REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792024551
RESUMO
Este artigo apresenta uma proposta pedagógica voltada à contação de histórias na Educação Infantil, elaborada a partir de observações realizadas durante práticas de estágio em uma instituição de Educação Infantil. O estudo tem como foco a aproximação de crianças pequenas, especialmente do Maternal II, com o universo literário, considerando a contação de histórias como prática capaz de favorecer experiências de imaginação, linguagem, interação, afetividade, criatividade e expressão. A proposta foi organizada em torno do projeto “Era uma vez um gato xadrez... quer que eu te conte outra vez?”, com encontros semanais e utilização de diferentes recursos, como livros, fantoches, avental, caixa e baú de histórias, dramatizações e organização de espaços diferenciados. Metodologicamente, o trabalho caracteriza-se como uma proposta de intervenção pedagógica de abordagem qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica e na observação do contexto escolar. As atividades foram planejadas para promover a participação ativa das crianças, respeitando suas características e formas de expressão. A avaliação proposta é contínua e diagnóstica, considerando manifestações de atenção, curiosidade, interação, comunicação, expressão corporal e interesse pelos livros e pelas narrativas. Conclui-se que a contação de histórias constitui uma prática pedagógica relevante na primeira infância, especialmente quando realizada de forma planejada, lúdica, afetiva e significativa.
Palavras-chave: Educação Infantil; Contação de histórias; Literatura infantil; Imaginação; Linguagem.
ABSTRACT
This article presents a pedagogical proposal focused on storytelling in Early Childhood Education, developed from observations made during internship practices in an early childhood education institution. The study focuses on bringing young children, especially those in Maternal II, closer to the literary universe, considering storytelling as a practice capable of fostering experiences of imagination, language, interaction, affection, creativity and expression. The proposal was organized around the project “Era uma vez um gato xadrez... quer que eu te conte outra vez?”, with weekly meetings and the use of different resources, such as books, puppets, storytelling aprons and boxes, dramatizations and differentiated spaces. Methodologically, the study is characterized as a qualitative pedagogical intervention proposal, based on bibliographic research and observation of the school context. The activities were planned to promote children’s active participation while respecting their characteristics and forms of expression. The proposed assessment is continuous and diagnostic, considering manifestations of attention, curiosity, interaction, communication, body expression and interest in books and narratives. It is concluded that storytelling is a relevant pedagogical practice in early childhood, especially when conducted in a planned, playful, affective and meaningful way.
Keywords: Early Childhood Education; Storytelling; Children’s literature; Imagination; Language.
1. INTRODUÇÃO
A Educação Infantil constitui uma etapa fundamental para o desenvolvimento integral da criança e exige práticas pedagógicas que considerem suas diferentes formas de aprender, comunicar-se, brincar e relacionar-se. Nesse contexto, a literatura infantil pode ocupar um lugar significativo no cotidiano escolar, não apenas como recurso para momentos de entretenimento, mas como experiência cultural e educativa capaz de ampliar as possibilidades de expressão e de interação das crianças.
A contação de histórias, em especial, permite que a criança tenha contato com diferentes personagens, situações, sentimentos e formas de organização narrativa. Por meio da escuta e da participação em histórias, a criança pode imaginar, fazer relações, expressar emoções, ampliar seu vocabulário e desenvolver diferentes formas de comunicação. O projeto analisado neste artigo parte dessa compreensão e propõe a inserção sistemática da contação de histórias no cotidiano de crianças pequenas.
A proposta surgiu a partir de observações realizadas durante práticas de estágio na Escola Municipal de Educação Infantil Cantinho da Alegria, localizada no município de Água Boa, Mato Grosso. Segundo o projeto original, foi observado interesse das crianças pelos momentos de contação de histórias, ao mesmo tempo em que se identificou a necessidade de ampliar as práticas de aproximação literária na primeira infância.
Diante desse contexto, estabeleceu-se como questão norteadora: como desenvolver a aproximação literária de crianças do Maternal II da EMEI Cantinho da Alegria por meio da contação de histórias? O objetivo geral é desenvolver o interesse pelo ato de ouvir histórias e ampliar o contato das crianças com o universo literário.
O artigo está organizado em cinco partes principais: fundamentação teórica, percurso metodológico, descrição da proposta pedagógica, avaliação e considerações finais. Busca-se, assim, apresentar uma organização acadêmica do projeto original, preservando sua finalidade pedagógica e seus principais fundamentos.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A literatura infantil possibilita à criança experiências que articulam linguagem, imaginação, sentimentos e conhecimento. Abramovich (1997) destaca que as histórias permitem descobrir outros lugares, tempos e formas de agir e de ser. Nessa perspectiva, a literatura não deve ser reduzida a uma atividade meramente didática, pois também envolve prazer, fantasia e experiência estética.
Para Amarilha (1999), contar uma história significa selecionar e apresentar ao ouvinte determinados aspectos da realidade, abrindo possibilidades de interpretação e construção de sentidos. A narrativa, portanto, constitui uma forma de interação entre quem conta e quem escuta, envolvendo voz, gestos, expressões e imaginação.
Bamberger (2000) ressalta a importância da criação de uma atmosfera literária desde cedo. O contato frequente com livros e histórias contribui para a aproximação da criança com a leitura. Na Educação Infantil, essa aproximação ocorre principalmente por meio da escuta, da observação das imagens, do manuseio dos livros, da interação com o adulto e da participação em situações de faz de conta.
Máximo-Esteves (1998) chama atenção para a capacidade dos bebês e das crianças pequenas de participar de experiências literárias. Mesmo antes do domínio da linguagem oral convencional, as crianças podem demonstrar atenção, curiosidade, escolha, interesse e envolvimento durante a leitura e a contação de histórias.
Sisto (2012) enfatiza que o contador precisa preparar-se para contar uma história, utilizando recursos expressivos como gestos, vozes e movimentos de forma articulada à narrativa. Dessa maneira, o professor pode transformar o momento da contação em uma experiência mais envolvente e significativa.
No campo da pedagogia de projetos, Barbosa e Horn (2008) defendem a organização de experiências que possibilitem participação, autonomia, cooperação e interação. O projeto de contação de histórias apresentado neste artigo aproxima-se dessa perspectiva ao propor atividades diversificadas, participação das crianças, organização intencional dos espaços e envolvimento das famílias.
Soares (2000) compreende a leitura como uma forma de interação social, relacionada aos sujeitos, às suas experiências e às relações que estabelecem com o mundo. Assim, o trabalho com literatura na infância pode favorecer experiências de linguagem que ultrapassam o domínio técnico da leitura e escrita, contribuindo para a formação cultural e social da criança.
Nesse sentido, a contação de histórias pode ser compreendida como prática pedagógica que articula diferentes dimensões do desenvolvimento infantil: linguagem, imaginação, expressão corporal, afetividade, socialização, criatividade e construção de sentidos.
3. PERCURSO METODOLÓGICO
O presente trabalho caracteriza-se como uma proposta de intervenção pedagógica de abordagem qualitativa, construída a partir de observação do contexto escolar e de pesquisa bibliográfica. A proposta foi elaborada no âmbito das Práticas Pedagógicas e Ensino – Estágio III, tendo como referência experiências de observação realizadas na Escola Municipal de Educação Infantil Cantinho da Alegria, no município de Água Boa, Mato Grosso.
O público-alvo definido no projeto original é composto por crianças do Maternal II, com faixa etária indicada entre 7 meses e 3 anos, do período vespertino. A instituição atende crianças da Educação Infantil e dispõe de diferentes espaços que podem ser utilizados para as atividades, como sala de aula, pátio, parquinho, caixa de areia e área coberta.
A proposta prevê encontros semanais, com duração aproximada de uma hora, realizados às terças-feiras, durante um bimestre. O planejamento contempla diferentes gêneros e narrativas infantis, entre elas Chapeuzinho Vermelho, Pinóquio, A Bela e a Fera, Os Três Porquinhos, O Príncipe Cinderelo e Princesas Soltam Pum, conforme registrado no projeto.
A organização das atividades considera a preparação do ambiente, o acolhimento, a roda de conversa, a contação ou leitura, a utilização de recursos lúdicos e a conversa posterior sobre a narrativa. Entre os recursos previstos estão livros, fantoches, avental, baú, caixa de histórias, caracterização de personagens, dramatizações e leitura digital.
O projeto também prevê a participação das famílias por meio de um kit de leitura, composto por livros e fantoche, encaminhado para casa e substituído semanalmente. A intenção é ampliar a experiência literária para além do espaço escolar, fortalecendo a relação entre escola, criança e família.
4. A PROPOSTA PEDAGÓGICA: “ERA UMA VEZ UM GATO XADREZ... QUER QUE EU TE CONTE OUTRA VEZ?”
A proposta pedagógica tem como eixo a contação de histórias como experiência de aproximação das crianças com a literatura. Seu desenvolvimento está organizado de maneira flexível, permitindo que os espaços, os recursos e as estratégias sejam modificados de acordo com a narrativa escolhida e com as características do grupo.
No primeiro momento, realiza-se o acolhimento das crianças e a preparação do ambiente de acordo com a temática da história. A organização do espaço constitui parte importante da proposta, podendo ocorrer na sala, no pátio, no parquinho, sob uma árvore ou em outros ambientes adequados. A intenção é criar um espaço acolhedor, confortável e capaz de despertar curiosidade.
Em seguida, inicia-se uma conversa para despertar o interesse das crianças. Perguntas simples podem ser utilizadas para introduzir a narrativa, permitindo que as crianças expressem expectativas, reconheçam personagens ou façam relações com experiências anteriores.
A etapa seguinte consiste na contação ou leitura da história. O professor pode utilizar diferentes recursos, como fantoches, avental, caixa ou baú de histórias, objetos relacionados aos personagens, dramatizações e caracterizações. A diversidade de recursos tem a finalidade de favorecer a atenção, a imaginação e a participação das crianças.
Após a narrativa, é realizada uma conversa sobre a história. As perguntas devem ser adequadas à faixa etária e podem explorar personagens, acontecimentos, sons, gestos, sentimentos e situações vivenciadas na narrativa. Para as crianças menores, a participação pode ocorrer também por meio de gestos, expressões, movimentos, sons e escolhas.
A proposta busca superar uma concepção em que a criança permanece apenas como espectadora. O projeto prevê que ela possa participar ativamente, escolher histórias, manipular livros, interagir com personagens, produzir sons, dramatizar situações e expressar suas próprias interpretações.
Outro elemento previsto é a participação das famílias. O kit de leitura encaminhado para casa amplia o contato da criança com os livros e possibilita que familiares participem do processo. Essa ação procura fortalecer a continuidade das experiências literárias entre escola e família.
5. OBJETIVOS DA PROPOSTA
O objetivo geral é desenvolver o interesse pelo ato de ouvir histórias e ampliar o contato das crianças do Maternal II com o universo literário.
Como objetivos específicos, a proposta busca: ampliar o vocabulário por meio da escuta e da recontação de histórias; despertar o prazer de ouvir narrativas; estimular a imaginação e a criatividade; favorecer o desenvolvimento cognitivo; possibilitar o contato com diferentes obras e formas de literatura; explorar sons produzidos pelo corpo e por objetos; favorecer a vivência e expressão de emoções; aproximar as crianças dos livros, símbolos e diferentes formas de linguagem; e estimular a participação em situações de escuta e contação de histórias.
6. ARTICULAÇÃO COM O DESENVOLVIMENTO INFANTIL
A proposta articula a literatura a diferentes dimensões da experiência infantil. No campo das relações, a contação favorece situações de interação entre crianças e adultos, contribuindo para experiências de convivência, escuta e participação.
No âmbito do corpo e dos movimentos, histórias, músicas, dramatizações e brincadeiras permitem que as crianças utilizem gestos e movimentos para representar personagens e acontecimentos. Os recursos sonoros e musicais ampliam as possibilidades de expressão.
Em relação aos traços, sons, cores e formas, as histórias podem desencadear atividades de desenho, pintura, colagem, produção de personagens e exploração de diferentes materiais. Já no campo da escuta, fala, pensamento e imaginação, a narrativa constitui elemento central, uma vez que envolve escuta, compreensão, expressão oral, criação e fantasia.
A proposta também possibilita experiências relacionadas a espaço, tempo, relações e transformações, especialmente quando as crianças acompanham sequências de acontecimentos, reconhecem ambientes, comparam personagens e exploram relações presentes nas narrativas.
7. AVALIAÇÃO
A avaliação proposta é contínua, diagnóstica e baseada na observação das manifestações das crianças durante as atividades. Em vez de concentrar-se em resultados padronizados, pretende acompanhar o processo de participação e desenvolvimento de cada criança.
Entre os aspectos a serem observados estão: interesse pelos livros e pelas histórias; atenção durante a narrativa; curiosidade diante dos personagens e objetos; tentativa de comunicação; produção de sons; utilização de gestos; interação com outras crianças e adultos; expressão de sentimentos; participação em dramatizações; escolha e manuseio de livros; e envolvimento nas atividades propostas.
O diário de bordo previsto no projeto constitui instrumento importante para registrar as experiências vivenciadas, permitindo ao professor acompanhar o percurso das crianças e refletir sobre as estratégias utilizadas. Registros fotográficos também podem ser realizados mediante autorização dos responsáveis, respeitando os procedimentos institucionais aplicáveis.
A avaliação, portanto, deve servir para orientar o planejamento, permitindo rever estratégias, ampliar recursos e adequar as experiências às necessidades e aos interesses do grupo.
8. DISCUSSÃO
A organização da proposta evidencia que a contação de histórias pode ocupar um lugar planejado no cotidiano da Educação Infantil. Quando o professor prepara o ambiente, seleciona narrativas adequadas e utiliza diferentes recursos expressivos, a atividade pode ultrapassar a leitura convencional e transformar-se em experiência de participação.
A proposta também reforça a importância de considerar as crianças pequenas como sujeitos capazes de interagir com a literatura. O fato de ainda não dominarem a leitura convencional não impede sua participação no universo literário. Elas podem ouvir, observar imagens, manipular livros, antecipar acontecimentos, produzir sons, realizar gestos, escolher histórias e demonstrar preferências.
A participação da família amplia essa experiência. O kit de leitura previsto no projeto possibilita que o contato com as narrativas aconteça também no ambiente doméstico. Dessa forma, a literatura pode constituir uma experiência compartilhada entre crianças e adultos.
É importante destacar, contudo, que o presente artigo não apresenta resultados quantitativos ou conclusões derivadas de uma aplicação experimental. O texto sistematiza uma proposta pedagógica fundamentada em observações de estágio e em referências bibliográficas utilizadas no projeto original. Assim, eventuais efeitos da intervenção deverão ser analisados a partir de registros produzidos durante sua aplicação.
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A contação de histórias apresenta-se como uma possibilidade pedagógica significativa para aproximar crianças pequenas da literatura e favorecer experiências de linguagem, imaginação, criatividade, interação e afetividade. A proposta “Era uma vez um gato xadrez... quer que eu te conte outra vez?” foi organizada com a intenção de transformar o momento da história em uma experiência participativa, acolhedora e significativa.
A sistematização apresentada demonstra a importância do planejamento do professor, da organização dos espaços, da escolha de recursos diversificados e da valorização das manifestações das crianças. Livros, fantoches, dramatizações, objetos, músicas e diferentes ambientes podem contribuir para tornar as narrativas mais próximas do universo infantil.
Também se destaca a necessidade de compreender a criança pequena como participante ativa das experiências literárias. Mesmo antes da leitura convencional, ela pode construir sentidos, demonstrar emoções, interagir, imaginar e comunicar-se de diferentes maneiras.
Por fim, a proposta reforça a relevância da parceria entre escola e família. O contato com livros e histórias pode ser ampliado quando a experiência literária ultrapassa os limites da sala de aula e passa a fazer parte também das relações familiares. Recomenda-se, para estudos posteriores, o registro e a análise sistemática das experiências desenvolvidas, possibilitando avaliar com maior precisão as contribuições da proposta para o desenvolvimento e a participação das crianças.
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1 Pedagogia - Licenciatura, Universidade Anhanguera (Uniderp). Pós-graduação em Educação Infantil e Letramento, Universidade (Unopar) e (Anhanguera). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Pedagoga por (UNIVAR - Faculdades Unidas do Vale do Araguaia). Licenciatura em Artes Visuais por (FAVENI), com Especialização em Educação Especial/Educação Inclusiva/Altas Habilidades (FAVENI). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Pedagoga (Instituto de Educação Superior Samambaia). Psicopedagoga (Faculdade Cerrado). Docência do Ensino Superior (Instituto de Educação Superior Samambaia). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.