processos de exclusão e invisibilização promovidos pelo modelo agrário hegemônico (CALDART, 2012).

Diferentemente da antiga concepção de educação rural, marcada por perspectivas assistencialistas, urbanocêntricas e frequentemente descontextualizadas das realidades territoriais camponesas, a Educação do Campo emerge articulada às lutas pela terra, à reforma agrária, à agricultura familiar e à valorização das identidades culturais dos povos do campo. Nessa perspectiva, Caldart (2012) argumenta que a Educação do Campo não se limita à existência física de escolas localizadas em áreas rurais, mas representa a defesa de um projeto educativo construído “com os sujeitos do campo e não para os sujeitos do campo”, valorizando seus saberes, culturas, formas de trabalho e modos de vida historicamente produzidos nos territórios rurais.

A centralidade do território constitui um dos principais fundamentos epistemológicos da Educação do Campo, uma vez que os processos educativos passam a ser compreendidos em estreita relação com as dinâmicas sociais, culturais, econômicas e ambientais vivenciadas pelas comunidades rurais. Conforme enfatiza Caldart (2004), a Educação do Campo deve estar vinculada às experiências concretas dos sujeitos camponeses, fortalecendo processos de pertencimento territorial, organização coletiva e emancipação social. Assim, a escola do campo ultrapassa sua função estritamente escolar, assumindo papel estratégico na preservação das memórias coletivas, na valorização das culturas locais e na construção de alternativas de desenvolvimento territorial socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Nas últimas décadas, os territórios rurais brasileiros passaram por profundas transformações estruturais decorrentes da expansão do agronegócio, da mecanização agrícola, da concentração fundiária e da reorganização produtiva do espaço agrário nacional. Esses processos vêm alterando significativamente as territorialidades rurais, impactando diretamente as relações comunitárias, os modos de vida camponeses e as dinâmicas socioculturais historicamente construídas pelas populações do campo. Como consequência, intensificaram-se fenômenos como o êxodo rural, o envelhecimento populacional, a redução da agricultura familiar e o fechamento de milhares de escolas do campo em diferentes regiões do Brasil.

Nesse cenário, a Educação do Campo assume papel fundamental enquanto espaço de resistência territorial e afirmação política das populações camponesas. O fechamento das escolas rurais não representa apenas uma reorganização administrativa dos sistemas educacionais, mas constitui também um processo de desterritorialização social e cultural, fragilizando vínculos comunitários, identidades locais e possibilidades de permanência das juventudes no campo. Conforme destaca Caldart (2012), defender a Educação do Campo significa também defender o direito dos povos camponeses de permanecerem em seus territórios, produzindo suas existências, culturas e formas próprias de organização social.

A redução das escolas do campo não representa apenas uma reorganização administrativa dos sistemas educacionais, mas expressa um processo de desterritorialização das populações rurais. O fechamento dessas instituições frequentemente rompe vínculos comunitários historicamente construídos, fragiliza as relações de pertencimento e amplia processos de invisibilização social das comunidades camponesas. Nesse contexto, a nucleação escolar e o deslocamento diário de estudantes para áreas urbanas produzem impactos que ultrapassam o campo educacional, afetando identidades culturais, relações familiares e a permanência das juventudes nos territórios rurais.

Além disso, a compreensão da Educação do Campo demanda uma leitura ampliada da categoria território, entendendo-o para além de sua dimensão física ou administrativa. Nessa perspectiva, as contribuições de Ivanio Folmer tornam-se fundamentais ao problematizar o território enquanto construção social complexa, marcada por relações de poder, pertencimento, identidade, cultura, memória e resistência. Em sua tese intitulada A escola do campo e o território-teia-(multi)dimensional-territorial do distrito de Arroio Grande, Santa Maria/RS, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria, o autor propõe a compreensão do território como uma “teia” multidimensional, constituída por diferentes relações sociais, educativas, culturais, econômicas e simbólicas articuladas entre si.

Segundo Folmer (2022), o território rural não pode ser reduzido apenas ao espaço de produção agrícola ou à materialidade da terra, pois envolve também dimensões subjetivas, afetivas, identitárias e políticas construídas historicamente pelos sujeitos que habitam e produzem o campo. Nessa abordagem, a escola do campo passa a ser compreendida como parte constitutiva dessa teia territorial, desempenhando papel fundamental na produção e fortalecimento das territorialidades camponesas. As relações estabelecidas entre escola, comunidade, trabalho, cultura, religiosidade, memória coletiva e práticas produtivas revelam a complexidade do território enquanto categoria viva, dinâmica e em permanente transformação.

A noção de território-teia-(multi)dimensional-territorial desenvolvida por Folmer (2022) dialoga diretamente com autores como Bernardo Mançano Fernandes e Milton Santos, ao compreender o território como espaço produzido pelas relações sociais, pelas disputas de poder e pelos processos de resistência construídos coletivamente. Nesse sentido, as escolas do campo não representam apenas instituições educativas inseridas em áreas rurais, mas constituem espaços de produção territorial, formação crítica e fortalecimento das identidades camponesas.

A partir dessa perspectiva, compreender a Educação do Campo implica reconhecer que os processos educativos estão profundamente articulados às territorialidades vividas pelas comunidades rurais. A escola, portanto, emerge como espaço estratégico de permanência, pertencimento e resistência social frente às transformações contemporâneas do espaço agrário brasileiro, especialmente diante do avanço do agronegócio, da desterritorialização das comunidades rurais e do fechamento das escolas do campo.

A Educação do Campo constitui-se, nesse contexto, como instrumento estratégico para a manutenção das territorialidades rurais, preservação das culturas locais e fortalecimento das relações comunitárias historicamente construídas pelas populações camponesas. Nessa perspectiva, a escola do campo ultrapassa sua função estritamente pedagógica, assumindo papel fundamental na valorização dos saberes locais, na formação crítica dos sujeitos e na permanência das populações em seus territórios (FOLMER et al., 2025).

No Rio Grande do Sul, essas transformações tornam-se particularmente evidentes em municípios como Santa Maria, São Gabriel e Jóia, onde as mudanças produtivas vêm alterando significativamente as territorialidades rurais e as relações comunitárias historicamente construídas pelas populações do campo. As transformações contemporâneas do espaço agrário brasileiro, marcadas pela expansão das monoculturas, pela mecanização agrícola e pela concentração fundiária, vêm produzindo impactos significativos sobre as dinâmicas sociais, culturais e educacionais do campo, afetando diretamente as escolas rurais e os modos de vida camponeses (FOLMER et al., 2025).

As juventudes rurais encontram-se no centro dessas transformações contemporâneas, uma vez que vivenciam simultaneamente os desafios da permanência no campo, as dificuldades de acesso a políticas públicas e as pressões econômicas associadas ao agronegócio e à urbanização. A escola do campo, nesse cenário, assume papel estratégico na construção de perspectivas de futuro vinculadas ao território, fortalecendo identidades juvenis camponesas e possibilitando processos educativos comprometidos com a valorização das realidades locais

Foi nesse cenário que, durante o segundo semestre de 2025, a disciplina EDA895 – Educação do Campo: História, Concepções e Princípios, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), desenvolveu uma proposta pedagógica fundamentada na articulação entre ensino, pesquisa e extensão universitária. A atividade envolveu visitas técnicas às escolas do campo, levantamento de dados censitários, observação participante e elaboração coletiva de artigos científicos posteriormente organizados no livro Raízes do Campo – Volume 1: Vivências, Pesquisas e Territorialidades na Disciplina Educação do Campo: História, Concepções e Princípios.

As investigações contemplaram diferentes realidades da Educação do Campo no Rio Grande do Sul, envolvendo a Escola Municipal de Ensino Fundamental João Hundertmark, localizada na área rural de Santa Maria, a Escola Municipal do Campo de Ensino Fundamental Ernesto José Annoni, situada em São Gabriel, e a Escola Estadual Joceli Corrêa, localizada no Assentamento Rondinha, em Jóia. Além disso, os estudos também problematizaram as contradições e perspectivas das políticas públicas da Educação do Campo no contexto gaúcho contemporâneo.

Dessa forma, o presente artigo objetiva analisar essa experiência formativa, destacando suas contribuições acadêmicas, territoriais e pedagógicas para a consolidação da Educação do Campo enquanto campo crítico de produção do conhecimento.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A Educação do Campo consolidou-se no Brasil como resultado das mobilizações históricas dos movimentos sociais rurais, especialmente vinculados à luta pela terra, à reforma agrária e à defesa dos direitos das populações camponesas. Segundo Roseli Salete Caldart, a Educação do Campo não se restringe à existência física de escolas localizadas em áreas rurais, mas constitui um projeto político-pedagógico comprometido com a emancipação social dos sujeitos do campo e com a valorização de suas territorialidades, culturas e modos de vida.

A relação entre território, cultura local e educação constitui elemento central para a compreensão da Educação do Campo enquanto projeto político-pedagógico emancipador. Segundo Folmer et al. (2025), a valorização do território e dos saberes locais possibilita construir processos educativos mais conectados às realidades das comunidades rurais, fortalecendo identidades culturais e práticas sustentáveis.

Nesse sentido, a categoria território assume centralidade analítica, uma vez que o território rural não pode ser compreendido apenas como espaço físico de produção agrícola, mas como espaço socialmente construído, permeado por relações de poder, disputas econômicas, identidades culturais e processos históricos de resistência (FERNANDES, 2008). As escolas do campo inserem-se nesse contexto como instituições fundamentais para a manutenção das relações comunitárias e para a reprodução social das populações rurais.

A permanência das escolas do campo pode ser compreendida também como expressão concreta das resistências territoriais construídas pelas populações camponesas frente aos processos de homogeneização econômica e cultural impostos pelo capitalismo agrário contemporâneo. As instituições escolares rurais constituem espaços de produção de memória coletiva, fortalecimento identitário e construção de alternativas educativas vinculadas às necessidades sociais e territoriais das comunidades.

As reflexões desenvolvidas por Miguel Gonzáles Arroyo evidenciam que os sujeitos do campo foram historicamente invisibilizados pelas políticas educacionais brasileiras, frequentemente submetidos a modelos pedagógicos descontextualizados e desvinculados de suas realidades socioterritoriais. A Educação do Campo emerge, portanto, como contraposição crítica ao paradigma tradicional da educação rural.

As contribuições teóricas de Paulo Freire dialogam profundamente com os princípios da Educação do Campo ao defender uma educação problematizadora, dialógica e comprometida com a leitura crítica da realidade. Para Freire (1996), os processos educativos precisam partir da realidade concreta dos sujeitos, valorizando seus saberes, experiências e territorialidades.

A Agroecologia apresenta-se como paradigma científico emergente, articulando educação do campo, sustentabilidade, produção agrícola, justiça social e formação crítica dos sujeitos do campo. Conforme destacam Cancelier et al. (2025), a Agroecologia não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas agrícolas, constituindo-se como campo científico interdisciplinar voltado à transformação das relações entre sociedade, natureza e produção.

A formação em Educação do Campo exige processos educativos problematizadores e territorializados, capazes de articular teoria e prática na construção de sujeitos críticos comprometidos com os desafios ambientais, sociais e culturais contemporâneos (CANCELIER et al., 2025).

A integração entre universidade, agricultura familiar e comunidades rurais fortalece processos de construção coletiva do conhecimento, possibilitando maior articulação entre teoria acadêmica e experiências territoriais concretas. Nesse sentido, as práticas extensionistas tornam-se fundamentais para promover diálogo de saberes, inovação social e fortalecimento das comunidades rurais (SUDATI et al., 2024).

As permanências camponesas na contemporaneidade manifestam-se por meio das relações estabelecidas com a terra, da reprodução social familiar e das formas de resistência construídas pelas populações rurais frente às transformações do capitalismo agrário. Nesse contexto, as mulheres camponesas assumem papel central na preservação dos modos de vida e das territorialidades rurais (CARABAJAL et al., 2024).

A Educação do Campo demanda ainda abordagens interdisciplinares capazes de articular dimensões sociais, culturais, ambientais, econômicas e territoriais na construção dos processos educativos. Essa perspectiva rompe com fragmentações tradicionais do conhecimento escolar, permitindo compreender o território rural em sua complexidade e diversidade. Nesse sentido, práticas pedagógicas territorializadas favorecem processos educativos mais críticos, contextualizados e socialmente comprometidos.

3. MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo caracteriza-se como relato de experiência de abordagem qualitativa fundamentado na pesquisa participante, análise documental e territorialização das práticas pedagógicas. A investigação foi desenvolvida durante o segundo semestre de 2025 no âmbito da disciplina EDA895 – Educação do Campo: História, Concepções e Princípios, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A proposta metodológica estruturou-se a partir da articulação entre ensino, pesquisa e extensão universitária, buscando aproximar os estudantes das realidades concretas vivenciadas pelas escolas do campo e pelas comunidades rurais investigadas. Conforme apontam Sudati et al. (2024), práticas extensionistas e territorializadas possibilitam integrar conhecimentos acadêmicos e saberes populares, fortalecendo processos coletivos de reflexão crítica e produção do conhecimento.

Inicialmente, os estudantes realizaram revisão bibliográfica sobre Educação do Campo, territorialidade, políticas educacionais e desenvolvimento rural, articulando autores clássicos da área com análise de documentos normativos e legislações educacionais. Posteriormente, foram realizadas visitas técnicas às escolas investigadas, envolvendo observação participante, diálogos com educadores, análise das dinâmicas territoriais e levantamento de informações sobre as comunidades rurais nas quais as instituições estão inseridas.

Durante as visitas técnicas, foram registrados diários de campo, observações sistemáticas das práticas pedagógicas e elementos relacionados às dinâmicas territoriais das comunidades investigadas. Os dados qualitativos foram posteriormente organizados e analisados a partir de categorias temáticas vinculadas à territorialidade, identidade camponesa, práticas pedagógicas e resistência social, permitindo maior aprofundamento interpretativo das experiências observadas.

As pesquisas contemplaram a Escola Municipal de Ensino Fundamental João Hundertmark, localizada na área rural de Santa Maria (RS), a Escola Municipal do Campo de Ensino Fundamental Ernesto José Annoni, situada em São Gabriel (RS), e a Escola Estadual Joceli Corrêa, localizada no Assentamento Rondinha, em Jóia (RS).

A investigação também incorporou análise de dados públicos oficiais, especialmente informações do Censo Escolar (INEP), Censo Agropecuário (IBGE) e Censo Demográfico (IBGE), permitindo compreender as transformações territoriais, populacionais e educacionais ocorridas nos municípios investigados. Os estudantes sistematizaram os dados obtidos em artigos científicos posteriormente organizados no livro Raízes do Campo – Volume 1.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As experiências desenvolvidas ao longo da disciplina evidenciaram a relevância das práticas pedagógicas territorializadas na formação crítica dos estudantes da pós-graduação, permitindo aproximação concreta entre universidade, escola e território. As investigações demonstraram que as escolas do campo analisadas permanecem como importantes espaços de resistência social, fortalecimento comunitário e valorização das identidades camponesas, mesmo diante das intensas transformações territoriais ocorridas no meio rural gaúcho.

A análise da Escola Municipal de Ensino Fundamental João Hundertmark, localizada na área rural de Santa Maria (RS), revelou a complexidade das dinâmicas sociais e territoriais que atravessam contemporaneamente as comunidades rurais do município. Os relatos dos educadores evidenciaram preocupações relacionadas à redução gradual do número de matrículas, às dificuldades de deslocamento escolar e à permanência das juventudes no meio rural. Ao mesmo tempo, os docentes destacaram que a escola desempenha papel fundamental na manutenção das relações comunitárias e na valorização das identidades culturais do campo.

A pesquisa permitiu compreender que a EMEF João Hundertmark ultrapassa sua função estritamente educacional, constituindo-se como espaço de sociabilidade, memória coletiva e fortalecimento territorial. Conforme destacam Folmer et al. (2025), a valorização das culturas locais e das práticas comunitárias contribui para fortalecer vínculos territoriais e processos educativos contextualizados.

As escolas do campo também desempenham importante função na preservação da memória coletiva das comunidades rurais, mantendo vivas histórias, práticas culturais, festividades locais e conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações. Esses espaços educativos fortalecem sentimentos de pertencimento territorial e identidade comunitária, contribuindo para que crianças, jovens e famílias reconheçam o campo como espaço legítimo de vida, trabalho e construção de futuro

Na Escola Municipal do Campo de Ensino Fundamental Ernesto José Annoni, localizada em São Gabriel (RS), os estudantes observaram forte relação entre escola, território e agricultura familiar. As práticas pedagógicas desenvolvidas pela instituição evidenciaram preocupação com a contextualização curricular e com a valorização das experiências produtivas e culturais das comunidades rurais locais. A investigação revelou ainda que as transformações produtivas ocorridas no município, especialmente a expansão da soja e da silvicultura, vêm impactando significativamente as territorialidades rurais e as dinâmicas das comunidades escolares.

A expansão das monoculturas voltadas à lógica do agronegócio evidencia profundas contradições territoriais no espaço rural contemporâneo. Embora tais atividades ampliem indicadores econômicos regionais, também intensificam processos de concentração fundiária, redução da diversidade produtiva e fragilização das comunidades rurais. Nesse contexto, as escolas do campo tornam-se espaços fundamentais de resistência cultural e social, contribuindo para a valorização da agricultura familiar, dos saberes tradicionais e das territorialidades camponesas.

Os dados analisados demonstraram redução da população rural em São Gabriel nas últimas décadas, fenômeno associado à mecanização agrícola, concentração fundiária e migração das juventudes para áreas urbanas. Nesse contexto, a escola assume papel estratégico na preservação das identidades rurais e na manutenção das relações comunitárias.

A experiência realizada na Escola Estadual Joceli Corrêa, localizada no Assentamento Rondinha, em Jóia (RS), revelou uma realidade fortemente marcada pela organização social construída a partir da reforma agrária. Os estudantes identificaram intensa participação das famílias assentadas na vida escolar, valorização das identidades camponesas e desenvolvimento de práticas educativas relacionadas à agricultura familiar e à agroecologia.

A Escola Estadual Joceli Corrêa, localizada no Assentamento Rondinha, revelou forte articulação entre escola, identidade camponesa e organização comunitária. As práticas educativas observadas demonstraram aproximação com os princípios da Agroecologia e da Educação do Campo enquanto projetos políticos voltados à emancipação social e à permanência das famílias assentadas no território.

A investigação demonstrou que a escola desempenha papel fundamental na consolidação das territorialidades do assentamento, fortalecendo vínculos sociais, culturais e produtivos entre as famílias assentadas. Diferentemente de outras realidades investigadas, a Escola Estadual Joceli Corrêa apresentou forte integração entre escola, comunidade e práticas produtivas locais, evidenciando o potencial da Educação do Campo enquanto instrumento de fortalecimento territorial e emancipação social.

A experiência desenvolvida na disciplina dialoga com os princípios formativos da Licenciatura em Educação do Campo da UFSM, especialmente no que se refere à construção de processos educativos contextualizados, territorializados e comprometidos com a transformação social das comunidades rurais. Conti et al. (2024) destacam que a formação em Educação do Campo deve promover educadores críticos, comprometidos com as realidades locais e capazes de articular ensino, pesquisa e extensão universitária.

As análises desenvolvidas por Eder de Souza ampliaram a discussão ao problematizar as contradições das políticas públicas da Educação do Campo no Rio Grande do Sul. O estudo evidenciou que, apesar dos avanços legais conquistados nas últimas décadas, persistem desafios estruturais relacionados ao fechamento de escolas rurais, nucleação escolar, redução de investimentos públicos e dificuldades de implementação de políticas educacionais territorializadas.

Além das dificuldades estruturais já identificadas, observa-se um cenário de fragilização das políticas públicas voltadas à Educação do Campo, marcado pela insuficiência de investimentos, precarização das infraestruturas escolares e redução de programas específicos destinados às populações rurais. Tais processos ampliam desigualdades históricas e dificultam a consolidação de projetos educativos territorializados comprometidos com as demandas sociais, culturais e econômicas das comunidades camponesas.

Ao mesmo tempo, os trabalhos desenvolvidos demonstraram que as escolas investigadas permanecem como espaços fundamentais de resistência territorial e fortalecimento comunitário. A utilização integrada dos dados do Censo Escolar, Censo Agropecuário e Censo Demográfico permitiu aos estudantes construir análises mais complexas sobre as relações entre educação, população rural, transformações produtivas e permanência das comunidades no campo.

A construção coletiva do livro Raízes do Campo – Volume 1 consolidou-se como importante experiência de articulação entre ensino, pesquisa e extensão universitária, fortalecendo a escrita científica, a interdisciplinaridade e a formação metodológica dos estudantes da pós-graduação.

A experiência extensionista desenvolvida ao longo da disciplina demonstrou ainda a importância da universidade pública enquanto espaço de diálogo horizontal entre conhecimento científico e saberes populares. A aproximação entre pós-graduandos, comunidades rurais e escolas do campo possibilitou processos formativos mais sensíveis às realidades territoriais, fortalecendo perspectivas acadêmicas comprometidas com transformação social e justiça territorial.

5. CONCLUSÃO

A experiência desenvolvida na disciplina EDA895 – Educação do Campo: História, Concepções e Princípios evidenciou o potencial das práticas pedagógicas territorializadas na formação crítica de pesquisadores comprometidos com os sujeitos do campo e com as territorialidades rurais brasileiras.

As investigações realizadas nas escolas do campo de Santa Maria, São Gabriel e Jóia possibilitaram compreender a complexidade das transformações territoriais, produtivas e educacionais que atravessam contemporaneamente o campo gaúcho. Os estudos demonstraram que instituições como a Escola João Hundertmark, a Escola Ernesto José Annoni e a Escola Estadual Joceli Corrêa permanecem como espaços fundamentais de resistência territorial, fortalecimento comunitário e valorização das identidades camponesas.

As experiências desenvolvidas demonstraram que a Educação do Campo permanece como espaço estratégico de resistência territorial, fortalecimento comunitário e produção de alternativas emancipatórias frente às transformações contemporâneas do espaço agrário brasileiro. As escolas investigadas evidenciam que os territórios rurais continuam produzindo identidades, saberes e práticas coletivas fundamentais para a construção de sociedades mais sustentáveis e socialmente justas.

A construção coletiva do livro Raízes do Campo – Volume 1 consolidou-se como experiência concreta de articulação entre ensino, pesquisa e extensão universitária, fortalecendo a produção científica comprometida com os sujeitos do campo e reafirmando a universidade pública como espaço de diálogo entre conhecimento acadêmico e territorialidades rurais.

Diante do avanço das desigualdades territoriais e das transformações promovidas pelo agronegócio no espaço rural brasileiro, torna-se fundamental fortalecer políticas públicas voltadas à permanência das escolas do campo, à valorização das juventudes rurais e à garantia do direito à educação contextualizada. A manutenção dessas instituições representa não apenas uma demanda educacional, mas uma estratégia de resistência territorial, preservação cultural e fortalecimento das comunidades camponesas.

As experiências analisadas demonstram que a Educação do Campo ultrapassa a dimensão estritamente escolar, configurando-se como movimento político, social e pedagógico voltado à defesa da vida nos territórios rurais. Nesse sentido, fortalecer escolas do campo significa também fortalecer comunidades, preservar culturas locais e ampliar possibilidades de desenvolvimento territorial socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Conclui-se que experiências dessa natureza contribuem significativamente para o fortalecimento da Educação do Campo enquanto campo científico, político e pedagógico comprometido com a justiça social, a valorização das territorialidades rurais e o direito à educação contextualizada para os povos do campo.

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1 Professoras Doutoras da Universidade Federal de Santa Maria –RS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Girassol – CCR/UFSM. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail