REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783654055
RESUMO
A educação em saúde é um processo de ensino-aprendizagem que visa a promoção da saúde da população, e o profissional de saúde deve estar preparado para propor estratégias, ofertando caminhos que possibilitem transformações individuais e coletivas. Este estudo teve como objetivo analisar o conhecimento sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) entre estudantes de enfermagem em diferentes fases de sua formação acadêmica e a implicação deste conhecimento na educação em saúde da população. Trata-se de um estudo observacional, analítico e transversal, conduzido em uma instituição de ensino superior privada do Distrito Federal. Participaram 314 estudantes do curso de Enfermagem. A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de um questionário sociodemográfico e um questionário sobre conhecimentos acerca do SUS. Foram aplicados os testes de Kruskal–Wallis e teste qui-quadrado de Pearson. Em todas as análises inferenciais, adotou-se nível de significância de 5% (p ≤ 0,05). Os resultados indicaram evolução dos estudantes ao longo da graduação de forma positiva, onde os estudantes de 4° e 8° semestres apresentaram maior compreensão sobre o tema quando comparados aos do 1° semestre, ressaltando a influência direta das disciplinas teórico-práticas na consolidação do conteúdo. Conclui-se que há uma evolução nos conhecimentos acerca do SUS, indicando que a graduação contribui para o desenvolvimento progressivo dos estudantes. Embora exista evolução ao longo dos semestres, ainda há espaço significativo para aprimorar a formação, permitindo que o futuro enfermeiro atue de maneira crítica, consciente e socialmente comprometida com os princípios do SUS e com a educação em saúde.
Palavras-chave: Educação em saúde; Sistema Único de Saúde (SUS); Promoção da saúde.
ABSTRACT
Health education is a teaching-learning process aimed at promoting population health; health professionals must be prepared to propose strategies and offer pathways that enable individual and collective transformations. This study aimed to analyze nursing students' knowledge regarding the Unified Health System (SUS) at different stages of their academic training and the implications of this knowledge for population health education. This was an observational, analytical, cross-sectional study conducted at a private higher education institution in the Federal District. A total of 314 nursing students participated. Data collection involved the administration of a sociodemographic questionnaire and a questionnaire assessing knowledge about the SUS. The Kruskal-Wallis test and Pearson's chi-square test were applied. A significance level of 5% (p ≤ 0.05) was adopted for all inferential analyses. The results indicated a positive progression in students' knowledge throughout the undergraduate program; students in the 4th and 8th semesters demonstrated a better understanding of the subject compared to those in the 1st semester, highlighting the direct influence of theory-practice courses on the consolidation of knowledge. It is concluded that there is an evolution in knowledge regarding the SUS, indicating that the undergraduate program contributes to the students' progressive development. Although there is progress across semesters, there is still significant room to enhance training, enabling future nurses to act critically, consciously, and with a social commitment to SUS principles and health education.
Keywords: Health education; Unified Health System (SUS); Health promotion.
1. INTRODUÇÃO
A Educação em Saúde é um processo de ensino-aprendizagem que visa a promoção da saúde da população. O profissional de saúde deve ser e estar preparado para propor estratégias, no intuito de oferecer caminhos que possibilitem transformações nas pessoas/comunidades. Em relação às estratégias de cuidado, cabe destacar que a enfermagem é uma área do conhecimento que abrange atividades como o cuidar, o gerenciar e o educar.
Nos diferentes cenários onde exerce a sua prática profissional - hospitais, unidades básicas de saúde, ambulatórios, escolas, creches, empresas e domicílios - o horizonte da enfermagem não se restringe somente a sujeitos em situação de doença. Dentre as diversas formas de atuação do enfermeiro na sociedade moderna, a prática educativa vem despontando como principal estratégia à promoção da saúde (Souza; Wegner; Gorini, 2007).
A sociedade brasileira faz uso de um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, porém, muitas vezes sem saber ao certo como ele funciona. Para que a população consiga acessar esse sistema de forma eficiente e tenha suas necessidades atendidas adequadamente, é importante conhecer os serviços ofertados. Esse conhecimento ajuda a proporcionar os seus direitos previstos na Constituição, facilita a solução de problemas de saúde e a compreensão das necessidades relacionadas ao processo de adoecer e se cuidar. Além disso, entender o sistema de saúde ajuda a diminuir informações errôneas que foram divulgadas ao longo do tempo (Mota Paes; Nascimento; Oliveira Negrini, 2019).
Nesse contexto, a atuação dos enfermeiros na promoção da educação em saúde é fundamental para orientar a população. Este estudo se justifica pela necessidade de avaliar se a formação acadêmica está preparando os futuros profissionais para desempenhar esse papel educativo, contribuindo para a melhoria do fluxo de atendimento e o uso adequado dos recursos do SUS.
Portanto, este estudo teve como objetivo analisar o conhecimento sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) entre estudantes de enfermagem em diferentes fases de sua formação acadêmica — iniciantes, em desenvolvimento e concluintes — bem como a implicação deste conhecimento na educação em saúde da população.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Sistema Único de Saúde
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi instituído pela Constituição Federal de 1988, nos artigos 196 a 200, que estabeleceram a saúde como um direito de todos e um dever do Estado. A Constituição determina que o Estado deve garantir acesso universal e igualitário aos serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde. O art. 198 inciso II visa garantir atendimento integral com foco em ações preventivas, visto que a educação é uma estratégia fundamental de prevenção de doenças e no fortalecimento do autocuidado. Além disso, o art. 200, especialmente nos incisos II e III, compõe uma das atribuições do sistema as ações de vigilância em saúde e integra a formação dos recursos humanos em saúde, qualificando profissionais para desenvolver atividades educativas junto à comunidade. Desse modo, a Educação em Saúde permeia os princípios organizacionais, diretrizes e competências do SUS previstos nesses artigos (Brasil,1988).
Dois anos depois, através das Lei 8.080/90, foi criado a lei de regulamentação do SUS e, por meio da Lei 8.142/90, foi garantido à comunidade sua participação neste sistema. No art. 14 da Lei 8.080/90 fica evidente a importância da educação em saúde ao criar Comissões Permanentes responsáveis por definir estratégias de formação e educação continuada dos profissionais do SUS. Essas ações fortalecem a produção e disseminação de informações em saúde e contribuem diretamente para as diretrizes de integralidade e participação social, qualificando a atenção oferecida à população (Brasil,1988; 1990a; 1990b).
2.2. Organização e Princípios do SUS
Os princípios organizativos do SUS são diretrizes que orientam como o sistema deve funcionar, estruturando a organização da rede de serviços. São estes a regionalização, hierarquização, descentralização e participação popular. Eles complementam os princípios doutrinários (universalidade, integralidade e equidade) e orientam a gestão e o cuidado (Brasil, 1990). Nas ações de saúde a participação popular e de suma importância para a formulação de estratégias e planejamento de ações de saúde, contribuindo para o desenvolvimento da cidadania e fortalecimento dos princípios e diretrizes do SUS promovendo um melhor autocuidado (Ulhoa, 2012).
2.3. Educação em Saúde e Atuação do Enfermeiro
A educação em saúde é um processo de ensino-aprendizagem que visa a promoção da saúde, e o profissional dessa área é o principal mediador para que isso ocorra. Dentre as diversas formas de atuação do enfermeiro na sociedade moderna, a prática educativa vem despontando como principal estratégia à promoção da saúde (Souza; Wegner; Gorini, 2007).
A atuação do enfermeiro requer a capacidade de responsabilizar-se pelo cuidado ao usuário, compreensão de seu contexto social, suas necessidades e expectativas, seja como assistente, educador e ou gestor. No entanto, para cuidar é preciso de competência técnica, que possibilita a abertura a sentimentos que envolvam o próximo, a sensibilidade por meio do interesse, do respeito, da atenção e da consideração pelo outro (Marcelo; Di João; Fernandes, 2022).
3. METODOLOGIA
3.1. Tipo de Estudo
Trata-se de um estudo transversal e analítico, de caráter quantitativo realizado com estudantes do curso de enfermagem.
O delineamento transversal permite a análise das informações em um único momento, identificando o perfil e as percepções dos participantes acerca do tema investigado (Raimundo; Echeimberg; Leone, 2018).
3.2. Local, Amostra e Critérios de Seleção
A pesquisa foi realizada com estudantes matriculados no primeiro, quarto e oitavo semestre do curso de Enfermagem de uma Instituição de Ensino Superior (IES) privada do Distrito Federal, no período de junho a setembro de 2025.
A escolha dos semestres incluídos nesta pesquisa foi definida com base na grade curricular do curso e na progressão formativa ao longo da graduação. Dessa forma, foram selecionados semestres que representam diferentes etapas do processo de formação acadêmica, contemplando um semestre inicial, semestres intermediários e o semestre final do curso. Essa estratégia permitiu analisar os conhecimentos e experiências dos estudantes em diferentes momentos da formação, possibilitando uma visão mais abrangente e comparativa ao longo do avanço acadêmico.
No período da coleta, estavam matriculados, respectivamente, 399 no primeiro, 133 no quarto e 236 oitavo semestre, considerando o total de oito semestres do curso. Com base nestes dados, utilizou-se a fórmula de Cochran (1977), para calcular o tamanho mínimo da amostra necessária:
Onde:
n representa o tamanho da amostra;
N corresponde ao tamanho da população;
Z é o valor crítico da distribuição normal associado ao nível de confiança adotado;
p refere-se à proporção esperada do fenômeno estudado na população;
(1 − p) é a proporção complementar;
e corresponde ao erro amostral máximo tolerável.
Portanto, estimou-se a participação de 257 estudantes, sendo 134 do primeiro, 45 do quarto e 79 do oitavo semestre. A amostra final foi de 314 estudantes.
Foram utilizados, como critérios de inclusão, alunos maiores de 18 anos que cursam regularmente o primeiro, quarto e oitavo semestre do curso de enfermagem. Os critérios de exclusão foram estudantes em regime domiciliar ou semipresencial e os alunos que que estavam repetindo disciplinas com essas temáticas.
3.3. Instrumento de Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário sociodemográfico e um questionário sobre conhecimentos acerca do SUS. Ambos foram construídos pela equipe de pesquisa.
O questionário sociodemográfico aplicado aos estudantes incluiu variáveis como idade, gênero, estado civil, semestre em curso e experiências anteriores com o Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, foi utilizado um questionário específico para avaliar os conhecimentos dos estudantes sobre o SUS, composto por questões relacionadas aos seus princípios, funcionamento, redes de atenção à saúde e à utilização do sistema pelos participantes.
Os dois questionários foram avaliados por dois docentes, sendo um especialista em Saúde Coletiva e outro em Saúde do Adulto. Após a avaliação pelos docentes, os questionários foram aplicados para dois estudantes, em caráter de teste piloto, a fim de identificar falhas e oportunidades de aprimoramento antes da aplicação definitiva.
3.4. Procedimento de Coleta de Dados
Após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do UDF, os estudantes foram convidados a participar da pesquisa durante as aulas presenciais. O convite incluía a explicação sobre objetivos, riscos e benefícios do estudo, aplicação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e os questionários.
Somente após a concordância com o TCLE, os estudantes tiveram acesso aos questionários. A aplicação ocorreu em sala de aula, de forma individual. O tempo médio de resposta foi de aproximadamente 20 minutos. Posteriormente, os dados foram digitados em planilha no Microsoft Excel para análise.
3.5. Tratamento e Análise dos Dados Estatísticos
Os dados foram inicialmente digitados em planilhas do Microsoft Excel®, com posterior conferência para identificação e correção de inconsistências. Após validação do banco, procedeu-se à análise estatística utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), versão 23.
As variáveis categóricas foram descritas por frequências absolutas e relativas, enquanto as variáveis numéricas foram avaliadas quanto à normalidade por meio da inspeção gráfica e medidas de assimetria e curtose, apresentando distribuição não normal. Dessa forma, as variáveis contínuas foram expressas como mediana e intervalo interquartil (IIQ), e as comparações entre os três grupos (1º, 4º e 8º semestres) foram realizadas pelo teste de Kruskal–Wallis. Para as variáveis categóricas, utilizou-se o teste qui-quadrado de Pearson, com aplicação de correção quando necessário, a fim de verificar associações entre semestre e características sociodemográficas, conhecimento sobre o SUS, desempenho nas questões e autopercepção de preparo para orientar a população. Adicionalmente, foram conduzidas comparações estratificadas por preparo referido, analisando-se o desempenho por item a partir das proporções de acertos e erros. Em todas as análises inferenciais, adotou-se nível de significância de 5% (p ≤ 0,05).
3.6. Aspectos Éticos da Pesquisa
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário do Distrito Federal (CEP/UDF) no dia 30 de abril de 2025, sob parecer nº 7.539.934 e C.A.E.E. nº 880037125.4.0000.5650 devidamente registrados na Plataforma Brasil.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1. Caracterização dos Participantes
Participaram da pesquisa 314 estudantes do curso de enfermagem, sendo respectivamente do 1º semestre (n=146), 4º semestre (n=74) e 8º semestre (n=94). De acordo com a tabela 1, observa-se que os estudantes são uma população jovem, solteira e com predominância do sexo feminino em todos os semestres. No quesito moradia, percebe-se que, nos três semestres, há um grupo majoritário que reside em regiões administrativas (Ceilândia, Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina, Brazlândia). Em relação a situação profissional, estudantes do 1° e 4° trabalham e estudam (63,7% e 73%, respectivamente) enquanto, no 8° semestre, predomina o grupo que somente estuda, com 55,9%. A maior parte dos estudantes declarou renda familiar na faixa de R$ 1.500,00 - 3.000,00, A maioria afirmou ser usuários do SUS, sendo evidenciado pelo percentual de 67,1% do 1° semestre, 73% do 4° semestre e 62,8% do 8° semestre, e, quanto ao plano de saúde, a maioria não possui cobertura privada. O valor p <0,001, evidencia a heterogeneidade da amostra nos diferentes semestres.
Tabela 1. Caracterização demográfica dos participantes (n=314). Brasília, DF, Brasil, 2025.
Variável | Unidade de Medida | 1º Semestre | 4º Semestre | 8º Semestre | Valor-p |
Idade (em anos) | Média (DP) Mediana (IIQ) | 23,31 (6,94) 21,00 (19,00-25,00) | 23,84 (5,12) 22,00 (20,00-25,00) | 26,29 (6,20) 24,00 (22,00-28,00) | <0,001 K |
Sexo | <0,001 Q | ||||
Feminino | n (%) | 118 (80,8) | 53 (71,6) | 84 (89,4) | |
Masculino | n (%) | 28 (19,2) | 21 (28,4) | 10 (10,6) | |
Estado Civil | <0,001 Q | ||||
Solteiro (a) | n (%) | 123 (85,4) | 60 (82,2) | 62 (67,4) | |
Casado (a) | n (%) | 10 (6,9) | 8 (11) | 20 (21,7) | |
União Estável | n (%) | 9 (6,3) | 4 (5,5) | 8 (8,7) | |
Divorciado (a) | n (%) | 2 (1,4) | 1 (1,4) | 2 (2,2) | |
Local onde reside | <0,001 Q | ||||
Região Central | n (%) | 21 (14,5) | 7 (9,6) | 23 (24,5) | |
Regiões Administrativas | n (%) | 85 (58,6}) | 49 (67,1) | 54 (57,4) | |
Entorno | n (%) | 30 (20,7) | 16 (21,9) | 17 (18,10 | |
Outros | n (%) | 9 (6,2) | 1 (1,4) | 0 (0) | |
Situação Profissional | <0,001 Q | ||||
Somente estuda | n (%) | 53 (36,3) | 20 (27) | 52 (55,9) | |
Estuda e trabalha | n (%) | 93 (63,7) | 54 (73) | 41 (44,1) | |
Renda Familiar | <0,001 Q | ||||
Até R$ 1.500 | n (%) | 45 (31,3) | 25 (35,2) | 20 (22,5) | |
R$ 1.500 a R$ 3.000 | n (%) | 65 (45,1) | 33 (46,5) | 30 (33,7) | |
R$ 3.000 a R$ 6.000 | n (%) | 14 (9,7) | 12 (16,90 | 23 (25,8) | |
R$ 6.000 a R$ 8.000 | n (%) | 13 (9) | 1 (1,4) | 6 (6,7) | |
R$ 8.000 a R$ 10.000 | n (%) | 4 (2,8) | 0 (00 | 2 (2,2) | |
R$ 10.000 a R$ 15.000 | n (%) | 2 (1,4) | 0 (0) | 2 (2,2) | |
Mais de R$ 15.000 | n (%) | 1 (0,7) | 0 (0) | 6 (6,7) | |
Usuário do SUS | <0,001 Q | ||||
Sim | n (%) | 98 (67,1) | 54 (73) | 59 (62,8) | |
Não | n (%) | 18 (12,3) | 10 (13,5) | 7 (7,4) | |
Esporadicamente | n (%) | 30 (20,5) | 10 (13,5) | 28 (29,8) | |
Plano de Saúde | 0,005 Q | ||||
Sim | n (%) | 50 (34,2) | 37 (50) | 45 (47,9) | |
Não | n (%) | 96 (65,6) | 37 (50) | 49 (52,1) |
Nota: K = Teste Kruskall Wallis; Q = Teste Qui-Quadrado
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
4.2. Conhecimento e Percepção dos Estudantes Sobre o SUS
A tabela 2 aborda parte do questionário sociodemográfico voltado para a percepção acerca do SUS, distribuídos entre os semestres. O valor p <0,001 evidência, semelhante a tabela 1, a heterogeneidade da amostra nos diferentes semestres. Observa-se que o nível de conhecimento sobre os serviços oferecidos do SUS é progressivo ao longo do curso. O contato prático com o SUS se mostra mais frequente nos semestres finais, alcançando quase a totalidade no 8° semestre. Quanto à formação acadêmica, houve um declínio em relação a percepção sobre o fornecimento de informações suficientes sobre o sistema a fim de realizar educação em saúde. Por fim, praticamente todos os participantes concordam que a falta de informação impacta negativamente o funcionamento do sistema de saúde.
Tabela 2. Caracterização dos participantes acerca do SUS (n=314). Brasília, DF, Brasil, 2025.
Variável | 1º Semestre | 4º Semestre | 8º Semestre | Valor-p |
Conhece os serviços do SUS | <0,001 Q | |||
Sim, com detalhes | 19 (13) | 21 (28,8) | 54 (59,3) | |
Tenho uma noção geral | 113 (77,4) | 50 (68,5) | 37 (40,7) | |
Não sei ao certo | 14 (9,6) | 2 (2,7) | 0 (0) | |
Contato prático com o SUS | 0,008 Q | |||
Sim | 58 (39,7) | 28 (39,4) | 93 (98,9) | |
Não | 88 (60,3) | 43 (60,6) | 1 (1,1) | |
Pensa que a formação acadêmica fornece informações sobre o SUS? | <0,001 Q | |||
Sim | 119 (81,5) | 53 (72,6) | 58 (61,7) | |
Não | 27 (18,5) | 20 (27,4) | 36 (38,3) | |
Pensa que a falta de informação impacta o funcionamento do SUS? | <0,001 Q | |||
Sim | 144 (98,6) | 71 (98,6) | 93 (98,9) | |
Não | 2 (1,4) | 1 (1,4) | 1 (1,1) | |
Sente-se preparado para orientar a população acerca do SUS? | 0,141 Q | |||
Sim | 59 (40,4) | 42 (57,5) | 68 (73,1) | |
Não | 87 (59,6) | 31 (42,5) | 25 (26,9) | |
Acha importante o profissional orientar a população sobre o SUS? | <0,001 Q | |||
Sim | 142 (97,3) | 74 (100) | 93 (98,9) | |
Não | 4 (2,7) | (0) | 1 (1,1) | |
Gostaria de receber mais informações sobre o SUS? | <0,001 Q | |||
Sim | 125 (85,6) | 64 (87,7) | 73 (77,7) | |
Não | 21 (14,4) | 9 (12,3) | 10 (10,6) |
Nota: Q = Teste Qui-Quadrado
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
4.3. Desempenho dos Estudantes nas Questões Sobre o SUS
A tabela 3 diz respeito ao conhecimento do estudante acerca do SUS, comparando o semestre cursado com o número de acertos. Observa-se, com exceção das questões 7,9 e 13, uma diferença estatisticamente significativa no percentual de acertos. Os resultados, de modo geral, demonstram que, existe uma tendência de melhora do desempenho conforme avanço na graduação, devido à progressão curricular do curso de Enfermagem. Ao longo dos semestres, os estudantes têm maior contato com conteúdo teóricos relacionados ao Sistema Único de Saúde (SUS), atividades práticas e estágios curriculares, devido a esse contato, acredita-se que a melhora do desempenho esteja articulada com teoria e prática, favorecendo a consolidação do conhecimento e compreensão sobre o funcionamento do SUS.
Tabela 3. Conhecimento dos participantes acerca do SUS (n=314). Brasília, DF, Brasil, 2025.
Itens | Semestre | |||||
1º sem | 4º sem | 8º sem | x² | p | ||
1. Princípios organizativos do SUS
| Errado | 120 (82,2) | 55 (74,3) | 46 (48,9) | 31,060 | <0,001 |
Certo | 26 (17,8) | 19 (25,7) | 48 (51,1) | <0,001 | ||
2. Princípios doutrinários do SUS
| Errado | 37 (25,3) | 11 (14,9) | 5 (5,3) | 16,621 | <0,001 |
Certo | 109 (74,7) | 63 (85,1) | 89 (94,7) | <0,001 | ||
3. Universalidade do SUS
| Errado | 18 (12,3) | 3 (4,1) | 2 (2,1) | 10,292 | <0,001 |
Certo | 128 (87,7) | 71 (95,9) | 92 (97,9) | <0,001 | ||
4. Lei 8.142/1990
| Errado | 118 (80,8) | 46 (62,2) | 31 (33) | 55,615 | <0,001 |
Certo | 28 (19,2) | 28 (37,8) | 63 (67) | <0,001 | ||
5. Níveis de Atenção em Saúde
| Errado | 42 (28,8) | 3 (4,1) | 10 (10,6) | 25,152 | <0,001 |
Certo | 104 (71,2) | 71 (95,9) | 84 (89,4) | <0,001 | ||
6. Ações desenvolvidas na APS
| Errado | 110 (75,3) | 31 (41,9) | 43 (45,7) | 31,787 | <0,001 |
Certo | 36 (24,7) | 43 (58,1) | 51 (54,3) | |||
7. Situações de procura do serviço de urgência e emergência
| Errado | 36 (24,7) | 13 (17,6) | 23 (24,5) | 1,577 | 0,455 |
Certo | 110 (75,3) | 61 (82,4) | 71 (75,5) | |||
8. Fluxo de agendamento de consulta com especialista
| Errado | 23 (15,8) | 5 (6,8) | 3 (3,2) | 11,198 | 0,004 |
Certo | 123 (84,2) | 69 (93,2) | 91 (96,8) | |||
9. Portaria 1.00/2011 (RUE)
| Errado | 71 (48,6) | 31 (41,9) | 48 (51,1) | 1,477 | 0,478 |
Certo | 75 (51,4) | 43 (58,1) | 46 (48,9) | |||
10. Subsistema de Saúde Indígena
| Errado | 40 (27,4) | 11 (14,9) | 11 (11,7) | 10,344 | 0,006 |
Certo | 106 (72,6) | 63 (85,1) | 83 (88,3) | |||
11. Equipe básica de Estratégia de Saúde da Família
| Errado | 31 (21,2) | 6 (8,1) | 7 (7,4) | 11,821 | 0,003 |
Certo | 115 (78,8) | 68 (91,9) | 87 (92,6) | |||
12. Atributos da APS
| Errado | 71 (48,6) | 43 (58,1) | 27 (28,7) | 15,982 | <0,001 |
Certo | 75 (51,4) | 31 (41,9) | 67 (71,3) | |||
13. Critérios mínimos para definir uma Região de Saúde
| Errado | 27 (18,5) | 8 (10,8) | 11 (11,7) | 3,250 | 0,197 |
Certo | 119 (81,5) | 66 (89,2) | 83 (88,3) | |||
14. Definição de Região de Saúde
| Errado | 54 (37) | 11 (14,9) | 14 (14,9) | 20,272 | <0,001 |
Certo | 92 (63) | 63 (85,1) | 80 (85,1) | |||
15. Pontos de atenção das Redes de Atenção em Saúde
| Errado | 56 (38,4) | 11 (14,9) | 14 (14,9) | 22,489 | <0,001 |
Certo | 90 (61,6) | 63 (85,1) | 80 (85,1) | |||
Nota: x² = Teste Qui-Quadrado; RUE = Rede de Urgência e Emergência; APS = Atenção Primária à Saúde
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
4.4. Evolução do Conhecimento Segundo o Semestre Cursado
Na figura 1 pode-se observar um boxplot do conhecimento dos estudantes acerca do SUS nos três semestres, sendo levado em consideração a quantidade de acertos e a pontuação geral. Nota-se que há uma evolução gradativa ao longo dos semestres no que tange ao conhecimento sobre o SUS, inferindo a eficácia do processo formativo ao longo dos semestres.
Nota: Teste Kruskall Wallis <0,001
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
4.5. Relação Entre Conhecimento e Autopercepção para Orientar a População
Realizou-se, na tabela 5, uma correlação entre uma das questões do questionário sobre conhecimento do SUS, que questionava ao estudante se ele se sentia preparado para orientar a população acerca do SUS com o quantitativo de acertos e pontuação geral do mesmo questionário. Nota-se que a quantidade de acertos e a pontuação geral não apresentam diferenças expressivas dentre os semestres em relação aos estudantes se sentirem preparados ou não para realizar educação em saúde com a comunidade.
Tabela 4. Correlação entre quantidades de acertos e pontuação geral com a percepção do estudante sobre a preparação para orientar a população acerca do SUS (n=314). Brasília, DF, Brasil, 2025
| Preparado(a) para orientar a população acerca do SUS |
| ||||
| Sim | Não | ||||
Itens | 1º sem | 4º sem | 8º sem | 1º sem | 4º sem | 8º sem |
Quantidade de acertos | 10 (8 – 11) | 11 (10 – 12) | 12 (11 – 13) | 9 (7 – 11) | 12 (10 – 12) | 12 (11 – 13) |
Pontuação geral | 67 (53 – 73) | 73 (67 – 80) | 80 (73 – 87) | 60 (47 – 73) | 80 (67 – 80) | 80 (73 – 87) |
Nota: Resultados expressos como mediana e intervalo interquartil (25-75)
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
4.6. Discussão dos Achados
Analisando os resultados obtidos, percebe-se a evolução dos estudantes ao longo da graduação acerca dos conhecimentos sobre o SUS, inferindo que os futuros profissionais estão aptos a realizar educação em saúde sobre o SUS com a população.
No entanto, os dados mostram que a percepção sobre a graduação fornecer informações suficientes para realizar essa educação em saúde com a população é regressiva ao longo da graduação, mostrando a necessidade de aprofundar nesse conteúdo. Esse achado dialoga com um estudo realizado na Universidade Federal de Santa Catarina, no qual os estudantes também relatam a relevância dos temas pertinentes ao SUS, assim como sua inclusão progressiva nas experiências curriculares voltadas para a atenção básica desde os estágios iniciais do curso, destacando a necessidade dessa conexão ao longo da formação dos profissionais, visando fortalecer o Sistema Único de Saúde (Invernos; Prado; Heidemann, 2016).
Contudo, apesar do avanço nos conhecimentos ao longo do curso, a pesquisa mostra algumas fragilidades no conhecimento dos estudantes acerca da estrutura e funcionamento do SUS, o que pode comprometer na educação em saúde da população. Ser usuário do SUS em sua totalidade implica compreender que o sistema engloba ações que vão além da assistência curativa, contemplando vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, promoção da saúde, controle de agravos e participação social, conforme disposto no Art.6° da Lei n° 8.080/1990 (Brasil, 1990a). Foi realizada uma pesquisa sobre a perspectiva dos estudantes da área da saúde da Universidade de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, que obtiveram resultados semelhantes. Observa-se que a maioria dos entrevistados utiliza o sistema apenas para consultas e exames, também evidenciaram que os estudantes pressupõem que o uso de SUS está vinculado somente a consultas médicas ou ligado a doenças. Olvidam ou desconsideram o trabalha realizado pela Vigilância Sanitária, Vigilância Ambiental, pelos setores de epidemiologia, de saúde do trabalhador, entre outros setores que participam do SUS (Carpes, 2012).
No que tange ao questionário referente aos conhecimentos dos acadêmicos, percebe-se que os estudantes do primeiro semestre erraram mais, comparado ao do quarto e do oitavo semestre. No último semestre, os estudantes não obtiveram nenhuma questão na qual foram marcadas mais as erradas do que as certas. Porém, é importante ressaltar uma questão que apresentou os menores índices de acerto em todos os semestres, ainda que com evolução progressiva (17,8% no 1º semestre; 25,7% no 4º; e 51,1% no 8º): a questão referente aos princípios organizativos do SUS. Apesar do crescimento, o percentual final permanece insatisfatório, considerando que esse conteúdo constitui base estruturante da formação em saúde.
Um estudo realizado no Rio de Janeiro com 125 profissionais de saúde concluiu que eles conhecem de forma incompleta os princípios do SUS em suas construções psicossociais. Além de ser identificado que o interesse dos agentes institucionais acerca de questões teóricas voltadas ao SUS se dava-se forma prática e em ocasiões específicas, como na ocorrência de um concurso público, destacando lacunas e desinteresse na criação do conhecimento sobre o sistema de saúde.
O autor faz também uma analogia entre o SUS e um jogo do tabuleiro, relacionando os princípios do SUS as regras do jogo. Este fala que, quando os jogadores desconhecem as regras do jogo, isso compromete o desenvolvimento deste, assim como os profissionais desconhecerem os princípios do SUS compromete a sua organização e funcionalidade (Pontes, 2009). Ao não conhecerem estes princípios, pressupõe-se que os profissionais são menos aptos, também, a educar a população frente a esses tópicos.
De acordo com a pesquisa realizada, os estudantes reconhecem a educação em saúde como uma estratégia indispensável para ampliar e melhorar o acesso à informação, observando que, entre os acadêmicos, há uma percepção quase unânime sobre a importância de realizar a educação em saúde com o paciente, favorecendo a prevenção de agravos e melhorando a qualidade de vida da população. Estudo semelhante também mostrou que os acadêmicos identificam essa prática como central para a qualificação do cuidado, sobretudo quando articulado ao contexto familiar e comunitário (Figueiredo et al., 2020).
A educação em saúde é um processo de ensino-aprendizagem que visa a promoção da saúde, e o profissional dessa área é o principal mediador para que isso ocorra. Dentre as diversas formas de atuação do enfermeiro na sociedade moderna, a prática educativa vem despontando como principal estratégia à promoção da saúde (Souza; Wegner; Gorini, 2007).
A atuação do enfermeiro requer a capacidade de responsabilizar-se pelo cuidado ao usuário, compreensão de seu contexto social, suas necessidades e expectativas, seja como assistente, educador e ou gestor. No entanto, para cuidar é preciso de competência técnica, que possibilita a abertura a sentimentos que envolvam o próximo, a sensibilidade por meio do interesse, do respeito, da atenção e da consideração pelo outro (Marcelo; Di João; Fernandes, 2022).
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A graduação em enfermagem contribui para o desenvolvimento progressivo do conhecimento sobre o SUS dos estudantes. Embora exista evolução ao longo dos semestres, ainda há espaço significativo para aprimorar a formação, permitindo que o futuro enfermeiro atue de maneira crítica, consciente e socialmente comprometida com os princípios do SUS e com a educação em saúde.
O presente estudo permitiu observar o nível de conhecimento dos estudantes de enfermagem ao longo dos semestres acerca do conhecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua percepção quanto a aptidão para realizar ações de educação em saúde.
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1 Discente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Doutora. Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Brasília-DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail