REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781827621
RESUMO
O uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina tem aumentado significativamente devido à elevada carga acadêmica, privação do sono e pressão por desempenho. Substâncias como metilfenidato, modafinil e anfetaminas são frequentemente utilizadas sem prescrição médica com a finalidade de melhorar concentração, produtividade e rendimento acadêmico, apesar dos riscos associados ao seu consumo. Este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas acerca do uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina, identificando as principais substâncias utilizadas, fatores associados ao consumo e repercussões sobre o desempenho acadêmico e a saúde mental. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem quali-quantitativa, realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, SciELO, Web of Science, LILACS e EBSCOhost. Foram incluídos estudos publicados entre 2016 e 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol. Ao final da seleção, 25 estudos compuseram a amostra. Observou-se predominância de delineamentos transversais, com maior concentração de publicações provenientes dos Estados Unidos e do Brasil. O uso não prescrito de psicoestimulantes foi identificado em 96% dos estudos, sendo o metilfenidato a substância mais frequentemente investigada. A principal motivação para o consumo foi a busca por melhor desempenho acadêmico. Entre os efeitos adversos relatados destacaram-se ansiedade, insônia, irritabilidade, alterações cardiovasculares e dependência psicológica. Conclui-se que o uso indiscriminado de psicoestimulantes representa importante desafio para a saúde estudantil, reforçando a necessidade de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental e ao uso racional dessas substâncias.
Palavras-chave: Psicoestimulantes; Estudantes de Medicina; Desempenho acadêmico; Saúde mental; Automedicação.
ABSTRACT
The non-prescribed use of psychostimulants among medical students has increased significantly due to academic overload, sleep deprivation, and pressure to achieve high academic performance. Substances such as methylphenidate, modafinil, and amphetamines are frequently used without medical prescription to enhance concentration, productivity, and academic achievement, despite the risks associated with their misuse. This study aimed to analyze the scientific evidence regarding the indiscriminate use of psychostimulants among medical students, identifying the main substances used, factors associated with consumption, and their effects on academic performance and mental health. An integrative literature review with a descriptive and qualitative-quantitative approach was conducted using the PubMed/MEDLINE, Scopus, SciELO, Web of Science, LILACS, and EBSCOhost databases. Studies published between 2016 and 2026 in Portuguese, English, and Spanish were included. A total of 25 studies met the eligibility criteria and were included in the review. Cross-sectional studies predominated, with most publications originating from the United States and Brazil. Non-prescribed psychostimulant use was identified in 96% of the studies, with methylphenidate being the most frequently investigated substance. The primary motivation for use was the pursuit of improved academic performance. Reported adverse effects included anxiety, insomnia, irritability, cardiovascular alterations, and psychological dependence. The findings indicate that the indiscriminate use of psychostimulants represents an important challenge to student health, highlighting the need for institutional strategies focused on mental health promotion, prevention of self-medication, and the rational use of these substances.
Keywords: Psychostimulants; Medical Students; Academic Performance; Mental Health; Self-Medication.
1. INTRODUÇÃO
O uso de psicoestimulantes tem se tornado um fenômeno crescente no contexto universitário, especialmente entre estudantes de cursos caracterizados por elevada carga horária e intensa demanda cognitiva, como a graduação em Medicina. Essas substâncias, entre as quais se destacam o metilfenidato, o modafinil e as anfetaminas, possuem indicações terapêuticas específicas para condições como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e narcolepsia. Entretanto, diversos estudos nacionais e internacionais demonstram que seu consumo tem ocorrido também entre indivíduos sem diagnóstico clínico, motivado principalmente pela busca de aprimoramento cognitivo, aumento da concentração, prolongamento do tempo de estudo e melhora do desempenho acadêmico (Bulfone G et al, 2025; Becker M et al, 2022).
A expansão desse fenômeno está associada às transformações contemporâneas nos ambientes acadêmicos, marcados pela valorização da produtividade, da competitividade e do desempenho individual. Nesse contexto, observa-se o crescimento da utilização de medicamentos como estratégia para potencializar capacidades cognitivas e enfrentar demandas educacionais cada vez mais intensas. Estudos apontam que estudantes universitários, especialmente aqueles vinculados à área da saúde, apresentam maior vulnerabilidade ao consumo não prescrito de psicoestimulantes quando comparados a estudantes de outras áreas do conhecimento (Acosta DL et al, 2022; Antshel KM et al, 2025).
A formação médica é reconhecida por exigir dedicação intensa, longos períodos de estudo, elevada carga de atividades teóricas e práticas, além de frequentes situações de estresse e privação do sono. Pesquisas demonstram que estudantes de Medicina apresentam prevalências significativas de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e sofrimento psíquico, fatores frequentemente associados ao uso de substâncias psicoativas e à automedicação como mecanismos de enfrentamento das exigências acadêmicas (Bacos BG et al, 2024; Noorine E et al, 2021). Além disso, a pressão por desempenho, o receio do fracasso acadêmico e a competitividade presente durante a graduação têm sido apontados como fatores que favorecem a busca por recursos farmacológicos capazes de aumentar a capacidade de concentração e resistência à fadiga (Sharif S et al, 2021; Mendes TC et al, 2025).
Diversos estudos realizados no Brasil evidenciam que o uso não terapêutico de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina constitui uma realidade crescente. As prevalências relatadas variam entre diferentes instituições e regiões do país, porém indicam que parcela significativa dos estudantes já utilizou ou conhece colegas que utilizaram medicamentos estimulantes sem prescrição médica, principalmente durante períodos de provas e avaliações acadêmicas (Minozzi S et al, 2016; Oliva HNP et al, 2025). Entre as substâncias mais frequentemente consumidas destaca-se o metilfenidato, amplamente conhecido por sua ação estimulante sobre o sistema nervoso central e pelo potencial de promover aumento temporário do estado de alerta e da atenção (Moreira JE et al, 2024).
Apesar dos benefícios subjetivos relatados pelos usuários, a literatura científica demonstra que os efeitos do uso indiscriminado dessas substâncias permanecem controversos. Evidências sugerem que os ganhos cognitivos observados em indivíduos saudáveis são limitados e variáveis, enquanto os riscos associados incluem insônia, taquicardia, hipertensão arterial, ansiedade, irritabilidade, dependência psicológica e prejuízos à saúde mental (Alvarenga JV et al, 2023; Ipekoglu HY et al, 2023). Além dos impactos físicos e psicológicos, o uso de psicoestimulantes para aprimoramento do desempenho acadêmico suscita importantes discussões éticas relacionadas à medicalização da vida cotidiana, à equidade entre estudantes e aos limites do aprimoramento cognitivo farmacológico (Repantis D et al, 2021).
Diante desse cenário, o presente estudo delimita-se à análise do uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina, com foco nos fatores associados ao consumo, nos benefícios percebidos pelos usuários e nas repercussões para a saúde mental e o desempenho acadêmico. Assim, surge a seguinte questão norteadora: quais são os principais fatores que contribuem para o uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina e quais repercussões esse comportamento pode ocasionar para a saúde e para a formação acadêmica desses indivíduos?
Parte-se da hipótese de que a elevada competitividade acadêmica, a pressão por produtividade, a privação do sono e o sofrimento psíquico vivenciados durante a graduação médica favorecem o consumo não prescrito de psicoestimulantes. Além disso, pressupõe-se que, embora muitos estudantes relatem benefícios subjetivos relacionados ao aumento da concentração e do rendimento acadêmico, os riscos associados ao uso indiscriminado dessas substâncias podem superar os possíveis ganhos cognitivos, contribuindo para problemas físicos, emocionais e comportamentais.
O objetivo geral deste estudo foi analisar criticamente as evidências científicas disponíveis acerca do uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina. Como objetivos específicos, buscou-se identificar as principais substâncias utilizadas, compreender as motivações relacionadas ao consumo, avaliar os impactos sobre o desempenho acadêmico e a saúde mental, além de discutir aspectos éticos e processos de medicalização associados ao uso não terapêutico desses medicamentos.
A relevância desta pesquisa está relacionada à crescente disseminação do uso de psicoestimulantes no ambiente universitário e às possíveis consequências desse comportamento para a saúde dos estudantes e para a formação dos futuros profissionais médicos. A compreensão dos fatores envolvidos nesse fenômeno pode contribuir para a elaboração de estratégias de prevenção, promoção da saúde mental, educação farmacológica e incentivo ao uso racional de medicamentos entre estudantes da área da saúde.
Para alcançar os objetivos propostos, foi realizada uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva e exploratória, com abordagem quali-quantitativa. A busca dos estudos foi conduzida em bases de dados nacionais e internacionais, utilizando descritores relacionados aos psicoestimulantes, estudantes de Medicina, desempenho acadêmico, saúde mental e uso não prescrito de medicamentos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, os estudos selecionados foram submetidos à análise temática e síntese crítica dos resultados.
Quanto à estrutura, este trabalho encontra-se dividido em cinco partes principais. A primeira corresponde à presente introdução, que contextualiza o tema e apresenta os objetivos da pesquisa. A segunda parte descreve os procedimentos metodológicos utilizados. A terceira apresenta os resultados obtidos a partir da análise dos estudos incluídos. A quarta contempla a discussão dos achados à luz da literatura científica. Por fim, a quinta reúne as considerações finais, destacando as principais conclusões do estudo, suas limitações e perspectivas para futuras pesquisas.
2. METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, conduzida com o objetivo de analisar as evidências científicas relacionadas ao uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina. A metodologia foi estruturada segundo as recomendações do PRISMA e compreendeu as etapas de definição da questão norteadora, busca bibliográfica, seleção dos estudos, extração dos dados, análise crítica e síntese dos resultados.
2.1. Desenho do Estudo
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva, exploratória e abordagem quali-quantitativa, desenvolvida com o objetivo de analisar criticamente as evidências científicas relacionadas ao uso indiscriminado de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina, especialmente no que se refere às repercussões sobre desempenho acadêmico, saúde mental, motivação para uso, efeitos adversos e processos de medicalização do ambiente universitário.
A revisão integrativa foi escolhida por permitir a síntese ampla de diferentes delineamentos metodológicos, incluindo estudos observacionais, revisões sistemáticas, revisões integrativas, ensaios clínicos, meta-análises e pesquisas qualitativas, favorecendo compreensão abrangente e crítica do fenômeno investigado.
A condução metodológica foi baseada nas recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), contemplando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos.
2.2. Estratégia de Busca nas Bases de Dados
A busca bibliográfica foi realizada entre fevereiro e março de 2026 nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, SciELO, LILACS e EBSCOhost, selecionadas em razão de sua relevância na indexação de estudos biomédicos, epidemiológicos e educacionais relacionados ao uso de substâncias psicoativas e desempenho acadêmico.
A construção das estratégias de busca foi baseada na combinação de descritores controlados Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), associados a termos livres e sinônimos relacionados ao tema investigado. Os principais descritores utilizados incluíram: “Central Nervous System Stimulants”; “Methylphenidate”; “Modafinil”; “Students, Medical”; “Drug Misuse”; “Academic Performance”; “Mental Health”; “Self Medication”; “Psicoestimulantes”; “Metilfenidato”; “Estudantes de Medicina”; “Uso Indevido de Medicamentos”; “Saúde Mental”; “Desempenho Acadêmico”.
Além dos descritores controlados, foram utilizados termos livres e sinônimos para ampliação da sensibilidade da busca, incluindo psychostimulants, smart drugs, cognitive enhancers, study drugs, nonmedical use, self-medication, stimulant misuse, automedicação e estimulantes cognitivos. Os descritores foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, respeitando as especificidades de indexação de cada base de dados. Entre as principais estratégias utilizadas destacou-se: ("Central Nervous System Stimulants" OR psychostimulants OR methylphenidate OR modafinil) AND ("Students, Medical" OR "medical students") AND ("Drug Misuse" OR "nonmedical use" OR self-medication) AND ("Academic Performance" OR cognition OR mental health).
Na plataforma EBSCOhost foram empregados mecanismos específicos de busca por assunto (Subject Terms) e texto livre (Text Words), utilizando combinações estruturadas entre descritores relacionados aos psicoestimulantes, estudantes de Medicina, uso não prescrito e desempenho acadêmico.
Foram aplicados filtros para idioma (português, inglês e espanhol) e período de publicação entre 2016 e 2026, priorizando estudos contemporâneos relacionados ao uso de psicoestimulantes no contexto universitário.
2.3. Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos estudos publicados entre 2016 e 2026, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem o uso de psicoestimulantes por estudantes universitários, especialmente estudantes de Medicina, contemplando aspectos relacionados ao desempenho acadêmico, motivação para uso, saúde mental, alterações do sono, efeitos adversos ou processos de medicalização associados ao consumo dessas substâncias. Foram aceitos estudos observacionais, revisões sistemáticas, revisões integrativas, ensaios clínicos, meta-análises, pesquisas qualitativas e estudos de coorte.
Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, resumos de congresso, estudos duplicados, pesquisas não relacionadas ao contexto universitário e estudos voltados exclusivamente ao uso terapêutico de psicoestimulantes em pessoasa previamente diagnosticados com transtornos neuropsiquiátricos, sem discussão sobre uso indiscriminado ou aprimoramento cognitivo.
2.4. Processo de Seleção dos Estudos
O processo de seleção dos estudos ocorreu em etapas sucessivas, seguindo o modelo PRISMA. Inicialmente, os artigos identificados nas bases de dados foram organizados em planilha automatizada desenvolvida especificamente para esta revisão. Em seguida, realizou-se leitura dos títulos e resumos para exclusão de estudos duplicados e trabalhos incompatíveis com os critérios de elegibilidade previamente estabelecidos.
Posteriormente, os estudos potencialmente relevantes foram submetidos à leitura integral para avaliação final quanto à elegibilidade. Os artigos incluídos na revisão integrativa foram então organizados em matriz de evidência estruturada, permitindo rastreabilidade metodológica, padronização das informações e síntese analítica dos dados.
2.5. Extração e Organização dos Dados
A extração dos dados foi realizada por meio de matriz de evidência automatizada elaborada no Microsoft Excel, estruturada para contemplar variáveis metodológicas, bibliométricas e analíticas dos estudos incluídos.
Foram coletadas informações referentes ao autor, ano de publicação, país de origem, base de dados, delineamento metodológico, tamanho amostral, população investigada, substância estudada, contexto de uso, motivação para consumo, desfechos relacionados ao desempenho acadêmico, impactos sobre saúde mental, alterações do sono, efeitos adversos, limitações metodológicas e nível de evidência científica.
A matriz também incorporou mecanismos automatizados de categorização temática, contagem de frequências, organização de quadros descritivos e síntese preliminar dos achados, favorecendo maior robustez metodológica e padronização analítica.
2.6. Análise Estatística e Síntese Temática
Os dados quantitativos foram analisados no software Jamovi®, versão 2.6, por meio de análises estatísticas descritivas, incluindo cálculo de frequências absolutas e relativas, médias, medianas, desvios-padrão e intervalos de distribuição das variáveis contínuas.
Também foram realizadas análises de associação exploratórias utilizando tabelas de contingência e teste do qui-quadrado de Pearson, considerando relações entre tipo de estudo, nível de evidência, substância investigada, categorias temáticas e distribuição temporal das publicações.
Considerando o caráter integrativo da revisão e o número reduzido de estudos incluídos, os testes inferenciais foram interpretados de maneira exploratória, priorizando-se a análise descritiva e a interpretação crítica dos achados.
Paralelamente à análise quantitativa, foi conduzida síntese temática interpretativa dos estudos incluídos, permitindo identificar os principais núcleos analíticos relacionados ao uso indiscriminado de psicoestimulantes no ambiente universitário. As categorias temáticas emergentes concentraram-se predominantemente em desempenho acadêmico, motivação para uso, saúde mental, efeitos adversos e processos de ética e medicalização.
2.7. Aspectos Éticos
Por tratar-se de uma revisão integrativa baseada exclusivamente em dados secundários disponíveis em bases públicas e científicas, sem envolvimento direto de seres humanos, o presente estudo não necessitou de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde
Entretanto, todos os princípios éticos relacionados à integridade científica, rastreabilidade metodológica, transparência analítica e adequada citação das fontes foram rigorosamente respeitados ao longo do desenvolvimento da pesquisa.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1. Caracterização Geral dos Estudos Incluídos
A revisão integrativa incluiu 25 estudos selecionados após aplicação dos critérios de elegibilidade e organização metodológica segundo o fluxograma PRISMA, mostrado na Figura 1. Observou-se distribuição temporal relativamente recente das publicações, com estudos publicados entre 2016 e 2026, apresentando média de publicação em 2021 e mediana igualmente correspondente ao ano de 2021. A amostra dos estudos demonstrou elevada heterogeneidade metodológica, variando de 7 a 14.183 participantes, com média amostral de 1.714 indivíduos e desvio-padrão de 3.391 participantes.
Figura 1 – Fluxograma Prisma.
A distribuição temporal evidenciou maior concentração de publicações nos anos de 2021 e 2025, como mostrado no Gráfico 1, ambos representando 16,0% dos estudos incluídos, seguidos pelos anos de 2024 (12,0%) e 2017, 2019, 2020, 2022 e 2023, cada um correspondendo a 8,0% das publicações analisadas.
Gráfico 1 – Distribuição temporal das publicações incluídas na revisão integrativa sobre uso de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina.
3.2. Caracterização Metodológica dos Estudos
Quanto ao delineamento metodológico, observou-se, conforme mostrado na Tabela 1 predominância expressiva de estudos transversais, correspondendo a 48,0% (n=12) da amostra total. Revisões sistemáticas representaram 16,0% (n=4) dos estudos, enquanto revisões integrativas, ensaios clínicos e meta-análises corresponderam, individualmente, a 8,0% (n=2). Estudos qualitativos, de coorte e outras abordagens metodológicas representaram percentuais inferiores.
Tabela 1 – Frequências de Tipo de estudo
Tipo de estudo | Contadores | % do Total | % acumulada |
Coorte | 1 | 4.0% | 4.0% |
Ensaio clínico | 2 | 8.0% | 12.0% |
Meta-análise | 2 | 8.0% | 20.0% |
Outro | 1 | 4.0% | 24.0% |
Qualitativo | 1 | 4.0% | 28.0% |
Revisão integrativa | 2 | 8.0% | 36.0% |
Revisão sistemática | 4 | 16.0% | 52.0% |
Transversal | 12 | 48.0% | 100.0% |
Fonte: de acordo com os dados em mai/2026.
Os níveis de evidência demonstraram predominância de estudos classificados como nível 4 (52,0%), seguidos pelos níveis 3 (40,0%) e 5 (8,0%), indicando concentração de estudos observacionais e revisões narrativas/integrativas na literatura disponível. A Tabela 2 mostra um resumo destes resultados.
Tabela 2 – Frequências de Nível de evidência
Nível de evidência | Contadores | % do Total | % acumulada |
3 | 10 | 40.0% | 40.0% |
4 | 13 | 52.0% | 92.0% |
5 | 2 | 8.0% | 100.0% |
Fonte: de acordo com os dados em mai/2026.
A análise de contingência entre tipo de estudo e nível de evidência demonstrou associação estatisticamente significativa (χ² = 50,0; gl = 14; p < 0,001), evidenciando forte relação entre delineamento metodológico e classificação hierárquica da evidência científica. Estudos transversais concentraram-se predominantemente no nível 4 de evidência, enquanto ensaios clínicos, revisões sistemáticas e estudos de coorte apresentaram níveis metodológicos superiores. A Gráfico 2 mostra a distribuição dos estudos segundo tipo de delineamento metodológico e o respectivo quantitativo.
Gráfico 2 – Distribuição dos estudos segundo tipo de delineamento metodológico
3.3. Distribuição Geográfica da Produção Científica
Os estudos incluídos apresentaram ampla distribuição internacional, envolvendo 13 países distintos. Os Estados Unidos concentraram o maior número de publicações (36,0%; n=9), seguidos pelo Brasil (20,0%; n=5). Os demais países apresentaram frequência individual de 4,0%, incluindo Alemanha, Bélgica, Egito, França, Grécia, Holanda, Itália, Líbano, Suíça, Turquia e Arábia Saudita, como Mostrado no Gráfico 3.
Gráfico 3 – Distribuição geográfica dos estudos incluídos.
Esse achado evidencia maior concentração da produção científica em países com elevada competitividade acadêmica e ampla medicalização do desempenho universitário, particularmente em cursos da área da saúde.
3.4. Perfil das Substâncias Investigadas
No Gráfico 4, observa-se predominância expressiva de estudos abordando psicoestimulantes de maneira geral, correspondendo a 68,0% (n=17) das publicações incluídas. Metilfenidato e múltiplos estimulantes representaram, individualmente, 12,0% (n=3), enquanto anfetaminas corresponderam a 8,0% (n=2).
Além disso, identificou-se predomínio quase absoluto do uso não prescrito dessas substâncias, presente em 96,0% (n=24) dos estudos analisados, como se vê na Tabela 3, reforçando a centralidade da automedicação e da busca por aprimoramento cognitivo no ambiente acadêmico. Apenas um estudo (4,0%) abordou simultaneamente contextos prescritos e não prescritos.
Gráfico 4 – Frequência das substâncias psicoestimulantes investigadas nos estudos incluídos.
Tabela 3 – Frequências de Contexto de uso
Contexto de uso | Contadores | % do Total | % acumulada |
Ambos | 1 | 4.0% | 4.0% |
Não prescrito | 24 | 96.0% | 100.0% |
Fonte: as autoras.
3.5. Categorias Temáticas Predominantes
A análise temática demonstrou predomínio marcante da categoria “desempenho acadêmico”, presente em 80,0% (n=20) dos estudos incluídos. As demais categorias apresentaram frequências substancialmente inferiores, incluindo motivação para uso (8,0%), efeitos adversos (4,0%), saúde mental (4,0%) e ética/medicalização (4,0%), como mostrado na Tabela 4.
Tabela 4 – Frequências de Categoria temática
Categoria temática | Contadores | % do Total | % acumulada |
Desempenho acadêmico | 20 | 80.0% | 80.0% |
Efeitos adversos | 1 | 4.0% | 84.0% |
Motivação para uso | 2 | 8.0% | 92.0% |
Saúde mental | 1 | 4.0% | 96.0% |
Ética/medicalização | 1 | 4.0% | 100.0% |
Fonte: as autoras.
Esses resultados sugerem que a literatura científica ainda concentra suas investigações predominantemente nos efeitos dos psicoestimulantes sobre produtividade, concentração e rendimento acadêmico, havendo menor aprofundamento acerca das consequências éticas, psicossociais e neuropsiquiátricas associadas ao uso indiscriminado dessas substâncias.
3.6. Associação Entre Substâncias Investigadas e Categorias Temáticas
A Tabela 5 mostra que a análise de contingência entre substância investigada e categoria temática não demonstrou associação estatisticamente significativa (χ² = 13,9; gl = 12; p = 0,305). Entretanto, observou-se tendência de concentração dos estudos envolvendo metilfenidato e múltiplos estimulantes na categoria “desempenho acadêmico”, enquanto estudos que abordaram psicoestimulantes de forma ampla também contemplaram categorias relacionadas à motivação para uso, saúde mental e medicalização.
Tabela 5 – Substância investigada e categoria temática*.
| Categoria temática |
| ||||
Substância investigada | Desempenho acadêmico | Efeitos adversos | Motivação para uso | Saúde mental | Ética/medicalização | Total |
Anfetaminas | 1 | 1 | 0 | 0 | 0 | 2 |
Metilfenidato | 3 | 0 | 0 | 0 | 0 | 3 |
Múltiplos estimulantes | 3 | 0 | 0 | 0 | 0 | 3 |
Psicoestimulantes (geral) | 13 | 0 | 2 | 1 | 1 | 17 |
Total | 20 | 1 | 2 | 1 | 1 | 25 |
*Testes χ²: p=0,305.
Fonte: as autoras.
Apesar da ausência de significância estatística, os dados sugerem que diferentes substâncias tendem a ser abordadas sob perspectivas temáticas distintas na literatura científica.
3.7. Distribuição Temporal das Categorias Temáticas
O Gráfico 5 mostra que a análise temporal das categorias temáticas revelou manutenção do predomínio do desempenho acadêmico ao longo de praticamente todo o período investigado. As categorias relacionadas à saúde mental, efeitos adversos e ética/medicalização emergiram apenas em estudos mais recentes, particularmente após 2024.
Gráfico 5 – Distribuição temporal das categorias temáticas
Embora a associação entre ano de publicação e categoria temática não tenha alcançado significância estatística (χ² = 49,1; gl = 40; p = 0,154), observou-se tendência de ampliação progressiva do interesse científico por impactos psicossociais e questões éticas associadas ao uso não terapêutico de psicoestimulantes.
Os resultados desta revisão integrativa evidenciaram que o uso de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina constitui um fenômeno crescente e amplamente disseminado em diferentes contextos geográficos, especialmente em países com elevada competitividade acadêmica. A predominância de publicações provenientes dos Estados Unidos e do Brasil sugere que o tema tem despertado interesse crescente da comunidade científica, sobretudo em virtude das repercussões associadas à saúde mental, ao desempenho acadêmico e à qualidade de vida dos estudantes. Esse cenário acompanha transformações observadas na educação médica contemporânea, caracterizada por intensa carga horária, elevado volume de conteúdo, privação do sono e pressão constante por produtividade e excelência acadêmica (Alvarenga JV et al, 2023).
A análise dos estudos incluídos revelou que a principal motivação para o consumo de psicoestimulantes está relacionada à busca por melhor desempenho acadêmico. Os estudantes frequentemente relatam utilizar essas substâncias com o objetivo de aumentar a concentração, prolongar o tempo de estudo, melhorar a capacidade de memorização e reduzir os efeitos da fadiga física e mental. Esse achado reforça a hipótese de que o uso dessas substâncias não ocorre apenas por razões farmacológicas ou clínicas, mas também como resposta às exigências impostas pelo ambiente universitário. Nesse contexto, o consumo de psicoestimulantes passa a ser percebido por parte dos estudantes como uma estratégia para atender às demandas acadêmicas e manter níveis elevados de rendimento.
Entretanto, embora a percepção de benefício seja amplamente relatada pelos usuários, os resultados desta revisão demonstram que as evidências científicas disponíveis não sustentam de forma consistente a existência de ganhos acadêmicos objetivos decorrentes do uso não terapêutico dessas substâncias. Diversos estudos identificaram melhora subjetiva da atenção, do estado de alerta e da sensação de produtividade, mas não observaram diferenças significativas no desempenho acadêmico quando comparados estudantes usuários e não usuários (Becker M et al, 2022). Esses resultados sugerem que parte dos benefícios atribuídos aos psicoestimulantes pode estar relacionada à percepção individual de maior capacidade produtiva, sem necessariamente refletir melhorias reais na aprendizagem, retenção do conhecimento ou desempenho em avaliações.
Outro aspecto amplamente evidenciado pelos estudos analisados foi a associação entre o consumo de psicoestimulantes e indicadores de sofrimento psíquico. Ansiedade, estresse, exaustão emocional, sintomas depressivos e dificuldades relacionadas à saúde mental foram descritos de forma recorrente entre os estudantes que relataram utilizar essas substâncias (Fond G et al, 2016). Embora não seja possível estabelecer relações causais em razão do predomínio de estudos observacionais, os achados sugerem que o uso de psicoestimulantes pode estar inserido em um contexto mais amplo de vulnerabilidade emocional. Dessa forma, o consumo dessas substâncias pode representar não apenas uma tentativa de aumentar o desempenho acadêmico, mas também uma estratégia inadequada de enfrentamento das demandas psicológicas impostas pela formação médica.
Essa interpretação é particularmente relevante quando se considera que a graduação em Medicina tem sido associada a elevados índices de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e privação crônica do sono. A coexistência desses fatores cria um ambiente favorável à adoção de comportamentos compensatórios, incluindo a automedicação e o uso indiscriminado de substâncias capazes de prolongar períodos de vigília e aumentar a sensação de produtividade (Fond G et al, 2016; Papazisis G et al, 2018). Nesse sentido, os resultados encontrados reforçam a necessidade de compreender o fenômeno para além da perspectiva individual, considerando também aspectos institucionais, pedagógicos e culturais que contribuem para sua ocorrência.
Os efeitos adversos relacionados ao uso indiscriminado de psicoestimulantes também foram amplamente descritos na literatura analisada. Entre os eventos mais frequentemente relatados destacaram-se insônia, irritabilidade, alterações de humor, taquicardia, cefaleia, ansiedade exacerbada e dependência psicológica (Bacos BG et al, 2024). Embora muitos estudantes considerem essas substâncias relativamente seguras, os resultados indicam que o consumo sem acompanhamento profissional pode produzir repercussões importantes sobre a saúde física e mental. Além disso, evidências recentes apontam preocupações relacionadas ao risco cardiovascular e ao potencial de uso abusivo, especialmente quando os medicamentos são utilizados por indivíduos sem indicação clínica formal (Oliva HNP et al, 2025).
Um dos achados mais preocupantes desta revisão refere-se à elevada frequência de uso não prescrito observada entre os estudos incluídos. A obtenção dos medicamentos por meio de colegas, familiares ou aquisição informal foi relatada de forma recorrente, evidenciando fragilidades relacionadas ao controle do acesso e à banalização do consumo dessas substâncias. Esse cenário reforça preocupações relacionadas à automedicação e ao uso irracional de medicamentos, práticas que podem ampliar riscos individuais e coletivos, além de dificultar a identificação precoce de possíveis efeitos adversos.
Sob a perspectiva ética, os resultados também suscitam reflexões importantes acerca da medicalização do desempenho acadêmico. A crescente normalização do uso de psicoestimulantes como ferramenta para aumento da produtividade favorece a construção de uma cultura na qual dificuldades inerentes ao processo de aprendizagem passam a ser enfrentadas por meio de intervenções farmacológicas (Repantis D et al, 2021). Tal realidade ultrapassa a esfera individual e passa a envolver questões relacionadas à equidade acadêmica, à autonomia dos estudantes e aos limites éticos do aprimoramento cognitivo farmacológico. A valorização excessiva da performance pode contribuir para a naturalização de comportamentos potencialmente nocivos, deslocando a atenção de estratégias mais sustentáveis de promoção da saúde e do aprendizado.
Do ponto de vista metodológico, esta revisão também permitiu identificar limitações importantes na literatura disponível. Observou-se predominância de estudos transversais, utilização frequente de instrumentos autorreferidos e escassez de pesquisas longitudinais capazes de avaliar os impactos do uso prolongado de psicoestimulantes ao longo da formação médica. Essas características limitam a capacidade de estabelecer relações causais e dificultam a compreensão dos efeitos cumulativos dessas substâncias sobre o desempenho acadêmico, a saúde mental e a trajetória profissional dos estudantes.
Diante desse cenário, os achados reforçam a necessidade de implementação de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental, ao fortalecimento do suporte psicopedagógico e à conscientização sobre os riscos associados ao uso indiscriminado de psicoestimulantes. Mais do que uma questão relacionada ao desempenho acadêmico, o fenômeno observado parece refletir desafios estruturais da educação médica contemporânea, exigindo intervenções que conciliem excelência acadêmica, bem-estar estudantil e responsabilidade ética. A construção de ambientes educacionais mais saudáveis pode representar uma medida fundamental para reduzir a dependência de estratégias farmacológicas e promover uma formação médica mais equilibrada e sustentável.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa evidenciou que o uso não terapêutico de psicoestimulantes entre estudantes de Medicina constitui um fenômeno complexo, multifatorial e cada vez mais presente no contexto da formação médica contemporânea. Os achados demonstraram que a busca por melhor desempenho acadêmico, aumento da concentração e prolongamento do tempo de estudo permanece como a principal motivação para o consumo dessas substâncias, refletindo um cenário marcado por elevada competitividade, sobrecarga curricular e crescente pressão por produtividade.
Embora os estudantes frequentemente relatem benefícios subjetivos relacionados ao rendimento acadêmico, as evidências analisadas não sustentam a existência de ganhos objetivos consistentes no desempenho. Em contrapartida, foram observados importantes riscos associados ao uso indiscriminado desses medicamentos, incluindo alterações do sono, ansiedade, irritabilidade, sintomas cardiovasculares e potencial para dependência psicológica. Além disso, os resultados sugerem que o consumo de psicoestimulantes pode estar inserido em um contexto mais amplo de sofrimento psíquico, vulnerabilidade emocional e dificuldades de enfrentamento das demandas acadêmicas.
Os achados também evidenciaram importantes lacunas na literatura científica disponível, caracterizada pela predominância de estudos observacionais e pela escassez de investigações longitudinais capazes de avaliar os impactos do uso prolongado dessas substâncias ao longo da formação médica. Nesse sentido, torna-se fundamental o desenvolvimento de pesquisas multicêntricas e de maior nível de evidência que permitam compreender de forma mais abrangente os determinantes, as consequências e os desdobramentos desse comportamento.
Do ponto de vista institucional, os resultados reforçam a necessidade de fortalecimento de estratégias voltadas à promoção da saúde mental, ao suporte psicopedagógico, à prevenção da automedicação e ao uso racional de medicamentos no ambiente universitário. Mais do que uma questão relacionada ao desempenho acadêmico, o uso indiscriminado de psicoestimulantes revela desafios estruturais da educação médica contemporânea e demanda respostas integradas que envolvam instituições de ensino, profissionais de saúde, gestores e estudantes.
Por fim, compreender criticamente esse fenômeno é essencial para subsidiar políticas educacionais e de saúde capazes de promover uma formação médica que concilie excelência acadêmica, responsabilidade ética, bem-estar psicológico e cuidado integral com a saúde dos futuros profissionais.
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1 Graduanda do curso de Medicina da Afya Centro Universitário SJ del-Rei. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduanda do curso de Medicina da Afya Centro Universitário SJ del-Rei. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Professora doutora do curso de Medicina da Afya Centro Universitário SJ del-Rei.
4 Professora doutora do curso de Medicina da Afya Centro Universitário SJ del-Rei. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail