PESPECTIVAS DA LITERATURA INDÍGENA NO CONTEXTO ESCOLAR: UM ESTUDO DE REVISÃO SISTEMÁTICA

UNDERSTANDIN INDIGENOUS LITERATURE IN THE EDUCATIONAL CONTEXT: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782624003

RESUMO
O texto apresenta resultados de pesquisa sobre a literatura indígena no contexto escolar, cujo objetivo é evidenciar os pressupostos filosóficos, teóricos e metodológicos de estudos já realizados nessa área. A pesquisa, do tipo Estado do Conhecimento, abrange o período de 2019 a 2024. Como suporte teórico, utilizou-se os pressupostos de Morosini (2006), que define o Estado do Conhecimento como um estudo quantitativo e qualitativo que analisa a trajetória e a distribuição da produção científica sobre um determinado objeto de pesquisa ao logo de um período específico. Ao final, conclui-se que as pesquisas apontam para a necessidade de ampliar a valorização e a inclusão da literatura indígena no currículo escolar, promovendo o reconhecimento da diversidade cultural e garantindo um espaço efetivo para as vozes e experiências dos povos indígenas na formação dos estudantes.
Palavras-chave: Literatura indígena; Currículo; Diversidade cultural.

ABSTRACT
The text presents research results on indigenous literature in the school context, whose objective is to highlight the philosophical, theoretical, and methodological assumptions of studies already carried out in this area. The research, of the State of Knowledge type, covers the period from 2019 to 2024. As theoretical support, we used the assumptions of Morosini (2006), who defines the State of Knowledge as a quantitative and qualitative study that analyzes the trajectory and distribution of scientific production on a given research object over a specific period. In conclusion, the research points to the need to increase the appreciation and inclusion of indigenous literature in the school curriculum, promoting the recognition of cultural diversity and ensuring an effective space for the voices and experiences of indigenous peoples in the education of students.
Keywords: Indigenous literature; School curriculum; Cultural diversity.

1. INTRODUÇÃO

Os movimentos indígenas do século XX contribuíram significativamente para a implementação de políticas públicas e para a construção de novos olhares na elaboração das narrativas indígenas. Essa transformação fez com que os povos indígenas passassem a ser reconhecidos, pela historiografia renovada no Brasil, como agentes sócio-político-históricos, e não mais apenas como participantes isolados da história do país.

Esse novo enfoque, possibilitou o surgimento de abordagens inovadoras, desconstruindo diversos mitos e estereótipos perpetuados pela historiografia tradicional e pela literatura nacional. Além disso, ampliou-se as possibilidades de pesquisas e aprofundamentos do conhecimento sobre o passado brasileiro.

No campo de estudos voltado à literatura indígena, Graúna (2013), Thiél (2012) e Munduruku (2012) têm se debruçado sobre documentos que abordam questões fundamentais, como a modificação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), por meio da aprovação da Lei nº 11.645 de 10 de março de 2008. Tal legislação tornou obrigatória a inclusão do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nos currículos escolares, com ênfase nas disciplinas de História, Artes e Literatura.

Antes da Lei nº 11.645/2008, especificamente na década de 1990, foi promulgado os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (Brasil, 1997) que apresentou uma proposta abrangente para o ensino da pluralidade cultural no ensino fundamental I. Essa abordagem visou mediar os professores em suas práticas pedagógicas, promovendo ações para a promoção da diversidade cultural.

Além disso, posteriormente foi promulgada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017, p. 15) apresentou um marco essencial no Ensino Fundamental, com relevância ao planejamento para orientar as práticas pedagógicas em direção à promoção da diversidade cultural nos componentes curriculares de Linguagem, Educação Física e Arte.

Diante do contexto explicitado, este estudo faz parte da pesquisa em andamento intitulada: A literatura indígena no contexto escolar: uma pesquisa aplicada no município de Porto Velho, RO. Trata-se de uma proposta de pesquisa vinculada à Linha de pesquisa “Currículo, Políticas e Diferenças Culturais na Educação Básica” - UNIR, que visa contribuir com o desenvolvimento das práticas educativas que favoreçam a promoção da cultura indígena, por meio da Literatura Indígena no contexto escolar dos anos iniciais do Ensino Fundamental I no município de Porto Velho-RO.

Ademais, a lacuna que orientou esse estudo consistiu na falta de evidências acerca das pesquisas desenvolvidas sobre a literatura indígena na escola. Assim, o objetivo principal foi identificar produções relacionadas às temáticas que estão sendo investigadas, as quais despertaram questionamentos e levaram a buscar conhecimentos para a construção e desconstrução de práticas docentes, buscando contribuir para o desenvolvimento dos professores envolvidos nesta pesquisa.

Com aportes advindos da pesquisa bibliográfica, especificamente do Estado do conhecimento, buscamos sustentação em o Morosini (2014, p. 155), para quem, essa análise deve promover reflexão e síntese “sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo, congregando periódicos, teses, dissertações e livros sobre uma temática específica”. É importante destacar que o universo delimitado foi explorado de maneira minuciosa, utilizando critérios rigorosos para garantir uma aproximação mais precisa com a temática em questão.

Desse modo, a pergunta principal desta revisão foi: quais as pesquisas já desenvolvidas sobre literatura indígena no contexto escolar? As questões secundárias a esta investigação foi: quais os pressupostos filosóficos, teóricos e metodológicos adotadas pelos autores, especificamente no que se refere à visão de ciência, a visão de mundo, objeto de estudo e escolha de referencial da pesquisa?

O estudo da literatura indígena, especialmente no contexto educacional, é extremamente relevante, pois, apesar das diversas abordagens disponíveis sobre revisão sistemática consonante com a ideia de um Estado do Conhecimento na área da educação, ainda carece de investigações específicas que abordem a temática relacionada ao currículo em cenários de interação entre culturas.

Nesse sentido, os estudos voltados à literatura indígena podem oferecer uma visão crítica e enriquecedora sobre as práticas educativas que respeitam e valorizam a diversidade cultural e linguística. Além disso, as pesquisas em literatura indígena oferecem uma oportunidade para (re)conhecer não apenas as publicações existentes, mas também a ampla variedade de metodologias adotadas por pesquisadores neste campo.

A pesquisa foi realizada a partir das buscas de dissertações vinculadas aos programas de Pós-Graduação em Educação na página do Catálogos de Teses & Dissertações da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que reúne as referências bibliográficas sobre as produções acadêmicas no Brasil em nível de mestrado e doutorado. Nessa perspectiva o catálogo da CAPES é uma plataforma que tem como objetivo facilitar o acesso as informações já defendidas junto a programas de pós-graduação do território brasileiro.

Para tanto, o artigo será organizado em três seções, a saber: na primeira seção deste texto, esboça o caminho metodológico usados nesta revisão. Na segunda, identifica-se e enfatiza-se as descrições dos estudos evidenciados (Dissertação e Teses), com foco nos objetivos, métodos e resultados alcançados. A terceira seção traz a análise a partir das categorias: literatura indígena enquanto estratégia didática, literatura indígena enquanto experiência pedagógica, análise crítica das políticas públicas voltadas para a educação escolar indígena.

2. CAMINHO METODOLÓGICO

De acordo com Araújo (2020, p. 01), “o ensino das culturas indígenas é um tema que gera intensa reflexão e debate na atualidade entre aqueles que se preocupam com os desafios ainda enfrentados para a abordagem dessa temática nas escolas”. Ao problematizar essa questão, Thiel (2012) aponta que a percepção estereotipada do indígena, que remonta aos tempos coloniais, tem perpetuado uma visão distorcida, resultando na invisibilidade de sua verdadeira história, cultura, costumes e rica tradição literária. Portanto, apresentar a tradição literária dos povos originários é uma forma de oferecer a esses grupos a oportunidade de expressar suas vozes por meio da escrita.

Dessa forma, é fundamental fomentar o debate sobre a inclusão da literatura indígena no ambiente escolar, não apenas como um conteúdo a ser explorado, mas como uma ferramenta poderosa para valorização e reinterpretação das identidades indígenas, sempre com o devido respeito às tradições e à oralidade que a sustentam. Essa abordagem enriquece o aprendizado dos alunos e, ao mesmo tempo, oferece aos escritores indígenas um espaço justo e reconhecido na literatura contemporânea.

A pesquisa concentrou-se em identificar as dissertações disponíveis na base de dados da CAPES, voltadas a investigar a promoção da literatura indígena no contexto da educação básica entre 2019 a 2024 a fim de analisar de que modo essa temática é discutidas pelos autores. As dissertações foram localizadas utilizando os seguintes descritores: literatura indígena”; “literatura indígena no contexto escolar”, “literatura indígena na escola”.

Descrição dos Critérios de Inclusão

Alguns critérios de inclusão foram usados para incluir e/ou excluir estudos evidenciados:

  1. Eleição das palavras-chave: A busca por palavras chaves é de fundamental importância; uma vez que esse mecanismo facilita a síntese dos conceitos ou variáveis principais dos estudos investigados (Costa; Zoltowski; 2014); Dessa forma; para ser incluído; um estudo precisava; portanto; ter; abordagem sobre “literatura indígena”; “literatura indígena no contexto escolar”; “literatura indígena na escola”.

  2. Idioma e limites geográficos: Um estudo incluído teve que ser relatado em Língua Portuguesa ou Língua Espanhola, desenvolvidos no Brasil.

  3. Concentrar especificamente em pesquisas sobre Literatura indígena no contexto escolar da Educação Básica: Seja como tema de ensino, recurso didático, currículo, avaliação, metodologia, campo teórico.

  4. Tipo de estudo e desenho: Um estudo incluído deveria ser oriundo de programas de pós-graduação em educação (Mestrado) considerando um dos níveis da educação básica, podendo ser baseadas em pesquisas empíricas primárias ou secundárias (revisão de estudo).

  5. Data da pesquisa: Pesquisas realizadas entre 2019-2024.

Os estudos foram identificados através da busca em bancos de dados eletrônicos: Banco de Teses e Dissertações CAPES, pesquisando manualmente. Isso geralmente consistiu na busca do título de estudo e/ou resumos. Onde havia dúvida sobre a abordagem do estudo, devido à falta de informações fornecidas, sempre foi realizada uma nova triagem, essa última realizada, com a inserção de uma nova palavra-chave e a leitura do texto completo.

3. RESULTADOS DA PESQUISA

As vantagens em delimitar as buscas por palavra-chave, viabilizaram em incluir um detalhamento para maior precisão em recuperar e investigar documentos a serem consultados na base de dados.

Na primeira busca utilizando o termo “Literatura Indígena”, foram encontrados trezentos e trinta e dois trabalhos de mestrado. Desses trezentos e trinta e dois, duzentos e oitenta e cinco foram excluídos por não terem sido publicados nos últimos cinco anos, resultando em quarenta e sete trabalhos que permaneceram para análise. Entre esses: trinta e quatro pertencem à área de Linguística, Letras e Artes; 10 (dez) à área de Ciências Humanas; e 03 (três) à área multidisciplinar.

Além disso, na categorização por áreas de conhecimento, encontramos: trinta e um trabalhos na área de Letras, 05 (cinco) em Educação, 03 (três) em História, 02 (dois) em Literatura Comparada e 02 (dois) nas Ciências Sociais, Culturas e Humanidades. Quanto aos programas, foram identificados dezesseis trabalhos vinculados ao programa de Letras, 05 (cinco) ao de Educação, 04 (quatro) em Letras e 03 (três) em Letras: Linguística e Teoria Literária.

No entanto, é importante ressaltar que desses quarenta e sete trabalhos analisados, somente 04 (quatro) concentra-se especificamente em pesquisas sobre Literatura indígena no contexto escolar, seja como tema de ensino ou recurso didático. 01 (um) trabalho não possui divulgação autorizada.

Na segunda busca realizada com o termo “Literatura indígena no contexto escolar”, foram identificados um total de 07 (sete) trabalhos: 04 (quatro) dissertações e 02 (duas) teses. Dentre esses, 02 (dois) pertencem à área de Educação, 01 (um) à Enfermagem, 01 (um) à História, 01 (um) à Linguística e Letras, e 01 (um) à Psicologia.

Na análise, 03 (três) trabalhos foram excluídos por não atenderem ao critério de inclusão, que se restringe a pesquisas de nível de mestrado. Assim, dos 04 (quatro) trabalhos que permanecem, apenas 01 (um) corresponde a pesquisa de mestrado em Educação. No entanto, é importante ressaltar que este trabalho não se concentra especificamente em Literatura indígena; seu foco é nas concepções, crenças e atitudes dos educadores Tupinikim em relação à Matemática.

Na terceira busca realizada com o termo “Literatura indígena na escola” foram encontrados no total trinta e um resultados, dezoito de mestrado e 09 (nove) de doutorado. Desses 10 (dez) vinculados ao Programa Educação, 03 (três) Letras, 02 (dois) História, 01 (um) Antropologia Social e 01 (um) Educação Agrícola.

Após a análise, 09 (nove) trabalhos podem dialogar com essa pesquisa, 02 (dois) foram excluídos e 02 (dois) por serem oriundo de pesquisas de doutorado, 01 (um) excluído por já está em análise e vinte e um excluídos por não atenderem ao critério de inclusão, que se restringe a ano de publicação.

Após triagem, foram analisadas oitenta e cinco pesquisas da CAPES. Referências potencialmente relevantes. Desta foram removidas 01 (um) por duplicidade. Restando oitenta e quatro para busca nos resumos. Foram removidos por não atenderem os critérios de inclusão setenta e uma pesquisas. O Banco de dados final resultou na análise de treze pesquisas por possuírem relações próximas, conforme detalhamento:

As análises realizadas consistiram na verificação do objetivo geral das dissertações encontradas no catálogo da CAPES, com foco na temática abordada neste estudo. Também foram destacadas as investigações dos autores que fundamentaram cada uma das dissertações, tanto no âmbito da formação de professores quanto no exame das identidades e diferenças culturais dentro de uma perspectiva de educação intercultural. Isso ressalta a relevância do desenvolvimento profissional docente para uma educação intercultural.

Após essa análise, foram destacadas treze dissertações que buscam respostas para questões semelhantes àquelas que motivaram a investigar este tema, sendo elas:

  1. A literatura indígena no ensino fundamental: uma experiência na Escola Do Campo

  2. Leitura Literária em Contextos Escolares Diversos: Acesso, Mediação e Resistência;

  3. O Iauaretê: Caminhos da Literatura Indígena;

  4. Uma Poética da Floresta: a Narrativa Indígena no Amazonas;

  5. A Literatura Indígena na escola: sugestões de leitura para o nono ano do ensino fundamental da escola estadual prof. Ulisses Serra em Campo Grande – MS;

  6. A Literatura Indígena na formação de uma memória coletiva intercultural no contexto dos anos iniciais do ensino fundamental em Roraima;

  7. Coração na aldeia, pés no mundo”, de Auritha Tabajara: perspectivas do cordel indígena no Ensino Médio em uma escola pública de Imperatriz (Ma);

  8. Literatura Indígena: A Narrativa ensina Outra História;

  9. A escola também é um espaço de memória e ancestralidade: uma proposta de letramento literário para a diversidade étnica por meio das literaturas indígenas;

  10. Movimentos de des(re) Territórialização das Poéticas de Gustavo Caboco: Um estudo sobre a literatura indígena Brasileira Contemporânea;

  11. A literatura indígena em sala de aula a partir das narrativas do povo Karipuna da Aldeia Manga: materiais didáticos na escola Jorge Iaparrá;

  12. Políticas Públicas de leitura e a constituição simbólica do mundo representado: o direito à literatura indígena no PNLD literário.

  13. Literatura Indígena nas obras complementares do Pnld de 2010 e 2013;

O estudo desenvolvido por Silva (2020), intitulado “A literatura indígena no ensino fundamental: uma experiência na Escola do Campo”, teve como objetivo desenvolver um trabalho de educação literária a partir da leitura de algumas obras indígenas de diversas etnias, centrando-se na obra “Meu vô Apolinário: Um mergulho no rio da (minha) memória”, de Daniel Munduruku, com alunos do primeiro segmento da Educação Básica.

Para isso, foi elaborada e aplicada uma sequência didática, especialmente com narrativas indígenas, em diálogo com outros gêneros que abordavam a cultura indígena, tais como poesias, lendas, músicas e artes visuais, de modo a enriquecer o universo cultural dos alunos e valorizar a tradição indígena, além de estimular práticas leitoras nesse contexto.

A pesquisa esteve teórico-metodologicamente respaldada nas obras de Cosson (2006), Graúna (2003), Jauss (1979), Iser (1996), Bordini e Aguiar (1998), além da literatura indígena de Daniel Munduruku (2012), Thiél (2012) e em documentos legais que abordavam a educação indígena.

Diante dos resultados da intervenção pedagógica, pôde-se concluir que o texto de Daniel Munduruku, diretriz da sequência proposta, em virtude de seu aspecto memorialístico, encantou os alunos e permitiu que os sujeitos leitores se encontrassem, via literatura, com outros sujeitos, os indígenas. Assim, a experiência realizada revelou-se relevante, pois contribuiu para despertar o interesse dos leitores pela literatura de temática indígena e, consequentemente, para fomentar o reconhecimento social e cultural dos povos indígenas como sujeitos de direito.

Posteriormente, a pesquisa de Kaiser da Silva (2020) indicou que, ao reconhecer a potência da Literatura e das Artes na formação de leitores literários, propôs-se a refletir sobre as mediações de leitura com música realizadas em contextos escolares diversos, especificamente nas Escolas do Campo e Indígenas.

A justificativa da pesquisa residiu no fato de que os mediadores de leitura poderiam contribuir para a democratização do acesso ao livro, à leitura e às Artes, proporcionando assim a oportunidade para que os sujeitos se reconhecessem como cidadãos de direitos e encontrassem formas de resistência (Petit, 2009; Colomer, 2007; Bajard, 2007; Bajour, 2012).

A partir de contribuições das teorias literárias, particularmente da Literatura Comparada (Coutinho, 2013) e das Teorias da Recepção (Iser, 1979; Jauss, 1994), o intuito foi propor, nas escolas, a leitura mediada do conto tradicional Chapeuzinho Vermelho (1812), na versão dos Irmãos Grimm, e do reconto A Indiazinha Chapeuzinho Verde (2016), da escritora indígena Maria Lucia Takua, com o propósito de construir coletivamente os sentidos das narrativas.

Para cumprir o objetivo delineado, apresentaram-se questões teóricas e procedimentos práticos, como a análise das manifestações estéticas, o reconhecimento dos contextos, a seleção dos recursos utilizados (música, livro ampliado, figurino etc.) e o planejamento e reflexão sobre o desenvolvimento da leitura coletiva.

Os resultados alcançados durante a experiência evidenciaram possibilidades de repensar o exercício do mediador de leitura literária em espaços diversos, orientando em direção a um perfil de mediador “reinventado”, isto é, sensível às várias formas de ser e estar no mundo, além de aberto ao diálogo intercultural. Ademais, observou-se que em lugares marcados por situações de preconceito e consequentes invisibilizações culturais (Candau, 2000; Candido, 1995), a Literatura e as Artes puderam abrir caminhos para a interação, promover o debate e a troca de saberes, favorecendo assim a formação de leitores literários atentos a suas condições e lutas.

Na sequência a pesquisa de Pareça (2020), em seu estudo intitulado “O Iauaretê: caminhos da Literatura Indígena”, defende que a literatura indígena contemporânea expressa uma visão singular sobre a relação do ser humano com a terra, o sagrado, a ordem social, a história e a arte. A autora destaca que essa produção literária também representa uma busca constante pela compreensão de si e do outro.

Amparada por referenciais como Graça Graúna, Eduardo Viveiros de Castro e Kaká Werá Jecupé, a pesquisa propõe uma leitura crítica da literatura indígena como instrumento de resistência e de afirmação identitária, sobretudo ao revelar como essas narrativas desafiam visões etnocêntricas historicamente impostas à cultura indígena.

O estudo evidencia como o mito da democracia racial brasileira, fundamentado na ideia da mestiçagem entre três raças, contribui para a negação da história dos povos indígenas. Essa narrativa reforça uma perspectiva etnocêntrica que desconsidera a identidade e a alteridade dos povos nativos, fazendo com que suas culturas sejam sistematicamente invisibilizadas e subordinadas a uma visão dominante.

Contudo, Santos (2020), em sua dissertação intitulada “Uma poética da floresta: a narrativa indígena no Amazonas”, analisa a origem do movimento literário indígena a partir da conquista de direitos educacionais e da implementação de políticas públicas voltadas à alfabetização nas aldeias. A pesquisa destaca a relação entre a produção literária e o ativismo político, evidenciando como escritores indígenas utilizam a literatura como forma de expressão coletiva, resistência cultural e desconstrução de estereótipos. Nesse contexto, a literatura indígena é compreendida como um território fértil de possibilidades, que permite o protagonismo dos povos originários na construção de suas próprias narrativas.

Em continuidade no estudo intitulado “A Literatura Indígena na escola: sugestões de leitura para o nono ano do ensino fundamental da escola estadual Prof. Ulisses Serra em Campo Grande – MS”, Herler (2021) verificou que a literatura, mesmo a canônica, geralmente ocupa um lugar pouco privilegiado na escola, enquanto a literatura indígena não é sequer conhecida. Pensando nisso, esta dissertação propôs um estudo sobre a literatura de autoria indígena e sugeriu a leitura desses textos na escola.

O objetivo da leitura das textualidades indígenas foi proporcionar aos alunos indígenas e não indígenas do nono ano da Escola Estadual Prof. Ulisses Serra a oportunidade de ler textos de literatura indígena, por meio das obras de Daniel Munduruku e outros autores, além de oferecer um panorama da cultura de alguns dos diversos povos nativos brasileiros, promovendo discussões sobre os temas das histórias lidas

Para o embasamento teórico, utilizou-se dos conceitos de literatura indígena presentes no livro "Pele silenciosa, pele sonora: a literatura indígena em destaque" (2012), de Janice Thiél, e em “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil” (2013), de Graça Graúna, além de "Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção" (2018), organizado por Jolie Dorrico et al.

Também foram lidas obras de autores pertencentes ao cânone teórico, como Stuart Hall, em "Da diáspora" (2003), Jacques Le Goff, em “História e memória” (1990), Mirceia Eliade, em "Mito e realidade" (sem data, São Paulo) e “O sagrado e o profano" (1992), Eurídice Figueiredo (org.) em "Conceitos de literatura e cultura” (2005), Sophie Van Der Lindem, em “Para ler o livro ilustrado” (2001), Emmanuel Alloa (org.) em "Pensar a imagem" (2015), entre outros.

A relevância dessa pesquisa esteve no fato de disponibilizar aos alunos livros de literatura indígena e promover o letramento literário defendido por Rildo Cosson em "Letramento literário: teoria e prática" (2018).

A metodologia utilizada consistiu em rodas de leitura, com duração de duas aulas cada, em oficinas quinzenais por um período de um bimestre. Para esse fim, foram planejadas algumas sequências didáticas com sugestões para a leitura das obras indígenas de forma contextualizada, o que possibilitou aos alunos compreendê-las melhor.

Essa pesquisa também se propôs a servir como referência a outros estudiosos da literatura de autoria indígena, através do levantamento de obras já publicadas por diversos autores. Como resultado desse trabalho, esperou-se atender às recomendações da Lei 1.645/2008, uma legislação importante para a preservação da cultura dos povos nativos do Brasil, além de seguir as orientações da BNCC, do Referencial Curricular do Mato Grosso do Sul e do PPP da Escola Estadual Professor Ulisses Serra. Acima de tudo, buscou-se proporcionar momentos de reflexão sobre a cultura e a literatura indígena, com o intuito de despertar respeito pelas culturas dos povos nativos brasileiros.

Doravante no estudo de Barros (2021), em sua pesquisa intitulada “A literatura indígena na formação de uma memória coletiva intercultural no contexto dos anos iniciais do ensino fundamental em Roraima”, analisa a contribuição da literatura indígena para o fortalecimento da memória coletiva intercultural no ambiente escolar.

O estudo destaca os desafios enfrentados pela educação formal ao tentar promover uma prática inclusiva e não discriminatória em uma sociedade plural, mas ainda pautada por padrões homogêneos. A autora defende a educação intercultural como um caminho necessário para o reconhecimento e a valorização das diferenças culturais, tanto dentro quanto fora da sala de aula, enfatizando a importância da literatura indígena na afirmação das identidades e no rompimento com visões excludentes e hegemônicas da história e do conhecimento.

Já, para Ferreira (2022), na pesquisa intitulada “Coração na aldeia, pés no mundo”, de Auritha Tabajara: perspectivas do cordel indígena no ensino médio em uma escola pública de Imperatriz (MA) propõe fortalecer o letramento literário de estudantes do ensino médio por meio do trabalho didático com a obra da primeira cordelista indígena brasileira conhecida. A pesquisa, de abordagem qualitativa e interpretativista, fundamenta-se nas propostas de sequência básica e expandida de Rildo Cosson (2014), além de autores como Tabajara (2018), Graúna (2013), Dorrico et al. (2018), entre outros que discutem literatura indígena e práticas pedagógicas.

O estudo demonstra que a leitura e o trabalho com o cordel indígena possibilitam o contato direto com a literatura contemporânea indígena, promovendo uma vivência poética enraizada na oralidade, na ancestralidade e na musicalidade. Essa experiência revela o potencial humanizador e integrador da literatura, contribuindo para uma educação mais sensível às vozes e culturas historicamente marginalizadas. Ferreira defende que a literatura indígena deve ser valorizada e inserida com protagonismo nas práticas escolares, em contraposição à predominância exclusiva do cânone tradicional nas salas de aula.

Barros Filho (2022), em sua pesquisa intitulada “Literatura Indígena: a narrativa ensina outra história”, promove uma reflexão sobre a representação dos indígenas na literatura, tanto ficcional quanto didática, com o objetivo de desenvolver uma "cartilha" de apoio para docentes que ensinam História aos alunos da Rede Pública brasileira. O autor parte de uma análise historiográfica que busca resgatar a trajetória da imagem do indígena, explorando tanto a literatura romântica quanto os materiais didáticos produzidos ao longo do século XIX. Essa investigação almeja entender de que forma a representação dos povos indígenas foi construída nos manuais didáticos ao longo dos últimos dois séculos.

A pesquisa propõe problematizar a cristalização da imagem do indígena, que, ao longo do tempo, foi frequentemente reduzida à condição de selvagem ou oprimido, limitando seu espaço de fala. Através de uma leitura crítica de obras infanto-juvenis escritas por autores indígenas na contemporaneidade, Barros Filho busca evidenciar que a narrativa da história dos povos indígenas brasileiros deve ser contada pelos próprios indivíduos que vivenciaram essas experiências.

Continuamente, apresenta Costa (2022), em sua pesquisa “A escola também é um espaço de memória e ancestralidade: uma proposta de letramento literário para a diversidade étnica por meio das literaturas indígenas”, analisa como a literatura indígena é abordada em três escolas públicas de Imperatriz (MA). A pesquisa revela a precariedade no tratamento dos acervos literários, que muitas vezes são armazenados de forma inadequada e sem incentivo ao uso pedagógico. Identifica-se também que, em algumas escolas, a literatura indígena é trabalhada de forma pontual, limitada a datas comemorativas, como o dia 19 de abril.

A pesquisa propõe oficinas de letramento literário indígena como alternativa para capacitar professores, desenvolver materiais e propor estratégias de inserção da literatura indígena no cotidiano escolar, promovendo o respeito à diversidade étnica. A autora destaca que, embora a Lei 11.645/2008 represente um marco importante, sua implementação ainda enfrenta resistência institucional, refletida na ausência de formações continuadas e na escassez de obras indígenas nos acervos escolares.

Costa (2022) argumenta que romper com essa negligência requer um esforço consciente de valorização da ancestralidade e das narrativas indígenas, muitas vezes silenciadas pela cultura dominante. A proposta de letramento apresentada busca justamente oferecer caminhos para aproximar os estudantes das tradições, visões de mundo e histórias dos povos originários, promovendo uma educação mais inclusiva e sensível à pluralidade cultural do Brasil.

Entretanto, Correa (2022), em seu estudo “Movimento de Des(re)territorialização das poéticas de Gustavo Caboco: um estudo sobre a literatura indígena brasileira contemporânea”, analisa os caminhos e características da literatura indígena atual, destacando seu papel como movimento de reivindicação identitária e territorial. A autora defende que não é possível pensar a demarcação de territórios físicos sem considerar os territórios simbólicos e imaginários, construídos a partir das narrativas dos próprios povos indígenas.

A autora também problematiza os efeitos das dominações coloniais, que impuseram uma monocultura do pensamento, limitando expressões criativas e promovendo o apagamento de múltiplas formas de existência.

Nesse contexto, Correa enfatiza que uma das principais reivindicações da literatura indígena é a autonomia para que os próprios indígenas contem suas histórias, sem a mediação de vozes externas ou olhares tutelados. Tal urgência se justifica pela necessidade de desconstruir os estereótipos folclóricos e imagens pejorativas perpetuadas pelas visões hegemônicas, que continuam a produzir violências simbólicas e físicas contra os povos originários.

4. DISCUSSÃO

Literatura indígena enquanto estratégia didática

As dissertações de Silva (2020), Kaiser da Silva (2020), Herler (2021) e Barros Filho (2022) apresentaram um conjunto de estratégias didáticas que facilitam o diálogo intercultural, promovendo um espaço de escuta e respeito às vozes dos povos originários.

Os pesquisadores concluem que, ao incluir a literatura indígena nas salas de aula, os educadores não apenas enriquecem o repertório cultural dos estudantes, mas também incentivam a reflexão crítica sobre a diversidade cultural brasileira. Essas pesquisas mostram como a literatura indígena pode ser utilizada como uma rica ferramenta didática para promover o conhecimento cultural, a valorização das identidades indígenas e a inclusão nas práticas educativas.

Literatura indígena enquanto recurso de letramento literário de estudantes

Ferreira (2022) e Costa (2022) revela uma perspectiva crítica e complementar sobre o papel da literatura indígena como recurso pedagógico no letramento literário e na promoção de uma educação intercultural.

Ambas as autoras convergem ao afirmar a importância da inserção efetiva das literaturas indígenas no ambiente escolar como estratégia de valorização da diversidade cultural e de enfrentamento às práticas excludentes historicamente enraizadas na educação brasileira.

Ferreira (2022) destaca o potencial inclusivo e humanizador da literatura indígena, apontando que sua presença no currículo rompe com a hegemonia do cânone literário tradicional, que ainda domina o cenário educacional. A autora enfatiza que esse tipo de literatura não apenas amplia os horizontes culturais dos estudantes, mas também oferece representatividade às vozes historicamente silenciadas.

Por sua vez, Costa (2022) reforça essa análise ao evidenciar os entraves institucionais à implementação da Lei 11.645/2008, como a ausência de formação continuada para os docentes e a escassez de obras indígenas nas bibliotecas escolares. A autora propõe um modelo de letramento literário voltado para a valorização das narrativas e cosmovisões indígenas, o que possibilita a reconstrução de uma memória coletiva mais justa e plural. Assim, as pesquisas reconhecem a literatura indígena como instrumento essencial para a construção de uma educação crítica, democrática e verdadeiramente intercultural.

Literatura indígena enquanto experiência pedagógica

Silva (2020) em “A literatura indígena no ensino fundamental: uma experiência na Escola Do Campo” descreve explicitamente uma experiência docente ao desenvolver um trabalho de educação literária com alunos do primeiro segmento da Educação Básica, através da leitura de narrativas indígenas. O autor elabora e aplica uma sequência didática em sala de aula, focando na valorização da tradicionalidade indígena e na estimulação da prática leitora dos alunos.

Herler (2021) em “A Literatura Indígena na escola: sugestões de leitura para o nono ano do ensino fundamental” Esta dissertação propõe um estudo sobre a literatura de autoria indígena e sugere a leitura desses textos na escola, atuando diretamente na promoção do letramento literário entre alunos indígenas e não indígenas.

O enfoque na prática de rodas de leitura e oficinas evidencia uma experiência docente. Os resultados indicam que a leitura de narrativas indígenas não só proporciona uma maior compreensão sobre as realidades dessas culturas, mas também desafia preconceitos, promovendo uma educação mais inclusiva e democrática.

Literatura enquanto prática pedagógica na educação escolar indígena

A pesquisa de Maciel (2022), evidencia que apesar dos desafios enfrentados diariamente pelos educadores, há um esforço constante na renovação de metodologias para resgatar e transmitir os saberes tradicionais. A pesquisa conclui que esse conhecimento é perpetuado não apenas no ambiente escolar, mas também nas relações familiares, nas reuniões comunitárias e no convívio social, assegurando a continuidade da memória cultural deixada pelos antepassados.

Análise crítica das políticas públicas voltadas para a educação escolar indígena

A pesquisa de Barros Júnior (2023) examina as políticas e diretrizes estatais que influenciam a representação dos povos indígenas e a inclusão de sua literatura nas políticas públicas de leitura no Brasil, especificamente por meio do Programa Nacional do Livro Didático Literário (PNLD - Literário). A dissertação também discute o impacto e a eficácia dessas políticas, abordando as questões de autoria, representação, e os direitos culturais dos povos indígenas.

Além disso, a dissertação de Breguedo (2020), que analisa a literatura indígena nas obras complementares do PNLD, pode também ser considerada relevante, pois investiga como os indígenas se autorrepresentam em suas obras, considerando o impacto da literatura infantojuvenil na escola e na promoção da cultura indígena, refletindo sobre as diretrizes da Lei 11.645 de 2008.

Essas pesquisas não apenas tratam das práticas educativas nas escolas, mas também da análise crítica das estruturas e políticas que sustentam a educação escolar indígena em um contexto mais amplo.

As dissertações analisadas confirmam que a literatura indígena é uma ferramenta poderosa para a promoção da cultura indígena na escola. Elas não apenas despertam o interesse dos alunos, mas também desempenham um papel crucial na formação de uma sociedade mais consciente e respeitosa das diversidades culturais que a compõem.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A temática central deste texto centrou-se nas pesquisas realizadas sobre a literatura indígena no contexto escolar com foco na literatura indígena enquanto estratégia didática, enquanto experiência pedagógica e análise crítica das políticas públicas voltadas para a educação escolar indígena. Por meio das análises realizadas neste estudo, pode-se observar que as dissertações de Silva (2020), Kaiser da Silva (2020), Herler (2021) e Barros Filho (2022) ressaltam a importância da literatura indígena como um recurso didático fundamental na educação contemporânea.

Ao integrar essas narrativas nos currículos escolares, os educadores têm a oportunidade de criar um ambiente de aprendizado que não apenas enriquece a formação cultural dos alunos, mas também promove uma reflexão crítica sobre as identidades plurais que compõem o fenômeno cultural brasileiro. Além do mais, as experiências práticas descritas, como as abordadas por Silva e Herler, demonstram que a literatura indígena pode ser um ponto de partida significativo para o desenvolvimento da leitura e da escrita, além de permitir que os alunos, tanto indígenas quanto não indígenas, se reconheçam em um espaço de valorização mútua. A presença dessas narrativas nas salas de aula desafia estigmas e preconceitos, contribuindo para uma formação mais inclusiva e democrática, que ressignifica as relações entre diferentes culturas.

Por outro lado, a análise crítica das políticas públicas voltadas para a educação escolar indígena, como as propostas por Barros Júnior e Breguedo, coloca em evidência as necessidades e os desafios que ainda persistem na implementação de uma educação verdadeiramente inclusiva. A questão da representação e os direitos culturais dos povos indígenas são aspectos cruciais que precisam ser considerados na formulação de políticas educacionais eficazes. Além disso, as dissertações analisadas confirmam que a literatura indígena não é apenas um meio de enriquecer o ensino, mas uma ferramenta poderosa na construção de uma consciência coletiva que respeita e valoriza a diversidade cultural.

Desta forma, é fundamental que educadores, gestores e formuladores de políticas continuem a apoiar a inclusão da literatura indígena nas práticas educativas assegurando as vozes originárias.

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1 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Federal de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica Dom Bosco e Professor no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail