PROCEDIMENTOS DE GLOSA E PARAFRASAGEM NA TOPE: DESCRIÇÃO ANALÍTICA E REFLEXIVA

ANALYTICAL AND REFLECTIVE DESCRIPTION OF GLOSSING AND PARAPHRASING PROCEDURES IN TOPE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775857574

RESUMO
O Este trabalho tem como objetivo investigar como os conceitos de glosa e parafrasagem são mobilizados em estudos culiolianos, sob a perspectiva da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE). Para tanto, realizamos uma pesquisa de natureza bibliográfica, fundamentada na análise de quatro artigos teóricos: a pesquisa de Valentim (2021) acerca de características teóricas e metodológicas da TOPE; o trabalho de Moreno (2022) sobre o funcionamento enunciativo dos enunciados exclamativos; a investigação de Sousa e Pria (2024) acerca do funcionamento da unidade linguística NOVO; e por fim, o estudo operatório da reflexividade, de Souza e Pria (2025). O percurso metodológico consistiu na identificação e descrição dos procedimentos analíticos empregados pelos autores na mobilização da glosa e parafrasagem, bem como na comparação dos diferentes modos de operações desses conceitos em função dos objetos linguísticos analisados. Os resultados evidenciam que, embora os autores compartilhem os pressupostos teóricos da TOPE, a glosa e a parafrasagem são utilizadas de maneiras distintas, assumindo funções específicas na construção de hipóteses descritivas, na análise de processos inferenciais e na descrição do funcionamento semântico-enunciativo de unidades linguísticas. De modo geral, as análises confirmam que a glosa e a parafrasagem constituem procedimentos teórico- metodológicos centrais na perspectiva culioliana, uma vez que permitem tornar visíveis as operações realizadas pelos sujeitos na atividade de linguagem, reforçando a concepção de que o sentido não é pré-definido, mas é resultado da interação entre sujeitos em situações de enunciação.
Palavras-chave: TOPE. Glosa. Parafrasagem.

ABSTRACT
O This work aims to investigate how the concepts of gloss and paraphrase are mobilized in Culiolian studies, from the perspective of the Theory of Predicative and Enunciative Operations (TOPE). To this end, we conducted bibliographic research based on the analysis of four theoretical articles: Valentim's (2021) research on the theoretical and methodological characteristics of TOPE; Moreno's (2022) work on the enunciative functioning of exclamatory statements; Sousa and Pria's (2024) investigation into the functioning of the linguistic unit NOVO; and finally, Souza and Pria's (2025) operational study of reflexivity. The methodological approach consisted of identifying and describing the analytical procedures employed by the authors in the mobilization of gloss and paraphrase, as well as comparing the different modes of operation of these concepts in relation to the linguistic objects analyzed. The results show that, although the authors share the theoretical assumptions of TOPE, glossing and paraphrasing are used in distinct ways, assuming specific functions in the construction of descriptive hypotheses, in the analysis of inferential processes, and in the description of the semantic-enunciative functioning of linguistic units. In general, the analyses confirm that glossing and paraphrasing constitute central theoretical- methodological procedures in the Culiolian perspective, since they allow the operations performed by subjects in language activity to become visible, reinforcing the conception that meaning is not pre-constructed, but is the result of the interaction between subjects in enunciative situations.
Keywords: TOPE. Gloss. Paraphrasing.

1. INTRODUÇÃO

A Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE), de Antoine Culioli (1990, 1999a, 1999b, 2018) e os seus sequenciadores como, por exemplo, Rezende (2000), Lima (2000), Pria (2009) e Franckel (2011), compreende a linguagem como atividade de representação, em outros termos, uma atividade tripla de representação, referenciação e regulação.

Dentro dessa perspectiva, os conceitos de glosa e parafrasagem desempenham um papel importante, pois se articulam a noção de reformulação, essencial à atividade de linguagem e à construção de sentido, visto que o sentido não é dado a priori, mas é construído no e pelo enunciado. Esses conceitos nos permitem observar como o sujeito constrói e ajusta significações ao longo dos processos de construção de enunciados.

Objetivamos neste artigo investigar como autores que trabalham com a teoria culioliana abordam os parâmetros analíticos de glosa e parafrasagem em suas pesquisas. Diante disso, buscamos responder, na medida em apresentamos as nossas análises, a seguinte questão: como os pesquisadores culiolianos mobilizam os conceitos de glosa e parafrasagem em suas análises?

Para responder a problemática supracitada, a reflexão foi construída com base na análise comparativa de quatro artigos, os quais são: a pesquisa de Valentim (2021) acerca de características teóricas e metodológicas da TOPE; o trabalho de Moreno (2022) sobre o funcionamento enunciativo dos enunciados exclamativos; a investigação de Sousa e Pria (2024) acerca do funcionamento da unidade linguística NOVO; e por fim, o estudo operatório da reflexividade, de Souza e Pria (2025).

Assim, a nossa argumentação neste artigo se ancora na hipótese de que, nos estudos de orientação culioliana, os conceitos de glosa e parafrasagem não são mobilizados de maneira homogênea ou padronizada, mas assumem configurações distintas em função dos objetivos analíticos e do grau de apropriação teórica de cada autor. Supomos que, embora ambos os procedimentos sejam utilizados como instrumentos de exploração da invariância, sua mobilização ocorre de modo diferenciado, revelando distintos modos de acesso às operações de linguagem.

É importante salientarmos que a escolha por investigar como autores culiolianos mobilizam os conceitos de glosa e parafrasagem a partir da TOPE justifica-se pela relevância teórica dessa abordagem para os estudos da linguagem, que se consolidou como uma importante ferramenta teórica para a análise linguística, especialmente aos processos enunciativos que fundamentam a construção de sentido na linguagem.

Este trabalho está organizado em três seções. A primeira seção apresenta o referencial teórico, com destaque para a Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE) e para os conceitos de glosa e parafrasagem. A segunda seção descreve os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa. A terceira seção é dedicada às análises dos textos selecionados, incluindo a síntese conclusiva e as considerações finais, nas quais são retomados os objetivos, o percurso metodológico e os principais resultados do estudo.

2. A TEORIA DAS OPERAÇÕES PREDICATIVAS E ENUNCIATIVAS

A Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE), desenvolvida por Antoine Culioli a partir da década de 1970, possui uma visão construtivista, que busca compreender a linguagem como uma atividade representacional ligada à construção de sentido pelo enunciador. Diante disso, a linguagem é a capacidade humana realizada por meio de operações cognitivas, organizadas em sistemas de representação, referenciação e regulações que permitem entender o funcionamento da língua como um processo ativo de construção de sentido.

Essas operações se concretizam na forma de enunciados produzidos em situações específicas de comunicação. Assim, o enunciado é resultado de uma série de escolhas internas do sujeito, construídas conforme suas intenções, determinadas por contextos cognitivos, sociais e linguísticos.

Na perspectiva culioliana, a linguagem é concebida como um conjunto que permite ao sujeito construir representações. O sentido, portanto, não é uma entidade fixa, mas uma construção. Culioli (1990, p.14) afirma que “o sentido não existe fora da atividade enunciativa do sujeito", o que coloca o foco da análise nas condições de produção do enunciado.

Dentro do quadro da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas, as atividades de glosa e parafrasagem são compreendidas como formas de reformulação. A glosa, entendida como uma explicação do conteúdo de um enunciado anterior, geralmente com o objetivo de esclarecer, ampliar ou ajustar o sentido. Já a paráfrase é uma reconstrução do enunciado, mantendo seu conteúdo semântico essencial, mas alterando sua forma linguística. Logo,

A glosa é definida por Culioli como a própria atividade linguageira do sujeito enunciador que não é totalmente passível de controle. A glosa poderia ser definida como a atividade epilinguística que o sujeito coloca em prática a todo instante e que pode ser percebida nos comentários que ele faz para explicar sequências, desambiguizando-as para fazer-se entender. Nesse sentido, o que pode produzir ou reconhecer interpretativamente um sujeito enunciador quando faz comentários a partir de sequências textuais (por exemplo, quando um linguista submete um texto para ser comentado por informantes) não é de todo controlável. A paráfrase, por sua vez, é uma atividade metalinguística consciente que tem regras próprias e que é controlada pelo linguista. Poderíamos dizer que a paráfrase é a tentativa, por parte do linguista, de simular as glosas produzidas pelos sujeitos enunciadores (Zavaglia, 2010, p.147).

A reformulação para construção de sentido é uma atividade constante, analisar glosas e paráfrases sob a ótica da TOPE permite compreender como o sujeito manipula as operações para construir diferentes formas de dizer o mesmo e desambiguizar o enunciado. Ainda, segundo Franckel (2011, p. 40),

Na medida em que o sentido das palavras e dos textos não é exterior à língua e guarda uma ordem própria que não é o decalque nem de um pensamento, nem de um referente externo, o acesso ao sentido só é possível por meio da atividade de paráfrase e de reformulação. Trata-se de uma atividade metalinguística, específica da linguagem humana, que só apreende o sentido fazendo-o circular. O sentido provém necessariamente de uma dinâmica, de uma fluidez, de uma labilidade.

Logo, um dos objetivos das pesquisas desenvolvidas pelo viés culioliano consiste em mostrar que, por meio da variação do sentido das unidades lexicais, é possível pontuar suas regularidades de organização. No entanto, é importante salientarmos que a variação é apenas em parte determinada pelo cotexto lexical (relações entre as unidades lexicais no interior da sequência linguística), dado que obedece a fortes regularidades, associadas à estrutura do mesmo. Passemos para as nossas análises na sequência.

3. GLOSA E PARAFRASAGEM EM ANÁLISE

Esta é a parte na Antes de partimos para as nossas análises é importante ressaltarmos que esta pesquisa apresenta caráter bibliográfico e teórico-analítico, centrando-se na investigação dos conceitos de glosa e parafrasagem, tal como são mobilizados por pesquisadores vinculados à TOPE. O estudo não se dedica à análise direta de unidades linguísticas, mas a um processo de reflexão teórica fundamentado na observação do funcionamento desses conceitos em produções acadêmicas de orientação culioliana.

O corpus da pesquisa foi constituído por quatro artigos científicos, selecionados a partir de dois critérios principais: (i) relevância teórica para a discussão das operações enunciativas no âmbito da TOPE e (ii) recorte temporal, com a priorização de publicações recentes, de modo a contemplar abordagens contemporâneas acerca da mobilização da glosa e da parafrasagem.

A caracterização dos artigos analisados foi organizada por meio de uma tabela, na qual se apresentam informações relativas à autoria, título, filiação institucional e ao ano de publicação de cada texto. Observemos a seguir:

Quadro 1: Trabalhos selecionados para descrição e análise

Autoria

Título

Filiação
institucional

Ano de

publicação

Helena Topa Valentim

O delírio do verbo. Uma reflexão em torno de características teórico-metodológicas da TOPE.

Universidade Nova de Lisboa - CLUNL.

2021

António Barreira
Moreno

Enunciados exclamativos:

evidência e inferência

Universidade de
Aveiro - Portugal.

2022

Isael da Silva Sousa e Albano Dalla Pria

O funcionamento da unidade linguística NOVO como marcador de abertura e fechamento de caminho à alteridade.

Universidade Estadual do Maranhão– UEMA

Universidade do Estado de Mato Grosso -UNEMAT.

2024

Fátima Graziele de Souza e Albano Dalla Pria.

O Estudo Operatório da Reflexividade.

Universidade do
Estado de Mato Grosso-UNEMAT.

2025

Fonte: elaborado pelos autores.

O procedimento metodológico consistiu em uma análise detalhada dos artigos selecionados, com o objetivo de identificar, descrever e comparar os diferentes modos de mobilização da glosa e da parafrasagem nos enunciados examinados. A partir dessa análise, foi possível avaliar como tais conceitos são concebidos e operados nos estudos culiolianos, oferecendo subsídios para uma compreensão mais sistematizada das operações enunciativas no interior da TOPE e de seus efeitos na construção do sentido.

Vejamos, na subseção a seguir, a nossa descrição e análise das quatro pesquisas do funcionamento semântico-enunciativo de unidades linguísticas subsidiadas pela TOPE e selecionadas para este estudo.

3.1. O Delírio do Verbo: Uma Reflexão em Torno de Características Teórico-metodológicas da Tope

O delírio do verbo, de Valentim (2021), propõe uma abordagem problematizada ligada à TOPE, sem a intenção de sistematizar conceitos e estabelecer verdades absolutas. Busca explorar a complexidade da linguagem a partir de objetos de natureza diversa como fatos linguísticos (problemáticas), textos literários e obras artísticas, como recursos para o pensamento e a formulação de hipóteses teóricas. O foco está na construção do conhecimento como um processo aberto, em que o inacabado, o inesperado e o falho desempenham um papel essencial na atividade teórica e na reflexão linguística. Pois, conforme citado por Valentim (2021, p. 90), Culioli afirma que

[…] não há linguística sem observações profundamente detalhadas; observáveis sem problemáticas; problemáticas que não conduzam a problemas; problemas sem a procura de solução; soluções sem raciocínio; raciocínio sem sistema de representação metalinguística; sistema de representação metalinguística sem operações, em particular, sem categorização; categorização sem transcategorialidade (1999a, trad. Nossa).

O trabalho de Valentim examina manifestações artísticas e literárias que revelam brechas no real, abrindo espaços para o pensamento e para a elaboração de hipóteses. Um exemplo é a instalação da artista Dora Garcia com a inscrição “trou dans le réel” (buraco no real), que aponta para a lacuna como um espaço de subjetividade e imaginação. Como também, os versos da canção de Leonard Cohen: “There is a crack in everything / That’s how the light gets in” (há uma rachadura, uma rachadura em tudo/ é assim que a luz entra) afirmam a fissura como condição para o surgimento do novo. Assim,

Surgem os factos linguísticos, que se constituem enquanto “problemáticas”, isto é, como desafios à descrição e à explicação, sem que, para tal, sejam suficientes os procedimentos meramente classificatórios e de etiquetagem. Considera-se, neste sentido, que classificar e etiquetar formas linguísticas não só não favorece como pode obstaculizar o exercício da “racionalidade paciente”, necessária para se descrever e explicar o funcionamento da linguagem (Culioli, 1999a, p.5).

Desta maneira, evidencia-se que os fatos linguísticos, que são as problemáticas, desconstroem a noção de sentido fixo e revelam a “deformabilidade” das unidades linguísticas, característica que permite a variação e a criação de significados nos discursos.

É observável um claro exemplo de glosa, na interpretação do poema de Alberto Caeiro, quando Valentim comenta: “Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas. Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes”. A autora glosa esse trecho ao explicitar que ele traduz a ideia de que “aquilo que se representa linguisticamente começa por ser cognitivamente representado”, ou seja, elabora um comentário que retoma e amplia o conteúdo original.

A parafrasagem se faz presente em momentos em que a autora reformula sentidos implícitos em enunciados cotidianos ou literários. Ao comentar o enunciado “será que há vida antes da morte?”, inscrito em uma fachada, Valentim propõe uma reorganização da sequência vida–morte, refletindo que “opera-se, deste modo, uma mudança ao nível da representação nocional do par lexical antonímico vida e morte em termos da sua ordem cronológica”. Essa reinterpretação configura uma paráfrase, pois reorganiza semanticamente um enunciado já existente para dar a ele um novo efeito de sentido.

A identidade de uma unidade linguística, não está em um conteúdo estável. Portanto, a linguagem é compreendida como uma atividade de construção de sentido marcada pela necessidade de ajustamento constante entre sujeitos. Esse movimento é explicado por Valentim, ao afirmar que a linguagem é atravessada por falhas e brechas que exigem reconstruções constantes, nas quais o sujeito busca estabilidade por meio de reformulações que são as glosas e paráfrases.

A noção de “delírio do verbo” apresentada por Valentim (2021), evidencia a natureza dinâmica da linguagem. Desse modo, a deformabilidade e a variabilidade não são falhas do sistema linguístico, mas características fundamentais do funcionamento da linguagem. Termos como “presença à distância” ou “morto-vivo” mostram como os sentidos são reconfigurados em função do contexto e das práticas sociais.

3.2. Enunciados Exclamativos: Evidência e Inferência

Moreno (2022), ao analisar enunciados exclamativos retirados do primeiro capítulo do romance Os Maias, de Eça de Queirós, tem o objetivo de verificar se o mecanismo inferencial é abdutivo ou se envolve outro tipo de raciocínio, nesse sentido, mostra como esses enunciados são produzidos a partir de inferências e evidências.

O autor mostra que as reformulações inferenciais presentes nas exclamativas evidenciam operações cognitivas complexas para o papel da reformulação como mecanismo de ajuste para facilitar o sentido. Tais operações contribuem para a construção do sentido e da argumentação enunciativa, especialmente quando articuladas ao processo inferencial, como afirma Guentchéva (1994, p. 20-21),

No enunciado exclamativo por inferência, o enunciador prevê que uma determinada situação se verifique (a situação esperada), mas, a que é efetivamente atualizada é uma outra (a situação constatada). A situação esperada e a situação constatada estabelecem entre si uma relação de negação, de tal modo que, quando a primeira é positiva, a segunda é negativa e vice-versa.

A inferência abdutiva, baseia-se em observar um efeito e propor uma causa provável como explicação. No entanto, ao analisar o corpus literário, o autor conclui que os enunciados exclamativos evidenciais não seguem esse modelo. Em vez disso, demonstram estrutura dedutiva: a conclusão resulta logicamente das premissas validadas, o que caracteriza uma relação de implicação necessária, e não apenas provável.

Dessa maneira, é possível analisar um exemplo evidente de glosa encontrado no excerto (4) analisado por Moreno, no trecho: “E isto fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as aparências iludem!”

A parte do enunciado “quanto as aparências iludem!” é uma glosa da imagem anteriormente construída: a figura de Afonso como “um varão esforçado das idades heroicas”. Essa glosa funciona como um comentário enunciativo que contradiz e problematiza a interpretação feita pelo personagem Carlos. Essa glosa evidencia ainda um movimento de distanciamento subjetivo: há uma inferência inicial baseada na aparência (P = Afonso parece um herói épico), que é negada pela evidência contraditória (P = Afonso é apenas um homem comum).

Portanto, enunciado exclamativo glosa ironicamente a interpretação feita, ao passo que atualiza uma nova validação no plano enunciativo. A glosa, neste caso, não é apenas uma explicitação, mas uma reconfiguração valorativa do conteúdo inferido, que implica uma posição ideológica. É possível observarmos no excerto (5), quando a personagem Vilaça reage ao comentário de Afonso com a exclamação: “Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina honesta!”

Neste trecho, ocorre uma parafrasagem no termo “amante”, usado para qualificar a mulher com quem seu filho estaria envolvido, é reconfigurado por Vilaça com outra construção: “menina honesta”. Há aqui uma reformulação argumentativa, na qual o enunciador reposiciona o sujeito a partir de outros critérios de avaliação, os quais se baseiam em traços como estado civil e honra, e não apenas no julgamento moral antecipado. Através da mudança de posicionamento, o sujeito enunciador modifica o julgamento inferencial anterior e instaura um novo valor de verdade. Logo, nos trechos analisados no artigo, as operações de glosa e parafrasagem ocorrem de maneira articulada.

Portanto, reformulam o conteúdo inferido e também são responsáveis por intensificar o efeito expressivo dos enunciados exclamativos analisados. Como afirma Moreno (2022), os enunciados exclamativos por inferência revelam “a relação entre uma situação esperada e uma situação constatada”, sendo essa relação pautada na negação. Desse modo, ao glosar ou parafrasear uma ideia anterior como em “quanto as aparências iludem!” o enunciador não só nega uma inferência anterior, como também atribui ao enunciado uma intensidade enunciativa que reflete surpresa e ironia.

3.3. O Funcionamento da Unidade Linguística Novo Como Marcador de Abertura e Fechamento de Caminho à Alteridade

Ao analisar o funcionamento da unidade linguística "NOVO" a partir da TOPE, Sousa e Pria (2024) investigam a unidade linguística e demonstram como seu valor se transforma conforme a posição no enunciado e a relação com outras unidades. Assim, a alteridade coloca o sujeito em constante movimentação de construção de sentido, pois o interlocutor sempre traz consigo uma experiência. Como destaca Flickinger (2018), a alteridade se trata de uma relação interpessoal aberta, ou seja, uma relação que se qualifica pelo envolvimento existencial entre as pessoas. A análise dos enunciados evidencia a importância das reformulações para compreender o modo como o sujeito mobiliza significados em contextos específicos. Segundo a TOPE, “não há valor dado, senão uma construção”, e é nesse processo construtivo que a glosa e a parafrasagem atuam.

A glosa, não é apenas a repetição de uma forma anterior, mas a explicitação sob uma nova perspectiva, permitindo a estabilização de sentidos diante da instabilidade da linguagem. Já a parafrasagem se realiza quando um enunciado é reformulado de forma a explicar outras relações ou valores possíveis, sem que se perca a ideia essencial do conteúdo enunciado. Ambas operam como ferramentas cognitivas e enunciativas fundamentais para o ajuste entre sujeito e linguagem, entre o dito e o compreendido.

No artigo, encontramos glosas quando os autores, ao apresentar um enunciado, retornam a ele para explicá-lo sob outro ângulo, revelando o funcionamento interno das operações semânticas.

No Enunciado 01, citado pelos autores: “Hoje preparei um novo prato para o jantar”, os autores reconstroem esse enunciado com base em um diálogo entre os sujeitos A e B:

A1) Hoje preparei um prato para o jantar.

B1) Já sei, macarrão.

A2) Não. Hoje preparei um novo prato para o jantar.

É possível observar uma glosa, pois A2 repete parcialmente o enunciado de A1, mas introduz a unidade "novo" para reformular e restringir o sentido de "prato", em função da reação equivocada de B. A glosa, atua como um mecanismo de ajuste evidenciando um obstáculo de compreensão, que permite a realização de reformulação que possibilita um novo entendimento partilhado.

A parafrasagem ocorre quando os autores reconstroem sentidos por meio de enunciados similares, mas que evidenciam distintas operações. Isso pode ser visto, por exemplo, na comparação entre o enunciado 03:

A1) Um livro de Manuel de Barros foi publicado hoje.

B1) Você quer dizer uma versão atualizada?

A2) Não. Quero dizer que um novo livro de Manuel de Barros foi publicado hoje.

Nesse sentido, a unidade linguística NOVO constitui procedimentos fundamentais para as operações semântico-enunciativas. A glosa evidencia que o valor de NOVO não é estável, mas dependente das condições de enunciação estabelecidas. A parafrasagem, aparece como um procedimento analítico recorrente das diferentes possibilidades de reformulações dos enunciados que contêm a unidade NOVO. Dessa maneira, os autores tornam visíveis os processos de construção de sentido possíveis, evidenciando como pequenas mudanças enunciativas produzem alterações no valor da unidade.

3.4. O Estudo Operatório da Reflexividade

O estudo operatório da reflexividade, de Souza e Pria (2025) utilizam a glosa e a parafrasagem como ferramentas de análise para compreender os valores semânticos do pronome "se" em contextos reflexivos. Nesse sentido, reflexividade não é dada pela presença da unidade "se", mas surge da relação que estabelece com outras formas linguísticas em uma situação específica de enunciação. Conforme os autores, “a reflexividade atribuída a SE resulta da dinâmica de contextualizações da unidade com outras formas em um dado contexto” (Souza e Pria, 2025, p.17). Dessa maneira, o valor reflexivo é realizado pelos sujeitos enunciadores a partir de sua experiência com a linguagem e com o mundo.

Os autores exploram como o valor reflexivo não é um dado fixo, mas sim uma construção resultante das relações entre unidades linguísticas e da atividade enunciativa. A reformulação aparece como uma estratégia central para evidenciar os diferentes modos de significar. Assim,

O trabalho de refinamento das glosas, enquanto atividade metalinguística consciente, permite teorizar fatos antes imperceptíveis ao olhar acostumado, ao problematizá-los o linguista teoriza os processos de produção e reconhecimento de formas em sua relação com a atividade de linguagem (Souza; Pria, 2025, p. 3).

Ao glosar um enunciado, o linguista se debruça sobre o processo de significação a partir da reformulação das formas, buscando revelar como se constroem os enunciados. A glosa, nesse sentido, produz variações permitindo observar os pontos de um dado conteúdo de pensamento em construção, como apontam os autores,

A manipulação do enunciado com SE reflexivo em articulação com o marcador cortar orientados pela metodologia da construção de um sistema de representação metalinguística que, por meio do trabalho de manipulação de enunciados, possibilita a construção de paráfrases do enunciado de partida. Por um lado, as paráfrases trazem alguma margem de variação sobre a relação forma-conteúdo e, por outro lado, dão visibilidade àquilo que permanece constante sob variações sucessivas, tais como variações das formas verbais, aspectuais e modalizações (Souza; Pria, 2025, p. 4).

O estudo operatório exemplifica essa prática com o enunciado: “Eliane, enquanto fazia o prato, se cortou e precisou interromper o preparo para ser atendida”. A partir desse enunciado, diversas reformulações são propostas, como: “Eliane se cortou com vontade”, “Eliane se cortou de verdade”, “Eliane se cortou de mentirinha”, “Eliane se cortou até onde podia”, entre outras. Essas paráfrases mostram como o valor reflexivo atribuído ao pronome SE não é fixo, mas reformulado pela interação com marcas modais, aspectuais e contextuais.

Nesse sentido, a glosa permite acompanhar o valor em construção, evidenciando que "o valor da unidade se determina em razão dos modos pelos quais ela é colocada em relação com outras unidades" (Souza e Pria, 2025, p. 9). Assim, o valor reflexivo atribuído a SE, pode ser confirmado ou negado conforme a articulação com as demais unidades do enunciado. Por exemplo, nos enunciados “Eliane se cortou de verdade” e “Eliane se cortou de mentirinha”, o primeiro reforça a confirmação da relação reflexiva, enquanto o segundo nega sua efetivação, ainda que o SE permaneça presente.

3.5. Síntese Conclusiva das Análises

A partir dos artigos de Valentim (2021), Moreno (2022), Sousa e Pria (2024) e Souza e Pria (2025), busca-se integrar as análises desenvolvidas nas subseções anteriores com a mobilização dos conceitos de glosa e parafrasagem nos quatro artigos selecionados. É possível observar que os textos analisados compartilham um pressuposto fundamental: a rejeição da ideia de um sentido pré-construído, conforme a TOPE. Em todos os artigos, glosa e parafrasagem aparecem como procedimentos que permitem tornar visíveis as operações realizadas pelos sujeitos na atividade de linguagem.

No trabalho de Valentim, observa-se uma mobilização da glosa e da parafrasagem como instrumentos de formulação de hipóteses descritivas. Por meio dessas operações, Valentim constrói hipóteses descritivas que expõem processos de construção do sentido que se tornam possíveis, como forma de lidar com o inacabado e o indefinido. Como aponta a autora, “a imaginação é um modo indispensável de investigação do possível” (Valentim, 2021, p. 3), e as reformulações tornam-se formas de explorar essas possibilidades.

No artigo de Moreno, a glosa e a parafrasagem são mobilizadas de maneira mais diretamente vinculada à análise do processo inferencial. Ao analisar exclamativas com valor inferencial, é possível reconhecer como essas operações permitem compreender como os sujeitos constroem sentidos, validam ou invalidam proposições e inferências por meio de construções específicas. Diferentemente de Valentim, cujo foco é sobre a exploração do possível, Moreno utiliza esses procedimentos para evidenciar e ajustar inferências, tornando visível o trabalho enunciativo.

No texto de Sousa e Pria, referente à análise da unidade linguística NOVO, a glosa e a parafrasagem assumem um papel central na descrição do funcionamento semântico- enunciativo da unidade. Elas permitem não apenas descrever o valor de NOVO em função de sua posição (anteposto ou posposto), mas ao glosar ou parafrasear um enunciado, os autores tornam visíveis as suas devidas operações. Nesse caso, a parafrasagem é utilizada de modo para explorar as variações possíveis do enunciado, enquanto a glosa atua como um ajuste, explicitando os valores construídos em cada contexto enunciativo específico.

No texto de Souza e Pria (2025), utilizam a glosa e a parafrasagem como ferramentas analíticas para compreender os valores semânticos do pronome “se” em contextos reflexivos. A análise do enunciado “Eliane, enquanto fazia o prato, se cortou e precisou interromper o preparo para ser atendida” evidencia que o sentido se constrói no funcionamento enunciativo. A glosa permite observar os valores semânticos mobilizados, tornando visíveis as operações. A parafrasagem, ocorre por meio da reformulação do enunciado, com a produção de diferentes versões.

Ao considerar os quatro textos, é possível identificar convergências significativas. Glosa e parafrasagem são tratadas como procedimentos analíticos constitutivos da própria investigação linguística. Permitem acessar o funcionamento das unidades em uso, evidenciando operações e construções de valores semânticos. Nesse sentido, os autores compartilham um modo semelhante de operação desses conceitos, alinhado à concepção culioliana de que o sentido emerge da atividade de linguagem.

As divergências observadas dizem respeito ao foco analítico e ao estatuto atribuído às reformulações. Enquanto Valentim enfatiza a glosa e a parafrasagem como instrumentos de construção de hipóteses, Moreno as mobiliza para descrever processos inferenciais. Sousa e Pria, por sua vez, utilizam esses procedimentos para o funcionamento de uma unidade linguística específica. Dessa forma, a partir da TOPE, as glosas e paráfrases permitem evidenciar que o sentido se constrói por meio de ajustes sucessivos e reformulações entre os sujeitos.

Portanto, é possível responder à questão norteadora desta pesquisa: os conceitos de glosa e parafrasagem, nos estudos de orientação culioliana analisados, são mobilizados como procedimentos teórico-metodológicos centrais para a descrição do funcionamento semântico- enunciativo das unidades linguísticas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Propusemos, com base na Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE), investigar os modos de mobilização dos conceitos de glosa e parafrasagem em estudos de autores culiolianos, com o objetivo de compreender como esses procedimentos operam na descrição do funcionamento semântico-enunciativo das unidades linguísticas. A pesquisa teve como questão norteadora analisar de que maneira diferentes autores da mesma perspectiva teórica, acionam a glosa e a parafrasagem como instrumentos teórico-metodológicos na análise da atividade de linguagem.

Para alcançar esse objetivo, desenvolvemos uma investigação de natureza bibliográfica, fundamentada na análise de quatro artigos de autores culiolianos: Valentim (2021), Moreno (2022), Sousa e Pria (2024) e Souza e Pria (2025). O percurso metodológico consistiu na leitura analítica dos textos, na identificação dos momentos em que os conceitos de glosa e parafrasagem eram mobilizados e na descrição dos procedimentos analíticos associados a essas operações. A partir desse levantamento, realizamos análises comparativas, organizadas em subseções, com vistas a evidenciar convergências, divergências e regularidades no modo como esses conceitos são operados na TOPE.

Os resultados obtidos permitiram identificar que, embora os autores compartilhem os pressupostos teóricos da TOPE, a glosa e a parafrasagem são mobilizadas de maneiras distintas, em função dos objetos analisados e dos focos investigativos adotados. Em Valentim (2021), esses procedimentos aparecem como instrumentos fundamentais para a construção de hipóteses descritivas, possibilitando a exploração do possível e o tratamento do inacabado e do indefinido. Em Moreno (2022), a glosa e a parafrasagem tem valor inferencial, permitindo descrever processos de inferências. Já em Sousa e Pria (2024) e Souza e Pria (2025), esses procedimentos são utilizados para descrever o funcionamento semântico-enunciativo de unidades linguísticas específicas.

As análises evidenciaram que a glosa e a parafrasagem constituem procedimentos centrais para a descrição do funcionamento da linguagem. Nesse sentido, os resultados alcançados confirmam o princípio culioliano segundo o qual o sentido não é pré-construído, mas surge da atividade de linguagem, por meio de operações realizadas pelos sujeitos em situações de enunciação.

Assim, este estudo contribui para o aprofundamento da compreensão do papel da glosa e da parafrasagem na TOPE, ao evidenciar sua relevância como ferramentas teórico- metodológicas na análise enunciativa. Espera-se que esta pesquisa possa subsidiar futuras investigações interessadas na descrição operatória e no funcionamento das unidades linguísticas, reforçando a importância da glosa e da parafrasagem como procedimentos fundamentais para a compreensão da atividade de linguagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Mestranda em Linguística no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguística da Universidade do Estado de Mato Grosso (PPGL/UNEMAT). E-mail: [email protected]

2 Mestranda em Linguística no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguística da Universidade do Estado de Mato Grosso (PPGL/UNEMAT). E-mail: [email protected]

3 Doutor em Linguística pelo PPGL/UNEMAT. Professor Adjunto na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). E-mail: [email protected]

4 Doutorando em Letras no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Piauí (PPGEL/UFPI). E-mail: [email protected]