QUANDO O ADVERSÁRIO SE TORNA INIMIGO: RELAÇÕES ENTRE IDENTIDADE SOCIAL, POLARIZAÇÃO AFETIVA E DESUMANIZAÇÃO NAS INTERAÇÕES ENTRE MEMBROS DE GRUPOS DE OPOSIÇÃO POLÍTICA

WHEN THE ADVERSARY BECOMES THE ENEMY: RELATIONS BETWEEN SOCIAL IDENTITY, AFFECTIVE POLARIZATION AND DEHUMANIZATION IN INTERACTIONS BETWEEN MEMBERS OF POLITICAL OPPOSITION GROUPS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793463639

RESUMO
As relações entre grupos de oposição política podem ultrapassar a divergência de ideias e envolver processos de pertencimento, diferenciação, avaliações negativas e desumanização do grupo opositor. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo geral analisar as relações entre identidade social, polarização afetiva e desumanização nas interações entre membros de grupos de oposição política. Especificamente, buscou-se discutir o papel da identidade social na formação e manutenção das distinções entre grupos políticos; caracterizar a polarização afetiva e diferenciá-la de outras formas de polarização política; examinar a relação entre categorização, diferenciação intergrupal e percepção do grupo opositor; e analisar as relações entre polarização afetiva e desumanização. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de caráter descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, mediante levantamento e análise de produções científicas relacionadas aos fenômenos investigados. A análise da literatura permitiu identificar que identidade social, categorização, polarização afetiva e desumanização são fenômenos distintos, mas relacionados. Os estudos analisados indicam que o pertencimento e a identificação social participam da organização das relações entre grupos, enquanto a categorização e a comparação contribuem para estabelecer percepções de semelhanças e diferenças. A polarização afetiva acrescenta avaliações e sentimentos direcionados ao próprio grupo e ao grupo opositor, podendo estar relacionada, em determinados contextos, à desumanização. Entretanto, os achados não permitem estabelecer uma relação causal ou linear entre esses processos, indicando que a desumanização não constitui consequência inevitável do pertencimento político. Conclui-se que a compreensão dessas relações contribui para a análise dos processos psicológicos envolvidos na intensificação das divisões entre grupos políticos.
Palavras-chave: identidade social; polarização afetiva; desumanização; relações intergrupais; grupos políticos.

ABSTRACT
Relations between politically opposing groups may extend beyond differences in political views and involve processes of belonging, differentiation, negative evaluations, and dehumanization of opposing groups. In this context, the present study aimed to analyze the relationships between social identity, affective polarization, and dehumanization in interactions among members of politically opposing groups. Specifically, it sought to discuss the role of social identity in the formation and maintenance of distinctions between political groups; characterize affective polarization and distinguish it from other forms of political polarization; examine the relationship between categorization, intergroup differentiation, and perceptions of opposing political groups; and analyze the relationships between affective polarization and dehumanization. A descriptive and exploratory bibliographic study with a qualitative approach was conducted through the collection and analysis of scientific literature addressing the phenomena under investigation. The analysis identified social identity, categorization, affective polarization, and dehumanization as distinct but related phenomena. The studies reviewed indicate that group belonging and social identification contribute to the organization of intergroup relations, while categorization and social comparison contribute to perceptions of similarities and differences between groups. Affective polarization involves evaluations and feelings directed toward one's own group and opposing groups and may, in certain contexts, be associated with dehumanization. However, the findings do not allow for the establishment of a causal or linear relationship among these processes, indicating that dehumanization is not an inevitable consequence of political group membership. Understanding these relationships may contribute to the analysis of psychological processes involved in the intensification of divisions between political groups.
Keywords: social identity; affective polarization; dehumanization; intergroup relations; political groups.

1. INTRODUÇÃO

Em uma sociedade democrática, com diferentes grupos políticos e diferentes crenças e valores acerca de questões sociais e governamentais, podem ocorrer divergências de perspectivas sem que necessariamente se tornem conflitos. Contudo, quando o posicionamento de membros desses grupos ultrapassa a oposição de ideias e envolve a percepção e a avaliação de indivíduos do grupo opositor, o conflito deixa de estar restrito à divergência de opiniões e pode envolver pertencimento, identidade e relações entre grupos.

Nesse sentido, a Teoria da Identidade Social (TIS), desenvolvida por Henri Tajfel, compreende que a pertença a um grupo contribui para a percepção de si mesmo e dos outros (De Melo Filho; Mariano, 2025). A identidade social está relacionada ao sentimento de pertencimento a determinadas categorias sociais, que contribuem para a maneira como os indivíduos compreendem a si mesmos e estabelecem distinções em relação aos demais (Abad, 2024).

A partir dessa perspectiva, os indivíduos podem categorizar a si mesmos e às outras pessoas com base em características percebidas como semelhantes ou diferentes (Brasil; Cabecinhas, 2025). Essa categorização estabelece distinções entre o próprio grupo, denominado endogrupo, e aqueles percebidos como pertencentes a outros grupos, os exogrupos, constituindo um aspecto relevante para a compreensão das relações intergrupais (Abad, 2024). No campo político, essas distinções podem assumir diferentes formas de avaliação entre grupos adversários.

Nesse contexto, a polarização afetiva refere-se às diferenças nas avaliações e nos sentimentos direcionados ao próprio grupo e aos grupos políticos adversários, envolvendo, por exemplo, maior identificação com o grupo de pertencimento e sentimentos negativos em relação ao grupo opositor (Phillips, 2022; Renström; Bäck; Carroll, 2023). Dessa forma, a oposição política pode ultrapassar a divergência entre posicionamentos e envolver rejeição e hostilidade direcionadas aos integrantes do grupo adversário.

Em contextos de maior antagonismo entre grupos, a percepção do grupo opositor como ameaça pode estar relacionada a processos de desumanização, nos quais indivíduos ou grupos são percebidos de maneira menos humana (Van Loon; Goldberg; Srivastava, 2024). Assim, esses processos permitem considerar não apenas as diferenças entre posicionamentos políticos, mas também suas possíveis repercussões nas relações entre indivíduos.

Além dos espaços de discussão política, as divergências entre posicionamentos também podem repercutir nas relações familiares e de amizade. Nesse sentido, a literatura aponta que a intensificação da polarização pode tensionar vínculos afetivos quando as diferenças de posicionamento passam a interferir na forma como os indivíduos percebem e se relacionam com aqueles que pensam de maneira distinta (De Paula; De Paula, 2026).

Diante disso, a compreensão das relações entre identidade social, polarização afetiva e desumanização mostra-se relevante para a Psicologia, uma vez que esses processos envolvem a forma como os indivíduos estabelecem vínculos, identificam pertencimentos e se relacionam com pessoas percebidas como integrantes de grupos distintos. A análise dessas relações pode contribuir para ampliar a compreensão dos processos psicológicos envolvidos na intensificação das divisões entre grupos políticos, especialmente quando a divergência de ideias passa a envolver avaliações negativas dos indivíduos que pertencem ao grupo opositor.

A partir dessa perspectiva, este estudo busca responder à seguinte questão: como a literatura científica descreve as relações entre identidade social, polarização afetiva e desumanização nas interações entre membros de grupos de oposição política? Para tanto, tem como objetivo geral analisar as relações entre identidade social, polarização afetiva e desumanização nas interações entre membros de grupos de oposição política.

Como objetivos específicos, pretende-se: discutir o papel da identidade social na formação e manutenção das distinções entre grupos políticos; caracterizar a polarização afetiva e diferenciá-la de outras formas de polarização política; examinar como processos de categorização e diferenciação intergrupal estão relacionados à percepção do grupo político opositor; e analisar as relações entre polarização afetiva e desumanização nas relações entre grupos politicamente opostos.

Para alcançar esses objetivos, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de caráter descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, a partir do levantamento e da análise de produções científicas relacionadas à identidade social, à polarização afetiva e à desumanização no contexto das relações entre grupos políticos. O levantamento das informações foi realizado por meio de pesquisas no Google Scholar, SciELO e em plataformas de publicação e repositórios acadêmicos, incluindo a Revista Hum@nae, a UMinho Editora, a Political Behavior, a Political Psychology, a Communications Psychology e a Aurum Revista Multidisciplinar.

Entre as produções selecionadas, destacaram-se os estudos de Areal (2022), Glória Filho (2022), Orr, Fowler e Huber (2023), Renström, Bäck e Carroll (2023), Teshainer (2011), Hur e Sandoval (2020), Samuels e Belarmino (2024) e Martherus et al. (2021), entre outros. A seleção das produções considerou sua pertinência em relação aos objetivos e aos conceitos centrais da pesquisa, enquanto a análise foi desenvolvida de forma qualitativa e interpretativa, buscando identificar aproximações e relações entre identidade social, polarização afetiva e desumanização.

Essa metodologia possibilitou reunir e analisar diferentes contribuições da literatura acerca dos fenômenos investigados, sem a pretensão de estabelecer relações causais entre eles. Como limitação, destaca-se a possibilidade de a literatura selecionada apresentar diferentes definições, perspectivas teóricas e formas de investigação dos fenômenos abordados, o que pode dificultar a comparação direta entre os estudos. Apesar disso, a análise da produção científica pode contribuir para identificar aproximações, diferenças e possíveis relações entre os conceitos investigados.

O artigo está organizado em seções que apresentam, inicialmente, o referencial teórico sobre identidade social, categorização e relações intergrupais, seguida da discussão acerca da polarização afetiva e da desumanização. Posteriormente, são apresentados os resultados e as considerações finais da pesquisa.

2. ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DAS RELAÇÕES ENTRE GRUPOS POLÍTICOS

2.1. Identidade Social

De acordo com Tajfel e Turner (1986), a identidade social corresponde à parte do autoconceito do indivíduo derivada da consciência de pertencimento a determinados grupos sociais, envolvendo também o significado emocional e valorativo atribuído a essa pertença. A identidade social não se limita ao reconhecimento de pertencer a um grupo, mas envolve a maneira como essa pertença passa a integrar a percepção que o indivíduo possui de si mesmo e de seu lugar nas relações sociais (Tajfel; Turner, 1986),

Para Tajfel e Turner (1979), o comportamento intergrupal está relacionado à forma como os indivíduos identificam a si mesmos e aos outros como pertencentes a diferentes categorias sociais. Nesse processo, a pertença grupal pode adquirir diferentes significados e valores, levando os indivíduos a buscar uma identidade social positiva. Essa busca está relacionada à maneira como o próprio grupo é avaliado em comparação com outros grupos considerados relevantes (Tajfel; Turner, 1979).

A comparação social constitui, nesse sentido, um processo importante para a construção e manutenção da identidade social. Tajfel e Turner (1979) destacam que a avaliação do próprio grupo ocorre a partir de comparações com outros grupos em dimensões consideradas relevantes, podendo resultar em percepções favoráveis ou desfavoráveis. Assim, a identidade social apresenta um caráter relacional, uma vez que a percepção sobre o próprio grupo também se desenvolve a partir de sua posição em relação a outros grupos (Tajfel e Turner (1979).

Além disso, a identidade social apresenta caráter contextual. Abad (2024), ao retomar as contribuições de Turner e Oakes, destaca que os indivíduos podem se definir de maneiras mais individualizadas ou a partir de suas pertenças grupais, conforme as características da situação tornam determinadas categorias mais relevantes. A autora aponta, dessa forma, que uma mesma pessoa pode apresentar diferentes identidades sociais, cuja importância varia de acordo com o contexto e com as categorias que se tornam mais salientes nas relações sociais.

Essa compreensão aproxima-se da Teoria da Autocategorização, desenvolvida por Turner et al. (1987), segundo a qual os indivíduos podem se categorizar em diferentes níveis de abstração. Dependendo do contexto, determinadas categorias podem adquirir maior saliência e orientar a percepção de si e dos outros. Turner et al. (1987) apontam que, quando uma categoria social se torna mais relevante, podem ser percebidas maiores semelhanças entre os indivíduos que a integram e maiores diferenças em relação àqueles situados em outras categorias.

Nesse processo, a identificação social envolve uma articulação entre pertencimento e diferenciação. Brewer (1991) propõe que os indivíduos apresentam, simultaneamente, uma necessidade de assimilação, relacionada ao sentimento de pertencimento, e uma necessidade de distinção em relação aos demais. Segundo a autora, uma categoria social pode adquirir maior significado para o indivíduo quando possibilita tanto a percepção de fazer parte de um grupo quanto a identificação de características que o diferenciam de outros grupos socialmente relevantes.

Tajfel e Turner (1979) destacam que os processos de diferenciação podem ocorrer como parte da busca por uma identidade social positiva, sem que isso resulte obrigatoriamente em relações de antagonismo. A transformação dessas distinções em avaliações negativas ou relações de oposição depende de outros processos presentes nas relações intergrupais (Tajfel; Turner, 1979).

A partir dessas contribuições, compreende-se que a identidade social envolve a articulação entre pertencimento, autoconceito, categorização e comparação social, cuja relevância pode variar conforme o contexto e conforme determinadas pertenças se tornam mais salientes nas relações estabelecidas entre grupos (Tajfel; Turner, 1979; Tajfel; Turner, 1986; Brewer, 1991). Nesse sentido, compreender como os indivíduos estabelecem e percebem as diferenças entre seu grupo e outros grupos exige considerar os processos de categorização e diferenciação intergrupal, abordados a seguir.

2.2. Categorização e Diferenciação Intergrupal

A categorização social constitui um processo relacionado à organização das percepções sobre as pessoas e à formação de categorias sociais. Torres, Camino e Silva (2023) apresentam esse processo como uma forma de organização dos indivíduos segundo características compartilhadas, enquanto Freitas et al. (2023) destacam o agrupamento de pessoas a partir de características percebidas como semelhantes.

Nesse contexto, Torres, Camino e Silva (2023) distinguem o grupo com o qual o indivíduo estabelece uma relação de pertencimento, denominado endogrupo, dos grupos percebidos como externos a essa pertença, denominados exogrupos. Essa distinção participa da organização das relações entre diferentes grupos. Naujorks (2021), por sua vez, relaciona os processos de categorização e comparação entre o próprio grupo e outros grupos à diferenciação intergrupal.

Brasil e Cabecinhas (2025) apontam que a categorização pode estar associada à percepção de maior semelhança entre indivíduos pertencentes a uma mesma categoria e de maior diferença entre aqueles pertencentes a categorias distintas. Segundo os autores, esse processo participa da delimitação das fronteiras entre diferentes grupos e pode influenciar a forma como suas características são percebidas durante a comparação social.

Os efeitos da categorização sobre a diferenciação entre grupos também são discutidos a partir do paradigma dos grupos mínimos. Torres, Camino e Silva (2023) apresentam esses estudos como evidências de que a classificação dos indivíduos em grupos distintos pode produzir diferenciação e favorecimento do próprio grupo mesmo quando os grupos são estabelecidos em condições mínimas e não possuem uma história anterior de conflito. Dessa forma, a própria percepção de pertencimento a categorias diferentes pode estar relacionada à distinção entre endogrupo e exogrupo (Torres; Camino; Silva, 2023).

O favorecimento do endogrupo pode assumir diferentes formas. Freitas et al. (2023) apontam que esse favorecimento pode envolver dimensões perceptivas, emocionais, avaliativas e comportamentais, podendo resultar em avaliações mais positivas do próprio grupo. Os autores também discutem que, em determinadas condições, a percepção de ameaça pode estar associada a avaliações mais negativas dos grupos externos.

Além disso, Turner et al. (1987) destacam que diferentes níveis de categorização do self podem adquirir maior ou menor saliência conforme as características do contexto. Torres, Camino e Silva (2023) também ressaltam a importância das condições sociais e históricas nas quais as relações intergrupais se desenvolvem, indicando que a percepção dos grupos não deve ser compreendida de maneira independente do contexto.

A categorização social, portanto, participa da organização das pessoas em diferentes categorias, enquanto a comparação social e a diferenciação intergrupal contribuem para a percepção das relações entre endogrupo e exogrupo (Tajfel; Turner, 1986; Brasil; Cabecinhas, 2025). Embora esses processos possam estar associados ao favorecimento do próprio grupo e a avaliações distintas entre grupos, a diferenciação não corresponde necessariamente à hostilidade ou ao conflito intergrupal (Brewer, 1991). Essa distinção é importante para compreender como tais processos podem assumir características específicas quando relacionados aos grupos políticos.

2.3. Polarização Política e Polarização Afetiva

A polarização política não constitui um fenômeno único, podendo assumir diferentes dimensões. Fuks e Marques (2022) distinguem, nesse sentido, a polarização ideológica da polarização afetiva. Segundo os autores, a polarização ideológica está relacionada às diferenças entre posicionamentos políticos, enquanto a polarização afetiva diz respeito ao aumento da desafeição entre grupos políticos rivais. Essa distinção permite diferenciar a existência de divergências quanto às posições políticas das avaliações afetivas direcionadas aos indivíduos pertencentes a grupos opositores (Fuks; Marques, 2022).

A polarização afetiva pode ser caracterizada, segundo Phillips (2022), pela diferença entre as avaliações dirigidas aos membros do próprio grupo político e aos integrantes do grupo opositor. O autor descreve o fenômeno a partir de avaliações mais favoráveis em relação aos integrantes do próprio grupo e menos favoráveis aos membros do grupo adversário. Dessa forma, a polarização afetiva envolve não apenas diferenças entre posicionamentos políticos, mas também diferenças na maneira como indivíduos pertencentes a grupos políticos distintos são avaliados (Phillips, 2022).

No contexto brasileiro, Areal (2022) investigou possíveis explicações para a polarização afetiva, considerando a hostilidade direcionada aos cidadãos identificados com o grupo político opositor. Os resultados indicaram que a identificação política negativa apresentou associação significativa com a rejeição aos eleitores do grupo externo, mesmo após o controle das avaliações negativas dirigidas ao partido ou liderança. Além disso, a identificação negativa apresentou efeito superior ao da identificação positiva na explicação da hostilidade aos eleitores do outro grupo. Assim, os achados sugerem que a rejeição e a diferenciação em relação ao grupo político opositor podem constituir elementos relevantes da polarização afetiva no contexto brasileiro analisado (Areal, 2022).

Essa compreensão pode ser relacionada aos processos de identidade social e diferenciação intergrupal discutidos anteriormente. Gloria Filho e Modesto (2023) apontam que a identificação com determinado posicionamento político pode assumir características de identidade social, envolvendo comparações entre diferentes grupos. Segundo os autores, essas identificações são relacionais e podem contribuir para o distanciamento em relação aos grupos percebidos como opositores:

[...] O fato de tais identificações serem quase sempre relacionais, ou seja, surgirem de comparações como ‘semelhante vs. diferente’ ou ‘melhor vs. pior’, permite a compreensão do distanciamento entre os diferentes grupos sobretudo quando estes percebem seus oponentes enquanto ‘piores’, como ocorre na polarização afetiva. [...] (Gloria Filho; Modesto, 2023, p. 7).

Além da identidade e da lealdade ao grupo político, Orr, Fowler e Huber (2023) investigaram a relação entre as avaliações interpessoais, a identificação partidária e a concordância com posições políticas. Em estudo realizado nos Estados Unidos, os autores encontraram evidências de que a concordância com posições políticas está relacionada às avaliações dirigidas a outros indivíduos. Ao mesmo tempo, Orr, Fowler e Huber (2023) destacam que ainda é difícil separar os efeitos da identidade partidária das posições políticas, uma vez que esses fatores estão fortemente associados entre si.

Além desses aspectos, Renström, Bäck e Carroll (2023) investigaram a relação entre percepção de ameaça, emoções e polarização afetiva. Com base na teoria da ameaça intergrupal, os autores propõem que ameaças percebidas contra o endogrupo podem estar relacionadas ao aumento da diferenciação entre grupos políticos. No estudo realizado na Suécia e na Alemanha, a exposição a conteúdos que apresentavam a imigração como ameaça provocou aumento de medo, ansiedade e raiva entre os participantes (Renström; Bäck; Carroll, 2023).

Entretanto, os resultados encontrados por Renström, Bäck e Carroll (2023) indicaram que somente a raiva esteve associada ao aumento da polarização afetiva, enquanto medo e ansiedade não apresentaram a mesma relação. Os autores interpretam esse resultado considerando características da raiva como uma emoção de alta ativação, associada a maior utilização de estereótipos. Assim, o estudo sugere que a relação entre ameaça percebida e polarização afetiva pode depender da resposta emocional desencadeada diante da ameaça (Renström; Bäck; Carroll, 2023).

A polarização afetiva também pode ultrapassar a simples avaliação negativa do grupo opositor, assumindo formas mais rígidas de diferenciação entre os grupos. Pinto (2026) apontam que a moralização das identidades pode estabelecer fronteiras simbólicas nas quais os adversários deixam de ser percebidos apenas como portadores de opiniões divergentes e passam a ser classificados como ameaças. Segundo os autores, essa dinâmica pode favorecer a desumanização e dificultar a disposição para a cooperação entre grupos politicamente distintos (Pinto, 2026).

2.4. Desumanização

Na discussão apresentada por Teshainer (2011), a humanização está relacionada à inserção do sujeito nas relações com o outro, enquanto a desumanização política é associada a um processo de dessubjetivação, no qual há redução do espaço destinado à singularidade. Em relação às oposições políticas, Hur e Sandoval (2020) discutem a construção do inimigo como forma de fortalecer a coesão do grupo interno e estabelecer diferenciação em relação ao grupo externo.

Segundo Hur e Sandoval (2020), a construção do inimigo favorece representações negativas do adversário e pode intensificar sentimentos de agressividade e intolerância. No contexto psicopolítico brasileiro analisado, essa dinâmica aparece associada à depreciação e à desumanização do outro diferente, com determinados grupos sendo apresentados de maneira depreciativa e associados a características de inferioridade (Hur; Sandoval, 2020).

Arruda e Ramos (2023) também discutem a relação entre polarização e produção de alteridade, destacando a oposição entre “nós” e “eles”. Segundo as autoras, essa dinâmica envolve mecanismos de deslegitimação e desumanização do outro, contribuindo para a construção de uma alteridade marcada pela distância entre os grupos. Nesse sentido, afirmam que “[...] a produção de alteridade [...] estabelece como base a dicotomia irreconciliável nós-eles [...]” (Arruda; Ramos, 2023, p. 11).

A diferenciação entre grupos também é abordada por Glória Filho e Modesto (2023) a partir dos processos de identificação e comparação intergrupal. Segundo os autores, as identificações políticas são relacionais e podem envolver avaliações do próprio grupo e do grupo externo. A percepção dos oponentes como inferiores pode favorecer sua depreciação, expressa por práticas como xingamentos e difamações, relacionadas à tentativa de manutenção da superioridade do próprio grupo (Glória Filho; Modesto, 2023).

No contexto brasileiro, Samuels e Belarmino (2024) identificaram empiricamente uma relação entre identificação partidária, distância social e desumanização do grupo opositor. Os resultados indicaram que maior intensidade de identificação partidária esteve associada a níveis mais elevados de desumanização. Além disso, os participantes que apresentaram maior desejo de distância social em relação aos adversários também apresentaram maior desumanização destes. Os resultados situam a desumanização como uma manifestação da dimensão moral da polarização partidária (Samuels; Belarmino, 2024).

Martherus et al. (2021) investigaram a relação entre desumanização e polarização afetiva no contexto partidário, identificando uma associação mais acentuada entre esses fenômenos do que entre desumanização e intensidade partidária. A tendência à desumanização foi maior entre indivíduos com níveis elevados de polarização afetiva, embora os autores ressaltem que os fenômenos são conceitualmente distintos. No contexto brasileiro, Glória Filho (2022) também encontrou associação positiva entre desumanização explícita e polarização política afetiva.

Fonseca (2025) também discute a relação entre polarização política e desumanização do grupo opositor, compreendendo a desumanização como uma redução do reconhecimento da humanidade do outro. Segundo a autora, esse processo envolve a perda do reconhecimento da humanidade dos membros do grupo adversário, que passam a ser considerados menos dignos de consideração e preocupação. A autora relaciona esse processo às formas de intensificação da polarização política discutidas em seu estudo (Fonseca, 2025).

Pinto (2026) argumenta que a radicalização política pode transformar diferenças políticas em fronteiras morais rígidas, modificando a forma como o grupo opositor é reconhecido. Nesse processo, o antagonismo democrático pode ser substituído pela lógica amigo-inimigo, na qual “o adversário deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser percebido como ameaça existencial” (Pinto, 2026, p. 8).

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

A análise da literatura permitiu identificar que identidade social, categorização, polarização afetiva e desumanização são fenômenos distintos, mas relacionados nas interações entre grupos politicamente opostos. A identidade social envolve pertencimento e comparação entre grupos, enquanto a categorização organiza percepções de semelhanças e diferenças entre endogrupo e exogrupo. Esses processos, entretanto, não implicam necessariamente hostilidade ou conflito.

Quanto à polarização política, os estudos analisados permitem diferenciá-la de sua dimensão afetiva. A polarização ideológica está relacionada às diferenças entre posicionamentos políticos, enquanto a polarização afetiva envolve avaliações e sentimentos distintos em relação ao próprio grupo e ao grupo opositor (Fuks; Marques, 2022; Phillips, 2022). No contexto brasileiro, Areal (2022) identificou associação entre identificação política negativa e rejeição aos eleitores do grupo opositor.

A identificação política também pode assumir características de identidade social, envolvendo processos de comparação e diferenciação entre grupos (Gloria Filho; Modesto, 2023). Além disso, Renström, Bäck e Carroll (2023) identificaram que a raiva esteve associada ao aumento da polarização afetiva diante da percepção de ameaça, enquanto medo e ansiedade não apresentaram a mesma relação. Esses resultados indicam que diferentes fatores podem participar da intensificação das divisões entre grupos políticos.

Em relação à desumanização, os estudos analisados indicam que esse processo envolve a redução do reconhecimento do outro enquanto sujeito ou enquanto plenamente humano (Teshainer, 2011; Fonseca, 2025). A construção do grupo opositor como inimigo, a oposição entre “nós” e “eles” e a produção de representações depreciativas aparecem relacionadas a esse processo (Hur; Sandoval, 2020; Arruda; Ramos, 2023).

Os estudos empíricos também indicaram relações entre desumanização e polarização política. Samuels e Belarmino (2024) encontraram associação entre maior identificação partidária, maior distância social e maior desumanização do grupo opositor. Martherus et al. (2021) identificaram associação mais acentuada entre desumanização e polarização afetiva do que entre desumanização e intensidade partidária. Glória Filho (2022) também encontrou associação positiva entre desumanização explícita e polarização política afetiva.

A partir desses resultados, observa-se uma possível articulação entre os fenômenos investigados. O pertencimento e a identificação social participam da organização das relações entre grupos; a categorização e a comparação contribuem para estabelecer percepções de semelhança e diferença; e a polarização afetiva acrescenta avaliações emocionais às relações entre grupos políticos. Em determinados contextos, essas dinâmicas podem estar relacionadas à desumanização do grupo opositor.

Contudo, a literatura analisada não permite estabelecer uma relação causal ou linear entre esses processos. A identidade social e a diferenciação podem ocorrer sem hostilidade, assim como a polarização afetiva envolve diferentes fatores e respostas emocionais. Dessa forma, a desumanização não deve ser compreendida como consequência inevitável do pertencimento político, mas como um processo que pode estar associado a contextos de maior antagonismo entre grupos.

A análise realizada permitiu contemplar o objetivo proposto ao identificar relações descritas pela literatura entre identidade social, polarização afetiva e desumanização nas interações entre grupos de oposição política. Os achados evidenciam a relevância do tema para a Psicologia, especialmente por envolver pertencimento, percepção do outro e relações intergrupais. Como limitação, destaca-se a diversidade teórica, metodológica e contextual dos estudos analisados, sendo necessários novos estudos empíricos, especialmente no contexto brasileiro.

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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora orientadora, especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail