ORIENTAÇÕES DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE DE ENFERMAGEM PARA MÃES USUÁRIAS DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS SOBRE AMAMENTAÇÃO SEGURA

NURSING HEALTH EDUCATION ON SAFE BREASTFEEDING FOR MOTHERS WHO USE PSYCHOACTIVE SUBSTANCES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786468986

RESUMO
A educação em saúde desenvolvida pela enfermagem para mães usuárias de substâncias psicoativas sobre amamentação segura constitui o tema central deste estudo, que analisa a prática do aleitamento materno e a importância da atuação profissional na promoção do cuidado humanizado e da redução de danos. Objetivou-se compreender as condutas clínicas e pedagógicas frente à amamentação no contexto da vulnerabilidade social e do consumo de drogas lícitas e ilícitas. A metodologia fundamentou-se em uma revisão integrativa da literatura e na análise de diretrizes clínicas internacionais. Os resultados evidenciam que o consumo abusivo de álcool e tabaco constitui o principal fator associado ao desmame precoce, enquanto a estigmatização e a frágil assistência nos serviços de saúde dificultam a adesão ao pré-natal e a manutenção de práticas seguras. Observou-se também que a terapia de substituição de opioides e o uso esporádico de determinadas substâncias permitem a manutenção do aleitamento sob acompanhamento individualizado. Conclui-se que a amamentação não deve ser proibida de forma generalizada, cabendo à enfermagem desenvolver planos de cuidado acolhedores, embasados na identificação precoce do uso, na educação em saúde e na tomada de decisão compartilhada para proteger a saúde materna e infantil.
Palavras-chave: Aleitamento materno; Transtornos relacionados ao uso de substâncias; Enfermagem; Educação em saúde.

ABSTRACT
Health education developed by nursing for mothers who use psychoactive substances regarding safe breastfeeding constitutes the central theme of this study, which analyzes breastfeeding practice and the importance of professional action in promoting humanized care and harm reduction. The objective was to understand clinical and pedagogical management regarding breastfeeding in the context of social vulnerability and the use of licit and illicit drugs. The methodology was based on an integrative literature review and the analysis of international clinical guidelines. The results show that alcohol and tobacco abuse constitutes the main factor associated with early weaning, while stigmatization and fragile healthcare assistance hinder adherence to prenatal care and the maintenance of safe practices. It was also observed that opioid substitution therapy and the sporadic use of certain substances allow the continuation of breastfeeding under individualized monitoring. It is concluded that breastfeeding should not be broadly prohibited, leaving it to nursing to develop welcoming care plans grounded in early detection of substance use, health education, and shared decision-making to protect maternal and child health.
Keywords: Breastfeeding; Substance-related disorders; Nursing; Health education.

1. INTRODUÇÃO

A utilização de substâncias psicoativas por gestantes e puérperas é um acontecimento sério que não abala especificamente a saúde das mães, mas também a do recém-nascido. Análises expõem que muitas mães não têm conhecimento prévio e significativo sobre os efeitos das drogas no período da amamentação (Silva et al., 2020). Outrossim, estudos apontam que o estigma relacionado a utilização de substâncias pode levar essas mulheres a evitarem procurar auxílio profissional, impossibilitando a obtenção das informações necessária sobre a lactação segura (Pereira; Oliveira,2021).

A carência de referências compreensíveis e acessíveis sobre o perigo do costume de utilizar substâncias no decurso da amamentação pode provocar insegurança e inquietação nas mães. Ao investigar o enredo histórico-político da sociedade, as mulheres gestantes ou que estão no período de lactação que fazem o uso de substâncias na expressão de normalidade são vitais como “loucas, “irresponsáveis” ou “pessoas que não conseguem cuidar de si e nem do bebê”. (Foucault, 2003 apud Caldeira, 2019). A atividade dos profissionais de enfermagem é substancial nesse sistema, pois eles são constantemente os primeiros a estabelecer contato com essas mulheres após o parto (Melo et al., 2023).

Perante o exposto, este assunto se torna ainda mais considerável e interessante quando é analisado o aspecto histórico e geográfico do Brasil contemporâneo, onde o crescimento da utilização de substâncias está diretamente relacionado a questões socioeconômicas e culturais. Assim, os profissionais de saúde responsáveis pelo cuidado a gestantes e puérperas, nos múltiplos níveis de complexidade, devem aperfeiçoar suas habilidades e capacitações acerca das particularidades e características de cada mulher, a fim de fornecer as orientações e cuidados apropriados (OMS, 2014).

Esta pesquisa mostra-se necessária na investigação das adversidades enfrentadas pelas mães no decurso do período da amamentação e tem por objetivos analisar as produções de conhecimento acerca das estratégias de orientações de educação em saúde da enfermagem para mães usuárias de substâncias psicoativas sobre a prática da amamentação segura e identificar as principais barreiras enfrentados por mães usuárias de substâncias na ação da amamentação, sendo direcionado pela seguinte pergunta norteadora quais são as orientações mais eficazes que enfermeiros podem oferecer às mães usuárias de substâncias para assegurar uma amamentação segura?

Através deste estudo, se espera cooperar com informações ricas que sejam capazes de ser usadas na aplicação clínica diária dos profissionais da área da saúde.

A significância desta pesquisa consiste no carecimento urgente de discutir as lacunas existentes na educação em saúde focalizada para mães usuárias de substâncias.

Entender como os enfermeiros podem melhor direcionar essas mulheres é crucial para propiciar uma amamentação segura e saudável. Por fim, essa pesquisa também tem relevância social ao discorrer um tema que muitas vezes é negligenciado.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Amamentação e Saúde Pública

O aleitamento materno constitui uma prática essencial para a promoção da saúde infantil e materna, reconhecida como estratégia global de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis primeiros meses de vida e a continuidade da amamentação, associada à alimentação complementar adequada, até dois anos ou mais.

Essa recomendação visa garantir que o bebê receba todos os nutrientes necessários para um desenvolvimento saudável e a proteção contra doenças infecciosas (Boccolini et al., 2017). Porém essa prática, entretanto pode ser comprometida quando a mãe faz uso de substâncias psicoativas, exigindo acompanhamento e orientações da enfermagem.

Esse modelo alimentar está associado à redução da mortalidade neonatal e infantil, diminuição de infecções respiratórias e gastrointestinais, melhor desenvolvimento cognitivo e proteção materna contra câncer de mama e ovário (WHO, 2020; Victora et al., 2016).

Dessa forma, a amamentação segura envolve não apenas o ato de nutrir, mas o conjunto de condições biológicas, emocionais e sociais que garantem qualidade, efetividade e ausência de danos (BRASIL, 2015).

Assim, compreender o aleitamento materno como política pública é fundamental para discutir sua implementação entre mulheres usuárias de substâncias psicoativas, cuja realidade rompe modelos tradicionais de cuidado e demanda estratégias específicas de orientação e acompanhamento.

A iniciação precoce do aleitamento, preferencialmente na primeira hora de vida, associada ao contato pele a pele, é considerada uma das principais estratégias para o sucesso da amamentação. Estudos indicam que essa prática melhora a sucção, estabiliza temperatura corporal do recém-nascido, reduz hipoglicemia e fortalece o vínculo afetivo (Conde-Agudelo et al., 2016).

Nesse contexto, o enfermeiro exerce papel determinante ao garantir que a mãe e o bebê permaneçam juntos após o parto, evitando práticas prejudiciais como separações desnecessárias, oferta precoce de mamadeiras, chás ou fórmulas sem indicação clínica.

A avaliação da pega correta também é um elemento central da assistência, uma vez que a pega inadequada é uma das principais causas de dor, fissuras, mastite e desmame precoce. A atuação da enfermagem inclui observação direta, posicionamento da díade, uso de técnicas de 8 ordenha e, quando necessário, encaminhamento para consultorias especializadas em lactação (BRASIL, 2015; WHO;UNICEF, 2020).

Apesar dos avanços científicos e normativos, persistem desafios estruturais e sociais que impactam a amamentação segura. Entre as barreiras mais recorrentes encontram-se a falta de capacitação profissional contínua, rotinas hospitalares que dificultam o alojamento conjunto, pressão do marketing de fórmulas infantis e ausência de políticas de suporte no ambiente de trabalho materno.

A literatura evidencia que o desmame precoce não decorre apenas de questões fisiológicas, mas de desigualdades sociais e de gênero, falta de apoio familiar e sobrecarga materna (Rollins et al., 2016). Assim, uma abordagem ampliada requer que a Enfermagem atue não apenas tecnicamente, defendendo políticas de proteção ao aleitamento, orientação à família e articulação intersetorial com assistência social, educação e gestão de políticas públicas.

2.2. Substâncias Psicoativas: Conceitos, Tipos e Repercussões Gerais

As substâncias psicoativas (SPAs) constituem um conjunto de compostos que atuam diretamente no sistema nervoso central (SNC), alterando funções cognitivas, emocionais e comportamentais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) caracteriza essas substâncias como agentes capazes de modificar percepção, humor, consciência e comportamento, podendo ser divididas em categorias como depressoras, estimulantes ou perturbadoras.

No contexto materno, destacam-se álcool, tabaco, maconha, cocaína, crack, anfetaminas, benzodiazepínicos e opioides, usadas muitas vezes como estratégia de alívio emocional diante de situações de vulnerabilidade social, psicológica ou econômica (BRASIL,2016).

O consumo de SPAs durante o puerpério tende a comprometer funções fisiológicas da mãe, afetando a produção de leite, a qualidade do vínculo materno-infantil e o autocuidado (SILVA; MOREIRA, 2021). Além disso, mulheres que vivem em contextos de uso crônico podem apresentar dificuldades emocionais e menor adesão ao acompanhamento em saúde, o que amplia riscos para o bebê.

Assim, conhecer as características farmacológicas dessas substâncias é fundamental para orientar práticas seguras de amamentação e cuidado integral (CDC, 2025). Além das repercussões fisiológicas e emocionais, o uso de substâncias psicoativas no período gestacional e puerperal também pode gerar impactos sociais significativos, especialmente no que se refere ao acesso aos serviços de saúde e às ações de cuidado contínuo.

Muitas mulheres enfrentam estigma, discriminação e medo de penalizações legais, fatores que dificultam a busca por apoio profissional e atrasam intervenções essenciais (ALMEIDA; ROCHA, 2022). Essas barreiras ampliam as vulnerabilidades e reforçam ciclos de exclusão social, tornando ainda mais necessária a adoção de estratégias de acolhimento, redução de danos e fortalecimento do vínculo terapêutico.

Nesse sentido, compreender a complexidade do fenômeno que envolve aspectos biológicos, psicológicos e sociais. É fundamental para que a equipe de enfermagem desenvolva intervenções humanizadas e baseadas em evidências, promovendo segurança, autonomia e cuidado integral à mãe e ao recém-nascido.

2.3. Substâncias Psicoativas e Amamentação: Riscos e Desafios

A amamentação é recomendada como prática essencial para o desenvolvimento infantil, promovendo imunidade, vínculo afetivo e proteção contra doenças. Contudo, quando associada ao uso de substâncias psicoativas, a prática exige atenção específica. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2022), cada substância possui um tempo de metabolização diferente, o que interfere diretamente na passagem para o leite materno.

A cocaína e o crack, por exemplo, possuem rápida difusão para o leite e podem causar irritabilidade, tremores, taquicardia e convulsões no lactente (FONSECA; LIMA, 2022). Já o álcool apresenta pico de concentração no leite entre 30 e 90 minutos após a ingestão, podendo reduzir o volume produzido e alterar o padrão de sucção do bebê.

A maconha, devido ao caráter lipossolúvel de seus compostos, permanece por longos períodos no organismo, acumulando-se no leite e podendo afetar o desenvolvimento neuropsicomotor da criança (SANTOS et al., 2020).

Outro desafio é que muitas mães usuárias de SPAs evitam relatar o uso por medo de julgamento ou perda da guarda dos filhos, o que dificulta a atuação profissional. Como reforça Almeida e Rocha (2022), a abordagem deve ser acolhedora, sem moralização, priorizando a saúde e a proteção do binômio. Dessa forma, a atuação das equipes de enfermagem e saúde deve considerar tanto o risco clínico quanto o contexto social e emocional da mãe.

2.4. Orientações de Saúde e de Enfermagem para Uma Amamentação Segura

A problemática do uso de substâncias psicoativas durante a gestação e puerpério, entretanto, caracteriza um desafio multidimensional, envolvendo aspectos sociais, psicológicos, biológicos e éticos. De acordo com Almeida e Rocha (2022), o uso de drogas ilícitas ou licitas interfere não apenas na saúde materno-infantil, mas também no acesso aos serviços de saúde, uma vez que essas mulheres vivenciam situações de estigma, vulnerabilidade social e baixa adesão aos tratamentos.

Segundo Oliveira et.al (2020), o aleitamento materno por parte de mulheres que utilizam substâncias psicoativas deve ser avaliado de forma individualizada. A tomada de decisão clínica precisa cruzar evidências técnicas — como o tipo e a frequência do uso da substância — com as condições do binômio, garantindo um acolhimento que preserve as escolhas da mãe e a proteção à saúde da criança.

Essa perspectiva reforça que o cuidado não deve ser restritivo e punitivo, mas orientado pela ética, evidências cientificas e práticas interdisciplinares. Dessa forma, a educação Nesse cenário, o papel da enfermagem se destaca, considerando sua atuação direta no cuidado básico, pré-natal, maternidades e acompanhamento no puerpério.

Giugliani (2016) destaca que os enfermeiros são responsáveis por orientar, apoiar e capacitar mães, atuando como facilitadores no manejo clinico da amamentação e na promoção de saúde. Em situações de vulnerabilidade, como de usuárias de substâncias psicoativas, a atuação profissional deve incluir escuta qualificada, aconselhamento, vinculo terapêutico e caminhamento adequado.

A abordagem dede ser livre de julgamentos, centrada na dignidade humana e nos princípios do SUS (GIUGLIANI, E.R.J, 2016). Segundo diretrizes nacionais (BRASIL, 2023), o objetivo principal é oferecer orientações seguras, promover a saúde materno-infantil e evitar práticas que coloquem em risco o desenvolvimento do bebê.

A literatura evidencia que intervenções educativas realizadas por enfermeiros aumentam a taxa de amamentação exclusiva e reduzem complicações mamárias, especialmente quando associadas à escuta ativa e ao vínculo com a família (Kramer et al., 2001; Boccolini et al., 2015).

3. METODOLOGIA

Para a construção desta revisão integrativa, adotou-se o protocolo clássico composto por seis etapas. Primeiramente, delimitou-se o objeto de estudo e a questão de pesquisa, estabelecendo em seguida os critérios de inclusão e exclusão de literatura. A terceira e quarta etapas consistiram na seleção sistemática das publicações e na organização analítica das informações coletadas. Concluiu-se o processo com o exame crítico dos dados e a elaboração da síntese que compõe este estudo.

A condução do trabalho teve como ponto de partida a elaboração da pergunta de pesquisa. A fase seguinte correspondeu ao levantamento bibliográfico para a captação dos dados, realizado por meio de buscas direcionadas nas seguintes fontes: LILACS, MEDLINE, PubMed, BDENF e na biblioteca virtual SciELO.

A estratégia de busca adotada foi a utilização do operador boleano “AND” e o uso dos descritores identificados por meio do DECs e MeSH: aleitamento materno, transtornos relacionados ao uso de substâncias, enfermagem e educação em saúde.

Os critérios de inclusão empregados para a busca foram: artigos originais, na integra, em português, inglês e espanhol, publicados entre os anos de 2015 e 2025.

A estratégia de busca foi realizada por meio da combinação dos descritores previamente definidos com operadores booleanos, possibilitando a identificação inicial dos estudos potencialmente relevantes. Em seguida, procedeu-se à análise dos títulos, resumos e palavras-chave, com o objetivo de verificar a pertinência dos artigos em relação à temática proposta e aos critérios estabelecidos para a pesquisa. Os estudos considerados elegíveis nessa etapa foram obtidos na íntegra e submetidos à leitura completa, permitindo uma avaliação aprofundada de seu conteúdo para compor a amostra final da revisão.

Foram excluídos os artigos duplicados, os que não atendiam à questão norteadora e os estudos de caso, após isso, ao final do processo obteve-se o quantitativo de 09 artigos. (Fig. 1)

Figura 1. Fluxograma do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão integrativa, 2026.

Fonte: Própria autora, 2026

A terceira etapa consistiu no agrupamento temático dos artigos, os quais foram previamente sintetizados em consonância com as metas de cada investigação.

Na quarta etapa, apresentamos os resultados textualmente por meio de uma abordagem descritiva, complementando-os com o uso de tabela.

Na quinta etapa, interpretamos e discutimos os dados encontrados, culminando, na fase final, com a estruturação do documento de síntese e a apresentação deste estudo de revisão.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Dentre os 09 estudos selecionados, temos um publicado em 2015, um em 2018, um em 2019, dois em 2020, dois em 2023 e um em 2022. A maioria dos estudos que estavam disponíveis nas bases de dados estavam em língua portuguesa (05), foram encontrados 04 em língua inglesa, não foram encontrados estudos em língua espanhola. Na Tabela 1 são apresentados os dados sobre os 09 artigos incluídos na revisão.

Tabela 1. Síntese dos estudos Selecionados, 2026.

Ano/Idioma

Titulo

Tipo de estudo

Objetivo

Resultado

Contribuições

2015 / Inglês

ABM clinical protocol #21: guidelines for breastfeeding and substance use or substance use disorder, revised 2015

Protocolo clínico baseado em revisão da literatura e consenso de especialistas

Elaborar diretrizes para amamentação em mulheres com uso de substâncias psicoativas e transtorno por uso de substâncias.

A amamentação deve ser avaliada individualmente conforme o tipo de substância, tempo de abstinência, tratamento e condições maternas.

Reforça a necessidade de orientação individualizada, redução de danos e aconselhamento realizado por enfermeiros.

2018 / Português

The Pregnancy Recovery Center: A women-centered treatment program for pregnant and postpartum women with opioid use disorder

Estudo de Coorte

Avaliar o impacto de programas de tratamento para abuso de substâncias centrados na mulher sobre os resultados em gestantes com transtorno por uso de opioides (TUO).

O programa melhorou a adesão ao tratamento durante a gestação e ao acompanhamento pós-parto, evidenciando a eficácia de intervenções individualizadas, educação em saúde e assistência multidisciplinar centrada na paciente.

A incorporação de serviços centrados na mulher em programas de tratamento para transtorno por uso de opioides pode melhorar os resultados específicos para mulheres com esse transtorno.

2019 / Português

A exposição de substâncias na gestação e lactação

Revisão de literatura

Apresentar as substâncias e seus possíveis efeitos que podem causar para a mãe e/ou bebê.

O uso dos medicamentos e a exposição de substâncias específicas durante a gestação e lactação deve exigir extrema atenção.

Ressalta a necessidade de educação em saúde sobre os riscos do uso de medicamentos e substâncias na gestação e lactação para promover a segurança e a saúde materno-fetal.

2020 / Português

Atuação do enfermeiro na orientação do aleitamento materno exclusivo

Revisão Integrativa

Discutir a atuação do enfermeiro na orientação materno – infantil.

Intervenções educativas aumentam a adesão ao aleitamento e fortalecem o vínculo entre profissional e puérpera.

Sustenta o desenvolvimento de protocolos educativos específicos para mães usuárias de substâncias.

2020/ Português

Estratégias de cuidado às gestantes e puérperas usuárias de substâncias psicoativas: revisão integrativa

Revisão Integrativa

Analisar a produção de conhecimento acerca das estratégias de cuidado direcionadas às gestantes e puérperas usuárias de substâncias psicoativas.

Como estratégias de cuidado, identificaram-se: captação precoce na atenção pré-natal, ações de educação em saúde, acompanhamento nutricional, Terapia de Substituição e Terapia Cognitivo Comportamental.

Necessidade de educação permanente de profissionais de saúde, no sentido de qualificar a captação precoce e ofertar acolhimento sensível às demandas e especificidades de saúde de gestantes e puérperas usuárias de substâncias psicoativas.

2021 / Português

Nutrizes usuárias de drogas e o desfecho da amamentação: estudo de coorte

Estudo de Coorte

Conhecer o desfecho do aleitamento materno de mães usuárias de drogas lícitas e ilícitas, verificar a gravidade da dependência e relacionar com o tempo de aleitamento.

A média de aleitamento foi de 28,8 dias.

O consumo de drogas, mesmo lícitas, representa um risco para o desmame precoce.

2022 / Português

Vulnerabilidade de gestantes usuárias de álcool e outras drogas em pré-natal de baixo risco

Estudo qualitativo

Verificar os contextos que potencializam as dimensões de vulnerabilidade individual, social e programática associadas ao uso de álcool e outras drogas durante a gravidez

Vulnerabilidades nos planos social, individual e programático

O (re)conhecimento destes contextos possibilita a formulação de estratégias de redução de danos e de agravos à saúde materno fetal relacionados ao uso de drogas durante a gravidez, conduzindo a um desfecho gestacional favorável.

2023 / Inglês

Academy of Breastfeeding Medicine Clinical Protocol #21: Breastfeeding in the Setting of Substance Use and Substance Use Disorder (Revised 2023)

Revisão sistemática das evidências e consenso internacional.

Atualizar recomendações para amamentação em mulheres com transtorno por uso de substâncias.

Recomenda planos individualizados, educação em saúde, suporte contínuo, abordagem multidisciplinar e livre de julgamentos.

Constitui uma das principais referências atuais para a atuação do enfermeiro junto às mães usuárias de substâncias psicoativas.

2023 / Inglês

Substance Use in Pregnancy

Revisão sistemática

Destacar a importância da identificação precoce do uso de substâncias na gestação por meio de instrumentos validados, da implementação de tratamentos baseados em evidências e da atuação multiprofissional no aconselhamento e apoio às gestantes para melhorar os desfechos maternos e neonatais.

A educação, o aconselhamento e o monitoramento da paciente não terminam com o parto. Mulheres com transtorno por uso de substâncias (TUS) apresentam alto risco de recaída pós-parto e devem ser informadas sobre os perigos de retomar o uso de substâncias após o parto. 

A educação da paciente inclui informações e acesso a recursos para transporte, moradia segura, segurança alimentar, cuidados infantis e contracepção. O aconselhamento com foco em trauma e os grupos de apoio à recuperação por pares também podem melhorar as chances de sobriedade após o parto.

Fonte: Própria autora, 2026.

Os achados dos estudos analisados evidenciam que o aleitamento materno no contexto do uso de substâncias psicoativas constitui uma problemática complexa, que envolve aspectos clínicos, sociais, psicológicos e assistenciais. Embora o aleitamento materno seja reconhecido como uma prática fundamental para a saúde e o desenvolvimento infantil, sua manutenção entre mulheres que fazem uso de substâncias psicoativas é influenciada tanto pelos riscos relacionados à exposição do lactente quanto pelas condições de vulnerabilidade vivenciadas pelas mães.

Essa realidade é corroborada pelo estudo de Marangoni et al. (2022), que identificou diferentes dimensões de vulnerabilidade entre gestantes usuárias de álcool e outras drogas. Entre os aspectos individuais e sociais destacaram-se baixa escolaridade, alta paridade, pobreza, relações intrafamiliares abusivas, comportamento aditivo na família e violência comunitária. No âmbito programático, foram observados baixa procura pelos serviços de saúde, ausência de acolhimento para tratamento do uso de drogas, rastreamento insuficiente, fragilidade do vínculo com as equipes de saúde da família e ausência de assistência multiprofissional.

A vulnerabilidade identificada demonstra que a dificuldade de acesso a informações e cuidados não pode ser atribuída exclusivamente à decisão individual da mulher em relação ao consumo de substâncias. Os fatores sociais e programáticos interferem diretamente na possibilidade de adesão ao pré-natal, no acesso ao tratamento e, posteriormente, na construção de práticas seguras de amamentação. Além disso, a gestação em mulheres usuárias de substâncias frequentemente é acompanhada por coexposição ao tabaco e álcool, nutrição inadequada e alta prevalência de transtornos psiquiátricos (Prince et al.; Bartholomew & Lee). O estudo de Marangoni et al. (2022) evidencia ainda que algumas mulheres não revelam o uso de álcool e outras drogas aos profissionais por medo, tabus e preconceitos, além de apresentarem baixa vinculação aos serviços de saúde.

Nesse contexto, a educação em saúde desenvolvida pela enfermagem assume papel estratégico. A atuação do enfermeiro na orientação do aleitamento materno demonstra que esse profissional exerce função de educador e promotor da saúde, especialmente durante o pré-natal e o puerpério. Entretanto, os resultados também apontam para a necessidade de treinamento sistemático e contínuo dos profissionais sobre aleitamento materno e manejo da lactação, uma vez que o conhecimento científico e a educação permanente são considerados fundamentais para qualificar a assistência e adequar as ações às necessidades individuais das nutrizes (SANTOS, 2020).

Ao relacionar esse aspecto às mães usuárias de substâncias psicoativas, percebe-se que a educação em saúde precisa ultrapassar orientações generalizadas sobre os benefícios do aleitamento. É necessário que o enfermeiro esteja preparado para abordar questões relacionadas ao consumo de substâncias de maneira acolhedora, ética e não julgadora, favorecendo a construção de vínculo e possibilitando que a mulher relate seu padrão de consumo com maior segurança. Essa abordagem é particularmente relevante porque o estigma e o preconceito podem contribuir para que o uso de substâncias permaneça oculto durante o acompanhamento gestacional e puerperal, dificultando a identificação dos riscos e a oferta de cuidados adequados.

A necessidade de superar uma assistência baseada em julgamentos é reforçada pelos achados de Ribeiro e Fernandes (2021), que observaram que algumas mães usuárias de drogas percebiam tratamento diferenciado por parte dos profissionais de saúde, aspecto que pode contribuir para o afastamento e para a perda de seguimento. Os autores destacam, portanto, a importância de garantir suporte adequado a essas mulheres, considerando que a baixa qualidade dos serviços oferecidos às pessoas que fazem uso de drogas pode dificultar a continuidade do cuidado e a proteção da saúde materna e infantil.

Dessa forma, a educação em saúde proposta pela enfermagem deve estar integrada a uma assistência pautada no acolhimento e na redução de danos. A identificação precoce do uso de substâncias durante o pré-natal representa uma oportunidade para estabelecer vínculo com a mulher, compreender sua realidade e iniciar orientações que possam contribuir para a proteção materna e infantil. Nesse sentido, o rastreamento do consumo de álcool e outras drogas durante o acompanhamento pré-natal mostra-se relevante, sobretudo diante das fragilidades identificadas na assistência e na identificação dessas gestantes (MARANGONI et al., 2022).

Estudo realizado com puérperas usuárias de drogas lícitas e ilícitas identificou que essas mulheres eram capazes de iniciar e manter o aleitamento materno, inclusive aquelas que apresentavam uso abusivo de maconha e cocaína (RIBEIRO; FERNANDES, 2021). Entretanto, o consumo abusivo de álcool e tabaco esteve associado a maior risco de interrupção da amamentação, evidenciando que o uso de substâncias pode constituir um fator relacionado ao desmame precoce. O estudo também identificou média de 28,8 dias de aleitamento materno exclusivo durante o período de acompanhamento, resultado inferior à mediana nacional apresentada pelos autores, além de apontar dificuldades de continuidade do acompanhamento dessas mulheres nos serviços de saúde (RIBEIRO; FERNANDES, 2021).

Outro aspecto relevante refere-se à exposição do feto e do lactente às substâncias utilizadas pela mãe. A literatura ressalta que determinadas substâncias podem atravessar a placenta durante a gestação e estar presentes no leite materno, podendo representar riscos para o bebê (BORSON et al., 2019). Os autores reforçam a importância de que profissionais e mães tenham conhecimento sobre os possíveis riscos relacionados à exposição, de modo que as decisões sejam tomadas considerando a segurança materno-infantil (BORSON et al., 2019)

Analisando substâncias específicas:

  • Opioides e Terapia de Substituição: Para gestantes com transtorno de uso de opioides, o tratamento de manutenção com metadona ou buprenorphine é o padrão-ouro (Prince et al.). A literatura aponta que as concentrações dessas medicações no leite humano são baixas. O aleitamento materno sob uso de metadona ou buprenorphine deve ser ativamente incentivado, pois reduz a gravidade e a duração da Síndrome de Abstinência Neonatal (SAN), diminuindo a necessidade de intervenção farmacológica no recém-nascido.

  • Cannabis (THC): O $\Delta^9$-tetrahidrocanabinol (THC) é altamente lipofílico, transferindo-se para o leite materno em concentrações até oito vezes superiores às plasmáticas. Devido à sua longa meia-vida e ao papel do sistema endocanabinóide no desenvolvimento do sistema nervoso central, recomenda-se cautela extrema, redução ou abstinência.

  • Álcool e Tabaco: O álcool altera o reflexo de ejeção de leite. Recomenda-se aguardar pelo menos 2 horas após a ingestão de uma dose padrão para amamentar. Quanto ao tabaco, embora a nicotina seja transferida pelo leite e haja riscos associados ao fumo passivo, a orientação das principais diretrizes é manter a amamentação enquanto se oferece suporte para a cessação tabágica.

  • Uso Ativo de Drogas Ilícitas Crônicas: O uso ativo e não tratado de cocaína, crack, fenciclidina (PCP) ou o descontrole grave do consumo constituem contraindicações formais ao aleitamento devido ao risco de intoxicação direta do recém-nascido e comprometimento da capacidade materna de cuidar do bebê em segurança.

Esses resultados reforçam que a abordagem das mães usuárias de substâncias psicoativas não deve se limitar à recomendação estanque de interromper ou manter o aleitamento. A complexidade da situação exige avaliação individualizada, considerando a substância utilizada, frequência e padrão de consumo, condições clínicas da mãe e do recém-nascido, possibilidade de exposição do lactente e capacidade materna de garantir cuidados seguros.

Essa perspectiva é defendida pela Academy of Breastfeeding Medicine, que recomenda planos de cuidado individualizados, construídos em parceria com a mulher e uma equipe multiprofissional, com suporte clínico e acompanhamento contínuo (ACADEMY OF BREASTFEEDING MEDICINE, 2015; 2023). O documento enfatiza a importância da educação sobre o uso de substâncias durante a gestação e a lactação para possibilitar uma orientação centrada na paciente (ACADEMY OF BREASTFEEDING MEDICINE, 2023).

A necessidade de uma abordagem individualizada torna-se ainda mais evidente diante da ausência de consenso apresentada na literatura sobre o aleitamento materno em mulheres que fazem uso de substâncias ilícitas. Os estudos apontam divergências entre recomendações de diferentes instituições e especialistas, situação que pode dificultar a tomada de decisão dos profissionais de saúde (RIBEIRO; FERNANDES, 2021). Além disso, algumas mulheres apresentam dificuldade para interromper o consumo ou estabelecer intervalos considerados seguros entre o uso da substância e a amamentação, o que aumenta a complexidade das orientações e evidencia a necessidade de acompanhamento especializado (RIBEIRO; FERNANDES, 2021).

Nesse sentido, a atuação do enfermeiro e da equipe de saúde deve contemplar não apenas a transmissão de informações, mas também o desenvolvimento de estratégias educativas individualizadas. A literatura sobre a atuação da enfermagem no aleitamento materno destaca que o profissional deve conhecer as experiências, os saberes e as condições de vida da mulher e de sua família para desenvolver ações capazes de promover, proteger e apoiar a amamentação (SANTOS, 2020). O preparo profissional e a educação permanente são considerados indispensáveis para uma assistência humanizada e qualificada (SANTOS, 2020).

Modelos centrados na mulher, como o The Pregnancy Recovery Center (Prince et al.), e revisões integrativas sobre o tema (Estratégias de cuidado...; Bartholomew & Lee) corroboram a visão da ABM (2015; 2023), apontando critérios práticos de elegibilidade:

Tabela 2. Critérios Favoráveis e Critérios de Contraindicação, 2026.

Critérios Favoráveis ao Incentivo da Amamentação

Critérios para Contraindicação / Cautela Elevada

Envolvimento e adesão documentada a programas de tratamento de adicção/saúde mental.

Ausência de vínculo ou recusa em participar de acompanhamento/tratamento.

Sobriedade/Abstinência mantida por pelo menos 90 dias antes do parto.

Teste toxicológico positivo na admissão para o parto para substâncias não prescritas.

Toxina urinária negativa no momento do parto.

Recaída ativa para substâncias ilícitas nos 30 dias anteriores ao parto.

Consentimento informado para troca de informações entre a equipe de obstetrícia/pediatria e o centro de tratamento.

Falta de suporte familiar/comunitário e ausência de plano de acompanhamento pediátrico.

Fonte: Própria autora, 2026.

Assim, os estudos analisados permitem compreender que a educação em saúde da enfermagem para mães usuárias de substâncias psicoativas deve ser fundamentada em uma abordagem individualizada, acolhedora, não estigmatizante e multiprofissional. As orientações devem considerar os riscos e benefícios do aleitamento em cada situação, a substância utilizada, o padrão de consumo e as condições de saúde da mãe e do bebê, sem desconsiderar os determinantes sociais que interferem na capacidade da mulher de manter práticas seguras (ACADEMY OF BREASTFEEDING MEDICINE, 2023).

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise integrativa dos dados evidenciou que a manutenção do aleitamento materno por mães usuárias de substâncias psicoativas é um fenômeno multifatorial, diretamente influenciado por aspectos clínicos, éticos, psicológicos e determinantes sociais de saúde. As análises demonstraram que mães usuárias de drogas lícitas e ilícitas possuem capacidade de iniciar e manter a amamentação, inclusive em cenários de uso de cannabis e cocaína, o consumo abusivo de álcool e tabaco atua como um forte preditor de desmame precoce e reduz significativamente o tempo de aleitamento materno exclusivo, a estigmatização, o julgamento profissional e a frágil rede de suporte no serviço de saúde são os principais fatores que afastam essas mulheres do acompanhamento pós-parto e do pré-natal.

Portanto, o modelo assistencial tradicional (baseado no julgamento e em proibições sumárias) é ineficaz e contribui para o desmame precoce e ocultamento do uso de drogas. A atuação da enfermagem pautada na redução de Danos, na educação em saúde e na criação de vínculos acolhedores maximiza os benefícios do aleitamento e reduz os riscos de exposição infantil.

O estudo consolida a literatura científica ao integrar a farmacocinética da exposição via leite materno aos determinantes sociais e à vulnerabilidade programática. Fortalece o arcabouço teórico que defende a superação da abordagem punitiva em favor de modelos centrados na mulher e na redução de danos e oferece um guia reflexivo e instrumental para enfermeiros e equipes multiprofissionais, fornecendo tabelas de elegibilidade e reforçando a necessidade do rastreamento precoce sem estigma durante o pré-natal. A trabalho propicia a aplicação direta de estratégias educativas que protegem a autonomia materna e garantem a segurança do lactente.

Como limitação intrínseca ao problema investigado, destaca-se a acentuada escassez de pesquisas clínicas longitudinais e estudos farmacocinéticos diretos com lactantes e recém-nascidos — consequência dos óbvios dilemas éticos que envolvem a testagem em populações vulneráveis. Ademais, a subnotificação do uso de substâncias pelas gestantes (devido ao medo da perda da guarda do bebê ou de sanções legais) limita a precisão da amostragem e a mensuração exata do padrão de consumo nos estudos primários analisados.

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