PEDAGOGIA E INOVAÇÃO EDUCACIONAL

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18729255


Sabrina Sales Pinto Lima1


RESUMO
A relação entre pedagogia e inovação educacional constitui um dos eixos centrais do debate contemporâneo sobre qualidade e transformação da escola. Este estudo analisa criticamente o conceito de inovação educacional à luz dos fundamentos pedagógicos, problematizando a tendência de associá-lo exclusivamente à incorporação de tecnologias digitais ou metodologias ativas desvinculadas de intencionalidade formativa. Parte-se do pressuposto de que a inovação autêntica não reside na adoção superficial de recursos ou estratégias, mas na reconfiguração consciente das práticas pedagógicas, alinhadas a fundamentos epistemológicos consistentes e ao compromisso com a aprendizagem significativa e a equidade. Questiona-se, portanto, em que medida as propostas denominadas inovadoras promovem efetiva transformação do processo educativo ou apenas reproduzem modelos tradicionais sob nova roupagem. O objetivo geral consiste em examinar as interfaces entre pedagogia e inovação, identificando critérios que permitam distinguir mudança cosmética de transformação pedagógica substantiva. Fundamentado em revisão crítica de literatura e análise conceitual, o estudo conclui que a inovação educacional exige coerência entre teoria, planejamento e prática, formação docente qualificada e cultura institucional orientada à melhoria contínua. Reafirma-se que inovação pedagógica não é sinônimo de ruptura indiscriminada, mas de aprimoramento fundamentado, capaz de integrar tradição e contemporaneidade em favor da aprendizagem e da formação integral do estudante.
Palavras-chave: Pedagogia; Inovação Educacional; Tecnologias Digitais; Prática Pedagógica.

ABSTRACT
The relationship between pedagogy and educational innovation is one of the central axes in contemporary debates on school quality and transformation. This study critically examines the concept of educational innovation in light of pedagogical foundations, questioning the tendency to associate it exclusively with the adoption of digital technologies or active methodologies detached from formative intentionality. It is assumed that authentic innovation does not lie in the superficial use of tools or strategies, but in the deliberate reconfiguration of pedagogical practices aligned with consistent epistemological foundations and with a commitment to meaningful learning and equity. Accordingly, the study asks to what extent so-called innovative proposals foster genuine transformation of the educational process or merely reproduce traditional models under a new guise. The overall objective is to examine the interfaces between pedagogy and innovation, identifying criteria that distinguish cosmetic change from substantive pedagogical transformation. Grounded in a critical literature review and conceptual analysis, the study concludes that educational innovation requires coherence between theory, planning, and practice, qualified teacher education, and an institutional culture oriented toward continuous improvement. It reaffirms that pedagogical innovation is not synonymous with indiscriminate rupture, but with evidence-informed improvement capable of integrating tradition and contemporaneity in favor of learning and students’ holistic development.
Keywords: Pedagogy; Educational Innovation; Digital Technologies; Pedagogical Practice.

1. INTRODUÇÃO

O termo “inovação educacional” tem sido amplamente utilizado nas últimas décadas, frequentemente associado à incorporação de tecnologias digitais, metodologias ativas e reorganização dos ambientes de aprendizagem. Contudo, a expansão desse vocabulário não garante clareza conceitual, nem assegura que as transformações implementadas correspondam a avanços efetivos na qualidade da educação. Nesse cenário, torna-se imprescindível analisar a inovação a partir de fundamentos pedagógicos consistentes, evitando reduzi-la a modismo ou estratégia mercadológica.

A discussão sobre inovação educacional não pode ser dissociada das transformações sociais que redefinem o papel da escola na contemporaneidade. Bauman (2001), ao caracterizar a modernidade líquida, argumenta que instituições tradicionais enfrentam instabilidade e pressão por adaptação constante. Nesse contexto, a educação passa a ser convocada a responder rapidamente às demandas sociais e tecnológicas, o que intensifica o uso do termo inovação. Contudo, a fluidez das mudanças não elimina a necessidade de fundamentos sólidos; ao contrário, exige maior rigor teórico para evitar que a inovação se converta em instabilidade pedagógica.

Apesar da recorrência do termo inovação no discurso educacional contemporâneo, observa-se que ainda há significativa lacuna entre o uso retórico do conceito e sua efetiva materialização em práticas pedagógicas transformadoras. Carbonell (2002) afirma que a inovação educativa não pode ser compreendida como mera introdução de novidades técnicas, mas como processo cultural profundo que envolve mudança nas concepções de ensino, aprendizagem e organização escolar. Assim, discutir inovação implica questionar em que medida as transformações propostas alteram estruturalmente a prática docente ou apenas reconfiguram superficialmente modelos tradicionais.

A pedagogia, enquanto campo científico e filosófico que investiga os processos educativos, oferece arcabouço teórico essencial para compreender a natureza e os limites da inovação. Desde as contribuições clássicas da pedagogia crítica até as abordagens contemporâneas centradas na aprendizagem ativa e colaborativa, a reflexão pedagógica aponta que toda mudança significativa deve estar ancorada em concepções claras de conhecimento, desenvolvimento humano e finalidade educativa. Inovar, nesse sentido, implica repensar práticas à luz de objetivos formativos amplos e não apenas substituir ferramentas ou alterar formatos.

A problemática central reside na tensão entre inovação como transformação estrutural e inovação como adaptação superficial. Em muitos contextos escolares, a introdução de recursos tecnológicos ou metodologias diferenciadas ocorre sem revisão profunda do currículo, da avaliação ou da cultura institucional. Assim, práticas tradicionais são mantidas sob nova nomenclatura, produzindo sensação de modernização sem alteração substantiva do processo educativo. Tal fenômeno exige análise crítica que considere dimensões epistemológicas, didáticas e organizacionais.

A literatura educacional contemporânea destaca que inovação genuína pressupõe intencionalidade pedagógica, planejamento estratégico e formação docente consistente. Metodologias ativas, por exemplo, só promovem aprendizagem significativa quando articuladas a objetivos claros, conteúdos estruturados e acompanhamento formativo. De modo semelhante, o uso de tecnologias digitais precisa estar integrado ao projeto pedagógico, evitando fragmentação ou uso meramente instrumental.

A intensificação do debate sobre inovação educacional tornou-se ainda mais evidente após a pandemia de COVID-19, quando escolas foram obrigadas a reorganizar rapidamente suas práticas em função do ensino remoto emergencial. Hodges et al. (2020) destacam que esse período evidenciou tanto possibilidades quanto limitações do uso de tecnologias digitais, reforçando que inovação não se resume à digitalização do ensino, mas exige planejamento pedagógico consistente e intencionalidade formativa. Desse modo, a experiência pandêmica contribuiu para ampliar a urgência de uma reflexão crítica sobre o que se compreende como inovação no campo educacional.

Outro elemento central refere-se à cultura institucional. A inovação educacional não se consolida por meio de iniciativas isoladas, mas demanda ambiente organizacional que favoreça experimentação, reflexão e avaliação contínua. A gestão escolar assume papel estratégico nesse processo, articulando recursos, formação e monitoramento de resultados. A ausência de liderança pedagógica pode comprometer sustentabilidade das mudanças implementadas.

Além disso, a inovação deve ser analisada à luz do princípio da equidade. Transformações pedagógicas que ampliam acesso e promovem inclusão contribuem para democratização do conhecimento. Entretanto, iniciativas que desconsideram diversidade sociocultural ou que dependem de infraestrutura inacessível podem aprofundar desigualdades. Assim, inovação responsável implica compromisso ético com justiça educacional.

Diante desse panorama, o objetivo geral deste estudo consiste em examinar criticamente a relação entre pedagogia e inovação educacional, identificando fundamentos teóricos que orientem transformações significativas na prática docente. Especificamente, busca-se: (1) discutir o conceito de inovação à luz da teoria pedagógica; (2) analisar limites e potencialidades das metodologias ativas e tecnologias digitais; (3) refletir sobre o papel da gestão e da formação docente na consolidação de práticas inovadoras; e (4) problematizar impactos da inovação sobre equidade e qualidade educacional.

Parte-se da premissa de que inovação pedagógica não significa ruptura indiscriminada com tradições, mas integração crítica entre saber acumulado e demandas contemporâneas. A pedagogia fornece critérios para distinguir inovação consistente de mudança superficial, reafirmando que o foco deve permanecer na aprendizagem e na formação integral do estudante. Ao aprofundar essa análise, pretende-se contribuir para qualificação do debate acadêmico e para consolidação de práticas educacionais que aliem criatividade, fundamentação teórica e compromisso social.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A análise da relação entre pedagogia e inovação educacional exige, inicialmente, a problematização do próprio conceito de inovação. No campo educacional, inovação não pode ser confundida com novidade tecnológica ou substituição de ferramentas didáticas; trata-se de transformação intencional orientada por finalidades formativas claras. Fullan (2020) argumenta que mudanças educacionais sustentáveis dependem de coerência sistêmica entre liderança, cultura institucional e desenvolvimento profissional docente. Essa perspectiva desloca o foco da inovação como evento pontual para a compreensão de processos estruturados de melhoria contínua.

A reflexão filosófica sobre inovação educacional pode ser enriquecida pelas contribuições de Dewey (1959), que defende a educação como experiência reconstruída continuamente pela interação entre sujeito e ambiente. Para o autor, a inovação não consiste na ruptura arbitrária com o passado, mas na reorganização reflexiva da experiência educativa. Tal concepção aproxima inovação de processo investigativo e democrático, no qual professores e estudantes constroem sentidos a partir de problemas reais.

A perspectiva democrática de Dewey (1959), que compreende a inovação como reconstrução contínua da experiência educativa, pode ser tensionada pelas críticas de Apple (2006), que alerta para o risco de reformas pedagógicas serem apropriadas por interesses econômicos e gerenciais. Enquanto Dewey enfatiza inovação como ampliação da participação e da investigação coletiva, Apple problematiza que discursos inovadores podem mascarar processos de mercantilização da educação. Dessa forma, a pedagogia crítica contribui para compreender que inovação não é apenas questão metodológica, mas também política e ideológica.

No plano epistemológico, a pedagogia oferece critérios para avaliar consistência das propostas inovadoras. Libâneo (2013) sustenta que a didática deve articular objetivos, conteúdos, métodos e avaliação em unidade coerente. Assim, a inovação pedagógica só se configura quando há reconfiguração dessa unidade, e não mera adoção de estratégias isoladas. A fragmentação entre metodologia e conteúdo compromete a aprendizagem significativa, mesmo quando se utilizam recursos considerados modernos.

A teoria histórico-cultural contribui para compreender inovação como reorganização das mediações pedagógicas. Vigotski (2007) afirma que o desenvolvimento ocorre por meio de interações sociais mediadas por instrumentos culturais. Nesse sentido, a introdução de tecnologias digitais ou metodologias colaborativas pode ampliar possibilidades de mediação, desde que integradas a planejamento estruturado e objetivos formativos definidos. Caso contrário, a inovação corre o risco de produzir superficialidade cognitiva.

A incorporação de tecnologias digitais no campo educacional deve ser analisada criticamente, pois não se trata de instrumentos neutros ou automaticamente inovadores. Selwyn (2016) argumenta que o uso de tecnologias na escola frequentemente reproduz desigualdades estruturais e pode reforçar práticas tradicionais, caso não esteja articulado a concepções pedagógicas emancipadoras. Assim, a inovação tecnológica somente se configura como inovação educacional autêntica quando promove ampliação democrática do acesso ao conhecimento e reorganização significativa das interações pedagógicas.

No âmbito das metodologias ativas, Moran (2018) destaca que aprendizagem baseada em projetos, sala de aula invertida e ensino híbrido podem favorecer protagonismo discente e desenvolvimento de competências complexas. Entretanto, a literatura alerta que tais metodologias exigem domínio conceitual por parte do professor e clareza curricular. Perrenoud (2000) enfatiza que inovação pedagógica demanda desenvolvimento de competências docentes, especialmente no que se refere à gestão da heterogeneidade e à avaliação formativa.

A dimensão crítica da inovação é reforçada por Saviani (2013), que argumenta que qualquer proposta pedagógica deve assegurar acesso ao conhecimento sistematizado. Inovar não significa relativizar conteúdos essenciais, mas reorganizá-los de forma a promover compreensão aprofundada e formação crítica. Essa perspectiva contrasta com abordagens que privilegiam exclusivamente habilidades instrumentais, desconsiderando fundamentos científicos.

A dimensão crítica da inovação também é problematizada por Michael Apple (2006), ao afirmar que reformas educacionais frequentemente incorporam discursos de modernização alinhados a interesses econômicos e gerenciais. Segundo o autor, é necessário examinar quem se beneficia das inovações propostas e quais concepções de conhecimento estão sendo privilegiadas. Assim, a pedagogia crítica contribui para distinguir inovação comprometida com emancipação de iniciativas orientadas por lógica mercadológica.

Outro elemento central refere-se à cultura institucional e à gestão escolar. Lück (2019) sustenta que liderança pedagógica estratégica é condição para consolidação de práticas inovadoras. A inovação sustentável requer planejamento coletivo, monitoramento de resultados e formação continuada. Sem essas condições, mudanças tendem a ser episódicas e descontinuadas.

A questão da equidade também ocupa posição relevante. Delors (2003) destaca que educação deve promover aprendizagem ao longo da vida e desenvolvimento integral. Inovações que ampliam acesso e inclusão fortalecem justiça educacional; por outro lado, iniciativas que dependem de infraestrutura inacessível podem aprofundar desigualdades. Assim, a pedagogia fornece critérios éticos para avaliar pertinência das transformações propostas.

A inovação educacional, quando orientada pelo princípio da equidade, deve ser compreendida como instrumento de justiça social. Fraser (2008) argumenta que justiça envolve não apenas redistribuição de recursos, mas também reconhecimento cultural e participação democrática. Aplicada ao contexto educacional, essa perspectiva implica que propostas inovadoras precisam considerar desigualdades históricas, condições materiais e diversidade sociocultural. Assim, inovar responsavelmente significa criar condições pedagógicas que ampliem inclusão e acesso efetivo ao conhecimento.

Biesta (2013) propõe que a educação deve ser analisada a partir de três funções interdependentes: qualificação, socialização e subjetivação. A inovação educacional, portanto, deve ser avaliada não apenas por sua eficiência técnica, mas por sua capacidade de contribuir para formação ética e crítica dos sujeitos. Quando reduzida à dimensão instrumental, a inovação corre o risco de comprometer a função formativa da escola.

Em síntese, o referencial teórico evidencia que inovação educacional autêntica exige integração entre fundamentos pedagógicos, liderança institucional e compromisso com equidade. A transformação significativa ocorre quando teoria e prática dialogam de forma coerente, promovendo aprendizagem consistente e desenvolvimento integral.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como estudo qualitativo, de natureza básica, com abordagem exploratório-descritiva, desenvolvido por meio de revisão teórica sistematizada. O delineamento adotado fundamenta-se na necessidade de analisar criticamente o conceito de inovação educacional à luz de referenciais pedagógicos consolidados.

Quanto à natureza, trata-se de pesquisa básica, pois objetiva ampliar compreensão conceitual e teórica sobre a relação entre pedagogia e inovação, sem intervenção empírica direta. Gil (2019) afirma que pesquisas básicas visam aprofundar conhecimento científico e oferecer fundamentos para investigações futuras e formulação de políticas educacionais.

No que se refere aos objetivos, a pesquisa é exploratória, ao examinar diferentes abordagens sobre inovação educacional, e descritiva, ao sistematizar contribuições teóricas e implicações práticas identificadas na literatura. A abordagem qualitativa foi adotada por permitir interpretação contextualizada de conceitos e análise crítica de argumentos, conforme destaca Vergara (2016).

O procedimento metodológico consistiu na seleção de livros e artigos científicos publicados prioritariamente entre 2000 e 2023, com ênfase em autores nacionais e internacionais reconhecidos no campo da pedagogia e da gestão educacional. As bases consultadas incluíram SciELO, Portal de Periódicos CAPES e Google Scholar. Utilizaram-se descritores como “inovação educacional”, “pedagogia”, “metodologias ativas”, “liderança pedagógica” e “qualidade educacional”.

Foram incluídas produções que abordassem diretamente fundamentos teóricos da inovação e sua relação com prática pedagógica. Excluíram-se textos opinativos sem fundamentação científica consistente. Como instrumento de coleta de dados, empregou-se protocolo de análise documental, registrando conceitos-chave, categorias analíticas e convergências entre autores.

A técnica de análise adotada foi a análise temática, permitindo organização dos referenciais em eixos estruturantes: fundamentos epistemológicos da inovação, mediação pedagógica, liderança institucional e equidade educacional. O processo ocorreu em três etapas: leitura exploratória; leitura analítica; e síntese interpretativa, estabelecendo articulações críticas entre os referenciais estudados.

A metodologia adotada assegura rigor científico ao explicitar critérios de seleção e procedimentos analíticos, possibilitando construção de reflexão fundamentada sobre pedagogia e inovação educacional. Tal abordagem contribui para distinção entre mudanças superficiais e transformações pedagógicas substantivas, fortalecendo debate acadêmico e orientando práticas institucionais coerentes com qualidade educacional.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise da literatura permitiu identificar que o debate contemporâneo sobre inovação educacional pode ser sistematizado em três eixos centrais: (1) inovação como mudança metodológica e reorganização didática; (2) inovação como transformação institucional e cultural; e (3) inovação como compromisso ético com equidade e justiça social. Esses eixos demonstram que inovação não se limita a técnicas pedagógicas específicas, mas envolve dimensões estruturais que articulam currículo, avaliação, formação docente e políticas institucionais.

A análise dos referenciais mobilizados evidencia convergência significativa quanto à necessidade de compreender a inovação educacional como processo estruturado e pedagogicamente fundamentado, e não como simples adoção de recursos tecnológicos ou metodologias da moda. O primeiro resultado relevante refere-se à distinção entre inovação superficial e inovação substantiva. Fullan (2020) argumenta que mudanças educacionais sustentáveis exigem coerência sistêmica, liderança consistente e cultura institucional colaborativa. A literatura examinada confirma que iniciativas isoladas, desvinculadas do projeto pedagógico, tendem a produzir impacto limitado e temporário.

Hargreaves e Fullan (2012) defendem que mudanças sustentáveis na educação dependem do que denominam “capital profissional”, constituído por capital humano, social e decisional. A inovação pedagógica requer desenvolvimento coletivo da profissão docente e fortalecimento das redes colaborativas. Essa perspectiva reforça que transformação não é resultado de ações individuais isoladas, mas de cultura institucional articulada.

No campo das metodologias ativas, Moran (2018) destaca que estratégias como aprendizagem baseada em projetos e ensino híbrido podem favorecer protagonismo discente e desenvolvimento de competências complexas. Contudo, os estudos analisados indicam que tais metodologias só se configuram como inovação autêntica quando articuladas a objetivos curriculares claros e avaliação formativa consistente. Caso contrário, a adoção de metodologias diferenciadas pode manter estruturas tradicionais de ensino, apenas revestidas de linguagem contemporânea.

Embora metodologias ativas sejam frequentemente apresentadas como sinônimo de inovação, sua implementação pode gerar contradições quando ocorre sem condições institucionais adequadas. Han (2015) argumenta que a sociedade contemporânea tende a intensificar exigências de desempenho e produtividade, o que pode transformar a inovação em sobrecarga docente e pressão permanente por resultados. Nesse sentido, é necessário compreender que inovação pedagógica exige tempo, formação e sustentabilidade, evitando que se converta em modismo exaustivo ou imposição burocrática.

A teoria histórico-cultural reforça a necessidade de intencionalidade pedagógica. Vigotski (2007) sustenta que o desenvolvimento ocorre por meio de mediações planejadas. A introdução de tecnologias digitais amplia possibilidades de interação e acesso à informação, mas não substitui a organização consciente do ensino. Os resultados apontam que inovação eficaz depende da capacidade docente de estruturar situações de aprendizagem desafiadoras, orientadas por objetivos formativos consistentes.

A didática crítica contribui para problematizar a relação entre inovação e conteúdo. Saviani (2013) enfatiza que a escola deve assegurar acesso ao conhecimento sistematizado. A análise revela que propostas inovadoras que negligenciam conteúdos essenciais ou reduzem complexidade conceitual comprometem qualidade educacional. Assim, inovação pedagógica não implica abandono do rigor científico, mas reorganização didática que preserve profundidade e significado.

Morin (2000) contribui ao afirmar que a educação deve enfrentar a complexidade do mundo contemporâneo, superando fragmentação disciplinar. A inovação pedagógica, nesse sentido, precisa promover articulação entre saberes e desenvolver pensamento sistêmico. Mudanças superficiais que não alteram lógica fragmentada do currículo tendem a manter limitações estruturais do modelo tradicional.

Outro eixo relevante refere-se à liderança escolar. Lück (2019) destaca que gestão pedagógica estratégica é condição para consolidação de práticas inovadoras. A literatura converge ao afirmar que diretores e coordenadores que promovem formação continuada, monitoramento reflexivo e planejamento colaborativo fortalecem sustentabilidade das mudanças implementadas. Divergências aparecem quando inovação é conduzida de forma centralizada e sem participação docente, o que reduz engajamento e continuidade.

A dimensão da equidade também emerge como critério essencial. Delors (2003) propõe que educação deve promover desenvolvimento integral e justiça social. Os resultados indicam que inovações que ampliam acesso, inclusão e diversidade fortalecem qualidade educacional. Entretanto, iniciativas que dependem de infraestrutura inacessível ou que ignoram contextos socioeconômicos podem aprofundar desigualdades. A inovação responsável, portanto, exige compromisso ético e análise contextual.

No que se refere à avaliação, observa-se que práticas inovadoras sustentáveis integram avaliação formativa ao processo de ensino. A ausência de alinhamento entre metodologia e avaliação compromete coerência pedagógica. Assim, a inovação deve envolver revisão das formas de acompanhamento da aprendizagem, evitando contradições entre discurso inovador e prática classificatória tradicional.

Black e Wiliam (1998) demonstram que avaliação formativa exerce impacto significativo sobre aprendizagem quando utilizada para retroalimentar o processo pedagógico. Assim, inovação metodológica precisa ser acompanhada de revisão dos sistemas avaliativos, garantindo coerência entre estratégias participativas e instrumentos de acompanhamento.

De modo geral, os resultados evidenciam convergência quanto à centralidade da fundamentação pedagógica na consolidação da inovação educacional. Divergências concentram-se na ênfase atribuída a determinadas estratégias, mas há consenso de que inovação consistente exige integração entre teoria, prática e gestão institucional.

Nancy Fraser (2008) argumenta que justiça social envolve reconhecimento, redistribuição e representação. Aplicada ao campo educacional, essa perspectiva indica que inovação deve promover acesso equitativo ao conhecimento e participação democrática. Iniciativas que ampliam desigualdades digitais ou culturais contradizem princípio de inovação comprometida com justiça educacional.

5. CONCLUSÃO

A investigação desenvolvida permitiu consolidar compreensão crítica da relação entre pedagogia e inovação educacional, reafirmando que transformação significativa no campo educacional depende de fundamentos teóricos sólidos e intencionalidade didática coerente. Os objetivos propostos foram alcançados ao examinar critérios que distinguem inovação substantiva de mudança superficial, bem como ao analisar o papel da liderança e da cultura institucional na sustentabilidade das práticas.

No plano conceitual, confirmou-se que inovação não pode ser reduzida à introdução de tecnologias ou metodologias diferenciadas. Trata-se de reorganização consciente das mediações pedagógicas, orientada por compromisso com aprendizagem significativa, rigor conceitual e equidade. A integração entre teoria histórico-cultural, didática crítica e gestão estratégica fortalece a compreensão de que inovação exige coerência sistêmica.

No plano prático, evidenciou-se que liderança pedagógica, formação continuada e planejamento colaborativo constituem condições estruturantes para consolidação das mudanças. A ausência desses elementos compromete continuidade e efetividade das iniciativas inovadoras. Além disso, a dimensão ética da equidade deve orientar decisões institucionais, evitando que inovação aprofunde desigualdades.

Reconhece-se como limitação o caráter teórico da investigação, que não contempla análise empírica de experiências específicas. Pesquisas futuras poderão examinar impacto de diferentes modelos de inovação sobre indicadores de aprendizagem e inclusão.

Este estudo contribui ao oferecer critérios pedagógicos e epistemológicos para distinguir inovação educacional autêntica de mudanças superficiais orientadas por discursos de modernização. Ao articular autores como Dewey, Fullan, Saviani e Apple, evidencia-se que inovação exige coerência entre teoria e prática, além de compromisso ético com equidade e democratização do conhecimento. Assim, reafirma-se que a inovação pedagógica só se consolida como transformação significativa quando fundamentada em projeto educativo crítico e socialmente comprometido.

Conclui-se que pedagogia e inovação educacional não são conceitos antagônicos, mas complementares. A inovação autêntica emerge quando práticas contemporâneas dialogam criticamente com fundamentos pedagógicos consolidados, promovendo aprendizagem consistente e formação integral. Assim, a qualidade educacional depende menos da novidade aparente e mais da coerência entre teoria, planejamento e ação docente.

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1 Graduada em Pedagogia pelo Instituto Educacional Nossa Senhora de Lourdes. Especialista em Educação Infantil e Anos Iniciais pela Universidade Candido Mendes. Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [email protected]