REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775863984
RESUMO
Esse estudo analisa, à luz da Análise do Discurso de linha materialista, a produção de sentidos em relação ao conflito/massacre de Alto Alegre-MA, que ocorreu em 1901 no sul do Maranhão. Fundamentado nos pressupostos teóricos de Michel Pêcheux (1999; 1995), Eni Orlandi (2005; 2009) e Helena Brandão (2004), especialmente no que tange às noções de discurso, memória discursiva, ideologia, posição-sujeito e silêncio. O objetivo do estudo é analisar como os discursos que narram o evento constroem posições-sujeito, ativam memórias discursivas e produzem efeitos de sentido, colocando em funcionamento disputas ideológicas e silenciamento históricos. Para isso, são analisadas duas obras principais: O Massacre do Alto Alegre (Monza, 2018[1909]), que retrata a perspectiva missionária, e Caiuré Imana, o Cacique Rebelde (Cruz, 1982), que apresenta uma narrativa literária de resistência indígena. A pesquisa mostra que nomear o evento como conflito ou massacre não representa uma escolha neutra, mas resulta de um funcionamento discursivo que apresenta os indígenas como rebeldes ou selvagens e os missionários como civilizadores ou mártires, justificando, em alguma medida, a violência colonial. A análise também ressalta o papel do silêncio na exclusão das vozes indígenas. Conclui-se que o evento se inscreve na história como uma disputa discursiva, que os significados são constantemente modificados por várias formações discursivas.
Palavras-chave: Conflito/massacre de Alto Alegre-MA. Ideologia. Discurso. Produção de sentidos.
ABSTRACT
This study analyzes, from the perspective of Materialist Discourse Analysis, the production of meanings related to the conflict/massacre of Alto Alegre, Maranhão (MA), which took place in 1901 in the southern region of the state. The aim of the study is to examine how the discourses that narrate the event construct subject positions, activate discursive memories, and produce meaning effects, thereby revealing ideological disputes and historical silencing. To this end, two main works are analyzed: O Massacre do Alto Alegre (Monza, 2018 [1909]), which presents the missionary perspective, and Caiuré Imana, o Cacique Rebelde (Cruz, 1982), which offers a literary narrative of Indigenous resistance. The research further highlights that naming the event as either a conflict or a massacre is not a neutral choice, but rather the result of a discourse that portrays Indigenous peoples as rebels or savages and missionaries as civilizers or martyrs, thus, to some extent, legitimizing colonial violence. The analysis also emphasizes the role of silence in the exclusion of Indigenous voices. It is concluded that the event remains a matter of discursive dispute, and that meanings are constantly reshaped by different discursive formations.
Keywords: Alto Alegre-MA conflict/massacre. Ideology. Discourse. Production of meanings.
1. INTRODUÇÃO
A história da colonização do Brasil é marcada por violências desde o princípio, nas quais foram impostos projetos de civilização e domínio territorial aos povos indígenas, o que gerou ciclos de resistências e confrontos. Segundo Everton (2016), esses confrontos foram intensificados no Maranhão por meio de relações violentas, frequentemente letais, entre os povos indígenas e os colonizadores, além das missões religiosas no estado. Nesse cenário, dá-se uma das expressões mais significativas desse embate: o Conflito/Massacre de Alto Alegre. Esse acontecimento do início do século XX simboliza um caso extremo de violência institucional, seguido de resistência indígena no sul do Maranhão, compreendendo as regiões atuais de Barra do Corda e Grajaú.
No início do século XX, foi realizado um projeto de catequese e apropriação cultural conduzido por frades capuchinhos, com apoio do governo estadual. Fundada em 1896, a Colônia de Alto Alegre representava essa política, com o objetivo de fortalecer a presença missionária e impor uma lógica externa que era radicalmente diferente dos modos de vida e da estrutura social dos povos indígenas da região. Contudo, a tentativa de forçar culturas e controlar territórios indígenas encontrou resistência firme. Conforme Monza (2018[1909]), em 13 de março de 1901, essa tensão culminou em violência: os indígenas, contrários ao projeto de apropriação, iniciaram uma série de ataques aos frades capuchinhos e seus auxiliadores, bem como propriedades vizinhas. Os indígenas resistiram até serem reprimidos pelas forças policiais.
Assim, a relevância do Conflito/massacre de Alto Alegre vai além de seu efeito imediato pois se estabelece como um ponto discursivo significativo na medida em que o acontecimento passa a ser reiteradamente registrado, narrado e reinterpretado por diferentes materialidades discursivas. De maneira contundente, ele expõe a violência estrutural dos projetos coloniais de assimilação e a luta dos povos indígenas pela autodeterminação e pelo território, tanto no contexto histórico quanto social. A dinâmica de poder, resistência e repressão no Maranhão e no Brasil dificultou a compreensão das relações estruturais que legitimaram, naturalizaram e justificaram discursivamente a violência contra os povos indígenas. No entanto, durante décadas, o evento ficou encoberto por narrativas oficiais que refletiam, tão somente, uma visão colonial, justificando as ações do Estado e das missões, ao mesmo tempo em que silenciou ou distorceu a resistência indígena.
É precisamente neste ponto que seu aspecto discursivo, objeto central deste artigo, ganha destaque. O modo como o Conflito/Massacre de Alto Alegre foi, e continua sendo retratado oferece um profícuo campo para análise. Os discursos veiculados sobre o evento, sejam eles institucionais (como relatórios oficiais e documentos eclesiásticos), jurídicos (como processos e inquéritos), midiáticos (da imprensa histórica ou contemporânea) ou populares, não são neutros. Eles produzem sentidos específicos, revelam posições de sujeito, como indígena rebelde, missionário mártir ou estado civilizador, acionam memórias discursivas de outros conflitos, da missão pacificadora, da barbárie e expõem relações assimétricas de poder.
Estudar a produção de sentidos sobre o conflito/massacre de Alto Alegre não se resume apenas a revisitar um acontecimento histórico específico. Trata-se de desvelar os processos ideológicos pelos quais a sociedade entende, (re)interpreta e contesta a percepção de um passado. Trata-se de analisar como as diversas vozes do Estado colonizador, da Igreja missionária, da imprensa aliada, dos povos indígenas silenciados e, posteriormente, dos movimentos de resgate histórico, ao mesmo tempo que estabelecem lugares de fala, ativam ou suprimem memórias e resultados de verdade que sustentam certas visões de mundo. Assim, a Análise do Discurso Materialista surge como uma perspectiva teórico-metodológica para explicar essas operações, questionando as condições de produção dos textos que circularam a respeito do conflito/massacre e os processos ideológicos que definem o que pode ser dito, como pode ser dito e, especificamente, o que deve ser mantido em silêncio sobre Alto Alegre.
Analisar o conflito/massacre de Alto Alegre é uma maneira de repensar criticamente um episódio ainda pouco abordado da história brasileira, caracterizado pela resistência indígena frente a um projeto civilizatório imposto. Essa pesquisa adquire importância social em um momento em que os debates sobre a valorização das narrativas indígenas e a revisão crítica da história oficial estão crescendo, pois ajuda a romper o silenciamento histórico dos povos indígenas e destaca a complexidade dos sentidos produzidos sobre eles ao longo do tempo.
A proposta de examinar os discursos que circulam sobre esse evento por meio da Análise do Discurso Materialista também possui uma relevância acadêmica, ao empregar instrumentos teóricos que permitem entender como os sentidos não são fixos ou neutros, mas atravessados por posições ideológicas, memórias discursivas e relações de poder. Ademais, nota-se que há estudo acerca do evento, todavia, estes são centrados no campo da história e antropologia (Everton, 2016; Lima e Silva, 2025). Desse modo, o estudo desenvolvido preenche uma lacuna no que se refere a trabalhos que discutam o ocorrido em uma perspectiva discursiva. Dessa forma, este estudo coloca o Conflito/Massacre de Alto Alegre no campo discursivo, evidenciando que o sentido não se apresenta de maneira estática ou a priori. Com isso, contribui para o avanço dos estudos linguísticos ao demonstrar como a linguagem está envolvida na formação da memória histórica e nas disputas simbólicas em torno dos sentidos.
Cumpre dizer que o presente artigo se fundamenta na Análise do Discurso de linha Materialista, proposta por Pêcheux, a qual teve origem na França, na década de 1960. Nessa perspectiva, o objetivo principal deste estudo é analisar os discursos que circulam sobre o conflito/massacre de Alto Alegre à luz da Análise do Discurso, considerando os processos de constituição da posição do sujeito e os efeitos de sentido que emergem da memória discursiva. Para atingir esse objetivo, foram apresentados os seguintes objetivos específicos: identificar as diferentes posições de sujeitos que se manifestam nos discursos sobre o massacre/conflito, observando as relações de poder; compreender a memória discursiva acionada nas representações do evento, verificando a recorrência de discursos e suas ressignificações; analisar os efeitos de sentido produzidos nos discursos que circulam socialmente sobre o massacre/conflito, analisando como são sustentados e disputados no espaço público.
O corpus desta pesquisa é constituído por duas obras principais: o relato O Massacre do Alto Alegre, do padre Bartolomeo de Monza (2018[1909]) - um documento histórico relevante da época que retrata a visão missionária dos acontecimentos - e o livro Caiure Imana, O Cacique Rebelde, de Olímpio Cruz (1982), que oferece uma narrativa literária baseada no conflito de 1901. A seleção desses materiais é justificada por sua importância histórica, literária e teórica, possibilitando a articulação de diversos discursos (religiosos, literários, acadêmicos) relacionados ao evento e trazendo à tona as diversas memórias e as posições-sujeito que se representam em torno do conflito de Alto Alegre. Essa composição permitirá uma análise abrangente dos efeitos de sentido que surgem tanto das narrativas mais recentes quanto dos registros da época do conflito.
Assim, este artigo encontra-se dividido em três partes principais: na primeira seção, apresenta-se o referencial teórico que embasa a análise proposta nesse trabalho, englobando as noções de memória discursiva e posição sujeito; em seguida, é fornecida uma contextualização histórica do conflito/massacre de Alto Alegre, a qual antecede a análise do corpus selecionado; por fim, são expostas as considerações finais, que resumem os resultados e destacam as contribuições deste estudo.
2. A ANÁLISE DO DISCURSO
A Análise do Discurso (AD) emerge no cenário da França da década de 1960, como resposta aos limites apresentados pela leitura estruturalista no modo de compreender a relação entre o linguístico e o social. Ainda que o Curso de Linguística Geral (Saussure, 2012) (doravante, CLG), propusesse um conceito de Língua (langue) enquanto instância social, a obra evidencia que a noção de ‘social’ apresentada encontrava-se limitada a uma dimensão multi-individual da língua. Enunciado de outra forma, compreende-se que o CLG entende a noção de língua enquanto instância social meramente por sua natureza coletiva, abarcando a sociedade e servindo-lhe como instrumento de comunicação.
Segundo Brandão (2004), embora os formalistas russos e os estruturalistas tenham contribuído para a introdução do conceito de ‘discurso’ nos estudos linguísticos, ainda permaneciam ligados a uma abordagem interna da linguística estrutural. Por exemplo, é possível citar o trabalho de Harris, de 1952, intitulado Discours Analisys. É preciso dizer, porém, que embora o trabalho de Harris propusesse uma análise para além da frase, seu estudo representou uma aplicação dos princípios da Linguística Distribucional americana4 aos enunciados, os quais eram chamados de discurso (Brandão, 2004).
Desse modo, coube à Michel Pêcheux incidir uma ruptura no modo de se compreender a relação entre a língua e as relações materiais em que ela se apresenta (eis a razão de a teoria ser nomeada como materialista). A Análise do Discurso apresentada por Pêcheux se consolidou como campo de estudo, sendo influenciada por três vertentes fundamentais: o marxismo, a psicanálise e a linguística. Para Pêcheux (1990), o discurso é mediado por formações ideológicas e históricas, sendo ligado às condições sociais de sua produção. Assim, a Análise do Discurso constitui uma abordagem interdisciplinar, integrando linguagem, ideologia e a noção de sujeito5.
Dessa forma, a AD vai além da interpretação do conteúdo verbal, propondo compreender os mecanismos ideológicos que operam na linguagem e os modos como os sujeitos se constituem no discurso. Isso permite mostrar como os sentidos são produzidos6 em diferentes contextos sociais, evidenciando a relação de poder, exclusão e pertencimentos nas práticas discursivas.
Ao reconhecer que os discursos sobre Massacre/Conflito de Alto Alegre não são neutros, mas atravessados por relações de poder e por disputas de sentido, torna-se necessário entender como esses discursos se fundamentam em outros anteriormente produzidos. Segundo Orlandi (2005), um discurso não emerge de maneira isolada, ele se baseia em conhecimentos e formulações já existentes, o que possibilita uma retomada e uma mudança de sentidos previamente construídos em novas condições de enunciação.Nesse cenário, o conceito de memória discursiva evidencia que cada enunciado está interligado com outros, favorecendo a continuidade na criação de sentido.
Outro conceito central para este trabalho é o de posição-sujeito. A Análise do Discurso refuta a ideia de que o indivíduo é uma entidade consciente e totalmente autônoma. Orlandi (2005, p. 46) diz que “a ideologia faz parte, ou melhor, é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos.
O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer”. Assim, a ideologia constitui um fator para a formação do sujeito e da significação. Orlandi (2005), argumenta que as pessoas são levadas a assumir papéis sociais pré-estabelecidos como mãe, professor, colonizador, indígena etc, e é ao adotar esses papéis que se tornam sujeitos capazes de criar significados. Dessa forma, a interpelação ideológica pode ter função dupla: enquanto, por um lado, atua como mecanismo que limita e silencia certos discursos, por outro, permite o ato de dizer, proporcionando as evidências e o suporte discursivo necessários para a enunciação.
3. A PRODUÇÃO DE SENTIDOS ACERCA CONFLITO/MASSACRE DE ALTO ALEGRE-MA
O conflito/massacre de Alto Alegre, ocorrido em 13 de março de 1901, no interior do Maranhão, é mais um dos episódios dos confrontos entre missionários católicos e povos indígenas no Brasil. O ocorrido foi liderado pelo cacique Guajajara, ou Tenetehara, Cauiré Imana, também chamado de João Caboré, que ocasionou a morte de missionários capuchinhos, irmãs franciscanas, crianças indígenas e colonos, bem como a destruição da colônia São José da Providência, fundada pelos religiosos em 1896. Esses acontecimentos são narrados, sobretudo, a partir de registros missionários e literários, como o relato O Massacre do Alto Alegre, do padre Bartolomeo de Monza (2018[1909]), e a obra Caiure Imana, o Cacique Rebelde, de Olímpio Cruz (1982)
Segundo Monza (2018[1909]), os frades capuchinhos chegam a Barra do Corda, no ano de 1895, para catequizar e “civilizar” os indígenas. Ao fundarem a colônia São José da Providência, fundaram também a escola para crianças indígenas, igreja, casas, engenhos e desenvolveram a agricultura. Contudo, como indica Cruz (1982), a estratégia adotada pelos religiosos desconsiderou a cultura e tradições dos indígenas Guajajaras, estabelecendo restrições em relação às danças, rituais, consumo de bebidas, fumo e a prática da poligamia.
Um outro fator que aparece com frequência na história é a ação dos colonos e donos de terras da região, que viam a missão como uma concorrência econômica, já que os missionários proporcionaram melhores condições de trabalho para os indígenas. A competição por mão de obra, embora mencionada por Cruz (1982), é tratada de maneira secundária nos escritos missionários, evidenciando um funcionamento discursivo que desloca as origens do conflito para uma suposta irracionalidade dos indígenas.
O fator desencadeante do conflito, com base em Monza (2018[1909]), foi um surto de sarampo que afetou crianças indígenas no internato da missão. As freiras se recusaram a devolver as crianças às famílias, o que agravou a insatisfação dos Guajajaras, que começaram a ver a doença como consequência de feitiçaria realizada pelos religiosos. Nesse cenário, Cauiré Imana surge como uma figura ambígua nos textos: nos relatos missionários, como em Monza (2018[1909]), é retratado como um líder rebelde e violento, enquanto em Cruz (1982) sua atuação é vinculada à resistência indígena contra as imposições coloniais.
Na madrugada de 13 de março de 1901, Alto Alegre foi atacada por centenas de indígenas Guajajaras sob o comando de Caboré. Missionários, freiras, crianças e colonos foram assassinados. Dentre os mortos, havia quatro frades capuchinhos e sete irmãs franciscanas. De acordo com Cruz (1982) os indígenas foram responsáveis pela morte de cerca de 200 pessoas. O número de indígenas mortos aumentou devido a superioridade militar e a atuação de comandantes como Goiabeira, Manoel Gonçalves e tenente Tomé, que, segundo Cruz (1982), mataram de forma indiscriminada para criar a imagem de bravura.
O conflito resultou na mobilização de militares e voluntários sob a liderança de oficiais como o tenente Tomé Vieira Passos e o coronel Pedro José Pinto. Meses de combates se seguiram, com perdas para ambos os lados. Cauiré Imana foi detido e submetido ao julgamento, falecendo na prisão de Barra do Corda cerca de dois anos depois, que segundo Cruz (1982, p. 46) se encontrava “com o corpo todo inchado e as faces arrocheadas”. Os demais indígenas foram mais tarde absolvidos com base no argumento de que não poderiam ser responsabilizados.
3.1. Conflito X Massacre: Um Gesto de Análise
As narrativas criadas sobre o conflito/massacre de Alto de Alegre estão apresentadas em diferentes materialidades discursivas que, além de descreverem acontecimentos, geram sentidos que reforçam posições e reativam memórias institucionalizadas e ideológicas. Nesta seção, procederemos com a análise das duas obras que compões o nosso corpus: O Massacre do Alto Alegre, de Monza (2018[1909]) e Caiuré Imana, o Cacique Rebelde, de Olímpio Cruz (1982). Por meio da análise, será possível evidenciar como o processo discursivo encontra-se relacionado às condições que sustentam um dizer.
Nesse processo, como observa Orlandi (2005, p. 49), “[...] é justamente quando esquecemos quem disse ‘colonização’, quando, onde e porquê, que o sentido de colonização produz seus efeitos”. O apagamento da origem histórica desses significantes permitiu que as posições-sujeito de colonizador e rebelde fossem naturalizadas, operando como evidências incontestáveis no imaginário dos indivíduos. Assim, o sujeito aparece como efeito do assujeitamento ideológico, embora viva uma percepção de ser o criador independente de sentido.
Esse apagamento das origens discursivas, apontado por Orlandi (2005), produz a ilusão de autonomia e completude do sujeito. É precisamente nesse fator que Brandão (2004) vem aprofundar em sua análise, ao afirmar:
[...] a AD procura romper com a circularidade dessa estrutura dual, ao reconhecer no sujeito um caráter contraditório que, marcado pela incompletude, anseia pela completude, pela vontade de “querer ser inteiro”. Assim, numa relação dinâmica entre identidade e alteridade, o sujeito é ele mais a complementação do outro. O centro da relação não está, como nas concepções anteriores, nem no eu nem no tu, mas no espaço discursivo criado entre ambos. O sujeito só se completa na interação com o outro (Brandão, 2004, p. 55).
Na obra de Monza (2018[1909]), que era padre, os indígenas são descritos como rebeldes e selvagens. Ao promover uma descrição do evento, tem-se que:
Em reação ao processo catequético e civilizatório a que estavam submetidos, que lhes exigia a mudança radical dos costumes e tradições, os guajajaras, ou tenetehara, como se autodenominam esses povos tupis, mataram os padres e freiras, os internos e serviçais do convento e, em novas ações que se estenderam pelo mês de abril, trucidaram mais de 200 cristãos, como se referiam indistintamente a todos os não índios. Foi o maior massacre promovido por índios contra civilizados no Brasil, desde a Cabanagem, no Pará, quando, mais de sessenta anos antes, diversas tribos juntaram-se aos cabanos e negros na tomada de Belém e na resistência ao poder imperial (Monza, 2018[1909], p. 12).
Esse efeito de sentido é produzido, por exemplo, pela designação do evento como massacre, ou conflito, além do uso constante de qualificadores que ligam os indígenas à violência, irracionalidade, também os caracterizam como moralmente e culturalmente inferiores, ao relatar “a crueldade e a ingratidão do índio”, descrito como “supersticioso, ladrão, cruel, dissoluto” (Monza, 2018[1909], p. 13).
Em outro momento, o autor reforça essa representação ao afirmar que o indígena, tomado como selvagem, “parece possuir apetite apenas para o delito, e não para o seu remorso”, sendo definido como “o homem decaído, […] corrompido, […] animalizado” (Monza, 2018[1909], p. 13). Paralelamente, os frades são retratados como educadores e portadores da civilização, encarregados de instruir os “infiéis selvagens” em “cristãos civilizados” (Monza, 2018[1909], p. 13) e estruturar a vida dos indígenas. Essa estrutura narrativa leva a interpretação do conflito como consequência da ingratidão indígena em relação aos supostos benefícios proporcionados pela missão, reativando a memória discursiva estabelecida no âmbito colonial.
No contexto do conflito/massacre de Alto Alegre, a nomeação surge na disputa sobre a interpretação do acontecimento. Guimarães (2018) afirma que as identificações sociais são produzidas discursivamente por meio da nomeação própria. Nesse sentido, a mudança entre conceitos como conflito e massacre indica escolhas discursivas intencionadas, que evocam memórias e visões de mundo específicas, legitimando assim, certas perspectivas em detrimento de outras.
Enquanto o sujeito missionário é formado em uma posição específica, os indígenas são constantemente retratados pelos discursos religiosos como um ameaça, sendo vistos por uma negatividade que os classifica como violentos, irracionais e rebeldes. Cruz descreve as ações militares contra os Guajajara, ao afirmar que “Raimundo Ângelo Goiabeira, que voltou a dar combate aos índios apossados das referidas localidades, depois de ter sido obrigado a recuar, regressando a Grajaú, a fim de conseguir mais reforços e poder continuar a luta contra os índios rebeldes.” (Cruz, 1982, p. 69). Everton (2016) analisou os documentos administrativos e coloniais que apontam essa representação, na qual os Guajajara, ou Tenetehara, são frequentemente identificados como os causadores da desordem e os responsáveis pela devastação da colônia. Desse modo, o indígena deixa de ter sua própria voz e passa a ser o objeto de fala para o outro. O mecanismo, segundo Orlandi (2005), esta presente na relação entre a língua e a ideologia, limitando os espaços sociais de onde se pode falar e limitando certos grupos a posições discursivas subalternas.
A designação de indígenas como índios rebeldes ou selvagens, por exemplo, atua como mecanismo de reprodução do discurso colonial. Monza (2018[1909]) naturaliza a relação assimétrica entre colonizadores e indígenas ao afirmar que “E nem é de admirar que, passado o tempo, se tenha estabelecido certa relação entre os novos ocupantes e os selvagens, e que estes, quando lhes convinha ou vinha ao capricho, se prestassem a vários trabalhos e serviços” (Monza, 2018[1909], p. 40). Em outro momento, o autor descreve os indígenas como “Bandos selvagens, sob as ordens dos famigerados caciques João Caboré e Manuel Justino, haviam cercado Alto Alegre e, em sua raiva, encarniçamento e furor, a ninguém haviam poupado” (Monza, 2018, p. 100). De acordo com Borges (2013), em sua análise sobre os efeitos de sentido da política de proteção aos indígenas brasileiros, práticas de nomeação como essas funcionam como um mascaramento das relações de poder, viabilizando a tutela e o controle sobre esses grupos. Desse modo, tais denominações associam os povos indígenas à ideia de brutalidade e legitimam, simbolicamente, a intervenção violenta do Estado e da Igreja.
A obra Caiuré Imana, o Cacique Rebelde, de Olímpio Cruz (1982), apresenta a posição do sujeito de uma perspectiva distinta, nas quais a figura do indígena emerge como um sujeito de resistência, articulado, estratégico e politicamente consciente. Aqui, a liderança do Caiuré não é tratada como uma agressão gratuita, mas uma reação calculada contra a imposição dos frades. Portanto, a formação discursiva é modificada e a ação indígena é reconsiderada como um ato de defesa de seu território e autonomia. Ao abordar o processo de catequização dos indígenas e o contexto que culminou no evento ocorrido em Alto Alegre, Olímpio Cruz (1982, p. 20) afirma:
A tela da memória nos leva a interpretar, com meridiana convicção, que essa proximidade viria facilitar o contato, mais direto, com as aldeias, objetivando-se o recrutamento de crianças para o internato do colégio, bem como a participação dos índios em missas, terços, aulas de catecismo, ficando a impressão de que a religião pregada seria absorvida, com seus rituais e conceitos. Os índios, entretanto, ficavam muitas vezes sem nada entender, ouvindo falar do poder e dos grandes milagres do sublime Nazareno - e pareciam achar pitorescas somente as festas religiosas, tão diferentes das suas, sobretudo as relativas ao período da Semana Santa. Tal descompasso era natural entre os índios da região, pois até então apenas houve uma tentativa de catequese, desenvolvida pelo missionário Frei José de Lóro, que faleceu em 1882, aposse estabelecer às marem do rio Mearim, nas proximidades da aldeia Colónia (Olímpio Cruz, 1982, p. 20).
No fragmento acima, observa-se um deslocamento significativo no modo de se interpretar a noção de catequese, o que atesta, como bem disse Orlandi (2005), a presença da ideologia no discurso. Distintamente da visão apresentada pelo frade, aqui ela aparece como prática de recrutamento (“objetivando-se o recrutamento de crianças para o internato”) e como imposição simbólica pouco inteligível aos indígenas. Do mesmo modo, marca-se uma posição-sujeito que resiste à interpelação ideológica plena, não por enfrentamento direto, mas por incompreensão, estranhamento e deslocamento de sentido.
Esse reposicionamento só é possível porque, de acordo com Orlandi (2009), o sujeito é um efeito da posição que ocupa na estrutura discursiva. Após ser reposicionado como figura principal de sua própria história por meio de uma nova narrativa, o indígena rompe as estruturas ideológicas que o definia como uma ameaça. Esse movimento não apenas altera a leitura ideológica predominante, mas também expande o horizonte de interpretação do evento, resgatando significados apagados pela memória discursiva e incorporando narrativas que estavam silenciadas.
Vale ressaltar que o indivíduo não tem acesso consciente à exterioridade (interdiscurso). Ao aplicar esse princípio à análise do Massacre/Conflito de Alto Alegre, a análise revela que o embate não aconteceu sobretudo entre pessoas, mas entre as posições opostas de colonizador/civilizador e resistência/ameaçado, formadas a partir de diferentes interdiscursos, cuja lógica estava além da percepção dos indivíduos envolvidos. Além disso, Orlandi (2005, p. 50) observa que
A forma-sujeito histórica que corresponde à da sociedade atual representa bem a contradição: é um sujeito ao mesmo tempo livre e submisso. Ele é capaz de uma liberdade sem limites e uma submissão sem falhas: pode tudo dizer, contanto que se submeta à língua para sabê-la. Essa é a base do que chamamos assujeitamento.
Na obra de Olímpio Cruz (1982), o acontecimento de Alto Alegre é precedido por uma construção narrativa que recupera, pela perspectiva indígena, as tensões acumuladas no cotidiano da aldeia diante da presença missionária. Antes da irrupção do evento propriamente dito, o autor dedica-se a apresentar as condições históricas, simbólicas e afetivas que atravessam os sujeitos indígenas, destacando a intensificação das práticas de catequização, a interferência nos costumes, na língua e nas relações familiares, bem como os rumores e relatos de violências sofridas no internato.
No entanto, sua narrativa produz uma contradição ao descrever a resistência de alguns indígenas à catequese, Cruz (1982) a caracteriza como um descompasso natural. Essa formulação discursiva opera um efeito de sentido que naturaliza a posição de sujeito cristão-católico como a única plenamente legítima e equilibrada, ao mesmo tempo em que trata a diferença cultural como algo, convertendo-a em um desvio. É nesse contexto que emerge a figura de Cauiré, cuja fala se inscreve como um gesto de convocação coletiva, articulando experiências de dor, perda e ameaça à própria existência da tribo Guajajara. O excerto a seguir materializa esses aspectos:
Dezenas de fogueiras iluminavam desde o centro à parte restante do pátio da aldeia. Aproximava-se a meia noite e as labaredas já começavam a diminuir. Um ligeiro sinal de Cauiré, após um curto silêncio, chamou a atenção dos presentes. Batendo com os punhos cerrados sobre o peito, bem alto, falou que seus irmãos da poderosa tribo Guajajara, em sua maioria, já conheciam o seu plano de libertação. Disse que ninguém devia demonstrar predisposição à covardia ou fraqueza, depois de tanto tempo de domínio sobre aquela região herdada dos pais, antigos heróis respeitados até pelos brancos de outras terras distantes. Ninguém podia negar ter chegado aos seus ouvidos o queixume das mães e filhas que reclamavam e choravam devido as últimas ocorrências verificadas na tribo!... Não era mais possível, disse Cauiré, aturar tanto abuso praticado pelo pessoal da Missão estrangeira que queria escravizar a todos, pois responsáveis pela catequese — frades, freiras e professores — enfim, todos os residentes ali, que não os da sua raça, queiram encaixar nas cabeças dos índios que deviam levar a vida de outra maneira e não como eram ou deveriam ser. Eles queriam tudo ao contrário do que a tribo queria. Não podiam mais possuir três ou quatro mulheres, queriam mudar a língua, mediante a obrigação da leitura dos livros deles que só tinham de bonito algumas figuras. Além disso, ainda pretendiam mudar os costumes. Diziam que os índios não eram mais os legítimos donos das terras em que moravam. Certas pessoas contavam que as indiazinhas que adoeceram no Internato, teriam morrido envenenadas. As mesmas foram sepultadas sem a presença dos pais, privadas do ritual das tradições e crenças. Cauiré adiantou que daquela maneira, ninguém mais teria forças para lutar. O perigo de que falava não se estendia somente à sua taba e outras vizinhas; também ameaçava todas as que ficavam ao longo do Mearim, Grajaú e Pindaré, ou até mesmo para as mais distantes que existissem para os lados dos grandes lagos que vão formar o mar quase sem fim, que protege e rodeia a cidade grande onde morava o seu amigo e protetor, o chefe branco Torreão da Costa, único que estendeu-lhe a mão, (embora ele não confiasse demasiadamente nele), pois, infelizmente, não pertence a sua raça. Assim conclamou a marchar contra a povoação de Alto Alegre e suas redondezas e matar toda a gente que não pertencia à raça Guajajara (Olímpio Cruz, 1982, p. 43).
De acordo com Orlandi (2005) e Pêcheux (1999), uma memória discursiva não funciona como um arquivo fixo, mas como um conjunto de discursos já estabelecidos que favorecem determinadas interpretações enquanto outras são dificultadas. No contexto do conflito/massacre, as interpretações que influenciam a sociedade são filtradas por uma visão colonial na qual funciona como uma lente, direcionando a produção de significados acerca do evento.
A análise das narrativas missionárias e dos registros administrativos indica que a ideia do indígena como uma ameaça não surge do contexto específico do conflito, mas ela é recuperada de um repertório de afirmações pré-existentes que fazem parte da memória do projeto civilizatório. Essa memória funciona de forma antecipada, pois, antes mesmo da construção de um discurso sobre o acontecimento, uma rede interpretativa guiada pelo controle e pela posição já define o indígena como um sujeito instável, perigoso ou incapaz de autogoverno.
O funcionamento do pré-construído, no qual, segundo Pêcheux (1999), os sentidos se tornam verdades inquestionáveis por serem consolidados por uma sequência histórica de enunciados. Ou seja, entender o conflito como um “massacre” não é apenas resultado dos acontecimentos em si, mas também é uma consequência do poder persuasivo desses já-ditos. Essa força tem o papel quase imperceptível de direcionar a interpretação para um percurso já definido, fazendo com que outras interpretações, apesar de possíveis, sejam marginalizadas. Ao mesmo tempo, a resistência indígena é silenciada ou deslegitimada pois os relatos raramente mencionam que as ações contra os frades capuchinhos também foram respostas a violências, punições e tentativas de apagamento cultural desses povos.
Em oposição ao que apresenta Olímpio Cruz (1982), na obra de Monza (2018[1909]), a presença das missões junto aos povos indígenas é significada a partir de uma perspectiva fortemente atravessada pelo discurso religioso e civilizatório, no qual os indígenas são inscritos como sujeitos carentes de orientação moral, espiritual e cultural. O autor se posiciona discursivamente a partir de uma formação discursiva cristã-eurocêntrica, que naturaliza a oposição entre civilização e barbárie, atribuindo às missões o papel de agentes do progresso e da redenção. Nesse enquadramento, a catequese é apresentada como obra heroica, marcada pelo sacrifício, pela perseverança e pelo êxito espiritual, ao mesmo tempo em que os povos indígenas são frequentemente designados por termos que os aproximam da animalização. Tais constatações podem ser feitas a partir do fragmento a seguir:
Por causa desse embrutecimento, e engolfados por obstáculos quase insuperáveis, os missionários, sabendo que Deus pode suscitar filhos até das pedras, continuaram a obra evangélica com zelo infatigável. Esse extraordinário trabalho foi coroado de sucesso e a seu tempo trouxe frutos abundantes. Tribos inteiras foram convertidas ao cristianismo, cidades foram fundadas, e o Brasil pôde ser povoado por um povo civilizado e cristão retirado das selvas. E onde não conseguiram fundar cidades e estabelecer comunidades cristãs, os missionários conseguiram pelo menos instilar no coração dos selvagens a ideia da própria dignidade, e lançar a semente que ainda hoje, embora desconhecido a quem não conhece o selvagem, não para de produzir frutos e oferecer esperança de um futuro e completo ressurgimento (Monza, 2018[1909], p. 40).
Nesse sentido, Monza (2018[1909]) segue uma organização na qual a missão assume o papel de civilizador. Essa definição não é neutra, ela cria a justificativa para as ações de conversão e proteção. Mesmo que Cruz tente recuperar a imagem de Cacique, sua narrativa ainda se encaixa nesse padrão que retrata a liderança indígena como algo reativo. O que acontece é o exemplo do assujeitamento exemplificado por Pêcheux (1995), os sujeitos acreditam estar expressando suas próprias ideias, quando estão reproduzindo padrões discursivos pré-definidos que determinam o que é socialmente aceitável pensar e dizer sobre cada grupo.
Orlandi (2007) explica que o silêncio não consiste em uma ausência, mas parte constitutiva na produção de sentidos. Em Alto Alegre, o silêncio se manifesta de duas maneiras principais: o apagamento da voz indígena nos registros escritos e a desvalorização de suas motivações políticas. Esse funcionamento do silêncio indica que a memória do conflito é atravessada por disputas entre os dizeres e os não dizeres. Portanto, o que se conhece sobre o conflito não é sua totalidade, mas o resultado de processos discursivos que selecionam e ocultam elementos de acordo com interesses ideológicos.
A disputa em torno da nomeação dos sujeitos e do evento em si não se limita a organizar as narrativas sobre Alto Alegre, ela estabelece, sobretudo, as condições para a circulação e o silenciamento das memórias. Nessa perspectiva, Borges (2013, p. 14) salienta que o ato de nomear pode ocultar a ação histórica, uma vez que o ato de nomear oculta as circunstâncias e os agentes do processo histórico (quem, quando, como, onde), fazendo com que apenas o resultado final, no caso, a ideia de proteção se torne visível, ao mesmo tempo em que apaga e silencia qualquer traço de resistência. Dessa forma, a nomeação do evento está ligada à memória discursiva, uma vez que todo enunciado só produz efeitos quando se apoia em outros já ditos, revisando sentidos e ideologias por meio do interdiscurso.
A análise da nomeação, quando aplicada ao Conflito/Massacre de Alto Alegre, permite mostrar como discursos em conflito sejam eles colonial, missionário, estatal, indígena, geraram interpretações divergentes do acontecimento. Tal situação indica, sobretudo, a persistência e a intensidade com que tais significados permanecem na memória coletiva.
4. UM FECHO ABERTO (CONSIDERAÇÕES FINAIS)
Ao longo deste trabalho, discutiu-se a produção de sentidos acerca do Conflito/Massacre de Alto Alegre a partir da perspectiva da Análise do Discurso de filiação materialista, considerando que os sentidos não são transparentes nem naturais, mas resultam de processos históricos, ideológicos e discursivos. Sobretudo, as noções de memória discursiva, posição-sujeito e nomeação foram aplicadas, entendendo que os discursos que narram o acontecimento não só descrevem fatos, mas também criam interpretações, estabelecem versões e geram silenciamentos. Nesse percurso, observou-se que o evento de Alto Alegre funciona como um objeto discursivo atravessado por disputas de sentido, nas quais diversas formações discursivas se enfrentam.
O objetivo geral deste estudo foi analisar os discursos que circulam em torno do conflito/massacre de Alto Alegre, levando em consideração os processos de formação das posições de sujeito e os efeitos de sentido gerados pela memória discursiva. Para isso, buscou-se identificar as posições-sujeito presentes nas narrativas missionárias e literárias, analisar os saberes já-ditos que sustentam essas narrativas e entender como certos sentidos são reiterados ou deslocados ao longo do tempo. A análise do corpus, formado pelas obras de Monza (2018[1909]) e Cruz (1982), viabilizou a percepção de como essas materialidades discursivas se relacionam com diferentes memórias e produzem interpretações distintas do mesmo acontecimento histórico.
Através da análise mobilizada, foi possível constatar que a designação do evento como conflito ou massacre não se trata de uma escolha neutra, mas de um gesto discursivo que aciona memórias e posiciona sujeitos de maneira específica. Os indígenas são geralmente retratados como indivíduos rebeldes e violentos nos relatos missionários, ao passo que os frades são apresentados como mártires e civilizadores. Isso resulta na neutralização da violência religiosa e estatal. Em contrapartida, a narrativa literária de Cruz (1982) possibilita um deslocamento desses sentidos, reinscrevendo Caiuré Imana como sujeito de resistência e evidenciando as condições de desigualdade que atravessaram a vivência indígena. Esses deslocamentos mostram a atuação da memória discursiva como um espaço para retomar, apagar e reinterpretar.
Além disso, notou-se que o silêncio também exerce função na produção dos sentidos sobre Alto Alegre, particularmente no silenciamento das vozes indígenas e na deslegitimação de suas movimentações políticas. Segundo Orlandi (2007), o silêncio não deve ser entendido como falta ou vazio, mas como um elemento constitutivo do discurso, responsável por produzir e organizar sentidos. No caso em questão, o silêncio desempenha um papel na determinação do que pode ou não ser dito sobre o acontecimento. Dessa forma, o que se mantém na memória social não é o acontecimento completo, mas uma versão moldada a partir de interesses ideológicos particulares, apoiada por um conjunto de afirmações prévias que direcionam a interpretação.
Ressalva-se, entretanto, que esta pesquisa possui delimitações devido ao recorte do corpus, pois se concentrou em duas obras específicas e não considerou outras materialidades discursivas igualmente significativas, como jornais da época ou relatos dos próprios indígenas. Ademais, o objetivo da análise não foi esgotar as discussões possíveis acerca do conflito/massacre de Alto Alegre, mas ressaltar alguns de seus modos de funcionamento discursivo. Nessa perspectiva, aponta-se a necessidade de novos estudos que ampliem o corpus e aprofundem o diálogo entre a Análise do Discurso e esse importante acontecimento histórico, contribuindo para a problematização das narrativas visando o reconhecimento da diversidade de memórias que atravessam esse evento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Graduação em Licenciatura em Letras, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Barra do Corda, Maranhão, Brasil. E-mail: [email protected]
2 Mestre em Letras, Universidade Federal do Piauí (UFPI), Teresina, Piauí, Brasil. E-mail: [email protected]
3 Doutor em Linguística, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Barra do Corda, Maranhão, Brasil. E-mail: [email protected]
4 A Linguística Distribucional, desenvolvida sobretudo a partir dos trabalhos de Zellig Harris, parte do princípio de que as unidades linguísticas podem ser descritas a partir das regularidades de sua distribuição nos enunciados, isto é, das posições e combinações que ocupam em relação a outras unidades no interior da cadeia linguística, sem recorrer, num primeiro momento, a categorias semânticas ou extralinguísticas.
5 Cumpre dizer que, em se tratando da noção de sujeito no escopo da AD, não estamos tratando de um ser encarnado nem tampouco de uma categoria gramatical, mas de um construto teórico, o qual se define de forma diversa a depender da vertente da AD.
6 Assumir o sentido como uma produção é ter em vista que o processo interpretativo e de significação é acentuadamente ideológico, como se verá ao longo deste texto.