PRÁTICAS DE LETRAMENTO NO INSTAGRAM: LEITURA, ESCRITA E INTERAÇÃO SOCIAL

LITERACY PRACTICES ON INSTAGRAM: READING, WRITING, AND SOCIAL INTERACTION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790306880

RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar as práticas de letramento mobilizadas por usuários no Instagram, considerando as escolhas dos internautas nas configurações e na organização de perfis, bem como nas interações estabelecidas nos comentários. Ancorado na perspectiva dos letramentos como práticas sociais, especialmente nos estudos de Street (2014), Kleiman (1995) e Soares (2009), o trabalho compreende as práticas de letramento como um conjunto de conhecimento mediado pelo uso da leitura e da escrita enquanto práticas sociais que possibilita a participação social dos indivíduos no Instagram. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo-interpretativo, que analisa perfis, interações e postagens da plataforma, com foco em elementos como biografia, hashtags e recursos interacionais, como menções e comentários. Os resultados evidenciam que os internautas mobilizam tais recursos de forma estratégica, não apenas para comunicação, mas para construção de identidade, ampliação de visibilidade e estabelecimento de relações sociais com outros internautas. Observa-se que práticas, tais como, o uso de hashtags e menções configuram-se como formas de práticas de letramento que orientam a participação e a interação na rede social. Conclui-se que o letramento no Instagram ultrapassa o domínio técnico, constituindo-se como prática social complexa, na qual os internautas atuam de forma situada, mobilizando conhecimentos e estratégias para interagir e produzir sentidos no ambiente interacional do Instagram.
Palavras-chave: letramento; práticas de letramento; Instagram; interação social.

ABSTRACT
This article aims to analyze the literacy practices mobilized by users on Instagram, considering both profile configuration and the interactions established through the platform. Grounded in the perspective of literacy as a social practice, especially in the studies of Brian Street, Angela Kleiman and Magda Soares, the study understands literacy practices as socially situated actions mediated by reading and writing in digital environments. Methodologically, this is a qualitative and descriptive-interpretative study developed through a case study on Instagram. The corpus consists of public profiles, comments and interactional resources available on the platform, with emphasis on biographies, hashtags, mentions and comments. The analyses reveal that users strategically mobilize these resources not only for communication purposes, but also for identity construction, visibility expansion and the establishment of social relations within the platform. The results indicate that practices such as the use of hashtags, mentions and profile organization constitute literacy practices that guide participation and interaction in digital environments. It is concluded that literacy on Instagram goes beyond technical skills, constituting a complex social practice through which users produce meanings and participate in interactional dynamics mediated by language.
Keywords: literacy; literacy practices; Instagram; social interaction.

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, os estudos sobre letramento têm se deslocado de uma perspectiva centrada na decodificação e na aquisição de habilidades técnicas para uma abordagem que compreende o letramento como prática social, situada e ideologicamente marcada. Nessa direção, autores como Street (1986) problematizam a concepção autônoma de letramento, propondo um modelo ideológico que considera as práticas de leitura e escrita como intrinsecamente relacionadas aos contextos socioculturais em que se realizam. Tal mudança paradigmática torna-se ainda mais relevante no cenário contemporâneo, marcado pela intensificação das interações mediadas por tecnologias digitais.

Com o advento das redes sociais, especialmente plataformas como o Instagram, observa-se a emergência de novas formas de produção, circulação e interpretação de sentidos, que mobilizam não apenas a linguagem verbal, mas também recursos imagéticos, sonoros e gráficos. Nesse ambiente, os internautas não apenas leem e escrevem, mas constroem identidades, performam papéis sociais e estabelecem relações por meio de práticas de letramento que são, ao mesmo tempo, multimodais e interacionais. Assim, compreender o letramento no contexto digital implica reconhecer a articulação entre diferentes semioses e a centralidade da multimodalidade na produção de significados.

Além disso, as contribuições dos estudos de multiletramentos, especialmente a partir do New London Group (1996), ampliam essa discussão ao enfatizar a necessidade de considerar a diversidade cultural e semiótica nas práticas contemporâneas de linguagem. No Instagram, essa diversidade se manifesta na configuração dos perfis, na elaboração de biografias, no uso de emojis, hashtags e imagens, elementos que funcionam como pistas interpretativas e orientam a leitura que outros usuários fazem desses perfis. Desse modo, o perfil digital pode ser compreendido como um espaço que possibilita a construção identitária e de negociação de sentidos com o outro.

Nesse contexto, as interações entre usuários não ocorrem de forma neutra, mas são mediadas por essas construções discursivas, que influenciam diretamente a produção de comentários, julgamentos e formas de engajamento. A leitura da biografia de um perfil, por exemplo, pode antecipar posicionamentos, atribuir credibilidade ou suscitar rejeições, evidenciando que as práticas de letramento no ambiente digital estão profundamente imbricadas com processos de interpretação e avaliação do outro.

Diante dessas considerações, este artigo tem como objetivo geral analisar as práticas de letramento presentes nas configurações dos perfis no Instagram. Especificamente, buscou-se analisar as práticas de letramento estão presentes nos comentários e observar o modo como os internautas utilizam recursos da plataforma enquanto práticas de letramento ideológico na organização dos perfis.

No que diz respeito à metodologia, a pesquisa se insere em uma abordagem qualitativa, de natureza interpretativista, ancorada em pressupostos dos estudos de letramento. O corpus é constituído por perfis públicos e privados do Instagram, com ênfase em biografias e interações em comentários. Contudo, vale salientar, que buscou-se sempre preservar a identidade dos internautas quando analisado perfis privados. A análise considerou os aspectos verbais, buscando compreender as práticas de letramento materializadas por meio da escrita.

Ao investigar práticas de letramento no Instagram, este estudo buscou contribuir para as discussões acerca dos usos sociais da linguagem em ambientes mediados por tecnologias digitais. Embora a pesquisa tenha sido desenvolvida em contexto digital, o foco analítico não se concentrou no letramento digital em sua dimensão técnica ou instrumental, mas nas práticas de letramento mobilizadas pelos usuários nas interações estabelecidas na plataforma. Nesse sentido, o ambiente digital foi compreendido como espaço de ocorrência das práticas analisadas, privilegiando-se a investigação das formas de participação, interação e produção de sentidos mediadas pela linguagem.

Ademais, buscou-se oferecer subsídios para reflexões no campo da teoria do Letramento, conforme defende Street, especialmente no que se refere à compreensão das práticas de linguagem que emergem fora do contexto escolar, mas que possuem implicações diretas para o ensino e a aprendizagem da língua.

Quanto à organização do texto, este artigo encontra-se estruturado em cinco seções. Inicialmente, apresenta-se a introdução, na qual são discutidos os objetivos, a relevância da pesquisa e a delimitação do estudo. Em seguida, o referencial teórico aborda os conceitos de letramento, práticas de letramento e suas ocorrências em ambientes digitais, com ênfase no Instagram enquanto espaço de interação social. Posteriormente, a seção metodológica descreve os procedimentos de geração e análise dos dados. Na sequência, apresentam-se as análises das práticas de letramento observadas na configuração dos perfis e nas interações estabelecidas na plataforma. Por fim, são expostas as considerações finais, nas quais se retomam os principais resultados da pesquisa e suas contribuições para os estudos de letramento.

2. PERCURSO TEÓRICO

A compreensão das práticas de linguagem na contemporaneidade exige o deslocamento de perspectivas tradicionais de ensino e análise da língua para abordagens que considerem a dimensão social, histórica e ideológica dos usos da linguagem. Nesse sentido, o conceito de letramento constitui um eixo central para esta pesquisa, sobretudo a partir das contribuições de Brian Street (2013), que propõe a distinção entre os modelos autônomo e ideológico de letramento. Enquanto o modelo autônomo entende o letramento como um conjunto de habilidades neutras e universais, o modelo ideológico o concebe como prática social situada, atravessada por relações de poder, valores culturais e contextos específicos de uso. “Ou seja, as práticas letradas são produtos da cultura, da história, da escrita” (Bagno, 2014, p. 9).

Nessa perspectiva, o letramento não se restringe à capacidade de ler e escrever, mas envolve modos de participação social mediados pela linguagem, o que implica reconhecer a existência de diferentes práticas de letramento. Conforme destacam Barton e Hamilton (2015), os letramentos são práticas sociais que se materializam em eventos concretos, nos quais sujeitos utilizam a linguagem para agir no mundo. Esses autores difundem a noção de “eventos de letramento” e “práticas de letramento”, sendo estas últimas entendidas como padrões culturais mais amplos que dão sentido aos eventos observáveis, consoante Soares (2009).

O conceito de práticas de letramento, portanto, é fundamental para esta investigação, uma vez que permite analisar como os sujeitos mobilizam recursos linguísticos e semióticos em contextos específicos, como o ambiente digital. As práticas de letramento envolvem não apenas o que os sujeitos fazem com a linguagem, mas também os significados que atribuem a essas ações, bem como as normas e expectativas que orientam tais usos. Assim, ao investigar o Instagram, interessa compreender quais práticas são mobilizadas pelos usuários na construção de seus perfis e nas interações estabelecidas na plataforma.

No contexto das transformações tecnológicas, as práticas de letramento passaram a ocorrer também em ambientes digitais, nos quais diferentes recursos de linguagem são mobilizados pelos sujeitos nas interações sociais. Nesses espaços, a leitura e a escrita articulam-se a elementos como imagens, emojis, hashtags e outros recursos disponíveis nas plataformas digitais, ampliando as formas de produção e circulação de sentidos.

No Instagram, tais práticas tornam-se visíveis na configuração dos perfis e nas formas de interação estabelecidas entre os usuários. A plataforma possibilita a produção de conteúdos por meio da combinação de recursos verbais e visuais, exigindo dos sujeitos competências relacionadas ao uso social da linguagem em contextos digitais específicos.

Nesse cenário, as práticas de letramento no Instagram envolvem não apenas a produção de textos escritos, mas também a mobilização estratégica de diferentes recursos da plataforma. Elementos como biografia, nome de usuário, hashtags, emojis e comentários são utilizados pelos internautas para construir formas de participação e interação social, orientando a maneira como os sujeitos se apresentam e estabelecem relações no ambiente digital.

Assim, o Instagram configura-se como um espaço de ocorrência de práticas de letramento contemporâneas, nas quais os usuários mobilizam conhecimentos relacionados à leitura, à escrita e à interação social para participar das dinâmicas comunicativas da plataforma.

Dessa forma, ao articular os conceitos de letramento, práticas de letramento e multimodalidade, buscou-se analisar as práticas de letramento presentes nas configurações dos perfis no Instagram. A análise do Instagram, enquanto espaço de práticas de letramento, permite evidenciar as transformações nas formas de uso da linguagem na contemporaneidade, contribuindo para o avanço das discussões no campo dos estudos de letramento.

2.1. As Práticas de Letramento no Instagram

O advento das tecnologias digitais tem promovido transformações significativas nas formas de interação social, impactando diretamente os modos de uso da linguagem nas diversas esferas da vida cotidiana. Nesse cenário, conforme Ribeiro (2009), o letramento deixa de ser compreendido apenas como domínio da leitura e da escrita em suportes tradicionais e passa a abarcar práticas sociais mediadas por tecnologias, nas quais diferentes linguagens e recursos semióticos são mobilizados Tais transformações evidenciam que o modo como os sujeitos se comunicam e interagem na contemporaneidade difere substancialmente daquele observado em períodos anteriores, especialmente no que se refere à velocidade, à multimodalidade e à ampliação dos espaços de participação social.

Nessa perspectiva, Thompson (1998, p. 29) destaca que “quando indivíduos codificam ou decodificam mensagens, eles empregam não somente habilidades e competências requeridas pelos meios técnicos, mas também várias formas de conhecimento e suposições de fundo que fazem parte dos recursos culturais que eles trazem para apoiar o processo de intercâmbio simbólico”. Essa afirmação permite compreender que, no ambiente digital, as práticas de letramento não se limitam ao uso técnico das ferramentas, mas envolvem repertórios socioculturais que orientam a produção e a interpretação de sentidos nas interações mediadas.

O autor também ressalta que “o distanciamento espacial foi aumentando, enquanto a demora temporal foi sendo virtualmente eliminada” (Thompson, 1998, p. 36), evidenciando mudanças estruturais nas formas de comunicação contemporâneas. Esse processo contribui para a emergência de práticas de letramento marcadas pela instantaneidade e pela intensificação das interações sociais em ambientes digitais.

No campo dos estudos de letramento, Kleiman (2008, p. 7) afirma que “o domínio de outros usos e funções da escrita significativa [representa], efetivamente, o acesso a outros mundos, públicos e institucionais, como o da mídia, da burocracia, da tecnologia, e, por meio deles, a possibilidade de acesso ao poder”. No contexto digital, essa perspectiva torna-se ainda mais relevante, uma vez que o domínio das práticas de letramento possibilita aos sujeitos não apenas participar, mas também alcançar visibilidade e inserção social em plataformas digitais.

A partir dessa perspectiva, emergem novas práticas de letramento que se constituem no ambiente digital e que demandam dos sujeitos o desenvolvimento de habilidades específicas para atuar de forma significativa nesses contextos. Conforme propõe Street (1985), o letramento deve ser compreendido como prática social, o que implica reconhecer que seus usos e significados variam de acordo com os contextos e as tecnologias disponíveis. Assim, o letramento no ambiente digital não se restringe ao uso técnico de ferramentas, mas envolve a capacidade de interpretar, produzir e interagir por meio de múltiplas linguagens.

Nesse contexto, as redes sociais digitais configuram-se como espaços privilegiados para a realização dessas práticas, uma vez que permitem a produção, circulação e compartilhamento de conteúdos em larga escala. Plataformas como o Instagram exemplificam esse fenômeno ao integrar diferentes modos de comunicação, como texto, imagem, vídeo e recursos gráficos, em uma mesma interface. Assim exigindo dos usuários competências que articulam diferentes formas de letramento.

Além disso, o conceito de multiletramentos, desenvolvido pelo New London Group, contribui para a compreensão dessas práticas ao enfatizar a diversidade cultural e a multiplicidade de linguagens presentes no ambiente digital. Nesse sentido, os sujeitos não apenas leem e escrevem, mas também interpretam imagens, utilizam emojis, produzem vídeos e interagem por meio de diferentes recursos, evidenciando a complexidade das práticas de letramento na era digital.

Dessa forma, o letramento no ambiente digital pode ser compreendido como um conjunto de práticas sociais que envolvem o uso de tecnologias para a produção e interpretação de sentidos, exigindo dos sujeitos competências que vão além da alfabetização tradicional. Segundo Ribeiro (2009, p. 26), “pensamos que seja o domínio (ou não), pelo leitor, dos gestos e das técnicas de ler e escrever em ambientes que empregam tecnologia digital”. Tais técnicas estão diretamente relacionadas às formas contemporâneas de interação, nas quais a linguagem se articula a diferentes modos semióticos e se insere em dinâmicas sociais mediadas por plataformas digitais. Assim, investigar o letramento nesse contexto torna-se fundamental para compreender como os sujeitos participam, interagem e constroem significados na sociedade atual.

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa insere-se no campo dos estudos sobre Letramento. Adotamos uma abordagem qualitativa, de natureza interpretativista, para análise dos dados, por compreendermos que as práticas de letramento no ambiente digital são fenômenos complexos, situados e atravessados por dimensões sociais, discursivas e ideológicas interpretáveis e dinâmicas. Tal perspectiva permite analisar não apenas os produtos linguísticos, mas também os processos de construção de sentidos e as relações estabelecidas entre os internautas em contextos específicos de interação mediada pelo uso da escrita e da leitura.

No que diz respeito aos objetivos, este estudo caracteriza-se como descritivo, com um caráter analítico. A pesquisa descritiva, conforme Gil (2002, p. 42), tem como propósito primordial “a descrição das características de determinada população ou fenômeno”, sem a necessidade de manipulação das variáveis envolvidas.

Do ponto de vista metodológico, este estudo configura-se como uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo-interpretativo, desenvolvida a partir de um estudo de caso no Instagram. Consoante Paiva (2019, p. 13) “[...] é também chamada de pesquisa interpretativa ou naturalística”, pois investiga os fenômenos no seu ambiente natural e permite interpretações do pesquisador. A escolha desse procedimento metodológico justifica-se pela necessidade de analisar práticas de letramento em seu contexto de ocorrência, considerando as especificidades da plataforma enquanto espaço de interação social, circulação de conteúdos e construção de identidades digitais.

O estudo concentra-se na análise de perfis e publicações da plataforma, observando elementos como biografia, hashtags, comentários e recursos interacionais mobilizados pelos usuários. A investigação buscou compreender como tais recursos são utilizados pelos usuários e evidenciam práticas de letramento no contexto das interações no Instagram. Desse modo, evidenciam-se articulações entre leitura, escrita, tecnologia e práticas sociais.

O corpus da pesquisa é constituído por perfis públicos de usuários da plataforma Instagram, com ênfase nos seguintes elementos: (i) biografias dos usuários e (II) interações em comentários de postagens. A seleção dos perfis segue critérios intencionais, a saber: (a) perfis com alto nível de engajamento (número significativo de curtidas e comentários); (b) diversidade de perfis (usuários comuns, influenciadores digitais, perfis institucionais); e (c) acessibilidade pública dos dados, respeitando os limites éticos da pesquisa em ambientes digitais.

No que se refere aos procedimentos de geração de dados, foi realizada a observação sistemática dos perfis selecionados, com registro e organização do material. Foram coletados recortes de biografias, capturas de tela (screenshots) de perfis e comentários. A coleta dos dados ocorreu no primeiro semestre de 2026, período previamente delimitado, a fim de garantir a consistência analítica do corpus.

No âmbito dos letramentos, adota-se a concepção de letramento como prática social, conforme Street (1984), considerando que as práticas de letramentos no Instagram são situadas em eventos observáveis e carregadas de valores e ideologias.

Para fins analíticos, os dados foram organizados em categorias previamente definidas, construídas a partir dos objetivos da pesquisa e refinados durante o processo de análise. Dentre essas categorias, destacam-se: (i) configuração do perfil como prática de letramento; (ii) biografia como recurso de interação social; (iii) leitura e interpretação do perfil pelo outro e (iv) práticas de interação mediadas pelo perfil. Essas categorias possibilitam uma análise sistemática das relações entre práticas de letramento, construção identitária e interação social no Instagram.

No que se refere aos aspectos éticos, a pesquisa utilizou apenas dados disponíveis publicamente no Instagram, considerando conteúdos acessíveis sem restrição de acesso. Nos casos em que os perfis analisados pertencem a figuras públicas ou profissionais que utilizam a plataforma como espaço de atuação e divulgação, a identificação foi mantida em razão da natureza pública das informações analisadas. Já em relação a usuários não públicos, buscou-se preservar a identidade dos participantes sempre que possível, mediante a não divulgação de informações sensíveis ou desnecessárias à análise.

Além disso, a utilização das imagens e publicações teve finalidade exclusivamente acadêmica, sendo os dados analisados apenas no contexto das práticas de letramento investigadas neste estudo. Assim, a pesquisa segue as orientações para estudos em ambientes digitais, considerando os limites entre o público e o privado no contexto das redes sociais.

Por fim, reconhece-se que, embora o Instagram seja um ambiente dinâmico e em constante transformação, o recorte metodológico adotado permite uma análise consistente das práticas de letramento em um determinado período e contexto, contribuindo para a compreensão das formas contemporâneas de uso da linguagem em ambientes digitais.

O corpus da pesquisa é formado por dois perfis públicos e seis comentários, selecionados com o objetivo de evidenciar práticas de letramento presentes nas interações estabelecidas no Instagram. A escolha dos perfis ocorreu de forma intencional, considerando a relevância dos elementos observados para os objetivos da pesquisa, especialmente no que se refere à configuração dos perfis, ao uso de recursos da plataforma e às formas de interação mediadas pela escrita.

No que diz respeito aos comentários analisados, estes foram coletados em uma publicação da página Folha de S.Paulo, publicada em abril de 2026, durante o período da missão espacial Artemis II. A escolha dessa publicação justifica-se pelo elevado nível de interação entre os usuários, possibilitando a observação de práticas de letramento materializadas nos comentários e nas dinâmicas interacionais da plataforma.

4. PRÁTICAS DE LETRAMENTO E FORMAS DE PARTICIPAÇÃO NO INSTAGRAM

Ao analisar como as práticas de letramento orientam formas de participação e interação entre usuários no Instagram, é necessário compreender que essas práticas se manifestam desde o momento inicial de inserção do internauta na plataforma. Pois ao criar um perfil, os usuários passam a mobilizar um conjunto de conhecimentos e estratégias que configuram modos específicos de uso da linguagem em ambiente digital.

Nesse contexto, a configuração do perfil constitui uma prática de letramento digital que envolve escolhas significativas, as quais não são aleatórias, mas orientadas por finalidades sociais. Essas práticas perpassam desde a seleção do nome de usuário até a definição de elementos como biografia, imagem de perfil e configurações de visibilidade. A escolha do nome de usuário, por exemplo, pode indicar identidade pessoal, posicionamento profissional ou pertencimento a determinados grupos sociais, evidenciando que o letramento, nesse ambiente, está diretamente relacionado à forma como o sujeito se insere e se apresenta socialmente. Podemos verificar isto no perfil a seguir, da apresentadora Ana Maria Braga.

Figura 1. Perfil público da apresentadora Ana Maria Braga

Fonte: Instagram. Acesso em: 5 de abril de 2026

Nota-se ainda outro aspecto relevante diz respeito à definição do tipo de perfil — público ou privado —, que implica diferentes formas de participação na plataforma. Usuários que optam por perfis privados tendem a restringir a circulação de suas produções, estabelecendo interações mais controladas e direcionadas a um público específico. Por outro lado, aqueles que mantêm perfis públicos, isso pode ser observado no caso do perfil da apresentadora Ana Maria Braga, ampliam suas possibilidades de participação, favorecendo maior visibilidade, alcance e engajamento. Essa escolha configura uma prática de letramento que envolve não apenas o domínio técnico da plataforma, mas também a compreensão de suas dinâmicas sociais e comunicativas.

Além disso, observa-se que o Instagram tem sido amplamente utilizado como ferramenta de trabalho, especialmente para a divulgação de serviços e produtos. Nesse caso, as práticas de letramento assumem um caráter estratégico, uma vez que os usuários passam a organizar seus perfis de modo a atrair seguidores, estabelecer credibilidade e promover interação com potenciais clientes. Elementos como a biografia, o uso de hashtags, a marcação de outros perfis e a interação por meio de comentários e mensagens diretas passam a ser utilizados como recursos que ampliam a visibilidade e favorecem a construção de redes de contato. Podemos observar este fenômeno na imagem a seguir:

Figura 2. Perfil público da página Unitexto

Fonte: Instagram. Acesso em: 5 de abr de 2026

Ao analisar o perfil apresentado, observa-se que o Instagram é mobilizado como um espaço de atuação profissional, no qual práticas de letramento assumem um caráter estratégico e orientado para fins específicos, como a captação de clientes e a divulgação de serviços. Nesse contexto, o perfil não se configura apenas como um espaço de apresentação pessoal, mas como um ambiente de circulação de práticas sociais mediadas pela linguagem.

A biografia do perfil evidencia a construção de uma identidade voltada para um público-alvo específico, candidatos a concursos públicos, o que se materializa na seleção lexical (“Redação para concursos públicos”, “notas máximas”) e na organização das informações. Essa configuração revela uma prática de letramento que envolve o domínio de formas de escrita socialmente reconhecidas como legítimas nesse contexto, especialmente aquelas associadas à credibilidade e à autoridade.

Além disso, o uso de emojis (como troféus, alfinetes e setas) não se limita a um recurso estético, mas atua como estratégia de organização da informação e de direcionamento da leitura, funcionando como elementos que destacam informações relevantes e orientam a atenção do usuário. Trata-se, portanto, de uma prática de letramento multimodal, na qual diferentes recursos semióticos são articulados para potencializar os efeitos de sentido e a eficácia comunicativa.

Outro aspecto relevante diz respeito à inserção de link externo (WhatsApp), que amplia as possibilidades de interação ao deslocar o usuário para outros ambientes digitais. Essa prática evidencia o conhecimento das dinâmicas da plataforma e a capacidade de mobilizar diferentes ferramentas para fins comunicativos e comerciais, caracterizando um letramento digital voltado para a gestão de redes de contato.

Ademais, a organização dos destaques (como “Feedbacks”, “Correção” e “Mentorias”) funciona como uma estratégia de categorização de informações, permitindo ao usuário acessar conteúdos específicos de forma rápida e direcionada. Essa prática revela não apenas o domínio técnico da ferramenta, mas também a compreensão de como estruturar informações de maneira funcional e atrativa para o público.

Dessa forma, o perfil analisado evidencia que as práticas de letramento no Instagram estão diretamente relacionadas à construção de visibilidade, à produção de credibilidade e à mediação de relações sociais no ambiente digital. Tais práticas demonstram que o letramento, nesse contexto, envolve competências que articulam linguagem, tecnologia e objetivos sociais específicos, especialmente quando a plataforma é utilizada como ferramenta de trabalho.

A análise do perfil evidencia que as práticas de letramento mobilizadas na sua configuração não se restringem à construção de uma identidade profissional ou à organização de informações, mas também orientam as formas de interação estabelecidas na plataforma. Nesse sentido, os recursos utilizados na estruturação do perfil, como biografia, destaques e links, funcionam como elementos que preparam e direcionam as dinâmicas interacionais. A funcionalidade de menção em comentários, por exemplo, evidencia uma prática de letramento que articula linguagem e interação social. Ao mencionar outros usuários, o internauta não apenas estabelece uma conexão direta, mas também amplia o alcance da interação, inserindo novos participantes na dinâmica comunicativa. Essa prática revela que o letramento no ambiente digital envolve a compreensão das ferramentas disponíveis na plataforma e sua utilização para fins específicos de interação e circulação de conteúdos. Como podemos observar as menções no print a seguir:

Figura 3. Comentários retirados do Instagram

Fonte: Instagram. Acesso em: 6 de abr de 2026

Dessa forma, as práticas de letramento no Instagram orientam as formas de participação dos usuários ao definir quem pode acessar, interagir e compartilhar conteúdos, bem como ao influenciar as estratégias utilizadas para estabelecer relações na plataforma. Tais práticas evidenciam que o letramento não se limita ao domínio técnico, mas envolve competências sociais e comunicativas que permitem aos internautas atuar de maneira eficaz em ambientes digitais.

Assim, ao observar a configuração dos perfis e as formas de interação no Instagram, é possível compreender que os usuários mobilizam práticas de letramento que estruturam suas formas de participação, evidenciando a relação entre linguagem, tecnologia e práticas sociais na contemporaneidade.

Os mecanismos de letramento observados nesse ambiente revelam-se intensamente situados, uma vez que refletem tanto as condições socioculturais dos indivíduos quanto as especificidades dinâmicas e contextuais das redes sociais. Cada comentário, compartilhamento ou resposta torna-se um elo de uma intricada rede que articula valores culturais, ideologias e relações de poder, exercendo uma influência mútua na maneira como os argumentos são formados, difundidos e recebidos. Dessa forma, as interações digitais transcendem a simples transmissão de informações, transformando-se em espaços dinâmicos onde experiências pessoais e contextos coletivos se entrelaçam para a construção de sentidos complexos e multifacetados.

Nessa perspectiva, observa-se o papel central da leitura e da escrita nas interações estabelecidas no Instagram, uma vez que essas práticas possibilitam aos usuários sua inserção nas dinâmicas interacionais da plataforma.

4.1. Uso de Recursos da Plataforma Como Práticas Sociais

A análise das práticas de letramento no Instagram evidencia que os usuários mobilizam diferentes recursos da plataforma como formas de participação e interação social. Tais práticas não se restringem apenas à escrita, mas envolvem o uso articulado entre escrita e os elementos específicos do ambiente digital, tais como, menções nos comentários, menções nas biografias, uso articulado de escrita e emojis e hashtags destinadas a determinado público.

A utilização do recurso de menção, por meio do símbolo “@”, constitui uma prática de letramento que permite ao usuário estabelecer conexões diretas com outros perfis, ampliando o alcance da interação e inserindo novos participantes na dinâmica comunicativa. Essa prática exige não apenas o domínio técnico da ferramenta, mas também a compreensão de seu funcionamento social, uma vez que a menção pode ser utilizada para convocar, referenciar ou incluir outros sujeitos na interação. Além disso, essa prática só é materializada através do processo de escrita.

De modo semelhante, a resposta a comentários configura-se como uma prática de letramento que envolve a construção de sentidos em interação. Ao responder a um comentário, o usuário mobiliza estratégias linguísticas e discursivas que indicam posicionamento, concordância, discordância ou negociação de sentidos, evidenciando que o letramento no ambiente digital está diretamente relacionado às formas de participação social mediadas pela linguagem e uso da escrita.

Ademais, o uso de emojis, por sua vez, amplia as possibilidades expressivas dos usuários ao introduzir elementos visuais na interação escrita. A escolha de determinados emojis não ocorre de forma aleatória, mas está relacionada à intenção comunicativa do sujeito, funcionando como recurso semiótico que complementa, reforça ou até substitui a linguagem verbal. Nesse sentido, o uso de emojis pode ser compreendido como prática de letramento multimodal, que exige dos usuários a capacidade de interpretar e produzir significados a partir de diferentes sistemas semióticos. Esses elementos podem ser observados na imagem na Figura 3.

Figura 4. comentário retirado do Instagram

Fonte: Instagram. Acesso em: 7 de abr de 2026

As hashtags também se configuram como prática de letramento no Instagram. Ao formular uma hashtag, o usuário não apenas categoriza o conteúdo, mas também o insere em fluxos mais amplos de circulação discursiva, possibilitando maior visibilidade e engajamento, . Essa prática revela o conhecimento das dinâmicas da plataforma, uma vez que o uso estratégico de hashtags pode ampliar o alcance das publicações e conectar o conteúdo a comunidades específicas. Vejamos as hashtag de uma publicação a seguir:

Figura 5.

Acesso em: 7 de abr 2026

Na imagem analisada, observa-se o uso de hashtags como #SãoPaulo, #TransportePúblico e #Segurança, que indicam a inserção da publicação em um campo temático específico, relacionado a questões urbanas e sociais. Esse uso evidencia uma prática de letramento orientada à segmentação de conteúdo e à ampliação de sua circulação na plataforma.

Além disso, as hashtags funcionam como mecanismos de indexação social, organizando o conteúdo em torno de temas, interesses ou nichos específicos. Essa prática evidencia que o letramento no Instgram envolve não apenas a produção de conteúdo, mas também a capacidade de inseri-lo em circuitos de circulação mais amplos, ampliando sua visibilidade e potencial de interação. Dessa forma, o uso de hashtags revela um tipo de competência de letramento voltada para a gestão da visibilidade no ambiente digital, na qual o sujeito não apenas comunica, mas também estrutura estrategicamente a circulação de seus enunciados na plataforma.

Dessa forma, observa-se que os elementos da plataforma não são utilizados de maneira neutra ou meramente técnica, mas constituem recursos de letramento que orientam as formas de interação e participação dos usuários no ambiente digital. Tais práticas evidenciam que o letramento no Instagram envolve competências que articulam linguagem, tecnologia e práticas sociais, exigindo dos sujeitos não apenas saber escrever, mas saber agir por meio da linguagem em contextos específicos de uso.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar as práticas de letramento mobilizadas por usuários no Instagram, considerando tanto a configuração dos perfis quanto as formas de interação estabelecidas na plataforma. A partir da perspectiva do letramento como prática social, foi possível compreender que os usos da linguagem nesse ambiente extrapolam o domínio técnico e se configuram como ações situadas, orientadas por finalidades específicas.

As análises evidenciaram que os internautas mobilizam diferentes recursos da plataforma, tais como, biografia, nome de usuário, hashtags, emojis, menções e comentários, como estratégias de letramento que articulam linguagem, tecnologia e práticas sociais. Tais recursos não são utilizados de forma neutra, mas organizados de modo a construir identidades, segmentar públicos, ampliar visibilidade e favorecer a interação entre os usuários.

Observou-se, ainda, que o Instagram tem sido apropriado como espaço de atuação profissional, no qual as práticas de letramento assumem um caráter estratégico, voltado à promoção de serviços e à construção de credibilidade. Nesse contexto, elementos como a organização da biografia, o uso de emojis e hashtags e a inserção de links externos evidenciam competências relacionadas ao letramento digital e multimodal, especialmente no que se refere à gestão da visibilidade e à mediação das interações.

No que diz respeito às dinâmicas interacionais, práticas como a menção de usuários e a resposta a comentários demonstram que o letramento digital envolve a capacidade de participar ativamente de processos comunicativos mediados, nos quais os sujeitos mobilizam conhecimentos sobre o funcionamento da plataforma para estabelecer conexões, ampliar o alcance de suas mensagens e inserir-se em redes de interação.

Dessa forma, conclui-se que o letramento no Instagram se constitui como um conjunto de práticas sociais complexas, que envolvem a articulação entre diferentes modos semióticos e a mobilização de competências que permitem aos sujeitos atuar de maneira eficaz em ambientes digitais. Tais práticas evidenciam que o letramento, na contemporaneidade, está diretamente relacionado às formas de participação social, à construção de identidades e à circulação de sentidos em contextos mediados por tecnologias.

Por fim, ressalta-se que este estudo não esgota as possibilidades de análise do letramento em redes sociais digitais, abrindo espaço para investigações futuras que possam explorar outros gêneros, plataformas ou contextos de uso, bem como aprofundar a compreensão das práticas de letramento em ambientes digitais em constante transformação.

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1 Professora adjunta da Universidade Federal do Piauí. Doutora em Letras área Linguística, Universidade Federal de Pernambuco (2004); Mestre em Linguística, Universidade de Brasília (1989); Graduada em Letras, Universidade Federal do Piauí (1984). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora substituta da Secretaria de Estado da Educação do Piauí (SEDUC). Professora na Rede Particular de Ensino em Teresina. Mestranda em Linguística, Universidade Federal do Piauí. Graduada em licenciatura Plena em Letras Português, Universidade Estadual do Piauí (2022).