REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792278993
RESUMO
Objetivo: Analisar o uso de plantas medicinais por usuários de uma Estratégia Saúde da Família no município de Mocajuba, Pará, bem como sua percepção acerca das orientações recebidas dos profissionais de saúde e das possibilidades de abordagem dessa prática no cuidado em saúde. Metodologia: Estudo observacional, transversal e descritivo, realizado por meio de entrevistas semiestruturas com 100 usuários de uma Estratégia Saúde da Família do município de Mocajuba, Pará. Resultados: Entre os participantes, 88% relataram utilizar plantas medicinais, sendo 41% diariamente e 47% ocasionalmente. Os principais motivos de utilização foram problemas respiratórios (n=66), problemas digestivos (n=54), processos inflamatórios (n=32), estresse ou ansiedade (n=28), cefaleia (n=24), diabetes (n=17) e ferimentos (n=10). O uso variou significativamente conforme faixa etária, escolaridade, ocupação e área de moradia. Entre os usuários de plantas medicinais, 72% relataram não receber orientação de profissionais de saúde. Dos que receberam orientação, 64% consideraram as informações insuficientes. As principais expectativas em relação ao atendimento envolveram orientações sobre preparo seguro, indicação e uso correto, interações e contraindicações. Conclusão: O uso de plantas medicinais mostrou-se amplamente presente entre os usuários investigados, contrastando com a baixa frequência de orientação profissional sobre essa prática. Os resultados apontam para a necessidade de ampliar sua abordagem na Atenção Primária à Saúde, por meio de ações de educação em saúde que articulem a valorização dos conhecimentos tradicionais com informações baseadas em evidências sobre segurança, contraindicações e possíveis interações. Nesse contexto, a enfermagem pode desempenhar papel relevante na identificação dessas práticas e na promoção do uso seguro e racional de plantas medicinais.
Palavras-chave: Plantas medicinais; Enfermagem; Atenção primária.
ABSTRACT
Objective: To analyze the use of medicinal plants by users of a Family Health Strategy in the municipality of Mocajuba, Pará, as well as their perception regarding the guidance received from health professionals and the possibilities of approaching this practice in health care. Methodology: Observational, cross-sectional and descriptive study, carried out through semi-structured interviews with 100 users of a Family Health Strategy in the municipality of Mocajuba, Pará. Results: Among the participants, 88% reported using medicinal plants, with 41% daily and 47% occasionally. The main reasons for use were respiratory problems (n=66), digestive problems (n=54), inflammatory processes (n=32), stress or anxiety (n=28), headache (n=24), diabetes (n=17) and injuries (n=10). Use varied significantly according to age group, schooling, occupation and area of residence. Among medicinal plant users, 72% reported not receiving guidance from health professionals. Of those who received guidance, 64% considered the information insufficient. The main expectations regarding care involved guidance on safe preparation, indication and correct use, interactions and contraindications. Conclusion: The use of medicinal plants proved to be widely present among the users investigated, contrasting with the low frequency of professional guidance on this practice. The results point to the need to expand its approach in Primary Health Care, through health education actions that articulate the appreciation of traditional knowledge with evidence-based information on safety, contraindications and possible interactions. In this context, nursing can play a relevant role in identifying these practices and promoting the safe and rational use of medicinal plants.
Keywords: Medicinal plants; Nursing; Primary care.
1. INTRODUÇÃO
O uso de plantas medicinais constitui uma prática histórica de cuidado em saúde no Brasil, particularmente presente em comunidades nas quais os conhecimentos sobre espécies vegetais, formas de preparo e indicações são transmitidos entre gerações. O reconhecimento dessas práticas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) foi fortalecido pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e pela Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que estabeleceram diretrizes para ampliar o acesso a esses recursos e promover sua utilização com qualidade, eficácia e segurança, articulando conhecimentos tradicionais e técnico-científicos (Brasil, 2006).
Na Amazônia, essa temática assume especial relevância pela associação entre diversidade biológica, práticas culturais e conhecimentos tradicionais relacionados ao uso terapêutico de espécies vegetais. Esses saberes integram práticas cotidianas de cuidado e são frequentemente construídos e preservados no ambiente familiar e comunitário. Além de seu significado cultural, fatores como disponibilidade e facilidade de acesso contribuem para a permanência das plantas medicinais como recurso utilizado pela população para diferentes condições de saúde (Araújo et al., 2023).
No município de Mocajuba, situado no nordeste do Pará e inserido na Amazônia Tocantina, o uso de plantas medicinais está presente no cotidiano da população e relaciona-se à circulação de conhecimentos tradicionais no território. Estudo realizado no município identificou expressiva diversidade de plantas utilizadas pela população e destacou a transmissão familiar como importante fonte desses conhecimentos Espaços locais de comercialização e convivência, como o Mercado Municipal, também participam da circulação desses recursos e saberes, evidenciando sua inserção sociocultural na comunidade (Ferreira; Medeiros; Freitas, 2026).
Apesar de sua ampla utilização e relevância cultural, o emprego de plantas medicinais não é isento de riscos. Identificação inadequada das espécies, variações na parte utilizada, preparo e dose, além de contraindicações e possíveis interações com medicamentos, podem comprometer a segurança de seu uso. A ausência de informações adequadas torna-se particularmente relevante quando esses recursos são utilizados concomitantemente a tratamentos convencionais ou por indivíduos com condições clínicas que exigem maior cuidado (Pedroso; Andrade; Pires, 2021; Cruz et al., 2022; Oliveira; Dias; Santos, 2022).
Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) representa um espaço estratégico para reconhecer as práticas terapêuticas adotadas pela população e promover orientações sobre seu uso seguro. A proximidade das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) com os usuários permite identificar práticas que nem sempre são espontaneamente relatadas durante o atendimento e estabelecer um diálogo entre o conhecimento tradicional e as informações baseadas em evidências. Entre os profissionais da equipe, a enfermagem apresenta posição relevante em razão de sua atuação contínua nas ações assistenciais, de promoção da saúde e de educação em saúde, podendo contribuir para identificar o uso de plantas medicinais e orientar sobre seus benefícios, riscos, contraindicações e possíveis interações (Góes; Silva; Castro, 2019; Oliveira; Dias; Santos, 2022; Rodrigues, 2024).
Diante disso, o presente estudo teve como objetivo analisar o uso de plantas medicinais por usuários de uma Estratégia Saúde da Família no município de Mocajuba, Pará, bem como sua percepção acerca das orientações recebidas dos profissionais de saúde e das possibilidades de abordagem dessa prática no cuidado em saúde, com ênfase em suas implicações para a assistência de enfermagem.
2. METODOLOGIA
O presente estudo possui abordagem quantitativa, de caráter transversal, observacional e descritivo. A pesquisa foi realizada no município de Mocajuba, situado no nordeste do estado do Pará, inserido na região da Amazônia Tocantina, a aproximadamente 200 km da capital Belém. O município possui área territorial de 871,171 km² e população estimada em 28.821 habitantes (IBGE, 2024). O cenário da pesquisa consistiu em uma Estratégia Saúde da Família (ESF) localizada na área urbana do município.
A amostragem deu-se por conveniência (não probabilística). A seleção dos participantes ocorreu mediante a abordagem direta aos usuários no ambiente da ESF, enquanto aguardavam o atendimento nas salas de espera dos serviços de saúde. A amostra foi constituída por 100 usuários, de ambos os sexos. Os critérios de inclusão adotados foram: ter idade igual ou superior a 20 anos (faixa etária compreendida entre 20 e 73 anos nas entrevistas), ser usuário cadastrado no serviço de saúde do local do estudo e aceitar voluntariamente participar da pesquisa mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos usuários com déficit cognitivo ou limitações de comunicação que impedissem a compreensão do instrumento de coleta.
A coleta de dados ocorreu nos meses de junho e julho de 2025, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Parecer nº 7.606.229, CAAE: 87680525.1.0000.5174). Para a coleta, foram utilizadas entrevistas semiestruturadas respaldadas por um questionário estruturado contendo perguntas abertas, fechadas e de múltipla escolha. O instrumento foi estruturado nos seguintes eixos: 1) Caracterização socioeconômica e demográfica; 2) Padrão de utilização de plantas medicinais; 3) Percepção sobre o diálogo e orientações prestadas pelos profissionais de saúde; e 4) Demandas e expectativas sobre a abordagem do tema no serviço básico.
Os dados quantitativos foram organizados, codificados e tabulados em planilhas eletrônicas. A análise estatística descritiva contemplou o cálculo de frequências absolutas e relativas (proporções). Para a análise inferencial das associações entre as variáveis socioeconômicas/demográficas e o padrão de utilização de plantas medicinais (não utiliza, uso diário e uso ocasional), aplicou-se o teste do Qui-Quadrado de Independência (). Nos casos em que as frequências esperadas não atenderam adequadamente aos pressupostos da aproximação assintótica do teste, a significância estatística foi estimada por procedimento exato de Monte Carlo. Adicionalmente, mensurou-se a magnitude e a força dessas associações por meio do coeficiente V de Cramér. Adotou-se o nível de significância estatística de 5% ( ).
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com 100 usuários de uma Estratégia Saúde da Família (ESF) do município de Mocajuba, Pará, no período de junho e julho de 2025. O município está localizado na região nordeste do estado, a aproximadamente 200 km de Belém, possui área territorial de 871,171 km² e população estimada em 28.821 habitantes (IBGE, 2024).
A Tabela 1 apresenta a caracterização sociodemográfica dos participantes e a frequência da utilização de plantas medicinais.
Tabela 1. Utilização de plantas medicinais segundo a caracterização dos participantes da pesquisa (N=100).
CARACTERIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES | Não utiliza (nº/%) | Utilização diária (nº/%) | Utilização ocasional (nº/%) | Total (nº/%) |
IDADE | ||||
20 - 29 | 9 (39%) | 2 (9%) | 12 (52%) | 23 (23%) |
30 - 39 | 3 (30%) | 3 (30%) | 4 (40%) | 10 (10%) |
40 - 49 | - | 8 (44%) | 10 (56%) | 18 (18%) |
50 - 59 | - | 12 (63%) | 7 (37%) | 19 (19%) |
≥ 60 | - | 16 (53%) | 14 (47%) | 30 (30%) |
GÊNERO | ||||
Feminino | 7 (10%) | 30 (44%) | 31 (46%) | 68 (68%) |
Masculino | 5 (16%) | 11 (34%) | 16 (50%) | 32 (32%) |
ESCOLARIDADE | ||||
Fundamental Completo | - | 10 (50%) | 10 (50%) | 20 (20%) |
Fundamental Incompleto | - | 18 (67%) | 9 (33%) | 27 (27%) |
Médio Completo | 4 (16%) | 6 (24%) | 15 (60%) | 25 (25%) |
Médio Incompleto | 3 (19%) | 5 (31%) | 8 (50%) | 16 (16%) |
Superior Completo | 2 (29%) | - | 5 (71%) | 7 (7%) |
Superior Incompleto | 3 (60%) | 2 (40%) | - | 5 (5%) |
OCUPAÇÃO | ||||
Empregado/Autônomo | 7 (12%) | 30 (53%) | 20 (35%) | 57 (57%) |
Desempregado | 5 (12%) | 11 (25%) | 27 (63%) | 43 (43%) |
AREA DE MORADIA | ||||
Rural | 2 (5%) | 26 (69%) | 10 (26%) | 38 (38%) |
Urbana | 10 (16%) | 15 (24%) | 37 (60%) | 62 (62%) |
TOTAL POR CATEGORIA | 12 (12%) | 41 (41%) | 47 (47%) | 100 (100%) |
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Para compreender a dinâmica dessas variáveis no cotidiano do uso de fitoterápicos e evitar conclusões distorcidas fundadas no volume isolado de respostas, os dados foram submetidos ao Teste do Qui-Quadrado (X²) sintetizado na Tabela 2.
Tabela 2. Análise de associação estatística pelo Teste do Qui-Quadrado de Independência e V de Cramér entre as variáveis sociodemográficas e a frequência de uso de plantas medicinais.
Variável | χ² | Graus de liberdade (gl) | Valor de p | V de Cramér | Resultado |
Faixa etária | 35,371 | 8 | <0,001* | 0,421 | Significativo |
Sexo | 1,109 | 2 | 0,574* | 0,105 | Não significativo |
Escolaridade | 32,800 | 10 | <0,001* | 0,405 | Significativo |
Ocupação | 8,385 | 2 | 0,015 | 0,290 | Significativo |
Área de moradia | 19,138 | 2 | <0,001* | 0,437 | Significativo |
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Nota: * Significância estimada por procedimento exato de Monte Carlo devido à presença de frequências esperadas reduzidas.
Ao analisar a variável Sexo, o teste inferencial indicou a ausência de significância estatística, demonstrando que o hábito de recorrer aos recursos vegetais distribui-se de maneira homogênea entre os gêneros. Quando avaliada a proporção interna de cada grupo, verifica-se que 89,7% das mulheres e 84,4% dos homens são usuários de plantas medicinais. Esse achado demonstra que a prática do uso de plantas medicinais não é exclusiva do público feminino, distribuindo-se de forma equivalente entre homens e mulheres no município. O predomínio numérico feminino na amostra (68%) reflete a dinâmica sociocultural já consolidada nos serviços de APS, onde as mulheres constituem a maioria dos frequentadores das consultas da ESF. Portanto, embora homens e mulheres utilizem as plantas na mesma proporção cotidiana, a enfermagem deve atentar para o fato de que a mulher continua atuando como a principal mediadora e administradora dos cuidados de saúde no núcleo familiar no contexto amazônico (Oliveira; Dias; Santos, 2022; Silva et al., 2019).
Por outro lado, a Faixa Etária expressou associação de alta significância estatística. A totalidade dos entrevistados a partir dos 40 anos reportou o uso de plantas medicinais, observando-se que a frequência diária atinge seus maiores valores entre os indivíduos de 50 a 59 anos (63,2%) e com 60 anos ou mais (53,3%). Em contraposição, a não utilização restringiu-se aos estratos mais jovens (20 a 29 anos: 39,1%). A maior frequência de utilização nas faixas etárias mais elevadas pode estar relacionada à maior permanência de práticas tradicionais ao longo das gerações, conforme descrito em estudos realizados em outras populações. Do ponto de vista assistencial, esse achado merece atenção, uma vez que indivíduos mais idosos frequentemente utilizam fármacos sintéticos para doenças crônicas, e por isso faz-se necessário um maior acompanhamento na APS acerca de possíveis interações medicamentosas. Como apontam Cruz et al. (2022), Carvalho (2015) e Cajaiba et al. (2016), os idosos apresentam-se como guardiões da memória botânica local.
A variável Escolaridade também demonstrou forte associação estatística ). Constatou-se adesão de 100% entre os participantes com Ensino Fundamental incompleto e completo, prevalecendo o uso diário ( e respectivamente). À medida que a escolaridade formal se eleva, a não utilização cresce (chegando a 60,0% no Ensino Superior incompleto) ou desloca-se para um padrão ocasional (71,4% no Ensino Superior completo). Esse comportamento revela duas facetas complementares: primeiro, que o conhecimento sobre plantas medicinais é preservado essencialmente por meio da oralidade e da tradição intergeracional; segundo, que o uso diário pode operar como uma alternativa econômica essencial e acessível para famílias de menor renda formal diante de possíveis dificuldades de acesso de medicamentos sintéticos (Cruz et al.; 2022; Carvalho, 2015; Ferreira; Medeiros; Freitas, 2026). À enfermagem, cumpre acolher essa prática como uma forma autêntica de autonomia comunitária, promovendo orientações científicas que garantam o seu uso seguro e racional. A Ocupação apresentou significância (), mostrando que trabalhadores empregados/autônomos tendem ao uso diário (52,6%), enquanto desempregados utilizam majoritariamente de forma ocasional (62,8%). Embora, o desenho do estudo não permita determinar os fatores responsáveis por essa diferença, pode ser especulado que os fitoterápicos possam estar sendo utilizados para a busca de alívio rápido para sintomas decorrentes da rotina laboral.
Destaque reflexivo e epidemiológico deve ser atribuído à Área de Moradia, que revelou forte associação estatística (Nos participantes da zona rural, a utilização diária foi expressivamente superior (68,4%) em relação aos residentes da área urbana (24,2%), onde prevalece o uso pontual e ocasional (59,7%). Em Mocajuba, o ambiente rural pode proporcionar proximidade física com os quintais produtivos e áreas de floresta, facilitando o cultivo e o manejo direto dos vegetais. Adicionalmente, as distâncias geográficas e as barreiras de transporte até a unidade de saúde urbana podem fazer com que a fitoterapia permaneça como a primeira linha de cuidado e socorro imediato na zona rural (Cruz et al., 2022). Esses achados reforçam a necessidade de a equipe de enfermagem da ESF adequar suas abordagens educativas, reconhecendo que a rotina e o repertório terapêutico do usuário rural possuem dinâmicas próprias em comparação ao espaço urbano.
Na sequência, buscou-se identificar as motivações clínicas que levam ao consumo das plantas. Para assegurar a padronização e clareza da apresentação quantitativa, as tabelas a seguir trazem a distribuição concomitante de frequências absolutas (n) e percentuais (%).
Tabela 3. Condições de saúde tratadas com plantas medicinais pelos entrevistados (n=88).
Condições de Saúde | n | % |
Problemas Respiratórios | 66 | 75,0% |
Problemas Digestivos | 54 | 61,4% |
Problemas Inflamatórios | 32 | 36,4% |
Estresse/Ansiedade | 28 | 31,8% |
Cefaleia | 24 | 27,3% |
Diabetes | 17 | 19,3% |
Ferimentos | 10 | 11,4% |
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Os problemas respiratórios sobressaíram-se como a principal indicação (), impulsionados principalmente por episódios de gripes e resfriados (), seguidos por afecções digestivas (). Relataram-se ainda processos inflamatórios (), estresse ou ansiedade (), cefaleias (), diabetes () e ferimentos ().
Algumas plantas mencionadas pelos participantes apresentam, na literatura, evidências de atividades biológicas compatíveis com determinados usos tradicionais relatados, como por exemplo em relação ao Hortelã, Gengibre e Babosa, que possuem eficácia sintomática e anti-inflamatória bem documentada na literatura e em guias do Ministério da Saúde (Brasil, 2024; Cruz et al., 2022). Entretanto, a correspondência entre nome popular e espécie botânica, assim como parte utilizada, forma de preparo e dose, deve ser considerada na interpretação dessas informações. Particular atenção deve ser dada ao relato de utilização de plantas medicinais por 19,3% dos usuários para o manejo do diabetes, uma condição crônica que frequentemente requer tratamento farmacológico contínuo. Nesses casos, a utilização concomitante de plantas e medicamentos reforça a importância da investigação dessa prática durante o acompanhamento na APS, especialmente diante da possibilidade de interações e efeitos adversos, assim como da possível substituição dos medicamentos de uso contínuo pelos fitoterápicos.
Dessa forma, os achados reforçam a necessidade de ações de educação em saúde no âmbito da Estratégia Saúde da Família (ESF), especialmente quanto às formas adequadas de utilização, possíveis riscos, contraindicações e interações com medicamentos. Cabe à enfermagem, durante as consultas ou no acompanhamento de pessoas com hipertensão e diabetes, investigar sistematicamente o uso de chás, xaropes e outras preparações caseiras, de modo a favorecer uma abordagem integral e culturalmente sensível do cuidado. O conhecimento dos profissionais de saúde acerca das plantas utilizadas pela população pode contribuir para orientações mais adequadas e para o uso consciente e seguro desses recursos (Góes; Silva; Castro, 2019).
Na sequência, a tabela 4 apresenta os dados referentes ao recebimento de orientações sobre o uso de plantas medicinais por profissionais de saúde, permitindo verificar a presença dessas orientações no acompanhamento dos usuários da ESF.
Tabela 4. Percepção dos usuários quanto ao recebimento de orientações profissionais sobre plantas medicinais (n=88).
Variável | Categoria | N | % |
Recebimento de orientação (n=88) | Não receberam | 63 | 71,6% |
Receberam orientação | 25 | 28,4% | |
Profissional responsável pela orientação (n=25) | Agente Comunitário de Saúde | 13 | 52,0% |
Enfermagem | 9 | 36,0% | |
Médicos | 3 | 12,0% | |
Avaliação da orientação recebida (n=25) | Insuficiente | 16 | 64,0% |
Suficiente | 9 | 36,0 % |
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Os dados revelaram uma grave lacuna assistencial: () dos usuários de plantas medicinais afirmaram nunca ter recebido qualquer orientação de profissionais da ESF sobre essa prática. Entre os () que receberam orientação, o Agente Comunitário de Saúde (ACS) figurou como o principal interlocutor (), superando a equipe de enfermagem () e médica (). Mais crítico ainda é o fato de que () dos usuários orientados consideraram as informações recebidas insatisfatórias ou insuficientes.
A proeminência dos ACS reflete seu vínculo direto com o território e a escuta ativa nas visitas domiciliares. Contudo, a escassez de diálogo técnico por parte de enfermeiros e médicos evidencia que a fitoterapia e as Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) é um tema pouco abordado durante o acompanhamento na unidade estudada na rotina de consultas formais (Pedroso; Andrade; Pires, 2021). A pouca abordagem da temática na consulta pode levar à omissão da utilização de plantas pelo usuário, fazendo com que a prescrição de medicamentos convencionais ocorra sem o devido rastreamento de possíveis interações medicamentosas. (Góes; Silva; Castro, 2019).
A predominância de usuários sem orientação profissional e a percepção de insuficiência entre aqueles que receberam informações apontam para uma oportunidade de aprimoramento das práticas de educação em saúde na ESF. A lacuna identificada reforça a necessidade de estratégias que possibilitem aos profissionais abordar o uso de plantas medicinais de maneira sistemática, respeitando os conhecimentos e as práticas culturais da comunidade, mas também contemplando aspectos relacionados à segurança, às contraindicações, às possíveis interações medicamentosas e aos limites de sua utilização. Dessa forma, a incorporação desse tema nas ações educativas e nas consultas da Atenção Primária pode contribuir para aproximar o conhecimento tradicional do cuidado em saúde.
Por fim a Tabela 5 sintetiza as demandas de conhecimento expressas pela comunidade.
Tabela 5. Expectativas e demandas dos usuários quanto às orientações em plantas medicinais (n=88).
Expectativas e demandas | n | % |
Preparo seguro/higienização/dosagem | 71 | 80,7% |
Indicação clínica/uso correto | 56 | 63,6% |
Interações medicamentosas e contraindicações | 48 | 54,5% |
Outros temas | 19 | 21,6% |
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
As principais dúvidas declaradas versam sobre o modo de preparo seguro, técnicas de higienização e dosagem correta (), indicações terapêuticas precisas () e conhecimento sobre contraindicações e interações com remédios de farmácia ().
Esses achados demonstram que a comunidade de Mocajuba possui uma demanda expressiva por informações técnicas relacionadas ao preparo, uso e segurança das plantas medicinais, para fazer uma integração segura entre o conhecimento popular e a orientação profissional baseada em evidências. A disponibilidade de materiais educativos e informativos pode contribuir para ampliar o acesso da população a informações confiáveis sobre plantas medicinais e fitoterápicos, especialmente quando esses recursos são elaborados de forma contextualizada à realidade local. Entretanto, sua efetividade depende de sua articulação com ações permanentes de educação em saúde e com a rotina dos serviços, não devendo se limitar à simples disponibilização de informações.
Nesse contexto, a Enfermagem assume papel central no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Por estar na linha de frente das ações educativas, acolhimento, consultas de pré-natal e acompanhamento de grupos vulneráveis, o enfermeiro possui papel assistencial e educativo relevante na investigação do uso de plantas medicinais durante a anamnese de enfermagem, podendo identificar dúvidas, práticas de risco, contraindicações e possíveis interações medicamentosas. Além disso, a ampliação e a qualificação da oferta das Práticas Integrativas e Complementares na Atenção Primária à Saúde, incluindo plantas medicinais e fitoterápicos, constituem objetivos das políticas nacionais de saúde (Brasil, 2024), o que reforça a necessidade de qualificação dos profissionais para orientar os usuários quanto aos possíveis benefícios, riscos, contraindicações e interações medicamentosas (Góes; Silva; Castro, 2019).
Promover rodas de conversa no território, qualificar os ACS para a identificação de riscos e elaborar materiais educativos contextualizados à realidade amazônica representam caminhos concretos para transformar a prática empírica em um recurso mais seguro e consciente, valorizando a cultura local e garantindo a segurança do paciente. A implementação dessas estratégias, entretanto, requer avaliação quanto à sua viabilidade e adequação à realidade local, envolvendo não apenas a equipe de enfermagem, mas o conjunto da equipe multidisciplinar da ESF e a gestão municipal de saúde. A construção coletiva de ações educativas, a partir das necessidades identificadas pelos próprios usuários, pode favorecer a integração entre os conhecimentos tradicionais e as práticas de cuidado em saúde, fortalecendo uma abordagem culturalmente sensível e orientada para o uso seguro das plantas medicinais.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa evidenciou que o uso de plantas medicinais constitui uma prática profundamente enraizada e expressiva no cotidiano dos usuários da Estratégia Saúde da Família (ESF) em Mocajuba-PA. A utilização desses recursos vegetais mostrou-se predominantemente voltada para problemas respiratórios e digestivos, seguidos por processos inflamatórios, estresse e ansiedade. Contudo, revelou também uma parcela de usuários que relatou ecorrer às plantas para o manejo do diabetes, condição crônica que merece atenção no acompanhamento. Os achados demonstraram a forte presença e a vitalidade dos conhecimentos tradicionais entre os participantes, destacando-se que, embora a adesão ao uso seja equivalente entre homens e mulheres, a prática diária ganha contornos mais consolidados entre a população idosa, de menor escolaridade formal e residente na zona rural, evidenciando o papel desses sujeitos como guardiões da memória botânica local e a relevância sociocultural desses saberes na Amazônia Tocantina.
Apesar da ampla utilização diária e ocasional identificada no território, constatou-se uma grave lacuna na assistência e na orientação oferecida pelos profissionais de saúde na Atenção Primária. A maioria dos usuários de plantas medicinais relatou nunca ter recebido informações ou orientações técnicas sobre o uso de plantas medicinais no serviço básico de saúde. Ademais, entre o restrito grupo que recebeu algum tipo de instrução, com destaque para os Agentes Comunitários de Saúde, a maioria considerou as informações insuficientes para sanar suas dúvidas. Em contrapartida, os participantes manifestaram demanda expressiva por informações técnicas, principalmente sobre o preparo seguro (higienização e dosagem), seguido das indicações e do uso correto, das contraindicações e das interações medicamentosas com fármacos sintéticos.
Nesse contexto, os resultados sugerem a relevância da atuação da enfermagem na identificação e no acompanhamento dessas práticas durante as consultas programáticas, o acolhimento e o pré-natal, promovendo ações contínuas de educação em saúde voltadas ao uso seguro e racional das plantas medicinais. A valorização do conhecimento popular não deve significar a ausência de orientação profissional, mas deve favorecer um cuidado integral e humanizado que reconheça e respeite os saberes da comunidade e, simultaneamente, considere os riscos de toxicidade, os limites terapêuticos e as normas de segurança estabelecidas pelos órgãos reguladores.
Adicionalmente, os achados sugerem a necessidade de fortalecer a implementação e a institucionalização das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) na Atenção Primária, em articulação com a gestão municipal de Mocajuba. Para que a integração entre o saber empírico e a medicina baseada em evidências se concretize de forma segura, recomenda-se investir em ações de educação em saúde e em educação permanente voltadas à equipe multiprofissional da ESF, transformando o uso empírico em uma prática de cuidado consciente, sustentável e pautada na segurança do paciente.
Entre as limitações do estudo, destaca-se a realização da pesquisa em uma única Estratégia Saúde da Família e com uma amostra restrita aos usuários entrevistados, o que limita a generalização dos resultados para outras unidades e populações. Além disso, por se tratar de um desenho transversal e de informações autorreferidas, os dados podem estar sujeitos à memória e à percepção dos participantes sobre o próprio uso de plantas medicinais. A pesquisa também não avaliou diretamente o nível de conhecimento, a formação e as atitudes dos profissionais de saúde sobre a fitoterapia, aspecto que poderia contribuir para uma compreensão mais ampla e aprofundada das causas subjacentes às lacunas assistenciais identificadas.
Para estudos futuros, sugere-se a realização de pesquisas que incluam diretamente enfermeiros, médicos e demais integrantes da equipe de saúde, investigando suas percepções, lacunas na formação acadêmica e barreiras operacionais relacionadas à prescrição e orientação em fitoterapia. Recomenda-se, ainda, a ampliação da amostra com a inclusão de múltiplas Estratégias Saúde da Família do município, possibilitando análises comparativas mais detalhadas entre os contextos socioculturais das populações urbanas, rurais e ribeirinhas, bem como a realização de estudos botânicos e farmacológicos sobre as espécies medicinais mais citadas na região.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Mestranda em Estudos da Linguagem (Universidade Federal do Pará - UFPA). Especialista em Metodologia do Ensino de Ciências Biológicas (Centro Universitário Leonardo da Vinci). Graduada em Licenciatura em Ciências Naturais (Universidade Federal do Pará - UFPA) e Licenciatura em Biologia (Centro Universitário FAVENI). Graduanda em Bacharelado em Enfermagem (Universidade do Estado do Pará - UEPA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/7832465030079448. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Mestranda em Estudos da Linguagem (Universidade Federal do Pará - UFPA). Especialista em Metodologia do Ensino de Química (Centro Universitário Leonardo da Vinci). Graduada em Ciências Naturais com Habilitação em Química (Universidade do Estado do Pará - UEPA). Graduanda em Bacharelado em Enfermagem (Universidade do Estado do Pará - UEPA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/8373653429798301. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Pós-doutorado em Farmacologia (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC). Doutor em Biologia Celular e Tecidual (Universidade de São Paulo - USP). Mestre em Biologia Celular e Molecular (Universidade de São Paulo - USP). Graduação em Biomedicina (Universidade Federal do Para - UFPA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/2023282005842112. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail