PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO NA PERSPECTIVA DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS: REFLEXÕES A PARTIR DO BIG BROTHER BRASIL 21

IDENTIFICATION PROCESSES THROUGH ETHNIC-RACIAL RELATIONS PERSPECTIVE: REFLECTIONS FROM BIG BROTHER BRASIL 21

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785125573

RESUMO
Neste artigo, buscou-se analisar as representações do racismo presentes no Big Brother Brasil 21 referentes aos processos de identificação do sujeito negro. A 21ª edição do reality show ganhou grande repercussão no país, sendo a primeira vez em 19 anos que o programa ofereceu maior espaço para participantes pretos e pardos. O que causou comoção nesta edição foram os conflitos envolvendo estes participantes, que passaram a protagonizar discussões sobre afinidade e representatividade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada na metodologia cartográfica e apoiada em referenciais teóricos da psicologia social articulado a autores de outras áreas. A análise das relações constituídas por meio de pontos cartográficos nos apontaram afetos que atravessam toda a lógica daquele ambiente, que circundam as temáticas de representação social do negro e processos de identificação.
Palavras-chave: Big Brother Brasil; Identificação; Relações Étnico-Raciais; Representação.

ABSTRACT
In this article, we analyze the representations of racism present in “Big Brother Brasil” 21, referring to the processes of identification of the black subject. The 21st edition of the reality show had great reproduction in the country, as for the first time in 19 years, the program offered more space to black and brown participants. The commotion in this edition was the conflicts involving these participants, who started to lead discussions about affinity and representativeness. This qualitative research is based on cartographic methodology and supported by theoretical social psychological references articulated by authors from other field. The analysis of the relationships constituted through cartographic points evidences affections that cross the entire logic of that environment, which surround the themes of social representation of black people and identification processes.
Keywords: Big Brother Brazil; Identification; Ethnic-Racial Relations; Representation.

1. INTRODUÇÃO

A finalidade deste artigo3 é analisar as representações do racismo presentes no Big Brother Brasil 21 e suas influências nos processos de identificação do sujeito negro. O objeto de pesquisa aborda um tema contemporâneo e efervescente na sociedade brasileira, uma vez que a representatividade negra vem aumentando nos meios midiáticos, ainda que não tenhamos superado as desigualdades e efeitos psicossociais causados pelo racismo. É relevante frisar que esta não é uma pesquisa unilateral, reconhecemos que se os sujeitos participantes do Programa fossem entrevistados, outras dimensões subjetivas seriam apreendidas.

Por ter a característica de ser um país estruturalmente racista, os casos de racismo no Brasil são praticados no cotidiano; por vezes, se manifesta em comportamentos explícitos e, em outros momentos, não é visto de imediato (Arruda, 2021). Nesse mesmo sentido, Borges e Borges (2012) apresentam a mídia como um território onde o racismo é exposto e experienciado diariamente, sobretudo na TV, a qual tem efeitos profundos em nossos processos identitários e subjetivos, visto que “alterou significativamente nossas formas de ser e de estar no mundo” (Borges e Borges, 2012, p. 34).

O reality show é um gênero televisivo que conquista cada vez mais popularidade. A 21ª edição Big Brother Brasil, transmitido pela Rede Globo de Televisão, ganhou grande repercussão no país, no qual foram observadas diversas representações do racismo. Foi a primeira vez em 19 anos que o programa ofereceu maior espaço para participantes pretos e pardos, em oposição às edições anteriores, ou seja, reflexo da carência de representatividade negra na TV brasileira (Araújo, 2000). O que causou comoção nesta edição foram os conflitos envolvendo estes participantes, que passaram a protagonizar discussões sobre afinidade e representatividade. Os telespectadores, bastante envolvidos, sobretudo por via das redes sociais, fizeram duras críticas, acusações, mutirões de cancelamento,4 até mesmo ameaças à integridade de alguns desse grupo.

Até a 21ª edição, os maiores índices de rejeição na história do programa são de Karol Conká (99,17%) e Nego Di (98,76%), ambos negros, eliminados em sequência, a princípio, justificado por seus comportamentos que causaram repúdio na população. Todavia, comportamentos e posicionamentos igualmente questionáveis provocados por integrantes brancos, desta e de outras edições, não tiveram o mesmo efeito no público e na mídia. O racismo se sustenta em símbolos que, conforme afirmam Carone e Bento (2002/2014), é necessário um olhar sensível para não se deixar levar pelas justificativas pautadas na falsa ideia de democracia racial, que isentam sua presença.

Portanto, além desta introdução, encontra-se neste artigo as seguintes seções: As relações étnico-raciais na televisão brasileira; Um breve histórico da questão racial no Big Brother Brasil; Procedimentos Metodológicos; Resultados; Considerações finais; e Referências.

2. AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NA TELEVISÃO BRASILEIRA

A televisão chegou ao Brasil em setembro de 1950 como um meio de comunicação de massa de caráter comercial. Rapidamente, ganhou espaço central nos lares brasileiros, o que se nota pela conformidade dos móveis na sala das residências, principalmente pelo sofá, onde descansamos frequentemente de frente para o aparelho. Segundo Mattos (2002), uma das estratégias para atingir maior audiência foi a veiculação de um mesmo programa diariamente criando o hábito de assistir televisão. Um dos produtos que ganhou destaque nesse modelo foi a telenovela que, por anos, se estabeleceu como gênero mais popular e lucrativo da televisão brasileira.

A primeira novela nacional foi exibida em 1951 pela extinta emissora TV Tupi. Entretanto, foi apenas em 1964 que uma atriz negra, Isaura Bruno (1916-1977), conseguiu conquistar lugar na teledramaturgia. No documentário intitulado A Negação do Brasil (2000), o diretor Joel Zito Araújo manifesta a luta dos atores negros por reconhecimento nesse gênero televisivo. Não só lutaram por mais espaço nas novelas, mas também contra a propagação de estereótipos raciais, visto que estes atores eram destinados a papéis secundários, relacionados a escravatura e de inferioridade social e cultural.

Em 1965, a telenovela A Cor da Sua Pele, produzida pela TV Tupi, foi a primeira a ter uma protagonista negra, Yolanda Braga (1942-2021). Contudo, conforme Araújo (A Negação do Brasil, 2000), a questão racial na televisão brasileira veio à tona por intermédio da polêmica novela A Cabana do Pai Tomás, em 1969. Uma campanha de repúdio contra a novela foi movimentada devido à escolha de um ator branco, Sérgio Cardoso (1925-1972), para interpretar o personagem negro Tomás, protagonista da obra. Para se caracterizar como o personagem, o ator se utilizava da prática racista conhecida como blackface: pintava seu corpo de preto, colocava rolhas no nariz para alargá-lo e algodões na boca para ridicularizar a voz.

Ruth de Souza (1921-2019), que dividia o protagonismo com Sérgio dando vida a esposa de Tomás, conta no documentário que manifestações racistas feitas contra ela levaram sua personagem ao declínio. Cabe resgatar que a atriz já havia alcançado reconhecimento no cenário internacional por outros trabalhos e trazia experiência do Teatro Experimental do Negro (TEN).5

Ainda na produção dirigida por Araújo (A Negação do Brasil, 2000), Zezé Motta (nascida em 1944) compartilha experiência semelhante, no qual foi convidada a atuar em uma minissérie em que seu papel era resumido a servir doces em uma festa, mesmo após a atriz estrelar em Xica da Silva (1976), filme que foi reconhecido internacionalmente.

Já em condição oposta, Milton Gonçalves (1933-2022), em 1975, fez uma pequena participação novela Pecado Capital, na qual encarnou o papel de médico psiquiatra, identificado como o primeiro personagem negro de classe média que fez sucesso junto ao público (A Negação do Brasil, 2000). Outros personagens como este passaram a ser retratados na televisão, porém, frequentemente, em segundo plano, associados aos personagens brancos, afastados de sua cultura e de outros personagens do mesmo grupo racial.

A partir destes exemplos, percebe-se que ao negro são reservados dois espaços extremos e distintos: “É o criminoso e carente, por um lado; e o cidadão (negro) de sucesso, o exemplo de superação, por outro” (Ferro, 2012, p. 68). E não é somente nas telenovelas que estes sujeitos são apresentados desta forma. Ferro (2012) faz leitura análoga à de Araújo (A Negação do Brasil, 2000) ao demonstrar a contribuição ativa do telejornalismo na perpetuação do preconceito e da discriminação racial no país através do reforço de estereótipos. A partir da análise de uma série de reportagens sobre saúde no Fantástico, programa da TV Globo, em 2006, o autor verificou a ausência de negros em narrativas de histórias comuns, ou seja, no ponto intermediário dos dois extremos.

O cenário é ainda pior quando se trata do telejornalismo policial. Consoante a Oliveira e Paiero (2017), esse gênero do telejornalismo, seletivo e sensacionalista, constrói discursos que depreciam e pré-condenam os suspeitos, principalmente quando se trata de pessoas negras.

Embora sejam gêneros diferentes, é tênue a linha entre o realismo do jornal e a ficção da novela, uma vez que os mesmos estereótipos relacionados ao grupo ocupam os dois espaços. É perversa a organização em sequência em que são apresentadas ambas as programações: nos deparamos com o negro criminoso no jornal e, em seguida, a história continua na novela.

Além das novelas e reportagens, os negros também são minoria no corpo de apresentadores e jornalistas. Mesmo que tenhamos nomes e referências importantes como Glória Maria (1949-2023), Heraldo Pereira, Maria Júlia Coutinho, Abel Neto e Zileide Silva, ainda estão em número muito menor quando comparado ao quadro de profissionais brancos. Hamermüller (2018) aponta que jornalistas negros representavam apenas 4,4% desse grupo técnico na TV Globo. Na atualidade, observa-se a crescente presença desses profissionais, embora ainda seja pouco proporcional em relação aos de profissionais brancos.

Ferro (2012, p. 78) ainda ressalta que “as representações sociais do negro [...] se estendem aos demais programas e também aos intervalos comerciais”. Sendo assim, como narrado no documentário de Araújo (A Negação do Brasil, 2000, em 01h. 27min. 54seg.): “[...] mesmo sendo metade da população do país, ainda não conseguimos ver as nossas experiências de vida e os nossos sonhos representados de forma satisfatória no horário nobre da televisão brasileira”. Entretanto, convém considerar que, nos últimos anos, percebe-se uma alteração na presença de pessoas negras em podcasts, telenovelas, séries, filmes e outros meios midiáticos.

Por meio deste panorama, podemos perceber a televisão como um dos “verdadeiros bastiões da discriminação racial à moda brasileira” (Nascimento, 2004, p. 221), mediante a persistência em retratar a branquitude como padrão estético e social, distorcendo, assim, a realidade étnica do nosso país. De forma a nos aproximarmos do tema desta pesquisa, veremos agora como as relações étnico-raciais vêm sendo apresentadas num outro gênero televisivo, o reality show.

3. UM BREVE HISTÓRICO DA QUESTÃO RACIAL NO BIG BROTHER BRASIL

O Big Brother é um reality show originalmente desenvolvido pela produtora holandesa de televisão Endemol, que vendeu o formato para diversos países do mundo (Drotner, 2002). O programa consiste em uma competição onde um grupo de pessoas são confinadas por cerca de três meses, vigiados por câmeras 24 horas por dia, sem contato com o mundo externo. Os participantes são submetidos a provas de sorte, resistência e habilidade, além de outras dinâmicas do jogo, divisão de tarefas e convivência, circunstâncias que levam à pressão psicológica. O objetivo dos integrantes é permanecer até o último dia do programa quando, por escolha dos telespectadores, um deles será o vencedor e levará um prêmio em dinheiro. Nesse meio tempo, eles votam entre si para que o público escolha quem será o eliminado a cada semana.

O reality chegou ao nosso país graças a TV Globo em 2002, recebendo o nome de Big Brother Brasil. A transmissão diária no canal aberto tem uma duração média de 30 a 60 minutos por episódio, ou seja, é apresentado apenas um compilado de cenas dos momentos considerados mais importantes que aconteceram no dia. Antes de ir ao ar, essas cenas passam por edição de som e imagem, de forma a manipular a compreensão do telespectador sobre os fatos ocorridos, assim como sobre os próprios participantes.

A quantidade de integrantes variou ao longo das edições, não de forma progressiva, sendo no mínimo 12 e máximo 26 pessoas (Globo Comunicações e Participações S.A, 2025). No entanto, em todas as edições é notória uma participação mínima de pessoas negras. A participação desse grupo é ainda menor entre os vencedores do reality. Isso prova que o programa não reflete a pluralidade étnico-racial dos brasileiros, posto que 42,7% da população se declara branca, 9,4%, preta e 46,8%, parda (IBGE, 2020).

Os negros não são a maioria dentre os participantes, mas são uma parcela significativa entre as maiores porcentagens de eliminação. Segundo o ranking do canal de notícias CNN Brasil (2026), que listou as 10 maiores rejeições na história do reality, 6 deles são negros, dos quais 2 participaram da 21ª edição – Karol Conká, com 99,17% dos votos, sendo a primeira colocada da lista; em segundo lugar, está Nego Di, com 98,73% dos votos. Vale destacar que os doi integrantes citados estavam disputando um paredão triplo.6

O reality show também foi palco de comentários preconceituosos e representações estereotipadas. No Big Brother Brasil 16, uma esponja de louças em formato de um boneco negro chamou a atenção dos internautas expectadores do programa, que acusaram a emissora de racismo, devido à associação do cabelo crespo à esponja de aço “Bombril”. O objeto também causou incômodo a um dos participantes negros da edição, Ronan Oliveira, que o retirou da cozinha para usá-lo como decoração, de forma a ressignificar o objeto. A emissora, em resposta ao jornal Folha de S. Paulo (2016), comunicou que o objeto faz parte de uma coleção inspirada em ícones de gerações e culturas diversas, e que outros modelos seriam colocados na casa ao longo da temporada, não se desculpando pelo acontecido.

O cabelo crespo, assim como declara Gomes (2006/2019), possibilita a construção social, cultural, política e ideológica da beleza negra, é um suporte simbólico de identidade e resistência. Ainda assim, em alguns casos como no descrito, continua sendo visto como marca de inferioridade.

Nesse mesmo contexto, a vencedora da 19ª edição, Paula Von Sperling, fez um comentário utilizando o termo “cabelo ruim” em referência aos cabelos de afrodescendentes. A advogada é uma das principais referências ao se tratar de racismo no Big Brother Brasil. O jornal O Estado de S. Paulo (2019) cita este e outros episódios7 protagonizados pela participante, como narrar um caso de feminicídio e dizer que ficou surpresa ao se deparar com um homem “branquinho” sendo autor do crime. Este tipo de comentário conserva a falsa associação da criminalidade à cor da pele, como as ideologias eugênicas e racistas de Lombroso (1876/2007) e Nina Rodrigues (1894/2011).

Ainda nesta mesma edição, o participante Rodrigo França sofreu diversos constrangimentos a pretexto de seu ronco durante o sono, todavia, as reclamações não chegavam da mesma forma em outro participante branco que também roncava. Rodrigo também foi alvo de Paula, que disse ter medo do professor, pois “ele mexe muito com esses trecos [...] ele sabe, tipo, cada Oxum deles lá [...]. Nosso Deus é maior”. Por conta desse comentário, Paula foi indiciada por intolerância religiosa pela polícia do Rio de Janeiro, mas teve o processo arquivado pelo Ministério Público (Folha de S. Paulo, 2019). De acordo com Nogueira (2020), a intolerância religiosa nada mais é do que uma manifestação do racismo brasileiro.

Outra circunstância ocorreu no BBB 20, em que a campeã Thelma Assis teve que enfrentar o comentário de Gizelly Bicalho a respeito de seu tom de maquiagem: “gente, eu não sei o que a Thelminha passa na cara, é barro?”.8 Além de Thelma, Babu Santana também foi alvo de piadas feitas pela modelo Ivy Moraes em relação ao pente garfo utilizado pelo ator: “quem que penteia o cabelo com um trem desse?”.9 Ambos os comentários depreciam itens da estética negra que, assim como o cabelo crespo discorrido por Gomes (2006/2019), fazem parte de um conjunto de elementos utilizados estrategicamente para inferiorizar a imagem destes sujeitos, dificultando a construção de uma identidade positiva de si mesmos.

Estes são alguns dos casos que se passaram ao longo dos 24 anos de apresentação do programa, cenas que foram muito debatidas pelo público por dividirem opiniões sobre ser ou não ser racismo. É fundamental ressaltar a dificuldade em mapear episódios análogos nas edições mais antigas do reality. As situações supracitadas ganharam visibilidade por terem sido pautadas pelos próprios participantes negros enquanto o programa estava no ar, impulsionadas por discussões, produções de conteúdo e compartilhamento na internet, que a cada ano ganha mais força.

Além disso, não podemos deixar de lado a comparação da reação do público em relação aos polêmicos participantes brancos e negros. Ana Paula Renault, que participou do reality pela primeira vez na 16ª edição, se distinguiu dos outros participantes por seu constante envolvimento em discussões e suas falas irônicas, tendo, inclusive, sido expulsa por agressão. Após sua saída, a jornalista teve participação em novela, fez comerciais, foi convidada a participar de outro reality show e ganhou uma horda de fãs. Em 2026, retornou ao programa consagrando-se campeã. Já Karol Conká, participante da 21ª edição, igualmente chamou atenção por sua personalidade forte, envolvimento em brigas e ironias. A rapper, por outro lado, sofreu um linchamento histórico na internet, perdeu um grande número de seguidores, assim como contratos de trabalho. Mesmo conseguindo inserções em atividades após a participação no BBB, incluindo como comentarista e repórter do programa, destaca-se a diferença na tratativa do público entre ambas.

Isso tudo reflete a estrutura racista que nos permeia dia após dia. Cenas de preconceito e discriminação são naturalizadas em nosso cotidiano a ponto de passar “despercebidas”. Estes fatos nos conduzem a refletir sobre os novos posicionamentos do programa Big Brother Brasil 21, mas também a perceber os velhos hábitos racistas que se mantêm e se atualizam nas nossas relações.

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este estudo utilizou como referência o programa Big Brother Brasil 21 considerando a característica desta produção de ser um reflexo do contraste social, fornecendo dados para uma análise crítica das relações entre os sujeitos configurados por sua cultura, relações e instituições que os atravessam. Por este motivo, optamos por trabalhar com a cartografia, método de pesquisa qualitativa que visa acompanhar o teor processual da produção de subjetividade (Kastrup, 2009/2020). Na psicologia, Cavagnoli e Maheirie (2020) explicam que a cartografia utilizada como método proporciona meios para problematizar a subjetivação como resultado de fatores diversos para além da dimensão interior do sujeito.

Segundo Kastrup (2009/2020), a cartografia não se utiliza de regras prescritivas a serem aplicadas, mas possui característica singular de construção definida caso a caso. Dessa forma, acompanhamos o programa durante o período de exibição, captando momentos de consistência significativa dentro da perspectiva das relações étnico-raciais, chamadas aqui de pontos cartográficos. Estes momentos foram revisitados por meio da plataforma digital de streaming de vídeo sob demanda Globo Play, a fim de observar o comportamento das pessoas e como o ambiente social influencia e é influenciado por suas ações. Importante destacar que nesta etapa estávamos cientes de que acompanhar os episódios exibidos no canal aberto é estar em contato com uma versão editada dos fatos ocorridos, ou seja, com cortes de cena e edição de imagem, luz e som.

Assim, buscamos captar nos participantes do programa falas e comportamentos em situações de conflito e de sintonia que se revelassem como representações do racismo. Nos atentamos que, em algumas situações, as ações dos participantes sofreram interferências das provas, dinâmicas do jogo e contato com agentes externos, tais como o diretor, o apresentador, a profissional de psicologia do programa e os artistas convidados.

Além das relações constituídas entre os participantes, não escapou de nossa percepção a relação criada com os telespectadores. O recurso que utilizamos para esta avaliação foram os dados de eliminação dos confinados, como a ordem de saída, porcentagem e quantidade de votos.

Os relatos dos pontos cartográficos, bem como as impressões e reflexões dos pesquisadores deste estudo, foram registrados em diários de pesquisa. Foi feito, então, um mapeamento de afetos, buscando compreender os aspectos que engendram a realidade produzida no encontro.

Sintetizamos os resultados no decurso de quatro pontos cartográficos que consideramos de grande potência pelo prisma de que as forças que compunham estes momentos atravessam a lógica das relações ali formadas como um todo. É pertinente informar que os resultados apresentados no item a seguir foram escritos sob uso de linguagem metafórica como estratégia de produção de sentido, com intuito de facilitar a compreensão dos dados, bem como compartilhar com o leitor as sensações emergentes durante o percurso da pesquisa.

A leitura crítica dos dados nos deu pistas de categorias para análise e, consequentemente, recorremos aos referenciais teóricos com objetivo de promover a discussão conceitual e análise do tema.

5. RESULTADOS

A partir do desejo dos pesquisadores em desbravar territórios diferentes, nos lançamos no oceano apoiados pela cartografia, com um mapa sem latitudes e longitudes, sendo nossa estrela-guia a questão norteadora: como as representações podem influenciar nos processos de identificação do sujeito negro?

Em virtude da grande quantidade de material informativo por ser um programa longo, sintetizamos os resultados através da descrição e análise de quatro situações consideradas de grande potência significativa, as quais nomeamos como ilhas, em que atracamos, que falam deste contexto como um todo, com forças que igualmente compunham outras situações de menor potência.

Ao entrar no oceano-BBB, nossa primeira percepção foi que suas águas não eram nada calmas. As cartas-diário indicavam uma correnteza forte e difícil de escapar: o conflito. Observamos que o programa estimula os momentos de embates, mas são os que acontecem ao acaso que sopram nossas velas, os efeitos do encontro. O caminho que percorreremos aqui não condiz com a ordem cronológica dos acontecimentos.

A primeira ilha é regada por lágrimas-chuva que parecem não dar vida à terra seca. Enquanto João Luiz ajudava Rodolffo e Caio a vestirem a fantasia de homem das cavernas do Castigo do Monstro (dinâmica em que os participantes devem usar vestes desconfortáveis e realizar ações cansativas determinadas pela produção), Rodolffo faz uma comparação em tom de humor que deixa João bastante incomodado: “nóis tá com o cabelo quase igual o do João”. A peruca da qual o cantor referiu ser parecida com o black power do professor era toda bagunçada e cheia de ossos. O comentário foi como uma flecha banhada a veneno que acertou João, corroendo-o por dias até ele conseguir expor de forma corajosa sua revolta, dor e descontentamento. E mesmo durante o choro de João, Rodolffo reafirmou a comparação e não reconheceu o erro. O pedido de desculpas só veio após represálias dos outros participantes.

Identificamos aqui expressões da ordem do preconceito. O comentário revela o julgamento prévio e negativo a respeito do grupo racial negro e sua insistente reafirmação é resultante da inflexibilidade do racismo mesmo diante contestamentos.

A segunda ilha é um lugar com fortes trovões, seus estrondos são graças ao aquecimento brusco e expansão de ar na atmosfera. Uma discussão acalorada aconteceu entre Camilla de Lucas e Karol Conká, depois de Karol, supostamente, incitar a briga entre ela, Gil e Arthur devido a intrigas em torno de estratégia de jogo. Camilla, que ajudou Gilberto a se acalmar, entrou em um debate com Karol sobre o que havia ocorrido. Por terem opiniões diferentes, Karol acusa Camilla de ter escolhido um lado que não é o mesmo que o seu. Camilla retruca que Karol planta discórdia e divide a casa, fazendo que aqueles que tenham mais afinidade com ela acreditem que Camilla também está contra eles. A discussão fica cada vez mais calorosa e começa um embate para ver quem é mais “braba”, quem aguenta a “rajada”, quem não conversa com quem. O estopim da briga acontece quando Karol afirma que a intenção de Camilla era a competição entre duas mulheres pretas. A influencer prontamente responde que ela estava envolvendo militância em questões de afinidade.

A disputa é a linha que costura esse e outros momentos de embate observados no Programa. Disputa envolve imposição de partes, demonstração de poder, energias diversas que não estão somente na ordem da raça. Isso nos leva a perceber a ideia que circula de que os negros são uma massa homogênea, compartilham das mesmas vivências e opiniões. Mais uma expressão do preconceito. Pertencer aos mesmos grupos identitários não elimina os conflitos do jogo. Iguais também são diferentes.

A terceira ilha é um lugar de ares densos. Às vésperas da primeira formação de Paredão (indicação ao vivo pelos membros do programa de, geralmente, 3 integrantes à votação popular para um deles ser eliminado), Lucas conversou com alguns dos participantes negros durante uma festa na tentativa de fazer uma aliança entre o grupo para se igualarem quantitativamente com os integrantes brancos. O efeito das falas do ator gerou sentimentos densos o suficiente para desencadear uma série de brigas intensas com a maioria dos participantes ao longo da madrugada. No dia seguinte, os confinados o tratam de maneira áspera, bloqueiam suas interações, levando-o ao isolamento. Karol Conká foi quem tratou o rapaz de forma mais violenta. A rapper, que tinha um bom relacionamento com Lucas, passa a fazer uma série de ataques a ele. Durante o almoço, enquanto prepara seu prato, Karol ordena de maneira ácida que Lucas não fale enquanto ela come. Visto que ambos faziam parte do grupo Vip (diz respeito à divisão de recursos de alimentação, no qual o Vip é o grupo privilegiado, mais abastecido de mantimentos), é obrigatório que se sentem na mesma mesa. O rapaz, que já estava fazendo a refeição, para de comer, se levanta da mesa, pede humildemente que ela o avise quando terminar e sai do ambiente pedindo desculpas, enquanto Karol o hostiliza por meio de xingamentos e palavrões, o humilhando na frente dos outros confinados.

O embate faz este terreno ser semelhante ao da ilha anterior, mas há um componente que diferencia a estrutura deste solo. De acordo com Pichon-Rivière (1998), é comum em dinâmicas grupais que cada participante do grupo construa papéis em relação ao outro. Observa-se que a Lucas foi prescrito o papel de bode expiatório, depositário dos defeitos de cada um. E ele, por suas características, em um primeiro momento permite receber os depósitos do grupo. Tais elementos criam solo fértil para a humilhação. O recurso da humilhação implica o uso de linguagem violenta, um conjunto que racha os valores que orientam nossa sociedade.

Mesmo as cartas-diário dando ênfase às águas agitadas do oceano-BBB, elas nos indicaram outras rotas de navegação para uma viagem mais tranquila em águas calmas. Por intermédio da nossa luneta-movimento avistamos uma ilha diferente, não muito distante, mas, para atracar ali, era necessário navegar contra a correnteza. Após a situação narrada anteriormente entre Lucas e os demais participantes, Projota, por não concordar com as atitudes e crenças do rapaz e sabendo da importância de seu trabalho na construção identitária do jovem, tem uma conversa firme e sincera com ele, na tentativa de, talvez, apaziguar as angústias que o levaram àquele comportamento. Lucas ouviu quieto, como Projota lhe pediu, atento às falas do ídolo sobre respeito, decepção e esperança. Por fim, emocionado, o rapaz agradeceu ao rapper pela compreensão.

Embora seja uma realidade construída em torno de um jogo, o que gera competição, disputa e embates, há também os momentos de baixa tensão, mediação de conflitos, diálogo reflexivo. Mesmo divergindo em opiniões, há uma zona de irmandade que possibilita a troca através do reconhecimento, seja de características físicas, seja subjetivas – como nesse caso, mesmos ídolos, mesmo gosto musical, mesma origem, linguagem, gostos em comum. Diferentes podem apresentar aspectos em comum.

Conflito, preconceito, disputa, embate, humilhação, reconhecimento, irmandade. Pistas de linhas que cruzam a lógica das relações que constituem o campo analisado, lembrando que as situações aqui discorridas são uma sintetização das relações do programa como um todo e, desse todo, emergiram pontos de ancoragem para analisarmos. Tais linhas nos apontam para dois eixos temáticos intrinsecamente interligados: identificação e representação.

5.1. Processos de Identificação

O conceito de identificação na teoria psicanalítica, segundo Laplanche e Pontalis (1967/2001, p. 226), corresponde ao “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro”.

Esse conceito ganha destaque na teoria desenvolvida por Sigmund Freud (1921/2011) quando reconhecida como uma operação na qual o sujeito se constitui. No texto A Identificação, Freud (1921/2011) discorre sobre três tipos de identificação. A primeira forma refere-se à identificação primária, função fundamental na pré-história do complexo de Édipo, em que a criança toma os pais como modelo, de forma a incorporar o objeto. No segundo caso, a identificação diz respeito à formação de sintomas neuróticos mediante a imitação do sintoma do objeto, sendo assim, por via da regressão, a identificação toma lugar da escolha de objeto.

A terceira modalidade de identificação se constitui na ausência de investimento libidinal e pode surgir a partir de qualquer percepção de algo em comum com outra pessoa. Quanto mais significativo esse algo em comum, mais forte é a identificação. Deter-nos-emos nesta modalidade, em virtude de a ligação entre os membros de uma comunidade ser dessa natureza (Freud, 1921/2011). Essa ideia de identificação se associa aos conceitos de Eu Ideal e Ideal do Eu elaboradas por Freud (1914/2010), uma vez que, para o autor, o que une os membros de uma comunidade é o vínculo entre cada indivíduo e o condutor da massa, em que este é tido como Ideal do Eu por cada membro. De acordo com Roudinesco e Plon (1998, p. 362):

Foi em 1921, em Psicologia das massas e análise do eu, que Freud atribuiu ao ideal do eu um lugar de primeiro plano. Fez dele uma instância bem distinta do eu, capaz de “se engajar em conflitos com ele”. A essa instância, recapitulou Freud, “chamamos ideal do eu, e lhe atribuímos como funções a auto-observação, a consciência moral, a censura onírica e o exercício da influência essencial no recalque. Dissemos que ela era herdeira do narcisismo primário, em cujo seio o eu da criança bastava a si mesmo”. É nesse lugar do ideal do eu que o sujeito instala o objeto de sua fascinação amorosa, bem como o hipnotizador ou o líder, assim se transformando o ideal do eu no esteio do principal eixo de constituição do coletivo como fenômeno, o que Freud já dera a entender no texto de 1914 sobre o narcisismo. (destaques do original)

Dessa forma, o Eu Ideal remete ao narcisismo primário, no qual a criança se identifica com a imagem que faz de si mesma atendendo aos desejos pulsionais dos pais, dando origem no aparato psíquico à constituição do Eu. Devido a ampliação das relações no desenvolvimento da criança, irrompem substitutos sociais das figuras parentais, de forma que o Eu Ideal presente no narcisismo infantil vai sendo substituído por um modelo ideal em função de diversas identificações, no qual o Eu deve seguir o Ideal do Eu. Sendo a instância produto de identificações, o sujeito tende a se aproximar daquilo que se assemelha ao ideal, assim como a se afastar do que é incompatível com o modelo.

Sustentados por estes conceitos, refletimos que, na transição da fase narcísica para o Ideal do Eu, o sujeito está em constante contato com a cultura na qual está inserido. Nesse sentido, constituídos pelas normas e valores circulantes dentro de uma mesma lógica, o autor nos aponta que o Ideal do Eu é constituído por ideais coletivos: “Do ideal do Eu sai um importante caminho para o entendimento da psicologia da massa. Além do seu lado individual, ele tem o social, é também o ideal comum de uma família, uma classe, uma nação” (Freud, 1914/2010, p. 34).

Stuart Hall (1992/ 2006) considera a perspectiva da nação no processo de identificação. Bebendo das fontes da psicanálise, o autor compreende que os processos de identificação se estabelecem num constante diálogo com as diversidades culturais que nos rodeiam. Ele destaca a cultura nacional como uma das principais fontes de identidade cultural e o que mantém uma estrutura de unicidade entre os indivíduos. No entanto, visto que existem diversos sistemas culturais inseridos dentro de uma nação, o autor compreende que uma identidade nacional unificada só poderia ser forjada recorrendo a eliminação violenta de diferenças culturais.

O Brasil não escapa dessa lógica, posto que, no processo colonial, o europeu oprimiu violentamente o seu diferente e eliminou a diversidade cultural de uma população composta por uma multiplicidade étnica, processo semelhante ao explicado por Hall (1992/2006).

Bento (2002/2014) acredita que esse processo também se sucedeu de maneira psicológica. A elite branca brasileira se elegeu como modelo de referência e os não brancos como o ameaçador do Outro. O narcisismo da elite branca e sua projeção sobre o negro como aquilo que macula seu modelo são processos psíquicos que estão na base da discriminação racial existente no país. “O que se vê comprometido nesse processo é a própria capacidade de identificação com o próximo, criando-se, desse modo, as bases de uma intolerância generalizada contra tudo o que possa representar a diferença” (Bento, 2002/2014, p. 39).

Um dos discursos utilizados pela elite brasileira para ter a identidade branca como modelo de referência e padrão cultural foi o branqueamento. Munanga (1986/2019) argumenta que esta foi uma ideologia utilizada como forma de alienar – e eliminar – os negros e, assim, explorá-los mais facilmente. A assimilação da cultura dominante por esses sujeitos, que perdura até os dias atuais, consiste em um apagamento da história e cultura negra, culminando na desestabilidade cultural, moral e psíquica desses indivíduos. Nessa mesma perspectiva, Carone (2002/2014, p. 14) declara que um modo de compreender essa ideologia é como: 

[...] uma pressão cultural exercida pela hegemonia branca, sobretudo após a Abolição da Escravatura, para que o negro negasse a si mesmo, no seu corpo e na sua mente, como uma espécie de condição para se “integrar” (ser aceito e ter mobilidade social) na nova ordem social.

A interlocução entre Munanga (1986/2019) e Carone (2002/2014) nos indica que o branqueamento causa profundas consequências psíquicas no sujeito negro, como a dificuldade na definição de sua identidade étnica e o sentimento de inferioridade.

O branqueamento também foi um forte elemento usado para sustentar o mito da democracia racial como identidade nacional. Esse mito narra a existência de uma suposta harmonia racial entre negros e brancos, de forma a negar a discriminação racial como efetivação do preconceito. Nesse cenário, Schwarcz (2012) chama atenção para nos atentarmos para a verdadeira face desse mito, olhar para além das suas mentiras. A democracia racial revela um país marcado por um racismo que é negado publicamente, mas praticado na intimidade. Ela combina inclusão e exclusão social, de forma que é necessário um olhar sensível para desvendar a realidade.

Articular as teorias supracitadas nos dá instrumentos para refletir sobre as relações construídas no Big Brother Brasil 21. Dado que a identificação pode se dar com base em qualquer aspecto em comum com outra pessoa, a cor da pele é apenas uma das muitas possibilidades que engendram esse processo. As semelhanças que despertam os processos de identificação também são da ordem do não visível, do íntimo e até mesmo daquilo que nos é desconhecido.

Os atritos que surgiram entre os participantes do mesmo grupo étnico-racial apontam que existem outras linhas que constituem essas relações, linhas que podem ter maior intensidade e não se resumem a características raciais. Não podemos esquecer que o reality se trata de um jogo, envolve uma competição com dinâmicas que os obrigam a disputar, é inevitável o conflito. E não foram só os negros que brigaram entre si, o mesmo ocorreu entre participantes brancos, como Arthur e Fiuk.

A análise de Edith Piza (2002/2014) diz que o indivíduo branco é representante apenas de si mesmo, enquanto o negro representa uma coletividade. Atrelada à concepção do senso comum de que identificação acontece somente entre iguais, os atritos entre sujeitos brancos são vistos como atritos isolados, enquanto os embates entre os negros quebram com a expectativa de unidade homogênea desse grupo, fantasia esta que pode desconsiderar as singularidades de cada um. Passaram pelo nosso olhar alguns canais de comunicação, sites, comentários em redes sociais, se referindo aos atritos sucedidos entre Lucas e Karol, Projota, Nego Di e Lumena como brigas entre negros. Isso nos convoca a observarmos como esses conflitos são apresentados pelo programa e seu reflexo em outros meios midiáticos.

Esse pensamento é construído e fortalecido graças às representações desses sujeitos no imaginário social. Presente na cultura que permeia todos seus membros, essa ideia é igualmente introjetada em suas próprias vítimas, como vimos na fala de Karol proferida a Camilla: “você queria a competição entre duas mulheres pretas”. O caso de Karol e Camilla concerne um entrelaçamento entre raça e gênero, o que nos remete à ideia de Lélia Gonzalez (1984) de interseccionalidade de raça, gênero e classe que caracterizam a figura da mulher negra na sociedade brasileira. No entanto, estarem nas mesmas localizações sociais não anula suas particularidades, de forma que, no mesmo caminho da resposta de Camilla à Karol, militância e afinidade não necessariamente andam juntas.

A situação também nos convida a refletir sobre a influência dos pressupostos do narcisismo e do Ideal do Eu nos processos de identificação. Se estes fossem os únicos ou mais importantes elementos nesse processo, as relações amistosas não se formariam somente entre sujeitos brancos? Pois apenas estes se assemelham ao modelo normativo de identificação e padronização social. No entanto, observamos no BBB 21 relações de amizade como as de Gilberto e Sarah, Projota e Arthur, Camilla e João, estes com Carla Diaz, ou seja, entre os mesmos e diferentes grupos étnico-raciais. De acordo com as teorias de Ideal do Eu supracitadas, principalmente quando olhamos para a formação dessa instância na cultura brasileira, entendemos que a cor de pele é um elemento que convoca outros mecanismos psíquicos, como a projeção. Mas se apenas isso estivesse em jogo, seria possível estas relações de companheirismo existirem?

Já nas relações hostis que se formaram com Lucas, podemos cogitar que ali se fez presente o efeito de projetar no negro aspectos que queremos banir, o que culminou no rapaz ser o depositário do imaginário negativo do grupo. Se a projeção faz parte do processo de identificação, nos identificamos também com nossas contradições, o que dá força ao desejo de eliminação.

Esse processo se intensifica se pensarmos que tais aspectos são comuns entre os indivíduos dentro de uma cultura nacional, o que nos remete à reação dos telespectadores sobre Karol Conká, Nego Di, Projota e Lumena. Os quatro participantes foram eliminados com altos índices de rejeição pelo público, sob a justificativa do tratamento dado a Lucas Penteado por meio da humilhação, agressividade e exclusão. A desistência de Lucas após a sequência de violências que sofreu refletiu na eliminação consecutiva destes participantes: Nego Di, eliminado na terceira semana de jogo, com 98,76% dos votos, seguido de Karol, com 99,17%, logo atrás foi Lumena, com 61,31% e Projota, com 91,89%.

A contradição se faz presente quando reparamos que os atos destes participantes é um retrato do nosso cotidiano, nele estão presentes aspectos psicossociais que envolvem as relações étnico-raciais que estruturam nossa sociedade. Lucas sofreu violências diversas, assim como a juventude negra sofre constantemente, e seus opressores não são “eliminados”. Cabe indagar qual a natureza da identificação entre o público com Karol, Nego Di, Projota e Lumena: será possível ser a semelhança de um racismo presente na subjetividade dos brasileiros? Ou será uma forma de proteger aqueles que se aproximam do modelo de ideal coletivo, dado que apenas os participantes negros foram culpados pelas violências sofridas por Lucas? Estes participantes carregam signos que acionam pensamentos e afetos pré-definidos que reverberam na forma que foram eliminados?

Através das lentes dos autores e pela reflexão das relações no BBB, constatamos que os processos de identificação não acontecem de forma objetiva. Diante da complexidade da vida, outros fatores atravessam esse processo, como imagens parentais, classe, raça, gênero, sexualidade e aquilo que se apresenta em outras linguagens. A representação aparece como um forte elemento que faz parte desse processo, e este será discutido a seguir.

5.2. A Representação Social do Negro

Para discutir a noção de representação, recorremos a princípio à teoria de Representação Social de Serge Moscovici (1984/2007) que a define como um conjunto de conhecimentos, opiniões, descrições e imagens que circulam dentro de uma sociedade, constitui sua cultura e, “sendo compartilhada por todos e reforçada pela tradição, ela constitui uma realidade social sui generis” (Moscovici, 1984/2007, p. 41, grifo do autor).

O autor explica que as representações pressupõem uma percepção anterior e comum a todos dentro de uma cultura, de forma que nossa leitura e reação a imagens, objetos e eventos estão diretamente relacionadas a ideias pré-definidas. Essa concepção está presente na teoria de Hall (1992/2006, p. 49) ao referir que as culturas nacionais são compostas de símbolos e representações: “nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos - um sistema de representação cultural. [...] Uma nação é uma comunidade simbólica” (grifo do autor).

A teoria de Moscovici (1984/2007) demonstra que as representações abstraem sentido do mundo e introduzem ordem, dessa forma, esse sistema também estabelece os valores de uma sociedade, bem como seus sistemas de classificação e hierarquização. Mantendo o diálogo com Hall (1992/2006) e com as ideias anteriormente citadas sobre branqueamento, é nítida a função estratégica das representações na concretização de uma cultura nacional unificada, na qual apenas um grupo é beneficiado – o branco.

A partir das ideias sobre branqueamento, criou-se a identidade racial do branco brasileiro, a chamada branquitude. Para Schucman (2012) a branquitude indica um movimento sócio-histórico que perdura até os dias atuais, de modo que se tornou um constructo ideológico de poder em que os traços sociais contidos em sua construção são supervalorizados em relação às identidades raciais não brancas e produz significados dos quais os sujeitos se apropriam, os quais singularizam e reproduzem.

A ideia de branquitude articulada ao pensamento de Bento (2002/2014) sobre os processos psíquicos presentes na discriminação racial legitima a concepção de superioridade de um grupo sobre o outro, mantém a negação do negro no imaginário e o exclui da vida social. Mediante estes conceitos, conseguimos refletir que a branquitude, a fim de garantir sua superioridade e seus privilégios, investiu no imaginário negativo do negro, criando representações pejorativas e estereotipadas de forma estratégica, ao mesmo passo que criou representações da ordem do bom e do belo.

O estudo acerca dos significados do corpo negro desenvolvido por Nogueira (1998) nos traz mais aparato para discussão. O investimento num imaginário negativo sobre o negro faz com que este corpo represente significações daquilo que é da ordem do indesejável e inaceitável na rede de unidades significativas que constituem a cultura, ou seja, “àquilo que expressa o que está além do conjunto dos valores nos quais os indivíduos se reconhecem” (Nogueira, 1998, p. 44).

Reconhecimento está intimamente atrelado a identificação. Se o negro carrega signos nos quais os sujeitos não se reconheçam, a identificação é, consequentemente, interditada. Semelhante a Nogueira (1998), Silva (2019, p. 75) reconhece os nefastos efeitos da representação social do negro em sua psique:

a força dos atributos negativos produzidos pelo racismo e imputados aos negros, com base na força dos discursos produzidos pelos grupos hegemônicos, são elementos que irão compor os processos de identidade e identificação, determinando uma marca psíquica de impedimentos e de manutenção de um lugar social de subordinação e inferiorização no estabelecimento das relações sociais e pessoais, funcionando como indicadores de sofrimentos psíquicos. 

A citação de Silva (2019) se associa com as reflexões do tópico anterior, explicitando a representação social negativa do negro como uma barreira nos processos de identificação desse sujeito em consequência das significações que o distanciam do modelo de referência social. Tais concepções coletivas impregnadas no sistema cultural da nação são introjetadas no pensamento social, individual e determinantes em nossa vida psíquica. Considerando que “todas as interações humanas, surjam elas entre duas pessoas ou entre dois grupos, pressupõem representações” (Moscovici, 1984/2007, p. 40), podemos ponderar o quanto a representação social do negro intrica as relações pessoais em nosso cotidiano e seus profundos efeitos na produção de subjetividade. A exemplo desse efeito na subjetividade tem-se a naturalidade com que Rodolffo relacionou o cabelo de João à peruca do Monstro. A associação extrapola a imagem do cabelo, o negro é a representação da monstruosidade para ele.

O comentário feito por Rodolffo e sua reafirmação, que ocorreu em outro momento além do narrado, demonstram a naturalização dessas imagens. O cantor não só afirmou, como justificou o comentário: “se todo mundo observou como era a peruca do monstro, acredito eu que é um pouco semelhante”, “o cabelo do meu pai é igualzinho o do João, se fosse pra machucar, eu queria machucar o meu pai?”, “a intenção não foi... você acha que eu faria uma coisa de maldade?”. A insistência de Rodolffo é a expressão do mito da democracia racial em ação, negando a existência de discriminação como prática do racismo.

“Por que não é mais fácil você reconhecer que você errou, cara?”. Schwarcz (2012, p. 25) responde o questionamento de João: “Ninguém nega que exista racismo no Brasil, mas sua prática é sempre atribuída a ‘outro’. Seja da parte de quem age de maneira preconceituosa, seja daquela de quem sofre com o preconceito, o difícil é admitir a discriminação e não o ato de discriminar”. Diríamos que os brasileiros conseguem reconhecer o racismo no outro e não em si mesmos, mas os dados da eliminação de Rodolffo mostram que nem sempre o preconceito do outro é tão facilmente reconhecido. Mesmo diante da denúncia de um ato de preconceito em rede nacional, a fala de Rodolffo se mostrou aceitável se observarmos que o cantor saiu com 50,48% dos votos, ainda que participando de um paredão triplo na semana da situação apresentada. O exemplo de Paula Von Sperling, campeã do BBB 19, mostra que o fato de ser racista não significa que o indivíduo será rejeitado ou terá profundas consequências, assim como Rodolffo.

Ribeiro (2019) ensina em seu manual antirracista que reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo e questionar o que parece “natural” é a primeira medida para evitar reproduzir o preconceito. Infelizmente, o autoquestionamento da educação antirracista ainda não atingiu a todos da sociedade brasileira, ao se mostrar conivente com o episódio. A situação prova e reafirma a naturalização de ideias preconceituosas na construção da representação social do negro em nossa cultura. A manutenção da imagem negativa do negro no olhar do outro e em seu próprio olhar é eficaz para o interesse do grupo hegemônico em manter seus privilégios, como trata Bento (2002/2014).

As influências das representações negativas não afetam somente o olhar do outro sobre o sujeito, mas igualmente imprime no sujeito um olhar negativo sobre si mesmo. Recorrendo a experiências clínicas, Silva (2019, p. 73) demonstra que “para muitos negros, o fato de ser negro é vivido com muita dificuldade, já que foram introjetadas imagens negativas, produzidas pelo poder discriminatório, veiculadas pelos discursos acerca do que ‘é’ ser negro” (destaques do original).

A resposta de João para as justificativas de Rodolffo indicam este sofrimento: “você não sabe o quanto que aquilo que você falou me machucou”. Entretanto, João não se coloca em lugar de subordinação e inferioridade, muito pelo contrário, ele nega que lhe seja pregada a imagem pejorativa: “Eu não tô num desenho animado, eu não sou a Pedrita pra ficar usando peruca de pré-história não. Tem osso no meu cabelo? Não tem, não, irmão.”

O posicionamento de João é visto pelas lentes de Souza (1983, p. 53) como a condição de cura para a ferida narcísica no negro que elege o branco como Ideal do Eu: “um novo Ideal de Ego que lhe configure um rosto próprio, que encarne seus valores e interesses, que tenha como referência e perspectiva a História”.

Para criar um modelo de referência que recupere a autoestima do negro, é fundamental a mudança nas representações que o cercam. Essa revolução é proposta por bell hooks (1992/2019) para ser feita através da mídia de massa, uma vez que há uma conexão direta entre a manutenção do patriarcado supremacista branco com a naturalização de imagens de raça e negritude na mídia que mantém a dominação dos negros. Sendo assim, Hooks (1992/2019) reconhece a importância da mídia de massa como poderosa instância para a intervenção crítica.

Caminhando a passos tímidos nessa direção foi o diálogo entre Projota e Lucas em rede nacional de televisão. Por mais que o programa tenha insistido em apresentar a situação como um “enquadro” (termo utilizado pelo apresentador), não podemos perder de vista o rompimento com o estereótipo violento e nada sensível que o homem negro carrega. Contrário às atitudes dos outros participantes, Projota conversou com Lucas e o acolheu, de modo a subverter tal representação.

A mídia de massa é um importante território para intervenção, pois seu material constitui um poderoso sistema de símbolos e representações que ditam o que é certo e errado, belo e feio, normal e desviante, ideais culturais, valores e outras condutas e imagens que fornecem padrões com os quais os sujeitos constituem os horizontes identitários, como trata Borges (2012). Sendo um suporte para a construção da imagem do outro, é o lugar ideal para intervenções com efeitos subjetivos.

No entanto, Borges (2012) insiste que o deslocamento de conteúdo não é suficiente para desmontar as imagens estereotipadas dos negros, atenta de que as imagens estigmatizadas não seguem uma trajetória linear. Por esse motivo, não consideramos como uma mudança significativa a quantidade de negros no Big Brother Brasil 21, bem como a maioria ser do grupo Camarote (participantes famosos convidados pela produção do programa) e todos ocuparem profissões com relevante aceitação e de prestígio social, sendo que as narrativas que criaram em torno destes reforçaram as imagens já naturalizadas de pessoas raivosas, vilões e manipuladores.

Para aqueles que ousam desejar de modo diferente, que procuram desviar o olhar das formas convencionais de ver a negritude e nossas identidades, a questão da raça e da representação não se restringe apenas a criticar o status quo. É também uma questão de transformar as imagens, criar alternativas, questionar quais tipos de imagens subverter, apresentar alternativas críticas e transformar nossas visões de mundo e nos afastar de pensamentos dualistas acerca do bom e do mau. Abrir espaço para imagens transgressoras, para a visão rebelde fora da lei, é essencial em qualquer esforço para criar um contexto para a transformação. E, se houve pouco progresso, é porque nós transformamos as imagens sem alterar os paradigmas, sem mudar perspectivas e modos de ver (Hooks, 1992/2019, p. 32).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo pretendeu investigar os processos de identificação na perspectiva das relações étnico-raciais por meio da análise das representações de raça presentes no Big Brother Brasil 21. Foi possível observar que as representações no programa reafirmam a manifestação cotidiana do racismo no Brasil, frente ao ato explícito de preconceito ocorrido além daqueles com raízes psíquicas mais profundas, refletidos no comportamento agressivo e discriminatório com estes sujeitos.

As manifestações de afirmação de negritude e outros rompimentos de estereótipos indicam um movimento de superação do modelo normativo, que causa interferência nos processos de identificação. As pistas que encontramos neste percurso nos dão indícios de que o racismo continua com fortes raízes em nossas estruturas social, cultural e psíquica, produzindo subjetividades que condicionam a manutenção da condição do negro na sociedade brasileira. Apesar disso, as pistas também indicam movimentações que caminham para a construção e fortalecimento da autoestima do negro.

No desenvolvimento da pesquisa, percebemos que o Big Brother Brasil é um simulacro panóptico que traduz a obsessão contemporânea pela visibilidade. Inclusive, a visibilidade transformou-se no verdadeiro prêmio buscado dentro do jogo, mas renunciar à privacidade quando não há uma posição de igualdade com quem vigia estimula a punição desproporcional. Os sujeitos levam para o confinamento suas inquietações, desejos, crenças, expectativas, histórias e subjetividades que, combinados com a competição e a visibilidade, criam um ambiente de muitas afetações. Ilhados, os participantes só tomam consciência dos efeitos de seus atos e de outras situações acontecidas durante o programa quando chegam à costa. Não é nossa intenção fazer qualquer tipo de avaliação moral a respeito dos integrantes, o que propomos são reflexões para repensarmos tais condutas, em razão de não se darem somente naquele campo.

De forma geral, percebemos que a produção do Big Brother Brasil escolhe a dedo seus participantes, coloca em um ambiente controlado pessoas com personalidades e opiniões diversas, a fim de atrair audiência. Nessa mesma perspectiva, não podemos perder de vista que a 21ª edição iniciou logo após um ano em que protestos antirracistas ganharam destaque nos Estados Unidos da América, assim como no Brasil. Percebemos que alguns dos integrantes do reality trazem pautas que já estão efervescentes na sociedade. Ainda assim, frente aos atos de racismo, as intervenções da produção se resumem a pontuais discursos para os telespectadores e, em menor frequência, para os participantes, sem ter uma ação ativa nos acontecimentos graves, dando indícios das configurações do racismo recreativo, o que corrobora a conservação de certa visão do negro no imaginário social. Entende-se que o programa deveria intervir de forma precisa nestas situações, como fez a produção do reality show de Portugal, Big Brother – Duplo Impacto, ao expulsar um de seus participantes por fazer a saudação nazista durante a atração.

O artigo teve uma abertura para o diálogo interdisciplinar tendo em vista de que este é um tema que não se esgota em um único saber, bem como pelo prisma de que a Psicologia é composta por múltiplos conhecimentos. Sob essa perspectiva, esta pesquisa contribui para a construção de uma Psicologia atenta às relações étnico-raciais uma vez que torna-se evidente a necessidade de ampliar as discussões desse marcador social da diferença que, como pudemos ver, possui profundos efeitos subjetivos. A raça é um elemento que constitui, diferencia e hierarquiza os sujeitos em nossa sociedade e é de suma importância que se ampliem as discussões e as representações positivas sobre este sujeito entre nossos pares.

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RELEMBRE os participantes com maior rejeição na história do BBB. CNN Brasil, 31 de março de 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/bbb/relembre-os-participantes-com-maior-rejeicao-na-historia-do-bbb-2/. Acesso em: 18 jul. 2026.

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1 Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus Baixada Santista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professor do Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde (CEDESS) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus São Paulo. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Este artigo é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) realizado por Sabrina Fabiani Zanqueta do Vale, sob orientação do Prof° Dr° Daniel Péricles Arruda, apresentado e aprovado no dia 18 de Fevereiro de 2022, para o curso de Psicologia da Universidade Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus Baixada Santista, com participação da professora arguidora Drª Jaqueline Imbrizi.

4 Cancelamento é o termo utilizado na atualidade para a prática de excluir uma pessoa, grupo ou marca de uma posição de influência em razão de atitudes consideradas negativas e/ou problemáticas. Esse ato ocorre principalmente nas redes sociais, podendo se estender para fora da internet.

5 O Teatro Experimental do Negro (TEN) foi um projeto idealizado por Abdias Nascimento (1914-2011) com o objetivo de resgatar, por meio da educação e da arte, os valores da pessoa e da cultura negro-africanas no Brasil (Nascimento, 2004).

6 Um paredão triplo significa que três participantes foram a votação popular a fim de que o público escolha um deles para ser eliminado do jogo, ou seja, sair do programa.

7 As cenas citadas e outras mais podem ser vistas em https://www.metropoles.com/entretenimento/bbb/videos-veja-todos-comentarios-preconceituosos-de-paula-no-bbb19

8 A cena pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=S-IQdTzjJ6w

9 A cena pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=zWzPbA2WmdM