REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792092027
RESUMO
A identificação dos interesses profissionais pode apoiar a orientação de carreira e o planejamento pedagógico na Educação Profissional e Tecnológica. Este estudo teve como objetivo analisar os perfis vocacionais RIASEC de estudantes concluintes do Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio, identificar as dimensões predominantes e discutir sua compatibilidade teórica com a formação administrativa. Realizou-se pesquisa quantitativa, descritiva e analítica com 56 estudantes. Os dados foram obtidos por questionário estruturado, composto por 24 atividades distribuídas entre os seis tipos de Holland, e analisados por meio do alfa de Cronbach, do teste de Friedman e de três comparações pareadas focalizadas pelo teste de Wilcoxon, com correção de Bonferroni. As subescalas apresentaram consistência interna de baixa a limítrofe (α = 0,322–0,698), recomendando cautela interpretativa. Houve diferença global entre os perfis, χ²(5, N = 56) = 24,198, p < 0,001, com tamanho de efeito pequeno (W = 0,086). Social e Convencional obtiveram os maiores postos médios e não diferiram entre si (p ajustado = 0,513); ambos superaram o perfil Empreendedor nas comparações focalizadas (p ajustado = 0,006 e 0,033, respectivamente), com efeitos moderados. Conclui-se que a turma apresenta predominância grupal Social–Convencional. Os achados podem subsidiar ações de orientação profissional e experiências formativas de liderança, iniciativa e inovação, sem confundir o tipo RIASEC Empreendedor com o construto amplo de empreendedorismo.
Palavras-chave: Educação Profissional e Tecnológica; RIASEC; interesses profissionais; orientação vocacional; Administração.
ABSTRACT
Identifying vocational interests can support career guidance and pedagogical planning in Professional and Technological Education. This study aimed to analyze the RIASEC vocational profiles of students completing an Integrated Technical Program in Business Administration, identify the predominant dimensions, and discuss their theoretical compatibility with administrative education. A quantitative, descriptive, and analytical study was conducted with 56 students. Data were collected through a structured questionnaire comprising 24 activities distributed across Holland’s six types and analyzed using Cronbach’s alpha, the Friedman test, and three focused pairwise comparisons with the Wilcoxon signed-rank test and Bonferroni correction. The subscales showed low to borderline internal consistency (α = .322–.698), which calls for caution in interpretation. A global difference was found among the profiles, χ²(5, N = 56) = 24.198, p < .001, with a small effect size (W = .086). Social and Conventional had the highest mean ranks and did not differ from each other (adjusted p = .513); both exceeded the Enterprising profile in the focused comparisons (adjusted p = .006 and .033, respectively), with moderate effects. The group therefore showed a predominant Social–Conventional pattern. These findings may inform career guidance and learning experiences that foster leadership, initiative, and innovation, while avoiding the conflation of the RIASEC Enterprising type with the broader construct of entrepreneurship.
Keywords: Professional and Technological Education; RIASEC; vocational interests; career guidance; Business Administration.
1. INTRODUÇÃO
A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) tem assumido papel estratégico na formação da juventude contemporânea, especialmente diante das transformações sociais, econômicas e tecnológicas que impactam o mundo do trabalho. Nesse contexto, o ensino técnico integrado ao ensino médio busca articular formação geral e preparação profissional, contribuindo para o desenvolvimento de competências técnicas, sociais e organizacionais necessárias à inserção profissional dos estudantes.
Entretanto, a escolha por uma formação técnica ocorre, frequentemente, em um momento de identidade vocacional ainda em construção. Durante a adolescência, decisões relacionadas à carreira tendem a ser influenciadas por fatores sociais, familiares, econômicos e institucionais, tornando o processo de escolha profissional complexo e, muitas vezes, marcado por dúvidas e inseguranças.
No caso do curso técnico em Administração, essa questão torna-se particularmente relevante, considerando que a área demanda competências relacionadas à liderança, organização, comunicação, tomada de decisão e iniciativa. Contudo, a escolha pelo curso pode não estar necessariamente associada à identificação vocacional com a área administrativa, mas também a fatores externos, como disponibilidade de vagas, influência familiar ou busca por formação técnica integrada ao ensino médio.
Esse cenário pode gerar desalinhamento entre os interesses profissionais dos estudantes e as competências associadas à área de Administração, impactando aspectos como engajamento acadêmico, motivação para aprendizagem e perspectivas de atuação profissional futura.
Nesse contexto, torna-se relevante compreender os interesses profissionais dos estudantes matriculados no Curso Técnico em Administração e discutir sua compatibilidade teórica com características da formação administrativa. Para isso, o modelo RIASEC, proposto por John Holland (1997), apresenta-se como importante ferramenta teórica para análise das preferências vocacionais, ao classificar os indivíduos em seis dimensões de interesse profissional: Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor e Convencional.
A utilização desse modelo permite identificar padrões de interesses e subsidiar reflexões sobre orientação profissional e formação técnica. Em uma aplicação contemporânea com 178 estudantes da educação profissional, Thamrin, Giatman e Syah (2023) encontraram evidências de ajuste da estrutura RIASEC em uma versão indonésia do instrumento (RMSEA = 0,02), reforçando a atualidade do modelo e, simultaneamente, a necessidade de examinar sua adequação psicométrica em cada contexto cultural e linguístico.
Dessa forma, o presente estudo justifica-se pela necessidade de compreender o alinhamento entre os interesses profissionais dos estudantes e a formação técnica em Administração, contribuindo para o desenvolvimento de práticas educacionais mais alinhadas às características e expectativas dos jovens.
Assim, o estudo tem como objetivo analisar os perfis vocacionais RIASEC dos estudantes concluintes do Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio, identificar as dimensões predominantes e discutir sua compatibilidade teórica com características da formação administrativa.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A compreensão das relações entre educação, formação profissional e desenvolvimento de carreira tem se consolidado como eixo central nas discussões contemporâneas sobre políticas educacionais e inserção no mundo do trabalho. Nesse contexto, torna-se fundamental analisar os fundamentos teóricos que sustentam a Educação Profissional e Tecnológica (EPT), a construção da identidade vocacional e os modelos explicativos dos interesses profissionais, especialmente diante das transformações sociais, econômicas e tecnológicas que impactam a formação dos jovens.
2.1. Políticas Educacionais e Educação Profissional e Tecnológica
A educação brasileira vem passando por constantes reformulações voltadas à ampliação da qualidade do ensino, redução das desigualdades e fortalecimento da formação profissional. Nesse cenário, o planejamento educacional de longo prazo assume papel estratégico ao estabelecer diretrizes para o desenvolvimento educacional e social do país.
A instituição do novo Plano Nacional de Educação (PNE), por meio da Lei nº 15.388/2026, representa importante marco das políticas públicas educacionais, ao estabelecer metas relacionadas à qualidade do ensino, à valorização docente, à ampliação do investimento público e ao fortalecimento da Educação Profissional e Tecnológica (BRASIL, 2026a).
Nesse contexto, a EPT assume papel relevante ao articular formação escolar e preparação para o mundo do trabalho, integrando conhecimentos técnicos, científicos e sociais. Mais do que atender às demandas produtivas, a EPT busca contribuir para a formação integral dos estudantes, promovendo desenvolvimento profissional, autonomia e cidadania (BRASIL, 2026b).
2.2. Concepções da Educação Profissional e Tecnológica
A Educação Profissional e Tecnológica apresenta-se historicamente marcada por diferentes concepções formativas. Enquanto parte das políticas educacionais direciona a formação para atender às demandas do mercado de trabalho, outras perspectivas defendem uma formação mais ampla, voltada ao desenvolvimento humano e social.
Nesse sentido, Oliveira e Silva (2025) destacam que a formação profissional não deve limitar-se à simples transmissão de técnicas, mas promover uma preparação ativa, crítica e cidadã. A estruturação da educação profissional no Brasil foi fortemente influenciada pelo desenvolvimento econômico e pelas transformações do sistema produtivo (Ortigara, 2021, p. 19 apud OLIVEIRA; Silva, 2025, p. 6).
Ao mesmo tempo, a EPT desempenha papel estratégico na formação integral dos sujeitos, ao integrar dimensões técnicas, sociais e humanas e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico e para a inserção qualificada no mundo do trabalho (Filho; Paixão; Nogueira, 2022 apud OLIVEIRA; Silva, 2025, p. 5).
2.3. Juventude, Formação e Mercado de Trabalho
No contexto da Educação Profissional e Tecnológica, a relação entre juventude, educação e mercado de trabalho torna-se particularmente relevante, uma vez que os estudantes são inseridos precocemente em processos de definição vocacional e construção de projetos profissionais.
No Brasil, a inserção dos jovens no mercado de trabalho é marcada por desafios estruturais, como desemprego, informalidade e ocupações de baixa complexidade (Feijó; Peruchetti, 2024). Nesse cenário, a qualificação educacional assume papel importante na ampliação das oportunidades profissionais e na construção de trajetórias ocupacionais mais estáveis.
Além dos conhecimentos técnicos, o contexto contemporâneo exige competências socioemocionais, como proatividade, comunicação, resiliência e trabalho em equipe, cada vez mais valorizadas pelas organizações (Feijó; Peruchetti, 2024).
Dessa forma, a formação profissional integrada ao ensino médio não se limita à preparação técnica, mas também envolve processos de construção da identidade pessoal e profissional dos estudantes.
2.4. Escolha Profissional e Construção da Identidade
A escolha profissional constitui um processo complexo, especialmente durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade pessoal, social e profissional (Lago, 2017). Trata-se de uma decisão influenciada por fatores individuais, sociais, econômicos, escolares e familiares. Brum e Carlesso (2021) ressaltam que esse processo também é atravessado pelas expectativas do entorno social, pelas condições de acesso à formação e pelas transformações do mundo do trabalho.
Segundo Bock (2002 apud LAGO, 2017, p. 10–11), a escolha profissional não pode ser considerada um problema natural dos seres humanos, pois surge com o capitalismo e com a necessidade de sobrevivência do indivíduo em uma sociedade interligada, na qual a força de trabalho constitui o meio pelo qual ele se sustenta. Nesse processo, a noção moderna de escolha profissional consolidou-se a partir das transformações do sistema produtivo e da crescente especialização das ocupações, contexto em que o trabalho passou a ocupar posição central na construção da identidade dos indivíduos. Diante desse cenário, o desempenho competente em uma atividade passa a depender das aptidões e do gosto que o sujeito desenvolve para o trabalho.
A identidade profissional resulta da interação entre sujeito e contexto social (Ciampa, 1984 apud LAGO, 2017, p. 22). Para Lucchiari (1993, p. 11 apud LAGO, 2017, p. 13–14), o trabalho liga o mundo subjetivo ao objetivo: ao fazer e buscar novas formas de fazer, o sujeito se transforma e se identifica com o trabalho como forma de ser e de se expressar. No capitalismo, porém, a força de trabalho é tratada como mercadoria, o que pode gerar alienação. Nesse processo, os jovens vivenciam dúvidas, conflitos e expectativas quanto ao futuro profissional, tornando a escolha ocupacional um momento de elevada complexidade.
Além disso, fatores socioeconômicos influenciam as possibilidades de escolha e podem ampliar ou restringir as trajetórias profissionais disponíveis aos estudantes (Soares, 2002 apud LAGO, 2017, p. 25–28). Por essa razão, o perfil de interesses constitui uma dimensão relevante da decisão, mas não esgota os fatores envolvidos na escolha e na permanência em determinado curso (Brum; Carlesso, 2021).
2.5. Interesses Profissionais e o Modelo RIASEC de Holland
A compreensão dos interesses profissionais constitui elemento central nos estudos sobre desenvolvimento de carreira, orientação vocacional e tomada de decisão profissional. Entre as principais abordagens teóricas utilizadas para compreender a relação entre indivíduo e ambiente ocupacional, destaca-se a teoria vocacional proposta por John Holland (1997). Em revisão sobre o desenvolvimento e o estado da teoria, Nauta (2010) destaca sua ampla influência na avaliação de interesses e no aconselhamento de carreira, bem como sua possibilidade de verificação empírica e aplicação prática. Nessa perspectiva, a escolha de uma profissão transcende os interesses do indivíduo e constitui expressão de sua personalidade, uma vez que os interesses se constroem e se integram progressivamente a partir da interação entre hereditariedade e ambiente, por meio das associações entre emoções, atividades e reforços contextuais (Alarie-Mercier; Balbinotti, 2024; Holland, 1997).
A teoria de Holland (1997) parte do pressuposto de que o comportamento profissional resulta da interação entre características pessoais e ambientais, de modo que os indivíduos tendem a buscar contextos que lhes permitam expressar interesses, habilidades, atitudes e valores. Com base nisso, pessoas e ambientes profissionais podem ser classificados em seis tipos fundamentais: Realista (R), Investigativo (I), Artístico (A), Social (S), Empreendedor (E) e Convencional (C), formando o modelo RIASEC. Cada tipo reúne interesses, atividades preferidas, valores, competências percebidas e características pessoais, e o perfil de um indivíduo pode combinar diferentes dimensões (Nauta, 2010). Nauta (2010) observa que essa classificação paralela de pessoas e ambientes constitui uma das contribuições centrais do modelo, pois permite examinar empiricamente sua compatibilidade — possibilidade que, segundo Savickas e Savickas (2017), sustenta o paradigma pessoa-ambiente como abordagem dominante na psicologia vocacional. Nesse sentido, a escolha profissional não se limita a uma decisão ocupacional isolada, mas se relaciona à expressão de características e preferências do sujeito.
Os seis tipos propostos pelo modelo apresentam características específicas. O perfil Realista está relacionado a atividades práticas, técnicas e operacionais, com preferência por problemas concretos; o Investigativo associa-se à pesquisa, à análise e à resolução de problemas; o Artístico envolve criatividade, expressão e inovação, com orientação para atividades ambíguas e pouco estruturadas; o Social relaciona-se à cooperação, à ajuda e à interação humana; o Empreendedor vincula-se à liderança, à persuasão e à iniciativa; e o Convencional caracteriza-se pela organização, pelo planejamento e pela execução de atividades estruturadas (Holland, 1997; Murgo; Andrade; Rozendo, 2016; Savickas; Savickas, 2017). Em pesquisa brasileira, Martins (2024) encontrou uma estrutura hierárquica composta por 22 interesses básicos agrupados nos seis tipos RIASEC, evidenciando que essas categorias representam domínios amplos e internamente diversificados. Pesquisas recentes continuam empregando essa estrutura em contextos educacionais e examinando sua validade em instrumentos adaptados (Dutry et al., 2025; Thamrin; Giatman; Syah, 2023).
Além da classificação dos perfis, Holland (1997) organiza os tipos em uma estrutura hexagonal, na qual a proximidade representa maior similaridade entre interesses e comportamentos. A literatura acumulada oferece apoio geral à existência e à ordenação dos tipos RIASEC, embora a configuração empírica nem sempre reproduza um hexágono regular (Nauta, 2010). Essa cautela também aparece em estudos recentes: Thamrin, Giatman e Syah (2023) encontraram ajuste favorável em uma versão indonésia do instrumento, enquanto Dutry et al. (2025), ao validarem o SIMON-jr com adolescentes flamengos, confirmaram as seis dimensões, mas não a estrutura circular prevista. Silva, Paixão e Morais (2026), em amostra de universitários portugueses, também encontraram elevada consistência interna nas subescalas, mas apenas ajuste limitado ao modelo circumplexo. Esses achados reforçam a utilidade do RIASEC e a necessidade de avaliar sua estrutura em cada população e instrumento antes de interpretar consistência ou congruência.
Nesse contexto, um dos conceitos centrais da teoria é a congruência vocacional, compreendida como o grau de compatibilidade entre os interesses do indivíduo e o ambiente ocupacional ou formativo em que está inserido. Segundo Savickas e Savickas (2017), correspondências adequadas entre pessoa e ambiente produzem sucesso, satisfação, estabilidade e saúde mental. Contudo, a evidência deve ser interpretada com cautela: Nauta (2010) conclui que a capacidade preditiva da congruência é modesta, e Dutry et al. (2025) não encontraram associação significativa entre congruência de interesses e desempenho acadêmico na adolescência inicial. A literatura sobre desenvolvimento de carreira indica, assim, que a compatibilidade entre interesses e ambientes pode favorecer a exploração, a reflexão sobre alternativas e escolhas educacionais mais informadas, mas não determina, isoladamente, permanência, satisfação ou desempenho (Dutry et al., 2025; Savickas; Savickas, 2017). Dessa forma, a análise da congruência entre perfil vocacional e área de formação é relevante para compreender trajetórias de carreira, desde que combinada com medidas específicas do ambiente e com outros fatores pessoais e contextuais.
Outro aspecto importante do modelo refere-se aos conceitos de diferenciação e consistência vocacional. A diferenciação corresponde ao grau em que determinados interesses se destacam no perfil, enquanto a consistência se relaciona à proximidade, no modelo hexagonal, entre as dimensões predominantes (Holland, 1997; Nauta, 2010). Nauta (2010) ressalta que diferenciação, consistência e identidade vocacional são construtos auxiliares da teoria de Holland, mas apresentam apoio empírico misto e exigem medidas específicas. Neste estudo, esses construtos não foram mensurados diretamente; por isso, a análise concentra-se na distribuição grupal dos seis tipos RIASEC.
No contexto educacional, o modelo RIASEC tem sido empregado em processos de orientação profissional, aconselhamento de carreira e análise de interesses ocupacionais. Estudos com adolescentes mostram que seus interesses podem ser identificados de modo sistemático e utilizados para estimular exploração e reflexão sobre escolhas educacionais, sem transformar os escores em prescrições de carreira (Bazargaliyeva et al., 2026; Dutry et al., 2025; Murgo; Andrade; Rozendo, 2016). No Brasil, a adaptação do Self-Directed Search (SDS) reuniu evidências de precisão e validade para a avaliação dos seis tipos RIASEC em adolescentes (Mansão, 2005; Primi et al., 2010). Posteriormente, Magalhães (2013) encontrou evidências de validade de critério para a Escala de Atividades do SDS em universitários, mas recomendou o uso contextualizado dos códigos tipológicos. Instrumentos mais recentes também têm buscado integrar os seis tipos amplos a interesses mais específicos, ampliando as possibilidades de avaliação e devolutiva (Martins, 2024). Levenfus (2016) destaca a utilidade dos interesses profissionais para o autoconhecimento, a orientação de carreira e a tomada de decisão de adolescentes e jovens em contextos educativos.
Na formação em Administração, diferentes tipos RIASEC podem encontrar correspondência com atividades do campo profissional. Os tipos Social e Convencional relacionam-se, respectivamente, à interação e à organização, enquanto o tipo Empreendedor, no sentido específico de Holland, envolve persuasão, influência e liderança (Holland, 1997).
Nesse sentido, a análise dos interesses profissionais de estudantes do curso técnico em Administração permite caracterizar preferências vocacionais do grupo e discutir, de modo exploratório, sua compatibilidade com atividades presentes na formação administrativa.
Dessa forma, o modelo RIASEC constitui uma referência teórica para investigar interesses profissionais no contexto da Educação Profissional e Tecnológica e subsidiar ações de orientação profissional, sem que os escores, isoladamente, determinem escolhas ou trajetórias.
3. METODOLOGIA
Esta seção apresenta o percurso metodológico do estudo, detalhando a natureza da pesquisa, os participantes, o instrumento de coleta e os procedimentos empregados para a análise exploratória dos perfis RIASEC na amostra investigada.
3.1. Natureza da Pesquisa
A pesquisa caracteriza-se como aplicada, quantitativa, descritiva e analítica. A natureza aplicada decorre do propósito de produzir informações úteis à orientação profissional e ao planejamento pedagógico. A abordagem quantitativa baseia-se na codificação das respostas e no emprego de procedimentos estatísticos. Quanto aos objetivos, o estudo descreve os perfis vocacionais do grupo e testa diferenças entre as pontuações das seis dimensões RIASEC (Gil, 2008).
3.2. Participantes da Pesquisa
A pesquisa foi realizada com estudantes do 3º ano do Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio. A amostra foi composta por 56 estudantes, selecionados por acessibilidade, considerando os participantes presentes no momento da aplicação do instrumento de coleta de dados.
3.3. Instrumento de Coleta de Dados
Para a coleta dos dados, utilizou-se um questionário estruturado com base no modelo RIASEC de Holland (1997). O instrumento contemplou os seis tipos vocacionais — Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor e Convencional —, cada um representado por quatro atividades. As respostas foram registradas em escala ordinal com três categorias: “Não Gosto”, “Gosto” e “Gosto Muito”. Por se tratar de uma aplicação adaptada e breve, os resultados foram interpretados em nível grupal e de forma exploratória.
3.4. Coleta e Organização dos Dados
Os dados foram coletados presencialmente por meio da aplicação dos questionários em sala de aula e, posteriormente, organizados em uma planilha eletrônica para fins de codificação e auditoria. Após a organização inicial, a matriz de dados foi exportada para o software SPSS Statistics, versão 13.0 (SPSS INC., 2004), utilizado para as análises descritivas, de consistência interna e inferenciais. As medidas derivadas — W de Kendall, valores de p ajustados por Bonferroni e tamanhos de efeito r — foram calculadas a partir das estatísticas produzidas pelo programa.
3.5. Procedimentos Estatísticos
Inicialmente, calcularam-se as frequências relativas e as pontuações de cada perfil RIASEC para identificar tendências gerais de preferência. Para compor os escores, as categorias da escala ordinal foram codificadas como 0 para “Não Gosto”, 1 para “Gosto” e 2 para “Gosto Muito”; em seguida, somaram-se os quatro itens de cada dimensão.
A consistência interna de cada subescala foi examinada pelo coeficiente alfa de Cronbach (CRONBACH, 1951). Valores próximos de 0,70 foram usados apenas como referência interpretativa, e não como critério absoluto de validação, considerando o número reduzido de itens por dimensão e o caráter exploratório do instrumento. Não se interpretou um alfa global, pois os seis tipos RIASEC representam dimensões teoricamente distintas. Como diagnóstico complementar, foram inspecionadas as correlações item-total corrigidas e os valores de alfa se o item fosse excluído; não foram realizadas exclusões posteriores de itens, a fim de preservar a composição de quatro atividades e a cobertura teórica de cada dimensão.
Em razão da natureza ordinal e pareada dos dados, aplicou-se o teste de Friedman às pontuações somadas de cada perfil, com o objetivo de verificar diferenças globais entre as seis dimensões (Friedman, 1937; Field, 2020). O tamanho de efeito foi estimado pelo coeficiente de concordância de Kendall (W).
Diante da hipótese global, foram realizadas três comparações pareadas focalizadas pelo teste dos postos sinalizados de Wilcoxon: Social × Convencional, Convencional × Empreendedor e Social × Empreendedor (Wilcoxon, 1945; Marôco, 2018). A seleção desses contrastes decorreu do foco analítico do estudo nas dimensões relacionadas à interação social, à organização e à influência/liderança.
Para controlar o erro do Tipo I no conjunto das três comparações focalizadas, aplicou-se a correção de Bonferroni (Bonferroni, 1936). O nível de significância de 5% foi dividido por três, resultando em nível crítico de p bruto < 0,0167. Também foram apresentados os valores ajustados, calculados por p ajustado = min(3p, 1). Os tamanhos de efeito dos testes de Wilcoxon foram estimados por r = |Z|/√n, considerando no denominador o número de pares sem empate. Foram utilizados testes bilaterais com significância assintótica.
3.6. Análise e Interpretação dos Resultados
Os resultados foram interpretados à luz do modelo RIASEC de Holland (1997) e da literatura sobre orientação profissional e formação técnica. A análise descreveu as preferências do grupo e discutiu sua compatibilidade teórica com atividades da Administração, sem calcular um índice formal de congruência pessoa–ambiente.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Caracterização do Objeto de Estudo
O estudo caracteriza os interesses profissionais dos estudantes concluintes do Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio à luz do modelo RIASEC de Holland.
A pesquisa foi realizada em uma instituição pública de ensino com estudantes do 3º ano do curso técnico em Administração, em um contexto formativo que integra educação básica e formação profissional. Esse cenário torna-se relevante por envolver estudantes em fase de definição de trajetórias acadêmicas e profissionais, momento marcado pela construção da identidade vocacional.
A caracterização dos perfis permite discutir como diferentes preferências — relacionadas à interação, à organização, à criatividade, à investigação, à prática e à influência — aparecem na turma, sem presumir que o curso tenha causado tais interesses ou que eles expliquem, isoladamente, a escolha da formação.
4.2. Análises Estatísticas
As análises abrangeram a consistência interna das seis subescalas, a comparação global dos perfis pelo teste de Friedman e três contrastes pareados focalizados pelo teste de Wilcoxon, com correção de Bonferroni.
O alfa de Cronbach foi utilizado como indicador exploratório da consistência interna dos quatro itens de cada dimensão. Como o coeficiente é influenciado pelo número de itens e não mede intensidade de preferência, seus valores foram interpretados separadamente dos escores dos perfis.
4.2.1. Consistência Interna das Subescalas
Os coeficientes variaram entre 0,322 e 0,698, conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1. Consistência interna das subescalas RIASEC e alfa de Cronbach
Perfil | Alfa de Cronbach | Interpretação |
Realista | 0,331 | Baixa |
Investigativo | 0,322 | Baixa |
Artístico | 0,609 | Limítrofe |
Social | 0,625 | Limítrofe |
Empreendedor | 0,698 | Limítrofe |
Convencional | 0,606 | Limítrofe |
Fonte: Dados da pesquisa (2026).
Os tipos Realista (α = 0,331) e Investigativo (α = 0,322) apresentaram baixa consistência interna. Artístico (α = 0,609), Social (α = 0,625), Convencional (α = 0,606) e Empreendedor (α = 0,698) apresentaram consistência interna limítrofe, sendo o último o mais próximo da referência de 0,70.
Esses resultados dizem respeito à homogeneidade das respostas aos itens de cada subescala e não permitem inferir maior ou menor preferência por um tipo RIASEC. Thamrin, Giatman e Syah (2023), ao avaliarem uma versão indonésia de 106 itens com 178 estudantes da educação profissional, encontraram coeficientes entre 0,601 e 0,699 nas seis dimensões. Em outro instrumento destinado a adolescentes, Dutry et al. (2025) obtiveram alfas entre 0,62 e 0,83, sendo o menor valor observado na dimensão Convencional. Estudos de construção de instrumentos também mostram que os tipos amplos podem conter facetas distintas e que a clareza e a representatividade dos itens influenciam as evidências psicométricas (Alarie-Mercier; Balbinotti, 2024; Martins, 2024). Esses parâmetros indicam que a consistência interna varia conforme a composição dos itens, a população e o contexto cultural e, portanto, não demonstram equivalência com o questionário deste estudo. Além disso, os coeficientes abaixo de 0,70 e o número reduzido de itens aqui empregado recomendam cautela e indicam a necessidade de aperfeiçoamento psicométrico. Na análise item-total, as maiores elevações potenciais ocorreriam com a retirada de “Criar negócios” da dimensão Empreendedora (α = 0,712) e de “Trabalhar com dados” da dimensão Convencional (α = 0,718). Essas exclusões não foram adotadas, pois reduziriam as subescalas a três itens e estreitariam sua cobertura conceitual; mantiveram-se, portanto, as composições originais de quatro atividades.
Por essa razão, a comparação entre os perfis foi tratada como análise exploratória das pontuações da turma, sem afirmar validação do questionário ou diagnóstico vocacional individual.
4.2.2. Diferenças Entre os Perfis — Teste de Friedman
O teste de Friedman foi aplicado às pontuações somadas das seis dimensões RIASEC. A Figura 1 apresenta os postos médios resultantes da ordenação intraparticipante.
Os postos médios indicaram a seguinte ordem grupal: Social, Convencional, Artístico, Empreendedor, Investigativo e Realista.
Figura 1. Postos médios dos perfis RIASEC no teste de Friedman
O teste indicou diferença global entre os perfis, χ²(5, N = 56) = 24,198, p < 0,001. O coeficiente de concordância de Kendall foi W = 0,086, o que corresponde a um tamanho de efeito pequeno e recomenda evitar interpretações de diferenças amplas entre todas as dimensões.
O tipo Social apresentou o maior posto médio (4,32), indicando preferência relativa por atividades de interação, cooperação e auxílio às pessoas no conjunto avaliado. A predominância do tipo Social também foi observada por Bazargaliyeva et al. (2026) em uma amostra de 185 estudantes do 9º ano no Cazaquistão. A aproximação é apenas descritiva, pois os estudos diferem em idade, contexto cultural, instrumento e forma de classificação dos perfis. Além disso, Murgo, Andrade e Rozendo (2016) identificaram diferenças entre os sexos nas dimensões Realista, Social e Empreendedora em estudantes brasileiros do Ensino Médio, indicando que a composição sociodemográfica deve ser considerada na interpretação de resultados grupais.
O tipo Convencional obteve o segundo maior posto médio (3,92), associado a atividades organizadas, estruturadas e orientadas por procedimentos. Em conjunto, Social e Convencional descrevem interesses potencialmente compatíveis com atividades de atendimento, gestão de pessoas, organização administrativa e suporte a processos, embora o estudo não tenha medido ambientes ocupacionais nem congruência pessoa–ambiente.
O resultado, portanto, permite falar em predominância relativa dos tipos Social e Convencional no grupo, mas não em alinhamento pleno com o curso ou em perfil obrigatório para a atuação em Administração.
O tipo Artístico ocupou a terceira posição (3,51), seguido do Empreendedor (3,17), do Investigativo (3,10) e do Realista (2,98).
A posição do tipo Empreendedor deve ser interpretada segundo a definição específica de Holland, centrada em persuasão, influência e liderança. Ela não equivale, isoladamente, à disposição geral para criar negócios ou desenvolver competências empreendedoras, construto mais amplo e multidimensional.
Assim, a maior pontuação Social em relação à Empreendedora indica preferência relativa por atividades cooperativas, mas não permite inferir as motivações de ingresso no curso, aversão ao risco ou capacidade futura de empreender.
Da mesma forma, os menores postos médios dos tipos Investigativo e Realista representam posições relativas nesta amostra e neste instrumento; não demonstram ausência de habilidades técnicas, científicas ou operacionais.
Com base nos três maiores postos médios, a ordenação grupal foi S–C–A (Social–Convencional–Artístico). Esse resultado sintetiza a turma e não substitui a análise dos códigos individuais dos estudantes.
4.2.3. Comparações Focalizadas — Teste de Wilcoxon com Correção de Bonferroni
Foram realizados três contrastes pareados focalizados para examinar as diferenças entre Social e Convencional e entre esses dois tipos e o Empreendedor.
As comparações selecionadas foram Social × Convencional, Convencional × Empreendedor e Social × Empreendedor.
Com a correção de Bonferroni para três testes, adotou-se o nível crítico de p bruto < 0,0167. A Tabela 2 apresenta os valores brutos, os valores ajustados por Bonferroni e os tamanhos de efeito. Os resultados devem ser interpretados em conjunto com a direção dos postos médios, a magnitude de cada contraste e o pequeno tamanho de efeito global.
Tabela 2. Resultados das comparações focalizadas pelo teste de Wilcoxon
Comparação | Z | p bruto | p Bonf. | r |
Social × Convencional | −1,369 | 0,171 | 0,513 | 0,204 |
Convencional × Empreendedor | −2,544 | 0,011 | 0,033 | 0,367 |
Social × Empreendedor | −3,088 | 0,002 | 0,006 | 0,432 |
Fonte: Dados da pesquisa (2026).
Não houve diferença estatisticamente significativa entre Social e Convencional, Z = −1,369, p ajustado = 0,513, r = 0,204, o que indica que o estudo não identificou superioridade de uma dessas dimensões sobre a outra.
Em termos teóricos, a proximidade entre essas pontuações sugere a coexistência de interesses por interação humana e por atividades estruturadas. Essa interpretação descreve o grupo e não estabelece um perfil profissional único para cada participante.
Convencional apresentou posto médio superior ao Empreendedor, e a diferença permaneceu significativa após a correção de Bonferroni, Z = −2,544, p ajustado = 0,033, r = 0,367. O resultado, de magnitude moderada, indica maior preferência relativa, no instrumento utilizado, por organização e procedimentos do que por persuasão e influência.
Social também apresentou posto médio superior ao Empreendedor, Z = −3,088, p ajustado = 0,006, r = 0,432. A diferença, de magnitude moderada, indica maior preferência relativa por cooperação e auxílio às pessoas do que pelas atividades que representaram o tipo Empreendedor no questionário.
Os contrastes focalizados confirmam a predominância relativa de Social e Convencional diante do tipo Empreendedor na amostra. Como o delineamento é transversal e a amostra foi selecionada por acessibilidade, não se pode concluir que o curso atraia determinado perfil nem atribuir causalidade à formação recebida.
No âmbito educacional, os resultados podem apoiar ações de orientação profissional e experiências pedagógicas que ampliem o contato dos estudantes com liderança, iniciativa, inovação e tomada de decisão, preservando e mobilizando suas preferências por cooperação e organização.
5. CONCLUSÃO
O estudo analisou os perfis vocacionais RIASEC de 56 estudantes concluintes do Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio, identificou as dimensões predominantes e discutiu sua compatibilidade teórica com atividades da formação administrativa.
Os resultados mostraram diferença global entre os seis perfis, com tamanho de efeito pequeno. Social e Convencional apresentaram os maiores postos médios e não diferiram estatisticamente entre si. Nas comparações focalizadas, ambos superaram o tipo Empreendedor após a correção de Bonferroni, com efeitos moderados. A ordenação dos três maiores postos médios foi Social–Convencional–Artístico.
Esses achados indicam, no nível grupal, preferência relativa por atividades de interação, cooperação, organização e estruturação de processos. A menor posição do tipo Empreendedor deve ser compreendida no sentido específico do modelo de Holland, relacionado à persuasão, influência e liderança, e não como medida direta de intenção de empreender ou de capacidade para criar negócios.
A consistência interna variou de baixa a limítrofe entre as subescalas. Portanto, os resultados não validam o instrumento nem autorizam diagnósticos individuais; constituem evidências exploratórias sobre a turma investigada.
Do ponto de vista pedagógico, o perfil grupal pode subsidiar ações de orientação profissional e atividades que articulem as preferências sociais e organizacionais já manifestadas ao desenvolvimento de liderança, iniciativa, criatividade, inovação e tomada de decisão.
O estudo não avaliou diretamente as motivações de ingresso, a intenção empreendedora, os ambientes ocupacionais ou um índice formal de congruência. Por isso, não é possível explicar as razões da escolha do curso nem concluir que os estudantes estejam alinhados ou desalinhados com a Administração em sentido amplo.
Entre as limitações, destacam-se a amostragem por acessibilidade, o tamanho e o contexto específico da amostra, o delineamento transversal, a escala ordinal com três categorias, o número reduzido de itens por dimensão, a heterogeneidade observada em alguns itens, a ausência de evidências adicionais de validade do questionário adaptado e a não inclusão de variáveis sociodemográficas que permitissem examinar possíveis diferenças entre subgrupos. Essa última limitação é relevante porque diferenças nas dimensões RIASEC segundo o sexo foram observadas em estudantes brasileiros do Ensino Médio (Murgo; Andrade; Rozendo, 2016) e em pesquisas psicométricas mais recentes (Martins, 2024).
Recomenda-se que pesquisas futuras utilizem instrumentos RIASEC validados, ampliem e diversifiquem as amostras, incluam variáveis sociodemográficas e medidas específicas de motivação de ingresso, intenção empreendedora e congruência pessoa–ambiente e adotem abordagens qualitativas ou longitudinais. Também se recomenda ampliar o número e a diversidade dos itens de cada dimensão, pois os tipos RIASEC abrangem interesses básicos heterogêneos que não são plenamente representados por medidas muito breves (Alarie-Mercier; Balbinotti, 2024; Martins, 2024). O acompanhamento dos estudantes ao longo do curso permitiria examinar mudanças nos interesses e a relação entre congruência, permanência e desempenho em componentes específicos da formação, superando limites apontados em pesquisas com adolescentes (Bazargaliyeva et al., 2026; Dutry et al., 2025).
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1 Mestre em Administração e Professor do Instituto Federal do Espírito Santo Campus Linheres. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail