REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786655643
RESUMO
Tomando como objeto de estudo o Grupo Escolar Coronel Tobias, do município de Descalvado/SP, este artigo tem como objetivo investigar de que modo a sua implantação representa simbolicamente a relação entre o antigo e o novo da sociedade descalvadense. A análise evidencia que o grupo escolar se constituiu como um espaço de produção de sentidos, contribuindo para a ideia de pertencimento e de identidade. À luz da história cultural, este artigo compreende a criação do Grupo Escolar Coronel Tobias como uma iniciativa que ultrapassou o âmbito administrativo e pedagógico, configurando-se como um projeto cultural de formação da sociedade local. Recorremos ao referencial teórico de Rosa Souza, Franco Cambi, Marcos Pratta, Silvia Wolf e outros, para debater a respeito da organização e implantação dos Grupos Escolares no Brasil como expressão do discurso alinhado ao ideal de progresso e moderno. O estudo conclui que este modelo de escola reforça a compreensão da escola como instrumento cultural e político fundamental no processo de construção da modernidade educacional no Brasil.
Palavras-chave: Grupo Escolar Coronel Tobias; Arquitetura Escolar; Descalvado-SP.
ABSTRACT
Taking the Coronel Tobias School Group, located in the municipality of Descalvado, São Paulo, as its object of study, this article aims to investigate how its establishment symbolically represents the relationship between tradition and modernity in Descalvado’s society. The analysis demonstrates that the school group was constituted as a space for the production of meanings, contributing to the construction of a sense of belonging and identity. From the perspective of cultural history, this article understands the creation of the Coronel Tobias School Group as an initiative that went beyond administrative and pedagogical concerns, configuring itself as a cultural project aimed at the formation of the local society. Drawing on the theoretical framework of Rosa Souza, Franco Cambi, Marcos Pratta, Silvia Wolf, among others, the study discusses the organization and implementation of school groups in Brazil as an expression of a discourse aligned with the ideals of progress and modernity. The study concludes that this school model reinforces the understanding of schooling as a fundamental cultural and political instrument in the process of constructing educational modernity in Brazil.
Keywords: Coronel Tobias School Group; School Architecture; Descalvado-SP.
1. INTRODUÇÃO
O debate sobre o grupo escolar no sistema de ensino brasileiro é marcado desde o fim do século XIX. A sua presença na história da educação, perspectivada na escrita da história cultural, interpreta a sua criação como algo maior do que uma simples inovação administrativa e pedagógica, como já analisou magistralmente, em sua tese de doutorado, Rosa Souza (1998), demonstrando que tal proposta de educação pública revelou um projeto cultural de modernização social do país, tendo seu início no estado de maior concentração de renda, poder econômico e político, o estado de São Paulo.
Nesse contexto, a criação da escola primária em São Paulo, na década de 1890, pode ser analisada como parte de um projeto cultural de formação da sociedade republicana que estava em pleno processo de implementação no Brasil (Souza, 1998). A racionalidade científica, a divisão do trabalho e a padronização do ensino configuravam-se como pilares da construção simbólica de uma nação em desenvolvimento e tais práticas articulavam-se ao ideário da modernidade, na medida em que expressavam valores como racionalização, eficiência e progresso, considerados fundamentais para o projeto de modernização da sociedade.
Denota-se, que as instituições, práticas e discursos são produtoras de sentidos, moldam comportamentos e constroem identidades. Nesse caso, a padronização do ensino não foi apenas estratégia técnica/pedaógica, mas também expressava uma visão de mundo que buscava formar sujeitos disciplinados, homogêneos e adaptados ao ideal de progresso da época (Souza, 1998).
Assim, o grupo escolar não pode ser lido historicamente apenas como espaço de transmissão de conhecimentos, mas, como instrumento cultural e político que, por meio da edificação de uma escola imponente, classificação dos alunos, fixação de horários e uniformização do ensino, difundia-se valores de uma sociedade que estava surgindo em um país recém republicano, cujo ideário de ordem e o progresso tornava-se o exemplo da modernidade.
É no interior desse movimento nacional, que se tem a criação do Grupo Escolar Coronel Tobias, no município de Descalvado, estado de São Paulo, e que instigou a escrita deste artigo, com a seguinte problemática: a implantação do Grupo Escolar Coronel Tobias teve a representação simbólica do moderno no município de Descalvado/SP? Esta problematização reverberou no seguinte objetivo: investigar a implantação do Grupo Escolar Coronel Tobias e a representação social do ideal de modernidade no município de Descalvado - SP, analisando seus aspectos arquitetônicos e sociais no contexto histórico do início do século XX.
Se olharmos para a criação dos grupos escolares no Brasil, um modelo comum na história da educação brasileira, especialmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX e que surgiram para substituir a escola isolada. Segundo Souza (1998), era chamada de “isolada” porque funcionava de forma independente, geralmente em prédios pequenos ou até mesmo em casas alugadas, localizados em áreas rurais ou periféricas das cidades, tinha uma organização baseada em um único professor responsável por ensinar várias séries e idades ao mesmo tempo, isto é, em um mesmo espaço crianças de diferentes níveis de aprendizagem interagiam pedagogicamente, sem recursos adequados e com pouca supervisão do Estado.
Na prática, a escola isolada representava a forma difundida de escolarização de parcela da sociedade brasileira do século XIX, especialmente às populações menos abastadas e que não tinham acesso às escolas graduadas. Embora vista como “atrasada” em comparação ao modelo racionalizado dos grupos escolares, foi fundamental para a interiorização e democratização do ensino primário no Brasil durante aquele século (Souza, 1998).
Já a escola agrupada, o conhecido grupo escolar, como observa Souza (1998), veio para representar o novo na sociedade brasileira daquele período. Era o que havia de mais inovador no sistema de ensino do início do século XX, caracterizado pelas construções imponentes, pela organização dos alunos de acordo com o nível de conhecimento, sexo e idade, o/a professor/a passou a ser específico de uma turma ou uma matéria, e houve a uniformização dos conteúdos ensinados a partir de programas de ensinos oficiais e definidos pelo Estado. É sobre esse processo histórico da educação que este artigo pretende debater, elegendo como objeto de estudo o Grupo Escolar Coronel Tobias, do município de Descalvado, SP.
2. SOCIOGÊNESE DA CRIAÇÃO DO GRUPO ESCOLAR CORONEL TOBIAS
Idealizado no fim do século XIX, o Grupo Escolar Coronel Tobias da cidade de Descalvado, no interior paulista, deve a sua existência ao Decreto estadual de 09 de fevereiro de 190, assinado por Bernardinho de Campos, que à época era o então Presidente do Estado. Há registros de que, em 10 de abril de 1896, já era pedido, na Câmara do município, que se indicasse ao Governo do Estado a criação de uma unidade do Grupo Escolar no município.
Consta, em diversos documentos, que um dos maiores apoiadores desse projeto foi o Coronel Rafael Tobias de Oliveira, figura ilustre na sociedade descalvadense da época e a pessoa que dá nome à escola. Nascido em 02 de maio de 1832, na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo, Rafael Tobias de Oliveira era filho de Feliciano Alves de Oliveira e de Anna Maria Moraes. Aos dezoito anos, Tobias de Oliveira mudou-se para Descalvado, atuou por vinte anos no comércio e, em seguida, trilhou os passos do pai, sucedendo-o como proprietário de fazendas de café na Descalvado da segunda metade do século XIX.
Figura 1. o Coronel Rafael Tobias de Oliveira, patrono do Grupo Escolar de Descalvado.
Segundo alguns registros da época, Tobias de Oliveira logo caiu nas graças do povo descalvadense, entrando nos anais da história da cidade em virtude de sua participação em vários eventos importantes do município e pelas contribuições valiosas e duradouras para o seu desenvolvimento. Foi político desde a emancipação administrativa de Descalvado, em 1865, evento no qual marcou presença. Elegeu-se vereador na Segunda Legislatura da Câmara do Município, de 1869 a 1872, tornou-se presidente da Câmara na Quinta Legislatura, no biênio de 1881 e 1882.
Registre-se, ainda, que entre os acontecimentos marcantes na vida de Tobias de Oliveira destaca-se o seu casamento com Esmeralda, com quem teve um filho legítimo e seis outros filhos legitimados, bem como a sua participação na recepção ao Imperador Pedro II, que visitou o município em 31 de outubro de 1886, evento em que foi recompensado com a insígnia honorífica da “Ordem da Rosa”3, pelo Imperador, como reconhecimento às contribuições de Tobias de Oliveira à cidade de Descalvado.
Figura 2. Comenda da "Ordem da Rosa" entregue para o Coronel Tobias pelo Imperador Dom Pedro II
Fato é que o Coronel Tobias de Oliveira esteve envolvido no processo de desenvolvimento urbanístico de Descalvado, desde o fim do século XIX e início do seguinte, participando ativamente da implementação de energia elétrica no município, da chegada da estrada de ferro (que ocorreu quando ele era presidente da Câmara), da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Descalvado, da construção do prédio da Câmara legislativa do município, da reforma da Igreja Matriz e da criação do Grupo Escolar Coronel Tobias.
Por força do destino, Tobias não viveu para ver a conquista do seu último movimento político, vindo a falecer em 31 de dezembro de 1902, em Descalvado, vítima de uma arteriosclerose. A implementação da primeira escola agrupada do município de Descalvado, o Grupo Escolar Coronel Tobias, ocorreu em 09 de fevereiro de 1903, alguns meses após o seu falecimento.
Já em 17 de fevereiro de 1903, foi realizada a primeira reunião do Grupo Escolar de Descalvado. Na ocasião, foi dada posse ao porteiro e ao servente, para atuação na escola. A instalação provisória realizou-se nesse mesmo dia, ficando definida a sua localização no prédio antigo da Câmara Municipal. O professor e Inspetor Escolar Emílio Mário de Arantes foi o responsável pela instalação do Grupo Escolar, bem como pela posse dos adjuntos (porteiro e servente) e a distribuição dos alunos, segundo Kastein (2015), seguindo o aproveitamento dos estudos dos estudantes.
Na data de 31 de março de 1903, o Grupo Escolar de Descalvado iniciou suas atividades contando com a presença do Inspetor Escolar, Sr. Emílio de Arantes, do Diretor Interino, Sr. Francisco Conceição, além de representantes da Câmara Municipal, do Poder Judiciário, de populares e dos alunos uniformizados. (Kastein, 2015)
Essa organização administrativa está em consonância com o que Souza (1998) considera como o símbolo da racionalização administrativa e pedagógica, pois há um novo desenho do espaço e do tempo escolar, centrados em um edifício imponente, ensino simultâneo, classificação dos alunos e a produção de um dispositivo de controle da educação no que tange à formação da criança.
Durante a solenidade de inauguração, consta que o diretor Francisco Conceição encantou a todos e todas com um pronunciamento emocionante, no qual expressava a gratidão aos envolvidos na criação da escola, que já era solicitada e aguardada havia muito tempo. As palavras do diretor entoam o aspecto grandioso da criação do Grupo Escolar para o município, vejamos:
De longa data que a idéia da criação dum Grupo Escolar aqui era com carinho afagada pelas pessoas a que se acham confiados os destinos dessa terra. E nessa campanha de conquistas do mais elevado dos desideratus, devemos lembrar os nomes das seguintes pessoas que sempre firmes, sem se deixar vencer pelas dificuldades de ocasião trabalharam até conseguir o triunfo completo da idéia: Capitão José Quirino Ribeiro, quem primeiro cogitou de tal tentame, fazendo deste seu ideal a conversação predileta em todas as oportunidades, até que suas idéias foram formando prosélitos na sociedade descalvadense e sempre nesse terreno trabalhou até conseguir o seu fim - a criação do Grupo Escolar. O Coronel Tobias, o Dr. Machado, digno Promotor Público da Comarca, o Coronel Joaquim Aranha, também deixaram nesta luta consignados serviços de reais merecimentos, pelo que a mocidade há de sempre recordar-se agradecida desses beneméritos do bem estar do futuro da pátria.” (KASTEIN,2015, destaque nosso)
Pelas presenças ilustres registradas no depoimento do primeiro diretor do Grupo Escolar, verifica-se que esse foi um evento que envolveu a elite local do município de Descalvado, com pouca participação do povo, o que coaduna com a história da educação do início do século XX, considerada, em geral, restrita, elitista e com baixo acesso para a maioria da população.
A educação escolarizada era considerada como um privilégio concentrado nas áreas urbanas e nas mãos da elite, com grande disparidade entre as oportunidades oferecidas e o acesso da população rural e mais pobre. No entanto, era um marco para o desenvolvimento
Local inaugurar um Grupo Escolar em Descalvado. Era um evento de vanguarda para a época, que segundo Cambi (1999), estava perspectivado na ideia de que a escola estava passando por um processo de mudança para atingir as camadas da sociedade e firmar-se como polo da ideologia do moderno.
Registre-se que, em 1911, quase uma década depois, houve a inauguração do prédio definitivo do Grupo Escolar Coronel Tobias, o qual abriga o grupo até a atualidade. Esse foi um projeto de autoria do arquiteto José Van Hambeeck4 (1848-1916), o qual foi responsável por vários outros projetos de escolas no interior paulista durante a Primeira República.
Figura 3. Edifício do Grupo Escolar Coronel Tobias
Conforme consta na obra Arquitetura Escolar Paulista 1890-1920, de Corrêa, Mello e Neves (1991), esse projeto arquitetônico foi utilizado na construção de onze grupos escolares nos municípios do estado de São Paulo no início do século XX. Porém, o projeto elaborado para o município de Descalvado apresentou uma exceção em relação aos demais: o acréscimo de duas salas de aula. Esse acréscimo se deve a um fato histórico, o envolvimento de políticos locais no projeto arquitetônico, os quais insistiam na necessidade de um edifício maior, com mais salas. Vejamos o que diz um jornal da época: “... atualmente estão matriculados no nosso Grupo Escolar perto de 500 alunos. Como poderemos acomodar toda gente em 8 salas apenas? E quando aumentar-se o número de matrículas, como nos arranjaremos? (O Descalvadense, 5/3/1911).
Nessa época, Descalvado era uma das grandes cidades cafeeiras do interior paulista, e por essa razão acreditava-se que o futuro da cidade seria expandir-se cada vez mais. É nessa efervescência política que o Grupo Escolar Coronel Tobias é criado.
Ao longo dos anos, o Grupo Escolar sofreu reformas e revitalizações, mas sempre mantendo sua fachada original, como a grade de ferro, presente desde sua inauguração e sendo mais que uma proteção, servindo também como um ornamento, que reflete a ideia de imponência, típica do estilo neoclássico, o que ainda resiste como uma expressão de racionalidade, equilíbrio e autoridade institucional.
Se observamos a figura 3, as características valorizadas de imponência e da permanência estética estão presentes em pleno século XXI. A grade de ferro não é apenas um elemento funcional, mas um ornamento que exemplifica a lógica do neoclassicismo. Seus elementos arquitetônicos cumprem simultaneamente funções práticas e simbólicas, compondo uma estética que transmite solidez e suntuosidade, fazendo com que o Grupo Escolar Coronel Tobias deixasse de ser apenas uma instituição de ensino para representar visualmente a imponência e o desenvolvimento do município de Descalvado, valores associados ao ideal civilizatório e educativo que a expressão do moderno representava. Dessa forma, evidencia-se que no Grupo Escolar Coronel Tobias se manifesta não apenas na forma arquitetônica em si (neoclássica), mas também uma intencionalidade simbólica, projetando a escola como espaço de autoridade, progresso e formação moral.
A preservação de elementos ornamentais, mesmo após sucessivas reformas, dialoga com os princípios do estilo neoclássico, que, segundo Winckelmann, buscava expressar “nobre simplicidade e grandeza serena”, projetando imponência e autoridade simbólica por meio da forma arquitetônica (WINCKELMANN, 2002).
Ao adentrar no edifício de dois pisos, era preciso subir as escadas para ter acesso às salas de aula e à diretoria. Na totalidade, existiam dez salas de aula, e no térreo havia o pátio e os banheiros. O grupo escolar seguia a norma da época com uma entrada para meninos e uma outra para as meninas, e os alunos de ambos os sexos não interagiam, sendo que até no intervalo havia a separação entre masculino e feminino por muros localizados no eixo de simetria da edificação.
Figura 4. Entrada do Grupo Escolar Coronel Tobias
No piso inferior, encontravam-se os porões da instituição, local esse que gerou muita polêmica na época da inauguração do edifício, visto que algumas pessoas viam o prédio como anti-higiênico pelo fato de os porões serem muito baixos, causando o incômodo de, ao lavar o edifício, a água poderia atravessar o assoalho das salas pelas frestas e permanecer ali, causando umidade no revestimento (O Descalvadense, de 23 de julho de 1911).
No entanto, o que se percebe é que o projeto do Grupo Escolar Coronel Tobias, de Descalvado-SP, segue o modelo implementado na época em vários municípios do interior de São Paulo do início do século XX, mas, no município de Descalvado, ocorreu uma exceção: o prédio recebeu duas salas de aula a mais do que o padrão. Essa mudança não foi uma simples decisão técnica, mas fruto da atuação de políticos locais, que queriam um edifício maior e mais imponente, o que revela como a arquitetura escolar era influenciada por interesses políticos e pelo desejo de destacar uma cidade “moderna”.
3. O MODERNO EM PEDRA E CAL: O GRUPO ESCOLAR CORONEL TOBIAS
Localizada, atualmente, no centro da cidade, a escola Coronel Tobias foi construída na zona urbana de Descalvado, ao lado de um antigo cemitério da época do Império (atualmente esse cemitério já não existe, foi desativado há muitos anos e em seu lugar, existe a praça Barão do Rio Branco, conhecida popularmente na cidade como “Jardim Velho”).
Construção imponente e chamativa, o prédio da escola ganhou uma visão de destaque, que liga o passado ao presente.
A fachada possui diversos elementos que referenciam ao movimento arquitetônico neoclassicismo5, nota-se isso ao analisar a simetria presente no prédio, visto que os vãos das janelas são alinhados e repetem-se com regularidade e rigorosamente.
As janelas e portas são altas, além de possuírem um arco delicado no topo. Esse padrão alongado e o término em arco são facilmente encontrados no movimento neoclássico. Outro ponto que colabora com essa visão são as pilastras, embutidas entre as janelas que estão presentes na construção não por motivos estruturais, mas sim decorativos, dando um ar de importância e ordem à fachada.
Ademais, detalhes que são possíveis de encontrar estão no centro da fachada, local onde há um frontão com curvas suaves, no qual está escrito o nome da escola. Esse recurso utilizado referencia os frontões de templos e palácios europeus.
Este padrão é repetido em vários outros projetos arquitetônicos de Grupos Escolares do interior paulista, como é possível ver ao analisar fotos e registros de outros Grupos Escolares do estado de São Paulo.
Figura 5. Pátio do Grupo Escolar Coronel Tobias
No interior da escola, o seu design também chama a atenção, já que remete a uma época longínqua, visto o modelo do piso, ladrilho cimentício, os tacos das salas de aulas ou os padrões das salas, que são salas grandes, com portas duplas e em ambas partes do ambiente; uma na parte da frente e outra no fundo das salas, sendo todas as portas de madeira e vidro.
Mas, é nas paredes que estão alguns dos detalhes mais bonitos e singelos do design elaborado e aplicado na construção; os florões, que enfeitam todas as salas de aula. Presente no que se pode definir como a parede central, ou seja, a parede que recebe mais destaque naquele ambiente, a que se encontra a lousa, logo, a parede mais observada pelos estudantes.
Figura 6. Florões encontrados no Grupo Escolar Coronel Tobias durante a sua restauração
Registre-se que, durante a restauração da escola, entre 2009 e 2012, foram encontradas florões, elementos decorativos em formato de flor. Além do valor estético, os florões simbolizam ordem, beleza ideal e permanência, dialogando com a intenção moralizante da arte neoclássica e reforçando a ideia de elevação cultural e refinamento.
Muito mais que uma simples decoração, os florões eram a representação dos valores e ideais de beleza, excelência, harmonia e desenvolvimento intelectual, afinal, como Magalhães (1947, p.502) definiu no Dicionário Enciclopédico Brasileiro: “... a decoração é apresentada, dentro do campo arquitetônico, como a arte de dispor os ornatos, peças ou formas acessórias que se juntam a outra principal com o fim de torná-la mais expressiva e bela’’. Em suma, muito além de uma simples decoração, eles são uma manifestação de valores e ideais que a educação deveria transmitir aos seus educandos.
Registre-se, mesmo que de maneira introdutória, que o projeto arquitetônico da escola foi elaborado pelo arquiteto José Van Humbeeck como dito anteriormente, figura marcante na história da construção dos Grupos Escolares do interior paulista. Afinal, Humbeeck, assinou no século XX uma grande quantidade de soluções para prédios escolares, como afirma Wolff (1992). Seu primeiro projeto escolar é de 1897, e seu último projeto assinado é de 1914, de acordo com o livro Patrimônio Escolar: uma saga republicana.
Porém, sobre sua vida privada pouco se sabe, nem seu prontuário funcional foi conservado, mas seu legado na arquitetura se mantém presente e lembrado, visto que dos 126 Grupos Escolares tombados pelo CONDEPHAAT6, 40 escolas foram projetadas por ele.
Mas, trabalho e conhecimento não se produzem apenas com grandes feitos e José van Humbeeck, esse anônimo arquiteto da repartição de obras é um personagem cuja participação é inquestionável na história da arquitetura escolar paulista. (WOLFF, 1992, p.186)
Mesmo com as lacunas de sua vida, Humbeeck será lembrado pela sua contribuição ao processo de escolarização pública paulista.
4. A ESCOLA CORONEL TOBIAS E A CIDADE DE DESCALVADO: UMA RELAÇÃO ENTRE O ANTIGO E NOVO
Quista por muito tempo pela população descalvadense, o Grupo Escolar Coronel Tobias fez e faz parte da vida social de Descalvado, como lembrou o prefeito Becão Reschini no site da prefeitura municipal (2024), durante a comemoração dos 120 anos da escola: “... cada vez que visitamos esse prédio, vem na lembrança de que aqui já estudamos e que, depois de 120 anos, ainda permanece conservado no mesmo estilo. Sua conservação é de grande importância para a história de Descalvado.”
Sempre lembrada e homenageada em suas datas comemorativas, a unidade escolar promoveu em 2003, data em que completou 100 anos de existência, uma programação festiva de cinco dias para enfatizar o primeiro centenário da escola. O evento contou com a participação do bisneto do patrono da escola, apresentação de sarau, danças dos alunos, homenagem aos professores da década de 1960, entre outras atividades comemorativas.
Outro manifesto de que o Grupo Escolar Coronel Tobias é parte da memória coletiva de Descalvado foi a mobilização da população em sua defesa, o que representa uma evidência social do valor simbólico atribuído ao Grupo Escolar no âmbito da comunidade local. Esse movimento manifestou-se na organização, pelos moradores, de um abaixo-assinado com o objetivo de solicitar a restauração do edifício escolar. Consta que, em um curto espaço de tempo, foram reunidas mais de 4,5 mil assinaturas, número expressivo que revela não apenas o reconhecimento da escola como patrimônio educacional, mas também como um bem cultural e histórico de relevância coletiva.
Figura 7. Moradores de Descalvado e alunos cantam o hino do Grupo Escolar Coronel Tobias, em comemoração aos 120 anos da escola.
Essas ações sociais demonstram que a escola ultrapassa sua função pedagógica estrita, assumindo o papel de memória coletiva, identidade e pertencimento social. A participação ativa da comunidade no processo de preservação do prédio evidencia uma consciência patrimonial consolidada, na qual a educação é compreendida como elemento estruturante da vida social e da história local. Assim, o abaixo-assinado e a comemoração dos 100 anos de existência configuram-se como uma ação de pertencimento, reforçando o papel do social na defesa e manutenção das instituições públicas de ensino.
Além disso, o processo de restauração do Grupo Escolar demonstra essa relação intrínseca entre educação e sociedade descalvadense. Consta que a restauração teve início em 2009, com a contratação da empresa FormArte Gestão de Projetos Culturais e Arquitetura, empresa especializada em restauração. Inicialmente, foi necessário o levantamento das necessidades das instalações da escola, que foram cuidadosamente analisadas através de estudos para a recuperação das dependências. Para tanto, mais de mil fotos da unidade foram tiradas.
No diagnóstico, ficou prevista a recuperação do madeiramento, ripamento, revisão de proteção contra descargas atmosféricas, condutores e calhas; readequação das instalações elétricas, hidráulicas e de logística; escoramento e recuperação das alvenarias; recuperação dos forros e demais ambientes. As telhas, francesas, dificilmente serão recuperadas. (Descalvado Agora, 06/01/2012)
E, depois de três anos, em fevereiro de 2011, o prefeito de Descalvado juntamente com a secretária da educação compareceram à capital paulista para assinar o convênio entre o Governo do Estado e o município de Descalvado, o qual permitiria o restauro histórico do edifício escolar.
Os trabalhos de restauração começaram em dezembro de 2011, iniciando os trabalhos pelo telhado e, posteriormente, avançando pelas demais estruturas. Durante as obras de restauro, os alunos da unidade eram transportados para as dependências da universidade local, com todas as despesas custeadas pelo município. O projeto de restauração da unidade escolar Coronel Tobias ficou avaliado em 2 milhões de reais.
Ademais, após a conclusão da restauração, a escola recebeu uma revitalização, que consistiu em pintura, reforma nas áreas externas, no anexo das salas e da secretária. Investimento de 400 mil reais que foram entregues em homenagem e comemoração aos 120 anos de existência da escola.
Assim como em sua comemoração de primeiro centenário, no ano de 2023, ocasião em que a escola comemorou 120 anos, diversas festividades foram realizadas, como passeatas, o retorno de antigas tradições e festas escolares, um encontro memorável de gerações passadas com as gerações atuais, com o objetivo de relembrar momentos e vivências da história do Grupo Escolar Coronel Tobias.
Sem dúvida alguma, o Grupo Escolar Coronel Tobias foi a mãe de todas as escolas do município,não só pelo fato de ser a mais antiga, mas, principalmente, por abrigar as primeiras salas de aula pública regulares e a primeira turma de normalistas. O país começava, lentamente, a mudar e, com ele, evidentemente, a educação escolarizada. (PRATTA, 2012 )
Registre-se que os eventos comemorativos em torno do Grupo Escolar Coronel Tobias podem ser compreendidos como práticas simbólicas da memória coletiva de Descalvado. As diversas comemorações — como a retomada de antigas tradições e festas escolares, bem como o encontro entre gerações passadas e atuais — configuram-se como rituais sociais que reafirmam o lugar da escola como espaço de significação cultural e identitária no interior da comunidade.
Cada uma dessas celebrações, que não se restringiram a eventos comemorativos, pode ser considerada como dispositivo de rememoração, no qual o passado é continuamente reinterpretado à luz das demandas e sensibilidades do presente. Conforme propõe Le Goff (2003), a memória não é um dado fixo, mas uma construção social, produzida por meio de práticas, discursos e representações. Nesse sentido, a reconstrução de tradições escolares e o reencontro intergeracional atuam como estratégias de atualização da história da instituição e da sociedade local, permitindo que experiências e vivências escolares sejam compartilhadas, narradas e resignificadas coletivamente.
Além disso, o encontro entre ex-alunos e estudantes atuais evidencia a escola como um espaço de diálogo cultural, um encontro entre o passado e o presente, no qual saberes, valores e práticas são herdados, mas, também, transformados. Portanto, essa presença do Grupo Escolar Coronel Tobias na sociedade de Descalvado leva-nos a refletir sobre uma observação de Le Goff (2003, p.204) quando este procura estabelecer alguns elementos definidores do que é moderno:
Outro paradoxo ou ambiguidade: o “moderno”, à beira do abismo do presente, volta-se para o passado. Se, por um lado, recusa o antigo, tende a refugiar-se na história. Modernidade e moda retrô caminham lado a lado. Este período, que se diz e quer totalmente novo, deixa-se obcecar pelo passado: memória, história.
Vejamos que, conversando com e a partir das ideias do historiador Le Goff (2003), o Grupo Escolar Coronel Tobias assume o papel de convergência entre o passado e o presente, ao concentrar símbolos, narrativas e representações que materializam a trajetória histórica do Grupo Escolar Coronel Tobias e do município de Descalvado. Assim, os eventos comemorativos do Grupo Escolar revelam não apenas a longevidade da instituição, mas, sobretudo, sua capacidade de produzir sentidos, fortalecer vínculos sociais e manter viva a memória educacional e cultural da sociedade local.
Portanto, diante dessa trajetória histórica, pode-se afirmar que o Grupo Escolar consolidou-se como patrimônio histórico, cultural e educacional não apenas sob a tutela institucional do CONDEPHAAT, mas, sobretudo, como bem simbólico da sociedade descalvadense. Sua preservação, tanto física quanto simbólica, insere-se no campo da memória coletiva, na qual o edifício escolar se configura como espaço social de produção de sentidos, afetos e identidades. Nesse jogo da memória, evidencia-se o vínculo histórico entre a escola, o município, figuras ilustres e as múltiplas gerações que por ela passaram, reafirmando seu papel como referência estruturante da história local e como elemento fundamental para a compreensão da formação educacional e cultural de Descalvado.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No período da Primeira República, o Brasil passava por um tempo de reorganização não apenas política, mas também social, cultural e educacional. E foi durante essa reorganização que o país voltou-se à questão da educação pública, que até então era limitada, elitizada e pouco estruturada. A educação pública passa a ser vista e quista, com o objetivo de modernizar e ascender o país “culturalmente” e socialmente, e é nesse contexto que o Grupo Escolar Coronel Tobias se insere.
Sendo o estado de São Paulo o de maior concentração de renda e poder político, o projeto cultural de formação da sociedade inicia-se por ele, com a criação dos Grupos Escolares. Essas escolas públicas que utilizavam um sistema de ensino inovador para a época, visando oferecer uma educação de qualidade para meninos e meninas, não poderiam deixar de mostrar a suntuosidade do projeto educacional na estrutura física de suas escolas, com edifícios inspirados em arquiteturas neoclássicas, imponentes e majestosos.
Nesse contexto, surge o Grupo Escolar Coronel Tobias, em Descalvado, no interior paulista. Na época, o município era uma potência econômica graças à produção cafeeira, e em vista disso, era do interesse dos produtores, políticos, comerciantes e da população, que Descalvado se expandisse e, imbuído de um projeto grandioso de ser moderna, iniciou-se em Descalvado os preparativos para a criação do Grupo Escolar Coronel Tobias.
Para o município, que até então não possuía uma escola agrupada, o Grupo Escolar Coronel Tobias surgiu como um avanço social e educacional, sendo assim acolhido simbolicamente pela população como um farol de esperança do futuro da nação descalvadense. Esse pensamento foi intensificado com a entrega do prédio da instituição escolar que foi, e é até os dias de hoje, um símbolo majestoso e imponente, produzindo uma visão de autoridade, tradição e formação.
Para finalizar, convém registrar que o Grupo Escolar Coronel Tobias faz parte da história de Descalvado, sendo impossível desassociar um do outro, visto que grande parte da população do município passou pela instituição e guarda na memória a ideia de pertencimento à cidade e ao Grupo Escolar, ambos em um sentimento de pertencimento reticular.
Sendo assim, o Grupo Escolar de Descalvado é muito mais que um edifício escolar, é um patrimônio histórico pois representa memórias, histórias e a base da educação pública do município, reafirmando seu papel fundamental na formação de cidadãos e na construção da identidade local, permanecendo viva na lembrança e no cotidiano da população descalvadense.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.
CORRÊA, Maria Elizabeth Peirão; MELLO, Mirela Geiger de; NEVES, Hélio de Queiroz Duarte. Arquitetura escolar paulista: 1890–1920. São Paulo: Editora FDE, 1991.
DESCALVADO (SP). Administração Municipal faz a reinauguração da EMEF “Cel. Tobias”. Portal da Prefeitura Municipal de Descalvado, Descalvado, 10 maio 2024. Disponível em: https://www.descalvado.sp.gov.br/novoportal/prefeitura/index.php/portal/noticias/a554f89dd 61cabd2ff833d3468e2008a. Acesso em: 22 jan. 2026.
DESCALVADO AGORA. Encontrados florões nas paredes da Escola Municipal “Coronel Tobias”. Descalvado Agora, Descalvado, 6 jan. 2012. Disponível em: https://www.descalvadoagora.com.br/index.php?id=5984. Acesso em: 17 de dezembro de 2025.
FELGUEIRAS, Margarida Louro; VIDAL, Diana Gonçalves (org.). Patrimônio escolar: uma saga republicana. Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco, 2004
KASTEIN, Luiz Carlindo Arruda. Conheça Descalvado. Disponível em: http://www.descalvadoonline.com.br/conhecadescalvado/index.htm. Acesso em: 08 de julho de 2025.
LE GOFF, Jacques. História e memória. 5. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.
MAGALHÃES, Álvaro. Dicionário Enciclopédico Brasileiro Ilustrado. Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1947.
O DESCALVADENSE. Descalvado, 23 jul. 1911. Acervo Histórico Municipal de Descalvado.
O DESCALVADENSE. Descalvado, 5 mar. 1911. Acervo Histórico Municipal de Descalvado.
PRATTA, Marco Antonio. Cento e oitenta anos de história: Descalvado sob várias perspectivas. São José do Rio Preto: CM&N, 2012.
PRATTA, Marco Antonio. Mestres, santos e pecadores: educação, religião e ideologia na primeira república brasileira. São Paulo: RiMa, 2002.
SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de civilização: a implantação da escola primária graduada no estado de São Paulo (1890/1910). São Paulo: Editora UNESP, 1998.
WINCKELMANN, Johann Joachim. Reflexões sobre a imitação das obras gregas na pintura e na escultura. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
WOLFF, Silvia Ferreira Santos. Arquitetura escolar paulista: restauro. São Paulo: Edusp, 1992.
1 Especialização em Ensino de Humanidades e Linguagens pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso do Sul - Campus Dourados, MS, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutor em História. Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Rural e Tecnologias Sociais. IFAM/Campus Manaus Zona Leste, AM, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail