REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786930775
RESUMO
As arboviroses constituem um importante problema de saúde pública no Brasil e sua emergência tem sido associada às mudanças climáticas, à perda de biodiversidade e às transformações ambientais. Esta revisão sistemática teve como objetivo sintetizar as evidências científicas sobre a influência das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade na emergência e disseminação das arboviroses no Brasil, sob a perspectiva One Health, identificando mecanismos ambientais, lacunas do conhecimento e implicações para políticas públicas. A revisão foi conduzida conforme as recomendações do PRISMA 2020, com protocolo registrado no PROSPERO (CRD420261472002). As buscas foram realizadas nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, ScienceDirect, Springer e Biblioteca Virtual em Saúde, incluindo estudos publicados entre 2021 e 2026. A qualidade metodológica foi avaliada pelas ferramentas Critical Appraisal do Joanna Briggs Institute (JBI) e os dados foram sintetizados por análise temática narrativa. Dos 158 registros identificados, 78 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade. Temperatura (53,8%), precipitação (46,2%), desmatamento (35,9%), urbanização e uso do solo (32,1%) e perda da biodiversidade (24,4%) foram os fatores ambientais mais frequentemente associados à emergência das arboviroses. Os estudos também demonstraram que a fragmentação florestal, a adaptação dos vetores, a expansão da interface urbano-florestal e a simplificação ecológica influenciam a dinâmica de transmissão dessas doenças. Além disso, foram identificadas lacunas relacionadas à concentração de estudos sobre dengue, à escassez de pesquisas longitudinais, à limitada integração entre dados ambientais, epidemiológicos e genômicos e à baixa incorporação das evidências científicas na formulação de políticas públicas. Conclui-se que a emergência das arboviroses resulta da interação entre fatores climáticos, ecológicos e socioambientais, reforçando a necessidade de fortalecer estratégias de vigilância integrada, planejamento territorial e políticas públicas fundamentadas na abordagem One Health.
Palavras-chave: Arboviruses; Climate Change; Biodiversity Loss; One Health; Brazil.
ABSTRACT
Arboviral diseases represent a major public health challenge in Brazil, and their emergence has been increasingly associated with climate change, biodiversity loss, and environmental transformations. This systematic review aimed to synthesize the scientific evidence on the influence of climate change and biodiversity loss on the emergence and spread of arboviral diseases in Brazil from a One Health perspective, identifying environmental drivers, knowledge gaps, and implications for public health policies. The review was conducted in accordance with the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020) guidelines, with a protocol registered in the International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO; CRD420261472002). Searches were performed in PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, ScienceDirect, Springer, and the Virtual Health Library, including studies published between 2021 and 2026. Methodological quality was assessed using the Joanna Briggs Institute (JBI) Critical Appraisal tools, and the findings were synthesized through thematic narrative analysis. Of the 158 records identified, 78 studies met the eligibility criteria. Temperature (53.8%), precipitation (46.2%), deforestation (35.9%), urbanization and land use (32.1%), and biodiversity loss (24.4%) were the environmental factors most frequently associated with the emergence of arboviral diseases. The evidence also showed that forest fragmentation, vector adaptation, expansion of the urban–forest interface, and ecological simplification influence arboviral transmission dynamics. In addition, important gaps were identified, including the predominance of studies focused on dengue, the scarcity of longitudinal research, limited integration of environmental, epidemiological, and genomic data, and the insufficient translation of scientific evidence into public health policymaking. The findings indicate that the emergence of arboviral diseases is driven by the interaction of climatic, ecological, and socio-environmental factors, highlighting the need to strengthen integrated surveillance, territorial planning, and public health policies based on the One Health approach.
Keywords: Arboviral diseases; Climate change; Biodiversity loss; One Health; Brazil.
INTRODUÇÃO
As arboviroses, doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes hematófagos, especialmente pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, representam um dos principais desafios contemporâneos para a saúde pública, em razão de sua elevada capacidade de expansão geográfica, recorrência de epidemias e expressivo impacto sobre os sistemas de saúde. No Brasil, dengue, chikungunya, Zika e, mais recentemente, arboviroses emergentes como Oropouche e Mayaro apresentam crescente relevância epidemiológica, sendo influenciadas por fatores ambientais, climáticos, ecológicos e socioeconômicos que modificam a dinâmica de transmissão viral (BARCELLOS et al., 2024; DYE-BRAUMULLER; PRISCO; NOLAN, 2025).
Nas últimas décadas, as mudanças climáticas passaram a ser reconhecidas como um dos principais determinantes ambientais da emergência e reemergência das doenças transmitidas por vetores. Alterações na temperatura média, nos regimes de precipitação e na frequência de eventos climáticos extremos influenciam diretamente o desenvolvimento, a sobrevivência, a competência vetorial e a distribuição geográfica dos mosquitos, modificando os padrões espaço-temporais de transmissão das arboviroses (BARCELLOS et al., 2024; HEATH; MUNIZ ALVES; BONSALL, 2025). Estudos realizados em diferentes regiões brasileiras demonstram que anomalias térmicas e climáticas estão associadas ao aumento da incidência de dengue, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, indicando que a variabilidade climática constitui importante fator de risco para a ocorrência de epidemias (BARCELLOS et al., 2024; MATHIAS et al., 2026).
Entretanto, a influência das mudanças climáticas não ocorre de forma isolada. A expansão urbana, o desmatamento, a fragmentação florestal, a perda de biodiversidade e as mudanças no uso da terra modificam profundamente a organização dos ecossistemas, favorecendo a adaptação dos vetores, ampliando a interface entre ambientes naturais e áreas urbanizadas e aumentando a probabilidade de contato entre vetores, reservatórios e populações humanas (DYE-BRAUMULLER; PRISCO; NOLAN, 2025; MAIA et al., 2024). A redução da biodiversidade também compromete mecanismos ecológicos capazes de limitar a circulação de patógenos, favorecendo espécies vetoras altamente adaptadas a ambientes antropizados e potencializando novos ciclos de transmissão viral (MAIA et al., 2024).
Além das alterações ambientais, estudos recentes demonstram que a dinâmica das arboviroses resulta da interação entre fatores climáticos, ecológicos e territoriais. Modelagens epidemiológicas de larga escala evidenciam que temperatura, precipitação, cobertura vegetal e características da ocupação do território influenciam simultaneamente a intensidade, a sazonalidade e a distribuição espacial das epidemias de dengue e chikungunya no Brasil (ARAUJO et al., 2025). Paralelamente, o desenvolvimento de plataformas integradas de vigilância, capazes de combinar dados climáticos, ambientais, entomológicos e epidemiológicos, tem ampliado a capacidade preditiva dos sistemas de monitoramento e subsidiado estratégias preventivas para o controle das arboviroses (GANEM et al., 2024).
Apesar desses avanços, persistem importantes lacunas científicas relacionadas à compreensão integrada dos mecanismos pelos quais mudanças climáticas, degradação ambiental, perda de biodiversidade e determinantes socioambientais influenciam a emergência e a disseminação das arboviroses. Grande parte da literatura permanece concentrada em doenças específicas, especialmente dengue, com limitada integração entre epidemiologia, ecologia, vigilância ambiental, vigilância genômica e planejamento territorial. Além disso, ainda são escassas revisões capazes de sintetizar conjuntamente esses fatores sob a perspectiva One Health, particularmente no contexto brasileiro (MARTINS et al., 2025).
Diante desse cenário, torna-se necessário compreender as arboviroses como fenômenos socioecológicos complexos, cuja dinâmica depende da interação entre saúde humana, saúde animal e integridade ambiental. A abordagem One Health oferece um referencial capaz de integrar essas dimensões, favorecendo o desenvolvimento de sistemas de vigilância mais abrangentes, estratégias preventivas baseadas em risco ambiental e políticas públicas orientadas para adaptação às mudanças climáticas e conservação da biodiversidade.
Assim, esta revisão sistemática teve como objetivo sintetizar as evidências científicas sobre a influência das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade na emergência e disseminação das arboviroses no Brasil, sob a perspectiva One Health, identificando os principais mecanismos ambientais envolvidos, as lacunas do conhecimento e as implicações para a formulação de políticas públicas integradas.
METODOLOGIA
O presente estudo foi conduzido como uma revisão sistemática da literatura, estruturada de acordo com as diretrizes do Joanna Briggs Institute (JBI) Reviewer’s Manual para revisões de evidências científicas. O protocolo foi previamente registrado na plataforma PROSPERO, sob o número CRD420261472002, e a condução do trabalho seguiu rigorosamente os itens do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), assegurando a transparência, a replicabilidade e a qualidade metodológica dos resultados apresentados.
A estratégia de busca e a definição dos critérios de elegibilidade foram norteadas pela estrutura PCC (Population, Concept, Context), sendo a população definida como as arboviroses de maior impacto no Brasil (Dengue, Zika e Chikungunya), o conceito compreendido pelos fatores ambientais (variáveis climáticas, desmatamento, perda de biodiversidade e urbanização) e o contexto delimitado ao território brasileiro, sob a ótica da Saúde Única (One Health). A pergunta norteadora que conduziu a investigação foi: "Quais são as evidências científicas que relacionam mudanças climáticas, desmatamento e perda de biodiversidade à emergência e disseminação de arboviroses no Brasil?".
Quadro 1. Fontes de dados e estratégias de busca eletrônica.
Plataforma | Foco | Link | Estratégia de busca | |
PubMed | Saúde, epidemiologia, arboviroses | Use termos MeSH: ("Arbovirus"[MeSH] OR dengue OR zika OR chikungunya) AND ("Climate Change"[MeSH] OR Deforestation OR "Biodiversity Loss") AND Brazil | ||
Scopus | Multidisciplinar, ciências ambientais, saúde | Combine palavras-chave e use filtros por país, ano e área temática. Ex.: climate change AND deforestation AND arbovirus AND Brazil | ||
ScienceDirect | Ciência ambiental, ecologia, saúde ambiental | Revistas úteis: Environmental Research, Science of the Total Environment, Ecological Indicators. Use termos:climate change AND deforestation AND arbovirus AND Brazil | ||
Springer | Ecologia, conservação, mudanças climáticas | Use termos como: deforestation AND arbovirus AND biodiversity AND Brazil | ||
BVS Ambiental | Saúde e meio ambiente | Foco na interface saúde e meio ambiente; use filtros de país e tipo de documento | ||
IBAMA / INPE / MMA | Dados e relatórios ambientais | Procurar relatórios de desmatamento, biodiversidade e impactos sobre vetores | ||
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
Para a recuperação dos estudos, foi operacionalizada uma estratégia de busca sistemática em bases de dados eletrônicas (PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO, Web of Science e Scopus). Foram utilizados descritores controlados (MeSH) e termos livres, combinados por operadores booleanos (AND, OR), com recorte temporal definido entre 2021 e 2026. Os critérios de inclusão contemplaram estudos originais, observacionais, ecológicos, modelagens preditivas e revisões sistemáticas que apresentassem dados empíricos pertinentes à relação entre variáveis ambientais e a dinâmica das arboviroses no país. Foram excluídos estudos experimentais in vitro, editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos sem texto completo e publicações que careciam de clareza metodológica ou rigor científico.
O processo de seleção dos estudos ocorreu em duas etapas independentes. Inicialmente, dois revisores avaliaram títulos e resumos das publicações recuperadas, utilizando a ferramenta Rayyan QCRI para o controle de triagem e remoção de duplicatas. Na segunda etapa, os artigos selecionados foram lidos na íntegra para a confirmação dos critérios de elegibilidade, sendo que divergências foram solucionadas pela mediação de um terceiro revisor. A extração dos dados foi realizada por meio de um formulário padronizado, que permitiu sistematizar informações sobre autor/ano, delineamento, objetivo, área geográfica, variáveis ambientais, principais achados e lacunas identificadas.
A avaliação da qualidade metodológica foi realizada mediante a aplicação das Critical Appraisal Checklists do JBI, adaptadas de acordo com o delineamento de cada estudo incluído. Este procedimento garantiu a robustez das evidências sintetizadas e permitiu a detecção de potenciais vieses de seleção e análise. Devido à heterogeneidade dos delineamentos observados na literatura, a síntese dos dados foi realizada por meio de análise narrativa e qualitativa. Os achados foram agrupados em categorias temáticas, permitindo a discussão estruturada em torno dos objetivos específicos: a relação entre fatores ambientais e ocorrência; o efeito das alterações sobre a ecologia dos vetores; o mapeamento de lacunas de pesquisa; e a análise de subsídios para o desenvolvimento de políticas públicas integradas.
RESULTADOS
A seleção dos estudos foi conduzida de acordo com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), garantindo transparência e reprodutibilidade do processo metodológico. Inicialmente, foram identificados 158 registros nas bases de dados eletrônicas. Após a remoção de 24 registros duplicados, 134 estudos foram submetidos à triagem por título e resumo, dos quais 40 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Na etapa de leitura na íntegra, 94 artigos foram avaliados, sendo 16 excluídos e 78 considerados elegíveis para compor a síntese final. O processo completo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está detalhado no fluxograma apresentado a seguir.
Figura 1. Fluxograma do processo de seleção dos estudos conforme diretrizes PRISMA 2020.
O enquadramento abaixo organiza os 78 estudos segundo o objetivo específico predominante da revisão; quando pertinente, objetivos secundários foram incorporados à síntese analítica. Estudos não centrados exclusivamente no Brasil foram mantidos como evidência contextual/comparativa.
A síntese temática dos estudos demonstra que a ocorrência de arboviroses no Brasil resulta da interação entre fatores climáticos, transformações ambientais e vulnerabilidades socioespaciais. Observou-se predominância de evidências relacionadas a temperatura, precipitação e variabilidade climática, moduladas por urbanização, mudanças no uso da terra e desigualdades estruturais. Esses achados reforçam o caráter multifatorial da transmissão arboviral no país. O Quadro 2 apresenta a sistematização das principais categorias analíticas identificadas na literatura.
Quadro 2. Síntese temática das evidências sobre fatores ambientais associados à ocorrência de arboviroses no Brasil
Categoria Analítica | n | Autores/Ano | Síntese das Evidências |
Fatores climáticos diretos (temperatura, precipitação e variabilidade climática) | 9 | Alves et al. (2024); Brito et al. (2025); Dias et al. (2024); Gomes et al. (2024); Oliveira et al. (2024); Liu et al. (2025); Heath et al. (2025); Outammassine (2022); Taylor et al. (2024) | Temperatura, precipitação e variabilidade climática foram consistentemente associadas à modulação da sazonalidade, expansão vetorial e intensificação de surtos arbovirais. |
Urbanização, infraestrutura e ilhas de calor urbano | 6 | Carvalho et al. (2025); Freitas et al. (2025); Souza et al. (2025); Pereira da Silva (2022); López et al. (2023); Heath et al. (2025) | Urbanização desordenada, infraestrutura inadequada e microclimas urbanos intensificam hotspots de transmissão e amplificam os efeitos das variáveis climáticas sobre a dinâmica vetorial. |
Desmatamento e fragmentação florestal | 6 | Lima (H) et al. (2025); Santos et al. (2025); Da Silva (CFA) et al. (2023); Godinho et al. (2025); Wilk-da-Silva (2023); Martins et al. (2025) | A supressão e fragmentação da cobertura vegetal ampliam a exposição humana a vetores, favorecem spillover e aumentam o risco de transmissão arboviral. |
Perda de biodiversidade e alterações ecológicas | 4 | Menezes et al. (2025); Ramos et al. (2022); Naveca et al. (2024); Chaves et al. (2024) | A simplificação ecológica e a perda de biodiversidade favorecem vetores sinantrópicos e reduzem barreiras naturais à transmissão viral. |
Interface urbano-florestal e risco zoonótico emergente | 4 | Martins et al. (2025); Naveca et al. (2024); Ibarra-Cerdeña (2024); Chaves et al. (2024) | A interface entre ambientes antropizados e ecossistemas naturais aumenta o risco de emergência de arboviroses silvestres e novas rotas de transmissão zoonótica. |
Determinantes socioambientais e vulnerabilidade estrutural | 4 | López et al. (2023); Ibarra-Cerdeña (2024); Pereira da Silva (2022); Freitas et al. (2025) | Desigualdade socioambiental, saneamento precário e vulnerabilidade territorial potencializam os efeitos ambientais sobre a transmissão de arboviroses. |
Total de estudos únicos incluídos | 29 | — |
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Fonte: Elaborado pelo autor (2026)
A distribuição das evidências demonstrou maior frequência de estudos classificados na categoria “fatores climáticos diretos”, com nove registros, seguida pelas categorias “urbanização, infraestrutura e ilhas de calor urbano” e “desmatamento e fragmentação florestal”, ambas com seis registros. As categorias “perda de biodiversidade e alterações ecológicas”, “interface urbano-florestal e risco zoonótico emergente” e “determinantes socioambientais e vulnerabilidade estrutural” apresentaram quatro registros cada. Ao todo, 29 estudos únicos foram incluídos na síntese temática apresentada no Quadro 2.
A distribuição das associações evidenciou maior frequência entre desmatamento/fragmentação e aumento da densidade vetorial, totalizando sete registros, seguida pela associação entre esse mesmo fator ambiental e spillover/contato vetor-hospedeiro, com seis registros. Entre os fatores climáticos, observou-se maior concentração de registros relacionados à plasticidade térmica vetorial e à expansão de nicho ecológico, ambas com cinco ocorrências. As associações envolvendo urbanização/uso do solo e perda de biodiversidade apresentaram distribuição mais equilibrada entre os diferentes mecanismos vetoriais, com frequências variando de um a quatro registros.
Além disso, observou-se que mecanismos relacionados a mudanças comportamentais/dispersão vetorial apresentaram distribuição transversal entre todos os fatores ambientais analisados, com frequências variando de três a quatro registros por categoria. A expansão de nicho ecológico também foi reportada em associação com múltiplos determinantes ambientais, incluindo mudanças climáticas, desmatamento/fragmentação, perda de biodiversidade e urbanização/uso do solo. Em conjunto, os dados demonstram ampla distribuição dos mecanismos de modulação vetorial entre diferentes exposições ambientais contempladas nos estudos incluídos.
Quadro 3. Avaliar evidências sobre como as mudanças ambientais (mudanças climáticas, desmatamento, perda de biodiversidade e contaminação hídrica) afetam a dispersão, densidade e comportamento dos vetores de arboviroses no país.
Categoria Analítica | n | Autores/Ano | Síntese das Evidências |
Adaptação fisiológica e plasticidade térmica vetorial | 5 | Neto et al. (2024); Heath et al. (2025); Tognarelli (2025); Outammassine (2022); Liu et al. (2025) | Evidências indicam que vetores apresentam plasticidade fisiológica e adaptação térmica, expandindo nichos ecológicos e reduzindo limitações climáticas tradicionais à transmissão. |
Perda de biodiversidade e simplificação ecológica | 4 | Arcos et al. (2025); Barbosa et al. (2025); Menezes et al. (2025); Ibarra-Cerdeña (2024) | A perda de biodiversidade e a simplificação das cadeias ecológicas reduzem o efeito de diluição e favorecem o aumento de espécies vetoras sinantrópicas. |
Desmatamento, fragmentação florestal e alteração de habitats | 7 | Grillet et al. (2024); MacDonald (2025); Wilk-da-Silva (2023); Santos et al. (2025); Lima (H) et al. (2025); De Thoisy et al. (2021); Machado et al. (2023) | Fragmentação e degradação ambiental reconfiguram habitats, aumentam densidade vetorial e favorecem spillover em interfaces degradadas. |
Interface urbano-florestal e aumento do contato vetor–hospedeiro | 5 | Pereira da Silva (2022); De Thoisy et al. (2021); Machado et al. (2023); Chaves et al. (2024); MacDonald (2025) | A expansão da interface urbano-florestal aumenta o contato entre vetores, reservatórios silvestres e populações humanas, favorecendo novas rotas de transmissão. |
Mudanças comportamentais e ecológicas dos vetores | 4 | Santos et al. (2025); Lima (H) et al. (2025); Chaves et al. (2024); Barbosa et al. (2025) | Alterações ambientais influenciam densidade, comportamento alimentar, dispersão espacial e padrões de interação vetor–hospedeiro. |
Limitações do controle vetorial tradicional e inovação tecnológica | 4 | Couper et al. (2021); Njaime et al. (2024); Defilippo et al. (2025); Outammassine (2022) | O controle químico tradicional apresenta eficácia limitada frente à adaptação vetorial, sendo necessárias tecnologias inovadoras de monitoramento e manejo. |
Total de estudos únicos incluídos | 21 | — | Estudos sintetizados no presente eixo temático da revisão sistemática. |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
Nota: Alguns estudos foram classificados em mais de uma categoria temática devido à sua contribuição analítica multidimensional; por esse motivo, a soma dos valores por categoria excede o número total de estudos únicos.
A síntese dos 21 estudos incluídos no Quadro 3 neste eixo temático, demonstra que as mudanças ambientais exercem influência significativa sobre a ecologia, a adaptação e a dinâmica de transmissão dos vetores de arboviroses. A categoria mais frequentemente identificada foi desmatamento, fragmentação florestal e alteração de habitats (n = 7), evidenciando que a degradação ambiental reconfigura ecossistemas, aumenta a densidade vetorial e favorece eventos de spillover em áreas de interface entre ambientes naturais e antropizados. Em seguida, destacaram-se as categorias adaptação fisiológica e plasticidade térmica vetorial (n = 5) e interface urbano-florestal e aumento do contato vetor–hospedeiro (n = 5), indicando que as mudanças climáticas e a expansão de áreas urbanizadas ampliam a capacidade adaptativa dos vetores, favorecendo a expansão de nichos ecológicos e intensificando o contato entre vetores, reservatórios silvestres e populações humanas.
As categorias perda de biodiversidade e simplificação ecológica, mudanças comportamentais e ecológicas dos vetores e limitações do controle vetorial tradicional e inovação tecnológica (n = 4 cada) reforçam que a redução da biodiversidade, as alterações no comportamento vetorial e a limitada eficácia das estratégias convencionais de controle constituem fatores que potencializam a persistência e a expansão das arboviroses. Em conjunto, esses achados evidenciam que a emergência e a disseminação dessas doenças resultam da interação entre fatores climáticos, ecológicos e antrópicos, reforçando a necessidade de estratégias integradas de vigilância e controle fundamentadas na abordagem One Health.
Quadro 4. Síntese das evidências sobre lacunas científicas, limitações metodológicas e desafios para a pesquisa em arboviroses no Brasil.
Categoria Analítica | n | Autores/Ano | Síntese das Evidências / Lacuna Identificada |
Viés temático e foco excessivo em dengue | 3 | Castano-Duque (2025); Xu et al. (2026); Naveca et al. (2024) | A produção científica concentra-se majoritariamente em dengue, com sub-representação de arboviroses emergentes como Oropouche e Mayaro, limitando vigilância prospectiva. |
Fragmentação disciplinar e baixa integração One Health | 3 | Piovezan-Borges (2022); Hoffman et al. (2023); Ramaj et al. (2025) | Persistem silos entre epidemiologia, clínica, ecologia e gestão pública, dificultando abordagens interdisciplinares e integração translacional. |
Limitações metodológicas e ausência de estudos longitudinais | 3 | Berube et al. (2023); Surendra et al. (2024); Wilke ABB et al. (2025) | Predominam estudos transversais/ecológicos de curto prazo, com escassez de seguimento longitudinal e avaliação de intervenções sustentadas. |
Fragilidade na translação ciência–política pública | 3 | Lima CL et al. (2025); Ramaj et al. (2025); Surendra et al. (2024) | Modelos preditivos e evidências acadêmicas permanecem pouco incorporados ao planejamento e tomada de decisão em saúde pública. |
Deficiências em vigilância epidemiológica e genômica | 3 | Naveca et al. (2024); De Melo Iani (2025); Wilke ABB et al. (2025) | Sistemas de vigilância ainda são insuficientes para monitorar emergentes, resistência vetorial e circulação genômica em áreas remotas. |
Lacunas em desfechos clínicos e integração com dados ambientais | 2 | Hoffman et al. (2023); Hcini et al. (2024) | Dados clínicos de gravidade, sequelas e complicações permanecem pouco conectados às variáveis ambientais e territoriais. |
Desigualdade regional e baixa cobertura territorial de estudos | 2 | Xu et al. (2026); De Melo Iani (2025) | Há concentração de estudos em regiões mais estruturadas, com sub-representação da Amazônia profunda e áreas remotas vulneráveis. |
Total de estudos únicos incluídos | 12 | — | Estudos sintetizados no presente eixo temático da revisão sistemática. |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
A análise dos 12 estudos incluídos neste eixo temático no Quadro 4, evidenciou importantes lacunas científicas e metodológicas que ainda limitam o avanço do conhecimento sobre arboviroses no Brasil. As categorias mais frequentes foram viés temático e foco excessivo em dengue, fragmentação disciplinar e baixa integração da abordagem One Health, limitações metodológicas e ausência de estudos longitudinais, fragilidade na translação entre ciência e políticas públicas e deficiências em vigilância epidemiológica e genômica (n = 3 cada). Esses achados demonstram que a produção científica permanece concentrada em um número reduzido de arboviroses, especialmente dengue, enquanto doenças emergentes, como Oropouche e Mayaro, continuam subinvestigadas.
Além disso, observa-se persistência de abordagens disciplinares isoladas, com limitada integração entre epidemiologia, ecologia, clínica e gestão em saúde, dificultando a construção de modelos analíticos alinhados ao paradigma One Health. Predominam estudos transversais e ecológicos de curto prazo, com escassez de investigações longitudinais capazes de avaliar mudanças ambientais e seus efeitos sobre a dinâmica das arboviroses ao longo do tempo. Também foram identificadas lacunas relacionadas à incorporação de evidências científicas na formulação de políticas públicas, à insuficiência dos sistemas de vigilância epidemiológica e genômica para o monitoramento de arbovírus emergentes e à limitada integração entre dados clínicos e variáveis ambientais. Por fim, a concentração das pesquisas em regiões mais estruturadas do país evidencia desigualdade territorial na produção científica, com sub-representação da Amazônia profunda e de outras áreas remotas, reforçando a necessidade de ampliar a cobertura geográfica e a integração interdisciplinar das futuras pesquisas sobre arboviroses no Brasil.
Quadro 5. Fornecer subsídios científicos para o desenvolvimento de políticas públicas integradas de prevenção e controle de arboviroses, alinhadas ao conceito de One Health.
Autor/Ano | Delineamento | Título do Artigo (Abreviado) | Recorte | Contribuição Analítica (Subsídio para Políticas) |
1. Ramaj et al. (2025) | Política | Integrated risk management | Brasil | Translação de ciência para a decisão política é crítica. |
2. Taylor et al. (2024) | Revisão | Reactive vs Proactive control | Brasil | Necessidade de transição para controle preventivo. |
3. Surendra et al. (2024) | Política | Policy gaps in control | Global | Barreiras de financiamento para abordagens One Health. |
4. iovezan-Borges (2022) | Revisão | Research priorities One Health | Global | Governança compartilhada entre saúde e ambiente. |
5. Romanello et al. (2022) | Relatório | Lancet Countdown on Health | Global | Integração climática na agenda de saúde urbana. |
6. Njaime et al. (2024) | Tecnológico | Automating surveillance | Global | Dados em tempo real fundamentam vigilância ágil. |
7. Defilippo et al. (2025) | Tecnológico | Biotech for vector management | Brasil | Inovação requer marcos regulatórios atualizados. |
8. Branda et al. (2024) | Revisão | Wolbachia implementation | Global | Aceitação social é pilar para políticas de controle. |
9. Ibarra-Cerdeña (2024) | Ecológico | Rodents and mosquitoes | Interfaces | Saneamento em bordas de mata como política ativa. |
10. Santos et al. (2025) | Observacional | Conservation as health tool | Brasil | Conservação ambiental como medida profilática. |
11. Freitas et al. (2025) | Espacial | Chikungunya spread | Cidades BR | Gestão territorial necessária para conter espalhamento. |
12. Carvalho et al. (2025) | Ecológico | Urban heat islands/mosquitoes | Metrop. BR | Planejamento urbano deve mitigar ilhas de calor. |
13. Oliveira (T) et al. (2024) | Modelagem | Modeling dengue outbreaks | Brasil | Modelagem preditiva deve guiar alocação de recursos. |
14. Godinho et al. (2025) | Revisão | Oropouche virus threat | Brasil | Vigilância deve integrar dados silvestre-urbanos. |
15. Martins et al. (2025) | Observacional | Interface urbano-florestal | Amazônia | Políticas precisam focar na interface zoonótica. |
16. Silva et al. (2021) | Observacional | Dengue/Social determinants | Recife | Políticas precisam atacar desigualdade social. |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
A síntese dos 16 estudos no quadro 5, evidencia consenso quanto à necessidade de fortalecer políticas públicas integradas para o enfrentamento das arboviroses sob a perspectiva One Health. As evidências destacam a importância da transição de estratégias reativas para modelos preventivos, fundamentados em vigilância preditiva, gestão integrada do risco e uso de dados em tempo real. Também são apontadas como prioridades a conservação ambiental, o planejamento urbano, a gestão territorial, a integração entre ambientes silvestres e urbanos e o fortalecimento da governança intersetorial. Além disso, os estudos ressaltam a necessidade de atualização dos marcos regulatórios, ampliação do financiamento para abordagens One Health e incorporação de modelos preditivos na alocação de recursos. Em conjunto, os achados indicam que políticas públicas mais eficazes dependem da integração entre saúde, meio ambiente, clima e planejamento territorial para reduzir a vulnerabilidade e aprimorar a prevenção e o controle das arboviroses no Brasil.
Tabela 1. Síntese da avaliação de qualidade metodológica dos estudos incluídos segundo o JBI
Tipo de estudo | n | Baixo risco n (%) | Moderado n (%) | Alto n (%) |
Ecológicos | 14 | 0 (0%) | 14 (100%) | 0 (0%) |
Observacionais | 18 | 12 (66,7%) | 6 (33,3%) | 0 (0%) |
Modelagem | 10 | 0 (0%) | 10 (100%) | 0 (0%) |
Revisões | 12 | 12 (100%) | 0 (0%) | 0 (0%) |
Experimentais | 3 | 3 (100%) | 0 (0%) | 0 (0%) |
Tecnológicos/Aplicados | 4 | 1 (25%) | 3 (75%) | 0 (0%) |
Políticos/Bibliométricos | 7 | 0 (0%) | 7 (100%) | 0 (0%) |
Total | 78 | 28 (35,9%) | 50 (64,1%) | 0 (0%) |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026), com base nas ferramentas de Critical Appraisal do Joanna Briggs Institute (JBI).
A avaliação da qualidade metodológica dos 78 estudos incluídos apresentados na Tabela 1, realizada por meio das ferramentas de Critical Appraisal do Joanna Briggs Institute (JBI), evidenciou predominância de estudos classificados com risco de viés moderado (64,1%; n = 50), enquanto 35,9% (n = 28) apresentaram baixo risco de viés, não sendo identificado nenhum estudo com alto risco de viés. Entre os delineamentos, todas as revisões sistemáticas (100%; n = 12) e os estudos experimentais (100%; n = 3) foram classificados como de baixo risco, refletindo maior robustez metodológica. Em contrapartida, os estudos ecológicos (100%; n = 14), de modelagem (100%; n = 10) e político-bibliométricos (100%; n = 7) apresentaram risco moderado, principalmente em decorrência de limitações inerentes aos seus delineamentos, como potencial viés ecológico, dependência de dados secundários e restrições na inferência causal. Os estudos observacionais apresentaram melhor desempenho metodológico, com 66,7% classificados como de baixo risco, enquanto os estudos tecnológicos/aplicados apresentaram predominância de risco moderado (75%). De forma geral, os resultados demonstram que a base de evidências utilizada nesta revisão apresenta qualidade metodológica satisfatória, conferindo confiabilidade às sínteses realizadas, embora os achados devam ser interpretados considerando as limitações inerentes aos diferentes desenhos de estudo.
Tabela 2. Distribuição dos fatores ambientais associados à emergência de arboviroses por região do Brasil
Fator ambiental | n | % | Impacto observado na literatura |
Temperatura | 42 | 53,8% | Forte associação com aumento da incidência e expansão vetorial |
Precipitação | 36 | 46,2% | Influência na sazonalidade e criação de criadouros |
Desmatamento | 28 | 35,9% | Alteração de habitats e aumento do contato vetor–humano |
Perda de biodiversidade | 19 | 24,4% | Redução do efeito de diluição e favorecimento de vetores |
Urbanização/uso do solo | 25 | 32,1% | Intensificação da transmissão em áreas urbanas |
Poluição hídrica | 11 | 14,1% | Criação de ambientes favoráveis à proliferação vetorial |
Variabilidade climática | 17 | 21,8% | Alteração de padrões sazonais e eventos extremos |
Ilhas de calor urbano | 9 | 11,5% | Aumento da densidade vetorial em centros urbanos |
Umidade relativa do ar | 13 | 16,7% | Influência na sobrevivência e atividade dos vetores |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026), com base nas ferramentas de Critical Appraisal do Joanna Briggs Institute (JBI).
A distribuição dos fatores ambientais apresentada na Tabela 2 demonstra que temperatura (53,8%; n = 42) e precipitação (46,2%; n = 36) foram as variáveis mais frequentemente associadas à emergência e disseminação das arboviroses, evidenciando seu papel na modulação da incidência, sazonalidade e expansão dos vetores. Em seguida, destacaram-se desmatamento (35,9%; n = 28) e urbanização/uso do solo (32,1%; n = 25), reforçando que as alterações ambientais e a ocupação desordenada do território favorecem a modificação de habitats, intensificam o contato entre vetores e populações humanas e ampliam a transmissão em áreas urbanas. Perda de biodiversidade (24,4%; n = 19) e variabilidade climática (21,8%; n = 17) também apresentaram frequência relevante, sendo associadas, respectivamente, à redução do efeito de diluição ecológica e à ocorrência de eventos climáticos extremos que influenciam a dinâmica vetorial.
Por sua vez, umidade relativa do ar (16,7%; n = 13), poluição hídrica (14,1%; n = 11) e ilhas de calor urbano (11,5%; n = 9) foram menos frequentemente reportadas, mas demonstraram contribuição importante para a sobrevivência, atividade e proliferação dos vetores. Em conjunto, os achados evidenciam que a emergência das arboviroses resulta da interação de múltiplos determinantes climáticos, ambientais e antrópicos, reforçando a necessidade de estratégias integradas de vigilância e prevenção fundamentadas na abordagem One Health.
A matriz integrada One Health e o heatmap regional na figura 1, foram elaborados a partir da síntese qualitativa dos 78 estudos incluídos nesta revisão sistemática. Os estudos foram organizados em quatro domínios analíticos: fatores ambientais, mecanismos vetoriais/ecológicos, lacunas científicas e prioridades estratégicas de políticas públicas. A construção da matriz considerou frequência das evidências na literatura, relevância territorial, magnitude do impacto ecológico-epidemiológico e potencial de aplicação em políticas públicas.
Cada variável recebeu pontuação ordinal de 0 a 5, sendo: 0 = ausência de evidência; 1 = evidência muito baixa; 2 = baixa; 3 = moderada; 4 = elevada; e 5 = muito elevada convergência de evidências e relevância territorial. A atribuição dos escores foi realizada por análise interpretativa consensual entre os revisores, considerando recorrência temática, intensidade das associações reportadas, abrangência geográfica e consistência metodológica dos estudos incluídos.
A matriz foi estruturada por macrorregiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), permitindo identificar padrões territoriais distintos relacionados à dinâmica das arboviroses sob a perspectiva One Health. O heatmap foi desenvolvido no software RStudio (R Foundation for Statistical Computing), utilizando os pacotes ggplot2, reshape2 e pheatmap para padronização visual e representação gráfica integrada das evidências.
Figura 1. Matriz integrada One Health dos determinantes ambientais, mecanismos vetoriais, lacunas científicas e prioridades de políticas públicas relacionadas à emergência e disseminação de arboviroses no Brasil por região geográfica.
A Figura 1 apresenta a matriz integrada regional dos determinantes ambientais, mecanismos vetoriais, lacunas científicas e prioridades de políticas públicas relacionadas à emergência e disseminação de arboviroses no Brasil sob a perspectiva One Health. Observa-se distribuição heterogênea da força integrada das evidências entre as regiões brasileiras, com maior concentração de escores elevados nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Entre os fatores ambientais, destacam-se temperatura, precipitação, desmatamento e urbanização como variáveis com maior intensidade relativa em múltiplas regiões. No domínio dos mecanismos vetoriais, verificam-se elevadas frequências de associação com plasticidade vetorial, densidade vetorial, expansão de nicho ecológico e spillover. No eixo das lacunas científicas, observam-se escores elevados para vigilância insuficiente e necessidade de integração One Health em todas as regiões avaliadas. Entre as prioridades de políticas públicas, destacam-se vigilância preditiva, conservação ambiental e governança intersetorial como componentes recorrentes de maior relevância na matriz analítica.
A avaliação da qualidade metodológica dos estudos, baseada nos critérios do Joanna Briggs Institute (JBI), evidenciou predominância de risco de viés moderado (64,1%), especialmente em estudos ecológicos e de modelagem. Estudos experimentais e revisões sistemáticas apresentaram baixo risco de viés (35,9%), refletindo maior rigor metodológico. Nenhum estudo foi classificado com alto risco de viés, indicando consistência geral da base de evidências incluída. Observou-se um consenso robusto na literatura quanto ao papel da temperatura e da precipitação como principais moduladores da dinâmica de transmissão, influenciando diretamente a densidade, sobrevivência e competência vetorial. Estudos ecológicos e de modelagem (n ≈ 24) indicam que o aumento da temperatura média e a variabilidade térmica estão associados à expansão geográfica dos vetores e à intensificação da sazonalidade das epidemias.
Paralelamente, a degradação ambiental, especialmente o desmatamento e a fragmentação florestal, emerge como fator estrutural crítico (n ≈ 20), atuando na reconfiguração dos nichos ecológicos e na intensificação do contato entre vetores, hospedeiros e populações humanas. A perda de biodiversidade foi consistentemente associada à redução do efeito de diluição, favorecendo espécies vetoras mais adaptadas a ambientes antropizados. Esses achados reforçam a hipótese de que alterações no uso da terra não apenas ampliam a presença vetorial, mas também modificam a ecologia da transmissão.
Estudos observacionais e espaciais (n ≈ 18) destacam a importância dos determinantes socioambientais, como urbanização desordenada, saneamento precário e formação de ilhas de calor, que potencializam os efeitos das mudanças climáticas em contextos urbanos. Nessas áreas, a dinâmica das arboviroses mostrou-se menos dependente de variáveis climáticas isoladas e mais influenciada por condições estruturais locais, indicando uma sinergia entre vulnerabilidade social e risco epidemiológico. A análise por tipo de arbovirose revela predominância de estudos focados em dengue, com menor atenção a arboviroses emergentes, como Oropouche e Mayaro, evidenciando um viés temático na produção científica. Além disso, identificou-se baixa integração entre dados ambientais, epidemiológicos e clínicos, refletindo a fragmentação disciplinar ainda presente na literatura.
Em termos de qualidade metodológica, a maioria dos estudos apresentou risco de viés moderado (64,1%), sobretudo entre delineamentos ecológicos e de modelagem, enquanto estudos experimentais e revisões sistemáticas apresentaram maior robustez metodológica e baixo risco de viés (35,9%). Apesar dessa heterogeneidade, os achados convergem para um padrão consistente de associação entre mudanças ambientais e aumento do risco de arboviroses.
DISCUSSÃO
A presente discussão reflete o estado da arte das evidências que conectam as alterações climáticas e a perda de biodiversidade à reconfiguração epidemiológica do Brasil. Entretanto, os resultados desta revisão sistemática demonstram que a emergência e a disseminação das arboviroses não decorrem da atuação isolada de fatores ambientais, mas da interação entre mudanças climáticas, degradação ambiental, transformações ecológicas e vulnerabilidades territoriais. A síntese dos 78 estudos incluídos evidenciou predominância de estudos com qualidade metodológica moderada e baixo risco de viés (Tabela 1), conferindo consistência às evidências sintetizadas. Além disso, a distribuição dos fatores ambientais mostrou que temperatura (53,8%), precipitação (46,2%), desmatamento (35,9%), urbanização e uso do solo (32,1%) e perda de biodiversidade (24,4%) constituíram os principais determinantes associados à emergência das arboviroses (Tabela 2). Esses achados foram aprofundados na síntese temática apresentada no Quadro 2, que demonstrou elevada convergência entre os estudos quanto ao papel integrado desses fatores na modulação da ecologia vetorial e da transmissão viral. Essa relação multidimensional também é sintetizada pela Figura 2 (Matriz Integrada One Health), que evidencia a interdependência entre ambiente, vetores, população humana e capacidade institucional de resposta.
Mapeamento da Relação Entre Fatores Ambientais e Ocorrência de Arboviroses
Os resultados apresentados no Quadro 2, na Tabela 2 e na Figura 2 demonstram que a ocorrência das arboviroses no Brasil está fortemente associada à interação entre determinantes climáticos, ambientais e socioecológicos, reforçando que a distribuição dessas doenças apresenta importante heterogeneidade espacial. A elevada frequência de estudos que relacionaram temperatura, precipitação, desmatamento e urbanização à transmissão evidencia que diferentes mecanismos ambientais atuam simultaneamente na reorganização dos ecossistemas e na expansão das áreas de risco. Assim, a síntese produzida por esta revisão indica que a dinâmica epidemiológica das arboviroses deve ser interpretada sob uma perspectiva integrada, em consonância com os princípios da abordagem One Health.
A matriz integrada One Health evidencia que a distribuição espacial das arboviroses no Brasil não responde a um único determinante ambiental, mas à convergência entre instabilidade climática, degradação ecológica e vulnerabilidade territorial. A maior concentração de escores observada nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste demonstra que a dinâmica epidemiológica brasileira é territorialmente heterogênea e mediada por mecanismos ecológicos distintos. Enquanto na Amazônia predominam desmatamento, fragmentação florestal e interface urbano-florestal, nas regiões metropolitanas do Sudeste destacam-se urbanização intensiva, ilhas de calor e densidade populacional, reforçando a necessidade de modelos regionais integrados de vigilância.
Esses resultados dialogam diretamente com Barcellos et al. (2024), Alves et al. (2024) e Dias et al. (2024), que argumentam que temperatura e precipitação não atuam isoladamente, mas modulam diferentes padrões epidemiológicos conforme a organização socioambiental do território. A matriz regional confirma essa interpretação ao demonstrar que a precipitação apresenta maior relevância integrada no Nordeste, enquanto o componente térmico e a urbanização apresentam maior intensidade relativa no Sudeste. Heath et al. (2025) acrescentam que a expansão da aptidão vetorial sob cenários climáticos extremos tende a deslocar hotspots epidemiológicos para áreas anteriormente consideradas secundárias, hipótese corroborada pelos elevados escores de expansão de nicho ecológico identificados na síntese regional.
Os achados desta revisão também demonstram que a influência das mudanças climáticas deve ser compreendida em conjunto com as transformações ambientais decorrentes da ocupação do território. Conforme observado na Tabela 2, fatores relacionados à urbanização, ao uso do solo e ao desmatamento estiveram presentes em parcela expressiva dos estudos incluídos, indicando que a reorganização da paisagem modifica simultaneamente a disponibilidade de criadouros, a conectividade ecológica entre vetores e hospedeiros e a exposição das populações humanas. Essa interpretação amplia a compreensão tradicional da epidemiologia das arboviroses, ao indicar que a vulnerabilidade territorial constitui elemento central para explicar diferenças regionais na transmissão.
O debate torna-se ainda mais complexo quando integrado às evidências de Carvalho et al. (2025), Saeed et al. (2023) e Liu et al. (2025), que tensionam modelos epidemiológicos centrados exclusivamente em macrovariáveis climáticas. Esses autores demonstram que ilhas de calor urbano e retenção térmica metropolitana criam microclimas favoráveis à persistência vetorial mesmo em períodos de menor precipitação. A matriz integrada confirma essa dinâmica ao evidenciar elevada prioridade analítica para urbanização e ilhas de calor nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, sugerindo que o ambiente urbano brasileiro deixou de ser apenas um espaço de transmissão para tornar-se um ecossistema epidemiológico autônomo.
Da mesma forma, os resultados sintetizados nesta revisão indicam que os determinantes sociais potencializam os efeitos das mudanças ambientais. Embora a perda da biodiversidade e as alterações no uso do solo atuem diretamente sobre a ecologia vetorial, seus impactos tornam-se mais intensos em contextos marcados por desigualdades socioeconômicas, deficiência de infraestrutura urbana e precariedade do saneamento básico. A integração dessas dimensões, evidenciada na Figura 2, reforça que o risco epidemiológico resulta da interação entre processos ecológicos e vulnerabilidades sociais.
Essa interpretação é consistente com os achados de Caballero et al. (2025), Gupta et al. (2025), Silva et al. (2021) e López et al. (2023), que argumentam que desigualdade socioambiental, saneamento precário e ocupação urbana desordenada operam como catalisadores estruturais da transmissão arboviral. A matriz One Health reforça essa perspectiva ao demonstrar que a vulnerabilidade socioambiental apresenta distribuição transversal em todas as regiões brasileiras, particularmente no Nordeste, onde os escores elevados indicam forte convergência entre risco climático e fragilidade infraestrutural. Dessa forma, os resultados sugerem que a expansão das arboviroses no Brasil representa não apenas uma consequência da crise climática, mas a manifestação epidemiológica das desigualdades territoriais historicamente acumuladas.
Impactos das Mudanças Ambientais Sobre a Ecologia, Adaptação e Dispersão dos Vetores de Arboviroses
Os resultados sintetizados no Quadro 3 evidenciam que as mudanças ambientais exercem influência direta sobre a ecologia, adaptação e dinâmica populacional dos vetores de arboviroses no Brasil. Entre os 21 estudos incluídos neste eixo temático, observou-se predominância de evidências relacionadas ao desmatamento, fragmentação florestal e alteração de habitats (n = 7), seguidas pela adaptação fisiológica e plasticidade térmica vetorial (n = 5) e pela expansão da interface urbano-florestal (n = 5). As categorias referentes à perda da biodiversidade, mudanças comportamentais dos vetores e limitações do controle vetorial tradicional também apresentaram elevada frequência (n = 4 cada), demonstrando que as alterações ambientais modificam simultaneamente a distribuição geográfica, o comportamento alimentar, a competência vetorial e a interação entre vetores, hospedeiros e seres humanos. Essa integração é igualmente representada na Figura 2, que demonstra como os componentes ambientais e ecológicos atuam de forma interdependente na ampliação do risco de transmissão.
Os resultados desta revisão reforçam que a adaptação dos vetores às mudanças ambientais representa um processo dinâmico e contínuo. Conforme demonstrado no Quadro 3, a plasticidade fisiológica e a adaptação térmica figuram entre os mecanismos mais frequentemente descritos pelos estudos incluídos, indicando que diferentes espécies vetoras apresentam elevada capacidade de responder às alterações climáticas por meio da expansão de nichos ecológicos e da modificação de seus ciclos biológicos. Essa evidência amplia a compreensão tradicional da epidemiologia das arboviroses, ao indicar que o risco de transmissão não depende apenas da presença dos vetores, mas também da sua capacidade adaptativa frente às transformações ambientais.
Essa interpretação converge com os estudos de Neto et al. (2024), Outammassine (2022), Heath et al. (2025), Tognarelli (2025) e Liu et al. (2025), que demonstram que o aumento da temperatura e a maior frequência de eventos climáticos extremos favorecem adaptações fisiológicas capazes de ampliar a sobrevivência, a dispersão e a competência vetorial. Os autores destacam que essas respostas biológicas reduzem limitações climáticas previamente observadas para diferentes espécies de mosquitos, favorecendo a colonização de novos ambientes e modificando os padrões históricos de transmissão das arboviroses. Os resultados da presente revisão corroboram essa interpretação ao demonstrar que a plasticidade térmica constitui um dos principais mecanismos ecológicos associados à expansão dos vetores.
Outro aspecto fortemente evidenciado refere-se ao impacto do desmatamento, da fragmentação florestal e da alteração dos habitats naturais sobre a dinâmica vetorial. Os resultados apresentados no Quadro 3 indicam que essa foi a categoria temática com maior frequência entre os estudos analisados, sugerindo que a degradação ambiental representa um dos principais mecanismos estruturantes da emergência das arboviroses no Brasil. A conversão de áreas naturais em ambientes agrícolas, urbanos ou de exploração econômica modifica profundamente a organização dos ecossistemas, reduz a conectividade ecológica, altera a disponibilidade de hospedeiros e favorece espécies vetoras adaptadas aos ambientes antropizados.
Esses resultados são consistentes com as evidências apresentadas por Grillet et al. (2024), MacDonald (2025), Wilk-da-Silva (2023), Santos et al. (2025), Lima H. et al. (2025), De Thoisy et al. (2021) e Machado et al. (2023), que descrevem a fragmentação florestal como um dos principais fatores responsáveis pela reorganização das interações ecológicas entre vetores, reservatórios e populações humanas. Segundo esses autores, a perda de habitats naturais favorece eventos de spillover, amplia o contato entre espécies silvestres e humanas e modifica profundamente os padrões de circulação viral. A síntese produzida nesta revisão reforça essa interpretação ao demonstrar que o desmatamento atua como elemento integrador entre mudanças climáticas, perda da biodiversidade e expansão territorial das arboviroses.
A revisão também evidencia que a perda da biodiversidade deve ser compreendida como um componente funcional da dinâmica epidemiológica das arboviroses. Conforme sintetizado no Quadro 3, a simplificação das comunidades ecológicas reduz o efeito de diluição, favorecendo espécies vetoras altamente adaptadas aos ambientes urbanos e periurbanos. Além disso, a reorganização das cadeias tróficas modifica as interações entre vetores e hospedeiros, aumentando a probabilidade de circulação viral em ecossistemas antropizados.
Essa interpretação encontra respaldo nos estudos de Arcos et al. (2025), Barbosa et al. (2025), Menezes et al. (2025) e Ibarra-Cerdeña (2024), que demonstram que a conservação da biodiversidade exerce papel regulador sobre a dinâmica das doenças transmitidas por vetores. Em conjunto, essas evidências indicam que estratégias de conservação ambiental transcendem os objetivos ecológicos, configurando-se também como medidas relevantes para a prevenção e o controle das arboviroses.
Outro achado importante desta revisão refere-se à crescente relevância da interface urbano-florestal. Conforme evidenciado no Quadro 3, a expansão das áreas urbanizadas sobre ecossistemas naturais aumenta o contato entre populações humanas, reservatórios silvestres e vetores, favorecendo novas rotas de transmissão. Essa dinâmica é reforçada pela Figura 2, que demonstra elevada interação entre mudanças no uso do solo, fragmentação ambiental e vulnerabilidade epidemiológica nas diferentes regiões brasileiras.
Os estudos de Pereira da Silva (2022), De Thoisy et al. (2021), Machado et al. (2023), Chaves et al. (2024) e MacDonald (2025) corroboram essa interpretação ao demonstrar que a expansão da fronteira agrícola, da mineração e da urbanização aumenta a frequência de contatos entre ecossistemas silvestres e ambientes urbanos, favorecendo a emergência de arboviroses anteriormente restritas a ciclos naturais.
Por fim, os resultados desta revisão evidenciam limitações importantes das estratégias tradicionais de controle vetorial. Embora o controle químico continue sendo amplamente utilizado, os estudos incluídos demonstram que sua efetividade tende a ser reduzida diante da crescente adaptação dos vetores e das rápidas transformações ambientais. Nesse contexto, o Quadro 3 destaca a necessidade de incorporar tecnologias inovadoras de monitoramento, vigilância ambiental e manejo integrado de vetores, em consonância com os princípios da abordagem One Health.
Essa interpretação é sustentada pelos estudos de Couper et al. (2021), Njaime et al. (2024), Defilippo et al. (2025) e Outammassine (2022), que ressaltam a importância da integração entre inovação tecnológica, vigilância em tempo real, ferramentas moleculares e gestão ambiental para aumentar a efetividade das estratégias de prevenção. Em conjunto, os resultados apresentados no Quadro 3 e sintetizados na Figura 2 demonstram que as mudanças ambientais remodelam profundamente a ecologia dos vetores e reforçam que políticas sustentáveis de controle das arboviroses devem incorporar simultaneamente aspectos climáticos, ecológicos, tecnológicos e territoriais, superando modelos centrados exclusivamente no controle químico dos mosquitos.
Lacunas Científicas, Fragmentação do Conhecimento e Desigualdade Territorial
Os resultados sintetizados no Quadro 4 evidenciam que, apesar do crescimento da produção científica sobre arboviroses nos últimos anos, persistem importantes lacunas conceituais, metodológicas e territoriais que limitam a compreensão da influência das mudanças ambientais sobre a dinâmica dessas doenças no Brasil. Entre os 12 estudos analisados neste eixo temático, destacaram-se o viés temático com concentração de pesquisas em dengue, a fragmentação disciplinar, a predominância de estudos transversais, a baixa incorporação das evidências científicas na formulação de políticas públicas e as deficiências dos sistemas de vigilância epidemiológica e genômica. Além disso, observou-se limitada integração entre dados ambientais, clínicos e epidemiológicos, bem como desigualdade regional na produção científica, com reduzida representatividade de áreas remotas da Amazônia e de outros territórios ambientalmente vulneráveis. Esses achados reforçam que o conhecimento disponível ainda não acompanha a complexidade dos processos ecológicos e socioambientais envolvidos na emergência das arboviroses.
Uma das principais lacunas identificadas nesta revisão refere-se à concentração da produção científica em dengue, em detrimento de outras arboviroses emergentes de importância crescente para a saúde pública brasileira, como Mayaro e Oropouche. Conforme apresentado no Quadro 4, essa tendência limita a compreensão da diversidade epidemiológica dos arbovírus circulantes e reduz a capacidade dos sistemas de vigilância em antecipar eventos de emergência e reemergência viral. Essa concentração temática também dificulta a elaboração de estratégias preventivas para doenças que apresentam rápida expansão territorial, especialmente em regiões de intensa transformação ambiental.
Essa interpretação converge com os estudos de Castano-Duque (2025), Xu et al. (2026) e Naveca et al. (2024), que destacam que o predomínio histórico das pesquisas em dengue produziu avanços importantes para essa doença, mas contribuiu para a sub-representação de arboviroses emergentes. Os autores ressaltam que vírus como Oropouche e Mayaro permanecem insuficientemente investigados quanto aos seus reservatórios, vetores, padrões ecológicos e potencial de expansão geográfica, constituindo uma importante lacuna para a vigilância prospectiva no contexto das mudanças ambientais.
Os resultados da presente revisão também evidenciam uma persistente fragmentação do conhecimento científico, caracterizada pela reduzida integração entre epidemiologia, ecologia, climatologia, saúde pública e ciências ambientais. Conforme sintetizado no Quadro 4, essa fragmentação constitui uma das limitações mais recorrentes identificadas na literatura e dificulta a compreensão integrada dos processos que determinam a emergência das arboviroses. Embora diferentes disciplinas tenham avançado de forma significativa, os estudos permanecem predominantemente setoriais, limitando análises capazes de incorporar simultaneamente fatores ambientais, vetoriais, sociais e institucionais.
Essa limitação é amplamente discutida por Piovezan-Borges (2022), Hoffman et al. (2023) e Ramaj et al. (2025), que defendem a necessidade de ampliar abordagens interdisciplinares fundamentadas no conceito One Health. Segundo esses autores, a fragmentação entre saúde humana, saúde animal e ciências ambientais reduz a capacidade de interpretar fenômenos complexos e compromete a tradução das evidências científicas para o planejamento de políticas públicas. Os resultados desta revisão corroboram essa perspectiva ao demonstrar que os estudos mais abrangentes foram justamente aqueles que integraram diferentes escalas de análise e múltiplos determinantes ambientais.
Outra limitação importante identificada refere-se ao predomínio de estudos ecológicos e transversais, em detrimento de investigações longitudinais capazes de avaliar os efeitos cumulativos das mudanças ambientais ao longo do tempo. Conforme evidenciado no Quadro 4, essa característica metodológica restringe a compreensão das relações causais entre alterações climáticas, degradação ambiental e dinâmica das arboviroses, especialmente em cenários de rápida transformação territorial. Embora os estudos ecológicos sejam fundamentais para identificar padrões espaciais e temporais, sua predominância evidencia a necessidade de delineamentos que permitam acompanhar a evolução dos processos ecológicos e epidemiológicos em diferentes contextos ambientais.
Esses resultados são consistentes com as observações de Berube et al. (2023), Surendra et al. (2024) e Wilke ABB et al. (2025), que destacam a escassez de estudos longitudinais e de avaliações sobre intervenções sustentadas. Os autores argumentam que essa limitação dificulta a avaliação da efetividade de políticas públicas e reduz a capacidade de antecipar alterações futuras decorrentes das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade. A presente revisão também identificou importantes fragilidades relacionadas à translação do conhecimento científico para a tomada de decisão em saúde pública. Conforme demonstrado no Quadro 4, modelos preditivos, sistemas de inteligência epidemiológica e evidências produzidas pela comunidade científica ainda são pouco incorporados ao planejamento das ações de vigilância e controle das arboviroses. Essa desconexão entre produção científica e gestão pública limita o potencial das evidências para orientar políticas preventivas e respostas oportunas frente às mudanças ambientais.
Essa interpretação converge com Lima CL et al. (2025), Ramaj et al. (2025) e Surendra et al. (2024), que ressaltam a necessidade de fortalecer mecanismos institucionais capazes de transformar conhecimento científico em estratégias operacionais para o Sistema Único de Saúde. Os autores defendem que a incorporação de modelos preditivos, indicadores ambientais e sistemas integrados de monitoramento representa uma etapa essencial para ampliar a capacidade adaptativa dos serviços de saúde diante dos efeitos das mudanças climáticas.
Outro aspecto relevante identificado nesta revisão refere-se às deficiências dos sistemas de vigilância epidemiológica e genômica. Os resultados demonstram que persistem limitações na capacidade de monitorar arbovírus emergentes, acompanhar a circulação viral em áreas remotas e detectar precocemente alterações na competência vetorial e na resistência aos métodos tradicionais de controle. Essa limitação torna-se particularmente preocupante em regiões caracterizadas por intensa transformação ambiental e elevada biodiversidade, onde novos ciclos de transmissão podem emergir de forma silenciosa.
Esses achados corroboram os estudos de Naveca et al. (2024), De Melo Iani (2025) e Wilke ABB et al. (2025), que destacam a necessidade de ampliar a vigilância genômica integrada aos sistemas epidemiológicos e ambientais, especialmente na Amazônia brasileira. Segundo esses autores, o fortalecimento dessas estruturas representa um componente estratégico para a detecção precoce de novos arbovírus e para a resposta rápida frente a surtos emergentes.
Por fim, os resultados desta revisão evidenciaram importante desigualdade territorial na produção científica, caracterizada pela concentração de estudos em regiões historicamente mais estruturadas e pela limitada representatividade de áreas remotas e ecologicamente vulneráveis. Conforme sintetizado no Quadro 4, essa distribuição desigual restringe a compreensão da diversidade ambiental brasileira e dificulta a formulação de políticas públicas adaptadas às especificidades regionais.
Essa interpretação é consistente com Xu et al. (2026) e De Melo Iani (2025), que destacam a necessidade de ampliar a produção científica em territórios estratégicos, especialmente na Amazônia Legal, onde coexistem elevada biodiversidade, intensa pressão ambiental e crescente risco de emergência de arboviroses. Em conjunto, os resultados apresentados no Quadro 4 demonstram que o avanço do conhecimento científico depende não apenas do aumento do número de estudos, mas da adoção de abordagens interdisciplinares, longitudinalmente estruturadas e territorialmente representativas, capazes de integrar epidemiologia, ecologia, vigilância genômica e formulação de políticas públicas sob a perspectiva One Health.
Políticas Públicas, Vigilância Territorial e Consolidação do Paradigma One Health
Os resultados sintetizados no Quadro 5 demonstram elevada convergência entre os estudos quanto à necessidade de fortalecer políticas públicas integradas para prevenção e controle das arboviroses no Brasil. Entre os 16 estudos analisados neste eixo temático, destacaram-se recomendações relacionadas ao fortalecimento da governança intersetorial, ampliação da vigilância epidemiológica e ambiental, incorporação de tecnologias inovadoras, planejamento territorial, conservação ambiental e utilização de modelos preditivos para subsidiar a tomada de decisão. A integração dessas evidências é representada na Figura 2, que demonstra que fatores climáticos, ambientais, epidemiológicos e institucionais formam um sistema interdependente, reforçando que respostas fragmentadas tendem a apresentar menor efetividade frente à complexidade da emergência das arboviroses.
Os achados desta revisão evidenciam que o modelo historicamente centrado no controle químico dos vetores mostra-se insuficiente para responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela degradação ambiental e pela rápida transformação dos territórios brasileiros. Conforme discutido nos Quadros 2 e 3, temperatura, precipitação, desmatamento, perda da biodiversidade, urbanização e expansão da interface urbano-florestal modificam continuamente a ecologia dos vetores, tornando necessária a adoção de estratégias preventivas capazes de integrar vigilância epidemiológica, monitoramento ambiental e planejamento territorial. Nesse contexto, os resultados desta revisão indicam que políticas públicas sustentáveis dependem da articulação entre diferentes setores governamentais, instituições científicas e comunidades locais.
Essa interpretação converge com Ramaj et al. (2025), que destacam que a translação do conhecimento científico para os processos decisórios constitui um dos principais desafios contemporâneos para o enfrentamento das arboviroses. Da mesma forma, Taylor et al. (2024) demonstram que sistemas de controle predominantemente reativos apresentam menor capacidade de resposta quando comparados a modelos preventivos fundamentados na identificação precoce dos fatores de risco ambientais. Em conjunto, essas evidências reforçam que a antecipação dos eventos epidemiológicos depende da integração entre produção científica, gestão pública e planejamento territorial.
Outro aspecto recorrente entre os estudos analisados refere-se à necessidade de fortalecer mecanismos institucionais capazes de incorporar a abordagem One Health na formulação e implementação das políticas públicas. Conforme evidenciado no Quadro 5, a governança compartilhada entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente constitui um dos principais eixos estratégicos identificados pela literatura. Essa perspectiva amplia a capacidade dos sistemas de vigilância ao reconhecer que a emergência das arboviroses decorre da interação permanente entre alterações ambientais, circulação de vetores, reservatórios animais e vulnerabilidades humanas.
Esses resultados corroboram as análises de Piovezan-Borges (2022) e Surendra et al. (2024), que defendem que a efetiva implementação do paradigma One Health exige mecanismos permanentes de coordenação interinstitucional, financiamento sustentável e integração entre os diferentes níveis de gestão. Da mesma forma, Romanello et al. (2022) ressaltam que os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde demandam políticas urbanas capazes de incorporar indicadores ambientais e climáticos aos processos de planejamento e adaptação, especialmente em países tropicais.
A presente revisão também evidencia que a inovação tecnológica representa componente essencial para o fortalecimento da vigilância das arboviroses. Os estudos sintetizados no Quadro 5 demonstram que ferramentas de monitoramento em tempo real, sistemas automatizados de vigilância, modelagem espacial e inteligência artificial ampliam a capacidade de identificar precocemente alterações na circulação viral e na distribuição dos vetores. Além disso, novas tecnologias para manejo integrado de vetores dependem da atualização dos marcos regulatórios e da integração entre pesquisa científica e políticas públicas.
Essa interpretação encontra respaldo nos estudos de Njaime et al. (2024), que destacam o potencial dos sistemas automatizados de vigilância epidemiológica, e de Defilippo et al. (2025), que defendem a modernização dos instrumentos regulatórios para viabilizar a incorporação de novas biotecnologias no controle vetorial. Paralelamente, Branda et al. (2024) demonstram que a implementação de estratégias inovadoras, como programas baseados em Wolbachia, depende não apenas de evidências científicas, mas também da aceitação social e da participação comunitária, reforçando a importância da governança participativa na implementação das políticas públicas.
Outro resultado importante desta revisão refere-se à crescente valorização da conservação ambiental como estratégia de prevenção das arboviroses. Conforme sintetizado no Quadro 5, diversos estudos demonstram que políticas voltadas à proteção dos ecossistemas, ao ordenamento territorial e ao fortalecimento da interface entre saúde e meio ambiente apresentam potencial para reduzir os fatores ecológicos associados à emergência viral. Essa perspectiva representa uma mudança importante em relação aos modelos tradicionais de controle, ao reconhecer que intervenções ambientais podem produzir benefícios simultâneos para a conservação da biodiversidade e para a saúde pública.
Essa interpretação é consistente com os estudos de Ibarra-Cerdeña (2024), Santos et al. (2025), Martins et al. (2025) e Godinho et al. (2025), que demonstram que a conservação dos ecossistemas, a proteção das interfaces silvestres e o fortalecimento da vigilância integrada representam componentes estratégicos para reduzir o risco de emergência e disseminação de arboviroses. Da mesma forma, Freitas et al. (2025), Carvalho et al. (2025) e Oliveira T. et al. (2024) ressaltam que modelos espaciais e sistemas preditivos devem orientar a alocação de recursos, o planejamento urbano e a organização das ações de vigilância em saúde.
Por fim, os resultados desta revisão reforçam que a abordagem One Health ultrapassa a condição de referencial teórico e consolida-se como uma estratégia operacional para o enfrentamento das arboviroses em cenários de mudanças climáticas. A integração das evidências apresentadas nos Quadros 2, 3, 4 e 5, associada à síntese representada na Figura 2, demonstra que a prevenção dessas doenças depende da articulação entre vigilância epidemiológica, monitoramento ambiental, conservação da biodiversidade, planejamento territorial e inovação tecnológica. Assim, os resultados desta revisão fornecem subsídios científicos para o desenvolvimento de políticas públicas mais resilientes, capazes de fortalecer a capacidade adaptativa do Sistema Único de Saúde frente aos desafios impostos pelas mudanças ambientais e pela emergência de novos arbovírus.
CONCLUSÃO
Esta revisão sistemática demonstra que a emergência e a disseminação das arboviroses no Brasil constituem fenômenos multifatoriais, resultantes da interação dinâmica entre mudanças climáticas, perda de biodiversidade, alterações no uso da terra, urbanização, desigualdades socioambientais e transformações ecológicas que modificam a ecologia dos vetores e ampliam a vulnerabilidade das populações humanas. A síntese das evidências evidencia que temperatura, precipitação, desmatamento e urbanização representam os principais determinantes ambientais associados à expansão territorial das arboviroses, enquanto a fragmentação florestal, a simplificação ecológica e a crescente interface entre ambientes urbanos e naturais favorecem a adaptação vetorial, a ampliação dos nichos ecológicos e o aumento do risco de transmissão.
Além de consolidar as evidências disponíveis, esta revisão amplia a compreensão científica ao integrar, em uma única estrutura analítica, fatores ambientais, mecanismos ecológicos, lacunas do conhecimento e prioridades para políticas públicas sob a perspectiva One Health. Essa abordagem evidencia que a dinâmica das arboviroses não pode ser compreendida por modelos lineares centrados exclusivamente em variáveis climáticas ou no controle químico dos vetores, mas requer uma interpretação sistêmica capaz de reconhecer a interdependência entre saúde humana, saúde animal e integridade ambiental.
Os resultados também revelam importantes limitações da produção científica atual, incluindo a predominância de estudos direcionados à dengue, a escassez de pesquisas sobre arboviroses emergentes, como Mayaro e Oropouche, a persistência de abordagens disciplinares fragmentadas, a limitada integração entre dados epidemiológicos, ambientais e genômicos e a reduzida incorporação das evidências científicas nos processos de formulação e implementação de políticas públicas. Essas lacunas indicam que o fortalecimento da vigilância integrada dependerá não apenas da ampliação da produção científica, mas também da adoção de estudos longitudinais, interdisciplinares e territorialmente representativos, especialmente em regiões ambientalmente vulneráveis, como a Amazônia brasileira.
Sob a perspectiva da saúde pública, as evidências sintetizadas reforçam a necessidade de uma transição do modelo predominantemente reativo para estratégias preventivas baseadas em vigilância territorial integrada, modelagem preditiva, monitoramento ambiental, inovação tecnológica e planejamento intersetorial. A incorporação de indicadores climáticos, ecológicos e socioambientais aos sistemas de vigilância pode ampliar a capacidade de antecipação dos surtos, fortalecer a resposta institucional e aumentar a resiliência do Sistema Único de Saúde diante dos impactos das mudanças ambientais.
Por fim, esta revisão propõe que o paradigma One Health deixe de ser compreendido apenas como um referencial conceitual e passe a orientar, de forma estruturante, a produção científica, a vigilância epidemiológica e a formulação de políticas públicas no Brasil. Frente à intensificação das mudanças climáticas e da perda global de biodiversidade, compreender e enfrentar as arboviroses exige reconhecer que a saúde humana depende da conservação dos ecossistemas, da sustentabilidade ambiental e da integração efetiva entre ciência, gestão pública e território. Nesse contexto, os achados desta revisão fornecem evidências robustas para subsidiar estratégias nacionais de adaptação climática, prevenção de arboviroses e fortalecimento da governança em saúde ambiental, contribuindo para o avanço da agenda internacional de One Health e para o desenvolvimento de sistemas de saúde mais resilientes e sustentáveis.
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