REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777433772
RESUMO
Este artigo, de natureza bibliográfica, analisa o uso do podcast como ferramenta didático-pedagógica ativa no contexto educacional contemporâneo. A investigação busca compreender de que modo o podcast pode promover inclusão, engajamento e protagonismo discente, considerando as demandas formativas da cultura digital e das metodologias ativas. A análise evidencia que o podcast, por ser uma mídia acessível, flexível e multimodal, favorece diferentes estilos e ritmos de aprendizagem, ampliando oportunidades de participação e personalização do ensino. Ao ser incorporado como atividade de autoria estudantil, o podcast fortalece práticas colaborativas, estimula o pensamento crítico e mobiliza competências socioemocionais, comunicacionais e cognitivas. Discute-se, ainda, sua relação com a educação inclusiva, abordando potencialidades para estudantes com necessidades específicas. Por fim, apresentam-se possibilidades de uso pedagógico, desafios de implementação e reflexões sobre a mediação docente como eixo indispensável para o uso intencional e significativo dessa tecnologia.
Palavras-chave: Podcast; Metodologias Ativas; Inclusão; Engajamento; Autoria.
ABSTRACT
This bibliographical article analyzes the use of podcasts as an active didactic-pedagogical tool in the contemporary educational context. The research seeks to understand how podcasts can promote inclusion, engagement, and student protagonism, considering the formative demands of digital culture and active methodologies. The analysis shows that podcasts, being an accessible, flexible, and multimodal medium, favor different learning styles and rhythms, expanding opportunities for participation and personalization of teaching. When incorporated as a student authorship activity, podcasts strengthen collaborative practices, stimulate critical thinking, and mobilize socio-emotional, communicational, and cognitive skills. Its relationship with inclusive education is also discussed, addressing potential for students with specific needs. Finally, possibilities for pedagogical use, implementation challenges, and reflections on teacher mediation as an indispensable axis for the intentional and meaningful use of this technology are presented.
Keywords: Podcast; Active Methodologies; Inclusion; Engagement; Authorship.
1. INTRODUÇÃO
Os avanços tecnológicos das últimas décadas têm provocado profundas transformações nas formas de aprender, ensinar e interagir com o conhecimento. A escola contemporânea, diante da cultura digital, encontra-se diante do desafio de ressignificar suas práticas pedagógicas, articulando metodologias que dialoguem com linguagens atuais, estimulem a autonomia discente e promovam experiências de aprendizagem mais significativas (MORAN, 2015). Nesse cenário, cresce o interesse por recursos multimídia que favoreçam dinamicidade, criatividade e acessibilidade, entre eles o podcast.
Considerado uma das mídias digitais mais consumidas no mundo, o podcast destaca-se pela facilidade de produção, distribuição e consumo. Sua estrutura narrativa e sua natureza auditiva permitem que ele seja utilizado tanto como recurso de acesso à informação quanto como estratégia de autoria e criação, aproximando o estudante de práticas sociais da comunicação contemporânea (JENKINS, 2009). Assim, ao ser incorporado ao ambiente escolar, o podcast pode contribuir para a ampliação do engajamento, para a promoção da inclusão e para o fortalecimento do protagonismo discente.
Neste artigo, tem-se como objetivo analisar o potencial do podcast como ferramenta ativa capaz de promover inclusão, engajamento e protagonismo discente. Para isso, discute-se o contexto histórico e conceitual dessa mídia, sua relação com metodologias ativas, suas contribuições para práticas inclusivas e suas possibilidades pedagógicas. A reflexão fundamenta-se em estudos recentes sobre tecnologia educacional, metodologias ativas, cultura digital e práticas colaborativas.
Ao articular essas discussões, busca-se contribuir para o debate contemporâneo sobre inovação pedagógica, oferecendo subsídios teóricos e práticos a educadores que desejam integrar o podcast em suas práticas de forma intencional, crítica e significativa.
Diante desse cenário, emerge a seguinte problematização: em que medida o podcast, quando integrado às metodologias ativas, pode efetivamente contribuir para práticas inclusivas e para o fortalecimento do protagonismo discente, sem incorrer em tecnicismos ou superficialidades digitais?
Tal questão orienta a análise desenvolvida neste estudo, que busca não apenas evidenciar potencialidades, mas também problematizar limites e implicações epistemológicas do uso dessa mídia no contexto escolar.
1.1. Percurso Metodológico
O presente estudo caracteriza-se como pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, fundamentada na análise crítica de produções científicas nacionais e internacionais acerca do uso de podcasts no contexto educacional. Conforme Gil (2019), a pesquisa bibliográfica permite a sistematização e interpretação de referenciais teóricos já publicados, possibilitando aprofundamento conceitual e ampliação do debate acadêmico.
Foram selecionadas obras e artigos publicados entre 2000 e 2024, considerando descritores como “podcast na educação”, “metodologias ativas”, “engajamento discente”, “educação inclusiva” e “cultura digital”. A análise concentrou-se em identificar convergências teóricas, lacunas investigativas e contribuições pedagógicas.
Adota-se como referencial epistemológico a perspectiva crítico-reflexiva da educação, dialogando com Freire (1996) e com abordagens contemporâneas da aprendizagem ativa (MORAN, 2015), articuladas às demandas da cultura digital (JENKINS, 2009).
A seleção do corpus teórico considerou relevância acadêmica, recorrência temática e impacto das obras na área educacional. A análise foi conduzida por meio de leitura analítica e interpretativa, buscando identificar categorias emergentes relacionadas à inclusão, engajamento, protagonismo e mediação docente.
Optou-se por abordagem crítico-reflexiva, inspirada na pedagogia problematizadora de Paulo Freire, compreendendo a tecnologia não como elemento neutro, mas como prática social inserida em contextos históricos e culturais.
2. CONTEXTO HISTÓRICO E CONCEITUAL DO PODCAST
O podcast surgiu no início dos anos 2000 como uma evolução natural das mídias sonoras digitalizadas. Seu nome combina “iPod” (aparelho portátil da Apple) e “broadcast” (transmissão), indicando desde sua origem o caráter de difusão independente e sob demanda (downloading ou streaming). A consolidação da tecnologia RSS permitiu a distribuição automatizada de novos episódios, o que impulsionou sua popularização (JENKINS, 2009).
Ao contrário do rádio tradicional, o podcast rompe com a rigidez temporal, possibilitando ao ouvinte escolher quando, onde e como consumir conteúdos. Esse aspecto trouxe maior autonomia ao usuário e ampliou o alcance de produções informativas, educativas, narrativas e jornalísticas.
Na educação, os primeiros usos ocorreram por volta de 2005–2010, principalmente no ensino superior, como recurso de apoio a aulas expositivas. Com o avanço das metodologias ativas e da aprendizagem baseada em projetos, sua função ampliou-se para práticas autorais, colaborativas e investigativas, aproximando o espaço escolar das linguagens digitais cotidianas.
3. APRENDIZAGEM ATIVA, CULTURA DIGITAL E USO PEDAGÓGICO DO PODCAST
As metodologias ativas se fundamentam na participação direta do estudante no processo de aprender, superando o modelo transmissivo e promovendo práticas que envolvem investigação, criação, colaboração e resolução de problemas. Moran (2015) defende que a aprendizagem ativa se concretiza quando o aluno experimenta, debate, produz e atribui sentido às práticas vivenciadas.
Na mesma direção, Freire (1996) enfatiza que o estudante deve ser reconhecido como sujeito histórico e cultural capaz de interpretar, questionar e transformar a realidade. O podcast, como recurso digital, estabelece diálogo com essas concepções ao mobilizar competências de comunicação, pensamento crítico, criatividade e organização de ideias.
A cultura digital, marcada pela convergência de mídias, interatividade e multiplicidade de linguagens, exige da escola novas pedagogias capazes de integrar práticas multimodais. O podcast, ao articular linguagem sonora, narrativa e argumentativa, torna-se ferramenta potente para desenvolver aprendizagens significativas e contextualizadas.
Sob a perspectiva da cibercultura, Pierre Lévy argumenta que o conhecimento contemporâneo organiza-se a partir da inteligência coletiva, na qual saberes são construídos de forma distribuída e colaborativa. A produção de podcasts por estudantes materializa essa lógica ao mobilizar pesquisa compartilhada, negociação de sentidos e autoria coletiva, deslocando o conhecimento do eixo individual para uma dimensão relacional.
3.1. Podcast e as Competências Gerais da BNCC
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece a cultura digital como competência estruturante da formação contemporânea. Ao propor que o estudante compreenda, utilize e crie tecnologias digitais de forma crítica e ética, o documento reconhece que a escola precisa dialogar com práticas comunicacionais emergentes.
Nesse sentido, a produção de podcasts alinha-se diretamente à Competência Geral 5, ao envolver criação, autoria e circulação de conteúdos digitais. Além disso, articula-se à Competência 4, relacionada à comunicação em diferentes linguagens, e à Competência 6, ao fortalecer autonomia, responsabilidade e planejamento.
Portanto, o uso pedagógico do podcast não se configura apenas como inovação metodológica, mas como estratégia coerente com as diretrizes curriculares nacionais.
4. O PODCAST COMO RECURSO ATIVO NA EDUCAÇÃO
O uso do podcast na educação pode ocorrer em diferentes dimensões: como objeto de aprendizagem, como ferramenta de produção e como prática colaborativa. Cada uma dessas dimensões se articula às metodologias ativas de maneira específica.
4.1. Podcast Como Objetivo de Aprendizagem
Como recurso de consumo, o podcast permite ampliar repertório, revisar conteúdos, aprofundar conceitos e diversificar as formas de apresentação do conhecimento. Pode ser utilizado em sala de aula invertida, trilhas de aprendizagem e percursos personalizados.
Sua natureza auditiva favorece a concentração, a imaginação narrativa e o desenvolvimento da escuta ativa — habilidades muitas vezes negligenciadas em práticas centradas apenas em leitura e escrita.
4.2. Podcast Como Ferramenta de Autoria
A produção de podcasts pelos estudantes representa uma das dimensões mais ricas do uso pedagógico dessa tecnologia. A criação exige:
definição de tema;
pesquisa de informações confiáveis;
análise crítica das fontes;
elaboração de roteiro;
organização de ideias;
trabalho colaborativo;
comunicação oral e argumentação.
Coradini, Borges e Dutra (2020) afirmam que a produção de podcasts desloca o estudante para o centro do processo de aprendizagem, estimulando autonomia, criatividade e protagonismo.
4.3. Podcast Como Prática Colaborativa
Para além do desempenho individual, a produção de episódios promove interação, diálogo, planejamento conjunto, negociação e corresponsabilidade. Jesus (2014) destaca que o trabalho em equipe favorece o desenvolvimento de competências socioemocionais, como cooperação, respeito, comunicação e empatia.
Nesse sentido, o podcast pode ser considerado uma prática de aprendizagem colaborativa que favorece a construção coletiva do conhecimento.
5. POTENCIAL INCLUSIVO DO PODCAST
O podcast apresenta características que o tornam recurso relevante no campo da educação inclusiva. Entre seus diferenciais, destacam-se:
acessibilidade auditiva para estudantes com dificuldades de leitura;
possibilidade de uso no Atendimento Educacional Especializado (AEE);
facilitação da concentração para alunos com TDAH;
apoio à autonomia de estudantes com deficiência visual;
eliminação de barreiras físicas e temporais;
possibilidade de participação de estudantes não verbais em etapas de roteiro, edição ou pesquisa.
A aprendizagem acessível não depende exclusivamente de recursos visuais ou textuais; o áudio oferece nova via sensorial de acesso ao conhecimento, respeitando estilos e ritmos diferenciados de aprendizagem.
Assim, o podcast configura-se como ferramenta inclusiva que amplia participação, reduz desigualdades e promove equidade no acesso ao currículo.
5.1. Podcast e Desenho Universal para Aprendizagem (DUA)
O podcast dialoga diretamente com os princípios do Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), ao oferecer múltiplas formas de representação do conteúdo (via áudio), múltiplas possibilidades de expressão (roteiro, edição, pesquisa, locução) e múltiplas formas de engajamento.
Ao diversificar os canais de acesso ao conhecimento, amplia-se a equidade educacional, reduzindo barreiras pedagógicas. O áudio pode favorecer estudantes com dificuldades na leitura, com deficiência visual ou com estilos de aprendizagem auditivos predominantes.
6. PODCAST COMO ESTRATÉGIA DE ENGAJAMENTO E MOTIVAÇÃO
Pesquisas recentes apontam que estudantes apresentam maior engajamento quando têm autonomia de escolha, possibilidade de criação e espaço para expressar sua identidade (FLEMING, 2021). Essas características dialogam diretamente com o podcast.
Segundo a teoria da autodeterminação (RYAN & DECI, 2000), engajamento sustentado depende de três necessidades humanas básicas:
autonomia: sentir que tem poder de decisão;
competência: perceber-se capaz de realizar algo;
pertencimento: sentir-se conectado ao grupo.
O podcast atende a essas três dimensões:
oferece liberdade criativa;
desenvolve habilidades de produção e comunicação;
estimula a colaboração e a visibilidade social.
Portanto, não se trata de simples inovação, mas de uma estratégia que integra dimensões afetivas, sociais e cognitivas essenciais ao aprendizado.
7. PODCAST E DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO CRÍTICO
Produzir um episódio implica selecionar informações, estabelecer coerência, argumentar, interpretar dados e construir narrativas consistentes. Essa prática relaciona-se diretamente ao desenvolvimento do pensamento crítico, entendido como capacidade de analisar, avaliar e sintetizar informações de forma autônoma e reflexiva.
Segundo Coradini, Borges e Dutra (2020), a etapa de pesquisa e verificação das fontes possibilita que o estudante desenvolva habilidades de análise e discernimento, evitando a reprodução acrítica de conteúdos. Assim, o podcast contribui para práticas mais investigativas e fundamentadas.
8. DESAFIOS E LIMITAÇÕES DO USO PEDAGÓGICO DO PODCAST
Embora apresente inúmeras potencialidades, sua implementação exige cuidado e preparo pedagógico. Entre os desafios, destacam-se:
necessidade de formação docente específica;
risco de uso superficial, sem articulação curricular;
falta de recursos tecnológicos em algumas escolas;
gestão do tempo para produção em grupo;
dificuldade em garantir qualidade técnica mínima;
necessidade de curadoria rigorosa de conteúdo.
Entretanto, tais desafios não inviabilizam seu uso; apenas reforçam a necessidade de planejamento intencional e mediação qualificada.
8.1. Formação Docente e Mediação Pedagógica
A integração significativa do podcast ao currículo exige formação docente voltada ao letramento digital crítico. Não se trata apenas do domínio técnico da ferramenta, mas da compreensão pedagógica de suas potencialidades e limites.
Segundo Moran (2015), a tecnologia só transforma práticas quando acompanhada de mudança metodológica e intencionalidade didática. Assim, o professor assume papel de mediador, orientador e curador de conteúdos, promovendo reflexões éticas sobre autoria, direitos autorais e circulação de informações.
A ausência de formação específica pode resultar em uso superficial da ferramenta, reduzindo-a a atividade pontual e desarticulada dos objetivos curriculares.
8.2. Limites Epistemológicos do Uso do Podcast
Embora o podcast apresente potencial pedagógico significativo, sua incorporação ao contexto educacional não está isenta de tensões epistemológicas e desafios estruturais. A análise crítica de sua implementação exige superar perspectivas tecnicistas que associam inovação exclusivamente ao uso de ferramentas digitais.
A sociedade em rede descrita por Manuel Castells caracteriza-se pela centralidade da informação e pela circulação acelerada de conteúdos. Nesse ambiente, práticas pedagógicas que utilizam mídias digitais precisam enfrentar o paradoxo entre democratização da comunicação e intensificação da lógica mercadológica da visibilidade.
O podcast, inserido nesse contexto, pode tanto ampliar vozes quanto reproduzir dinâmicas de capital simbólico baseadas em alcance e audiência, exigindo postura crítica por parte da escola.
8.2.1. Risco de Tecnicismo Pedagógico
Um dos principais riscos reside na redução do podcast a recurso instrumental, desvinculado de fundamentos pedagógicos e epistemológicos. Conforme argumenta José Moran, a tecnologia só promove transformação quando articulada a mudanças metodológicas e conceituais.
O tecnicismo manifesta-se quando o foco desloca-se para a ferramenta — gravação, edição, publicação — em detrimento da problematização conceitual e da construção crítica do conhecimento. Nesses casos, o podcast passa a ser utilizado como estratégia de dinamização superficial da aula, mantendo intacta a lógica transmissiva que se pretendia superar.
Tal perspectiva evidencia que a simples adoção de mídias digitais não garante inovação pedagógica. Sem intencionalidade formativa, corre-se o risco de substituir o quadro-negro por microfones, sem alterar estruturas epistemológicas subjacentes.
8.2.2. Cultura da Performatividade e Espetacularização do Aprender
Outro limite relevante relaciona-se à cultura da performatividade, característica da sociedade em rede analisada por Manuel Castells. A visibilidade digital pode transformar a produção de podcasts em exercício de exposição performática, priorizando estética e alcance em detrimento da profundidade conceitual.
Nesse cenário, há risco de que estudantes passem a produzir conteúdos voltados à validação externa — número de visualizações, curtidas ou compartilhamentos — em vez de priorizar rigor investigativo e densidade argumentativa. A lógica da espetacularização pode deslocar o eixo formativo para dimensões mercadológicas da comunicação digital.
A escola, ao incorporar mídias contemporâneas, precisa tensionar criticamente tais dinâmicas, assegurando que o processo educativo não seja capturado por métricas de visibilidade próprias das plataformas digitais.
8.2.3. Superficialidade Digital e Fragmentação do Conhecimento
A cultura digital, marcada pela circulação rápida e fragmentada de informações, pode favorecer abordagens superficiais do conteúdo. Conforme analisa Lúcia Santaella, os ambientes digitais tendem a privilegiar sínteses rápidas, narrativas breves e consumo acelerado.
No contexto educacional, há risco de que o podcast seja utilizado apenas para resumos simplificados, sem aprofundamento teórico ou análise crítica. A fragmentação do conhecimento compromete a construção de pensamento complexo e sistêmico.
Assim, a mediação docente torna-se essencial para assegurar que o formato sonoro não resulte em simplificação excessiva, mas em exercício de síntese qualificada e fundamentada.
8.2.4. Sobrecarga Cognitiva e Gestão da Atenção
A produção de podcasts envolve múltiplas etapas: pesquisa, elaboração de roteiro, gravação, edição e publicação. Embora tais processos mobilizem competências importantes, também podem gerar sobrecarga cognitiva, especialmente quando associados a outras demandas curriculares.
Além disso, a cultura digital contemporânea caracteriza-se pela disputa constante pela atenção. A incorporação de mais um recurso midiático exige planejamento cuidadoso para evitar dispersão e acúmulo de tarefas.
Quando não estruturado adequadamente, o uso do podcast pode ampliar ansiedade e fragmentação da experiência de aprendizagem, em vez de fortalecê-la.
8.2.5. Desigualdades Estruturais e Acesso Tecnológico
Outro limite refere-se às desigualdades de acesso a dispositivos, conexão de qualidade e ambientes adequados para gravação. A incorporação acrítica de tecnologias pode reforçar assimetrias sociais já existentes.
A promessa de democratização digital só se concretiza quando acompanhada de políticas institucionais de acesso, formação docente e infraestrutura adequada. Caso contrário, o podcast pode tornar-se ferramenta de ampliação das desigualdades.
8.2.6. Implicações Epistemológicas
Do ponto de vista epistemológico, a incorporação do podcast tensiona a própria concepção de conhecimento escolar. Se utilizado de forma crítica, pode ampliar espaços de autoria, diálogo e construção coletiva, aproximando-se da pedagogia problematizadora de Paulo Freire.
Contudo, se apropriado sob lógica tecnocrática, corre o risco de reforçar racionalidades instrumentais e práticas performativas.
Assim, o podcast não deve ser compreendido como solução pedagógica em si, mas como dispositivo cultural cuja potência formativa depende das condições sociais, pedagógicas e políticas de sua implementação.
9. POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS E PROPOSTAS DE ATIVIDADES
O uso de podcasts no contexto educativo apresenta um amplo potencial pedagógico, especialmente por sua versatilidade, acessibilidade e capacidade de integrar múltiplos componentes curriculares. Ao permitir a produção e a escuta de conteúdos em áudio, o recurso contribui para práticas mais dinâmicas, colaborativas e alinhadas às demandas da cultura digital. Além disso, possibilita que estudantes assumam papéis ativos na construção do conhecimento, exercitando autonomia, criatividade, autoria e pensamento crítico.
No âmbito curricular, o podcast pode ser explorado como dispositivo de aprendizagem tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior, atendendo a diferentes objetivos formativos. A seguir, detalham-se algumas propostas de atividades e suas contribuições pedagógicas.
Séries temáticas por componente curricular;
Os docentes podem propor a criação de séries de episódios organizados por temas específicos de cada área — como Ciências, História, Geografia, Língua Portuguesa ou Matemática. Essa abordagem favorece a sistematização dos conteúdos, a elaboração de argumentos, a busca por referências confiáveis e o desenvolvimento de habilidades de síntese. Além disso, as séries podem compor um repositório digital da turma, permitindo revisitar conceitos e acompanhar a progressão da aprendizagem.
Entrevistas com especialistas;
A realização de entrevistas promove a aproximação entre escola e comunidade acadêmica ou profissional. Estudantes assumem papéis de pesquisadores, elaborando roteiros, identificando fontes, preparando perguntas e realizando gravações. Essa proposta desenvolve competências investigativas, comunicativas e sociais, fortalecendo a construção de conhecimento a partir de perspectivas externas e ampliando o repertório dos alunos.
Dramatizações históricas;
No ensino de História, Língua Portuguesa e Artes, os podcasts de dramatização permitem recriar acontecimentos, debates ou narrativas literárias. A atividade estimula o estudo contextualizado, a leitura de fontes, a escrita de roteiros e o trabalho colaborativo. Além disso, favorece a compreensão crítica dos fatos e o desenvolvimento da expressão oral por meio da interpretação de personagens e situações.
Podcasts de divulgação científica;
Essa proposta aproxima os estudantes das práticas próprias da cultura científica. Ao produzirem conteúdos de popularização da ciência, os alunos aprendem a traduzir conceitos complexos para uma linguagem acessível, exercitando clareza, precisão e responsabilidade no uso das informações. Desenvolvem-se, assim, habilidades relacionadas à pesquisa, à análise de dados, à organização lógica do discurso e à checagem de evidências.
Debates gravados;
Gravar debates entre grupos de estudantes permite trabalhar argumentação, respeito à diversidade de ideias, escuta ativa e negociação de sentidos. O formato exige preparação teórica prévia, definição de pontos-chave, organização do tempo de fala e capacidade de defender posições com base em fundamentos consistentes. A posterior audição dos debates possibilita metacognição e autoavaliação.
Sínteses de conteúdos estudados;
As sínteses em áudio são uma estratégia eficaz para consolidar conteúdos e verificar a compreensão dos alunos. Ao elaborar episódios curtos com os principais conceitos estudados, os estudantes exercitam organização mental, clareza discursiva e a capacidade de destacar aquilo que é essencial. Esse tipo de atividade pode ser utilizado como avaliação formativa.
Relatos investigativos;
O podcast pode ser empregado em projetos de iniciação científica ou pesquisas escolares, permitindo que os alunos registrem etapas da investigação, descrevam métodos utilizados, compartilhem achados e reflitam sobre o processo investigativo. Essa proposta estimula autonomia, sistematização e autoria científica, contribuindo para o desenvolvimento de competências relacionadas ao letramento científico.
Diários de aprendizagem;
Os diários de áudio funcionam como ferramentas metacognitivas nas quais os estudantes registram percepções, dificuldades, avanços e estratégias de estudo. Além de promoverem autoconhecimento, ajudam o professor a acompanhar o percurso individual de aprendizagem. Esse recurso fortalece práticas avaliativas processuais e incentiva o protagonismo estudantil.
Podcasts bilíngues em aulas de línguas.
No ensino de línguas estrangeiras, a produção de podcasts bilíngues favorece o desenvolvimento da oralidade, da pronúncia e da fluência comunicativa. Os episódios podem incluir leituras, diálogos, entrevistas, explicações gramaticais ou relatos culturais. O formato permite que o estudante pratique a língua-alvo de maneira contextualizada e significativa, ampliando sua exposição auditiva ao idioma.
Essas propostas revelam que o podcast se configura como ferramenta que incentiva interdisciplinaridade, criatividade e protagonismo, pois permite articular diferentes áreas do conhecimento e promover práticas que valorizam autoria, colaboração e pensamento crítico. Seu uso pedagógico fortalece processos de ensino e aprendizagem, contribuindo para a formação de estudantes mais autônomos, comunicativos e preparados para os desafios da sociedade contemporânea.
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados da análise indicam que o podcast configura-se como dispositivo pedagógico coerente com as demandas da cultura digital e com os princípios das metodologias ativas. Sua potência formativa reside na possibilidade de articular autoria, colaboração e multiletramentos, favorecendo práticas mais democráticas de construção do conhecimento.
Contudo, a problematização desenvolvida evidencia que a incorporação dessa mídia não deve ser compreendida sob perspectiva tecnicista. A inovação pedagógica não se reduz ao uso de ferramentas digitais, mas implica transformação das relações de ensino e aprendizagem, revisão de práticas avaliativas e fortalecimento da mediação docente.
Assim, conclui-se que o podcast pode contribuir significativamente para inclusão, engajamento e protagonismo discente, desde que integrado a projeto pedagógico crítico e intencional. Recomenda-se, para investigações futuras, a realização de pesquisas empíricas que analisem impactos concretos da produção de podcasts em diferentes níveis de ensino, ampliando o debate teórico aqui desenvolvido.
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1 Graduada em Licenciatura em Geografia; com especialização em Formação para o Magistério Superior em Ensino de História e Geografia: Fronteiras do Conhecimento. Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Graduada em Pedagogia; com especialização em Coordenação Pedagógica e Gestão Escolar. Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail