REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777344320
RESUMO
O presente artigo tem por objetivo analisar a relação entre os quatro temperamentos humanos e as paixões da alma à luz da antropologia filosófico-teológica de Santo Tomás de Aquino, especialmente a partir do Tratado das Paixões da Alma, presente na Suma Teológica. Inserido no contexto da Escolástica medieval, o estudo busca compreender de que modo os apetites sensíveis, concupiscível e irascível, estruturam as paixões e influenciam os diferentes temperamentos. Além disso, propõe uma reflexão acerca do papel das virtudes na ordenação dessas paixões, evidenciando sua importância no processo de autoconhecimento e aperfeiçoamento moral. Ao examinar a articulação entre natureza, afetividade e razão, sustenta-se que o conhecimento do próprio temperamento favorece o combate aos vícios dominantes e o cultivo das virtudes correspondentes. Assim, pretende-se demonstrar que a tradição escolástica oferece instrumentos teóricos relevantes para a compreensão da vida moral e da formação do caráter, melhorando os relacionamentos interpessoais.
Palavras-chave: Temperamentos; paixões da alma; Escolástica; Santo Tomás de Aquino; virtudes.
ABSTRACT
This article aims to analyze the relationship between the four human temperaments and the passions of the soul in light of the philosophical and theological anthropology of Thomas Aquinas, especially from the Treatise on the Passions of the Soul in the Summa Theologica. Inserted in the context of medieval Scholasticism, the study seeks to understand how the sensitive appetites, concupiscible and irascible, structure the passions and influence different temperaments. Furthermore, it proposes a reflection on the role of virtues in ordering these passions, highlighting their importance in the process of self-knowledge and moral improvement. By examining the articulation between nature, affectivity and reason, the article argues that knowledge of one’s own temperament favors the struggle against dominant vices and the cultivation of corresponding virtues. Thus, it intends to demonstrate that the scholastic tradition offers relevant theoretical instruments for understanding moral life and character formation, improving interpersonal relationships.
Keywords: Temperaments; passions of the soul; Scholasticism; Thomas Aquinas; virtues.
1. INTRODUÇÃO
A Escolástica medieval, especialmente entre os séculos XII e XIV, caracterizou-se pelo esforço sistemático de conciliar a fé cristã com a razão filosófica, em grande medida a partir da recepção da obra de Aristóteles no Ocidente latino. Nesse contexto, destaca-se Santo Tomás de Aquino, cuja síntese intelectual se tornou uma das expressões mais elevadas da reflexão filosófica e teológica medieval.
No interior dessa síntese, o estudo das paixões da alma ocupa posição central para a compreensão da natureza humana e da vida moral. Em Santo Tomás, as paixões não devem ser entendidas como realidades necessariamente desordenadas ou negativas, mas como movimentos naturais do apetite sensível, passíveis de ordenação pela razão e de aperfeiçoamento pelas virtudes. Essa perspectiva permite uma leitura mais equilibrada da afetividade humana, evitando tanto sua repressão absoluta quanto sua exaltação desmedida.
Partindo desse horizonte teórico, o presente artigo propõe analisar a relação entre os quatro temperamentos e as paixões da alma, evidenciando de que forma tal estrutura pode contribuir para o autoconhecimento e para a formação moral do indivíduo. Para isso, serão examinados, inicialmente, os fundamentos antropológicos da concepção tomista; em seguida, a identificação dos temperamentos e a estrutura das paixões; por fim, será discutida a relação entre cada temperamento, seus defeitos predominantes e as virtudes correspondentes.
2. METODOLOGIA DA PESQUISA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza bibliográfica, de abordagem qualitativa e de caráter exploratório e analítico-interpretativo. Seu desenvolvimento fundamenta-se na leitura e análise de obras clássicas da tradição filosófica e teológica, com especial destaque para a Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, sobretudo no que se refere ao tratado das paixões da alma, bem como de autores que contribuem para a compreensão da antropologia escolástica e da formação moral.
A opção pela pesquisa bibliográfica justifica-se pelo objetivo central do artigo, que consiste em investigar a relação entre os quatro temperamentos e as paixões da alma à luz da perspectiva tomista. Nesse sentido, privilegia-se o exame de textos teóricos capazes de oferecer sustentação conceitual à discussão proposta, permitindo identificar categorias fundamentais como; apetite sensível, concupiscível, irascível, vício, virtude e inclinações temperamentais.
A abordagem qualitativa mostra-se adequada porque não se pretende quantificar dados, mas interpretar conceitos, relações e significados presentes na tradição escolástica medieval. O tratamento do tema é conduzido por meio de análise textual e conceitual, buscando compreender de que maneira a estrutura das paixões da alma pode iluminar a leitura dos temperamentos humanos e sua ordenação moral.
Do ponto de vista dos objetivos, a pesquisa possui caráter exploratório, pois busca ampliar a compreensão de um tema ainda pouco desenvolvido em perspectiva sistemática no campo acadêmico contemporâneo, e caráter analítico, uma vez que procura examinar criticamente os elementos constitutivos da antropologia tomista relacionados à afetividade humana. Assim, a metodologia adotada visa articular fundamentação teórica, interpretação filosófica e aplicação reflexiva, de modo a evidenciar a relevância do pensamento escolástico para o autoconhecimento e para a formação das virtudes.
3. FUNDAMENTO ANTROPOLÓGICO TOMISTA
Segundo Santo Tomás de Aquino, o ser humano é constituído por uma unidade substancial de corpo e alma, de modo que as operações sensíveis, afetivas e racionais não são aspectos isolados, mas dimensões integradas de uma mesma natureza (AQUINO, 2020). Nessa perspectiva, o temperamento pode ser compreendido como uma disposição natural que influencia a maneira pela qual o indivíduo reage aos estímulos externos e experimenta internamente suas inclinações afetivas.
Embora o conceito dos quatro temperamentos tenha raízes anteriores ao tomismo, sua articulação com a antropologia escolástica permite compreender de modo mais profundo a dinâmica entre inclinações naturais, paixões e exercício das virtudes. O temperamento não determina de forma absoluta o agir humano, mas indica tendências predominantes que afetam a sensibilidade e, consequentemente, o modo como a pessoa enfrenta o bem, o mal, a dificuldade, a perda e o sofrimento.
As características do temperamento manifestam-se de maneira mais evidente na infância, quando os hábitos adquiridos ainda não encobriram totalmente as disposições naturais do indivíduo. Por essa razão, o retorno reflexivo às reações mais espontâneas da infância pode constituir um caminho útil para identificar traços temperamentais dominantes, ainda que tal identificação exija prudência e não dispense a observação da vida moral concreta.
4. IDENTIFICAÇÃO DOS TEMPERAMENTOS
A identificação dos temperamentos constitui etapa relevante para a compreensão da dinâmica afetiva do indivíduo e de suas inclinações predominantes. Embora não se trate de um mecanismo absoluto de definição da personalidade, o estudo dos temperamentos oferece um importante instrumento de autoconhecimento, pois permite reconhecer tendências naturais que influenciam as reações emocionais, os hábitos adquiridos e o modo de relação com o mundo exterior. Nessa perspectiva, o temperamento pode ser entendido como uma disposição originária da sensibilidade, que precede, em certa medida, a formação moral propriamente dita, ainda que depois seja profundamente modulada pelos hábitos, pela educação, pela vontade e pela graça.
A tradição que reconhece a existência de quatro temperamentos fundamentais — colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático — procura descrever formas recorrentes de reação psíquica e sensível diante dos estímulos externos e internos. Tal classificação não tem por finalidade reduzir o ser humano a esquemas rígidos, mas oferecer parâmetros para interpretar a diversidade das disposições afetivas. Por isso, o estudo dos temperamentos deve ser conduzido com prudência, evitando generalizações excessivas e reconhecendo que, na experiência concreta, é comum a presença de traços combinados, ainda que um deles se apresente como predominante.
Um dos caminhos possíveis para a identificação do temperamento consiste na observação retrospectiva da infância, especialmente em fase anterior ao pleno amadurecimento dos mecanismos de autocontrole social. A infância, nesse sentido, pode revelar com maior espontaneidade os impulsos naturais da sensibilidade, uma vez que os condicionamentos culturais e os hábitos adquiridos ainda não se consolidaram de modo definitivo. Assim, recordar como se davam as reações mais imediatas diante de frustrações, alegrias, medos, perdas ou contrariedades pode oferecer indícios importantes acerca da estrutura temperamental dominante.
Nesse processo de identificação, duas perguntas orientadoras podem ser formuladas. A primeira diz respeito à intensidade da reação externa: o estímulo provocava resposta visível, rápida e expressiva? A segunda refere-se à permanência interior da impressão recebida: mesmo após cessado o fato externo, a lembrança continuava produzindo efeitos emocionais ou corporais? A combinação dessas duas variáveis auxilia na distinção geral entre os temperamentos. O colérico tende a reagir intensamente ao estímulo e a conservar internamente sua impressão, demonstrando energia, firmeza e continuidade afetiva. O sanguíneo também reage intensamente, mas sua impressão costuma dissipar-se com rapidez, revelando leveza, expansividade e pouca fixação interior. O melancólico, por sua vez, pode apresentar reação externa menos evidente, mas interioriza profundamente a experiência, conservando-a de forma duradoura e intensa. Já o fleumático caracteriza-se, em regra, por menor intensidade tanto na manifestação exterior quanto na permanência interior, evidenciando estabilidade, moderação e serenidade.
Quadro 1. Critérios gerais para identificação dos temperamentos
Reação ao estímulo externo | Permanência da impressão interior | Temperamento predominante | Características principais |
Intensa | Duradoura | Colérico | Reage com rapidez, firmeza e energia; mantém interiormente o impacto da experiência; tende à ação, liderança e enfrentamento. |
Intensa | Pouco duradoura | Sanguíneo | Reage de forma expressiva e imediata, mas dissipa rapidamente a impressão recebida; tende à sociabilidade, entusiasmo e expansividade. |
Pouco intensa | Duradoura | Melancólico | Exterioriza menos suas reações, porém interioriza profundamente as experiências; tende à reflexão, profundidade e sensibilidade acentuada. |
Pouco intensa | Pouco duradoura | Fleumático | Reage com serenidade e baixa intensidade, sem grande repercussão interior; tende à estabilidade, calma e moderação. |
Fonte: Elaboração do autor.
Tal identificação, contudo, não deve ser entendida como um diagnóstico fechado. O ser humano é mais complexo do que qualquer classificação tipológica, e a vida moral não se reduz ao plano das disposições naturais. O temperamento indica tendências, mas não determina necessariamente o agir. Entre a inclinação sensível e o ato moral situa-se a mediação da razão, da vontade, dos hábitos e das virtudes. Nesse sentido, o reconhecimento do próprio temperamento só adquire plena utilidade quando vinculado a um processo reflexivo e ético, voltado não para a autocomplacência, mas para a correção dos defeitos dominantes e o cultivo das perfeições adequadas.
Desse modo, a identificação dos temperamentos não deve ser tratada como curiosidade psicológica ou simples mecanismo classificatório, mas como recurso teórico e prático para a compreensão da interioridade humana. Ao reconhecer a forma predominante de suas reações, o indivíduo torna-se mais apto a entender suas facilidades, fragilidades e tendências recorrentes. Isso favorece não apenas a leitura de si mesmo, mas também a formação moral, uma vez que possibilita um trabalho mais consciente sobre as paixões e inclinações que exigem ordenação.
5. ESTRUTURA DAS PAIXÕES DA ALMA
Na antropologia tomista, as paixões da alma pertencem ao apetite sensível, isto é, à dimensão da alma pela qual o ser humano experimenta inclinações afetivas relacionadas ao bem e ao mal apreendidos pelos sentidos. Longe de serem compreendidas como elementos desordenados em si mesmos, as paixões são movimentos naturais da sensibilidade, inscritos na própria constituição humana. Elas expressam a maneira pela qual a pessoa é afetada pelas realidades exteriores e interiores, reagindo segundo percepções de conveniência ou nocividade. Por essa razão, o estudo das paixões ocupa lugar central na reflexão moral de Santo Tomás de Aquino, pois ilumina a relação entre natureza humana, afetividade, razão e virtude.
Para compreender adequadamente essa dinâmica, Santo Tomás distingue, no interior do apetite sensível, duas potências fundamentais: o apetite concupiscível e o apetite irascível. Essa distinção não indica duas realidades independentes, mas dois modos pelos quais a sensibilidade se move diante dos bens e dos males. O concupiscível refere-se ao bem ou ao mal considerado de maneira simples e imediata; o irascível, ao contrário, refere-se ao bem árduo, difícil de alcançar, ou ao mal difícil de evitar. Assim, a diversidade das paixões não é arbitrária, mas responde à própria estrutura da experiência humana diante da realidade.
5.1. Apetite Concupiscível
O apetite concupiscível é a potência pela qual a alma sensível se inclina para aquilo que percebe como agradável e afasta-se daquilo que reconhece como nocivo, quando tais objetos não envolvem dificuldade especial. Nesse âmbito, Santo Tomás identifica seis paixões fundamentais: amor e ódio, desejo e aversão, alegria e tristeza. Essas paixões formam pares opostos e expressam o movimento básico da sensibilidade diante do bem e do mal.
O amor constitui a inclinação primeira para o bem apreendido como conveniente; o ódio, em sentido oposto, traduz a repulsa pelo mal percebido como contrário ao sujeito. Do amor procede o desejo, isto é, o movimento em direção ao bem ainda não possuído; do ódio decorre a aversão, entendida como afastamento do mal ainda presente ou iminente. Por fim, quando o bem é alcançado, produz-se a alegria; quando o mal é experimentado, surge a tristeza. Essa sequência mostra que as paixões concupiscíveis não são movimentos desordenados e desconexos, mas expressões articuladas da relação entre o sujeito e os objetos de sua experiência sensível.
No contexto dos temperamentos, o apetite concupiscível oferece chave importante para compreender perfis inclinados à busca de satisfação imediata, conforto, prazer relacional ou estabilidade. O sanguíneo, por exemplo, costuma apresentar forte sensibilidade para os bens agradáveis, sendo mais facilmente atraído pela convivência, pela novidade e pela experiência prazerosa. Já o fleumático tende a relacionar-se com o concupiscível por meio da busca de tranquilidade, segurança e ausência de perturbação. Em ambos os casos, a ordenação dessas paixões torna-se necessária para evitar que a inclinação ao agradável se converta em dispersão, comodismo ou apego desmedido ao bem-estar.
5.2. Apetite Irascível
O apetite irascível, por sua vez, entra em ação quando o bem desejado apresenta dificuldade para ser alcançado ou quando o mal a ser evitado se mostra ameaçador e resistente. Nesse âmbito, localizam-se cinco paixões fundamentais: esperança e desespero, temor e audácia, além da ira. Diferentemente do concupiscível, o irascível está ligado ao enfrentamento do árduo, à resistência diante do obstáculo e à mobilização interior provocada por situações de tensão, esforço ou combate.
A esperança surge quando o bem difícil é considerado possível de ser alcançado; o desespero aparece quando esse mesmo bem é percebido como inalcançável. O temor manifesta-se diante de um mal futuro que parece difícil de evitar, ao passo que a audácia se apresenta como movimento de enfrentamento diante desse mal, quando ele é considerado superável. A ira, por sua vez, possui caráter particular, pois nasce da percepção de uma injúria ou contrariedade e mobiliza o sujeito para reagir à ofensa recebida. Todas essas paixões mostram que a sensibilidade humana não apenas busca o agradável e foge do doloroso, mas também se organiza diante do desafio, do conflito e da resistência.
A relação entre o irascível e os temperamentos torna-se especialmente evidente nos perfis colérico e melancólico. O colérico, inclinado à ação, à decisão e ao enfrentamento, manifesta com frequência paixões ligadas à superação do obstáculo, à afirmação da vontade e à reação diante da oposição. O melancólico, embora menos expansivo externamente, também se relaciona intensamente com o irascível, sobretudo pela profundidade com que experimenta o medo, a frustração, a esperança ou o desânimo. Em ambos os casos, percebe-se que a estrutura do irascível ajuda a explicar não apenas a intensidade das reações afetivas, mas também a permanência interior de determinadas impressões.
A distinção entre concupiscível e irascível é fundamental porque revela que as paixões da alma possuem ordem e inteligibilidade. Elas não são meros impulsos irracionais, mas movimentos naturais que podem e devem ser integrados à vida moral. Em Santo Tomás, a razão não destrói as paixões, mas as governa; as virtudes não anulam a afetividade, mas a aperfeiçoam. Desse modo, compreender a estrutura das paixões é passo essencial para entender como o ser humano pode ordenar suas inclinações e conduzir sua vida segundo a reta razão.
Essa perspectiva permite, ainda, superar concepções reducionistas que identificam a vida moral com repressão afetiva. Na visão tomista, o ideal não é extinguir as paixões, mas orientá-las adequadamente. A pessoa virtuosa não é aquela que deixa de sentir, mas aquela que aprende a amar o que deve ser amado, a rejeitar o que deve ser rejeitado, a esperar com equilíbrio, a temer com prudência, a agir com fortaleza e a moderar a ira conforme a justiça. Por isso, o estudo das paixões da alma, articulado ao estudo dos temperamentos, oferece base consistente para uma compreensão integral do ser humano, unindo natureza, afetividade e moralidade em uma mesma reflexão antropológica.
Quadro 2. Relação entre os temperamentos, os apetites e as paixões da alma
Temperamento | Apetite sensível predominante | Paixões da alma correspondentes |
Colérico | Irascível | esperança, desespero, temor, audácia e ira |
Sanguíneo | Concupiscível | amor, ódio, desejo, aversão, alegria e tristeza |
Melancólico | Irascível | esperança, desespero, temor, audácia e ira |
Fleumático | Concupiscível | amor, ódio, desejo, aversão, alegria e tristeza |
Fonte: Elaboração do autor.
6. OS QUATRO TEMPERAMENTOS E AS VIRTUDES
Cada temperamento possui inclinações específicas que, quando desordenadas, podem favorecer vícios dominantes. Entretanto, essas mesmas disposições, quando educadas pela razão e elevadas pelo hábito virtuoso, podem tornar-se ocasião de crescimento moral. A tradição tomista compreende a virtude como princípio estável de bom agir, capaz de ordenar as paixões segundo a reta razão (AQUINO, 2020; ARISTÓTELES, 2016).
6.1. Temperamento Colérico
O temperamento colérico caracteriza-se pela intensidade, firmeza e prontidão para a ação. Trata-se de um perfil frequentemente associado à liderança, à iniciativa e à capacidade de decisão. Contudo, quando desordenado, pode inclinar-se ao orgulho, à impaciência, à dureza e à vaidade.
Nesse caso, a humildade apresenta-se como virtude particularmente necessária, pois permite moderar a tendência à autossuficiência e ordenar o impulso de domínio. A mansidão também exerce papel importante, ao conter a ira e favorecer a justa medida nas reações.
6.2. Temperamento Sanguíneo
O sanguíneo distingue-se pela expansividade, pela sociabilidade e pela facilidade de criar vínculos. É um temperamento geralmente alegre, comunicativo e entusiasta. Todavia, pode inclinar-se à superficialidade, à dispersão, ao egocentrismo e à inconstância.
A caridade, entendida como amor ordenado ao bem do outro, é uma virtude fundamental para esse perfil, pois o ajuda a sair da centralidade de si e a orientar sua afetividade para relações mais estáveis e generosas. Também a temperança contribui para moderar a busca excessiva de prazer e novidade.
6.3. Temperamento Melancólico
O melancólico caracteriza-se por profundidade interior, sensibilidade intensa e forte capacidade de reflexão. Pode revelar grande riqueza afetiva, seriedade e inclinação à interioridade. Entretanto, quando desordenado, tende à tristeza prolongada, à autocrítica exacerbada, ao desânimo e ao autoflagelo.
Nesse contexto, a esperança aparece como virtude especialmente adequada, pois combate a tendência à desesperança e reorienta a alma para a confiança no bem possível. A fortaleza também é relevante, na medida em que sustenta a perseverança diante do sofrimento e das limitações.
6.4. Temperamento Fleumático
O fleumático apresenta-se como estável, tranquilo e moderado. Costuma reagir com serenidade e evitar conflitos desnecessários. Tais características podem favorecer o equilíbrio e a prudência; contudo, quando desordenadas, podem degenerar em passividade, comodismo, omissão e individualismo.
Nesse caso, a generosidade e a diligência tornam-se virtudes importantes, pois impulsionam a pessoa a sair da inércia e a comprometer-se mais ativamente com o bem. A fortaleza também auxilia na superação da resistência ao esforço e ao engajamento.
7. COMO MELHORAR NOSSOS RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS ATRAVÉS DO DESENVOLVIMENTO DAS VIRTUDES
A reflexão sobre os temperamentos e as paixões da alma não se limita ao âmbito do autoconhecimento individual, mas possui implicações diretas na vida em comum e na qualidade dos relacionamentos interpessoais. A convivência humana é constantemente atravessada por afetos, reações, expectativas, frustrações e modos distintos de perceber e responder à realidade. Nesse contexto, o desenvolvimento das virtudes apresenta-se como caminho fundamental para ordenar as paixões, moderar inclinações desproporcionais e favorecer relações mais equilibradas, justas e orientadas ao bem.
Sob a perspectiva da tradição escolástica, as virtudes não representam apenas qualidades morais abstratas, mas hábitos bons que aperfeiçoam as potências humanas e tornam o agir mais conforme à razão. Aplicadas ao campo das relações interpessoais, elas permitem que o indivíduo não permaneça submetido às reações imediatas do seu temperamento, mas aprenda a responder de modo mais prudente, generoso e estável diante do outro. Assim, o cultivo das virtudes transforma a convivência, porque torna possível passar de uma lógica centrada nos impulsos pessoais para uma dinâmica pautada pelo respeito, pela escuta, pela responsabilidade e pela caridade.
A prudência, por exemplo, ocupa lugar central nesse processo, pois permite discernir a melhor maneira de agir em cada situação concreta. Nos relacionamentos interpessoais, essa virtude auxilia o sujeito a moderar palavras, avaliar circunstâncias, evitar julgamentos precipitados e buscar soluções proporcionadas aos conflitos. A justiça, por sua vez, orienta o reconhecimento do outro em sua dignidade, impedindo que as relações sejam pautadas por egoísmo, manipulação ou desconsideração. Por meio dela, a convivência torna-se mais equilibrada, já que cada pessoa é tratada segundo o que lhe é devido.
Também a temperança possui grande relevância, sobretudo porque modera excessos emocionais e impulsos desordenados que frequentemente prejudicam a vida relacional. Em pessoas mais inclinadas à impulsividade, à irritação ou à busca exagerada de satisfação imediata, essa virtude favorece o autocontrole e a moderação, contribuindo para uma convivência menos conflituosa e mais estável. De maneira semelhante, a fortaleza auxilia no enfrentamento das dificuldades próprias de toda relação humana, como incompreensões, limites, sofrimentos e exigências de perseverança. Relacionamentos sólidos não dependem apenas de afinidade espontânea, mas também da capacidade de suportar contrariedades e permanecer firmes no compromisso com o bem.
Além das virtudes cardeais, certas virtudes intelectivas e teologais mostram-se especialmente fecundas para a vida interpessoal. A humildade, por exemplo, corrige a tendência à autossuficiência e favorece a abertura ao outro, tornando possível reconhecer erros, acolher correções e evitar atitudes dominadoras. A paciência ajuda a suportar limitações alheias sem precipitação agressiva ou desistência imediata. A caridade, por sua vez, constitui o princípio mais elevado da convivência, pois conduz o sujeito a buscar o bem do outro não por interesse, mas por genuína disposição de amor ordenado. Quando presente, ela reconfigura as relações, tornando-as menos marcadas pela utilidade e mais orientadas pela doação recíproca.
Nessa perspectiva, o desenvolvimento das virtudes contribui para melhorar os relacionamentos interpessoais porque aperfeiçoa o modo como cada pessoa sente, julga e age diante dos outros. Ao ordenar as paixões da alma e corrigir os excessos próprios de cada temperamento, as virtudes tornam a convivência mais harmoniosa e mais humana. Assim, o aprimoramento das relações não depende apenas de técnicas de comunicação ou de afinidades naturais, mas de um verdadeiro trabalho moral interior, por meio do qual o indivíduo aprende a governar a si mesmo para melhor conviver com o próximo.
Pode-se afirmar, portanto, que a vida relacional amadurece na medida em que a pessoa cresce em virtude. Quanto mais ordenadas estiverem as paixões, mais livre será o sujeito para amar com retidão, agir com justiça, suportar com fortaleza, moderar-se com temperança e decidir com prudência. Desse modo, o desenvolvimento das virtudes não apenas favorece o aperfeiçoamento individual, mas constitui também um dos fundamentos mais sólidos para a construção de relações interpessoais saudáveis, respeitosas e duradouras.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos quatro temperamentos à luz da Escolástica medieval permite compreender que a afetividade humana possui uma estrutura inteligível e ordenável. As paixões da alma, longe de constituírem apenas fontes de desordem, pertencem à natureza humana e desempenham papel decisivo na vida moral. O problema, portanto, não reside na existência das paixões, mas em sua desordenação pelos vícios e em sua eventual resistência ao governo da razão.
Nessa perspectiva, o conhecimento do próprio temperamento torna-se instrumento valioso de autoconhecimento. Ao reconhecer suas inclinações predominantes, o indivíduo pode identificar com maior clareza os defeitos que mais frequentemente o ameaçam e, ao mesmo tempo, orientar-se no cultivo das virtudes correspondentes. Assim, o estudo dos temperamentos deixa de ser mera classificação descritiva e passa a integrar um projeto mais amplo de formação moral.
Pode-se afirmar, portanto, que as paixões da alma, quando dominadas pelos vícios, assemelham-se a cavalos selvagens: dotados de força, movimento e potência, mas carentes de direção segura. As virtudes, por sua vez, funcionam como freios que ordenam, disciplinam e conduzem essas energias segundo a reta razão. A tradição escolástica, especialmente em Santo Tomás de Aquino, oferece, desse modo, um referencial fecundo para pensar o ser humano em sua totalidade, articulando natureza, afetividade, razão e vida moral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO, Tomás de. Suma teológica: v. 2: Ia IIae. Tradução de Alexandre Costela. Campinas, SP: Ecclesiae, 2020.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução e notas de Luciano Ferreira de Souza. São Paulo: Martin Claret, 2016.
GILSON, Étienne. A filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
MARITAIN, Jacques. Elementos de filosofia I: introdução geral à filosofia. Tradução de Ilza das Neves e Heloísa de Oliveira Penteado; revisão de Irineu da Cruz Guimarães. 18. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1994.
1 Pós-Graduação em Docência no Ensino Religioso, UNINTER, ORCID: 0009-0000-3496. 6645. E-mail: [email protected]