QUANDO COMER É CURAR: ALIMENTOS BIOATIVOS NOS RITUAIS DE PASSAGEM E SAÚDE DE POVOS INDÍGENAS

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18489086


Paulo Roberto Ramos1
Carlos Alberto Batista dos Santos2


RESUMO
A relação entre alimentação, ritual e saúde constitui um eixo central dos sistemas de conhecimento de povos indígenas, nos quais o ato de comer ultrapassa a dimensão nutricional e assume funções terapêuticas, espirituais e cosmológicas. No entanto, tais práticas têm sido historicamente marginalizadas ou fragmentadas pela ciência ocidental, especialmente quando reinterpretadas apenas sob a lógica dos compostos bioativos e da funcionalidade biomédica. O problema de pesquisa que orienta este estudo reside na tensão entre o reconhecimento científico dos efeitos bioativos de alimentos tradicionais e a desconsideração de seus contextos rituais, simbólicos e territoriais, fundamentais para a compreensão indígena da cura. O objetivo central do artigo é analisar como alimentos utilizados em rituais de cura, passagem e religiosidade por povos indígenas são abordados na literatura científica, discutindo os limites e as possibilidades do conceito de bioatividade quando deslocado de seu contexto biocultural. Para isso, foi realizada uma Revisão Sistemática qualitativa da literatura, baseada em 20 estudos científicos e relatórios institucionais, selecionados a partir de critérios explícitos de inclusão, abrangendo áreas como etnobotânica, nutrição, saúde coletiva e estudos indígenas. Os resultados indicam que diversos alimentos e bebidas rituais apresentam comprovadas propriedades bioativas, como ação antioxidante, anti-inflamatória e moduladora da microbiota, mas que tais efeitos são indissociáveis de práticas rituais, temporalidades simbólicas e relações territoriais. Conclui-se que reduzir esses alimentos a meros “funcionais” implica empobrecimento epistemológico e riscos éticos, reforçando a necessidade de abordagens interculturais, decoloniais e comprometidas com a soberania alimentar e o patrimônio biocultural indígena.
Palavras-chave: Saberes tradicionais; Sistemas alimentares indígenas; Saúde coletiva; Patrimônio biocultural; Perspectiva decolonial.

ABSTRACT
The relationship between food, ritual, and health constitutes a central axis of Indigenous knowledge systems, in which the act of eating goes beyond nutritional function and assumes therapeutic, spiritual, and cosmological roles. However, such practices have historically been marginalized or fragmented by Western science, especially when reinterpreted solely through the lens of bioactive compounds and biomedical functionality. The research problem addressed in this study lies in the tension between the scientific recognition of the bioactive effects of traditional foods and the neglect of their ritual, symbolic, and territorial contexts, which are fundamental to Indigenous understandings of healing. The main objective of this article is to critically analyze how foods used in rituals of healing, passage, and religiosity by Indigenous peoples are addressed in the scientific literature, discussing the limits and possibilities of the concept of bioactivity when detached from its biocultural context. To this end, a qualitative Systematic Literature Review was conducted, based on 20 scientific studies and institutional reports selected through explicit inclusion criteria, encompassing fields such as ethnobotany, nutrition, public health, and Indigenous studies. The results indicate that several ritual foods and beverages exhibit proven bioactive properties, such as antioxidant, anti-inflammatory, and microbiota-modulating effects, yet these effects are inseparable from ritual practices, symbolic temporalities, and territorial relationships. It is concluded that reducing these foods to mere “functional” products entails epistemological impoverishment and ethical risks, reinforcing the need for intercultural, decolonial approaches committed to Indigenous food sovereignty and biocultural heritage.
Keywords: Traditional knowledge; Indigenous food systems; Public health; Biocultural heritage; Decolonial perspective.

1. INTRODUÇÃO

A alimentação, nos contextos indígenas, constitui um fenômeno profundamente relacional, no qual práticas nutricionais, rituais e cosmológicas se articulam de maneira indissociável. Diferentemente da abordagem ocidental dominante — que tende a tratar o alimento como insumo biológico —, povos indígenas compreendem o ato de comer como um gesto carregado de significados sociais, espirituais e territoriais. Como destacam Kuhnlein e Receveur (1996, p. 419), os sistemas alimentares indígenas são estruturados por “complexas interações entre ambiente, cultura e saúde”, não podendo ser reduzidos a padrões dietéticos isolados.

Nesse sentido, alimentos e bebidas consumidos em rituais de cura, passagem e religiosidade operam como mediadores entre corpo, coletividade e cosmos. Estudos etnográficos e nutricionais demonstram que tais práticas alimentares estão profundamente conectadas aos ciclos agrícolas, às cosmologias e às formas indígenas de produzir bem-estar coletivo (SWIDERSKA et al., 2022). Comer, portanto, não se limita à ingestão de nutrientes, mas constitui uma tecnologia simbólica e terapêutica de produção da vida.

Nas últimas décadas, a ciência da nutrição passou a reconhecer o papel dos chamados alimentos bioativos, definidos por sua capacidade de modular processos fisiológicos e reduzir riscos de doenças. Diversos estudos apontam que alimentos tradicionais indígenas apresentam elevada concentração de compostos antioxidantes, anti-inflamatórios e antimicrobianos (PASCUAL-MENDOZA et al., 2023; CORNEJAL et al., 2023). No entanto, essa incorporação científica ocorre, em grande medida, por meio de um recorte biomédico que desconsidera os contextos culturais de uso.

Ao analisar bebidas fermentadas tradicionais, Bassi et al. (2020, p. 4) observam que seus efeitos sobre a microbiota intestinal estão diretamente associados aos modos tradicionais de preparo e consumo, frequentemente ritualizados. Ainda assim, tais alimentos são frequentemente reclassificados como “funcionais” ou “nutracêuticos”, deslocando-os de seus sistemas simbólicos originais (SARKAR et al., 2019).

Apesar do crescente interesse científico, os saberes alimentares indígenas permanecem historicamente marginalizados. Relatórios institucionais e revisões críticas indicam que a ciência tende a extrair dados bioquímicos desses alimentos sem reconhecer os povos como produtores legítimos de conhecimento (FAO, 2013). Esse processo resulta em uma forma de epistemicídio, na qual práticas ancestrais são apropriadas sem consideração ética ou política.

Estudos sobre dietas indígenas demonstram que a perda desses sistemas alimentares está associada ao aumento de doenças crônicas e à deterioração da saúde coletiva (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024). Ainda assim, políticas públicas e pesquisas biomédicas continuam privilegiando modelos alimentares exógenos, reforçando desigualdades estruturais (AKINOLA, 2020).

Neste artigo, parte-se de uma problematização central: o que a ciência reconhece como “bioatividade” nem sempre corresponde ao que os povos indígenas reconhecem como “cura”. Enquanto a ciência busca isolar moléculas e efeitos fisiológicos mensuráveis, os sistemas indígenas compreendem a cura como um processo coletivo, espiritual e territorialmente situado (ONG; KIM, 2014).

Estudos sobre o uso ritual do cacau entre povos mesoamericanos ilustram essa tensão. Ford, Williams e De Vries (2022, p. 6) demonstram evidências químicas do consumo ritual do cacau, mas tais análises apenas tangenciam seu papel cosmológico, descrito como “um alimento sagrado que conecta humanos e divindades” (KUFER; GRUBE; HEINRICH, 2006, p. 430).

Diante desse cenário, a questão que orienta este estudo é: como a literatura científica tem abordado os alimentos utilizados em rituais indígenas de cura, passagem e religiosidade, e quais são os limites dessa abordagem quando dissociada de seus contextos bioculturais?

O objetivo central é analisar criticamente, por meio de uma Revisão Sistemática da literatura, como esses alimentos são descritos em termos de bioatividade, discutindo as tensões epistemológicas, éticas e políticas envolvidas.

Este artigo contribui para os campos da nutrição, saúde coletiva e etnobiologia ao propor uma leitura crítica da bioatividade alimentar, incorporando perspectivas decoloniais e interculturais. Além disso, dialoga com debates éticos sobre soberania alimentar, patrimônio biocultural e justiça socioambiental (RŸSER.; CADENA, 2019; ANDALAN et al., 2024).

Ao reconhecer que “os sistemas alimentares indígenas são, simultaneamente, sistemas de saúde” (LOPES et al., 2024, p. 3), o estudo reforça a necessidade de práticas científicas comprometidas não apenas com evidências biomédicas, mas com a preservação da vida, dos territórios e dos saberes indígenas.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Alimentos Bioativos: Limites do Conceito Biomédico

O conceito de alimentos bioativos emerge no interior da ciência da nutrição a partir do final do século XX, em estreita relação com o avanço das pesquisas sobre compostos não nutrientes e sua atuação fisiológica específica. Inicialmente, a noção de bioatividade esteve vinculada à identificação de substâncias capazes de modular funções metabólicas, inflamatórias e imunológicas, contribuindo para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (SARKAR et al., 2019).

Nesse contexto, alimentos passaram a ser valorizados não apenas por seu conteúdo energético ou de macronutrientes, mas por sua capacidade de produzir efeitos mensuráveis no organismo. Essa inflexão, embora relevante para a medicina preventiva, consolidou um paradigma fortemente centrado na mensuração bioquímica e na comprovação experimental controlada (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996). Como apontam os autores, a nutrição moderna passou a operar com uma lógica que privilegia a fragmentação do alimento em componentes isoláveis, deslocando-o de seus sistemas culturais de origem.

A consolidação do paradigma bioativo implicou, progressivamente, um processo de redução do alimento a seus constituintes moleculares, frequentemente analisados fora de seus modos tradicionais de preparo, consumo e significado. Estudos recentes sobre plantas alimentares tradicionais e bebidas fermentadas demonstram que seus efeitos biológicos estão profundamente associados aos contextos culturais de uso (BASSI et al., 2020; PASCUAL-MENDOZA et al., 2023).

Bassi et al. (2020, p. 6), ao analisarem bebidas fermentadas tradicionais, afirmam que “the health-related effects cannot be dissociated from traditional preparation methods and cultural practices”, evidenciando que a bioatividade não é apenas uma propriedade intrínseca da substância, mas um fenômeno relacional. No entanto, grande parte da literatura nutricional continua a extrair dados bioquímicos desses alimentos, reclassificando-os como insumos funcionais descontextualizados.

Essa lógica é particularmente problemática quando aplicada a alimentos indígenas, pois ignora os sistemas simbólicos, territoriais e rituais que estruturam seu uso (SWIDERSKA et al., 2022). A bioatividade, nesse sentido, torna-se uma categoria analítica limitada, incapaz de captar a complexidade dos processos de cura tal como concebidos por esses povos.

A noção de “alimento funcional”, amplamente difundida na literatura biomédica e no mercado de saúde, pressupõe que determinados alimentos possam ser consumidos com finalidades terapêuticas específicas, de forma padronizada e individualizada. Quando aplicada a contextos indígenas, essa categoria revela importantes limitações epistemológicas e éticas.

Estudos etnobotânicos indicam que alimentos utilizados em rituais indígenas não são consumidos de forma cotidiana ou instrumental, mas inseridos em temporalidades específicas, frequentemente associadas a ciclos de vida, eventos comunitários e práticas espirituais (ONG; KIM, 2014). Reduzi-los à categoria de “funcionais” implica ignorar sua dimensão ritual e coletiva, além de favorecer processos de apropriação biotecnológica (RŸSER.; CADENA, 2019).

Como alertam Lopes et al. (2024, p. 5), políticas e intervenções que incorporam alimentos nativos sem considerar seus contextos culturais “risk transforming traditional foods into decontextualized health products”, reforçando assimetrias de poder entre ciência, mercado e povos indígenas.

2.2. Sistemas Alimentares Indígenas Como Sistemas de Saúde

Diversos estudos convergem ao reconhecer que os sistemas alimentares indígenas constituem, simultaneamente, sistemas de saúde coletiva, estruturados a partir da relação entre território, biodiversidade e organização social (FAO, 2013; MCCARTAN et al., 2020). Nesses sistemas, a saúde não é concebida como ausência de doença, mas como equilíbrio entre corpo, ambiente e coletividade.

Pesquisas realizadas em populações indígenas brasileiras demonstram que a substituição de alimentos tradicionais por dietas industrializadas está associada ao aumento de doenças metabólicas e inflamatórias (RODRIGUES et al., 2024). Esses achados reforçam a centralidade da alimentação tradicional como estratégia de promoção da saúde, não apenas do ponto de vista nutricional, mas também territorial e cultural (AKINOLA, 2020).

Nos contextos indígenas, alimentos, plantas e bebidas rituais operam como tecnologias tradicionais de cuidado, articulando propriedades fisiológicas, práticas simbólicas e relações sociais. Estudos sobre o uso ritual do cacau entre povos mesoamericanos evidenciam que seu consumo está associado a estados de fortalecimento físico, espiritual e social (FORD; WILLIAMS; DE VRIES, 2022).

Kufer, Grube e Heinrich (2006, p. 429) descrevem o cacau como “a sacred tree with healing and social significance”, indicando que sua eficácia não pode ser compreendida apenas por seus compostos antioxidantes, mas por seu papel na coesão comunitária e na cosmologia indígena. De modo semelhante, pesquisas sobre plantas alimentares tradicionais demonstram que seus efeitos terapêuticos emergem da combinação entre ingestão, ritualização e transmissão intergeracional do saber (PILNIK et al., 2023).

Um dos elementos centrais dos sistemas alimentares indígenas é a indissociabilidade entre alimento, medicina e espiritualidade. Diferentemente da separação moderna entre nutrição e terapêutica, povos indígenas compreendem a cura como um processo integral, no qual comer, rezar, compartilhar e respeitar o território constituem dimensões inseparáveis (ANDALAN et al., 2024).

Essa compreensão é reiterada por estudos etnográficos que demonstram que a eficácia dos alimentos rituais está vinculada à intenção, ao contexto e à coletividade envolvida no ato alimentar (ONG; KIM, 2014). Assim, como afirmado no relatório da FAO (2013, p. 12), “food systems are not only sources of nutrition, but foundations of identity, health and spirituality”.

2.3. Rituais de Cura, Passagem e Religiosidade

Nos contextos indígenas, a ingestão alimentar em rituais de cura, passagem e religiosidade não pode ser compreendida como um ato meramente fisiológico. Comer, nesses eventos, é um gesto performativo que ativa relações entre humanos, não humanos, ancestrais e territórios. Estudos etnográficos indicam que determinados alimentos e bebidas são ingeridos em momentos específicos para “reordenar o corpo e o mundo”, restaurando equilíbrios rompidos (ONG; KIM, 2014).

A literatura nutricional que aborda bebidas fermentadas tradicionais evidencia que seus efeitos fisiológicos — como a modulação da microbiota e a biodisponibilidade de compostos bioativos — estão associados a práticas rituais coletivas e não ao consumo individualizado (BASSI et al., 2020). Nesses contextos, a eficácia do alimento não se esgota em sua composição química, mas depende do ritual que orienta sua ingestão.

Como observam Kufer, Grube e Heinrich (2006, p. 428), ao analisar o uso ritual do cacau, “food consumption is embedded in ceremonial practices that confer meaning and healing power”, indicando que a ingestão ritualizada constitui parte essencial do processo terapêutico.

A alimentação ritual opera como uma mediação simbólica entre corpo, espírito e comunidade, articulando dimensões fisiológicas e cosmológicas. Em rituais de passagem — como nascimento, puberdade ou morte —, determinados alimentos são consumidos para marcar transformações corporais e sociais, reafirmando pertencimentos e vínculos coletivos (FORD; WILLIAMS; DE VRIES, 2022).

Estudos sobre sistemas alimentares indígenas demonstram que a saúde é concebida como um fenômeno relacional, no qual o corpo individual só pode ser compreendido em conexão com o coletivo e o território (FAO, 2013). Nesse sentido, a ingestão alimentar ritualizada contribui para a coesão social e para a produção de bem-estar comunitário, dimensões frequentemente ignoradas pela medicina ocidental.

Pilnik et al. (2023, p. 6), ao estudar práticas alimentares do povo Huni Kuĩ, destacam que “food is medicine when shared, prepared and consumed according to ancestral teachings”, reforçando a inseparabilidade entre alimentação, cuidado e espiritualidade.

Um dos principais conflitos epistemológicos entre os sistemas indígenas e a biomedicina reside na temporalidade do consumo alimentar. Enquanto a lógica biomédica pressupõe ingestão regular, dose-resposta e padronização, os rituais indígenas operam com temporalidades simbólicas, cíclicas e situadas.

Alimentos ritualísticos não são consumidos diariamente nem com finalidades preventivas no sentido biomédico. Sua eficácia está associada ao momento, à intenção e ao contexto social do ritual (ONG; KIM, 2014). Como apontam Sarkar et al. (2019), a tentativa de transpor alimentos tradicionais para modelos funcionais ignora essas temporalidades, comprometendo tanto a validade científica quanto o respeito cultural.

Essa incompatibilidade reforça os limites da transposição direta de categorias biomédicas para contextos indígenas, exigindo abordagens metodológicas sensíveis às temporalidades rituais.

2.4. Perspectiva Decolonial e Biocultural

A marginalização dos sistemas alimentares indígenas no campo científico pode ser compreendida como uma forma de epistemicídio alimentar, na qual saberes ancestrais são deslegitimados, invisibilizados ou fragmentados. Kuhnlein e Receveur (1996) já alertavam que a substituição de dietas tradicionais por modelos exógenos implicava não apenas perdas nutricionais, mas também perdas de conhecimento.

Relatórios institucionais indicam que a ciência moderna frequentemente extrai informações sobre alimentos indígenas sem reconhecer seus sistemas de conhecimento como válidos em si mesmos (FAO, 2013). Esse processo se expressa na valorização dos compostos bioativos isolados em detrimento das cosmologias que orientam seu uso.

Rÿser. e Cadena (2019, p. 14) afirmam que “the erosion of traditional food systems represents a loss of scientific knowledge, not merely cultural heritage”, evidenciando que o epistemicídio alimentar é também um empobrecimento científico.

A crescente valorização científica e mercadológica de alimentos bioativos tem intensificado processos de apropriação biotecnológica de saberes indígenas. Plantas e alimentos tradicionalmente utilizados em rituais passam a ser reclassificados como insumos funcionais, frequentemente patenteados ou explorados comercialmente sem repartição justa de benefícios (ANDALAN et al., 2024).

Esse processo configura o que pode ser denominado biopirataria simbólica, na qual o conhecimento é apropriado ao mesmo tempo em que os povos que o produzem permanecem marginalizados. Lopes et al. (2024) alertam que intervenções em saúde baseadas em alimentos nativos, quando descontextualizadas, “risk reinforcing extractivist research practices” (p. 7).

A dissociação entre bioatividade e território representa um dos principais riscos éticos e científicos da abordagem funcionalista. Estudos demonstram que a composição nutricional e bioativa de alimentos tradicionais está diretamente relacionada às condições ecológicas e aos modos de manejo do território (AKINOLA, 2020; SWIDERSKA et al., 2022).

Ao deslocar esses alimentos de seus territórios de origem, a ciência corre o risco de produzir conhecimentos incompletos ou distorcidos, além de contribuir para a erosão da soberania alimentar indígena. Como sintetiza Rodrigues et al. (2024, p. 9), “health outcomes cannot be separated from territorial integrity and cultural continuity”.

Assim, reconhecer a bioatividade sem reconhecer o território implica não apenas um erro analítico, mas uma falha ética, reforçando a necessidade de abordagens bioculturais e decoloniais comprometidas com justiça científica e socioambiental.

3. METODOLOGIA

3.1. Tipo de Estudo

Este estudo consiste em uma Revisão Sistemática Qualitativa da literatura interdisciplinar, com enfoque crítico e interpretativo. Optou-se por esse delineamento metodológico por sua adequação à análise de fenômenos complexos, nos quais evidências biomédicas, nutricionais, etnobotânicas e socioculturais se entrelaçam. Diferentemente de revisões sistemáticas quantitativas ou meta-análises, o objetivo central não foi mensurar efeitos isolados, mas compreender como os alimentos utilizados em rituais indígenas de cura, passagem e religiosidade são conceituados, analisados e interpretados pela literatura científica (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996).

A revisão foi conduzida de forma PRISMA-inspired, assegurando transparência nos critérios de busca, seleção e análise, sem reduzir a complexidade dos estudos incluídos a indicadores estatísticos inadequados ao campo investigado (SWIDERSKA et al., 2022).

3.2. Estratégia de Busca

A busca bibliográfica foi realizada nas seguintes bases e repositórios, selecionados por sua relevância para as áreas da saúde, nutrição, etnobotânica e estudos indígenas:

  • PubMed (ciências médicas e nutricionais);

  • Scopus (literatura interdisciplinar de alto impacto);

  • SciELO (produção científica latino-americana);

  • MDPI e SpringerLink (acesso a periódicos especializados);

  • FAO (relatórios técnicos e institucionais sobre sistemas alimentares indígenas).

A diversidade das bases visou minimizar vieses disciplinares e ampliar a cobertura geográfica e epistemológica da revisão (FAO, 2013).

Foram utilizados descritores em português e inglês, combinados por operadores booleanos, incluindo:

  • Indigenous peoples OR Indigenous communities

  • Traditional foods OR Ritual foods OR Fermented beverages

  • Bioactive compounds OR Nutrition OR Health

  • Ritual OR Healing OR Spirituality

As combinações priorizaram a interseção entre alimentação, ritualidade e saúde, evitando buscas excessivamente amplas ou estritamente biomédicas (SARKAR et al., 2019). Foram incluídos estudos publicados entre 1996 e 2026, período que abrange desde as primeiras revisões críticas sobre sistemas alimentares indígenas até pesquisas recentes sobre bioatividade e saúde coletiva. Os idiomas considerados foram português, inglês e espanhol, contemplando a produção científica relevante para contextos indígenas das Américas e outras regiões.

3.3. Critérios de Inclusão e Exclusão

Foram incluídos na revisão estudos que atenderam simultaneamente aos seguintes critérios:

  • Investigação envolvendo povos indígenas ou comunidades tradicionais reconhecidas;

  • Análise de alimentos, bebidas ou plantas utilizados em contextos rituais, terapêuticos e/ou religiosos;

  • Apresentação de evidências bioativas, nutricionais, microbiológicas ou simbólicas, articuladas ao contexto cultural de uso.

Esse recorte permitiu integrar estudos biomédicos e nutricionais com abordagens etnográficas e socioculturais (ONG; KIM, 2014; BASSI et al., 2020).

Foram excluídos:

  • Estudos exclusivamente farmacológicos, focados no isolamento de moléculas sem contextualização cultural;

  • Pesquisas que abordavam alimentos indígenas apenas como recursos naturais, sem reconhecimento dos saberes, práticas e sistemas de conhecimento associados.

  • Essa exclusão buscou evitar leituras extrativistas ou reducionistas da bioatividade alimentar (RŸSER.; CADENA, 2019).

3.4. Processo de Análise

Os estudos selecionados passaram por três etapas sucessivas de leitura:

  1. exploratória, para identificação do escopo e relevância;

  2. analítica, com extração de informações centrais;

  3. interpretativa, orientada por categorias teórico-críticas previamente definidas.

A análise temática permitiu identificar padrões recorrentes relacionados a:

  1. tipos de alimentos e bebidas;

  2. contextos rituais de uso;

  3. evidências bioativas;

  4. implicações para saúde coletiva e espiritualidade.

As categorias foram construídas de forma indutiva, respeitando a diversidade epistemológica dos estudos (LOPES et al., 2024).

Os dados extraídos foram organizados em uma matriz de síntese crítica, contemplando autor, ano, população estudada, tipo de alimento, contexto ritual, evidências bioativas e principais contribuições analíticas. Essa matriz fundamentou a apresentação dos resultados e a elaboração das tabelas analíticas discutidas nas seções seguintes.

3.5. Limitações Metodológicas

A diversidade metodológica dos estudos incluídos, variando de análises laboratoriais a etnografias, limita comparações diretas e generalizações. Contudo, essa heterogeneidade é inerente à abordagem interdisciplinar adotada (AKINOLA, 2020).

Observou-se sub-representação de povos indígenas de determinadas regiões, bem como a predominância de estudos conduzidos sob paradigmas ocidentais. A escassez de pesquisas com coautoria indígena constitui uma limitação relevante e aponta para a necessidade de metodologias mais participativas (SWIDERSKA et al., 2022).

4. RESULTADOS

A análise sistemática dos 20 estudos permitiu identificar padrões consistentes quanto aos tipos de alimentos utilizados em contextos rituais indígenas, aos compostos bioativos recorrentes e às formas pelas quais esses elementos se articulam a práticas de cura, passagem e religiosidade. Os resultados são apresentados a seguir de forma categorial.

4.1. Tipos de Alimentos Bioativos Identificados

A literatura analisada evidencia que os alimentos utilizados em rituais indígenas não constituem um grupo homogêneo, mas podem ser organizados em três grandes categorias, conforme sua natureza, modo de preparo e densidade simbólica.

Os estudos indicam ampla presença de plantas alimentícias tradicionais, incluindo quelites, folhas, frutos e sementes, utilizadas tanto na alimentação cotidiana quanto em contextos rituais específicos. Pascual-Mendoza et al. (2023) demonstram que essas plantas apresentam elevado teor de micronutrientes e compostos bioativos, associados a práticas alimentares culturalmente situadas.

Em comunidades indígenas estudadas por Pilnik et al. (2023), essas plantas são compreendidas como elementos de fortalecimento corporal e espiritual, sendo consumidas conforme regras transmitidas intergeracionalmente. Segundo os autores, “the medicinal value of food plants lies in their preparation and social meaning” (PILNIK et al., 2023, p. 8). Resultados semelhantes são observados em estudos africanos e latino-americanos que associam diversidade vegetal tradicional à saúde coletiva (AKINOLA, 2020; SARKAR et al., 2019).

As bebidas fermentadas ocupam lugar central nos rituais de passagem e celebrações coletivas. Bassi et al. (2020) analisam a chicha peruana, destacando sua complexa microbiota e seu papel ritual. Os autores afirmam que “fermentation is not only a biochemical process, but a cultural practice” (BASSI et al., 2020, p. 5).

Além do aporte nutricional, essas bebidas atuam como mediadoras sociais e espirituais, sendo consumidas em contextos cerimoniais específicos (FAO, 2013). A ingestão ritualizada, coletiva e temporalmente situada diferencia essas bebidas de produtos fermentados industrializados, reforçando seu caráter biocultural (MCCARTAN et al., 2020).

Alguns alimentos apresentam alta densidade simbólica, sendo associados diretamente à cosmologia e à espiritualidade indígena. O cacau, por exemplo, é descrito como alimento sagrado em diversos estudos mesoamericanos (KUFER; GRUBE; HEINRICH, 2006; FORD; WILLIAMS; DE VRIES, 2022).

Kufer, Grube e Heinrich (2006, p. 430) descrevem o cacau como “a sacred tree with healing, social and ritual significance”, enquanto análises arqueoquímicas confirmam seu uso cerimonial desde períodos clássicos (FORD; WILLIAMS; DE VRIES, 2022). De forma semelhante, milho e tubérculos aparecem associados a rituais de fertilidade, transição e proteção coletiva (SWIDERSKA et al., 2022).

Tabela 1 – Tipos de alimentos bioativos utilizados em rituais indígenas, contextos de uso e evidências reportadas

Categoria

Exemplos de alimentos

Contexto ritual

Evidências reportadas

Plantas alimentícias

Quelites, folhas, frutos

Cura, fortalecimento

Antioxidantes, micronutrientes

Bebidas fermentadas

Chicha

Passagem, celebração

Microbiota, biodisponibilidade

Alimentos simbólicos

Cacau, milho, tubérculos

Religiosidade, cosmologia

Polifenóis, coesão social

Fonte: Elaboração própria com base em Pascual-Mendoza et al. (2023); Bassi et al. (2020); Kufer, Grube e Heinrich (2006); FAO (2013).

A Tabela 1 evidencia que os alimentos rituais combinam propriedades bioativas mensuráveis com funções simbólicas e sociais, reforçando que sua eficácia terapêutica não pode ser dissociada do contexto cultural de uso.

4.2. Compostos Bioativos Mais Recorrentes

A revisão sistemática permitiu identificar três grandes grupos de compostos bioativos recorrentes nos alimentos rituais analisados, frequentemente associados a efeitos positivos sobre a saúde física e coletiva.

Diversos estudos apontam elevada concentração de polifenóis e flavonoides em alimentos ritualísticos, especialmente em plantas alimentícias e no cacau. Cornejal et al. (2023) demonstram atividade antioxidante significativa em amostras tradicionais de cacau, associando esses compostos à redução de processos inflamatórios.

Pascual-Mendoza et al. (2023) reforçam que tais compostos estão diretamente ligados às práticas tradicionais de preparo, afirmando que “traditional culinary methods influence the bioavailability of antioxidants” (p. 74). Esses achados dialogam com revisões nutricionais mais amplas sobre diversidade alimentar indígena (SARKAR et al., 2019).

Estudos etnobotânicos e laboratoriais identificam compostos com ação antimicrobiana e anti-inflamatória em plantas e alimentos utilizados em rituais de cura (ONG; KIM, 2014). Cornejal et al. (2023) apontam que tais propriedades reforçam o uso tradicional desses alimentos em contextos de restabelecimento do equilíbrio corporal.

No entanto, a literatura ressalta que esses efeitos não devem ser interpretados como substitutos diretos de medicamentos, mas como parte de sistemas integrados de cuidado (LOPES et al., 2024).

A fermentação tradicional emerge como um eixo central de bioatividade, especialmente pela modulação da microbiota intestinal. Bassi et al. (2020) demonstram que bebidas fermentadas indígenas apresentam comunidades microbianas diversificadas, associadas a efeitos metabólicos positivos.

Esses resultados são corroborados por análises sobre dietas indígenas e saúde coletiva, que indicam associação entre consumo tradicional fermentado e menor prevalência de doenças crônicas (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024; BERSAMIN et al., 2019).

Tabela 2 – Principais grupos de compostos bioativos identificados e efeitos associados

Grupo de compostos

Fontes alimentares

Efeitos associados

Polifenóis

Cacau, plantas folhosas

Antioxidante

Flavonoides

Quelites, frutos

Anti-inflamatório

Microrganismos

Bebidas fermentadas

Modulação da microbiota

Fonte: Elaboração própria com base em Cornejal et al. (2023); Bassi et al. (2020); Pascual-Mendoza et al. (2023).

A Tabela 2 evidencia que a bioatividade alimentar, nos contextos indígenas, resulta da interação entre composição química, práticas de preparo e consumo ritualizado, reforçando a inadequação de análises exclusivamente laboratoriais.

De forma geral, os resultados indicam que os alimentos utilizados em rituais indígenas apresentam propriedades bioativas relevantes, mas que sua eficácia está profundamente vinculada a contextos rituais, temporais e territoriais, corroborando análises críticas sobre sistemas alimentares indígenas como sistemas integrados de saúde (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996; FAO, 2013; RŸSER.; CADENA, 2019).

4.3. Contextos Rituais de Uso

A revisão sistemática evidencia que os alimentos bioativos analisados são mobilizados em contextos rituais específicos, nos quais a ingestão alimentar está diretamente associada a processos de cura, transição social e manutenção da ordem cosmológica. Esses contextos estruturam a forma, o momento e o significado do consumo.

Nos rituais de cura, alimentos e bebidas são utilizados como parte de processos voltados ao restabelecimento do equilíbrio físico, espiritual e social. Estudos etnobotânicos demonstram que plantas alimentícias e bebidas fermentadas são ingeridas em associação com rezas, cantos e práticas corporais, compondo sistemas integrados de cuidado (ONG; KIM, 2014).

Bassi et al. (2020) observam que, no caso das bebidas fermentadas, seus efeitos fisiológicos são potencializados pelo contexto ritual, afirmando que “health-related outcomes emerge from collective and ceremonial consumption” (p. 7). De forma convergente, estudos sobre o uso ritual do cacau indicam que sua ingestão está associada a práticas de fortalecimento corporal e espiritual, sobretudo em situações de adoecimento ou fragilidade (KUFER; GRUBE; HEINRICH, 2006).

Esses achados reforçam que a cura, nesses contextos, não é concebida como intervenção pontual, mas como processo relacional e simbólico (FAO, 2013).

Os rituais de passagem constituem outro contexto central de uso dos alimentos bioativos. A literatura indica que determinados alimentos são consumidos para marcar transições corporais e sociais, como nascimento, puberdade, casamento e morte (FORD; WILLIAMS; DE VRIES, 2022).

Nesses eventos, a ingestão alimentar cumpre função de proteção, fortalecimento e integração do indivíduo ao coletivo. Ford, Williams e De Vries (2022, p. 9) destacam que o consumo ritual de alimentos simbólicos “served to reaffirm social bonds and cosmological order”, indo além de qualquer finalidade nutricional isolada.

Pilnik et al. (2023) descrevem que, entre povos amazônicos, o consumo ritual de plantas alimentícias específicas durante a puberdade simboliza a passagem para novas responsabilidades sociais, reforçando a dimensão educativa e terapêutica da alimentação ritual. As festividades religiosas e os ciclos agrícolas representam contextos nos quais alimentação, território e espiritualidade se articulam de forma explícita. Diversos estudos relatam o uso ritual de alimentos durante colheitas, celebrações sazonais e cerimônias coletivas, associando-os à gratidão, à fertilidade e à continuidade da vida (SWIDERSKA et al., 2022).

Relatórios da FAO (2013) indicam que essas práticas reforçam a segurança alimentar e a saúde coletiva, ao mesmo tempo em que mantêm a transmissão intergeracional de saberes. Como sintetiza Rÿser e Cadena (2019, p. 18), “ritual food practices sustain both bodies and cultures”, evidenciando seu papel estruturante nos sistemas alimentares indígenas.

Tabela 3 – Contextos rituais de uso dos alimentos e dimensões de saúde associadas

Contexto ritual

Tipo de alimento

Dimensões de saúde associadas

Rituais de cura

Plantas, bebidas fermentadas

Física, espiritual

Rituais de passagem

Alimentos simbólicos

Emocional, social

Festividades agrícolas

Alimentos tradicionais

Comunitária, territorial

Fonte: Elaboração própria com base em Kufer, Grube e Heinrich (2006); Bassi et al. (2020); FAO (2013); Ford, Williams e De Vries (2022).

A Tabela 3 demonstra que os contextos rituais estruturam não apenas o tipo de alimento consumido, mas também as dimensões de saúde mobilizadas, reforçando a natureza sistêmica dos cuidados alimentares indígenas.

4.4. Dimensões de Saúde Associadas

A literatura analisada aponta que os efeitos dos alimentos bioativos utilizados em rituais indígenas se manifestam em múltiplas dimensões de saúde, que não se restringem ao plano fisiológico.

No plano físico, os estudos relatam associações entre consumo de alimentos tradicionais e melhora de indicadores metabólicos, inflamatórios e imunológicos. Revisões nutricionais indicam que dietas indígenas diversificadas estão relacionadas à menor incidência de doenças crônicas (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024).

Cornejal et al. (2023) destacam que compostos antioxidantes e anti-inflamatórios presentes em alimentos rituais contribuem para a proteção celular, corroborando evidências biomédicas sem, contudo, esgotar o significado terapêutico desses alimentos.

A dimensão espiritual e emocional emerge de forma recorrente nos estudos analisados. A ingestão ritualizada de alimentos é descrita como promotora de bem-estar emocional, pertencimento e fortalecimento identitário (ONG; KIM, 2014).

Segundo Kufer, Grube e Heinrich (2006, p. 431), o consumo ritual de alimentos sagrados “creates emotional and spiritual balance”, reforçando que a saúde, nesses contextos, é inseparável da cosmologia e da espiritualidade indígena.

Os resultados também evidenciam que a saúde comunitária e territorial constitui dimensão central dos sistemas alimentares indígenas. A partilha ritual dos alimentos fortalece vínculos sociais, regula o acesso aos recursos naturais e contribui para a soberania alimentar (AKINOLA, 2020; SWIDERSKA et al., 2022).

Estudos sobre intervenções baseadas em alimentos nativos indicam que práticas alimentares tradicionais fortalecem não apenas indivíduos, mas comunidades inteiras, promovendo resiliência social e ecológica (LOPES et al., 2024). Como afirma a FAO (2013, p. 15), “healthy food systems are inseparable from healthy territories”.

Os alimentos bioativos utilizados em rituais indígenas operam simultaneamente em múltiplos contextos rituais e diversas dimensões de saúde, confirmando que sua eficácia não pode ser compreendida fora de seus sistemas bioculturais (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996; RŸSER.; CADENA, 2019).

5. DISCUSSÃO

Os resultados encontrados na pesquisa evidenciam que, embora partam de pressupostos distintos, a ciência nutricional e os sistemas indígenas de conhecimento apresentam pontos de convergência relevantes no reconhecimento dos efeitos terapêuticos dos alimentos. A principal convergência reside no reconhecimento de que determinados alimentos exercem influência concreta sobre processos fisiológicos, inflamatórios, metabólicos e imunológicos, ainda que sejam interpretados de maneiras distintas.

Do ponto de vista biomédico, os estudos analisados demonstram que diversos alimentos utilizados em rituais indígenas apresentam propriedades bioativas mensuráveis, como ação antioxidante, antimicrobiana e moduladora da microbiota (CORNEJAL et al., 2023; BASSI et al., 2020). Essas evidências reforçam a legitimidade científica de práticas alimentares tradicionalmente associadas à cura e ao fortalecimento do corpo.

Revisões nutricionais indicam que dietas indígenas baseadas em alimentos tradicionais estão associadas a melhores indicadores de saúde física e menor prevalência de doenças crônicas (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024). Nesse sentido, há uma convergência clara entre os resultados empíricos da ciência e o reconhecimento indígena da eficácia desses alimentos.

Como destacam Pascual-Mendoza et al. (2023, p. 76), “traditional foods combine nutritional density and bioactive compounds”, aproximando-se das atuais recomendações da nutrição preventiva, ainda que por caminhos epistemológicos distintos.

Apesar dessas convergências, a validação biomédica apresenta limites significativos. A ciência tende a reconhecer apenas os efeitos fisiológicos isoláveis, ignorando que, nos sistemas indígenas, a cura não é concebida como resposta bioquímica, mas como processo relacional e simbólico (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996).

Ao isolar compostos e descontextualizar práticas, a validação biomédica corre o risco de reduzir a complexidade dos sistemas alimentares indígenas, transformando saberes integrados em dados fragmentados (SARKAR et al., 2019). Essa limitação não invalida a ciência, mas evidencia sua parcialidade quando aplicada a contextos bioculturais complexos (FAO, 2013).

5.1. Tensões Epistemológicas

A análise dos resultados revela que as principais tensões não se situam na eficácia dos alimentos, mas nas formas de conhecer, validar e interpretar a cura. Essas tensões atravessam todo o diálogo entre ciência ocidental e saberes indígenas.

A ciência nutricional mede concentrações de compostos, respostas inflamatórias e alterações metabólicas. Já os rituais produzem pertencimento, equilíbrio simbólico e coesão social. Essas dimensões não são equivalentes, mas tampouco excludentes (ANWAR et al., 2024).

Estudos etnográficos demonstram que a ingestão ritualizada de alimentos produz efeitos que extrapolam o corpo individual, afetando o campo emocional, espiritual e comunitário (ONG; KIM, 2014). Kufer, Grube e Heinrich (2006, p. 432) observam que “healing emerges from the ceremonial context, not from the substance alone”, evidenciando um ponto cego recorrente da ciência biomédica.

Nos sistemas indígenas, a cura é um processo coletivo, no qual alimento, palavra, território e espiritualidade operam de forma integrada. Os resultados mostram que rituais alimentares reforçam vínculos sociais e restauram equilíbrios comunitários, dimensões centrais da saúde indígena (SWIDERSKA et al., 2022).

Intervenções baseadas em alimentos nativos indicam que os benefícios mais duradouros emergem quando práticas alimentares são mantidas em seus contextos culturais e comunitários (LOPES et al., 2024). Essa perspectiva contrasta com a lógica biomédica individualizante, evidenciando uma tensão estrutural entre os modelos de cuidado.

Um dos riscos mais críticos identificados é a nutraceuticalização dos saberes indígenas — processo pelo qual alimentos rituais são reclassificados como produtos funcionais, desconectados de seus territórios, cosmologias e coletividades. Esse fenômeno é amplamente denunciado por estudos críticos e relatórios institucionais (RŸSER.; CADENA, 2019; ANDALAN et al., 2024).

Ao transformar alimentos sagrados em insumos funcionais, a ciência e o mercado reproduzem lógicas extrativistas, apropriando-se do conhecimento sem reconhecer sua origem coletiva. Lopes et al. (2024, p. 8) alertam que esse processo “undermines food sovereignty and ethical research practices”.

A discussão reforça que reconhecer a bioatividade sem reconhecer o território, o ritual e a autoria indígena constitui não apenas uma limitação epistemológica, mas um risco ético e político, comprometendo a justiça científica e a saúde coletiva (AKINOLA, 2020; FAO, 2013).

A discussão evidencia que quando comer é curar, não se trata de metáfora, mas de uma lógica ontológica distinta. A ciência pode dialogar com os saberes indígenas, desde que reconheça seus próprios limites e abandone pretensões universalizantes. A bioatividade, quando reinserida em contextos rituais e territoriais, deixa de ser apenas um dado químico e passa a ser compreendida como fenômeno biocultural complexo (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996; SWIDERSKA et al., 2022).

5.2. Implicações Éticas

A análise dos resultados evidencia que a investigação científica sobre alimentos bioativos utilizados em rituais indígenas não é apenas uma questão metodológica ou conceitual, mas profundamente ética. As formas pelas quais esses alimentos são estudados, nomeados e apropriados revelam assimetrias históricas de poder entre ciência, mercado e povos indígenas.

Grande parte dos estudos analisados reconhece, ainda que implicitamente, que os alimentos investigados derivam de saberes coletivos transmitidos intergeracionalmente. No entanto, poucos abordam de maneira explícita questões de consentimento informado, autoria indígena ou repartição justa de benefícios (FAO, 2013; ANDALAN et al., 2024).

Rÿser e Cadena (2019, p. 16) alertam que a apropriação científica de alimentos tradicionais sem reconhecimento de seus detentores constitui uma forma contemporânea de colonialismo epistêmico. Mesmo estudos bem-intencionados podem reforçar esse processo quando tratam os povos indígenas apenas como “fontes de dados”, e não como sujeitos produtores de conhecimento (KUHNLEIN; RECEVEUR, 1996).

Os resultados reforçam a distinção entre uma ciência extrativista, orientada pela coleta de informações e isolamento de compostos, e uma ciência relacional, baseada no diálogo, na reciprocidade e no reconhecimento dos sistemas de conhecimento indígenas. Estudos sobre bioatividade alimentar demonstram que a eficácia dos alimentos está profundamente ligada a práticas sociais e territoriais, o que desafia abordagens extrativistas (SWIDERSKA et al., 2022).

Lopes et al. (2024, p. 9) destacam que intervenções em saúde baseadas em alimentos nativos só são eticamente sustentáveis quando “co-designed with Indigenous communities”, evidenciando a necessidade de reposicionar a ciência como prática relacional e não apenas instrumental.

Os alimentos rituais analisados constituem parte do patrimônio biocultural dos povos indígenas, integrando biodiversidade, território, espiritualidade e organização social. A dissociação entre bioatividade e território, como evidenciado nos resultados, compromete não apenas a validade científica, mas também a soberania alimentar desses povos (AKINOLA, 2020).

Estudos sobre sistemas alimentares indígenas indicam que a erosão dessas práticas alimentares está associada à perda de autonomia, aumento de insegurança alimentar e adoecimento coletivo (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024). Assim, reconhecer os alimentos rituais como patrimônio biocultural implica protegê-los de processos de mercantilização e descontextualização.

5.3. Contribuições para Políticas Públicas e Saúde Coletiva

Os achados deste estudo possuem implicações diretas para o campo da saúde coletiva e para a formulação de políticas públicas voltadas a populações indígenas e comunidades tradicionais.

A literatura analisada demonstra que dietas baseadas em alimentos tradicionais estão associadas a melhores desfechos de saúde física e metabólica, além de impactos positivos sobre o bem-estar emocional e comunitário (MCCARTAN et al., 2020; RODRIGUES et al., 2024). Esses resultados reforçam a necessidade de reconhecer a alimentação tradicional como estratégia legítima de promoção da saúde.

Como afirmam Sarkar et al. (2019), a diversidade alimentar indígena oferece lições relevantes para a prevenção de doenças crônicas, desde que não seja reduzida a modelos dietéticos descontextualizados.

Os resultados indicam que a incorporação de alimentos tradicionais em políticas de saúde exige abordagens interculturais sensíveis às cosmologias indígenas. Experiências analisadas por Lopes et al. (2024) mostram que programas baseados em alimentos nativos têm maior impacto quando articulados aos saberes locais, evitando imposições externas.

Relatórios da FAO (2013) destacam que sistemas públicos de saúde podem se beneficiar do diálogo com práticas alimentares tradicionais, desde que respeitem a autonomia e os sistemas de cura indígenas.

O reconhecimento institucional dos saberes alimentares indígenas permanece limitado. A maioria dos estudos aponta que tais saberes são incorporados de forma marginal ou instrumentalizada, sem reconhecimento pleno de sua legitimidade epistemológica (RŸSER.; CADENA, 2019).

Avançar nesse reconhecimento implica rever currículos de formação em saúde, diretrizes nutricionais e marcos regulatórios, incorporando perspectivas indígenas como parte constitutiva da saúde coletiva (SWIDERSKA et al., 2022).

5.4. Lacunas do Conhecimento e Agenda de Pesquisa

A pesquisa evidenciou forte concentração de estudos em determinadas regiões e povos, com sub-representação de biomas e contextos indígenas diversos. Essa lacuna limita a compreensão da diversidade dos sistemas alimentares indígenas (AKINOLA, 2020). A maioria dos estudos analisados adota recortes temporais curtos, dificultando a avaliação de impactos de longo prazo das práticas alimentares tradicionais sobre a saúde. Kuhnlein e Receveur (1996) já apontavam a necessidade de estudos longitudinalmente situados e culturalmente sensíveis.

Os resultados indicam a predominância de metodologias ocidentais, com limitada incorporação de epistemologias indígenas. Desenvolver metodologias interculturais é fundamental para compreender a bioatividade como fenômeno biocultural e não apenas bioquímico (SWIDERSKA et al., 2022).

A agenda de pesquisa aponta para a urgência de ampliar estudos baseados em pesquisa participativa e coautoria indígena. Como destacam Andalan et al. (2024), apenas a participação ativa dos povos indígenas pode garantir ética, validade científica e justiça epistêmica.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo demonstrou que, nos contextos indígenas analisados, o ato de comer não pode ser reduzido a uma operação fisiológica ou nutricional. Comer é, antes de tudo, um gesto relacional que articula corpo, coletividade, território e cosmos. Os alimentos utilizados em rituais de cura, passagem e religiosidade operam como mediadores de vínculos sociais, identidades e formas de existir no mundo. A ingestão alimentar, nesses sistemas, produz saúde não apenas no corpo individual, mas no tecido social e simbólico que sustenta a vida coletiva.

Ao evidenciar essa dimensão relacional da alimentação, o estudo desloca o foco da pergunta “o que o alimento faz no organismo?” para “o que o alimento faz nas relações que constituem a vida”, ampliando o horizonte interpretativo da ciência da nutrição e da saúde coletiva.

Os resultados indicam que a bioatividade dos alimentos rituais indígenas não pode ser compreendida exclusivamente como propriedade molecular ou efeito fisiológico isolado. Trata-se de um fenômeno biocultural, produzido pela interação entre composição química, práticas de preparo, temporalidades rituais, intencionalidade simbólica e pertencimento territorial.

Essa constatação não nega a importância da validação científica dos efeitos bioativos, mas revela seus limites quando dissociada dos contextos culturais de uso. A bioatividade, quando abstraída de seus sistemas de significado, perde parte substancial de sua eficácia explicativa e terapêutica. Reconhecê-la como fenômeno biocultural implica repensar categorias consolidadas da nutrição e da biomedicina, abrindo espaço para abordagens mais integrativas e epistemologicamente plurais.

As análises desenvolvidas ao longo do artigo evidenciam que estudar alimentos rituais indígenas não é um exercício neutro. As escolhas conceituais, metodológicas e interpretativas carregam implicações éticas profundas. A redução de alimentos sagrados à categoria de “funcionais” ou “nutracêuticos” pode reforçar processos de apropriação, silenciamento e despossessão, mesmo quando amparada por intenções científicas legítimas.

Nesse sentido, a ciência é chamada a reconhecer seus próprios limites e responsabilidades. Avançar no estudo da alimentação indígena exige compromissos claros com o consentimento informado, a repartição justa de benefícios, o reconhecimento da autoria coletiva e a proteção do patrimônio biocultural. Trata-se, portanto, de uma questão de justiça socioambiental e epistêmica, na qual saúde, território e ética são indissociáveis.

Por fim, este artigo propõe que o diálogo entre ciência e saberes indígenas não deve se restringir à incorporação instrumental de dados ou práticas, mas assumir a forma de uma ciência comprometida com a vida. Isso implica reconhecer os povos indígenas não como objetos de estudo, mas como sujeitos epistêmicos, cujos sistemas de conhecimento oferecem contribuições fundamentais para enfrentar as crises contemporâneas de saúde, alimentação e sustentabilidade.

Ao afirmar que “quando comer é curar”, este trabalho não apresenta apenas um achado empírico, mas um convite à transformação das próprias bases da produção científica. Uma ciência que escuta, dialoga e se responsabiliza é também uma ciência mais rigorosa, mais justa e mais capaz de sustentar futuros possíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Doutor em Sociologia. Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Pós-doutorando do PPGEcoH/UNEB. E-mail: [email protected]. ORCID: 0000-0003-3684-0960

2 Doutor em Etnobiologia e Conservação da Natureza. Professor da Universidade do Estado da Bahia - E-mail: [email protected] - ORCID: 0000-0002-2049-5237