REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781715759
RESUMO
O ofidismo permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, impactando principalmente populações mais expostas a ambientes naturais e atividades rurais. Este estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico dos acidentes ofídicos nas cinco regiões brasileiras entre 2021 e 2025. Trata-se de um estudo ecológico, transversal e analítico, com dados obtidos do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da plataforma Departamento de Informática do SUS (DATASUS) e o aplicativo do Sistema único de Saúde (SUS) de tabulação de dados (TABNET). No período analisado, foram registrados 164.714 casos, com predominância do gênero Bothrops, responsável pela maior parte das notificações e dos óbitos. As regiões Nordeste e Norte concentram maior número de casos, e o perfil das vítimas foi majoritariamente composto por homens em idade produtiva. A maioria dos casos apresentou evolução leve, embora os quadros graves estejam associados à maior risco de morte. Os acidentes repercutem negativamente um importante impacto social e econômico para os acidentados e para a saúde pública brasileira. A falta de informações no preenchimento das notificações é um ponto que merece destaque por parte das autoridades responsáveis. Diante disso, reforça-se a importância de ações de correção das falhas, prevenção e acesso rápido ao atendimento e manejo adequado dos casos.
Palavras-chave: notificações; acidentes com ofídicos; regiões brasileiras; serpentes.
ABSTRACT
Snakebite remains a significant public health problem in Brazil, primarily impacting populations most exposed to natural environments and rural activities. This study aimed to analyze the epidemiological profile of snakebite accidents in the five Brazilian regions between 2021 and 2025. This is an ecological, cross-sectional, and analytical study, with data obtained from the Notifiable Diseases Information System (SINAN), through the SUS Informatics Department platform (DATASUS) and the SUS data tabulation application (TABNET). During the analyzed period, 164,714 cases were registered, predominantly of the Bothrops genus, responsible for the majority of notifications and deaths. The Northeast and North regions concentrate the highest number of cases, and the profile of the victims was predominantly composed of men of working age. Most cases presented mild evolution, although severe cases are associated with a higher risk of death. Accidents are having a significant negative social and economic impact on those injured and on Brazilian public health. The lack of information in the completion of notifications was a point that deserves highlighting from the responsible authorities. Therefore, the importance of corrective actions, prevention, and rapid access to care and appropriate management of cases is reinforced.
Keywords: notifications; snakebits aciddents; Brazilian regions; shakes.
1. INTRODUÇÃO
O ofidismo é o termo para designar acidentes que ocorrem devido a mordeduras de serpentes, popularmente conhecidas no Brasil por cobras venenosas. No Brasil, existe uma classificação de acordo com a espécie peçonhenta, o que tem alta variabilidade geográfica decorrente da vasta extensão territorial brasileira, com ênfase para famílias Viperidae e Elapidae, de maior relevância para a saúde pública. Os acidentes no território nacional são classificados em quatro grupos principais, o botrópico, o crotálico, o laquético e o elapídico, onde após a picada da serpente, ocorre a inoculação da peçonha, produzida em suas presas e que é capaz de provocar alterações colinérgicas, hemorrágicas, necróticas e miotóxicas, exigindo diagnóstico preciso, aplicação de soroterapia adequada, e de acompanhamento e internação hospitalar (Brasil, 2025).
Para Brasil (2019), o grupo botrópico, que abrange espécies como a jararaca e a urutu, destacam-se como o de maior relevância em saúde pública devido à sua vasta distribuição em múltiplos ecossistemas e à alta prevalência de notificações. Em contrapartida, os acidentes crotálicos e laquéticos estão associados, respectivamente, a ambientes abertos e áreas de floresta densa, e o grupo elapídico engloba as corais-verdadeiras. Ressalta-se que, embora outras serpentem como as da família Colubridae possam causar incidentes, estas não possuem relevância clínica significativa para as ações de vigilância epidemiológica e distribuição de soros, uma vez que não provocam quadros graves no organismo humano.
Os acidentes ofídicos atingem em sua maioria, comunidades rurais e vulneráveis, com alta variabilidade de acidentes nas regiões brasileiras. A nível nacional, é obrigatório a notificação compulsória no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), uma ferramenta que fornece dados para o planejamento da vigilância epidemiológica e a distribuição de soros anti-venenos para o tratamento após acidente, com esses animais (Brasil, 2019).
O presente estudo tem como objetivo realizar uma análise ecológica, transversal e analítico da prevalência de acidentes ofídicos nas cinco regiões do Brasil entre os anos de 2021 e 2025, traçar um perfil dos acidentados, identificar o animal peçonhento com maior número de notificações, associando com a região da ocorrência bem como o impacto econômico e para a saúde pública brasileira.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo ecológico, transversal e analítico a partir de dados obtidos no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da plataforma DATASUS/TABNET. Ele tem como objetivo quantificar as notificações de acidentes ofídicos no Brasil e correlacionar o tipo de serpente causadora, com foco nos grupos de maior relevância médica: botrópico, crotálico, laquético e elapídico. Além disso, buscar o perfil epidemiológico dos indivíduos acometidos, em relação ao sexo dos notificados.
Foram analisadas as classificações clínicas dos envenenamentos, estratificados de maior ocorrência, em casos leves, moderados e graves, bem como o desfecho final, considerando os índices de cura e o percentual de óbitos decorrentes da inoculação de peçonhas das famílias Viperidae e Elapidae.
Os dados coletados foram retirados da plataforma do TABNET, vinculado ao DATASUS, analisando o período necessário para atender o objetivo proposto. Foram utilizadas publicações oficiais entre os anos de 2021 a 2025 e, para ampliar a análise, utilizamos artigos científicos publicados no período de 2016 a 2026. Os dados analisados foram apresentados em forma de cinco tabelas e avaliados regionalmente e globalmente.
Por se tratar de uma pesquisa com dados secundários e de domínio público, conforme a Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), e sem identificação individual, não houve a necessidade de aprovação do Comitê de Ética em pesquisa, nos termos da Resolução CNS n 510/2016.
3. RESULTADOS
No Brasil foram notificados um total de 164.714 casos de acidentes ofídicos no período de 2021 a 2025 conforme os dados apresentados nesta seção, que foram extraídos do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da plataforma DATASUS/TABNET, no período do dia 08 e 09 de abril de 2026. Nota-se uma variação de casos ao longo dos anos, sendo que o registro de maior número de casos se deu no ano de 2021, com total de 34.059 dos casos. Observou-se que somente 19,06% do total de casos foram acidentes relacionado ao trabalho, com 88,98% foram do sexo masculino.
Conforme dados obtidos no DATASUS/TABNET, entre este período, a maior prevalência ocorreu com a espécie Bothops, totalizando 67,16% do total de casos, no qual também teve o maior índice que levaram a óbito, com 66,72%, e com relevância de que os óbitos ocorreram em 59,65% dos pacientes que estavam classificados em estado grave. Do total de pacientes classificados como grave 85,5% chegaram a receber soroterapia, sendo 71,38% do sexo masculino e somente 18,96% estão relacionados com o trabalho.
A região que apresentou a maior quantidade de notificações foi o Nordeste, com 31,16% dos casos. Além disso, essa mesma região registrou o maior índice de acidentes envolvendo a espécie Crotalus, a qual foi responsável pelo maior número de casos que evoluíram para óbito. A região Norte foi a segunda com maior número de casos, totalizando 30,55%. Além disso, foi a região que apresentou a maior ocorrência de acidentes envolvendo a espécie Bothrops, responsável por 38,66% dos casos, de acordo com os dados extraídos da DATASUS/TABNET.
No panorama geral brasileiro referente ao período estudado, foram registrados 137.843 casos de cura, o que representa um percentual de 83,69% das notificações, enquanto o número de óbitos totalizou 676 eventos, gerando um índice de 0,41%. Um dado relevante extraído na DATASUS/TABNET, diz respeito ao fato de 26.294 casos, cujos desfechos finais constam como ignorados ou em branco. Desse montante de informações faltantes, a região Nordeste apresenta uma disparidade acentuada em relação às demais, concentrando 11.519 das notificações incompletas, equivalendo a 43,81% do total de dados não preenchidos no país.
No que se refere ao tratamento com soro antiofídico, observa-se que, dos 164.714 casos notificados no período analisado, 116.718 receberam soroterapia, conforme a classificação e a gravidade do acidente, de acordo com os dados disponibilizados na plataforma DATASUS/TABNET. Chama atenção, entretanto, o fato de que 11.089 notificações não apresentavam informações registradas sobre essa variável, evidenciando inconsistências no preenchimento do sistema e gerando lacunas importantes para a análise epidemiológica dos casos.
Tabela 1 - Tabela das cinco regiões Brasileiras com as informações e características epidemiológicas das notificações ocorridas entre 2021 e 2025.
Na Tabela 1, com base nos dados extraídos da plataforma DATASUS/TABNET, é possível analisar a distribuição das espécies de serpentes de importância médica e epidemiológica notificadas em todo o território brasileiro. Observa-se um alto número de acidentes envolvendo o gênero Bothrops, cuja principal representante é a jararaca. Além disso, verifica-se que 70,86% dos casos de acidentes ofídicos receberam soroterapia. A maioria dos casos foi classificada como quadro leve, totalizando 55,93%. Desses quadros leves, 79,14% dos pacientes receberam soroterapia e, entre esses, 51,04% apresentavam quadro grave.
Segundo registros disponíveis na plataforma DATASUS/TABNET, nas regiões Sul e Sudeste mostrados na Tabela 2, é possível visualizar a distribuição dos casos ocorridos nas regiões. Observa-se que, em ambas, há predominância de acidentes envolvendo a espécie Bothrops, responsável por 64,32% dos casos na região Sul e 60,86% na região Sudeste.
Ainda em análise da mesma tabela retirada do DATASUS/TABNET, a espécie Crotalus apresenta o segundo maior índice na região Sudeste, com 14,38% dos casos. Nessa região, a maioria dos acidentes foi classificada como de gravidade moderada. Além disso, complicações decorrentes de picadas por Crotalus resultaram em 37 óbitos, representando o segundo maior número de mortes na região. Já na região Sul, o maior índice de óbitos ocorreu em decorrência de complicações causadas por picadas de Bothrops, com 41 óbitos.
Para finalizar esta região, os dados extraídos nessa plataforma DATASUS/TABNET observam-se a relação dos sexos, onde a maioria dos casos está relacionado ao sexo masculino, com uma proporção de 4/1 na região sul e 3/1 na região Sudeste, sendo que apenas uma taxa de 24,9% está relacionada a acidente relacionados a acidentes de trabalho.
Tabela 2 - Tabela das regiões Sul e Sudeste sobre características epidemiológicas das notificações ocorridas entre 2021 e 2025.
Conforme dados obtidos na plataforma DATASUS/TABNET, a Tabela 3 apresenta a análise dos casos registrados na região Centro-Oeste. Observou-se um maior índice de acidentes envolvendo a espécie Bothrops, totalizando 71,84% dos casos. A maioria dos casos foi classificada entre leve e moderado. Além disso, cerca de 76,25% dos casos acometeram o sexo masculino e, destes, apenas 19,83% estavam relacionados a acidentes de trabalho. Nessa região, foi registrado um dos menores quantitativos de casos, assim como um dos menores índices de mortalidade, ocupando a 4ª posição entre as cinco regiões do país.
Tabela 3 - Tabela da região Centro Oeste sobre características epidemiológicas das notificações ocorridas entre 2021 e 2025.
Conforme dados obtidos na plataforma DATASUS/TABNET, a Tabela 4 permite analisar que a região Nordeste apresentou o maior número de acidentes provocados por serpentes, totalizando 51.325 casos no período de 2021 a 2025.
Continuando a observar a tabela extraída da plataforma DATASUS/TABNET, nota-se que há predominância de acidentes envolvendo a espécie Bothrops, responsável por 53,31% dos casos, além de apresentar o maior índice relacionado à espécie Crotalus, com 10,51%. A região ainda concentra o maior número de casos com espécies não identificadas, totalizando 21,65%.
Segundo os dados analisados na plataforma DATASUS/TABNET, considerando o mesmo período e a mesma região, em relação ao perfil dos pacientes, verifica-se maior predominância do sexo masculino, o qual representou 74,73% do total de acidentes registrados. Desses casos envolvendo indivíduos do sexo masculino, apenas 17,22% estavam relacionados a acidentes de trabalho. Observa-se, portanto, que a maior parte das ocorrências não esteve diretamente associada às atividades laborais. Em contrapartida, o sexo feminino correspondeu a 25,24% do número total de casos notificados ao longo do período de cinco anos analisado, evidenciando menor acometimento quando comparado ao sexo masculino.
Tabela 4 - Tabela da região Nordeste sobre características epidemiológicas das notificações ocorridas entre 2021 e 2025.
Conforme dados obtidos na plataforma DATASUS/TABNET, a região Norte, identificada na Tabela 5, está em segunda posição, com maior número de acidentes ofídicos, com importante predominância de casos envolvendo a espécie Bothrops. Essa espécie corresponde a 25,96% dos casos em nível nacional e, na região, representa 84,99% do total de acidentes com serpentes. Além disso, a região Norte apresenta o maior índice de óbitos relacionados a acidentes com Bothrops. No ano de 2021 foram registrados 42 óbitos, enquanto em 2023 ocorreram 32 óbitos. No período analisado, os óbitos por essa espécie totalizaram 150 casos, correspondendo a 72,92% das mortes.
De acordo com os registros disponibilizados no DATASUS/TABNET, em relação à espécie Lachesis, a região também apresentou o maior número de óbitos entre as regiões brasileiras, totalizando 16 mortes. Desses casos, quatro pacientes estavam em estado grave e não receberam soroterapia. Destaca-se ainda o ano de 2023, que apresentou o maior número de notificações de óbitos por Lachesis, correspondendo a 31,25%.
Finalmente, ao analisar dados na plataforma DATASUS/TABNET, no que tange o perfil dos pacientes, notou-se que o maior acometimento foi no sexo masculino, representando 77,36% dos casos. Desses, 25,75% estavam relacionados a atividades laborais, evidenciando que a região Norte apresenta a maior taxa de acidentes de trabalho envolvendo serpentes.
Tabela 5 - Tabela da região Norte sobre características epidemiológicas das notificações ocorridas entre 2021 e 2025.
4. DISCUSSÃO
Após a elaboração e análise das tabelas dispostas no item resultados, fica evidente de que a serpente com maior número de casos em todas as regiões é a Bothrops com 66,72% com altas taxas desses acidentes em todas as regiões. A espécie Crotalus obteve uma porcentagem de 20,96%, seguida da Lachesis 2,81%, serpente não identificada 8,43%, não peçonhenta 1,18% e Micrurus 0,30%.
No cenário brasileiro, segundo estudo realizado por Castro et al., (2024), o ofício do gênero Bothrops tem muita importância decorrente ao grande número de notificações de envenenamento nas regiões brasileiras. Essas ocorrências caracterizam-se por processos inflamatórios severos e alterações na coagulação sanguínea, pois o veneno tem ação proteolítica e anticoagulantes, causando hemorragias, dor intensa, edema e potencial de causar necrose do tecido acometido, além de outras complicações sistêmicas como incoagulabilidade e insuficiência renal.
Corroborando a este trabalho, Tres et al., (2018), afirmam que o gênero Bothrops é o principal responsável pelos acidentes ofídicos no Brasil, correspondendo a cerca de 90% das ocorrências registradas e tem como principais representantes a jararaca e a urutu. Para Freitas et al., (2025), essa classe de serpentes, embora prefiram florestas úmidas e preservadas, são encontradas desde áreas de vegetação nativa densa até periferias urbanas com presença de resíduos, onde atrai os roedores, que são as principais presas para as serpentes.
Brasil (2025) somam o dito acima, de que a alta adaptabilidade desses animais e sua proximidade com áreas produtivas podem justificar a elevada prevalência deste agravo. A distribuição geográfica dessas serpentes é ampla, atingindo tanto o ambiente rural quanto áreas periurbanas.
A identificação do animal, o diagnóstico preciso e o início imediato do tratamento são fundamentais para evitar sequelas permanentes ou complicações sistêmicas críticas, como a insuficiência renal aguda (Castro et al., 2024).
Somando a isso, Matos e Ignotti (2020), afirmam que a espécies como Bothrops exigem rápido diagnóstico para a aplicação da soroterapia específica intravenosa. O intervalo entre a picada e o tratamento é o fator determinante para evitar sequelas e óbitos.
Em contrapartida, os acidentes crotálicos ocorrem majoritariamente em regiões de cerrado e áreas abertas, sendo provocados por cascavéis que habitam solos secos e campos. O envenenamento apresenta um desafio diagnóstico, pois a picada frequentemente não causa dor inicial proeminente, retardando a busca por socorro. Entretanto, seus efeitos neurotóxicos sistêmicos são graves, manifestando-se através da visão turva e dores musculares intensas, com uma tendência de crescimento estatístico nas notificações nacionais nas últimas décadas (Brasil, 2025).
No que tange a diferenciação entre elas, as cascavéis do gênero Crotalus, são identificadas pelo guizo na cauda e habitam preferencialmente regiões secas, cerrados e campos abertos. Embora seus acidentes sejam menos frequentes que os botrópicos, possuem alta relevância clínica e letalidade (Brasil, 2025).
Em relação aos acidentes elapídicos, causados por serpentes do gênero Micrurus, ditas como corais-verdadeiras, observamos baixa representatividade no total de notificações, o que pode ser explicado por características comportamentais dessas serpentes, como menor agressividade e padrão de inoculação menos eficiente da peçonha. Entretanto, quando ocorrem, podem apresentar gravidade pelo potencial neurotóxico do veneno, levando a comprometimento respiratório agudo com soroterapia específica (Brasil, 2024).
O gênero Lachesis, responsável pelos acidentes laquéticos, possui menor notificações, mas não de menor gravidade, levando a manifestações sistêmicas, incluindo alterações hemorrágicas, hipotensão e quadros potencialmente graves, exigindo atenção imediata dos serviços de saúde. Essa menor incidência está relacionada, principalmente, ao habitat dessas serpentes, que se concentram em áreas de floresta densa, como a Amazônia e remanescentes da Mata Atlântica, diminuindo contato com a população (Brasil, 2024).
Além disso, destaca-se a presença de acidentes envolvendo serpentes não peçonhentas. Esses acidentes, em geral, não apresentam alterações sistêmicas, porém podem gerar manifestações locais, além de ansiedade e procura por atendimento de saúde. Dessa forma, o correto reconhecimento do animal envolvido é essencial para evitar o uso desnecessário de soroterapia e otimizar os recursos do sistema de saúde (Brasil, 2024).
Outro aspecto relevante observado neste trabalho refere-se ao elevado número de casos envolvendo serpentes não identificadas, especialmente em regiões como o Nordeste. Esse achado pode estar relacionado à dificuldade da população em reconhecer as espécies envolvidas, bem como à ausência de registro adequado nas notificações.
Com relação ao mencionado acima, o não reconhecimento da espécie por limitação de conhecimento e/ou ausência destas informações no sistema, compromete a precisão da análise epidemiológica e pode impactar diretamente na escolha do soro adequado, evidenciando a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde e de educação da população (Brasil, 2024).
Esse mesmo problema é frequentemente relatado em estudos epidemiológicos e reflete limitações na vigilância e na capacitação dos profissionais de saúde, e pode ser um fator que compromete a escolha adequada do soro (Oliveira; Costa; Sassi, 2022).
Outro ponto importante observado no presente estudo diz respeito a soroterapia para tratamento específico para os acidentes ofídicos. A maior parte dos notificados foi classificada como leve. Embora a maioria dos pacientes tenha recebido o soro, observou-se que ainda há casos em que a administração não ocorreu ou não foi devidamente registrada, gerando alguns questionamentos.
Ainda falando sobre a soroterapia, a predominância de casos classificados como leve pode ser explicada pelo menor volume de veneno inoculado ou pelo acesso relativamente rápido ao atendimento, em parte dos casos. No entanto, os quadros moderados e graves estão frequentemente associados ao atraso no atendimento, maior carga de veneno e condições individuais do paciente. Esses fatores podem contribuir para o desenvolvimento de complicações sistêmicas e aumento do risco de óbito (Brasil, 2024).
A associação entre casos graves e uma maior ocorrência de óbitos, evidencia que a gravidade clínica é um importante fator prognóstico. A soroterapia é reconhecida como o tratamento específico e mais eficaz, sendo fundamental a sua administração precoce para a redução da mortalidade (Brasil, 2024; Brasil, 2025).
Em associação a estas informações, Freitas et al., (2025) e Guedes et al., (2025), falam também que alguns locais apresentam uma maior letalidade, especialmente a região Norte, possivelmente relacionada ao atraso no atendimento e à dificuldade de acesso à soroterapia em áreas remotas.
Em relação à quantidade e porcentagem de notificações no período de 2021 a 2025, extraídos da plataforma, aponta que os acidentes ocorreram em sua maioria com os homens de maneira geral. Essa predominância pode ser justificada, pelo contexto ocupacional, uma vez que a maioria dos acidentes ocorre em áreas rurais, frequentemente associadas a atividades agrícolas e de extrativismo.
Os casos de acidentes com ofídicos, tendem a ocorrer durante a execução de atividades laborais, atingindo principalmente indivíduos do sexo masculino, de faixa etária entre 20 a 39 anos que atuam nesses setores (Guedes et al., 2025).
Tendo em vista uma maior incidência no sexo masculino, esse achado é muito parecido com outros já realizados, que associam a ocorrência de acidentes com a maior exposição ocupacional devido às atividades rurais, agrícolas e extrativistas, sugerindo uma possível subnotificação ou até mesmo uma dificuldade na caracterização do acidente como ocupacional (Guedes et al., 2025), o que a corrobora com os achados neste trabalho, de que apenas 19% dos casos estarem associados ao trabalho,
Importante destacar que o tratamento e reabilitação são proporcionais ao quantitativo de acidentes, gerando elevados gastos para a saúde brasileira. Segundo Patikorn et al., (2020) em estudo focado no impacto financeiro gerado por estes acidentes ofídicos, retratam um cenário subestimado por focar excessivamente em gastos hospitalares, devendo ser direcionado também para as perdas de produtividade a longo prazo, além dos custos sociais e comunitários envolvidos.
Em relação a dados econômicos, um estudo realizado por Magalhães et al., (2020), trazem o envenenamento ofídico na Amazônia como um impacto econômico de quase US$ 8 milhões. Segundo eles, a maior parcela decorre de mortes prematuras e da perda de produtividade laboral, gerando custo social e econômico para o Sistema Único de Saúde e neste estudo, evidenciou que as internações hospitalares sobrecarregam severamente o orçamento do sistema público.
Com as taxas de mortalidade e letalidade por picadas de serpentes em curva constante, bater a meta da OMS será um desafio enorme. Uma forma de melhorar e inverter a situação, seria a criação de Protocolo Clínico (PCDT), que foque em capacitar comunidades, garantir tratamentos eficazes e fortalecer a rede de saúde (Oliveira de Melo et al., 2025).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após extensa análise dos dados extraídos do DATASUS/TABNET, a síntese das evidências epidemiológicas demonstra que o ofidismo permanece impactante nos atendimentos para a saúde pública brasileira, apresentando distribuição heterogênea entre as regiões, e com forte relação dos fatores ambientais, sociais e ocupacionais. O estudo permitiu identificar que os acidentes são predominantemente causados por serpentes do gênero Bothrops, responsáveis pela maior parte das notificações e dos óbitos.
A disparidade de acidentes entre as regiões brasileiras e apresentadas nas tabelas pode estar relacionada a fatores ambientais, socioeconômicos estruturais e até culturais. Regiões como Norte e Nordeste apresentam maior incidência de casos sugerindo, de que extensas áreas rurais, maior biodiversidade e condições climáticas são favoráveis à atividade das serpentes. Além disso, limitações no acesso aos serviços de saúde nessas regiões podem contribuir para maior gravidade dos casos e maior número de óbitos.
Além disso, verificamos que o perfil das vítimas é majoritariamente composto por homens em idade produtiva, possivelmente envolvidos em atividades laborais reforçando o caráter ocupacional desses acidentes, porém com números bem expressivos do sexo feminino,
Embora os acidentes do gênero Bothrops sejam predominantes, os demais grupos, como Crotalus, Lachesis e Micrurus, também apresentam relevância clínica, especialmente pela gravidade potencial dos envenenamentos. Nesse contexto, destaca-se a importância do diagnóstico precoce e da administração adequada da soroterapia, fatores determinantes para a redução de complicações e óbitos. Importante mencionar os elevados acidentes com serpentes desconhecidas, cujas informações não foram lançadas nos dados oficiais.
A ausência ou atraso na soroterapia pode estar diretamente associado ao aumento da gravidade dos casos e da mortalidade, reforçando a importância do acesso rápido aos serviços de saúde e da disponibilidade adequada de soros, principalmente em regiões mais remotas.
Importante destacar sobre a inexistência de alguns dados nas fichas de notificações/sistema, que seriam necessários para obter informações completas acerca dos acidentes ocorridos no período estudado. As lacunas existentes nas informações podem gerar ou levar a ações equivocadas no que se refere a ações ou investimentos prevencionistas na saúde pública. Diante disso fica evidente algumas fragilidades, como ausência de evolução dos casos, registro de sexo e informações sobre a administração de soroterapia.
Concluímos de que os achados deste estudo reforçam a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, ampliação do acesso ao atendimento de saúde e distribuição adequada de soros antivenenos, especialmente em regiões mais vulneráveis. Além disso, medidas preventivas, como educação em saúde e incentivo/fiscalização ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) em atividades de risco, são fundamentais para a redução da incidência de acidentes ofídicos no país.
Por fim, destaca-se a importância de novos estudos que aprofundem a análise dos determinantes sociais geográficos e demográficos relacionados ao ofidismo, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento desse agravo.
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1 Docente de Epidemiologia, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Graduanda de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Graduando de Medicina, Universidade do Contestado. Porto União. Santa Catarina. Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail