PESQUISA CIENTÍFICA NOS CURSOS DE ADMINISTRAÇÃO DO MARANHÃO: ORIENTAÇÃO TERRITORIAL E FORMAÇÃO EMPREENDEDORA COMO VETORES DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO LOCAL

SCIENTIFIC RESEARCH IN ADMINISTRATION PROGRAMS IN MARANHÃO: TERRITORIAL ORIENTATION AND ENTREPRENEURIAL TRAINING AS VECTORS OF LOCAL ECONOMIC DEVELOPMENT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784683276

RESUMO
O estudo analisa em que medida as pesquisas científicas desenvolvidas nos cursos de Administração do ensino superior maranhense são orientadas pelas demandas territoriais do estado, investigando a capacidade das instituições de convertê‑las em conhecimento aplicável ao desenvolvimento econômico local. O problema de pesquisa que orienta a investigação pode ser formulado nos seguintes termos: de que modo os projetos de pesquisa dos cursos de Administração maranhenses dialogam com as demandas do território e do setor produtivo local, contribuindo para a geração de soluções econômicas? O objetivo geral consiste em analisar o grau de alinhamento entre as agendas de pesquisa dos cursos de Administração no Maranhão e as demandas socioeconômicas do território, identificando lacunas, avanços e perspectivas para o fomento a uma pesquisa orientada pelo desenvolvimento local. O percurso metodológico combina revisão sistemática da literatura, conduzida segundo protocolo estruturado de busca em bases científicas nacionais e internacionais, e análise documental de projetos pedagógicos de curso, relatórios de pesquisa e editais de fomento de instituições maranhenses. Os resultados indicam que, a despeito do crescimento quantitativo da produção científica nos cursos de Administração do estado, persiste uma lacuna expressiva entre as agendas de pesquisa institucionais e as demandas econômicas e sociais do território maranhense, o que evidencia a necessidade de reformulação dos incentivos acadêmicos, dos projetos pedagógicos e dos mecanismos de governança da pesquisa nas instituições estudadas. O estudo contribui com evidências empíricas e proposições teóricas voltadas ao fortalecimento de uma ciência administrativa territorialmente comprometida.
Palavras-chave: pesquisa universitária; territorialidade; administração; Maranhão; formação empreendedora.

ABSTRACT
The study analyzes the extent to which scientific research developed in Administration undergraduate programs in Maranhão is guided by the state’s territorial demands, investigating institutions’ capacity to convert this research into knowledge applicable to local economic development. The guiding research problem is formulated as follows: how do research projects in Maranhão’s Administration programs engage with the demands of the territory and the local productive sector, contributing to the generation of economic solutions? The general objective is to analyze the degree of alignment between the research agendas of Administration programs in Maranhão and the socioeconomic demands of the territory, identifying gaps, advances, and prospects for fostering development-oriented research. The methodological approach combines a systematic literature review, conducted under a structured search protocol across national and international scientific databases, with documentary analysis of pedagogical course projects, research reports, and funding calls from Maranhão institutions. The results indicate that, despite the quantitative growth of scientific production in the state’s Administration programs, a significant gap persists between institutional research agendas and the economic and social demands of the Maranhão territory, underscoring the need to reformulate academic incentives, pedagogical projects, and research governance mechanisms within the institutions studied. The study contributes empirical evidence and theoretical propositions toward strengthening a territorially engaged administrative science.
Keywords: university research; territoriality; administration; Maranhão; entrepreneurial training.

1. INTRODUÇÃO

O estado do Maranhão ocupa posição singular no cenário do ensino superior brasileiro. Ao mesmo tempo em que experimenta, nas últimas duas décadas, expansão expressiva no número de instituições, cursos e matrículas em Administração, esse crescimento quantitativo não tem sido acompanhado, na mesma proporção, por um aprofundamento qualitativo da pesquisa científica orientada às demandas econômicas e sociais do território. Configura-se, assim, uma contradição que merece investigação rigorosa: o estado que concentra alguns dos maiores índices de desigualdade econômica do país, e que possui potencialidades territoriais expressivas em setores como agronegócio, logística portuária, mineração, economia criativa e turismo, não vê suas instituições de ensino superior produzirem, de maneira sistemática, pesquisas capazes de responder a essas especificidades produtivas e de catalisar processos de desenvolvimento econômico local.

A questão adquire relevância particular quando se considera o papel que a literatura internacional atribui às universidades como agentes centrais dos ecossistemas de inovação regional. Etzkowitz e Leydesdorff (2000) demonstram que a universidade empreendedora — aquela que assume funções de coprodução tecnológica e de catalisação da inovação — constitui elemento indispensável dos sistemas de desenvolvimento econômico territorialmente ancorados. Audretsch e Belitski (2022) argumentam, de modo complementar, que o alinhamento estratégico entre as missões de ensino, pesquisa e extensão das universidades, orientado pelas demandas do território, é a principal variável explicativa do impacto socioeconômico das instituições de ensino superior em suas regiões. A literatura nacional, contudo, e em particular a produção empírica sobre o Maranhão, ainda carece de investigações sistemáticas sobre esse alinhamento nos cursos de Administração do estado — lacuna que este artigo se propõe a examinar.

Essa lacuna motiva o problema de pesquisa que orienta o estudo: de que modo os projetos de pesquisa dos cursos de Administração do ensino superior no Maranhão dialogam com as demandas do território e do setor produtivo local, contribuindo para a geração de soluções econômicas? O problema é abordado a partir de três eixos analíticos interconectados: o grau de orientação territorial das agendas de pesquisa; a aderência dos temas investigados às cadeias produtivas e aos desafios econômicos do Maranhão; e a existência, ou a ausência, de mecanismos institucionais que promovam e sustentem essa orientação ao longo do tempo.

O objetivo geral do estudo é analisar o grau de alinhamento entre as agendas de pesquisa dos cursos de Administração no Maranhão e as demandas socioeconômicas do território, identificando lacunas, avanços e perspectivas para o fortalecimento de uma pesquisa científica orientada pelo desenvolvimento local. Os objetivos específicos são: (a) mapear as principais temáticas de pesquisa dos cursos de Administração maranhenses à luz das demandas territoriais do estado; (b) identificar os fatores institucionais que favorecem ou obstaculizam o alinhamento entre pesquisa acadêmica e demandas territoriais; e (c) propor uma agenda de fortalecimento da pesquisa orientada pelo desenvolvimento econômico local nos cursos de Administração do Maranhão.

A justificativa do estudo assenta-se sobre três dimensões complementares. Do ponto de vista científico, a investigação preenche uma lacuna na literatura nacional sobre a relação entre pesquisa universitária, territorialidade e desenvolvimento econômico em contextos regionais periféricos, contribuindo com evidências empíricas e proposições teóricas que enriquecem o debate sobre a missão social das instituições de ensino superior. Do ponto de vista social, o estudo responde a uma demanda concreta das comunidades e dos setores produtivos do Maranhão por uma ciência administrativa mais comprometida com os problemas e as oportunidades do território. Do ponto de vista institucional, a investigação oferece subsídios para a reformulação dos projetos pedagógicos, dos editais de fomento à pesquisa e dos mecanismos de avaliação da produção científica nos cursos de Administração do estado.

As contribuições esperadas do artigo são múltiplas. Para a teoria, o estudo avança na compreensão dos mecanismos pelos quais universidades em contextos periféricos podem, ou não, articular suas agendas de pesquisa com as demandas territoriais, aprofundando os modelos de universidade empreendedora (Guerrero; Urbano, 2012) e de alinhamento estratégico (Audretsch; Belitski, 2022) a partir de um contexto empírico subnacional específico. Para a prática, o artigo oferece diagnóstico fundamentado e proposições concretas para gestores institucionais, formuladores de políticas educacionais e pesquisadores comprometidos com o desenvolvimento regional. Para a metodologia, o estudo demonstra a viabilidade e a produtividade da revisão sistemática da literatura combinada com a análise documental para investigar o alinhamento entre pesquisa universitária e territorialidade em contextos específicos.

O artigo está estruturado em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda seção apresenta o referencial teórico, iniciando pelo protocolo de revisão sistemática que fundamenta a discussão conceitual. A terceira seção descreve o percurso metodológico. A quarta e a quinta seções apresentam, respectivamente, os resultados e a discussão. A sexta seção conclui o estudo, sintetizando contribuições, limitações e uma agenda de pesquisas futuras.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Protocolo de Revisão Sistemática da Literatura

A construção do referencial teórico seguiu os procedimentos metodológicos de uma revisão sistemática da literatura, orientada pelo modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), adaptado ao contexto das ciências sociais aplicadas. O protocolo foi estruturado em cinco etapas sequenciais: definição das bases de dados e dos descritores; busca e identificação dos estudos; triagem por títulos e resumos; leitura integral e avaliação de elegibilidade; e síntese dos estudos selecionados.

As bases de dados consultadas foram Web of Science, Scopus, SciELO, Portal de Periódicos da CAPES, Google Acadêmico e SPELL (Scientific Periodicals Electronic Library). A combinação dessas fontes garantiu cobertura tanto da produção científica internacional de alto impacto quanto da produção nacional relevante para o contexto brasileiro e maranhense.

Os descritores, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, foram organizados em três famílias temáticas: (1) pesquisa universitária e territorialidade — university research, territorial demands, regional development, local economic development, pesquisa universitária, desenvolvimento regional, territorialidade; (2) universidade empreendedora e inovação — entrepreneurial university, knowledge spillover, regional innovation system, universidade empreendedora, inovação regional; (3) formação em Administração e alinhamento curricular — business administration education, curriculum alignment, entrepreneurship education, formação em Administração, alinhamento curricular.

As strings de busca principais foram compostas da seguinte forma: (“university research” OR “pesquisa universitária”) AND (“territorial demands” OR “regional development” OR “local economic development”); (“entrepreneurial university” OR “universidade empreendedora”) AND (“regional innovation” OR “knowledge spillover”); (“administration education” OR “business education”) AND (“curriculum alignment” OR “territorial demands”). Na base SPELL, utilizou-se a combinação “pesquisa” AND “administração” AND “desenvolvimento regional”.

Os critérios de inclusão adotados foram: (a) artigos publicados em periódicos com avaliação Qualis A1 e A2 (CAPES), ou indexados na Web of Science/Scopus; (b) publicação entre 2010 e 2024; (c) aderência direta aos eixos temáticos pesquisa universitária, territorialidade, desenvolvimento econômico local e formação empreendedora em Administração; (d) disponibilidade de texto integral. Os critérios de exclusão foram: (a) artigos de opinião, editoriais e resumos de eventos sem revisão por pares; (b) estudos que tratam da territorialidade exclusivamente sob a perspectiva da geografia física, sem interface com o ensino superior ou o desenvolvimento econômico; (c) trabalhos duplicados entre bases; (d) textos em idiomas distintos de português, inglês e espanhol.

A triagem foi realizada em duas etapas — leitura de títulos e resumos, seguida de leitura integral dos textos pré-selecionados. Na primeira etapa, foram identificados 312 registros nas bases consultadas; após a exclusão de 89 duplicatas, 223 estudos foram submetidos à leitura de títulos e resumos, resultando na exclusão de 158 registros por inadequação temática ou metodológica. Os 65 estudos remanescentes foram submetidos à leitura integral, dos quais 45 foram excluídos por não atenderem plenamente aos critérios de aderência temática ou por apresentarem limitações metodológicas que comprometiam sua utilidade para o referencial teórico. Ao final do processo, 20 estudos foram selecionados e incorporados ao referencial teórico, todos com reconhecido impacto acadêmico. O Quadro 1 sintetiza o protocolo adotado.

Quadro 1. Síntese do protocolo de revisão sistemática

Etapa

Resultado

Bases consultadas

Web of Science, Scopus, SciELO, CAPES, Google Acadêmico, SPELL

Período

2010–2024

Registros identificados

312

Após exclusão de duplicatas

223

Excluídos na triagem de títulos/resumos

158

Submetidos à leitura integral

65

Excluídos na leitura integral

45

Estudos selecionados

20 (10 nacionais + 10 internacionais)

Fonte: elaborado pelos autores.

Esse acervo selecionado — combinado, na subseção seguinte, com fontes empíricas específicas sobre o contexto maranhense — fundamenta a discussão conceitual que estrutura o restante do referencial teórico.

Cumpre esclarecer que os 20 estudos selecionados correspondem ao núcleo teórico da revisão sistemática, enquanto as demais obras e documentos constantes das referências exercem funções metodológicas, contextuais ou documentais. Essa distinção reduz ambiguidades entre o corpus científico da revisão, as fontes institucionais de caracterização territorial e as obras mobilizadas para fundamentação metodológica.

2.2. Pesquisa em Administração, Relevância Social e Compromisso Territorial

A discussão sobre as temáticas predominantes da pesquisa em Administração no Maranhão deve ser situada no interior de uma problemática mais ampla: a tensão entre produção científica, relevância social e capacidade institucional de responder a problemas inscritos em determinado território. Esta investigação parte da premissa de que os cursos de Administração maranhenses precisam ser examinados não apenas por sua expansão formativa, mas, sobretudo, pela efetiva aderência de suas agendas acadêmicas às demandas econômicas, sociais, institucionais e produtivas do estado.

Essa orientação desloca a análise da pesquisa universitária de uma lógica endógena, centrada na produção acadêmica como fim em si mesma, para uma perspectiva substantiva, na qual o conhecimento administrativo é interrogado por sua potência explicativa, propositiva e transformadora diante dos desafios locais (Wood Jr.; Souza, 2019).

No campo dos estudos em Administração, a relevância social da pesquisa constitui objeto de análise recorrente, sobretudo quando a sofisticação metodológica não se converte em capacidade de incidência sobre problemas organizacionais, públicos e territoriais concretos. Wood Jr. e Souza (2019) demonstram que o debate entre rigor e relevância atravessa a constituição histórica da área e evidencia o risco de uma autonomização excessiva do campo científico em relação aos dilemas práticos das organizações e da sociedade. Em perspectiva convergente, Lazzarini (2017) argumenta que a pesquisa em Administração precisa ampliar sua noção de impacto, superando a dependência exclusiva de métricas acadêmicas e incorporando efeitos sociais, econômicos, institucionais e gerenciais.

Essa inflexão é decisiva para a leitura do caso maranhense, pois a pesquisa em Administração não pode ser reduzida a um repertório abstrato de temas universais, indiferente à configuração produtiva, social e institucional do território em que se realiza. Alperstedt e Andion (2017) sustentam que uma pesquisa dotada de sentido precisa aproximar problema científico, experiência social e possibilidade de intervenção, evitando a cisão entre produção acadêmica e mundo vivido. Vizeu e Lara (2023), ao problematizarem a quem serve a pesquisa em Administração, recolocam no centro do debate a responsabilidade política e epistemológica da área diante das desigualdades, das assimetrias institucionais e das formas de dependência cognitiva presentes no contexto brasileiro.

No Maranhão, essa exigência assume densidade particular porque o estado articula, simultaneamente, desafios socioeconômicos persistentes e ativos territoriais expressivos em setores como agropecuária, energia, indústria, turismo, logística, serviços e inovação. O Produto Interno Bruto estadual de 2023 alcançou R$ 149,227 bilhões em valores correntes, com crescimento real de 3,6% em relação a 2022 (IMESC, 2025). O Plano Maranhão 2050, por sua vez, define como propósito fortalecer o planejamento estratégico de longo prazo, articulando governo, setor produtivo, sociedade civil e academia, com vistas a induzir o desenvolvimento socioeconômico integrado e a reduzir as desigualdades sociais e regionais (Maranhão, 2026a).

A pertinência de uma agenda de pesquisa em Administração orientada pelo território torna-se ainda mais evidente quando se considera que o Plano Maranhão 2050 estabelece diretrizes estratégicas para setores como agropecuária, energia, indústria e turismo, vinculando-os à área de resultado “Economia Próspera e Inclusiva” e ao desafio de elevar o valor agregado da produção e diversificar a estrutura produtiva estadual (Maranhão, 2026b).

Nesse contexto, a pesquisa administrativa pode contribuir para qualificar diagnósticos, aperfeiçoar capacidades institucionais, fortalecer pequenos negócios, analisar cadeias produtivas, apoiar políticas públicas e produzir conhecimento aplicado às especificidades econômicas e organizacionais do estado (Lazzarini, 2017; Audretsch; Belitski, 2022).

2.3. Universidade, Território e Produção Aplicada do Conhecimento

2.3.1. Da Ciência Disciplinar à Ciência Orientada por Problemas

A relação entre universidade, território e desenvolvimento regional é interpretada, neste estudo, a partir de modelos que reconhecem a universidade como agente de mediação entre ciência, inovação, setor produtivo e políticas públicas. Para Gibbons et al. (1994), a transição do Modo 1: disciplinar e autorreferenciado, para o Modo 2: transdisciplinar e orientado por problemas, representa precisamente essa reconfiguração: o conhecimento passa a ser produzido no contexto de aplicação, por equipes heterogêneas, e avaliado segundo critérios que incluem a relevância social e econômica.

Nessa perspectiva, Etzkowitz e Leydesdorff (2000) propõem que a universidade empreendedora assume funções de coprodução tecnológica e de catalisação da inovação regional, deixando de ser mera transmissora de saberes para tornar-se agente ativo do desenvolvimento econômico dos territórios, formulação que, uma década mais tarde, Carayannis e Campbell (2009) ampliariam ao propor a passagem da Hélice Tríplice para a Hélice Quádrupla, na qual a sociedade civil se converte em quarto agente constitutivo dos sistemas de inovação, exigindo que as universidades construam processos participativos de definição de agendas de pesquisa.

2.3.2. Sistemas Territoriais de Inovação e Proximidade Institucional

A compreensão do território como categoria analítica central para o fomento à pesquisa universitária encontra sustentação em uma tradição robusta de estudos sobre sistemas de inovação. Lundvall (1992) demonstrou que a inovação é um processo eminentemente interativo e sistêmico, sustentado por redes de aprendizado localizado que se constroem sobre relações de proximidade institucional, cultural e geográfica. Cooke (2001), ao examinar os sistemas regionais de inovação mais dinâmicos, identificou que os vínculos densos e contínuos entre instituições de ensino superior e atores produtivos locais constituem a variável mais preditiva do desempenho inovador regional, superando, inclusive, a disponibilidade de recursos financeiros ou tecnológicos.

No contexto brasileiro, Cassiolato e Lastres (2003) aprofundaram essa análise ao demonstrar que os arranjos produtivos locais, especialmente em regiões com economias diversificadas e capacidades institucionais heterogêneas, como o Nordeste, demandam articulação deliberada entre pesquisa universitária e especificidades produtivas territoriais para a geração de inovações economicamente sustentáveis. Saxenian (1994), por seu turno, mostrou que a superioridade competitiva dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos não reside na dotação de recursos tecnológicos ou financeiros, mas na densidade das redes de cooperação, na circulação de informações e na confiança mútua que conectam universidades, empresas e comunidades — achado especialmente relevante para a leitura das fragilidades relacionais discutidas na seção de resultados deste artigo.

2.3.3. A Universidade Empreendedora: Alinhamento Estratégico e Limites em Contextos Periféricos

Audretsch e Belitski (2022) propuseram um modelo de alinhamento estratégico da universidade empreendedora que integra as dimensões de produção de conhecimento, disseminação tecnológica e engajamento comunitário em uma arquitetura institucional coerente, orientada pela geração de valor econômico e social para os territórios. Os autores demonstram que esse alinhamento não ocorre de forma espontânea, mas requer escolhas deliberadas sobre incentivos acadêmicos, estruturas organizacionais e mecanismos de governança que conectem a agenda científica às demandas do setor produtivo. Klofsten et al. (2019) reforçam esse argumento ao identificar que as universidades empreendedoras mais efetivas são aquelas que constroem capacidades organizacionais dinâmicas, orientadas para responder às transformações do contexto territorial, articulando ensino, pesquisa e extensão em torno de objetivos de desenvolvimento econômico e social claramente definidos.

Guerrero e Urbano (2012) elaboram o conceito de universidade empreendedora a partir dos condicionantes institucionais, organizacionais, culturais e relacionais que favorecem sua consolidação, enfatizando a necessidade de estruturas internas, liderança, incentivos, redes externas e mecanismos de transferência capazes de converter capacidades científicas em resultados socialmente apropriáveis.

Em estudo posterior, Guerrero e Urbano (2014) analisam as intenções de criação de startups acadêmicas e os filtros de conhecimento a partir da knowledge spillover theory of entrepreneurship, evidenciando como esses filtros condicionam a transferência de conhecimento e as intenções empreendedoras de docentes e pesquisadores. Guerrero, Cunningham e Urbano (2015) acrescentam evidências quantitativas sobre o impacto econômico das atividades das universidades empreendedoras no Reino Unido, demonstrando que o retorno para as economias regionais é substancialmente superior quando essas atividades são deliberadamente orientadas para as especificidades produtivas de cada território, achado que converge com as análises de Lemos e Cário (2013) sobre os sistemas locais de inovação no Brasil, para quem a pesquisa universitária territorialmente orientada é mecanismo central de superação das assimetrias tecnológicas entre regiões.

Esses modelos, contudo, não devem ser transpostos acriticamente para contextos de baixa densidade institucional. Autio et al. (2014) demonstram que as condições contextuais nas quais a inovação empreendedora ocorre constituem variáveis independentes de primeira ordem para explicar seus resultados econômicos e sociais, de modo que programas de pesquisa descontextualizados, concebidos segundo modelos abstratos importados de realidades distintas, tendem a produzir resultados modestos e a desperdiçar o potencial empreendedor latente nos territórios.

Isenberg (2010) converge com essa conclusão ao sustentar que a construção de ecossistemas empreendedores sustentáveis exige o desenvolvimento orgânico de condições específicas de cada território, com a universidade posicionada como âncora institucional do arranjo. No Brasil, Siqueira e Gerhardt (2019) analisam as limitações do modelo de universidade empreendedora em contextos de baixa densidade institucional, como os estados do Norte e do Nordeste, e argumentam que a mera adoção de referenciais internacionais, sem adaptação às especificidades territoriais, tende a reproduzir as assimetrias existentes entre regiões desenvolvidas e periféricas.

No caso específico do Maranhão, Barbosa e Costa (2021) identificam a ausência de pesquisa universitária orientada pelas demandas produtivas locais como um dos principais gargalos à inovação nos setores de logística, agronegócio e economia criativa — diagnóstico corroborado por Lago (2015), cujo estudo sobre a atuação da Universidade Federal do Maranhão no desenvolvimento regional aponta a fragilidade das pontes institucionais entre a universidade e os setores produtivos locais como um dos principais obstáculos à geração de impacto econômico da pesquisa acadêmica no estado.

2.3.4. Capacidades Absortivas e Redes de Transferência de Conhecimento

A relação entre o conhecimento produzido nas universidades e sua absorção pelos atores econômicos locais é condicionada pelas capacidades absortivas do tecido produtivo. Cohen e Levinthal (1990) demonstram que a capacidade de reconhecer, assimilar e aplicar conhecimento externo é função da base de conhecimento prévio dos receptores; Zahra e George (2002) desdobram essa capacidade em potencial e realizada, implicando que o fomento à pesquisa universitária deve ser acompanhado de investimentos deliberados nas capacidades absortivas do tecido produtivo local.

Cohen, Nelson e Walsh (2002) mostram que os canais informais de transferência, como a formação de recursos humanos e as consultorias técnicas pessoais, possuem maior relevância prática para a inovação industrial do que os mecanismos formais de licenciamento, ao passo que Audretsch e Feldman (1996) confirmam empiricamente que os transbordamentos de conhecimento provenientes das universidades são geograficamente localizados, beneficiando de maneira desproporcional os empreendedores situados na mesma região da instituição de pesquisa.

A dimensão institucional desse processo é estruturada por forças que operam em múltiplos níveis. North (1990) demonstra que instituições formais e informais determinam os incentivos à atividade empreendedora e à inovação, configurando trajetórias de desenvolvimento virtuosas ou viciosas conforme a qualidade do ambiente institucional. Bourdieu (1986) acrescenta que o capital social acumulado nas redes de relações universitárias constitui ativo estratégico para os empreendedores de territórios periféricos, na medida em que os projetos de pesquisa criam pontes relacionais entre estudantes, pesquisadores, gestores públicos e lideranças empresariais.

Chatterton e Goddard (2000) articulam essa perspectiva ao nível institucional, propondo que as universidades responsivas integram sistematicamente pesquisa, ensino e extensão em agendas territorialmente relevantes, reformulando seus sistemas de incentivo para valorizar a produção de conhecimento útil aos atores locais, argumento que, no contexto nordestino, Mota e Hayashi (2020) corroboram ao identificar que a pesquisa orientada por demandas territoriais é mais frequente em instituições dotadas de políticas explícitas de valorização da extensão e da pesquisa aplicada, evidenciando a centralidade da governança institucional para o alinhamento aqui investigado.

2.3.5. Formação Empreendedora Situada

A formação empreendedora, enquanto prática pedagógica articulada às demandas territoriais, recebeu atenção de Fayolle e Liñán (2014), para quem o empreendedorismo exige a construção de disposições cognitivas, afetivas e comportamentais que permitam ao sujeito reconhecer e explorar oportunidades em contextos de incerteza radical. Neck e Greene (2011) avançam nessa direção ao propor que o método empreendedor, centrado na prática reflexiva e na criação de valor em condições reais de incerteza, substitua os modelos pedagógicos tradicionais, baseados na transmissão de conteúdos sobre empreendedorismo.

No Brasil, Dolabela e Filion (2013) sustentam que a pedagogia empreendedora para contextos periféricos deve partir das especificidades culturais e econômicas dos territórios, recusando a importação acrítica de modelos concebidos para economias avançadas, perspectiva especialmente pertinente para o caso maranhense. Do ponto de vista micro-analítico, Lave e Wenger (1991) demonstram que o aprendizado profissional autêntico ocorre por meio da participação progressiva em práticas sociais concretas, mediadas por relações de mentoria, o que valida os projetos de pesquisa aplicada como espaços privilegiados de formação empreendedora.

2.4. Instituições Maranhenses de Ensino Superior e Orientação das Agendas de Pesquisa

A análise das instituições públicas e privadas que ofertam formação em Administração ou áreas correlatas no Maranhão permite identificar uma convergência temática em torno de empreendedorismo, inovação, gestão pública, sustentabilidade, gestão de pessoas, marketing, finanças, logística, tecnologia da informação e desenvolvimento regional. Na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), o curso de Administração do campus Codó explicita uma formação multidisciplinar que incorpora sistemas de informação, gestão ambiental, empreendedorismo, gestão da inovação e gestão do conhecimento, sinalizando a ampliação do campo administrativo para além das funções gerenciais clássicas (UEMA, 2019). O curso de Administração da UEMA em Timon, por sua vez, é apresentado institucionalmente como formação que contempla a tríade ensino, pesquisa e extensão, com vivência aplicada em instituições públicas e privadas e aproximação com comunidades locais (UEMA, 2026a).

A inserção territorial da UEMA ganha maior densidade quando observada a atuação da Agência Marandu de Inovação e Empreendedorismo, incorporada ao ciclo do Plano de Desenvolvimento Institucional da universidade como agente estratégico de articulação entre conhecimento acadêmico, inovação e desenvolvimento regional, além de apoiar iniciativas de empreendedorismo inovador, incubação de empresas e fortalecimento de ecossistemas de inovação (UEMA, 2026b, 2026c). Essa orientação institucional dialoga diretamente com a concepção de universidade empreendedora discutida na subseção anterior, segundo a qual a instituição de ensino superior amplia sua função social ao articular formação, pesquisa, inovação, transferência de conhecimento e desenvolvimento regional (Guerrero; Urbano, 2012; Audretsch; Belitski, 2022).

No âmbito federal, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) contribui para a consolidação da agenda de Administração Pública e governança por meio do Programa de Mestrado Profissional em Administração Pública em Rede Nacional (PROFIAP), voltado à formação de gestores públicos capazes de atuar de forma crítica, reflexiva e inovadora na administração pública, articulando ensino, pesquisa aplicada e qualificação institucional (UFMA, 2024; PROFIAP, 2026). A existência desse programa é relevante porque desloca a pesquisa em Administração para problemas de capacidade estatal, gestão de políticas públicas, efetividade organizacional, inovação pública, planejamento governamental e qualificação da burocracia (Smolski et al., 2017; Lazzarini, 2017).

O Instituto Federal do Maranhão (IFMA), especialmente nos campi com cursos do eixo Gestão e Negócios, evidencia agenda fortemente aderente à formação empreendedora, à consultoria organizacional e ao apoio a micro e pequenos negócios. No campus Timon, o Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Administração registra conteúdos relacionados a empreendedorismo, inovação, plano de negócios, pequenas e médias empresas, oportunidades de mercado e competitividade (IFMA, 2018a, 2018b).

O mesmo campus ofertou ainda o curso superior de Tecnologia em Gestão Comercial, cujo perfil formativo contempla estudos de viabilidade econômica, financeira e tributária, pesquisas de mercado, relacionamento pós-venda, sistemas de informações comerciais e gestão de negócios (IFMA, 2026a). Essa agenda expressa-se também em ações acadêmicas voltadas à interface entre formação, mercado e território, iniciativas que dialogam com os achados de Arruda et al. (2023) sobre os impactos da educação empreendedora em estudantes brasileiros do ensino superior, e com os de Melo et al. (2023), que demonstram efeitos positivos de metodologias ativas e de gamificação sobre a intenção empreendedora em curso técnico de negócios.

As instituições privadas também compõem essa cartografia temática. A Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB) apresenta seu curso de Administração sob a lógica da “Administração 4.0”, com ênfase na coordenação de processos, operações diárias e recursos financeiros, humanos e materiais, conectando formação gerencial, transformação digital e atuação estratégica nas organizações (UNDB, 2026). A Universidade CEUMA, por sua vez, define o curso de Administração como formação orientada à atuação em diversas áreas da gestão e à preparação do egresso para o exercício profissional na era da tecnologia da informação (CEUMA, 2026). Essa convergência encontra sustentação teórica no alinhamento entre capital de conhecimento e capital empreendedor discutido por Audretsch e Belitski (2022) e nos condicionantes institucionais da universidade empreendedora analisados por Guerrero e Urbano (2012).

2.5. Agências de Fomento e Indução das Prioridades Científicas no Maranhão

As agências de fomento exercem função estruturante na formação das agendas de pesquisa, pois seus editais, linhas de financiamento e critérios de avaliação não apenas distribuem recursos, mas também induzem prioridades cognitivas, institucionais e territoriais. A Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) organiza sua atuação em linhas como Mais Ciência, Mais Inovação, Mais Qualificação e Popularização da Ciência, incluindo apoio a projetos de pesquisa, inovação, cooperação institucional e fortalecimento da base científica estadual (FAPEMA, 2026a).

Essa arquitetura de fomento aproxima-se da leitura de Etzkowitz e Leydesdorff (2000) sobre a dependência da inovação em relação às interações entre universidade, governo e setor produtivo, e da formulação de Klofsten et al. (2019) sobre a necessidade de mecanismos estáveis de apoio, conexão externa e orientação estratégica para a consolidação da universidade empreendedora.

O edital “Plano Maranhão 2050: Soluções Inovadoras”, lançado pela FAPEMA com investimento de R$ 10 milhões, explicita a tentativa de alinhar ciência, tecnologia e inovação a uma estratégia territorial de longo prazo, buscando impulsionar projetos voltados ao desenvolvimento sustentável e à inovação no estado, e contemplando produtos, tecnologias, serviços e metodologias capazes de contribuir para a transformação socioeconômica maranhense (FAPEMA, 2025a).

Essa diretriz está alinhada com o argumento de Audretsch e Belitski (2022) sobre a necessidade de alinhamento estratégico entre universidade e ambiente regional, ao mesmo tempo em que responde à crítica de Wood Jr. e Souza (2019) acerca da necessidade de recuperar a relevância social da pesquisa em Administração.

A indução temática manifesta-se também nos editais FAPEMA/EMAP de apoio à pesquisa no Porto do Itaqui, direcionados a pesquisadores de instituições públicas e privadas sediadas no Maranhão. O Edital FAPEMA/EMAP nº 17/2026 estabelece etapas de análise de candidatura e de mérito técnico-científico, indicando prioridade institucional para investigações vinculadas ao setor portuário (FAPEMA, 2026b). Essa chamada é especialmente significativa para a Administração porque abre espaço para estudos sobre logística, operações portuárias, comércio exterior, cadeia de suprimentos, sustentabilidade, governança, inovação e competitividade territorial (Lazzarini, 2017).

O TECNOVA III Maranhão, executado com participação da FAPEMA, da FINEP, da SECTI e da UFMA, amplia a centralidade da inovação empresarial como objeto legítimo da pesquisa administrativa. O edital previa a submissão de projetos inovadores em empresas maranhenses voltados ao desenvolvimento de produtos e processos, contemplando áreas estratégicas como agropecuária e agroindústria, saúde e biotecnologia, educação, tecnologias e mídias, energia limpa, sustentabilidade e inclusão social, e manufatura avançada (UFMA, 2024; FAPEMA, 2024).

O CNPq e a CAPES completam esse sistema de indução ao estruturarem, respectivamente, a base nacional de grupos de pesquisa e a formação pós-graduada. O Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq permite identificar grupos certificados, linhas de pesquisa, lideranças e instituições, constituindo fonte estratégica para o mapeamento da capacidade instalada de pesquisa no país (CNPq, 2026).

O Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES reúne informações bibliográficas fornecidas diretamente pelos programas de pós-graduação, possibilitando o exame de tendências temáticas, objetos, abordagens metodológicas e recortes territoriais da produção stricto sensu maranhense (CAPES, 2026), infraestrutura informacional coerente com a abordagem bibliométrica de Ribeiro (2020) e com a análise de Wood Jr. e Souza (2019), pois ambas indicam que a compreensão da pesquisa em Administração requer a observação de redes, trajetórias, temas e formas de legitimação científica.

2.6. Temáticas Recorrentes da Pesquisa em Administração no Maranhão

A primeira temática recorrente, identificada a partir do levantamento realizado junto às agências de fomento à pesquisa maranhenses sobre a produção científica dos cursos de Administração do estado, é o empreendedorismo, que se destaca de forma majoritária entre os temas investigados. Tal recorrência o situa como campo de formação, experimentação, inovação e desenvolvimento de capacidades para a atuação em contextos de restrição econômica.

No Maranhão, a presença de projetos de consultoria, disciplinas de empreendedorismo, planos de negócios, eventos de gestão e editais de inovação sugere que o empreendedorismo constitui eixo privilegiado de aproximação entre cursos de Administração, pequenos negócios e demandas locais (IFMA, 2018a; FAPEMA, 2025a), o que corrobora tanto os achados de Arruda et al. (2023) sobre os efeitos da educação empreendedora em estudantes brasileiros quanto a leitura de Guerrero e Urbano (2012) sobre a dependência do empreendedorismo universitário em relação a estruturas institucionais, cultura e redes de suporte.

A segunda temática é a Administração Pública, com ênfase em governança, capacidade estatal, inovação no setor público, planejamento e avaliação de políticas. A presença do PROFIAP na UFMA e a centralidade do Plano Maranhão 2050 indicam que a pesquisa administrativa no estado encontra campo fértil na análise das capacidades governamentais necessárias à execução de políticas de desenvolvimento, à redução de desigualdades, à modernização administrativa e à coordenação interinstitucional (UFMA, 2024; Maranhão, 2026a), em linha com a evolução da produção científica em Administração Pública documentada por Smolski et al. (2017) e com a defesa, por Lazzarini (2017), de impactos sociais, institucionais e organizacionais mensuráveis.

A terceira temática corresponde à inovação, à transformação digital e aos ecossistemas empreendedores. A Agência Marandu da UEMA, os editais da FAPEMA, o TECNOVA III e as diretrizes de formação de instituições privadas sinalizam que a inovação deixou de ser tema periférico para ocupar posição transversal na agenda administrativa maranhense (UEMA, 2026b; FAPEMA, 2024; UNDB, 2026) — transversalidade interpretada por Audretsch e Belitski (2022) como necessidade de alinhamento entre capital de conhecimento e capital empreendedor, e por Klofsten et al. (2019) como desafio estratégico de conversão do conhecimento em crescimento econômico e mudança social.

A quarta temática articula gestão de cadeias produtivas, agroindústria, agronegócio e desenvolvimento de mercados regionais. A relevância da agropecuária, da agroindústria e da logística de escoamento para a economia estadual torna essa agenda particularmente fecunda para pesquisas sobre custos, comercialização, cooperativismo, governança de arranjos produtivos, sustentabilidade, inovação rural e competitividade (Maranhão, 2026b; FAPEMA, 2024).

O TECNOVA III inclui a agropecuária e a agroindústria entre suas áreas estratégicas, e o Plano Maranhão 2050 estabelece horizonte de planejamento de longo prazo para setores produtivos considerados estruturantes, perspectiva que dialoga com a centralidade da interação entre conhecimento e aplicação produtiva discutida por Etzkowitz e Leydesdorff (2000), e com a exigência de que a pesquisa faça sentido diante de problemas sociais concretos, defendida por Alperstedt e Andion (2017).

A quinta temática refere-se à logística, às operações, ao comércio exterior e à gestão portuária. O Porto do Itaqui constitui ativo estratégico para o Maranhão, e os editais FAPEMA/EMAP de apoio à pesquisa demonstram que a infraestrutura portuária passou a ser objeto de indução científica específica (FAPEMA, 2026b). Para a Administração, esse campo permite investigar eficiência operacional, gestão de estoques, governança logística, custos, sustentabilidade portuária, riscos, inovação em processos e competitividade regional, em consonância com a busca de impacto aplicado defendida por Lazzarini (2017) e com o alinhamento entre pesquisa universitária e desafios econômicos regionais proposto por Audretsch e Belitski (2022).

A sexta temática envolve marketing, consumo, comunicação digital, comércio eletrônico e posicionamento de negócios locais, contribuindo para a compreensão do comportamento do consumidor, das estratégias de comunicação, do branding regional, da economia criativa, do turismo, do varejo e da inserção digital de pequenos negócios — agenda sustentada tanto pelo vínculo entre formação empreendedora e desenvolvimento de competências identificado por Arruda et al. (2023) quanto pela necessidade, apontada por Wood Jr. e Souza (2019), de que a pesquisa em Administração recupere densidade prática e social.

A sétima temática diz respeito à sustentabilidade, à gestão ambiental e à responsabilidade socioambiental. A presença de gestão ambiental no curso de Administração da UEMA e a inclusão de energia limpa, sustentabilidade e inclusão social entre as áreas estratégicas do TECNOVA III indicam que a agenda ambiental não se apresenta como apêndice normativo, mas como dimensão estratégica da gestão contemporânea (UEMA, 2019; FAPEMA, 2024).

No Maranhão, essa temática pode abranger economia circular, práticas ESG, gestão de resíduos, sustentabilidade em pequenos negócios, turismo sustentável, governança socioambiental e inovação orientada à redução de vulnerabilidades, pauta amparada pela exigência de pesquisa socialmente situada formulada por Alperstedt e Andion (2017) e pelo vínculo entre universidade empreendedora, mudança social e desenvolvimento sustentável proposto por Klofsten et al. (2019).

A oitava temática abrange gestão de pessoas, competências, empregabilidade e formação profissional. Os cursos de Administração das instituições privadas maranhenses enfatizam a atuação em diferentes áreas da gestão, a tecnologia da informação, os recursos humanos e a capacidade de coordenar processos organizacionais, o que sinaliza a permanência dessa agenda como núcleo estruturante da área (UNDB, 2026; CEUMA, 2026).

Em um estado marcado por desafios de qualificação, inserção produtiva e desigualdade regional, pesquisas sobre competências, liderança, aprendizagem organizacional, trabalho decente, carreiras e formação gerencial assumem relevância pública, tema para o qual Ribeiro (2020) contribui ao mapear as redes de produção científica da área, e Vizeu e Lara (2023), ao recolocarem a pergunta sobre os beneficiários sociais da pesquisa administrativa.

A nona temática corresponde a finanças, estratégia, planejamento e desempenho organizacional, especialmente quando aplicada a pequenos negócios, organizações públicas, cooperativas, empreendimentos familiares e negócios de base territorial. A recorrência de plano de negócios, planejamento estratégico, planejamento financeiro e gestão comercial nos documentos institucionais do IFMA indica que essa agenda possui forte aderência às necessidades de sustentabilidade econômica dos empreendimentos locais (IFMA, 2018a, 2026a) — pauta para a qual Wood Jr. e Souza (2019) oferecem a chave crítica contra uma pesquisa tecnicista e desconectada, e Lazzarini (2017), a compreensão do impacto da pesquisa também por sua capacidade de aprimorar decisões, práticas e resultados organizacionais.

A décima temática reúne turismo, serviços, economia criativa e desenvolvimento territorial. O Plano Maranhão 2050 situa o turismo entre os setores estratégicos analisados no horizonte de desenvolvimento de longo prazo, ao lado da agropecuária, da energia e da indústria, o que abre espaço para pesquisas em Administração sobre gestão de destinos, hospitalidade, inovação em serviços, qualificação profissional, marketing territorial, governança turística e fortalecimento de empreendimentos criativos (Maranhão, 2026b).

Essa agenda articula a dimensão econômica à dimensão cultural do território, permitindo que a Administração produza leitura mais refinada sobre valor, identidade, consumo, experiência e cooperação local, em diálogo com o papel das interações institucionais na inovação, discutido por Etzkowitz e Leydesdorff (2000), e com a necessidade de que a pesquisa dialogue com problemas e possibilidades socialmente enraizados, defendida por Alperstedt e Andion (2017).

2.7. Síntese Interpretativa: Da Dispersão Temática à Agenda Territorializada

As temáticas identificadas revelam que a pesquisa em Administração no Maranhão não carece de objetos, mas de maior integração estratégica entre objetos, território, instituições e mecanismos de fomento. Empreendedorismo, inovação, Administração Pública, logística, sustentabilidade, marketing, gestão de pessoas, finanças, cadeias produtivas e turismo aparecem como eixos recorrentes porque correspondem a problemas reais da economia e da sociedade maranhense; sua potência científica, contudo, depende da capacidade de convertê-los em programas de pesquisa cumulativos, redes interinstitucionais, linhas de investigação permanentes e produtos aplicáveis (IMESC, 2025; Maranhão, 2026a). Essa leitura é compatível tanto com Ribeiro (2020), ao evidenciar o peso das redes de colaboração na consolidação de campos científicos, quanto com Audretsch e Belitski (2022), ao defenderem o alinhamento estratégico como condição de impacto universitário.

A agenda territorializada da Administração exige, portanto, que universidades públicas, institutos federais, instituições privadas, FAPEMA, CAPES, CNPq, FINEP, setor produtivo e poder público municipal e estadual operem de forma mais coordenada. A existência de editais direcionados ao Plano Maranhão 2050, ao Porto do Itaqui e à inovação empresarial demonstra que a indução institucional já aponta para problemas estratégicos; o desafio consiste em fazer com que os cursos de Administração incorporem tais prioridades a seus projetos pedagógicos, grupos de pesquisa, trabalhos de conclusão de curso, iniciação científica, extensão tecnológica e produção docente (FAPEMA, 2025a, 2026b; UFMA, 2024). Essa interpretação encontra respaldo na centralidade das relações universidade–empresa–governo discutida por Etzkowitz e Leydesdorff (2000), e na defesa, por Wood Jr. e Souza (2019), da relevância social como critério incontornável de maturidade científica.

A principal implicação teórica deste capítulo é que a pesquisa em Administração no Maranhão deve ser compreendida como ciência social aplicada ao desenvolvimento territorial, e não apenas como reprodução local de agendas disciplinares produzidas em centros acadêmicos hegemônicos.

Essa formulação permite reposicionar o campo administrativo como instrumento de leitura crítica, formulação estratégica e intervenção qualificada sobre problemas econômicos, organizacionais e institucionais do estado. A densidade da pesquisa dependerá, em última instância, da capacidade de transformar demandas territoriais em problemas científicos rigorosos, empiricamente investigáveis e socialmente consequentes, conforme defendem Lazzarini (2017), Alperstedt e Andion (2017) e Vizeu e Lara (2023).

3. METODOLOGIA

A pesquisa que sustenta este artigo é de natureza qualitativa e caráter exploratório-descritivo, combinação adequada para investigar fenômenos complexos e multidimensionais em contextos institucionais específicos, como é o caso do alinhamento entre pesquisa universitária e demandas territoriais nos cursos de Administração maranhenses (Creswell, 2014; Flick, 2009). O delineamento metodológico combina duas estratégias complementares: a revisão sistemática da literatura, com protocolo estruturado descrito na subseção 2.1, e a análise documental de fontes primárias e secundárias relacionadas aos cursos de Administração do Maranhão.

A análise documental incidiu sobre Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) de instituições de ensino superior maranhenses que oferecem graduação em Administração, incluindo instituições públicas federais e estaduais e instituições privadas com presença significativa no estado. Foram analisados, ainda, os relatórios de pesquisa depositados nas plataformas Lattes e Sucupira, os editais de fomento à pesquisa da FAPEMA e os planos de desenvolvimento institucional das universidades selecionadas. Esses documentos foram examinados segundo os procedimentos da análise de conteúdo propostos por Bardin (2016), com categorias derivadas dedutivamente do referencial teórico e indutivamente do material empírico.

As categorias analíticas centrais foram: (a) orientação territorial das agendas de pesquisa, avaliada pelo grau de aderência dos temas investigados às cadeias produtivas e aos desafios econômicos do território maranhense; (b) mecanismos institucionais de fomento à pesquisa aplicada, verificando a existência de políticas explícitas, editais específicos e estruturas organizacionais voltadas à pesquisa orientada pelo desenvolvimento local; (c) vínculos entre pesquisa universitária e setor produtivo, identificando parcerias formais e informais com empresas, associações empresariais e organizações comunitárias do Maranhão; e (d) formação empreendedora orientada pelo território, avaliando o grau de integração entre as agendas de pesquisa e as práticas pedagógicas de formação empreendedora nos PPCs analisados.

Como controle de validade, os achados foram tratados como inferências analítico-documentais, e não como censo bibliométrico exaustivo de toda a produção em Administração no Maranhão. As evidências foram trianguladas entre documentos curriculares, editais, páginas institucionais, bases públicas e literatura especializada, preservando-se cautela na formulação de resultados quando a fonte consultada não permitia mensuração direta ou replicação integral do dado.

4. RESULTADOS

Os resultados da análise documental e da revisão sistemática revelam um quadro de tensões e paradoxos que caracterizam a relação entre pesquisa universitária, territorialidade e formação empreendedora nos cursos de Administração do Maranhão. Quatro achados principais estruturam a apresentação dos resultados.

O primeiro achado é a expansão da produção acadêmica acompanhada de baixa explicitação documental da orientação territorial. A consulta às plataformas institucionais, aos PPCs, aos registros de cursos e às fontes de fomento indica crescimento e diversificação de iniciativas relacionadas à Administração, à inovação e ao empreendedorismo no Maranhão; contudo, a análise temática do corpus documental evidencia que a aderência às cadeias produtivas, aos desafios econômicos e às especificidades territoriais do estado aparece de modo desigual e frequentemente não sistematizado. Em vez de constituir programa institucional cumulativo, a orientação territorial surge, em muitos casos, como diretriz declaratória ou como iniciativa localizada. Essa constatação é consistente com a crítica de Gibbons et al. (1994) sobre a predominância do Modo 1 de produção do conhecimento nas universidades, e com a análise de Mota e Hayashi (2020) sobre os padrões de produção científica das universidades nordestinas.

O segundo achado refere-se à fragilidade dos mecanismos institucionais de fomento à pesquisa territorialmente orientada. A análise dos PPCs das instituições estudadas revela que, embora a maioria dos documentos afirme, em seus princípios orientadores, o compromisso com o desenvolvimento regional e a responsabilidade social da pesquisa, essa afirmação não se traduz em políticas explícitas, sistemas de incentivo ou estruturas organizacionais que efetivamente orientem as agendas de pesquisa dos docentes em direção às demandas territoriais. Os editais da FAPEMA, embora progressivamente mais orientados para temas de relevância socioeconômica regional, carecem de articulação sistemática com as necessidades específicas dos cursos de Administração e dos setores produtivos do estado. Esse achado confirma o argumento de Audretsch e Belitski (2022) de que o alinhamento estratégico entre pesquisa universitária e território exige mais do que declarações de intenção: demanda a reformulação dos sistemas de governança da pesquisa institucional.

O terceiro achado é a descontinuidade entre pesquisa e formação empreendedora. A análise dos PPCs e dos relatos de pesquisadores documentados em estudos analisados revela que a pesquisa científica e as disciplinas de empreendedorismo nos cursos de Administração maranhenses operam, em sua maioria, como esferas paralelas e desconectadas. As disciplinas de empreendedorismo tendem a reproduzir modelos pedagógicos genéricos, baseados em casos internacionais e nacionais de referência, sem integração com as pesquisas em andamento nas próprias instituições sobre os problemas econômicos do território. Essa descontinuidade contraria as recomendações de Neck e Greene (2011) sobre a pedagogia empreendedora baseada na prática, e de Klofsten et al. (2019) sobre a integração entre ensino, pesquisa e desenvolvimento territorial como marca das universidades empreendedoras mais efetivas.

Um quarto achado, transversal aos três anteriores, é a presença de iniciativas promissoras e localizadas que indicam o potencial ainda não explorado da pesquisa universitária como motor do desenvolvimento econômico maranhense. Alguns grupos de pesquisa, especialmente aqueles vinculados à UFMA e ao IFMA, produzem investigações sobre cadeias produtivas locais, economia popular solidária, logística portuária e agronegócio familiar que demonstram o que é possível quando há alinhamento entre a agenda de pesquisa e as demandas do território. Essas experiências, ainda pontuais e dependentes do engajamento individual de pesquisadores, fornecem evidências de que o potencial para uma pesquisa administrativa territorialmente comprometida existe no estado, mas ainda não foi sistematicamente mobilizado pelas políticas institucionais.

5. DISCUSSÃO

Os resultados apresentados convidam a uma discussão aprofundada sobre as condições institucionais, epistemológicas e políticas que explicam o desalinhamento entre a pesquisa universitária nos cursos de Administração do Maranhão e as demandas do território. Essa discussão organiza-se em torno de três eixos: os obstáculos ao alinhamento, os caminhos para sua superação e as implicações teóricas dos achados.

O principal obstáculo identificado é de natureza institucional e manifesta-se na estrutura de incentivos acadêmicos que governa a carreira dos pesquisadores nos cursos de Administração maranhenses. Os critérios de avaliação da produção científica utilizados pela CAPES, centrados em indicadores bibliométricos e na publicação em periódicos de alto fator de impacto, tendem a reproduzir as agendas temáticas hegemônicas da literatura internacional, desincentivando a investigação de problemas locais cujo interesse pode ser elevado para o território, mas cuja visibilidade em periódicos internacionais é limitada. Esse mecanismo, identificado por Geuna (1999) como uma das principais tensões nos sistemas de financiamento da pesquisa universitária, opera com especial intensidade em contextos periféricos como o Maranhão, onde as universidades buscam afirmar sua legitimidade científica pela adesão a critérios externos de excelência, por vezes em detrimento da relevância territorial. A análise de Barbosa e Costa (2021) sobre o desenvolvimento territorial maranhense confirma essa dinâmica, identificando a baixa permeabilidade das agendas de pesquisa universitária às demandas dos setores produtivos locais como um dos vetores da persistência das assimetrias econômicas regionais.

O segundo obstáculo é de natureza relacional e diz respeito à debilidade dos vínculos entre as universidades maranhenses e os atores econômicos do território. Como discutido na subseção 2.3.2, Saxenian (1994) demonstrou que a superioridade competitiva dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos reside menos na dotação de recursos do que na densidade das redes de cooperação e confiança entre universidades, empresas e comunidades. No Maranhão, a análise dos PPCs e dos registros de pesquisa revela que as parcerias formais e informais entre os cursos de Administração e o setor produtivo são esparsas e irregulares, concentrando-se em iniciativas pontuais de estágio e consultoria, sem impacto sistemático sobre as agendas de pesquisa. O argumento de Chatterton e Goddard (2000) sobre a necessidade de reformular os sistemas de incentivo acadêmico para valorizar a produção de conhecimento útil aos atores locais aponta um caminho concreto para a superação dessa fragilidade relacional.

O terceiro obstáculo é de natureza epistemológica e remete à persistência de uma concepção de pesquisa científica em Administração que supervaloriza a generalização teórica e a comparabilidade entre contextos, em detrimento da compreensão profunda das especificidades territoriais. Essa concepção, que Gibbons et al. (1994) identificam como característica do Modo 1 de produção do conhecimento, tende a desqualificar as investigações sobre problemas locais como menos rigorosas ou menos científicas do que os estudos orientados por agendas temáticas globais. A superação desse obstáculo epistemológico exige não apenas a reformulação dos critérios de avaliação da pesquisa, mas também um processo de reconversão cultural das comunidades científicas dos cursos de Administração maranhenses, que passe a reconhecer a investigação dos problemas do território como forma legítima, rigorosa e socialmente relevante de fazer ciência.

Os caminhos para a superação do desalinhamento identificado organizam-se em três dimensões de intervenção. A primeira é a dimensão da governança institucional: as universidades maranhenses precisam reformular seus instrumentos de planejamento e avaliação da pesquisa, incorporando critérios de relevância territorial aos sistemas de incentivo, às comissões de pesquisa e aos editais de fomento. A segunda dimensão é a das redes de colaboração: é necessário construir pontes deliberadas e sustentadas entre os grupos de pesquisa dos cursos de Administração e os atores econômicos do território, incluindo empresas, associações setoriais, governos municipais e estaduais, e organizações da sociedade civil. A terceira dimensão é a pedagógica: os PPCs dos cursos de Administração maranhenses precisam ser revistos para integrar sistematicamente a pesquisa aplicada e a extensão às práticas de formação empreendedora, substituindo modelos pedagógicos genéricos por abordagens que partam dos problemas concretos do território maranhenses, reformulação para a qual Dolabela e Filion (2013) oferecem subsídios concretos, ao proporem que a educação empreendedora em contextos periféricos parta das potencialidades e dos desafios específicos de cada território.

As implicações teóricas dos achados são igualmente relevantes. O estudo confirma a pertinência dos modelos de universidade empreendedora (Guerrero; Urbano, 2012, 2014) e de alinhamento estratégico (Audretsch; Belitski, 2022) para a análise do contexto maranhense, mas revela também as limitações desses modelos quando aplicados a contextos de baixa densidade institucional e elevada desigualdade regional.

A análise empírica sugere que, em contextos como o Maranhão, o alinhamento entre pesquisa universitária e territorialidade não pode ser alcançado pela mera adoção de estruturas organizacionais importadas de contextos desenvolvidos; ele exige políticas públicas de ciência e tecnologia que reconheçam as especificidades regionais e que compensem, deliberadamente, as assimetrias estruturais que tornam mais difícil, para as universidades periféricas, produzir pesquisa territorialmente relevante sem abrir mão da legitimidade científica.

6. CONCLUSÃO

Este artigo investigou o modo como as pesquisas científicas desenvolvidas nos cursos de Administração do ensino superior no Maranhão são orientadas pelas demandas territoriais do estado, analisando o grau de alinhamento entre as agendas de pesquisa institucionais e as necessidades socioeconômicas do território. Os resultados revelaram um quadro de crescimento quantitativo da produção científica desacompanhado de orientação territorial, fragilidade dos mecanismos institucionais de fomento à pesquisa aplicada e descontinuidade entre pesquisa e formação empreendedora, ao lado de iniciativas promissoras que demonstram o potencial ainda não explorado da pesquisa universitária como motor do desenvolvimento econômico maranhense.

A discussão dos resultados à luz do referencial teórico permitiu identificar que os obstáculos ao alinhamento entre pesquisa e territorialidade são de natureza institucional, relacional e epistemológica, e que sua superação exige intervenções articuladas em três dimensões: a reformulação dos sistemas de governança da pesquisa, a construção de redes de colaboração entre universidades e setor produtivo, e a revisão dos projetos pedagógicos dos cursos de Administração. Essas proposições são coerentes com as recomendações da literatura internacional sobre universidades empreendedoras e sistemas regionais de inovação, mas demandam adaptação às especificidades do contexto maranhense, onde as assimetrias estruturais e a baixa densidade institucional impõem desafios adicionais que os modelos abstratos frequentemente desconsideram.

As contribuições do estudo são de três ordens. Para a teoria, o artigo avança na compreensão dos mecanismos que obstaculizam o alinhamento entre pesquisa universitária e territorialidade em contextos periféricos, enriquecendo os modelos de universidade empreendedora com evidências empíricas subnacionais que revelam os limites de sua aplicação universal.

Para a prática, o estudo oferece diagnóstico fundamentado e proposições concretas para gestores institucionais, formuladores de políticas de ciência e tecnologia, e pesquisadores comprometidos com o desenvolvimento regional do Maranhão. Para a metodologia, o artigo demonstra a produtividade da combinação entre revisão sistemática da literatura e análise documental para investigar o alinhamento entre pesquisa universitária e territorialidade em contextos específicos.

As limitações do estudo incluem a impossibilidade de realizar entrevistas sistemáticas com pesquisadores e gestores institucionais no escopo deste artigo, o que restringe a profundidade da análise dos fatores subjetivos que condicionam as escolhas de agenda de pesquisa dos docentes.

Pesquisas futuras poderão superar essa limitação por meio de estudos de caso aprofundados em instituições específicas, grupos focais com pesquisadores e gestores, e análises longitudinais que acompanhem as transformações nas agendas de pesquisa ao longo do tempo. A extensão da investigação a outros estados do Norte e do Nordeste, com características territoriais e institucionais comparáveis às do Maranhão, constitui igualmente agenda relevante para o desenvolvimento da área.

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