O PAPEL DA CRÔNICA NA LITERATURA BRASILEIRA: UMA ANÁLISE A PARTIR DE MACHADO DE ASSIS E RUBEM BRAGA

THE ROLE OF THE CHRONICLE IN BRAZILIAN LITERATURE: AN ANALYSIS BASED ON MACHADO DE ASSIS AND RUBEM BRAGA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777353243

RESUMO
Este artigo tem como como objetivo analisar duas crônicas: “Crônica I”, de Machado de Assis, publicada em 1861, e “O telefone”, de Rubem Braga, publicada em 1951, para verificar o papel deste gênero literário na literatura brasileira. Propõe-se comparar os aspectos temáticos e estilísticos com o fim de evidenciar o potencial literário e reflexivo do gênero como expressão estética, crítica e cultural, mediante revisão de literatura em pesquisa bibliográfica; que o papel da crônica na literatura brasileira é de alta relevância, seja porque a literatura brasileira começou com uma crônica, seja porque, no Brasil, a crônica evoluiu estética, temática e semanticamente, constituindo-se em espaço de crítica social, política e cultural com leveza.
Palavras-chave: Crônica; crítica social; gênero literário; Machado de Assis; Rubem Braga.

ABSTRACT
This article aims to analyze two chronicles: "Chronicle I" by Machado de Assis, published in 1861, and "The Telephone" by Rubem Braga, published in 1951, to verify the role of this literary genre in Brazilian literature. It proposes to compare thematic and stylistic aspects in order to highlight the literary and reflective potential of the genre as an aesthetic, critical, and cultural expression, through a literature review in bibliographic research; that the role of the chronicle in Brazilian literature is highly relevant, both because Brazilian literature began with a chronicle, and because, in Brazil, the chronicle evolved aesthetically, thematically, and semantically, constituting a space for social, political, and cultural criticism with lightness.
Keywords: Chronicle; social criticism; literary genre; Machado de Assis; Rubem Braga.

INTRODUÇÃO

A crônica, ao longo dos anos, aprimorou-se e conquistou uma identidade própria dentro da literatura brasileira. “A Carta do achamento é considerada o ponto de partida de um fazer literário no Brasil” (Campos, 2023, p. 8), pois “possui fortes influências estéticas e até temáticas das crônicas medievais portuguesas” (Campos, 2023, p. 17).

O estudo sobre a crônica na literatura brasileira, por meio do recorte das obras de Machado de Assis e de Rubem Braga, tem sua relevância acadêmica ao propor reflexões sobre: Qual o marco inicial da crônica literária no Brasil? Como a crônica tem servido como um espaço de crítica social, política e cultural dentro da literatura brasileira?

Para além do entretenimento, a literatura tem o papel questionador e transformador de criticar os costumes, a religião, as injustiças, as instituições, os desvios comportamentais, enfim, as estruturas sociais, de forma a contribuir para significativas mudanças ao longo da história (Anjos, 2022; Campos, 2022; Campos, 2023; Viscardi, 2023).

Nesse sentido, este artigo tem como objetivo geral analisar uma crônica de Machado de Assis e outra de Rubem Braga, a fim de verificar o papel deste gênero literário na literatura brasileira. De Machado de Assis, a “Crônica I” (Assis, 2008, p. 53-56), publicada em outubro de 1861, na série Comentários da Semana, primeira série1 da colaboração de Machado de Assis para o jornal Diário do Rio de Janeiro, periódico no qual ele assumiu “a função de cronista de variedades” (Granja; Cano, 2008, p. 11). De Rubem Braga, a crônica “O telefone” (Braga, 2009, p. 79-81) publicada em 29 de março de 1951, no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, na qual, dentre outras coisas, ecoam “protestos de cidadão comum que beiram o sarcasmo” (Seffrin, 2009, p. 9).

Desta maneira, propõe-se comparar aspectos temáticos e estilísticos das crônicas citadas com a intenção de evidenciar o potencial literário e reflexivo do gênero. Além de, reforçar a importância da crônica como forma de expressão estética, crítica e cultural, contribuindo para sua valorização no âmbito acadêmico e literário.

A metodologia da pesquisa será a revisão de literatura, mediante pesquisa bibliográfica nos livros Crônica: história, teoria e prática, de Flora Christina Bender e Ilka Brunhilde Laurito; A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil, de Antonio Candido et al.; A crônica, de Jorge de Sá; e o capítulo “A crônica”, de José Marques de Melo, do livro Jornalismo e literatura: a sedução da palavra, organizadores Gustavo de Castro e Alex Galeno.

Etimologia e Escorço Histórico

Existe o verbo cronicar. Cronicar é verbo intransitivo que, conforme Caldas Aulete (2011, p. 421), significa “escrever crônicas”. Mas, o que é crônica? A palavra crônica tem vários significados. Como, por exemplo, nas expressões: “doença crônica”, “crônica esportiva” e “crônica política”. Contudo, para este estudo, importa o significado da palavra crônica como designação de uma espécie do gênero literário narrativo.

A palavra portuguesa crônica vem do radical grego chrónos (χρόνος), o qual significa tempo (Laurito, 1993), razão por que crônica, no sentido original, era o registro de acontecimentos diários. Chrónos (Χρόνος), na mitologia grega, era o deus tempo. Eis o motivo por que vêm desse radical grego várias palavras portuguesas como, por exemplo, crônica, cronologia e cronológico.

Assim, nos primórdios da crônica como gênero narrativo, crônica era o registro histórico e cronológico dos acontecimentos, dos grandes feitos dos reis, feito pelos cronistas oficiais (Laurito, 1993; Melo, 2002; Silveira, 1992). Na Bíblia, por exemplo, há O primeiro livro das crônicas e O segundo livro das crônicas2, dos quais Esdras foi o cronista (Bíblia, 2018). E, para trazer o exemplo de Portugal, “Crônicas de D. Pedro I, D. Fernando e de D. João I”, de autoria de Fernão Lopes, cronista oficial, nomeado por D. Duarte I, em 1418 (Silveira, 1992, p. 27).

Com o passar do tempo, porém, a crônica deixou de ser essencialmente registro histórico para ser, tal como é hoje, texto literário sobre o cotidiano, o pitoresco, o prosaico, e assim por diante, sem prejuízo da ironia, do humor, do lirismo, da poesia e da crítica social.

CONCEITO

Crônica é um texto literário curto, em prosa, sobre acontecimentos reais do cotidiano, com a visão particular do cronista, escrito muitas vezes, subjetiva e reflexivamente, na primeira pessoa, com leveza e espontaneidade, o qual, não raramente, mistura narração e reflexão, e termina de forma inesperada para o leitor.

Dessa forma, publicada em jornal, revista, blogue ou, ainda, no rádio e na televisão, a crônica tem, dentre outras, as seguintes características: a observação da realidade; a linguagem simples, acessível, leve e espontânea; o tom pessoal, subjetivo e sutilmente crítico, com humor, ironia ou sarcasmo que enlevam em vez de agredir; a presença de poucos personagens ou, ainda, a ausência total destes; enfim, a aparência de simplicidade, mas com a profundidade que transforma o banal em significativo.

Com efeito, o cronista, geralmente, explora e realça os aspectos pitorescos de instantes, de assuntos reais do dia a dia, utilizando-se de recursos estilísticos, de ironia, humor, lirismo. É, portanto, como ensinam Beltrão e Gordilho: “De forma breve e simples, a crônica parte de um momento ou de um flagrante no dia a dia para levar o leitor a refletir sobre aspectos ligados às pessoas, suas angústias e alegrias. Há também crônicas humorísticas, esportivas e líricas, por exemplo” (Beltrão; Gordilho, 2022, p. 65).

No sentido literário moderno, define Beth Griffi (1991, p. 199, grifo da autora): “Crônica é um texto literário que explora assuntos e acontecimentos do cotidiano.” E ensina Marília Rothier Cardoso (1992, p. 137, grifo da autora): “Significativamente, nomeia-se crônica o texto leve, fluente e sintético, que forma o elo entre o passado (as linhagens medievais) e o presente (registro do instante, resgatado da voragem para a fama).”

A Crônica no Brasil

O Brasil tem uma relação sui generis com a crônica como gênero literário, seja porque a literatura brasileira3 começou com uma crônica, A carta do achamento, seja porque aqui foi conferida evolução estética e, sobretudo, semântica ao gênero.

Primeiro texto do Quinhentismo no Brasil, a carta do cronista oficial4 da viagem do descobrimento, Pero Vaz de Caminha, chamada de A carta do achamento, é classificada como crônica (ou seja, uma carta-crônica), porque, para além de informar, “possui fortes influências estéticas e até temáticas das crônicas medievais portuguesas” (Anjos, 2023, p. 17).

A partir do século XIX, a crônica brasileira se transformou, assumindo novas características, funcionalidades e valor literário. Como sintetiza Paulo Rónai (2014, n.p.), “a crônica abrange a totalidade da vida: os costumes, as modas, os slogans, os problemas do momento, as preocupações urbanas, o tempo que faz, os assuntos mais corriqueiros”.

Assim sendo, qual o marco inicial da crônica literária no Brasil? Não obstante os registros anteriores, “estudiosos da crônica literária brasileira assinalam o seu nascimento com o marco de 2 de dezembro de 1860, data em que Francisco Otaviano inaugura, no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a seção A Semana, ou seja, os folhetins literários do Romantismo” (Laurito, 1993, p. 29).

Com dimensões poéticas, líricas, irônicas, humorísticas, críticas e assim por diante, a crônica afastou-se do objetivo principal de registrar informação histórica e cronológica, e assumiu, definitiva e gradativamente, o objetivo de ser, ao mesmo tempo, instrumento de entretenimento e de crítica social.

Paulo Rónai (2014, n. p.) foi, portanto, muito preciso quando, em sua palestra proferida na Universidade da Flórida em 1966, classificou a crônica como “um novo gênero da literatura brasileira, merecedor de interesse e de estudo”, quer dizer, um gênero tipicamente brasileiro, com caráter de documento sociológico.

Crítica, lírica, irônica, poética e humorística, no Brasil, a crônica informa, critica, ensina5 e deleita, não necessariamente nessa ordem. Como diz Joaquim Ferreira dos Santos na introdução do livro As cem melhores crônicas brasileiras (2007, p. 17), “a crônica está no detalhe, no mínimo, no escondido, naquilo que aos olhos comuns pode não significar nada, mas, puxa uma palavra daqui ‘uma reminiscência clássica’ dali, e coloca-se de pé uma obra dedicada de observação absolutamente pessoal”.

Quanto à classificação da crônica, escreve Flora Christina Bender (1993, p. 67): “Torna-se, pois, difícil e arriscado fazer a tipologia da crônica, de vez que geralmente tangencia um outro gênero, com o qual chega a confundir-se”. A dificuldade talvez decorra da liberdade do cronista: a crônica, acima de tudo, é livre, como livre é o cronista. A despeito disso, porém, este gênero literário pode ser classificado, tanto pelo assunto versado quanto pela forma, sem prejuízo de outras classificações ou divisões.

Quanto ao assunto, pode ser, por exemplo, crônica esportiva, crônica humorística, crônica lírica, crônica reflexiva, e assim por diante (Beltrão; Gordilho, 2022). Quanto à forma ou movimento interno, segundo Afrânio Coutinho (apud Bender, 1993), pode ser classificada em, por exemplo, crônica narrativa, crônica metafísica6, crônica-poema em prosa.

São muitos os grandes cronistas brasileiros de todos os tempos. Como exemplo, dentre tantos outros, podem ser citados, além de Machado de Assis: José de Alencar, Humberto de Campos, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Braga, Moacyr Scliar, Otto Lara Resende e Carlos Heitor Cony. Além desses, entre os tantos outros que continuam escrevendo e fazendo literatura de boa qualidade (não só na mídia impressa, mas também na internet), são exemplos: Ana Miranda, Ignácio de Loyola Brandão, Joaquim Ferreira dos Santos, José Sarney, Martha Medeiros, Raymundo Netto e Ruy Castro.

Crônica I – Machado de Assis

A despeito de ser mais conhecido como o grande romancista, Machado de Assis também foi um grande cronista. Sua produção de crônicas começou em 1859, como colunista fixo do jornal semanal O Espelho, e, mesmo depois de sua fama e grande reconhecimento como romancista, continuou até 1897. Sua última crônica como colunista fixo de jornal é de 28 de fevereiro de 1897, na Gazeta de Notícias.

Sua vasta produção cronística é bem sintetizada por Sonia Brayner (1992, p. 406-407), que escreveu:

Durante quarenta anos, desde a década de 1860, escreveu crônicas: por ordem cronológica, no Diário do Rio de Janeiro, e mais tarde na Semana Ilustrada (1860-75), em O Futuro (1862), na Ilustração Brasileira (1876-78), em O Cruzeiro (1878) e, a partir de 1883 até 1897, na Gazeta de Notícias, inscritas sob vários títulos – ‘Balas de estalo’ (Lélio), ‘A + B’ (João das Regras), ‘Gazeta de Holanda’ (Malvólio), ‘Bons dias’ (Boas noites) até a sua mais perfeita e final feição de cronista em ‘A semana’, sem assinatura, entre 1892 e 97.

Machado dos pseudônimos. Como se vê na citação supra, outro aspecto das crônicas de Machado de Assis são os pseudônimos, o que aliás, condiz com o costume da época. Nisso, Machado também foi pródigo e não economizou. Como registra Sonia Brayner (1992, p. 408): “Foi Lara, Lélio, Malvólio, Job, Eleazar, Sileno, entre outros, e também dividiu o famoso Dr. Semana das ‘Baladas’ na Semana Ilustrada de Henrique Fleiuss com outros colegas de humor e verve folhetinista.”

Neste artigo, porém, conforme o objetivo geral, será analisada como recorte da produção de Machado de Assis a “Crônica I” (Assis, 2008, p. 53-56), assinada com o pseudônimo Gil e publicada em outubro de 1861, na série Comentários da Semana, primeira série7 da colaboração de Machado para o jornal Diário do Rio de Janeiro. Essa série de crônicas, aliás, compõe o livro Comentários da semana, organização, introdução e notas de Lúcia Granja e Jefferson Cano, edição de 2008 da Editora da Universidade Estadual de Campinas.

A temática é variada e o cronista dialoga com os fatos e também com o leitor. A crônica é ambientada na cidade do Rio de Janeiro e explora diversos assuntos, urbanos, sociais e culturais. Machado, como faz ver o título da coluna, escrevia sobre os vários assuntos e acontecimentos da semana. Esta crônica, portanto, é um mosaico, no qual o cronista faz, de forma velada e elegante, mas sem abrir mão da ironia e do sarcasmo, críticas à sociedade, à cultura e ao poder público, então sob o Segundo Reinado.

A escola literária em curso era o Romantismo e, conquanto os cronistas não sejam classificados por escolas literárias, eles pertencem à escola de seu tempo, influenciando e sendo influenciados. Assim, Machado, ao tratar de assuntos e valores burgueses, bem como criticar a sociedade e seus costumes, fazia coro à escola literária de então.

O entretenimento do leitor, a difusão cultural e a forte crítica social e política se mesclam no texto, que, assim, desempenha os papéis fundamentais da crônica moderna. Não se trata de crítica rasa nem de ironia e sarcasmo grosseiros. Esteticamente, como é característico de Machado, a linguagem é escorreita e bela. O texto é curto e leve, a despeito da profundidade dos temas (alguns deles apenas aparentemente simples). Ele começa dizendo: “Eu devia escrever estas linhas em cima de um capitel antigo, ou diante de um livro de velha poesia grega” (Assis, 2008, p. 53).

No entanto, entender o que ele escreveu exige do leitor conhecimentos diversos, de história, de literatura, de arte, de política, e assim por diante, o que é possível com edições anotadas, como a já citada, de Lúcia Granja e Jefferson Cano, publicada pela Editora da Unicamp.

A primeira crítica é à tolerância das autoridades e instituições da corte, as quais permitem a exploração da credulidade popular por duas mulheres, as duas sibilas, com suas falsas adivinhações sobre o futuro das pessoas. Com ironia, Machado (2008, p. 53-54) se faz crédulo de tais adivinhações, com os dizeres: “meu espírito, que, ingênuo, se volta para as singelas crenças antigas, enjoado da filosofia deste século desabusado”, “professo a crença do maravilhoso”, “não duvido da capacidade humana, no tocante a devassar o futuro”, “por direito de nascimento pertenço à vossa clientela”. Chama de blasfemos os críticos das duas adivinhas e, com fina ironia, escreve: “O tom com que a imprensa tratou as pobres sibilas calou-me profunda mágoa no coração” (Assis, 2008, p. 53).

Depois, como ele mesmo diz, dá um salto mortal nos assuntos tratados. Passa da crítica às sibilas e à tolerância e inação das autoridades aos elogios entremeados de críticas diversas à novidade cultural da semana: a temporada no Rio de Janeiro de uma famosa companhia francesa de ópera cômica, com a peça Diamantes da coroa. Lança mão de dizeres como “atentados contra a história”, “uma não mal enredada e bem escrita composição”, etc. E arrosta, às escâncaras, as críticas de intelectuais franceses feitas ao Brasil, às quais chama de “críticas sensaboronas dos Biards e Saint-Victors”.

Como crítica política, vergasta com fina ironia malfeitos diversos do poder público, como as falcatruas do ministro de Obras Públicas, a quem, sarcasticamente, tacha de “anfíbio que achou o meio de ser ao mesmo tempo paisano e militar, e gozar das regalias dessas duas condições sem sair (na opinião dele) dos preceitos constitucionais”.

Além disso, Machado (ironicamente dizendo que não vai falar destes assuntos, mas expressamente o fazendo) não deixa que caiam no esquecimento, a regata de Botafogo recém-realizada (malsucedida talvez por falta de planejamento), o mau funcionamento do dique da Ilha das Cobras, recém-inaugurado, o que denunciava malversação de recursos públicos pelo governo imperial, e, por banal que pudesse parecer, o mero, que, à revelia da ordem dos oficiais superiores, fora morto a pancadas por marinheiros (Granja; Cano, 2008).

Sobre a regata (Granja; Cano, 2008, p. 61), charge do jornal Semana Ilustrada, de 6 de outubro de 1861, dizia (mantida aqui a grafia da época): “Cahio muita chuva em cima de muita gente que fingia ver muitos botes, que andavam muito longe.” E sobre o dique (p. 62), outra charge da edição do dia 13 do mesmo jornal, referindo-se ao mero pescado indevidamente, alfinetava: “Viva o dique, porque se não servir para remendar navios, por estar-se descosendo, serve ao menos para pesqueiro.”

Por fim, o cronista mescla dica cultural e forte crítica social. Aconselha o leitor a ir assistir ao drama História de uma moça rica, de Francisco Pinheiro Guimarães, e ataca as críticas feitas à obra, às quais chama de “as censuras dos virtuosos” e “os sentimentos exagerados”. A obra de Guimarães – explique-se – explora assuntos como casamento, adultério feminino, riquezas materiais e convenções sociais, temas que permeariam toda a obra futura do contista e romancista Machado de Assis.

“O Telefone” – Rubem Braga

Rubem Braga, o autor de A borboleta amarela, Um pé de milho, O conde e o passarinho, As coisas boas da vida, O menino e o tuim, O homem rouco, A traição das elegantes, Crônicas do Espírito Santo, 200 crônicas escolhidas, Coisas simples do cotidiano, O verão e as mulheres e Ai de ti, Copacabana, dentre outros livros de crônicas, foi cronista por excelência.

Com justa razão, ele é considerado por muitos o maior dos cronistas brasileiros desde Machado de Assis. “Consta que Rubem publicou aproximadamente 15 mil crônicas. E acredito que é dele a notícia de que nunca escreveu nada que não fosse para ver publicado no dia seguinte, em jornal ou revista” (Seffrin, 2009, p. 7-8).

Neste artigo, entretanto, conforme o objetivo geral, será analisada apenas sua crônica “O telefone” (Braga, 2009, p. 79-81), publicada no dia 29 de março de 1951, no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro.

A escola literária, embora isso seja irrelevante para o gênero crônica, é o Pós-modernismo. Esteticamente, a crônica foi bem escrita. O texto é curto e leve, na forma epistolar, dividido em sete parágrafos, fora o irônico vocativo “Honrado Senhor Diretor da Companhia Telefônica”. É uma carta-crônica. A linguagem é espontânea e bem simples, mas segue a norma-padrão. O tema é único e do cotidiano: um telefone que não funciona. As críticas, porém, são várias e contundentes.

Em se tratando de assuntos do cotidiano, Rubem Braga dialoga com a realidade, com os fatos, fazendo combinar arte, elegância e rebeldia. O cronista rebela-se contra a omissão e descaso que denuncia, mas o faz pela boca de um ingênuo e pacato usuário, o qual já dizendo saber que não tem direito algum a não ser o de pagar a conta. Rubem Braga, que era bacharel em Direito, sabia quais eram os direitos e obrigações do assinante ou usuário, assim como os direitos e obrigações da concessionária e do poder concedente. Ironia e sarcasmo, pois, essa aparência de passividade.

O primeiro parágrafo, logo após o vocativo, começa com o sarcasmo: “Quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados assinantes; e do tipo mais baixo: dos que atingiram essa qualidade depois de uma longa espera na fila.” Compare-se o contraste entre o “honrado Senhor Diretor da Companhia” do vocativo com o “desagradável sujeito chamado assinante” do primeiro parágrafo.

Assim segue o texto, cuja leitura é um deleite, entremeado até o fim de dizeres como: “perdi o amigo, mas salvei o Respeito ao Regulamento; dura lex sede lex”, que denuncia interpretação equivocada do Regulamento pelo assinante); “senhor, eu sei tudo; que não tenho direito a nada, que não valho nada, não sou nada”, que denuncia a passividade da sociedade diante dos abusos e maus serviços da concessionária e da omissão do poder público.

Em síntese, o fio condutor do texto são, do início ao fim, humor, ironia e sarcasmo. De forma leve, mas contundente, o cronista diverte o leitor e, ao mesmo tempo, exerce a relevante função social da literatura, critica a precariedade do serviço público telefônico, a sociedade que o aceita passivamente e, sem citar a palavra, o poder público, por ser este o principal culpado, já que é o poder concedente, mas se omite e prevarica diante dos maus serviços prestados à população pela concessionária.

Não menos sarcástico que primeiro é o parágrafo final, quando batem à porta e o cronista, alegremente, imagina que é o técnico que veio fazer o conserto. Vai verificar e, engano seu, é apenas o cobrador, que lhe entrega a conta para pagar. Ainda assim, ele se alegra e conclui: “O telefone continuará mudo; não importa: ao menos é certo, senhor, que não vos esquecestes de mim.” Mais do que ironia, sarcasmo.

Dignas de nota, por fim, são as semelhanças e aproximações temática, estética e estilisticamente entre a crônica de Machado de Assis e a Rubem Braga, levando à conclusão de que este foi muito influenciado pela obra daquele.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mais de quatro séculos se passaram entre a Carta do achamento, de Pero de Vaz de Caminha, escrivão-mor da frota de Pedro Álvares Cabral, considerada a primeira crônica escrita em território brasileiro, e a crônica “O telefone”, de Rubem Braga, a última do recorte da pesquisa. De lá para cá, a crônica evoluiu e se transformou, estética, semântica e tematicamente. Deixou de ser o registro cronológico de fatos importantes para ser, como texto literário, o registro de fatos banais do cotidiano com a função de entretenimento do leitor, mas também como espaço de crítica social, cultural e política. Em outras palavras, como forma de expressão literária, transformou-se no “artifício noticioso carregado de subjetividade, no qual os leitores mais sensíveis se refugiam para neutralizar as agruras do cotidiano” (Melo, 2015, p. 8).

Por outro lado, noventa anos se passaram da “Crônica I” da coluna Comentários da Semana, de Machado de Assis, à crônica “O telefone”, de Rubem Braga, período no qual a crônica se firmou e manteve as mesmas características, com relevantes semelhanças e aproximações entre Machado de Assis e Rubem Braga. Como se vê pela análise feita, o segundo estudado foi deveras influenciado pelo primeiro, a quem segue, tanto temática quanto estética e estilisticamente, no humor, na ironia, no sarcasmo e na crítica social, política e cultural.

A pesquisa chegou ao fim e alcançou o resultado esperado, guardadas as limitações de um artigo acadêmico em nível de graduação, perfeitamente cabível, portanto, o aprofundamento de estudos e pesquisas em nível de pós-graduação, tanto lato sensu quanto stricto sensu. Como resposta às perguntas formuladas, a crônica literária no Brasil tem por marco inicial 2 de dezembro de 1860, com a inauguração da seção A Semana, no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. O papel da crônica na literatura brasileira é de alta relevância, seja porque a literatura brasileira começou com uma crônica, seja porque, no Brasil, a crônica experimentou evolução estética singular e, sobretudo, evolução semântica, constituindo-se em espaço de crítica social, política e cultural com leveza e acessibilidade popular.

Além disso, a importância da crônica na literatura brasileira se comprova insofismavelmente com a publicação até o presente das crônicas de Machado de Assis e de Rubem Braga, além das de outros cronistas famosos.

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Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Centro Universitário Senac – Santo Amaro, Polo Santo Amaro, como exigência parcial para obtenção do grau de Licenciado em Letras – Português e Inglês. Orientadora: Prof.ª M.ª Cristiane Furlan

Autor 1. Graduando em Letras – Português e Inglês, pelo Centro Universitário Senac – Santo Amaro. Especialista em Direito Médico pela Universidade de Araraquara (2015-2017), especialista em Direito Constitucional pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (2014-2015), especialista em Direito Administrativo pela Universidade Gama Filho (2012-2013), bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará (1996-2002). Advogado militante em Marabá, Pará. E-mail: [email protected]. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5574015888645040

Autora 2. Orientadora. Possui mestrado em Comunicação e Cultura Midiática – Universidade Paulista (2021). Especializações em: Gestão Educacional – Damásio/IBMEC (2020); Ensino da Língua Inglesa – Estácio de Sá (2018); Planejamento, Implementação e Gestão em Educação a Distância – Universidade Federal Fluminense (2015). Licenciatura em Pedagogia – Universidade Metropolitana de Santos (2015); Licenciatura Plena em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Inglesa pelo Centro Universitário de Votuporanga (2009). Docente nos cursos de Licenciatura em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) e Pedagogia no Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro. Docente nos cursos de Ensino Médio e Técnico no Centro Paula Souza. Atua também como tutora e revisora de materiais didáticos nos cursos de Pós-graduação pela Damásio. Com experiência nas áreas de Educação, Letras (Português/Inglês) e Ensino a distância (presencial/online). E-mail: [email protected]. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2962985541949900

1 Machado seria ainda o cronista de outra série no mesmo jornal, entre 1864 a 1865, intitulada Ao Acaso (Granja; Cano, 2008).

2 O título do livro em hebraico é Divre Hayamim, que significa “os acontecimentos de tempos passados” ou “anais”. O título Crônicas, em português, foi sugestão de Jerônimo, para quem o título mais adequado seria “as crônicas de toda a história sagrada” (Bíblia, 2018, p. 673).

3 “A história da nossa literatura se inicia, pois, com a circunstância de um descobrimento: oficialmente, a Literatura Brasileira nasceu da crônica” (Sá, 2002, p. 7). Literatura stricto sensu, ou seja, escrita, pois, antes disso, evidentemente, havia literatura lato sensu, qual seja, a oralitura dos povos originários. “A história da literatura brasileira começa muito antes de existir Brasil ou, melhor dizendo, muito antes da chegada dos portugueses a esse território que mais tarde passou a ser chamado de Brasil. Na verdade, se pensarmos nos gêneros clássicos da literatura, as narrativas (épica), as poesias (lírica) e até mesmo as encenações (dramática) eram comuns nas sociedades autóctones, desde que essas se desenvolveram por todo território americano” (Anjos, 2023, p. 7).

4 “O principal documento do descobrimento do Brasil nasceu da pena de Pero Vaz de Caminha, próximo do rei de Portugal, d. Manuel I, e por ele in­dicado para embarcar como cronista da viagem na nau Capitânia, ao lado de Pedro Álvares Cabral. Caminha fez anotações durante 54 dias, desde a partida da enorme esquadra de 13 navios do porto de Restelo, em Lisboa, em 9 de março de 1500, até 1o de maio. Depois o cronista reescreveu essas anotações em papel florete com a maestria de quem sabia captar e transmitir o pitoresco e o interessante, com detalhe, poesia e muitas vezes ironia, num toque quase coloquial” (Anjos, 2023, p. 14).

5 Um exemplo do uso da crônica como instrumento de ensino são as crônicas do gramático Pasquale Cipro Neto, veiculadas pelos jornais e revistas (Folha de S. Paulo, Cult e outros) e também pelo rádio e pela televisão, crônicas nas quais também se encontram críticas, humor, ironia, poesia, e assim por diante.

6 Anote-se que a crônica metafísica é o mesmo que a crônica reflexiva.

7 Machado seria ainda o cronista de outra série no mesmo jornal, entre 1864 a 1865, intitulada Ao Acaso (Granja; Cano, 2008).