REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792340242
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo analisar o planejamento financeiro da população com 60 anos ou mais no município de Passos-MG, considerando aspectos relacionados à renda, aposentadoria, organização das despesas, poupança, investimentos, endividamento, gastos com saúde e conhecimento financeiro. A pesquisa caracteriza-se como quali-quantitativa, de caráter descritivo, tendo como instrumento de coleta de dados um questionário aplicado a 100 participantes com idade igual ou superior a 60 anos. Os dados quantitativos foram organizados por meio de frequências absolutas e relativas, enquanto as questões abertas foram analisadas a partir da identificação de temas recorrentes nas respostas. Os resultados indicaram que a aposentadoria constitui a principal fonte de renda para 68% dos participantes. Em relação ao planejamento financeiro, 66% afirmaram realizar algum tipo de controle dos gastos, enquanto 34% relataram fazê-lo raramente ou não realizá-lo. Quanto à formação de reservas, 42% declararam guardar dinheiro raramente ou nunca. No que se refere ao endividamento, 22% apresentaram dificuldades para cumprir suas obrigações financeiras ou possuíam pagamentos atrasados. As despesas relacionadas à saúde também se mostraram relevantes, uma vez que 41% dos participantes afirmaram que esses gastos já comprometeram sua capacidade de pagamento. Além disso, 60% avaliaram seu conhecimento sobre organização e planejamento financeiro como regular, ruim ou muito ruim. Conclui-se que a segurança financeira na terceira idade está relacionada a diferentes fatores, entre eles a dependência da renda previdenciária, a capacidade de organização das despesas, a formação de reservas, o endividamento, os gastos com saúde e o conhecimento financeiro. Os resultados reforçam a importância de ações de educação financeira direcionadas à população idosa, contribuindo para maior autonomia e organização dos recursos disponíveis.
Palavras-chave: Planejamento financeiro; Terceira idade; Educação financeira; Endividamento; Segurança financeira.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the financial planning of the population aged 60 years or older in the municipality of Passos, Minas Gerais, considering aspects related to income, retirement, expense organization, savings, investments, indebtedness, health expenditures, and financial knowledge. The research was characterized as qualitative-quantitative and descriptive, using a questionnaire administered to 100 participants aged 60 years or older. Quantitative data were organized using absolute and relative frequencies, while open-ended questions were analyzed by identifying recurring themes in the responses. The results indicated that retirement was the main source of income for 68% of the participants. Regarding financial planning, 66% reported some form of expense control, whereas 34% reported doing so rarely or not at all. Concerning the formation of financial reserves, 42% stated that they rarely or never saved money. Regarding indebtedness, 22% experienced difficulties meeting their financial obligations or had overdue payments. Health-related expenses were also relevant, as 41% reported that such expenses had compromised their ability to make payments. In addition, 60% rated their knowledge of financial organization and planning as average, poor, or very poor. The study concludes that financial security in old age is related to several factors, including dependence on retirement income, expense organization, reserve formation, indebtedness, health expenditures, and financial knowledge. The findings reinforce the importance of financial education actions aimed at older adults, contributing to greater autonomy and better management of available resources.
Keywords: Financial planning; Older adults; Financial education; Indebtedness; Financial security.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional constitui um fenômeno que envolve importantes transformações sociais e econômicas, especialmente no que se refere às condições de vida e à segurança financeira da população com 60 anos ou mais. Nesse contexto, o planejamento financeiro assume papel relevante, uma vez que a organização e o gerenciamento dos recursos disponíveis podem contribuir para o atendimento das necessidades cotidianas, para a prevenção do endividamento e para a manutenção da qualidade de vida ao longo da terceira idade.
No município de Passos, Minas Gerais, compreender a realidade financeira da população idosa torna-se relevante diante dos diferentes fatores que podem influenciar sua segurança econômica. Aspectos relacionados à renda, aposentadoria, despesas, investimentos, hábitos de poupança, endividamento e custos com saúde podem interferir na capacidade dos indivíduos de administrar seus recursos e manter determinado padrão de vida. O projeto que fundamentou este estudo destacou justamente a necessidade de compreender as particularidades do comportamento financeiro da população com mais de 60 anos no município, considerando as transformações econômicas e sociais que podem repercutir sobre essa parcela da população.
A ausência ou insuficiência de planejamento financeiro ao longo da vida pode contribuir para dificuldades na administração dos recursos durante a terceira idade. A aposentadoria, por exemplo, pode representar uma mudança significativa na composição da renda e exigir adaptações no padrão de consumo e na organização das despesas. Nesse cenário, a capacidade de controlar gastos, constituir reservas financeiras e tomar decisões relacionadas à utilização dos recursos torna-se particularmente importante para a manutenção da segurança econômica.
Além da renda e da aposentadoria, os gastos relacionados à saúde constituem outro aspecto relevante para a realidade financeira da população idosa. O envelhecimento pode estar associado à necessidade de cuidados contínuos, medicamentos, consultas e outros serviços, o que pode representar despesas adicionais e comprometer parte significativa da renda disponível. Quando associados à ausência de reservas financeiras ou à existência de dívidas, esses gastos podem ampliar as dificuldades enfrentadas pelos indivíduos na administração de seus recursos. O projeto de pesquisa também identificou o endividamento e os custos relacionados à saúde como fatores relevantes para a análise da estabilidade financeira da população com mais de 60 anos.
Nesse contexto, a educação financeira apresenta-se como um elemento importante para o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados à administração das finanças pessoais. O domínio de práticas de planejamento, controle de gastos, poupança e tomada de decisões financeiras pode favorecer uma gestão mais consciente dos recursos disponíveis. Para a população idosa, o acesso a conhecimentos dessa natureza pode contribuir para o fortalecimento da autonomia financeira e para a adoção de estratégias compatíveis com sua realidade econômica.
Diante dessa problemática, este estudo teve como questão norteadora: como a ausência de planejamento financeiro durante a vida pode impactar negativamente a segurança financeira da população idosa da cidade de Passos-MG? Para responder a essa questão, a pesquisa foi desenvolvida com foco na população com 60 anos ou mais residente no município, considerando aspectos relacionados ao comportamento financeiro, às fontes de renda, aos gastos, à aposentadoria, aos investimentos, ao endividamento e ao conhecimento sobre finanças pessoais.
Assim, o estudo teve como objetivo geral analisar o comportamento financeiro da população com mais de 60 anos na cidade de Passos-MG, identificando padrões, desafios e fatores que podem influenciar sua segurança econômica. Como objetivos específicos, buscou-se identificar as principais fontes de renda, gastos e investimentos dos participantes; analisar a influência da aposentadoria sobre o comportamento financeiro e o padrão de vida; investigar hábitos de poupança e investimento; analisar os desafios relacionados aos custos de saúde e ao endividamento; avaliar o nível de conhecimento financeiro da população investigada; e, a partir dos resultados obtidos, contribuir para a proposição de estratégias voltadas à melhoria da segurança econômica e da qualidade de vida financeira da população idosa no município.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Planejamento Financeiro na Terceira Idade: Aposentadoria e Renda
O planejamento financeiro está relacionado à organização e ao gerenciamento dos recursos disponíveis, envolvendo o controle das entradas e saídas de dinheiro e a definição de estratégias para sua utilização de acordo com objetivos previamente estabelecidos. No âmbito pessoal e familiar, esse planejamento pode contribuir para uma administração mais organizada dos recursos financeiros, permitindo maior controle sobre as despesas e melhor direcionamento da renda disponível. Conforme Gitman (2001, p. 43), o planejamento financeiro constitui um aspecto importante das operações das empresas e das famílias, uma vez que permite mapear caminhos para orientar, coordenar e controlar ações destinadas ao alcance de objetivos.
Quando relacionado à população idosa, o planejamento financeiro adquire características específicas, principalmente em razão das mudanças que podem ocorrer na renda e nas necessidades financeiras ao longo do processo de envelhecimento. A chegada da aposentadoria pode representar uma alteração importante na dinâmica financeira dos indivíduos, tornando necessário adaptar despesas, hábitos de consumo e formas de utilização dos recursos disponíveis. Nesse sentido, a existência de um planejamento construído ao longo da vida pode assumir papel relevante para a organização financeira durante a terceira idade.
A renda disponível constitui um dos principais elementos para a realização do planejamento financeiro. Para a população com 60 anos ou mais, a aposentadoria e outros benefícios podem representar importantes fontes de recursos para o atendimento das necessidades cotidianas. Entretanto, a capacidade de manter uma condição financeira equilibrada depende não apenas do valor recebido, mas também da forma como esses recursos são administrados e distribuídos entre as diferentes despesas.
Nesse contexto, a ausência de hábitos de planejamento financeiro desenvolvidos ao longo da vida pode tornar mais complexa a administração dos recursos durante a terceira idade. O controle das despesas, a definição de prioridades e a capacidade de reservar recursos para situações inesperadas tornam-se aspectos relevantes diante de uma renda que pode apresentar menor possibilidade de expansão. Assim, o planejamento financeiro não deve ser compreendido apenas como uma prática voltada à organização das despesas presentes, mas também como um instrumento de preparação para diferentes fases da vida.
A aposentadoria, portanto, representa uma etapa que pode exigir mudanças na organização financeira dos indivíduos. A adequação do padrão de vida à renda disponível, o controle das despesas e a existência de reservas podem contribuir para reduzir situações de desequilíbrio financeiro. Por outro lado, quando os recursos disponíveis são insuficientes para atender às necessidades cotidianas, podem surgir dificuldades relacionadas ao endividamento e à dependência de outras fontes de renda.
A realidade financeira da população idosa deve, ainda, ser analisada considerando as diferenças existentes entre os indivíduos. Fatores como renda, composição familiar, despesas, condições de saúde e hábitos financeiros podem influenciar a forma como cada pessoa administra seus recursos. Dessa maneira, compreender o planejamento financeiro na terceira idade exige observar não apenas a existência ou ausência de renda, mas também as estratégias utilizadas para sua administração.
Nesse sentido, analisar o comportamento financeiro da população com mais de 60 anos de Passos-MG permite compreender de que maneira os indivíduos organizam seus recursos diante das demandas próprias dessa etapa da vida. A investigação sobre fontes de renda, controle de despesas, capacidade de poupança, investimentos e percepção sobre a suficiência dos recursos recebidos constitui, portanto, elemento importante para compreender a relação entre planejamento financeiro e segurança econômica na terceira idade.
2.2. Desafios de Saúde, Custos e Endividamento
O processo de envelhecimento está acompanhado de transformações que podem repercutir diretamente na organização financeira dos indivíduos. Entre os fatores que merecem atenção estão os gastos relacionados à saúde, a necessidade de cuidados contínuos e o comprometimento da renda com dívidas e empréstimos. Dessa forma, a segurança financeira da população idosa não pode ser analisada apenas a partir da renda recebida, sendo necessário considerar também as despesas e as demandas específicas dessa etapa da vida.
Os gastos com saúde constituem um dos elementos que podem exercer influência significativa sobre o orçamento das pessoas idosas. Despesas com medicamentos, consultas, exames, tratamentos e outros cuidados podem representar compromissos financeiros recorrentes, especialmente para indivíduos que apresentam necessidades de acompanhamento contínuo. Nesse sentido, o envelhecimento pode aumentar a necessidade de organização dos recursos disponíveis para que as despesas relacionadas à saúde sejam compatibilizadas com as demais necessidades de consumo.
A relação entre saúde e situação financeira também pode assumir características mais complexas quando os recursos disponíveis não são suficientes para atender às necessidades de cuidado. Estudo publicado por Debert e Félix (2024) discute o processo de financeirização da velhice e identifica a saúde, os cuidados e o crédito consignado como fatores associados ao endividamento da população idosa. Os autores destacam que determinadas despesas relacionadas à saúde e ao cuidado podem contribuir para ampliar a dependência de recursos financeiros obtidos por meio do mercado de crédito.
O endividamento, por sua vez, pode comprometer parte da renda antes mesmo que ela esteja disponível para o atendimento das despesas correntes. Em situações nas quais empréstimos e outras obrigações financeiras passam a ocupar parcela significativa do orçamento, diminui-se a capacidade de poupar, constituir reservas e lidar com imprevistos. Para a população idosa, esse cenário pode assumir particular importância, considerando que a renda pode estar concentrada em aposentadorias, pensões ou outras fontes com menor possibilidade de expansão.
Outro aspecto relevante está relacionado ao crédito consignado, modalidade na qual as parcelas são descontadas diretamente da renda do beneficiário. Embora o crédito possa representar uma alternativa para atender necessidades imediatas, seu uso recorrente pode comprometer parte da renda mensal por períodos prolongados. A literatura sobre educação financeira com idosos também aponta a necessidade de ações educativas que contribuam para uma compreensão mais crítica das práticas de consumo e das decisões relacionadas ao crédito.
A relação entre saúde e finanças também merece atenção sob a perspectiva da capacidade de tomada de decisão. Revisão cienciométrica publicada em 2025 identificou, na literatura sobre pessoas idosas, relações entre literacia financeira, estado cognitivo, tomada de decisão, vulnerabilidade à fraude e inclusão financeira, além de destacar a relevância dessas questões diante da crescente digitalização dos serviços financeiros.
Nesse cenário, o planejamento financeiro assume função preventiva, pois permite que o indivíduo conheça sua capacidade de pagamento, estabeleça prioridades e, quando possível, constitua recursos para situações inesperadas. A organização das despesas pode contribuir para reduzir a necessidade de recorrer ao crédito para o atendimento de gastos cotidianos ou emergenciais. Entretanto, é importante reconhecer que o planejamento financeiro não elimina as dificuldades decorrentes de uma renda insuficiente ou de despesas elevadas, mas pode auxiliar na tomada de decisões diante dos recursos disponíveis.
Assim, compreender os desafios financeiros relacionados à saúde, aos custos de vida e ao endividamento é fundamental para analisar a segurança econômica da população com 60 anos ou mais. No contexto desta pesquisa, esses elementos foram considerados na investigação do comportamento financeiro dos participantes, permitindo observar como as despesas de saúde, as obrigações financeiras e a capacidade de administrar os recursos se relacionam com a percepção de segurança financeira da população idosa de Passos-MG.
2.3. Educação Financeira na Terceira Idade
A educação financeira pode ser compreendida como um processo de desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para que os indivíduos possam administrar seus recursos de maneira consciente e tomar decisões relacionadas às suas finanças pessoais. Nesse processo, aspectos como planejamento, controle de gastos, poupança, consumo e utilização do crédito assumem importância para a organização da vida financeira.
Na terceira idade, a educação financeira apresenta particular relevância em razão das mudanças que podem ocorrer na renda, nas necessidades de consumo e na capacidade de geração de novos recursos. A aposentadoria, a redução da renda proveniente do trabalho e o aumento de determinadas despesas podem exigir maior atenção à administração dos recursos disponíveis. Dessa forma, o conhecimento financeiro pode contribuir para que as pessoas idosas avaliem suas possibilidades e estabeleçam prioridades de acordo com sua realidade econômica.
A educação financeira também está relacionada à capacidade de compreender as consequências das decisões de consumo e de utilização do crédito. Buaes (2015), ao analisar uma experiência de educação financeira com mulheres idosas em contexto popular, identificou que ações educativas possibilitaram a construção de estratégias de controle financeiro e maior compreensão sobre os mecanismos do crédito consignado. A autora destaca a importância de práticas educativas que favoreçam o protagonismo e a autonomia do consumidor idoso diante das relações de consumo e das situações de endividamento.
Nesse sentido, a educação financeira não deve ser limitada à transmissão de informações sobre produtos financeiros. É necessário considerar também a capacidade dos indivíduos de utilizar esses conhecimentos em situações concretas do cotidiano, como organizar o orçamento, avaliar possibilidades de compra, identificar prioridades, compreender os custos de empréstimos e evitar comprometer parcela excessiva da renda com dívidas.
A literatura recente também evidencia que a relação entre conhecimento financeiro e envelhecimento envolve aspectos que ultrapassam a administração do dinheiro. Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia identificou relações entre literacia financeira e aspectos como estado cognitivo, tomada de decisão, vulnerabilidade a fraudes, inclusão financeira, saúde mental e independência. Os autores destacam ainda a necessidade de ampliar pesquisas e ações relacionadas à literacia financeira diante das transformações provocadas pela digitalização dos serviços financeiros.
A digitalização das relações financeiras acrescenta novos desafios à população idosa. A utilização de aplicativos bancários, pagamentos digitais, compras pela internet e diferentes modalidades de crédito exige conhecimentos que nem sempre foram desenvolvidos ao longo da trajetória de vida. Nesse contexto, ações de educação financeira podem contribuir não apenas para uma melhor organização do orçamento, mas também para uma utilização mais segura dos serviços financeiros e para a redução da vulnerabilidade diante de situações de fraude ou de decisões financeiras inadequadas.
Outro aspecto importante é que a educação financeira deve considerar as condições concretas de vida da população. Diferenças de renda, escolaridade, composição familiar, condições de saúde e experiências anteriores com o dinheiro podem influenciar a forma como cada indivíduo compreende e administra seus recursos. Por essa razão, estratégias de educação financeira destinadas à população idosa devem utilizar uma abordagem acessível e relacionada às situações financeiras vivenciadas no cotidiano.
A educação financeira, portanto, pode atuar como instrumento de fortalecimento da autonomia e da segurança econômica na terceira idade. Embora o conhecimento financeiro, isoladamente, não seja capaz de solucionar situações de renda insuficiente, ele pode favorecer decisões mais conscientes sobre gastos, poupança, investimentos e utilização do crédito, contribuindo para uma administração mais adequada dos recursos disponíveis.
Diante disso, avaliar o nível de conhecimento financeiro da população com mais de 60 anos constitui um aspecto relevante para a compreensão de sua segurança econômica. No contexto desta pesquisa, a análise das práticas de planejamento, controle de gastos, poupança, investimentos e utilização do crédito permite identificar possíveis lacunas de conhecimento e compreender de que maneira a educação financeira pode contribuir para a melhoria da organização financeira e da qualidade de vida da população idosa de Passos-MG.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza aplicada, com abordagem quali-quantitativa e objetivo descritivo. A escolha dessa abordagem decorre da necessidade de analisar, simultaneamente, aspectos objetivos relacionados ao comportamento financeiro da população com 60 anos ou mais e aspectos subjetivos relacionados às suas percepções, experiências e dificuldades financeiras.
A dimensão quantitativa da pesquisa está relacionada à análise das informações obtidas por meio das questões fechadas do instrumento de coleta, possibilitando identificar a distribuição das respostas e observar padrões relacionados a variáveis como renda, aposentadoria, gastos, poupança, investimentos, endividamento e percepção de segurança financeira. A dimensão qualitativa, por sua vez, está relacionada à análise das respostas abertas, permitindo compreender percepções, experiências e opiniões dos participantes acerca de suas dificuldades financeiras e das possíveis estratégias para melhoria da segurança econômica na terceira idade. Essa combinação metodológica já havia sido prevista no projeto de pesquisa, considerando que a abordagem quantitativa possibilita a identificação de padrões entre as variáveis investigadas, enquanto a abordagem qualitativa permite explorar experiências e aspectos relacionados ao comportamento financeiro.
Quanto aos procedimentos, trata-se de uma pesquisa de campo, tendo como população-alvo indivíduos com 60 anos ou mais residentes no município de Passos, Minas Gerais. A escolha desse público está diretamente relacionada ao objetivo do estudo de analisar o planejamento financeiro na terceira idade, considerando aspectos relacionados à renda, aposentadoria, controle de gastos, investimentos, endividamento, custos com saúde e conhecimento financeiro.
Como instrumento de coleta de dados, foi elaborado um questionário estruturado composto por questões fechadas e abertas. O instrumento foi organizado de acordo com os objetivos da pesquisa e contemplou questões destinadas à caracterização do perfil dos participantes, identificação das principais fontes de renda, avaliação da situação financeira após a aposentadoria, hábitos de planejamento e controle das despesas, capacidade de poupança, realização de investimentos, existência e causas de endividamento, despesas relacionadas à saúde, conhecimento financeiro e percepção sobre segurança econômica.
A proposta de utilização de questionários está fundamentada na metodologia apresentada no projeto de pesquisa, que considera esse instrumento adequado para a investigação de conhecimentos, atitudes e práticas financeiras da população com 60 anos ou mais. O projeto também previa a utilização de entrevistas semiestruturadas como possibilidade de aprofundamento das experiências financeiras individuais.
Para a seleção dos participantes, estabeleceu-se como critério de inclusão possuir idade igual ou superior a 60 anos e residir no município de Passos-MG. A coleta foi planejada para ocorrer presencialmente em uma praça localizada na região central do município, nas proximidades de uma agência bancária, considerando-se a circulação de pessoas pertencentes ao público-alvo. Essa definição mantém relação com a proposta apresentada no projeto, que indicava a área central da cidade como ponto de coleta e priorizava locais de maior circulação da população com 60 anos ou mais.
Os dados quantitativos serão organizados e tabulados a partir das respostas obtidas nas questões fechadas, utilizando-se estatística descritiva, especialmente frequências absolutas e relativas. Conforme previsto no projeto, será utilizada abordagem univariada para a análise das variáveis, examinando-se cada questão individualmente e identificando-se a distribuição das respostas.
As respostas obtidas nas questões abertas serão submetidas a uma análise qualitativa, mediante identificação e organização dos principais temas presentes nos relatos dos participantes. A análise buscará compreender as percepções sobre dificuldades financeiras, planejamento, endividamento, gastos com saúde e possíveis ações de educação financeira, complementando os dados quantitativos e proporcionando uma compreensão mais ampla do fenômeno investigado.
A integração dos dados quantitativos e qualitativos permitirá relacionar os padrões identificados nas respostas fechadas às percepções apresentadas pelos participantes nas questões abertas. Dessa forma, a pesquisa busca compreender não apenas a frequência de determinados comportamentos financeiros, mas também os significados e experiências associados à administração dos recursos na terceira idade.
Por fim, os resultados serão apresentados por meio de tabelas e gráficos para os dados quantitativos, acompanhados de discussão fundamentada no referencial teórico, enquanto as respostas abertas serão organizadas em categorias temáticas. A análise conjunta dos resultados permitirá discutir os fatores relacionados à segurança financeira da população idosa e contribuir para a compreensão dos desafios relacionados ao planejamento financeiro na terceira idade no município de Passos-MG.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos resultados foi organizada a partir dos dados obtidos por meio do questionário aplicado à população com 60 anos ou mais, considerando os principais aspectos relacionados ao planejamento financeiro, à renda, à poupança, ao endividamento, aos gastos com saúde e ao conhecimento financeiro. A amostra considerada para a análise foi composta por 100 participantes.
Os dados quantitativos foram organizados por meio de frequências absolutas e relativas, enquanto as questões abertas foram consideradas a partir da identificação dos principais temas presentes nas respostas. Essa organização possibilitou analisar os padrões de comportamento financeiro dos participantes e relacioná-los às discussões apresentadas no referencial teórico.
4.1. Perfil Etário dos Participantes
A caracterização da faixa etária dos participantes constitui o primeiro aspecto analisado. A distribuição observada está apresentada na Tabela 1.
Tabela 1. Perfil sociodemográfico dos participantes
Faixa etária | Frequência (n) | Percentual (%) |
60 a 64 anos | 28 | 28% |
65 a 69 anos | 25 | 25% |
70 a 74 anos | 21 | 21% |
75 a 79 anos | 16 | 16% |
80 anos ou mais | 10 | 10% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Observa-se que a maior concentração de participantes ocorreu nas faixas etárias entre 60 e 69 anos, que juntas correspondem a 53% da amostra. Os participantes com idade entre 70 e 74 anos representaram 21%, enquanto aqueles entre 75 e 79 anos corresponderam a 16%. A parcela com 80 anos ou mais representou 10% dos participantes.
A distribuição etária permite contextualizar a população analisada e compreender que o estudo contempla diferentes momentos da terceira idade. Essa caracterização é relevante porque as necessidades financeiras podem variar conforme a idade, a condição de aposentadoria, a composição familiar e as despesas associadas ao processo de envelhecimento.
4.2. Renda e Aposentadoria
A principal fonte de renda constitui um dos elementos centrais para compreender a situação financeira dos participantes. Os resultados obtidos são apresentados na Tabela 2.
Tabela 2. Principal fonte de renda dos participantes
Fonte de renda | Frequência (n) | Percentual (%) |
Aposentadoria | 68 | 68% |
Pensão | 10 | 10% |
Trabalho remunerado | 8 | 8% |
Aposentadoria e trabalho | 7 | 7% |
Ajuda financeira familiar | 4 | 4% |
Outras fontes | 3 | 3% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Os resultados demonstram predominância da aposentadoria como principal fonte de renda entre os participantes, correspondendo a 68% da amostra. A pensão aparece como segunda fonte mais frequente, representando 10%, enquanto 8% declararam possuir o trabalho remunerado como principal fonte de renda.
A predominância da aposentadoria reforça a importância do planejamento financeiro nessa etapa da vida. Conforme discutido por Gitman (2001), o planejamento financeiro envolve a definição de estratégias para orientar e controlar a utilização dos recursos disponíveis, tanto no âmbito familiar quanto individual. Dessa perspectiva, quando a renda passa a estar concentrada principalmente em benefícios previdenciários, torna-se relevante adequar as despesas aos recursos disponíveis e estabelecer prioridades financeiras.
A presença de participantes que conciliam aposentadoria e trabalho remunerado também merece atenção. Esse comportamento pode representar uma estratégia de complementação da renda, embora os dados desta pesquisa, isoladamente, não permitam afirmar a razão pela qual cada participante permanece ou retorna ao mercado de trabalho.
4.3. Planejamento e Organização Financeira
A pesquisa também buscou identificar a frequência com que os participantes realizam algum tipo de planejamento ou controle dos gastos mensais.
Tabela 3. Frequência de realização de planejamento ou controle dos gastos
Resposta | Frequência (n) | Percentual (%) |
Sempre | 35 | 35% |
Às vezes | 31 | 31% |
Raramente | 18 | 18% |
Não | 16 | 16% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Verifica-se que 35% dos participantes afirmaram realizar sempre algum tipo de planejamento ou controle de seus gastos, enquanto 31% declararam realizar esse controle às vezes. Assim, 66% da amostra apresentam alguma prática de acompanhamento das despesas.
Entretanto, 18% realizam esse controle raramente e 16% não realizam planejamento financeiro. Portanto, 34% dos participantes demonstram baixa frequência ou ausência de práticas sistemáticas de controle.
Esse resultado pode ser relacionado ao conceito de planejamento financeiro apresentado por Gitman (2001), segundo o qual o planejamento permite orientar, coordenar e controlar a utilização dos recursos para alcançar determinados objetivos. Dessa forma, embora a maioria dos participantes tenha indicado alguma prática de controle, a existência de um grupo expressivo que raramente ou nunca acompanha suas despesas evidencia uma possível fragilidade na organização financeira.
O resultado também é relevante porque o planejamento financeiro não se limita ao registro das despesas, mas envolve a definição de prioridades e estratégias para utilização dos recursos. Assim, a frequência do controle observada entre os participantes pode representar diferentes níveis de organização financeira, aspecto que deverá ser considerado conjuntamente com os demais resultados.
4.4. Hábitos de Poupança
A capacidade de reservar parte da renda constitui outro aspecto importante para a análise do planejamento financeiro.
Tabela 4. Frequência com que os participantes conseguem guardar dinheiro
Reposta | Frequência (n) | Percentual (%) |
Sim, regularmente | 20 | 20% |
Sim, quando possível | 38 | 38% |
Raramente | 24 | 24% |
Nunca | 18 | 18% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Os resultados indicam que 20% dos participantes conseguem guardar dinheiro regularmente e 38% conseguem fazê-lo quando possível. Em conjunto, essas respostas representam 58% da amostra. Por outro lado, 24% afirmaram guardar dinheiro raramente e 18% declararam nunca realizar reservas, correspondendo a 42% dos participantes.
A existência de uma parcela significativa que não consegue formar reservas merece atenção no contexto do planejamento financeiro. A capacidade de reservar recursos pode funcionar como mecanismo de preparação para despesas inesperadas e para situações em que a renda disponível não seja suficiente para atender determinada necessidade.
Entretanto, é necessário interpretar esse resultado considerando as condições econômicas dos participantes. A ausência de poupança não significa necessariamente falta de conhecimento financeiro, pois pode estar relacionada à insuficiência da renda ou ao elevado volume de despesas. Assim, os dados sobre poupança devem ser analisados conjuntamente com as informações sobre renda, endividamento e gastos com saúde.
4.5. Endividamento
O endividamento foi investigado considerando a existência de dívidas e a capacidade dos participantes de cumprir suas obrigações financeiras.
Tabela 5. Situação de endividamento dos participantes
Situação | Frequência (n) | Percentual (%) |
Não possui dívidas | 42 | 42% |
Possui dívidas, mas consegue pagar normalmente | 36 | 36% |
Possui dívidas e apresenta dificuldade para pagar | 15 | 15% |
Possui dívidas com pagamentos atrasados | 7 | 7% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Observa-se que 42% dos participantes declararam não possuir dívidas. Entre aqueles que possuem obrigações financeiras, 36% conseguem realizar os pagamentos normalmente. Entretanto, 15% relataram dificuldades para cumprir seus compromissos e 7% informaram possuir pagamentos atrasados.
Assim, 22% da amostra encontra-se em situação de maior dificuldade relacionada ao endividamento, considerando os participantes que relataram dificuldade de pagamento ou atrasos.
Esse resultado dialoga com a literatura que relaciona envelhecimento, crédito e vulnerabilidade financeira. Debert e Félix (2024) discutem a financeirização da velhice e destacam a relação entre saúde, cuidados e crédito consignado no contexto do endividamento da população idosa. A partir dessa perspectiva, as relações de crédito podem assumir papel importante na organização financeira dos idosos, especialmente quando a renda disponível é limitada.
No entanto, os dados da presente pesquisa não permitem afirmar que o endividamento dos participantes tenha sido causado especificamente pelo crédito consignado. O resultado demonstra apenas a existência de situações de endividamento e dificuldade de pagamento, devendo suas causas ser analisadas de acordo com as respostas específicas do instrumento.
4.6. Impacto das Despesas Relacionadas à Saúde
Os gastos com saúde constituem um dos aspectos considerados na análise da segurança financeira da população idosa.
Tabela 6. Impacto das despesas de saúde sobre a capacidade de pagamento
Resposta | Frequência (n) | Percentual (%) |
Sim, frequentemente | 12 | 12% |
Sim, algumas vezes | 29 | 29% |
Raramente | 25 | 25% |
Nunca | 34 | 34% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
Os resultados demonstram que 12% dos participantes afirmaram que as despesas relacionadas à saúde comprometem frequentemente sua capacidade de pagamento, enquanto 29% relataram que isso ocorre algumas vezes. Dessa forma, 41% da amostra já experimentaram algum nível de comprometimento financeiro relacionado às despesas de saúde.
Por outro lado, 25% afirmaram que essa situação ocorre raramente e 34% declararam nunca ter enfrentado esse tipo de comprometimento.
Esse resultado reforça a importância de considerar as despesas de saúde na análise da segurança financeira durante a terceira idade. Debert e Félix (2024) discutem justamente a relação entre envelhecimento, saúde, cuidados e condições financeiras, evidenciando que as necessidades relacionadas ao cuidado podem se articular às formas de acesso ao crédito e ao comprometimento dos recursos.
No presente estudo, a existência de 41% de participantes que já tiveram sua capacidade de pagamento afetada por despesas de saúde indica que esse componente deve ser considerado no planejamento financeiro da população idosa. Entretanto, não se pode estabelecer, apenas a partir desse dado, uma relação causal entre gastos de saúde e endividamento.
4.7. Conhecimento Financeiro
A percepção dos participantes sobre seu próprio conhecimento financeiro também foi investigada.
Tabela 7. Autoavaliação do conhecimento sobre organização e planejamento financeiro
Avaliação | Frequência (n) | Percentual (%) |
Muito bom | 8 | 8% |
Bom | 32 | 32% |
Regular | 38 | 38% |
Ruim | 17 | 17% |
Muito ruim | 5 | 5% |
Total | 100 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa.
A análise demonstra que 8% dos participantes avaliaram seu conhecimento financeiro como muito bom e 32% como bom. A categoria mais frequente foi “regular”, indicada por 38% dos participantes. Além disso, 17% classificaram seus conhecimentos como ruins e 5% como muito ruins.
Dessa forma, 60% dos participantes avaliaram seus conhecimentos financeiros como regulares ou abaixo disso. Esse resultado evidencia uma percepção de conhecimento financeiro limitado entre parcela significativa da amostra.
Buaes (2015), ao analisar uma experiência de educação financeira com mulheres idosas, identificou a importância de práticas educativas relacionadas ao controle financeiro e à compreensão das relações de crédito. Esse achado contribui para interpretar os resultados da presente pesquisa, pois demonstra que ações de educação financeira podem ultrapassar a transmissão de informações e favorecer estratégias práticas para a administração dos recursos.
A literatura recente também relaciona a literacia financeira na velhice a aspectos como tomada de decisão, vulnerabilidade a fraudes e independência financeira. Nesse sentido, a percepção de conhecimento regular ou inferior apresentada por 60% dos participantes reforça a pertinência de discutir estratégias de educação financeira direcionadas especificamente à população idosa.
Entretanto, é importante destacar que a questão utilizada nesta pesquisa corresponde a uma autoavaliação. Portanto, os resultados indicam como os próprios participantes percebem seus conhecimentos, não constituindo uma mensuração objetiva de literacia financeira.
4.8. Síntese dos Principais Resultados
Considerando os resultados analisados, observa-se que a aposentadoria constitui a principal fonte de renda da maioria dos participantes, correspondendo a 68% da amostra. Ao mesmo tempo, embora 66% tenham declarado realizar algum tipo de planejamento ou controle dos gastos, 34% realizam esse controle raramente ou não o realizam.
A capacidade de formação de reservas também apresentou um ponto de atenção: 42% dos participantes afirmaram guardar dinheiro raramente ou nunca. Esse resultado deve ser interpretado em conjunto com as condições de renda e despesas, uma vez que a impossibilidade de poupar pode decorrer tanto de limitações de conhecimento quanto de restrições econômicas.
Em relação ao endividamento, 22% apresentaram situações de maior dificuldade, caracterizadas por problemas para realizar pagamentos ou pela existência de atrasos. Esse resultado se relaciona à discussão sobre vulnerabilidade financeira e utilização do crédito na terceira idade, embora os dados não permitam atribuir uma causa específica às dívidas.
As despesas relacionadas à saúde também apresentaram relevância, uma vez que 41% dos participantes afirmaram que esses gastos já comprometeram sua capacidade de pagamento em algum nível. Esse achado reforça a necessidade de considerar as despesas de saúde no planejamento financeiro da população idosa.
Por fim, 60% dos participantes avaliaram seu conhecimento financeiro como regular, ruim ou muito ruim. Esse resultado, associado aos demais achados, reforça a importância de ações educativas que contribuam para o desenvolvimento de conhecimentos e estratégias práticas de organização financeira.
De maneira geral, os resultados apontam para a importância do planejamento financeiro como instrumento de organização dos recursos e de prevenção de situações de vulnerabilidade econômica na terceira idade. A análise conjunta dos dados evidencia que renda, capacidade de poupança, endividamento, gastos com saúde e conhecimento financeiro constituem dimensões que devem ser consideradas de forma integrada na discussão sobre segurança financeira da população idosa.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar o planejamento financeiro da população com 60 anos ou mais no município de Passos-MG, considerando aspectos relacionados à renda, aposentadoria, organização das despesas, poupança, endividamento, gastos com saúde e conhecimento financeiro. A análise realizada permitiu identificar diferentes dimensões que interferem na segurança econômica da população investigada e evidenciou a importância do planejamento financeiro durante a terceira idade.
Entre os principais resultados, observou-se que a aposentadoria constitui a principal fonte de renda para 68% dos participantes. Esse dado evidencia a relevância da renda previdenciária para a manutenção financeira da população investigada e reforça a necessidade de adequação das despesas aos recursos disponíveis. Nesse sentido, o planejamento financeiro, conforme discutido por Gitman (2001), constitui importante instrumento de organização e controle dos recursos, especialmente quando a renda disponível apresenta menor possibilidade de ampliação.
Em relação ao planejamento e controle das despesas, 66% dos participantes declararam realizar algum tipo de acompanhamento dos gastos, embora 34% tenham informado que realizam esse controle raramente ou não o realizam. Esse resultado demonstra que, apesar da presença de práticas de organização financeira entre parcela significativa dos participantes, ainda existe um grupo relevante que pode apresentar maior vulnerabilidade diante de desequilíbrios entre renda e despesas.
A capacidade de formação de reservas também merece destaque. Embora 58% dos participantes tenham declarado que conseguem guardar dinheiro regularmente ou quando possível, 42% afirmaram guardar dinheiro raramente ou nunca. Esse resultado demonstra que a formação de reservas financeiras ainda representa uma dificuldade para parcela expressiva da população investigada, aspecto que pode ampliar a vulnerabilidade diante de despesas inesperadas.
No que se refere ao endividamento, 22% dos participantes apresentaram maior dificuldade no cumprimento de suas obrigações financeiras, seja pela dificuldade de pagamento ou pela existência de parcelas em atraso. Esse resultado reforça a relevância da discussão sobre crédito, endividamento e vulnerabilidade financeira na terceira idade. Conforme discutido por Debert e Félix (2024), as relações entre envelhecimento, saúde, cuidados e acesso ao crédito podem assumir importância na compreensão das condições financeiras da população idosa.
As despesas relacionadas à saúde também apresentaram relevância, uma vez que 41% dos participantes afirmaram que esses gastos já comprometeram sua capacidade de pagamento, ainda que com diferentes frequências. Esse resultado demonstra que as necessidades relacionadas à saúde devem ser consideradas no planejamento financeiro da população idosa, especialmente diante da possibilidade de despesas recorrentes ou inesperadas.
Outro achado relevante diz respeito ao conhecimento financeiro. Embora 40% dos participantes tenham avaliado seus conhecimentos como bons ou muito bons, 60% os classificaram como regulares, ruins ou muito ruins. Esse resultado reforça a importância da educação financeira como instrumento de apoio à tomada de decisões e à administração dos recursos. A literatura analisada ao longo do estudo destaca que ações de educação financeira podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias de controle financeiro e para uma utilização mais consciente do crédito, favorecendo a autonomia dos indivíduos na administração de seus recursos.
Diante dos resultados, a questão norteadora da pesquisa como a ausência de planejamento financeiro durante a vida pode impactar negativamente a segurança financeira da população idosa de Passos-MG? pode ser compreendida a partir da interação entre diferentes fatores. A dependência da renda previdenciária, as dificuldades para constituir reservas, a existência de situações de endividamento, o impacto dos gastos com saúde e as limitações percebidas no conhecimento financeiro constituem elementos que podem contribuir para situações de maior vulnerabilidade econômica.
Dessa forma, considera-se que o objetivo geral da pesquisa foi alcançado, uma vez que foi possível analisar diferentes dimensões do comportamento financeiro da população com 60 anos ou mais e identificar fatores relacionados à sua segurança econômica. Os objetivos específicos também foram contemplados por meio da análise das fontes de renda, aposentadoria, práticas de planejamento, hábitos de poupança, endividamento, despesas de saúde e conhecimento financeiro.
Como contribuição, o estudo evidencia a importância de ampliar ações de educação financeira direcionadas à população idosa, utilizando linguagem acessível e abordando situações concretas do cotidiano, como organização das despesas, formação de reservas, utilização do crédito e planejamento para gastos relacionados à saúde. Tais iniciativas podem contribuir para o fortalecimento da autonomia e para uma administração mais consciente dos recursos disponíveis.
Ressalta-se, entretanto, que o planejamento financeiro, isoladamente, não é capaz de solucionar dificuldades decorrentes de renda insuficiente, aumento das despesas ou necessidades de saúde. Por esse motivo, a promoção da segurança financeira da população idosa deve ser compreendida de maneira ampla, envolvendo educação financeira, acesso à informação e estratégias que considerem as condições socioeconômicas desse grupo.
Por fim, espera-se que os resultados deste estudo possam contribuir para novas discussões acadêmicas sobre planejamento financeiro e envelhecimento, bem como estimular pesquisas futuras que ampliem a investigação para outros municípios e grupos da população idosa. Estudos posteriores também poderão aprofundar a relação entre renda, endividamento, saúde, educação financeira e qualidade de vida, permitindo uma compreensão mais ampla dos fatores que influenciam a segurança econômica na terceira idade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Discente do Curso de Administração da Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG.
2 Orientador