PRODUÇÃO DE IMAGENS A PARTIR DE POEMAS DE SHEILA MACIEL

PRODUCTION OF IMAGES BASED ON POEMS BY SHEILA MACIEL

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778974124

RESUMO
Neste trabalho, relatamos a primeira etapa, do ano letivo de 2025, do projeto de leitura denominado Brincando com as palavras: a poesia e o lúdico, desenvolvido no C.E.M. Prof.º Terezinha Romão Mendes, localizada no município de Barra do Bugres- MT. Essa etapa compreendeu a produção de imagens, pelos alunos do 3º e 4º anos, a partir de poemas da escritora mato-grossense Sheila Maciel. O projeto em questão tem seu desenvolvimento desde o ano letivo de 2024, envolvendo diversas modalidades como de desenho, de leitura e de produção escrita, priorizando o trabalho com escritores mato-grossenses e contemporâneos. Nesta primeira etapa, percebeu-se que os alunos superaram as expectativas, pois a leitura e a audição dos poemas os levaram a criar imagens de cunho emocional profundo, inclusive com memórias familiares. Para embasar teoricamente nosso trabalho, lançamos mão de Coelho (2000), Zilberman (2012) e Hernández (2007).
Palavras-chave: Projeto de leitura; Poesia; Sheila Maciel.

ABSTRACT
In this paper, we report on the first stage, of the 2025 school year, of the reading project called Playing with words: poetry and playfulness, developed at the C.E.M. Prof.º Terezinha Romão Mendes, located in the city of Barra do Bugres-MT. This stage included the production of images by 3rd and 4th grade students, based on poems by the Mato Grosso writer Sheila Maciel. The project in question has been in development since the 2024 school year, involving various modalities such as drawing, reading and writing, prioritizing work with Mato Grosso and contemporary writers. In this first stage, it was noted that the students exceeded expectations, as reading and listening to the poems led them to create images of deep emotional nature, including family memories. To theoretically support our work, we will use Coelho (2000), Zilberman (2012) and Hernández (2007).
Keywords: reading project; Poetry; Sheila Maciel.

1. INTRODUÇÃO

Neste trabalho, faremos o relato da experiência vivida pelos professores Elyan Vicente de Souza Silva e Naiara Aline Terres, durante a aplicação da primeira etapa (ano 2025) do projeto Brincando com as palavras: a poesia e o lúdico desenvolvido no C.E.M. Prof.º Terezinha Romão Mendes.

O projeto em questão tem seu desenvolvimento desde o início do ano letivo de 2024, sob a coordenação da professora Rosana Arruda de Souza e tendo como integrantes professores internos, bem como professores externos com participação fixa, e, também, professores convidados. O objetivo do projeto é incentivar os alunos à leitura e à escrita, sobretudo de textos literários, por meio de atividades diferenciadas, em que eles produzem, são avaliados e, posteriormente, premiados. Destaca-se que os professores integrantes do projeto são engajados na carreira cientifico-acadêmica, e as atividades dos alunos são seriamente avaliadas em reuniões. Acreditamos que, assim, os alunos se sentem valorizados e mais próximos de uma realidade acadêmica, como da universidade, por exemplo.

As atividades do projeto envolvem a produção de desenho, leitura e escrita de textos, preferencialmente literários. Dessa vez, foram trabalhados poemas da escritora mato-grossense Sheila Maciel, do livro intitulado Poemas alados. Na turma do 4ª ano, o poema trabalhado foi Que casa é aquela? e, na turma do 3º ano, Eu troquei. Relataremos primeiro a experiência vivenciada pela professora do 4º ano.

Consideramos a produção de imagens no espaço escolar uma atividade tão importante quanto a leitura e a escrita. Ao produzir a imagem, o aluno está não apenas a desenhar algo, mas está a reproduzir, por meio da imaginação e da percepção do seu entorno e do seu mundo interior. Por isso, quando analisamos suas atividades, percebemos que o aluno deixou fluir – entre as cores, traços e linhas – seus sentimentos, questões familiares, medos, tristezas e alegrias. E, uma das maneiras de levar o aluno a esse processo de produção é justamente a literatura. Com a literatura, no caso, com os poemas, os alunos puderam e podem vislumbrar um mundo repleto de imagens incompletas, que eles completam, atando as pontas soltas e trazendo pontas novas, como em um ato de tecer. Conforme Nelly Novaes Coelho,

Nesse espaço [na escola], privilegiamos os estudos literários, pois, de maneira mais abrangente do que quaisquer outros, eles estimulam o exercício da mente; a percepção do real em suas múltiplas significações; a consciência do eu em relação ao outro; a leitura do mundo em seus vários níveis e, principalmente, dinamizam o estudo e conhecimento da língua, da expressão verbal significativa e consciente – condição sine qua non para plena realidade do ser (COELHO, 2000, p. 16).

Assim, quando trabalhamos a produção de imagens a partir de poemas, pensamos que a leitura destes leva o leitor a um espaço de produção imagética, em que as imagens representam não só os objetos retratados nos poemas, mas o quê ou a quem esses objetos remetem quando passam a fazer parte da imaginação dos alunos. Em melhores palavras, da mesma maneira que o escritor parte de seu campo visual para escrever o poema, o leitor também cria seu campo visual a partir da leitura do poema; é claro que, mudando-se o leitor, muda-se também o campo visual. Para Hernández (2007, p. 28), “é-nos dito que vivemos em um mundo em que tanto o conhecimento quanto muitas formas de entretenimento são visualmente construídos”.

Nesse viés, podemos considerar que a atividade executada pelos professores e pelos alunos envolveu a criação de um campo visual, indo além daquele já transfigurado nas páginas do livro. Tal atividade tem sua relevância no espaço escolar porque valoriza a criatividade do aluno, estimula a imaginação, bem como a autonomia dos alunos, visto que a atividade foi individual e cada professor procurou deixar que cada aluno fizesse o próprio desenho sem impor um padrão a ser seguido.

2. DESENVOLVIMENTO DA ATIVIDADE

A primeira etapa que relataremos será a da professora Naiara. Ela aplicou o poema Que casa é aquela? abaixo descrito.

Que casa é aquela?

Que casa é aquela 
Que nunca tem ninguém na 
janela? 

Será que ninguém mora nela? 

A casa no fim da rua 
Seja noite, seja dia 
Está sempre tão vazia! 

Que será que tem dentro da casa? 

Um fantasma? 
Uma fada? 
Um segredo? 
Ou será que não tem nada? 

Será que a casa fica triste de 
não ser moradia? 
Será que não sente nada? 

Será que lá dentro mora 
Um fantasma de cachecol? 
Uma velhinha que faz tricô 
nas tardes sem sol, 
nas noites de lua? 

Quem será que mora 
Naquela casa 
No fim da rua? (MACIEL 2022, p.41).

Para tanto, ela preparou o ambiente na sala de aula – fechou as cortinas; pediu aos alunos que fechassem os olhos e deixassem que, a partir daquele momento, a imaginação os guiasse enquant0o escutassem a leitura do poema, realizada pela professora. Assim, a professora fez a leitura em voz alta do poema – leu compassadamente, sem pressa, de maneira a combinar com o ambiente de tranquilidade criado na sala.

Após a leitura, a professora distribuiu folhas de sulfite e pediu aos alunos que desenhassem no papel as imagens que lhes vieram à cabeça durante a audição do poema. Para a pintura dos desenhos, a professora deixou aos alunos a livre escolha de usar lápis de cor e/ou giz de cera.

Nas palavras de Coelho (2000, p.10),

o domínio da leitura pelo indivíduo é um fenômeno que ultrapassa a mera alfabetização. Ou melhor, a alfabetização deixou de ser vista como simples aquisição de habilidade mecânica (que se desenvolve ao nível superficial do texto) para ser entendida como possibilidade de penetração no mundo da cultura atual, em acelerado processo de transformações estruturais.

Nesse viés, acreditamos que a literatura, no caso o poema, proporciona ao leitor e/ou ouvinte um adentramento ao mundo do outro, bem como um autoconhecimento; dessa forma, à medida que a leitura do poema avança, o aluno vai relacionando-o a sua própria vivência, significando e ressignificando. Trabalhar o poema em sala de aula vai além da leitura mecânica do mesmo, pois requer, como o fez a professora, a preparação do ambiente, a adequação do tom de voz e o lançar mão de toda doçura que a poesia pode proporcionar.

A literatura é a mais importante das artes, pois sua matéria é a palavra (o pensamento, as ideias e a imaginação) exatamente aquilo que distingue e define a especificidade do humano. Além disso, sua eficácia como instrumento de formação do ser está diretamente ligada a uma das atividades básicas do indivíduo em sociedade: a leitura (COELHO, 2000, p. 10).

Passemos agora ao relato da atividade do professor Elyan. Ele trabalhou com seus alunos o poema Eu troquei.

Eu troquei

Eu troquei
o meu trono de rei
por um dia na lua

Eu troquei
uma casa que flutua
por uma praia de areia

Eu troquei
o lálálá da sereia
por uma namorada quieta

Eu troquei
minha bicicleta
por um carrinho de mão

Eu troquei
a solidão da ilha perdida
por uma pista de corrida

Eu troquei
a vida que tinha antes
por mares nunca dantes navegados

Eu troquei
perdidos e achados
por mil e uma noites

Eu troquei
uma gaita de fole
por folia de bumba meu boi

Eu troquei
bolo de fubá

por piquenique em Paquetá

Eu troquei
minhas bolinhas de gude
por uma tarde de ventania

Eu troquei de fantasia
depois de muita risada
e aprendi que a vida sem troca
é como bola furada,
fogueira apagada,
uma droga,
não serve para nada (MACIEL 2022, p.12).

O professor decidiu introduzir a atividade de maneira mais teórica, explicando a importância do gênero textual poema; sua composição em versos e estrofes e que alguns deles têm rimas ou podem ser livres. Também pontuou que os poemas geralmente trazem coisas sobre o interior do ser – sentimentos e emoções – e realizou a leitura do poema, em voz alta. Em seguida, trabalhou tais características no poema e, juntamente com os alunos, identificou no mesmo algumas rimas.

Foi realizada uma segunda leitura do poema e, logo após, foi proposto aos alunos que fizessem um desenho com base no poema, de maneira que relatassem, por meio do desenho, o que compreenderam do poema. Por fim, cada aluno apresentou seu desenho depois de pronto.

A literatura constitui “uma forma de entender o mundo” (COELHO, 2008, p. 17). Escutar a leitura de um poema, da maneira como os professores procederam, proporcionou aos alunos a passagem por três mundos – a do eu-lírico, presente no poema; o do professor que leu em voz alta; e, por fim, o do próprio aluno cujas experiências de mundo também serviram como filtro para a poesia ali disseminada. Em outras palavras, “leitura é viagem”, como afirma Zilberman (2012, p.51).

3. AVALIAÇÃO DOS DESENHOS

Alguns dias depois, nos reunimos para avaliar os desenhos. Estes superaram nossas expectativas, pois os alunos foram buscar imagens do seu eu interior para compô-los. No caso dos desenhos relativos ao poema Que casa é aquela?, percebemos que os alunos fizeram muita menção à própria casa, bem como ao bairro em que moram. Alguns usaram muito a cor vermelha e trouxeram a imagem da situação de violência e marginalidade, infelizmente, presentes nesses bairros. Assim, concluímos que os alunos criaram, nos desenhos, um espaço imagético que muitas vezes não conseguem exprimir por meio de palavras.

Nesse caso, o poema não fecha seu significado em si, muito pelo contrário, seu significado é transitório, visto que transitou por vários mundos e experiências, além daquela retratada pelo eu-lírico. Tivemos, com essa atividade, o que é pontuado por Zilberman (2012, p. 43):

O texto depende da disponibilidade do leitor de reunir em uma totalidade de aspectos que lhe são oferecidos, criando uma sequência de imagens e acontecimentos que desemboca na constituição do significado da obra. Esse significado só pode ser construído na imaginação, depois de o leitor observar as diferentes perspectivas do texto, preencher os pontos de indeterminação, sumariar o conjunto e decidir-se entre iludir-se com a ficção e observá-la criticamente.

Assim, ainda que o objetivo da atividade fosse que os alunos retratassem nos desenhos o que entenderam do poema, percebemos que os alunos conseguiram ultrapassar a barreira da mera representação literal do poema. Eles conseguiram condicionar o significado do que ouviram à imaginação. Dessa forma, cada aluno trouxe ao desenho o resultado do deslocamento de imagens fruto de suas vivências.

De cada turma, três desenhos foram selecionados para a premiação. Abaixo, temos um deles.

Fonte: acervo do professor

O referido desenho, feito com base no poema Que casa é aquela?, apresenta cores alegres e vibrantes – amarelo, azul e verde – e traz uma casa com um elemento inusitado, um fantasminha saindo pela chaminé A cruz na parte superior da casa completa o quadro inusitado e parece trazer certa ideia espiritual ou religiosa. Apesar do fantasminha, percebemos uma casa vazia – não há a presença de pessoas. Tal vazio também se sustenta pelo balanço assentado próximo à casa.

O desenho a seguir foi feito com base no poema Eu troquei.

Fonte: acervo do professor

Observamos que o aluno alinhou a ideia do poema Eu troquei a elementos que recuperam sua memória afetiva familiar, como a bicicleta com banquinho para bebê, a carriola, o bolo e, principalmente, a poltrona. O aluno confessou ao professor que a poltrona remete à figura do avô. Para o aluno, o avô é seu ente familiar mais próximo do que ele tem de imagem paterna, visto que foi o avô quem o criou. Um detalhe importante aparece na poltrona – uma coroa em sua parte superior, acentuando a importância e afeto do aluno para com seu avô. Se olharmos mais atentamente, há, na poltrona, o esboço de alguém nela sentado. O desenho de maneira geral chamou a atenção dos avaliadores por exigir um olhar minucioso, visto que cada pormenor carrega uma memória afetiva.

Passemos a outro desenho.

Fonte: acervo do professor

Esse desenho nos saltou aos olhos por trazer elementos aparentemente aleatórios. Porém, analisados com profundidade, percebemos a ideia de troca não apenas entre objetos, como a bicicleta, mas estão presentes também uma casa com feição animada (que também pode ser vista como uma pipa); um traço em movimento de túnel do tempo; e a figura laranja, que podemos interpretar como um sol, ou como um universo à parte.

4. NOTAS CONCLUSIVAS

A experiência aqui relatada nos foi de grande importância. Foram trabalhados conteúdos essenciais, para o ensino e aprendizagem em sala de aula, como os poemas e os desenhos. Acentuamos aqui a autora dos poemas, Sheila Maciel, por meio da qual pudemos valorizar a literatura mato-grossense e contemporânea. Acreditamos que os alunos desde já precisam ter contato com a literatura e compreender que trabalhar com ela não precisa ser algo enfadonho e, muito menos, que ela se restringe a mera leitura de textos.

Por meio da leitura e audição dos poemas, os alunos puderam dar vazão a sua criatividade e a memórias afetivas.

E, para nós professores, a experiência foi uma oportunidade de conhecermos melhor nossos alunos e identificar talentos ímpares nos mesmos. A atividade rendeu resultados seja com os alunos mais quietos, seja com os mais agitados – todos produziram e se esforçaram.

Assim, entendemos que trabalhar os poemas dessa forma foi assertivo e permitiu que tanto os alunos quanto nós professores saíssemos do lugar-comum limitado ao ato de ensinar, pois, de certa forma, cada aluno também nos passou aprendizado por meio de suas experiências de vida e memórias externadas nos desenhos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁGICAS

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.

HERNÁNDEZ, Fernando. Catadores da cultura visual: proposta para uma nova narrativa educacional. Porto Alegre: Mediação, 2007.

MACIEL Sheila. Poemas Alados. Uberlândia: Pangeia, 2022.

ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. Curitiba: Intersaberes, 2012.


1 UFMT. Doutora em estudos de linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso.

2 UNEMAT. Bacharelado em Direito pela Universidade do Estado de Mato Grosso.

3 UNEMAT. Pedagoga.

4 UNEMAT. Mestrado Interdisciplinar em Ambiente e Sistema Agrícola.

5 Mestrado em Matemática pela UNEMAT.