REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786931970
RESUMO
Esta pesquisa tem como objetivo geral analisar a produção poética na Coleção Slam, LGBTQIA+ e investigar como os textos performáticos articulam e expõem resistências à cisheteronormatividade patriarcal e hegemônica, além de ampliar o campo dos discursos literários a partir de perspectivas feministas, identitárias e antirracistas. Em diálogo com a teoria da performatividade de gênero de Judith Butler (2013), a proposta busca compreender de que forma a pluralidade de vozes oprimidas presentes na coletânea subverte categorias fixas e pré-estabelecidas de identidade e corpo inteligível. A metodologia adotada é a qualitativa, baseada na análise crítica dos poemas, considerando seus contextos de produção e circulação nos múltiplos espaços sociais de expressão política e cultural. Aplica-se também um referencial interdisciplinar, apoiado em conceitos foucaultianos (2017) sobre poder e subjetividade, nos estudos interseccionais de bell hooks (2019) sobre raça, gênero e sexualidade, e nas reflexões ético-estéticas de Marcia Tiburi (2019) acerca das pluralidades identitárias. Espera-se mostrar que os textos em análise atuem como dispositivos estéticos e políticos que questionam e subvertem o cânone literário eurocêntrico, hegemônico e cisheteropatriarcal, denunciando a violência estrutural e as múltiplas formas de precarização das vidas pretas e LGBTQIA+ no Brasil contemporâneo. Esta obra literária em estudo evidencia e propõe uma desestabilização do “cis-tema” e reafirma a necessidade de visibilidade e reconhecimento de múltiplas vozes além do binarismo cisheterohegemônico que o sistema mantém.
Palavras-chave: Coleção Slam; Interseccionalidade; Poesia Performática LGBTQIAPN+.
ABSTRACT
This research aims to analyse the poetic output of the *Slam, LGBTQIA+* collection and to investigate as these performance-based texts articulate and expose resistances to patriarchal and hegemonic cisheteronormativity, besides expanding the field of literary discourse through feminist, identity-based, and anti-racist perspectives. Drawing on Judith Butler’s (2013) theory of gender performativity, the study seeks to understand as the plurality of oppressed voices within the collection subverts fixed, pre-established categories of identity and the intelligible body. A qualitative methodology is used, based on a critical analysis of the poems that considers their contexts of production and circulation across diverse social spaces of political and cultural expression. The study is interdisciplinary and it is based on Foucault’s (2017) concepts of power and subjectivity, bell hooks’s (2019) intersectional studies about race, gender, and sexuality, and Marcia Tiburi’s (2019) ethical-aesthetic reflections about the plurality of identities. The research aims to demonstrate that the texts under analysis operate as aesthetic and political devices that challenge and subvert the Eurocentric, hegemonic, and cisheteropatriarchal literary canon, while denouncing structural violence and the multiple forms of precarity affecting Black and LGBTQIA+ lives in contemporary Brazil. The literary work highlights and proposes a destabilization of the "cis-tem" and reaffirms the need for the visibility and recognition of multiple voices beyond the cishetero-hegemonic binarism maintained by that system.
Keywords: Slam Collection; Intersectionality; LGBTQIAPN+ Performance Poetry.
INTRODUÇÃO
“A luta contra a exclusão e a normatividade é uma luta pela visibilidade e legitimidade das múltiplas formas de ser’. MarciaTiburi
Este artigo dedica-se à análise da Coleção Slam LGBTQIA+, coletânea de poemas que transcende a expressão literária e assumem um lugar de destaque no cenário cultural e político contemporâneo brasileiro. Esta coleção reúne vozes plurais de sujeitos LGBTQIA+, cujas produções textuais performáticas articulam formas de resistência às normativas cisheteronormativas e patriarcais que permeiam tanto a sociedade quanto o cânone literário tradicional. O estudo parte de um pressuposto que entende a produção poética não apenas como manifestação estética, mas como um dispositivo político capaz de questionar e tensionar estruturas hegemônicas, denunciar violências simbólicas e materiais, e ampliar o campo dos discursos identitários desde perspectivas feministas até antirracistas.
Ao utilizarmos o conceito de performatividade de gênero, formulado por Judith Butler (2013), buscaremos compreender como a pluralidade de vozes presentes na coleção subverte e desconstrói categorias fixas de identidade, revelando a construção social e política do corpo inteligível e seus múltiplos atravessamentos. Tal abordagem permite analisar como os textos não se restringem às representações literais, porém atuam como práticas que performam e desafiam os regimes discursivos de poder e de normalização.
A metodologia adotada é qualitativa, baseada na análise crítica dos poemas, considerada em seus contextos de produção e circulação nos vários espaços sociais que envolvem a expressão política e cultural LGBTQIA+. O estudo apoia-se em referencial interdisciplinar, articulando conceitos foucaultianos (2017) sobre poder e subjetividade; a teoria de Butler (2013) sobre performances de gênero e os estudos interseccionais de bell hooks (2019), que abordam as relações entre raça, gênero e sexualidade e as reflexões ético-estéticas de Marcia Tiburi (2019) acerca das pluralidades e lutas identitárias. Esta articulação teórica permite a compreensão aprofundada da poética que engloba a crítica direta ao cânone eurocêntrico e cisheteropatriarcal, evidenciando a emergência de narrativas literárias que refletem, resistem e transformam as experiências de precarização e violência vividas pelo coletivo LGBTQIA+ no Brasil contemporâneo.
Esperamos que o artigo contribua para a ampliação do debate acadêmico e cultural acerca da poesia performática como prática política, subversiva e emancipatória, dando ênfase à necessidade de reconhecimento e valorização das múltiplas vozes que convergem para além do binarismo cisheteronormativo. Assim, essa coleção revela-se como produção literária e também como local vital de reinvenção identitária e de liberdade em diálogo constante com os problemas socioeconômicos e culturais urgentes da contemporaneidade.
Performatividade de Gênero e Interseccionalidade
A análise proposta neste artigo fundamenta-se em referencial teórico interdisciplinar que articula conceitos centrais da teoria da performatividade de gênero de Judith Butler, com as noções foucaultianas de poder e subjetividade, com a perspectiva interseccional desenvolvida por bell hooks, bem como nas reflexões ético-estéticas sobre pluralidade identitária elaboradas por Marcia Tiburi. Esse arcabouço teórico permite compreender a produção poética da Coleção Slam LGBTQIA+ como um espaço de articulação política e estética que subverte as normativas cisheteronormativas e eurocêntricas.
Judith Butler (2013), em sua teoria da performatividade de gênero, desloca a compreensão do gênero de uma essência ou condição fixa para um efeito discursivo construído por meio da reprodução performativa de atos, gestos e expressões socialmente codificadas. Para Butler, o gênero é uma prática que se realiza continuamente e cujos limites podem ser subvertidos justamente por meio da ruptura dessas performances cisheteronormativas.
E para ser mais definitivo
Com o cis-tema
Com o hétero-tema
Sob o qual se difunde
O escárnio sob os corpos – territórios
Que se desmebram,
Como o meu
Em casos múltiplos
Com a sentença diferente [...]
O arrazoado, o forte, o real
O que dizem ser chamado de “NORMAL”
E apesar dos pesares
Apesar do normal ser ficcional
Apesar do normal ser fantasia [do próprio – normal
Apesar do normal sentenciar o anormal (LGBTQIA+, 2019, p. 82-83).
Estes versos poéticos possibilitam analisar a pluralidade de vozes além do binarismo cisheterorregulador, presentes na coleção como estratégias que desafiam as identidades fixas e questionam o regime do corpo inteligível, oferecendo múltiplas possibilidades de existência e subjetivação que escapam às categorias binárias (Butler, 2013). O poema, também problematiza a construção ficcional do “normal” e expõe a violência simbólica dirigida a identidades ‘anormais”. Essa atuação performativa desafia a rigidez dos regimes de gênero, ampliando os espaços de existência e reconhecimento para além dos modelos cisheterohegemônicos.
Complementarmente, Michel Foucault (2017) oferece fundamentos sobre as relações de poder e a constituição das subjetividades que enriquecem e dialogam com a análise literária e cultural. Sua noção de poder não é vista simplesmente como repressiva, mas como produtiva, atravessando os discursos e as práticas cotidianas que moldam os corpos e as identidades. A sociedade regula e controla a sexualidade, as identidades e impõe a cisheterossexualidade como norma central. Os discursos veiculados socialmente excluem, reprimem e invisibilizam outras performances. Isso hierarquiza e marginaliza corpos LGBTQIAPN+ e sustenta a ordem vigente por meio da vigilância e categorização desses sujeitos.
O poder seria, essencialmente, aquilo que dita a lei, no que diz respeito ao sexo. O que significa, em primeiro lugar, que o sexo fica reduzido, por ele, a regime binário: lícito e ilícito, permitido e proibido. Em seguida, que o poder prescreve ao sexo uma “ordem” que funciona, ao mesmo tempo, como forma de inteligibilidade: o sexo se decifra a partir de sua relação com a lei (Foucault, 2017, p. 91).
Foucault aponta que o poder atua ao delimitar e reduzir o sexo, as identidades dentro de um regime binário de permitido e proibido, impondo uma ordem cisnormativa que torna a sexualidade inteligível somente em relação à lei. Essa normatização reduz a complexidade do sexo a categorias dicotômicas, restringindo a diversidade de experiências e legitimando apenas as práticas conformes ao sistema vigente. O poder não somente regula, como também produz sentidos que moldam os corpos e sujeitam os desejos ao controle social.
Foucault (2017) destaca também o papel que o discurso tem como recurso instrumental ao controle social, ele age regulando comportamentos e identidades de maneira sutil ou explícita em uma correlação com o momento histórico e com as bases ideológicas em curso. Isso faz com que o preconceito contra a diversidade sexual não se manifeste apenas por meio de atos de violência física, mas também por formas de violência simbólica, como a exclusão discursiva, que reforça a invisibilidade de grupos marginalizados, sustentando ideologias cisheteronormativas que, de forma bastante delimitada, estabelecem padrões e categorizações como as de certo e errado.
A literatura, nesse sentido, pode ser compreendida como um meio de circulação e contestação desses saberes-poder, onde se formam ou se desconstroem regimes de verdade sobre o gênero, o corpo e as identidades. A análise crítica dos poemas, portanto, deve considerar a dimensão do poder discursivo que envolve as produções poéticas como práticas que produzem subjetividades múltiplas de resistência. “O dispositivo de sexualidade tem, como razão de ser, não o reproduzir, mas o proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar nos corpos de maneira cada vez mais detalhada” (Foucault, 2017, p. 116). Dessa forma, não devemos reduzir a sexualidade, as identidades de gênero apenas ao binarismo cisheterorregulador; faz-se necessário um olhar múltiplo e profundo acerca dos corpos LGBTQIAPN+ que performam além da matriz inteligível.
Em relação à interseccionalidade, bell hooks (2019) amplia a compreensão da experiência identitária, uma luta feminista, enfatizando que as vivências são apresentadas a partir da intersecção de múltiplos marcadores sociais, como raça, gênero e sexualidade, cuja opressão é vívida de forma diferenciada e articulada. “A luta feminista traz para nossa vida, de mulheres, de homens, que continuam a trabalhar por uma mudança, que continuam a esperar o fim do sexismo, da exploração sexista e da opressão” (hooks, 2019, p. 7).
Uma perspectiva interseccional é fundamental para captar a complexidade da produção poética da Coleção Slam LGBTQIA+, que não apenas dialoga com o gênero e a sexualidade, mas incorpora as questões raciais, sociais e econômicas, ampliando o campo dos discursos identitários e políticas de resistência. O que melhor descreve essas questões interseccionalizadas, “superando barreiras de raça, gênero e práticas sexuais. Especificamente em relação à desconstrução pós-moderna das narrativas ‘mestres’, o anseio que flui no coração e na mente das pessoas que foram silenciadas é o desejo de uma voz crítica” (hooks, 2019, p. 78). Por meio dessa abordagem, é possível enfatizar a pluralidade das vozes oprimidas presentes na coletânea e sua capacidade de desestabilizar narrativas cisheterohegemônicas. A luta feminista como um movimento coletivo e contínuo que envolve mulheres, homens e corpos LGBTQIAPN+ comprometidos com a transformação social. Essa resistência busca o fim do sexismo, do machismo, da homotransfobia3, da exploração e da opressão, promovendo uma luta ativa por igualdade e justiça. Isso, reforça a dimensão política e múltipla do feminismo contemporâneo.
Em diálogo com hooks (2019), Marcia Tiburi (2019) aprofunda sobre a invisibilidade e opressão de corpos marginalizados, ela aporta uma dimensão ético-estética à reflexão sobre as pluralidades identitárias, defendendo a valorização das múltiplas existências e das práticas de resistência que se manifestam na arte e na literatura. Tiburi propõe que a ética deve dialogar com a estética no reconhecimento e na celebração da diversidade, sobretudo em contextos atravessados por exclusões estruturais e violências simbólicas. Direito, visibilidade e conquista a ser quem realmente é, ter identidade própria. “Uma conquista comemorada a cada dia por quem se sente comprometido, em sua vida, com aqueles que não-puderam-ser-aquilo-que-poderiam-ter-sido em função de preconceito de gênero e sexualidade, de raça e classe” (Tiburi, 2019, p. 73).
Essa perspectiva reforça a análise da poesia performática da Coleção como um espaço ético-político no qual as pluralidades se apresentam simultaneamente como demanda por visibilidade e como práticas de reinvenção dos modos de ser e existir. O feminismo, portanto, “nos leva à luta por direitos de todas, todes e todos” (Tiburi, 2019, p.11). O feminismo contemporâneo, por sua vez, deve ser plural, articulando a luta por direitos que contemplem todas as identidades de gênero. Essa perspectiva amplia o movimento, reconhecendo a diversidade e promovendo uma igualdade múltipla e interseccional, ele se configura como um compromisso coletivo e democrático. “Um desejo por democracia radical voltada à luta por direitos daqueles que padecem sob injustiças que foram armadas sistematicamente pelo patriarcado (Tibuti, 2019, p. 12).
O entrelaçamento dessas perspectivas teóricas de gênero, antirracistas e feministas fundamentam a análise crítica dos textos poéticos, indicando que a produção literária da Coleção Slam LGBTQIA+ atua como dispositivo estético, performático, poético e político, que questiona e subverte a normatividade cisheteropatriarcal e eurocêntrica, articulando resistências que atravessam múltiplas dimensões identitárias e sociais.
Contextualização da Coleção Slam LGBTQIA+: Resistência e Discurso Literário
A poesia slam pode ser vista como uma prática performativa contemporânea que une a poesia ao espaço público, promovendo a voz de artistas constantemente marginalizados nos circuitos tradicionais. Por meio da declamação efervescente e da competição entre poetas, esses poemas valorizam a oralidade, a presença corporal e a expressão emocional como formas legítimas de conhecimento e resistência. Essa modalidade poética desafia convenções literárias e se estabelece como um espaço para o diálogo social, no qual questões identitárias, políticas e culturais são compartilhadas e problematizadas. Esse estilo estético insere a poesia na dinâmica da cultura popular, contribuindo para a democratização do acesso às artes e à reflexão crítica.
A Coleção Slam LGBTQIA+ surge como marco significativo na literatura brasileira contemporânea, especificamente naquilo que se refere às expressões poéticas que se articulam como vozes das identidades pretas, periféricas, sujeitos transgressivos, que subvertem normas cisheterohegemônicas. Originada a partir da tradição dos slam poesia, que são competições performáticas com forte componente popular e contestatório, a coletânea reúne poemas que visibilizam, problematizam e traduzem experiências de opressão, resistência e afirmação das múltiplas subjetividades LGBTQIA+.
Esse tipo de poesia se popularizou mundialmente nas últimas décadas, caracterizada por performances orais que privilegiam a potência da voz, do corpo e da presença em cena, desafiando as formas estáticas da literatura tradicional eurocêntrica. Conforme Santos e Neves (2022), no Brasil, o slam foi introduzido há pouco mais de uma década por Roberta Estrela D’Alva, fundadora do ZAP! Slam em São Paulo. Atualmente, o movimento se espalha por diversas regiões do país, consolidando-se como expressão cultural potente transgressiva e significativa. O surgimento desse gênero artístico e ativista possibilitou o protagonismo de grupos marginalizados, incluindo as comunidades LGBTQIA+, negros, mulheres e jovens periféricos, ampliando o repertório poético-comunitário num diálogo entre arte, política e vivência cotidiana. A Coleção em análise incorpora essas características, estabelecendo-se assim como um espaço de produção literária que subverte o cânone hegemônico ao dar voz e visibilidade à narrativas frequentemente silenciadas, invisibilizadas e marginalizadas.
No campo literário e social brasileiro contemporâneo, os poemas em estudo representam inserções emblemáticas que dialogam diretamente com os debates sobre diversidade, direitos humanos e justiça social. Isso fortalece e mostra a literatura como instrumento de transformação social, em consonância com outras expressões culturais e movimentos sociais LGBTQIA+ no país. Eles mostram a importância dessa performatividade poética, pois a prática slammer é profundamente marcada pelas pautas identitárias e pelas denúncias das opressões decorrentes do machismo, racismo e homotransfobia (Santos e Neves, 2022). As questões sociais complexas são expressas e ressignificadas continuamente por meio do ritmo, da rima e da poesia dos artistas da obra.
A poesia performática apresenta-se como modalidade estética e como prática política que atravessa os limites entre arte, ativismo e experiência corporal. Por meio da performatividade, os poemas dessa coleção provocam a contaminação entre texto, corpo e audiência, produzindo efeitos de resistência que desconstroem categorias fixas de identidade e afirmam a pluralidade das subjetividades. Essa poesia orientada para a oralidade performática desafia a norma, reivindica espaços e enuncia demandas sociais, consolidando-se como ferramenta eficaz de emancipação cultural e política. A poesia contemporânea configura-se como um espaço privilegiado de reflexão crítica, performance e reinvenção estética, ela é plural e contínua frente às transformações culturais e sociais (Lima, 2020).
A Coleção Slam LGBTQIA+ assume lugar de relevância no panorama literário brasileiro quando articula estética e política em uma produção textual que afirma identidades dissidentes, denuncia violências e desigualdades, e amplia significados no campo da literatura e da resistência. A obra representa um movimento vivo que dialoga com as lutas contemporâneas por reconhecimento, diversidade e transformação social, reafirmando o poder da poesia enquanto prática ética e política no Brasil dos nossos dias.
Análise Crítica dos Poemas: Subversão e Pluralidade Identitária
A análise dos textos que serão apresentados foi conduzida a partir de uma metodologia qualitativa, baseada na leitura crítica e interpretativa dos poemas, com ênfase na compreensão de suas dimensões estéticas, políticas e sociais. A abordagem qualitativa dedica-se mais a produção de dados do que com a mensuração deles, tendo por base o contexto sócio-histórico em que os dados são produzidos, bem como o contexto de seus produtores (Bortoni-Ricardo, 2008). Ela permitiu aprofundar a investigação sobre as formas pelas quais o corpo, a identidade e as normas discursivas são subvertidas e reinscritas nos textos, unindo uma abordagem interdisciplinar que conversa com estudos de gênero, teoria queer, literaturas negras e críticas pós-coloniais.
A metodologia adotada inicialmente faz uma seleção criteriosa dos poemas que abrange a diversidade temática e estilística da coletânea, privilegiando textos cujas temáticas incorporam estratégias explícitas de resistência e questionamento aos regimes cisheteronormativos e eurocêntricos. A análise considerou igualmente o contexto de produção e circulação dessas obras, partindo-se do pressuposto que a poesia slam vai além do espaço impresso e incorpora-se à performance oral e na interação direta com o público, fatores que ampliam seu poder político e estético.
Nos poemas selecionados, observamos como ocorre a subversão das categorias fixas de identidade e corpo. Através de uma expressão que multiplica vozes, sentidos e significações, a coletânea desfaz a fragilidade das dicotomias tradicionais, tais como homem/mulher, cis/trans, heterossexual/homossexual, deixando nítido o caráter construído e performativo dessas categorias. A corporeidade apresentada de forma múltipla e fluida, manifesta-se como instância central para a afirmação de vidas LBGTQIAPN+ que questionam a imposição de um corpo “inteligível” de acordo com a cisnorma. O trecho do poema de Bicha Poética mostra o sofrimento, a invisibilidade e a luta desses corpos para sobreviverem:
Sou eu quem vou?
O Cerará a Dandara fingiu que ajudou
O governo do Rio para Matheusa nem ligou
E se eu ficar contando vou passar uma noite
Porque tem as que a mídia ainda não contabilizouEu pareço piada
Não é meu senhor
Isso tudo é uma relação de ódio e amor
É que somos os monstros que a sociedade mesmo criouE que nesse jogo de horror
O bicho papão é vocês
Nos esculacha em casa, nos faz de piada
E que na rua ainda quer ser meu freguêsAqui ninguém passa pano, nem pra homofóbico
E nem pra burguês, sabe por quê?Que estou viva é por elas
Estamos vivas é por elas... (LGBTQIA+, 2019, p. 40-41)
A referência a Dandara, travesti de 42 anos, morta em 2017 no Ceará e a Matheusa, morta em 2018 no Rio de Janeiro, esta última foi alvejada com um tiro no peito e teve seu corpo queimado. Dois corpos que foram mortos brutalmente, vítimas da homotransfobia, assim como outros sujeitos dissidentes que vivenciam e sofrem isso constantemente. O poema expõe um importante posicionamento político e social ao denunciar as negligências estruturais e institucionalizadas sofridas por corpos invisibilizados e marginalizados, principalmente corpos trans. O contraste entre “amor” e “ódio” estabelecem tensionamentos e resistências, lutas constantes diante do sistema social cisheteronormativo e opressor.
Os dispositivos estéticos presentes nos textos funcionam como ferramentas políticas. A força expressiva da oralidade, o uso da reprodução, da rima, da desconstrução gramatical, e da hibridização linguística são elementos que potencializam o efeito de resistência estética, revelando o caráter performativo da poética slam. Além disso, a construção de imagens poéticas que dialogam com a violência estrutural, a racialização do corpo e a precarização social amplia a dimensão política dos poemas, que atuam simultaneamente como denúncia e afirmação identitária.
Pareço confiante na frente de vocês
Mas, na verdade eu tô cheio de medo
Cê tem ideia de quantas pessoas,
Enquanto de casa pra cá, me apontaram o dedo?Cê tem ideia que o meu
Cabelo incomoda tanto,
-Que falo com propriedade-
A maioria dos brancos,
Fazem cara de desgosto
Que é sinônimo de nojo.
Cê tem noção
Que nojo significa profunda tristeza?E eu sinto, com toda certeza
O teu olhar de ~estranheza~
Dizer que não me incomodo
Pode soar bem na poesia
Mas ouça bem
O medo tá ao meu lado dia-a-dia!
Me incomoda sim!
Ter teu olhar sobre mim! (LGBTQIA+, 2019, p. 44-45).
Este trecho poético problematiza reflexões sobre corpos interseccionalizados: negros, periféricos e LGBTQIAPN+. O impacto racializado, homotransfóbico, o desconforto causado pelo cabelo, embora ele seja símbolo identitário e político para pessoas pretas. Tais dispositivos deixam claro que a poesia da coletânea não se distancia das lutas sociais e se coloca como agente na disputa por reconhecimento e justiça. Pois, esses corpos vulneráveis denunciam o racismo estrutural, a hegemonia branca e as normas sociais cisheteropatriarcais.
A relação entre os poemas e os espaços sociais de produção e circulação é fundamental para compreender a potência desses textos. A poesia slam tem suas origens e bases nas ruas, nos palcos e na oralidade. Ela dialoga diretamente com as comunidades marginalizadas, sendo um meio para dar voz as narrativas antes silenciadas ou subalternizadas. A análise dos poemas da Coleção Slam LGBTQIA+ revela uma produção literária que não apenas reflete a pluralidade identitária contemporânea, mas que atua como mecanismo de subversão das normas discursivas vigentes, articulando dimensões estéticas e políticas em um movimento que busca ampliar os espaços de existência e legitimação dos corpos e das vozes além da cisheteronormatividade.
Desconstrução do Cânone Literário Eurocêntrico e Cisheteropatriarcal
A referida coleção posiciona-se como uma obra que promove, através da poesia performática, a desconstrução robusta do cânone literário eurocêntrico e cisheteropatriarcal, sempre compreendido como universal, sendo tomado como base para produções literárias, que mantêm assim sua própria hegemonia. Ao reunir vozes historicamente marginalizadas, como de mulheres trans, pessoas negras, queer e periféricas, a coletânea cria estratégias poéticas que desafiam as cisnormas canônicas, estabelecendo um discurso que se opõe e resiste às estruturas coloniais de poder e saber, segundo Catherine Walsh (2009). Podemos afirmar ainda, baseando-se nessa autora, que essa coletânea tem um caráter decolonial, uma vez que
[...] procura desafiar e derrubar as estruturas sociais, políticas e epistêmicas da colonialidade – estruturas até agora permanentes – que mantêm padrões de poder enraizados na racialização, no conhecimento eurocêntrico e na inferiorização de alguns seres como menos humanos (Walsh, 2009, p. 14).
Dentre as estratégias poéticas adotadas, percebemos principalmente a desestabilização da linguagem normativa, a reinvenção do corpo e da identidade a partir de múltiplas temporalidades e espaços, bem como a incorporação de elementos da oralidade, das gírias e das expressões culturais periféricas. Esses recursos promovem o afastamento da rigidez formal e temática dos cânones tradicionais para privilegiar a pluralidade, o experimentalismo e o engajamento político e social da palavra. Os poemas rompem com a linearidade e a homogeneidade discursiva, agindo assim como atos de resistência simbólica e contestadora da imposição da estética exclusivamente eurocêntrica e patriarcal, construindo um caminho para narrativas que afirmam identidades e subjetividades LGBTQIAPN+.
Você, você e você que me olha torto
Cê tem vontade de dar um tiro
Na minha cabeça e me ver morto?
Se sim, se não
Se responda e enxerga a responsa
Quando você me olhar torto
Eu sinto que cê quer me matar... (LGBTQIA+, 2019, p. 50).
A produção poética da coleção é marcada pela denúncia explícita das violências estruturais que atravessam os corpos e as existências marginalizadas, a ameaça velada, explícita e implícita sofrida por esses corpos. Com o uso de metáforas impactantes e de uma linguagem direta e urgente, os poemas expõem as múltiplas formas de opressão, que se dão pela violência física e simbólica, pelo racismo institucionalizado, pela homotransfobia, pela precariedade econômica e pela exclusão social. Essas denúncias são feitas e elas são importantes para o reconhecimento dos corpos marginalizados e servem também para a reivindicação de direitos e dignidade, sendo um instrumento de visibilização e resistência contra a naturalização de todas as formas de violência. O texto estético e transgressivo amplia a representatividade e performa uma literatura mais plural e democrática.
A Coleção Slam LGBTQIA+ desloca o centro da produção literária, historicizando e legitimando as experiências de grupos subalternizados e inferiorizados, que ao longo da história foram excluídos das narrativas ciheterohegemônicas. Dessa forma, ocorre uma inclusão quantitativa, porém não somente isso e sim uma transformação qualitativa dos modos de produção, circulação e recepção da literatura, que se reveste agora de perspectivas interseccionais e plurais, propondo uma revisão crítica das bases epistemológicas do conhecimento literário eurocentrado.
A obra em estudo contribui para construir uma literatura que reflete a diversidade social, e também atua na reconfiguração dos parâmetros estéticos e políticos da escrita contemporânea. As performances estéticas apresentadas nos poemas da coleção estão de acordo com as afirmações de Coelho (2023), que a oralidade e a corporeidade poemáticas são atos de recusa ao que está posto e que celebram resistência, dignidade, e denunciam violências, reafirmando a humanidade e a visibilidade de sujeitos subalternizados e marginalizados. Isso representa um espaço de invenção estética e política que desconstrói o cânone, fazendo uma crítica a ele. Amplia as fronteiras da literatura para contemplar vozes plurais, que provocam e questionam os sentidos das estruturas cisheterohegemônicas de gênero, raça, sexualidade e poder.
Implicações Sociais e Políticas da Coleção Slam LGBTQIA+
Essa coleção tem um papel central na promoção da visibilidade e do reconhecimento da multiplicidade de identidades que compõem o amplo espectro LGBTQIA+. Fazendo o uso de textos performáticos, a coletânea contribui para a circulação de discursos que rompem com a invisibilidade histórica e social nas quais este grupo foi submetido. Ela é constituída por poemas com diversas interseccionalidades, representando vários aspectos da diversidade humana. A respeito da relevância de se considerar as múltiplas intersecções que atravessam corpos e existências, Luiz Paulo da Moita Lopes declara que:
A formalização de uma dimensão interseccional nas teorias queer é fundamental. O gênero e a sexualidade precisam ser considerados em conjunto com os atravessamentos dos corpos por sentidos de classe social, raça, etnia, religião, idade, nacionalidade etc. Ao interseccionalizar o gênero e a sexualidade com outras dimensões sociais, os significados performatizados são ainda mais desestabilizados (Lopes, 2022, p. 25).
Ao dar voz às diversas subjetividades que desafiam o binarismo de gênero e as normas cisheteronormativas, a coletânea atua como agente multiplicador de representações legítimas e pluralizadas fundamentais para a construção de um mundo inclusivo e democrático.
Eu resisto e me visto do que eu sou, eu não vim pra esse mundo pra me esconder em armário pra agradar otário conservador, eu vim pra pintar, pra distribuir cor e meu arco íris vai brilhar enquanto eu tiver de pé, enquanto eu respirar, eu sempre vou chegar te mandando a minha letra, prazer Ádrian, sapatão preta! (LGBTQIA+, 2019, p. 64).
Este excerto expõe as múltiplas identidades, as resistências queer e desafia as normas cisheteroconservadoras. A metáfora do armário simboliza corpos escondidos e que não assumem suas performances, enquanto o arco íris enfatiza o orgulho visível, autêntico e existencial. Isso, no contexto brasileiro, marcado por uma das mais elevadas taxas globais de violência contra pessoas LGBTQIA+, especialmente contra corpos trans e travestis. A produção literária da Coleção Slam LGBTQIA+ emerge também como forma expressiva de denúncia e resistência. Os poemas clarificam não apenas as violências físicas e simbólicas que atravessam essas vidas, a exemplo a transfobia, o racismo, a exclusão social e a precariedade econômica, mas também evocam formas coletivas de luta e sororidade que resistem à opressão estrutural. Destarte, os textos constroem um movimento duplo: são testemunhos de condições adversas, ao mesmo tempo em que se estabelecem como espaços simbólicos de fortalecimento identitário e político.
O que, para Preciado (2023), isso afeta, “tanto a representação do mundo quanto as tecnologias sociais com as quais produzimos valor e sentido, assim como a definição da soberania energética e somática de alguns corpos sobre outros”, (Preciado, 2023, p. 34). Isso evidencia que alguns corpos atuam sobre outros, uns tem mais autonomia e poder social, as transformações epistemológicas, tecnológicas e políticas contemporâneas reconfiguram o controle sobre os corpos LGBTQIAPN+ e tentam manter formas de dominação como o poder de governar suas identidades e vivências, revelando assim as dinâmicas desiguais entre sujeitos vulnerabilizados diante daqueles que detêm o controle.
A coleção representa uma contribuição significativa para os movimentos sociais e culturais contemporâneos, ao promover o diálogo produtivo entre literatura e ativismo. As produções poéticas contemporâneas ressignificam, pluralizam e visibilizam múltiplas performances identitárias (Alixandrino; Rodrigues, 2025). Isso corrobora com a poesia slam, com sua conexão íntima com os territórios periféricos, com as culturas negras e com a militância LGBTQIA+, potencializando o engajamento político a partir da arte, ampliando a visibilidade de diretrizes essenciais como direitos humanos, equidade e diversidade. Essa interseção entre produção artística e mobilização social fortalece o tecido coletivo das lutas populares e evidencia a força transformadora da cultura como instrumento de mudança social.
De uma forma geral, essa coleção extrapola a dimensão literária para se constituir como um dispositivo político-cultural de resistência, que assegura a notabilidade das múltiplas identidades LGBTQIA+ no Brasil. Ela constitui-se como uma ferramenta vital à visibilidade, ao reconhecimento e à luta contra as opressões sociais e sistêmicas que vivemos, reafirmando a importância da produção literária para os processos de emancipação social e cultural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo analisou a Coleção Slam LGBTQIA+ como um importante corpus de poesia performática que articula formas de resistência às normativas cisheteronormativas e eurocêntricas, ampliando o campo discursivo de perspectivas feministas, de gênero, antirracistas e outras interseccionalidades. A partir do referencial teórico, que abarcou a performatividade de gênero de Judith Butler, as noções de poder e subjetividade de Michel Foucault, a interseccionalidade, elaborada por bell hooks e os aportes ético-estéticos de Marcia Tiburi, foi possível compreendermos a coletânea como um espaço privilegiado de subversão às categorias fixas de identidade e de corpo, bem como de afirmação da pluralidade identitária.
A análise qualitativa dos poemas revelou estratégias estéticas que desestabilizam o cânone literário cisheterohegemônico, denunciando as violências estruturais que atravessam as vidas e corpos LGBTQIA+ no contexto brasileiro e favorecendo assim a inclusão de vozes historicamente marginalizadas. A poética da coleção emerge, por assim dizer, como uma prática política e cultural que vai além das fronteiras da literatura tradicional eurocentrada e se constitui como um instrumento de visibilidade, reconhecimento e resistência. “A existência de todas (os) (es) as pessoas, reconfigurar e rever a cisheteronormatividade e afirmar, coletivamente o direito de existir em pluralidade de gênero, como fundamento da vida e formas e organizações inclusivas e democráticas” (Alixandrino; Rodrigues; Souza, 2026, p. 89).
Este estudo destacou as implicações sociais e políticas da obra, mostrando seu papel na denúncia da precariedade e da violência que reiteradamente acometem a população LGBTQIA+. Outro aspecto contributivo dessa pesquisa é a importância para o fortalecimento de movimentos sociais e culturais que objetivam transformações estruturais. A produção performática presente na coletânea amplia narrativas de visibilidade e pluralidade, deixando evidente o poder estético artístico literário como agente propulsor das lutas por direitos e justiça social.
O estudo demonstrou que obras como a Coleção Slam LGBTQIA+ atuam como dispositivo estético-político, contribuindo ao enfrentamento de inúmeras formas de opressão e para a construção de histórias identitárias plurais e inclusivas. Sugerimos que futuras pesquisas sejam feitas com o intuito de aprofundar o estudo das práticas performáticas nos diferentes espectros e expressões culturais LGBTQIAp+, bem como seus impactos nos processos de reconhecimento social, levando em consideração as interseccionalidades que perpassam essas existências.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Possui graduação em Letras e Pedagogia, pós-graduação em educação inclusiva, mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás, (UEG) e doutorando em Letras - Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC/GO). Bolsista Capes. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. LATTES: http://lattes.cnpq.br/7985272725906696. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6205-1258.
2 Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias Universidade Estadual de Goiás - Campus Central - Anápolis. Licenciado em Letras Português/Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e bacharel em Direito pela mesma universidade. Professor efetivo de língua inglesa nas redes municipal de Goiânia e estadual de Goiás. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. LATTES: https://lattes.cnpq.br/4675112119015076.
3 Regras que reforçam a ideia da heterossexualidade e da cisgeneridade como normas aceitas socialmente, cisgênero e heterossexual é o padrão legítimo a ser seguido, outras identidades em desacordo são excluídas e invisibilizadas. Esse padrão sustenta desigualdades e marginaliza quem não se encaixa nesse modelo dominante.
4 Norma padrão cisheterossexual, hegemônico, misógino, machista e homotransfóbico que sustenta o modelo dominante, o qual, invisibiza e exclui outras subjetividades.
5 Conjunto de atitudes, gestos, práticas e discursos de ódio e discriminatórios destinados à pessoas homossexuais, travestis, transexuais. É a rejeição e marginalização das identidades em desacordo com a cisheterossexualidade.