PIBIDIANOS: EXPECTATIVAS E REALIDADES DA FORMAÇÃO DOCENTE EM EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA PÚBLICA

PIBID PARTICIPANTS: EXPECTATIONS AND REALITIES OF TEACHER TRAINING IN PHYSICAL EDUCATION IN PUBLIC SCHOOL

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783655617

RESUMO
A articulação entre teoria e prática constitui um dos principais desafios da formação inicial de professores, tornando indispensáveis experiências que aproximem os licenciandos da realidade escolar ainda durante a graduação. Nesse contexto, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) configura-se como uma importante política pública voltada ao fortalecimento da formação docente e à aproximação entre universidade e escola pública. O presente estudo tem como objetivo relatar e refletir sobre as experiências vivenciadas por bolsistas do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), participantes do PIBID, em uma escola pública da rede estadual de ensino no município de Floriano-PI. Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e natureza descritiva, construído a partir das vivências, observações, planejamentos e intervenções pedagógicas desenvolvidas no cotidiano escolar. As experiências envolveram diferentes conteúdos da Educação Física, possibilitando a participação dos licenciandos em atividades de planejamento, observação, execução e avaliação de práticas pedagógicas, além da convivência permanente com estudantes, professores e equipe escolar. As reflexões evidenciam que a inserção precoce no ambiente escolar favoreceu a construção da identidade docente, o desenvolvimento da autonomia profissional, o fortalecimento da relação entre teoria e prática e a compreensão dos desafios presentes na realidade da escola pública. Conclui-se que o PIBID representa um espaço significativo de aprendizagem e desenvolvimento profissional, contribuindo para uma formação docente mais crítica, reflexiva e comprometida com a qualidade da Educação Básica. As experiências vivenciadas demonstram que a inserção no programa possibilita aos licenciandos transformar expectativas iniciais sobre a docência em aprendizagens concretas construídas no cotidiano da escola, reafirmando a importância do PIBID na formação de futuros professores.
Palavras-chave: formação docente; iniciação à docência; escola pública; identidade docente; Educação Física.

ABSTRACT
The articulation between theory and practice is one of the main challenges of initial teacher education, making it essential to provide experiences that bring undergraduate students closer to the reality of schools during their academic training. In this context, the Institutional Program for Teaching Initiation Scholarships (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID) has become an important public policy aimed at strengthening teacher education and promoting closer ties between universities and public schools. This study aims to report and reflect on the experiences of undergraduate students in the Physical Education Teacher Education Program at the State University of Piauí (UESPI), who participated in PIBID activities in a public state school located in the municipality of Floriano, Piauí, Brazil. This is a qualitative and descriptive experience report based on the participants' experiences, observations, lesson planning, and pedagogical interventions carried out in the school context. The experiences involved different Physical Education contents, enabling the participants to engage in planning, observing, implementing, and evaluating pedagogical practices, as well as interacting continuously with students, teachers, and the school staff. The reflections indicate that early immersion in the school environment contributed to the construction of professional identity, the development of teaching autonomy, the integration of theory and practice, and a broader understanding of the challenges faced in public schools. It is concluded that PIBID represents a meaningful opportunity for learning and professional development, contributing to a more critical, reflective, and committed teacher education. The experiences also demonstrate that participation in the program enables undergraduate students to transform their initial expectations about teaching into concrete learning experiences developed within the everyday reality of public schools.
Keywords: teacher education; teaching initiation; public school; professional identity; Physical Education.

1. INTRODUÇÃO

A formação inicial de professores constitui uma etapa fundamental para o desenvolvimento das competências necessárias ao exercício da docência, uma vez que possibilita aos licenciandos articular os conhecimentos construídos na universidade com as experiências vivenciadas no contexto escolar. Nesse processo, a aproximação entre teoria e prática assume papel essencial, permitindo que os futuros professores compreendam a complexidade do trabalho docente, desenvolvam autonomia profissional e construam sua identidade a partir das diferentes situações encontradas no cotidiano da escola (TARDIF, 2014).

Com o intuito de fortalecer essa aproximação, foi criado o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), uma política pública desenvolvida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), voltada à valorização da formação inicial de professores e à inserção dos licenciandos na realidade das escolas públicas de Educação Básica. A relevância do programa pode ser observada em sua abrangência nacional: o edital de 2024 contemplou mais de 290 Instituições de Ensino Superior, com aproximadamente 80 mil bolsas de iniciação à docência, representando um investimento estimado em R$ 1,8 bilhão (BRASIL, 2024).

Na área da Educação Física, essa inserção torna-se ainda mais significativa devido à diversidade de conteúdos, metodologias e contextos que caracterizam o componente curricular. O futuro professor precisa aprender a lidar com diferentes realidades escolares, adaptar estratégias de ensino às condições disponíveis e desenvolver práticas pedagógicas que contemplem os princípios da cultura corporal de movimento, conforme orienta a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018). Nesse cenário, a vivência proporcionada pelo PIBID representa uma oportunidade de compreender a escola para além dos referenciais teóricos estudados na graduação, favorecendo o desenvolvimento de uma postura crítica, reflexiva e comprometida com a prática educativa.

Embora diversas pesquisas evidenciem as contribuições do PIBID para a formação inicial de professores, ainda são relevantes estudos que apresentem as experiências vividas pelos próprios licenciandos, permitindo compreender como o contato contínuo com a escola influencia seu desenvolvimento profissional e sua percepção acerca da docência. Relatos de experiência, nesse sentido, possibilitam compartilhar desafios, aprendizagens e reflexões construídas durante o processo formativo, contribuindo para ampliar as discussões sobre a formação docente e sobre o papel das políticas públicas voltadas à valorização da educação.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo relatar e refletir sobre as experiências vivenciadas por bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), desenvolvidas em uma escola pública da rede estadual de ensino, analisando de que maneira essas vivências contribuíram para a construção da identidade docente, para a articulação entre teoria e prática e para a compreensão dos desafios e das possibilidades da atuação profissional na Educação Física escolar.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A formação de professores constitui um campo de investigação consolidado na área da Educação, sendo amplamente discutida por diferentes autores que compreendem a docência como uma profissão construída de forma contínua, articulando conhecimentos científicos, experiências práticas e processos permanentes de reflexão. No contexto da formação inicial, essa discussão torna-se ainda mais relevante ao considerar programas que aproximam os licenciandos da realidade escolar, como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Assim, compreender os fundamentos teóricos relacionados à formação docente, às contribuições do PIBID e às especificidades da Educação Física escolar torna-se indispensável para interpretar as experiências relatadas neste estudo e compreender sua contribuição para a construção da identidade profissional dos futuros professores.

2.1. A Formação Inicial de Professores e a Construção da Identidade Docente

Conforme Nóvoa (1997), a formação inicial representa um dos momentos primordiais na trajetória profissional do futuro professor, configurando-se como o espaço onde o licenciando passa a construir sua identidade docente. Segundo Tardif (2014), esse processo ocorre por meio da articulação entre os conhecimentos científicos desenvolvidos no ambiente universitário e as experiências vivenciadas nos cotidianos escolares. Ademais, conforme sinaliza Pimenta e Lima (2017), essa etapa não se restringe ao domínio de conteúdos específicos, exigindo o desenvolvimento de saberes voltados ao planejamento, à mediação pedagógica e, fundamentalmente, à capacidade de refletir criticamente sobre a própria prática.

Para Freire (1996), ensinar não significa transferir conhecimentos prontos, mas criar possibilidades para que o estudante participe ativamente da construção do saber. Essa compreensão evidencia que o trabalho docente está fundamentado no diálogo, na escuta e na valorização das experiências dos sujeitos envolvidos no processo educativo, tornando o professor um profissional que também aprende continuamente por meio da prática.

Nessa mesma perspectiva, Tardif (2014) afirma que os saberes docentes são constituídos por diferentes fontes, entre elas a formação acadêmica, os conhecimentos curriculares, as experiências pessoais e, principalmente, os saberes construídos no exercício da profissão. Segundo o autor, muitos conhecimentos fundamentais para o trabalho docente somente são desenvolvidos na vivência cotidiana da escola, onde o professor aprende a lidar com situações imprevisíveis, diferentes perfis de estudantes e constantes necessidades de adaptação.

Ao discutir a profissionalização docente, Nóvoa (2009) ressalta que a formação de professores deve ser compreendida como um processo permanente, no qual teoria e prática não podem ser tratadas como dimensões isoladas. Para o autor, a identidade profissional é construída na articulação entre os conhecimentos produzidos na universidade e as experiências compartilhadas nos espaços escolares, favorecendo uma postura reflexiva diante dos desafios encontrados no cotidiano da profissão.

Dessa forma, a inserção do licenciando na realidade escolar ainda durante a graduação possibilita uma formação mais consistente, permitindo que conhecimentos teóricos sejam constantemente confrontados com as situações concretas da prática pedagógica. Essa aproximação favorece o desenvolvimento da autonomia, da capacidade de tomada de decisões e da construção de uma identidade docente fundamentada tanto no conhecimento científico quanto na experiência profissional.

2.2. O PIBID Como Política Pública de Formação Docente

O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) constitui uma das principais políticas públicas brasileiras voltadas ao fortalecimento da formação inicial de professores. Desde sua criação, o PIBID já beneficiou, em média, mais de 341 mil licenciandos, consolidando-se como uma das principais políticas públicas brasileiras voltadas à formação inicial de professores e ao fortalecimento da articulação entre universidade e escola pública (BRASIL, 2023). Instituído pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o programa tem como objetivo aproximar os estudantes das licenciaturas da realidade das escolas públicas de Educação Básica desde os primeiros anos da graduação, promovendo a articulação entre teoria e prática e contribuindo para a valorização da carreira docente (BRASIL, 2024).

A proposta do PIBID fundamenta-se na compreensão de que a formação docente se torna mais significativa quando o licenciando participa ativamente do cotidiano escolar, vivenciando situações reais de ensino, planejamento, avaliação e interação com professores e estudantes. Essa perspectiva aproxima-se das reflexões de Nóvoa (2009), em Professores: Imagens do Futuro Presente, ao defender que a formação acontece "dentro da profissão", e das contribuições de Tardif (2014), em Saberes Docentes e Formação Profissional, ao reconhecer a escola como espaço de produção dos saberes experienciais.

Nesse contexto, o PIBID possibilita ao licenciando vivenciar experiências que ultrapassam a observação das aulas, favorecendo sua participação no planejamento, na elaboração de materiais didáticos, na condução de intervenções pedagógicas e na reflexão sobre a prática docente. Para Freire (1996), em Pedagogia da Autonomia, ensinar implica uma relação dialógica e permanente entre ensinar e aprender, uma perspectiva que se alinha diretamente às experiências promovidas pelo programa.

Estudos recentes, como o de Pinheiro e Colombo (2021), corroboram essas contribuições ao evidenciar que o PIBID fortalece a construção da identidade docente, amplia a segurança dos licenciandos para o exercício da profissão e favorece a aproximação entre universidade e escola, consolidando-se como importante política pública para a formação de professores no Brasil.

2.3. A Educação Física Escolar e a Formação do Licenciando

A Educação Física escolar, compreendida como componente curricular da Educação Básica, tem como finalidade possibilitar aos estudantes o acesso aos conhecimentos produzidos pela cultura corporal de movimento, contemplando práticas como esportes, jogos, brincadeiras, danças, lutas, ginásticas e práticas corporais de aventura (BRASIL, 2018). Nessa perspectiva, o ensino da Educação Física ultrapassa o desenvolvimento de habilidades motoras, buscando contribuir para a formação crítica, social e cultural dos estudantes.

Ao discutir a função social da Educação Física, Bracht (1999), na obra A Constituição das Teorias Pedagógicas da Educação Física, defende que esse componente curricular deve favorecer a compreensão crítica das manifestações da cultura corporal, superando práticas centradas apenas na execução técnica dos movimentos. De forma semelhante, Darido (2003), em Educação Física na Escola: Questões e Reflexões, ressalta a necessidade de diversificação dos conteúdos e das estratégias metodológicas, possibilitando aos estudantes experiências significativas e contextualizadas.

Essa compreensão também é reforçada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que organiza os conteúdos da Educação Física em unidades temáticas, ampliando as possibilidades pedagógicas para além dos esportes tradicionais (BRASIL, 2018). Nesse contexto, o professor assume o papel de mediador do processo de ensino e aprendizagem, sendo responsável por planejar intervenções que valorizem a participação, a inclusão e a construção do conhecimento pelos estudantes.

Para os licenciandos, esse cenário representa uma importante oportunidade de desenvolvimento profissional. A inserção na escola por meio do PIBID permite compreender as especificidades da prática docente na Educação Física, conhecer diferentes realidades escolares, experimentar metodologias de ensino e desenvolver competências relacionadas ao planejamento, à mediação pedagógica e à avaliação da aprendizagem. Dessa forma, a aproximação entre universidade e escola favorece não apenas a consolidação dos conhecimentos construídos durante a graduação, mas também a formação de professores mais críticos, reflexivos e preparados para os desafios da Educação Básica.

3. METODOLOGIA

Nosso estudo caracteriza-se como um relato de experiência, de abordagem qualitativa e natureza descritiva. De acordo com Gil (2002, p. 42), as pesquisas descritivas "têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno". Esta perspectiva dialoga com a abordagem qualitativa que, conforme aponta Minayo (2002), volta-se para a compreensão dos significados, motivos, aspirações, crenças e valores atribuídos às experiências vividas pelos sujeitos em seus contextos sociais.

Construímos este trabalho a partir das vivências que desenvolvemos enquanto acadêmicos do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), integrados ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), durante nossas atividades em uma escola pública da rede estadual de ensino.

Vivenciamos essas experiências no Centro Estadual de Tempo Integral (CETI) Jacob Demes, localizado no município de Floriano, Piauí, ao longo do nosso período de atuação no programa. Nossas ações compreenderam etapas de observação, planejamento, elaboração de materiais didáticos e intervenções pedagógicas, além da participação em projetos da escola. Todo esse percurso ocorreu em constante articulação com o professor supervisor, respeitando o planejamento pedagógico da instituição e os objetivos do PIBID.

As reflexões apresentadas neste trabalho foram construídas a partir da observação participante e dos diários de campo e registros que produzimos no decorrer das atividades. Tomamos como base nossa imersão no cotidiano escolar, as interações que estabelecemos com estudantes, professores e equipe gestora, bem como os momentos de planejamento coletivo e de avaliação crítica das ações que realizamos.

A análise das experiências fundamentou-se na reflexão crítica sobre a prática docente, buscando estabelecer relações entre as vivências proporcionadas pelo PIBID e os referenciais teóricos que discutem a formação inicial de professores, a construção da identidade docente e a aproximação entre universidade e escola. Dessa forma, o relato não pretende generalizar resultados, mas compartilhar experiências que possam contribuir para a compreensão das potencialidades e dos desafios presentes na formação de futuros professores de Educação Física.

4. RELATO DE EXPERIÊNCIA E DISCUSSÃO

O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) nos proporcionou experiências que ultrapassam a observação da prática escolar, permitindo nossa participação ativa no planejamento, na execução e na avaliação de intervenções pedagógicas. Durante o período de atuação na Escola CETI Jacob Demes, localizada no município de Floriano-PI, nós, bolsistas de Educação Física, vivenciamos diferentes situações que nos possibilitaram compreender, na prática, os desafios, as possibilidades e as responsabilidades inerentes à profissão docente.

As experiências desenvolvidas evidenciaram que a escola constitui um espaço de constante aprendizagem para o futuro professor. Embora a formação universitária ofereça fundamentos teóricos indispensáveis para a atuação profissional, foi no cotidiano escolar que esses conhecimentos passaram a adquirir novos significados, especialmente diante das diferentes realidades apresentadas pelas turmas, das necessidades dos estudantes e das constantes adaptações exigidas durante as intervenções. Essa compreensão aproxima-se da perspectiva apresentada por Tardif (2014), ao reconhecer que os saberes docentes também são produzidos nas experiências vividas durante a prática profissional.

4.1. Das Expectativas à Realidade: Os Primeiros Desafios da Docência

Nossa entrada no PIBID foi impulsionada pelo desejo de vivenciar, de forma contínua, a rotina da escola pública. Compartilhávamos a expectativa de aplicar os conhecimentos da graduação e desenvolver atividades que despertassem o interesse dos estudantes pelas aulas de Educação Física. No entanto, as primeiras experiências logo nos mostraram que a realidade escolar impõe desafios que extrapolam as teorias da universidade.

Um dos aspectos que mais chamaram nossa atenção durante a inserção na escola foi a diversidade de perfis existentes entre as turmas. Cada sala apresentava características próprias quanto ao comportamento, ao interesse pelas atividades, ao nível de participação e às relações estabelecidas entre os estudantes. Essa realidade nos exigiu flexibilidade, pois percebemos, na prática, que uma mesma estratégia metodológica produzia efeitos completamente distintos a depender do contexto.

Além disso, observamos que o planejamento das aulas, embora fundamental, precisava ser constantemente adaptado às condições reais encontradas na escola. Aspectos como tempo disponível, espaço físico, recursos materiais e comportamento dos estudantes nos obrigavam a tomar decisões rápidas durante as intervenções. Ficou evidente para nós que o ato de ensinar vai muito além da execução mecânica de um plano de aula.

Essa experiência reforçou a compreensão apresentada por Nóvoa (2009), ao afirmar que a formação docente acontece na profissão e pela profissão, sendo construída continuamente a partir das experiências vividas e da reflexão sobre elas. Da mesma forma, Freire (1996), em Pedagogia da Autonomia, destaca que ensinar exige disponibilidade para aprender continuamente com a prática e com os sujeitos envolvidos no processo educativo.

4.2. As Intervenções Pedagógicas e a Construção da Prática Docente

Ao longo das nossas atividades no PIBID, envolvemo-nos diretamente no planejamento e na execução de diversas intervenções pedagógicas alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018). Entre as ações desenvolvidas destacaram-se atividades relacionadas aos jogos eletrônicos, esportes de marca, esportes técnico-combinatórios, capoeira, lutas, circuitos motores, avaliações físicas e projetos voltados ao desenvolvimento de diferentes capacidades corporais.

Mais do que trabalhar conteúdos específicos da Educação Física, essas experiências nos ensinaram compreender a importância do planejamento pedagógico, da organização das aulas e da adaptação constante das metodologias de ensino às necessidades apresentadas pelos estudantes. Em diferentes momentos, percebemos que atividades inicialmente planejadas precisavam ser reorganizadas durante sua execução para favorecer maior participação dos alunos ou atender às características de cada turma.

Um exemplo dessa aproximação entre teoria e prática ocorreu durante as intervenções envolvendo jogos eletrônicos. Discutimos com os estudantes a evolução dos videogames e suas intersecções com o jogo, o esporte e a cultura corporal, trazendo a realidade tecnológica deles para dentro do currículo escolar. Na sequência, as dinâmicas práticas que propusemos ampliaram a participação da turma e geraram debates ricos sobre as diferentes manifestações dessa cultura.

Situação semelhante foi observada nas intervenções relacionadas à capoeira e ao boxe. Tivemos a oportunidade de contar com professores convidados, o que permitiu aos alunos um contato profundo com a história, a cultura e a técnica dessas modalidades. Enquanto os profissionais conduziam, nós atuamos na retaguarda: mediamos a organização, auxiliamos os estudantes nos movimentos e analisamos as diferentes estratégias didáticas utilizadas. Essa colaboração não só expandiu nossa visão sobre a pluralidade de conteúdos possíveis na Educação Física, como reafirmou o valor das parcerias entre a escola e a comunidade.

Por fim, as aulas de esportes de marca e técnico-combinatórios nos desafiaram bastante. As adaptações que fomos forçados a fazer para adequar as regras e os movimentos à estrutura da escola nos provaram que a docência exige criatividade e resiliência diante de imprevistos. Descobrimos que é plenamente possível alcançar os objetivos de aprendizagem mesmo com limitações de espaço ou material. Essa percepção dialoga com Darido (2003), ao defender que a qualidade das aulas de Educação Física está diretamente relacionada às escolhas metodológicas realizadas pelo professor e à capacidade de contextualizar os conteúdos à realidade dos estudantes.

4.3. Os Desafios da Prática Docente e as Aprendizagens Construídas

Ao longo das experiências desenvolvidas na escola, compreendemos que o planejamento pedagógico representa apenas uma das etapas do trabalho docente. A vivência cotidiana na Educação Básica evidenciou que cada aula apresenta situações imprevisíveis, exigindo do professor sensibilidade, flexibilidade e capacidade de adaptação diante das diferentes realidades encontradas. Nesse sentido, percebemos que ensinar vai muito além da transmissão de conteúdos, envolvendo também a construção de relações, a mediação de conflitos e a constante reorganização das estratégias de ensino.

Entre os principais desafios enfrentados durante nossa participação no PIBID, destacamos o comportamento de algumas turmas. Em diversos momentos, encontramos estudantes bastante inquietos, conversas paralelas frequentes e dificuldades para manter a atenção durante determinadas atividades. Inicialmente, essas situações geraram insegurança, sobretudo por ainda estarmos em processo de formação. Com o passar das intervenções, entretanto, compreendemos que tais comportamentos fazem parte da realidade escolar e exigem muito mais do que autoridade: exigem diálogo, planejamento e a construção gradual de vínculos com os estudantes.

À medida que nossa permanência na escola aumentava, percebemos que a relação estabelecida com as turmas também se fortalecia. A convivência semanal permitiu conhecer melhor as características dos estudantes, suas formas de participação, seus interesses e suas dificuldades. Essa aproximação favoreceu um ambiente mais acolhedor durante as aulas e tornou a comunicação mais natural, refletindo positivamente no desenvolvimento das atividades propostas. Passamos a compreender que o processo de ensino também se constrói a partir das relações de confiança estabelecidas entre professor e estudante, aspecto amplamente defendido por Freire (1996) ao discutir a importância do diálogo como elemento fundamental da prática educativa.

Outro aspecto que contribuiu significativamente para nossa formação foi a necessidade constante de adaptar as atividades planejadas. Em diferentes momentos, fatores como o tempo disponível, o comportamento da turma, as condições do espaço físico ou mesmo a dinâmica da escola exigiram alterações na condução das aulas. Longe de representar um obstáculo, essas adaptações contribuíram para o desenvolvimento de nossa autonomia e capacidade de tomada de decisão, competências indispensáveis ao exercício da docência.

Também reconhecemos a importância do trabalho coletivo durante todo esse processo. A presença do professor supervisor, o planejamento conjunto entre os bolsistas e as discussões realizadas após as intervenções favoreceram momentos permanentes de reflexão sobre a prática. Muitas dificuldades identificadas durante uma aula tornavam-se oportunidades de aprendizagem nas reuniões seguintes, permitindo-nos repensar estratégias e aperfeiçoar nossa atuação nas intervenções posteriores. Essa dinâmica aproxima-se da concepção de professor reflexivo apresentada por Schön (2000), ao compreender que a prática profissional constitui um espaço permanente de aprendizagem e reconstrução do fazer docente.

Ao analisarmos essas experiências, percebemos que muitos dos desafios inicialmente encarados como dificuldades passaram a representar oportunidades de crescimento profissional. Situações que, no início do programa, geravam insegurança tornaram-se experiências fundamentais para compreendermos a complexidade do trabalho docente e desenvolvermos maior confiança para atuar em sala de aula. Dessa forma, o PIBID proporcionou muito mais do que a realização de atividades pedagógicas; proporcionou a vivência concreta da profissão e contribuiu para transformar expectativas iniciais em aprendizagens significativas.

4.4. Das Expectativas Às Realidades: Contribuições do PIBID para Nossa Formação Docente

Ao ingressarmos no PIBID, levávamos conosco diferentes expectativas acerca da profissão docente. Imaginávamos que o maior desafio estaria relacionado ao domínio dos conteúdos ou à condução das aulas. Entretanto, as experiências vivenciadas ao longo do programa demonstraram que a docência envolve dimensões muito mais amplas, como a construção de relações interpessoais, o planejamento coletivo, a capacidade de adaptação e a reflexão constante sobre a própria prática.

Ao longo desse percurso, percebemos que nossa formação deixou de acontecer exclusivamente na universidade e passou a ser construída também na escola. O contato permanente com estudantes, professores, equipe gestora e demais profissionais da educação possibilitou compreender a dinâmica escolar de maneira muito mais concreta do que seria possível apenas por meio das disciplinas do curso. Essa aproximação confirmou, na prática, as reflexões de Nóvoa (2009) acerca da formação construída no interior da profissão e da importância da escola como espaço formativo.

Outro aspecto relevante foi o desenvolvimento de maior segurança para atuar como futuros professores. As experiências de observação, planejamento, aplicação de intervenções e avaliação das atividades contribuíram para ampliar nossa autonomia, fortalecer a capacidade de trabalhar em equipe e desenvolver maior confiança diante dos desafios presentes na realidade escolar. Cada intervenção realizada representou uma oportunidade de aprendizagem, permitindo-nos compreender que o aperfeiçoamento profissional ocorre continuamente e não se encerra com a conclusão da graduação.

Além do desenvolvimento profissional, as vivências proporcionadas pelo PIBID fortaleceram nossa compreensão acerca da função social da Educação Física escolar. Passamos a reconhecer com maior clareza que a disciplina vai muito além da prática esportiva, constituindo um componente curricular responsável por oportunizar aos estudantes o acesso às diferentes manifestações da cultura corporal de movimento, conforme orienta a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018). Essa percepção ampliou nossa visão sobre o planejamento das aulas e sobre as possibilidades pedagógicas da área.

Ao refletirmos sobre toda a trajetória vivenciada, compreendemos que o título deste relato — "PIBIDIANOS: expectativas e realidades da formação docente em educação física na escola pública" — representa, de forma fiel, nosso processo formativo. As expectativas construídas antes da inserção na escola deram lugar a uma compreensão mais ampla, crítica e realista da profissão docente. As dificuldades encontradas não diminuíram nosso interesse pela docência; ao contrário, fortaleceram nossa convicção de que ensinar exige estudo permanente, compromisso, sensibilidade e disposição para aprender continuamente com a prática.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao refletirmos sobre as experiências vivenciadas ao longo de nossa participação no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), compreendemos que a formação docente vai muito além dos conhecimentos construídos em sala de aula na universidade. A inserção no cotidiano da escola pública permitiu que vivenciássemos situações reais da profissão, proporcionando aprendizagens que dificilmente seriam alcançadas apenas por meio dos componentes curriculares da graduação.

As atividades desenvolvidas durante o programa possibilitaram ampliar nossa compreensão acerca do papel do professor de Educação Física, evidenciando a necessidade de constante planejamento, adaptação e reflexão sobre a prática pedagógica. Ao longo desse percurso, percebemos que cada intervenção, independentemente de seus desafios, representou uma oportunidade de crescimento profissional, contribuindo para o desenvolvimento de competências relacionadas à mediação do ensino, ao trabalho coletivo, à tomada de decisões e à construção de vínculos com os estudantes.

Também reconhecemos que a convivência contínua com a comunidade escolar foi determinante para transformar as expectativas que construímos no início da graduação em uma visão mais realista da profissão docente. Os desafios encontrados, especialmente aqueles relacionados à diversidade das turmas, ao comportamento dos estudantes e às constantes adaptações exigidas pelo cotidiano escolar, deixaram de ser compreendidos apenas como dificuldades e passaram a ser reconhecidos como elementos essenciais do processo de formação.

Nesse sentido, o PIBID reafirma sua relevância como política pública voltada ao fortalecimento da formação inicial de professores, ao favorecer a aproximação entre universidade e escola e possibilitar que os licenciandos desenvolvam, desde os primeiros anos da graduação, experiências significativas de ensino, planejamento e reflexão sobre a prática docente. Para nós, essa aproximação proporcionou maior segurança para o exercício da profissão e fortaleceu nossa identidade enquanto futuros professores de Educação Física.

Por fim, esperamos que este relato possa contribuir para ampliar as discussões acerca da importância do PIBID na formação inicial de professores, especialmente na área da Educação Física, evidenciando que a experiência vivida na escola representa um espaço privilegiado de aprendizagem, desenvolvimento profissional e construção da identidade docente. Embora este estudo esteja fundamentado em uma realidade específica, acreditamos que as reflexões apresentadas podem dialogar com as experiências de outros licenciandos e incentivar novas investigações sobre os impactos do programa na formação docente.

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1 Professora supervisora do subprojeto(PIBID) do núcleo Jacob Demes. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Licenciatura em Educação Física na Universidade Estadual do Piauí Campus Dr. Josefina Demes. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do Curso Superior de Licenciatura em Educação Física na Universidade Estadual do Piauí Campus Dr. Josefina Demes. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do Curso Superior de Licenciatura em Educação Física na Universidade Estadual do Piauí Campus Dr. Josefina Demes. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail