O USO DE BRINQUEDOS CANTADOS NO PROCESSO TERAPÊUTICO INFANTIL

PDF: Clique Aqui


REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10348698


Byanka Firmino Martins Souza¹


RESUMO
Este artigo aborda o uso de brinquedos cantados no processo terapêutico a partir do que a literatura cientifica evidencia sobre o quanto esse recurso pode ser essencial no processo terapêutico de crianças para ajuda-las a melhorar a interação com o mundo que a cerca e consigo mesma. A questão/problema do estudo busca saber de que modo a utilização dos brinquedos musicados no processo terapêutico podem influenciar os diferentes aspectos da formação do individuo, incluindo-se as dimensões humana, física, social e cognitiva. Por isso, a hipótese do estudo afirma que a riqueza de experiências com os brinquedos, e consequentemente com as atividades baseadas nesse recurso, constituirá o banco de dados de imagens culturais utilizados nas situações interativas. Os objetivos do estudo consistem em compreender a eficácia dos brinquedos cantados no processo terapêutico, além de se descrever as ações terapêuticas que podem ser colocadas em prática pelo psicólogo com base nos brinquedos musicados. A metodologia do estudo baseou-se na revisão da literatura com foco em autores que se reportam a centralidade do tema no contexto da Psicologia Infantil e da Ludoterapia. Após o estudo, inferiu-se que a realização de um trabalho terapêutico com base nesse recurso requer um projeto pessoal maior do profissional quanto a sua proposta, além de um envolvimento efetivo quanto às mudanças para se adaptar as necessidades da criança, além de maior investimento em recursos lúdicos avançados, pois durante o desenvolvimento desse estudo detectou-se que apesar da eficácia dos brinquedos cantados no processo terapêutico, atividades baseadas nesses expedientes ainda não são utilizadas com a frequência necessária o que poderia apresentar maior resolutividade para o trabalho desenvolvido junto a criança atendida pelo psicólogo infantil. 
Palavras-chave: Brinquedos cantados. Lúdico. Intervenção. Psicologia.

ABSTRACT
This article discusses the use of toys sung in the therapeutic process from which the scientific literature evidences how much this resource can be essential in the therapeutic process of children to help them to improve the interaction with the world that surrounds it and with itself. The question / problem of the study seeks to know how the use of musical toys in the therapeutic process can influence the different aspects of the formation of the individual, including the human, physical, social and cognitive dimensions. Therefore, the hypothesis of the study states that the richness of experiences with toys, and consequently with activities based on this resource, will constitute the database of cultural images used in interactive situations. The objectives of the study are to understand the effectiveness of the toys sung in the therapeutic process, as well as to describe the therapeutic actions that can be put into practice by the psychologist based on the musical toys. The methodology of the study was based on the literature review focusing on authors who report on the centrality of the theme in the context of Child Psychology and Ludoterapia. After the study, it was inferred that the accomplishment of a therapeutic work based on this resource requires a greater personal project of the professional regarding its proposal, besides an effective involvement in the changes to adapt the needs of the child, as well as greater investment In advanced play resources, because during the development of this study it was detected that despite the effectiveness of the toys sung in the therapeutic process, activities based on these dossiers are not yet used with the necessary frequency which could present greater resolution for the work developed with the child Attended by the child psychologist. 
Keywords: Sung toys. Playful. Intervention. Psychology. 

1. INTRODUÇÃO

A infância passa hoje, por um processo de mudança quanto aos desafios enfrentados pelo mundo contemporâneo. Diante de tantas dificuldades, muitos profissionais que lidam com o processo terapêutico tem feito esforços para utilizar recursos ou instrumentos que visam ajudar crianças a ter um desenvolvimento sadio e equilibrado.

Em decorrência desse quadro e necessário conhecer as abordagens terapêuticas que podem favorecer a criança no sentido de torna-la mais propensa a enfrentar desafios, sejam estes educacionais, morais, psicológicos, uma vez que os fatores que influenciam seu comportamento e desenvolvimento são os mais variados possíveis.

Diante do exposto, o brincar surge como uma atividade que contribui para que o profissional em Psicologia Infantil avalie e faça intervenções adequadas com o uso dos brinquedos cantados. Nesse sentido, e necessário que o Psicólogo seja proativo no sentido de apresentar a criança no processo terapêutico o maior número de recursos possíveis capazes de auxiliar a criança superar desafios e estar pronta para lidar com o meio em que vive de uma forma produtiva e satisfatória.

Tomando como base essa premissa faz-se necessário otimizar ações que efetive uma prática que de fato estabeleça uma aprendizagem que contemple o desenvolvimento de habilidades e competências das crianças, não só no campo cognitivo, mas afetivo, cultural, histórico e porque não dizer político. É com base nessa condição que o processo terapêutico com a utilização dos brinquedos cantados surge como uma estratégia capaz de auxiliar no desenvolvimento do individuo e seu equilíbrio psicológico.

2. METODOLOGIA

Para atingir aos objetivos propostos realizou-se uma revisão integrativa da literatura. A principal vantagem deste tipo de estudo reside no fato de permitir investigar uma ampla gama de fenômenos por meio de pesquisa em materiais já elaborados, possibilitando o aprimoramento de ideias e conceitos, sendo constituídos de livros, artigos científicos, periódicos de indexação e anais de encontros científicos (MINAYO; 2004).

Para estabelecer a amostra do estudo foram selecionados os seguintes descritores: Brinquedos cantados, Métodos terapêuticos, Lúdico. Assim, o estudo foi exploratório, pois, de acordo com Lakatos (2008, p. 58) “permite uma maior familiaridade entre o pesquisador e o tema pesquisado, visto que este ainda é pouco conhecido, pouco explorado”.

Finalmente, foi um estudo qualitativo onde “o pesquisador desenvolve conceitos, ideias e entendimentos a partir de padrões encontrados nos dados, ao invés de coletar dados para comprovar teorias, hipóteses e modelos pré-concebidos” (CERVO e BERVIAN, 2002, p. 62).

A construção do referencial teórico, consolidando as principais ideias, foram discutidas com foco nos objetivos propostos neste artigo. As informações obtidas através das leituras foram submetidas à análise de conteúdo com os seguintes desdobramentos: organização, ordenação, interpretação e análise dos dados para compreensão do objeto do estudo com intuito de uma maior aproximação do material pesquisado com aquilo que possui relevância para o estudo e assim contribuir para a aprendizagem, a ponto da presente pesquisa servir de referência para outros estudos sobre o tema em questão.

3. DISCUSSÃO E ANALISE DE RESULTADOS

3.1. LÚDICO, BRINQUEDO E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA.

Observa-se em livros, artigos publicados, e nas mais variadas instituições (escolas, creches, centros de reabilitação, consultórios) que as práticas com atividades lúdicas no Brasil estão sendo desenvolvidas constantemente. Porém alguns jogos e brinquedos infantis precisam ser investigados e analisados por pesquisadores da área da Psicologia e da Educação, no sentido de verificar com maior rigor metodológico, as consequências desses recursos e seus conteúdos, etc, estabelecendo parâmetros que possam ser utilizados para nortear o seu uso pelas crianças; parâmetros esses transmissíveis pelos componentes da família e profissionais dos mais diversos campos que lidam diariamente com crianças.

É importante então partir do consenso de que o lúdico (brincadeiras, jogos e brinquedos) é essencial para o desenvolvimento da personalidade das crianças (SANTOS, 2008).

Sobre a forma adequada dos profissionais lidarem com os recursos lúdicos nas instituições, na rotina diária, Placco (2003, p. 14) explica que “entendo que um local com os mais variados recursos lúdicos, principalmente o brinquedo, poderia, com facilidade, ampliar as possibilidades interdisciplinares e terapêuticas inseridas nos brinquedos e brincadeiras”.

Então, entende-se que jogos, brinquedos e brincadeiras são imprescindíveis na vida das crianças, por promover o desenvolvimento físico, mental, social, cultural, e também as habilidades de comunicação, expressão corporal e oral da criança.

Por se acreditar que as atividades lúdicas são importantes no desenvolvimento da criança, psicólogos que lidam diariamente com crianças devem estar pronto a intervir terapeuticamente não podendo ficar alheio ao brinquedo, ao jogo, às brincadeiras, pois tais atividades são o veículo do crescimento da criança, possibilitando a esta explorar o mundo, descobrir-se, entender-se e posicionar-se em relação a si mesma e à sociedade de uma forma natural.

Segundo, Santos (2008, p. 37):

Um dos aspectos que marcam a infância é o brinquedo, e este é para a criança aquilo que o trabalho é para o adulto, isto é, sua principal atividade. Toda criança brinca independente da época, cultura ou classe social. O brinquedo é a essência da infância, e o brincar, um ato intuitivo e espontâneo.

Portanto, os jogos, brinquedos e brincadeiras fazem parte do mundo das crianças, pois o brincar está presente na humanidade desde o seu início. Para Didonet (2004) o brincar antecede a humanidade, “pois os animais também brincam, embora o ser humano, ser-de-cultura, brinque diferente”. Desde os povos primitivos já eram desenvolvidas essas práticas na forma de dança, música, pesca, caça e lutas.

Na contemporaneidade vários teóricos de renome buscaram compreender e difundir suas descobertas em relação as fases de desenvolvimento da criança. Entre estes um dos mais importantes foi Piaget.

Piaget deu grande contribuição com sua teoria construtivista e dedicou-se a estudar os jogos e brincadeiras, chegando a estabelecer uma classificação deles de acordo com a evolução das estruturas mentais que são: jogos de exercício – 0 a 2 anos – sensório-motor; jogos simbólicos – 2 a 7 anos – pré-operatório; jogos de regras - a partir de 7 anos (PICONEZ, 2012).

Compreende-se que esse conhecimento sobre a evolução das estruturas mentais da criança de acordo com cada faixa etária, quando aplicado ao contexto de uso dos brinquedos possibilita àquele que os utilizam junto a criança conhecer algo a mais do ser em desenvolvimento: aquilo que não está dado simplesmente pela estrutura cognitiva, mas que se insere no seu mundo subjetivo.

Na realidade, este conhecimento amplia a ação do profissional que lida terapeuticamente com a criança, na medida em que possibilita ao profissional psicólogo ou terapeuta infantil estabelecer uma sequência lógica e sistematizada de intervenções psicológicas que resultam em transformações progressivas no comportamento da criança no decorrer do processo terapêutico de modo a subsidiar a adoção de outros procedimentos para melhorar o comportamento infantil (MOURA; VENTURELLI, 2004).

Com o emprego de brinquedos e jogos, a pessoas que os utiliza garante um clima de prazer tão fundamental para aquele que aprende quanto para aquele que ensina, pois, o ambiente terapêutico, é um espaço de encontro, de inclusão, de trabalho mútuo e somente assim ela pode ser significativa para a criança e para o profissional.

Atualmente, os educadores e profissionais que trabalham no campo do desenvolvimento infantil analisam várias teorias para seguirem seu trabalho. É importante que se faça um breve comentário sobre Piaget, que diz que o brincar deve obedecer alguns estágios. Verderi (2012, p. 55) cita:

a) Brincar sensório-motor (nascimento até 2 anos): neste estágio o bebê, apresenta um tipo de funcionamento intelectual inteiramente prático, vinculado a ação;

b) Brincar Simbólico (2 a 6 anos): que corresponde ao estágio préoperacional onde a criança começa a entrar no mundo dos símbolos, é capaz de reproduzir música que alguém cantou e de reconhecer objetos. As crianças usam a imaginação;

c) Grupo de Jogos com regras (6 aos 12 anos): estágio das operações concretas. A criança descobre uma série de regras para interagir com o mundo.

É importante destacar que a sociedade, hoje, se encontra numa época em que a criança não tem mais liberdade de brincar como antigamente, nas ruas, nas praças, seja por falta de espaços, seja por falta de seguranças nos espaços disponíveis. De acordo com Santos (2007, p. 73): 

O desenvolvimento social das crianças é um assunto importante e deve ser tratado de forma adequada, pois a criança que vive em comunidade adquire valores de grupo. Neste ponto, a brincadeira tem participação especial.

Para criança, a brincadeira é a melhor maneira de se comunicar, um meio para perguntar e explicar, um instrumento que ela tem para se relacionar com outra criança. Para Marinho (1992, p. 31) a presença do amor e da agressão nas brincadeiras infantis corresponde às tentativas de descoberta do eu da criança. 

Portanto, o amor e a agressão são componentes de um todo na formação da sua personalidade. Além de ser uma extensão indefinida de conhecimento sobre o mundo externo, é através do lúdico que a criança também pode conviver com seus sentimentos internos.

A maioria dos adultos é capaz de expressar sob a forma verbal seus sentimentos, frustrações e angústias, no entanto, a criança, por ainda não ter facilidade cognitiva e verbal, utiliza os brinquedos como palavras, portanto, como linguagem. Entende-se, então que o brincar é uma forma de atividade complexa, que envolve a criança física, mental, social e emocionalmente, revelando os seus sentimentos, experiências e reações a essas mesmas experiências (desejos, receios, percepção de si própria, entre outros) (HOMEM, 2009).

3.2. BRINQUEDOS CANTADOS

Os brinquedos representam elementos que estimulam a criança a se situar no mundo, a partir da ampliação de seus aspectos cognitivos, emocionais e psicológicos. Sendo assim, se o jogo é utilizado pela criança pelo simples prazer de brincar ou ainda se a criança se apropria de qualquer material investindo um sentido lúdico, o brinquedo se torna um fim em si mesmo. No entanto, é preciso ressaltar que os brinquedos criados pelo mundo adulto, concebido especialmente para brincadeiras infantis, não passam de meros objetos se a criança não pode manipulálos ou utilizá-los como suporte da brincadeira (VERDERI, 2012).

Em complemento a isso Kishimoto (2007, p. 76) explica:

O brinquedo visto como um recurso importante, desenvolve e educa de maneira prazerosa. Possui fins educacionais e terapêuticos remetendo-nos para a relevância desse material em situações de aprendizagem e de desenvolvimento infantil, ao permitir: (01) a ação intencional (afetividade); (02) a manipulação de objetos e o desempenho de ações sensório-motoras; (03) a construção de representações mentais e (04) trocas sociais, ou seja, as interações entre diferentes. 

A relevância de brinquedos como indispensáveis para a criação da situação imaginária revela que esse aspecto só se desenvolve quando se dispõe de experiências que se reorganizam na mente da criança. Por isso, e comum afirmar que a riqueza de experiências com os brinquedos, e consequentemente com a atividade de brincar, constituirá o banco de dados de imagens culturais utilizados nas situações interativas. Dispor de tais imagens é fundamental para instrumentalizar a criança para a sua socialização, aprendizagem e a superação de eventuais dificuldades de natureza emocional.

Em se tratando especificamente dos brinquedos cantados é possível afirmar que a literatura cientifica evidencia o quanto esse recurso pode ser essencial no processo terapêutico de crianças para ajuda-la a melhorar a interação com o mundo que a cerca e consigo mesma, uma vez que a música tem o poder de ajudar a criança a interagir com o meio que a cerca, estimulando-a inclusive a estabelecer uma comunicação corporal com o mundo externo.

Por exemplo, Verderi (2012) explica que o brinquedo cantado é um meio de propor a criança o estimulo ao movimento do corpo, seja mediante a expressão vocal, as palavras, as frases que podem ser cantadas tanto pelo adulto quanto pela própria criança remetendo a cantigas do passado ou melodias mais atuais. Por fazerem parte da cultura musical, independente da época, são facilmente reconhecíveis pelo individuo, posto que foram transmitidas de geração em geração, ganhando inclusive muita repercussão na sociedade por causa do que se convencionou denominar de tradição oral.

Como meio de perceber as vantagens de utilizar os brinquedos cantados Verderi (2012, p. 28) ressalta que:

Quando aplicado na infância, o brinquedo cantado aprimora a corporeidade, o intelecto, esquema corporal, orientação espacial e temporal, percepções, desenvolve o ritmo, auto-formação, auto-conceito, auto-imagem, a cooperação, a afetividade, o gosto pelo canto, pela dança, enfim tudo aquilo que a sociedade espera de um futuro cidadão.

Quando se utiliza em conjunto o brinquedo com a música, então tem-se o cenário propicio para ajudar uma criança a superar desafios, a enfrentar problemas relacionados a personalidade ou a aprendizagem. Os brinquedos cantados assim podem influenciar de forma positiva diferentes aspectos da formação do individuo, incluindo-se as dimensões humana, física, social e cognitiva. 

Apenas para ressaltar o conceito de brinquedos cantados e necessário entende-los como:

Os brinquedos cantados são atividades diretamente relacionadas com o ato de cantar e ao conjunto dessas canções, a que chamamos de cancioneiro folclórico infantil. É difícil determinar sua origem. Essas canções parece que sempre existiram, sempre encantaram o povo e embalaram as criancinhas. Na sua maioria parecem ter chegado com os colonizadores portugueses, sofrendo influência ameríndia e africana, devido à colonização e posteriormente ao tráfico de escravos para o Brasil. São também conhecidos como “jogos tradicionais” porque são passadas de geração a geração (ZOBOLLI, et. al. 2011, p. 3).

Percebe-se que os brinquedos cantados por sua origem e desenvolvimento é visto por muitos estudiosos como um recurso completo do ponto de vista terapêutico, pois une canto ou dança, ou mesmo ambos simultaneamente, utilizando um brinquedo especifico como suporte que represente concretamente o teor da música, além de possibilitar ao profissional que lida com os processos terapêuticos recursos que são essenciais para dar apoio psicológico a criança. 

Um desses meios consiste na analise do conteúdo (letras) que são parte integrante dos brinquedos cantados. Estas em consonância com a orientação do profissional motivam as crianças a utilizarem sua motricidade ampla, o equilíbrio, o ritmo, a lateralidade. Além disso, nos aspectos cognitivos, tanto o conteúdo quanto nas coreografias possibilitam a criança dar vazão a sua criatividade, imaginação e a atenção a tudo aquilo que acontece ao seu redor.

Em razão disso, Paiva (2010, p. 76) explica:

À medida que as crianças sentem estas canções como suas e compreende a beleza que encerram mais fortes são os elos que se encontram entre elas e os elementos formadores de sua nacionalidade, principalmente os laços familiares, quando aprendem músicas que seus pais e avós cantavam quando crianças.

Os brinquedos cantados são ferramentas adequadas para que se trabalhem processos terapêuticos e educacionais junto às crianças. Porém, e necessário admitir que sua utilização em campos do conhecimento como a Psicologia é recente, mas com comprovada eficácia principalmente pela sua simplicidade (BASTOS, 2012).

Por isso, apesar de todos os recursos tecnológicos existentes para avaliar os processos terapêuticos em crianças, os brinquedos cantados se sobressaem como uma alternativa simples, fácil de trabalhar e rápida no sentido de criar uma identificação com a criança.

Paiva (2010, p.75) é bem objetivo ao dizer que “Os Brinquedos Cantados falam à alma da criança e concorrem para uma intensificação dos sentimentos de amor, participação e respeito”.

Como parte essencial dos brinquedos cantados, a música vem desempenhando, ao longo da história, um importante papel no desenvolvimento do ser humano, seja no aspecto moral, seja no campo social, contribuindo para a aquisição de hábitos e valores indispensáveis ao exercício de cidadania.

Bastos (2012) informa que a palavra música vem do grego – “Mousikê” – e designava, juntamente com a poesia e a dança, a “Arte das Musas”. O ritmo, denominador comum das três artes, fundia-as numa só. Como nas demais civilizações antigas, os gregos atribuíam aos deuses sua música, definida como uma criação e expressão integral do espírito, um meio de alcançar a perfeição.

O reconhecimento do valor formativo e terapêutico da música fez com que surgissem, no decorrer dos séculos as primeiras iniciativas com o uso do canto. Assim, a música requer uma instrução que ultrapassa o caráter puramente estético; torna-se um recurso indispensável, um objeto de maestria, proporciona a medida dos valores éticos, tornando-se um meio de obter “sabedoria” (LIMA, 2013).

De forma progressiva, “mousikê” passou a abranger tudo o que concernia ao cultivo da inteligência, assim como “gymnastike resume tudo quanto se referia ao desenvolvimento físico, ao movimento e ao trabalho com o corpo, principalmente com o uso da ginastica. Receber experiências musicais não significava, portanto, envolviam primariamente a escuta e assimilação das cantigas elaboradas e difundidas nos grupos familiares e sociais (PALHARES, 2012).

Segundo Barbosa (2012) a música pode ajudar o individuo no sentido de contribuir principalmente para que a criança esteja aberta a novos conhecimentos, tornando possível que ocorra o desenvolvimento cognitivo mais profundo.

Além, disso, a experiência musical é vista por Platão como pré-requisito ao conhecimento e a superação de dificuldades intimas, que sem a base da cultura musical se aprofundaria. Por isso ele reconhecia a primazia da música sobre as outras artes, uma vez que, a seu ver, são o ritmo e a harmonia os que mais fundo penetram no íntimo da alma, e os que dela se apoderam com mais força, infundindo-lhe e comunicando-lhe uma atitude nobre (JAEGER, 2006).

Portanto, é visível a contribuição dos brinquedos cantados nos processos terapêuticos vez que se pode observar como já dito, visível melhoria por parte das crianças que passam por algum tipo de experiência negativa, mas que mantiveram contato com a música, seja ela educação musical propriamente dita ou simplesmente quando o profissional utiliza-se da música para auxiliar no processo terapêutico (SILVA, 2010).

3.3. A UTILIZAÇÃO DE BRINQUEDOS CANTADOS NO PROCESSO TERAPÊUTICO INFANTIL

Para se utilizar os brinquedos cantados no processo terapêutico e importante que se considere sua centralidade na atenção e cuidado dispensados as crianças que necessitam da intervenção de um profissional como o Psicólogo, mas antes de discorrer sobre esse atendimento e necessário entender que a atividade do brincar terapêutico tem constituído elemento de pesquisa de diferentes segmentos teóricos que ora convergem, ora divergem quanto a forma em que devem ser usados os brinquedos cantados.

Assim, o brincar tem sido objeto de estudo nas diferentes linhas teóricas da Psicologia tais como a Psicanálise, Cognitivo Comportamental e o Humanismo, pois é considerado como mais uma possibilidade diagnóstica e/ou terapêutica nos atendimentos. Através do brincar é possível investigar doenças e verificar características saudáveis e dificuldades da criança diagnosticando possíveis patologias (CONTI e SOUZA, 2010).

No processo terapêutico entende-se o brinquedo cantado como um recurso potencializado da criança, além de contribuir para que sejam facilitados tanto a observação quanto o atendimento da criança uma vez que revela-se experiências do individuo marcadas por muitos significados. 

Ao mesmo tempo Parsons (2011) afirma que:

O lúdico se torna necessário para compreender a realidade psíquica e pode auxiliar na resolução de conflitos daquele que se submete ao processo terapêutico. O campo também destaca que a observação do brincar permite que o psicólogo entenda melhor o funcionamento de seu paciente.

Quando se trata de compreender o processo terapêutico com o uso dos brinquedos cantados e importante que se reconheça que sempre haverá uma relação, um feedback, entre a criança e o profissional, sendo que o brinquedo constitui o objeto de atenção dos dois. Nessas situações o imaginário entra em ação, pois torna as relações mais ou menos próximas, podendo ser expressa como forma de acesso aos conflitos. Nessa perspectiva, o brincar associado ao cantar é considerado como um meio de promover a relação da criança com seu inconsciente tornando-o pronto para evidenciar suas alegrias, suas tristezas, seus desejos e angustias.

Sendo assim, é importante refletir a respeito das contribuições da atividade com os brinquedos cantados mediante a perspectiva terapêutica. Para entender isso e essencial recorrer a Winnicott (1975) que com sua obra “O Brincar e a Realidade”, estabeleceu parâmetros realistas em relação as possibilidades que o brinquedo tem de tornar as experiências da criança muito mais enriquecedoras. Para esse expoente dos estudos da infância lúdica:

Os jogos e as brincadeiras são uma forma da criança expressar suas raivas, suas vontades, como forma de controlar angústias e de iniciar o processo de experimentação do mundo. Ao brincar, a criança reúne objetos ou fenômenos da realidade externa e os usa a serviço da realidade interna ou pessoal e emite uma capacidade potencial para sonhar e vive com ela em um macro de fragmentos escolhido da realidade exterior. Através do lúdico o terapeuta infantil cria um ambiente de confiança e intimidade para a criança poder brincar e comunicar suas fantasias, ansiedades e sintomas, possibilitando assim a formação de um self mais forte (WINNICOTT, 1975, p. 29).

Não se deve ficar indiferente ao fato de que os brinquedos utilizados no processo terapêutico, especialmente quando apresentam-se com características musicais podem auxiliar a manter sob controle atitudes agressivas, ajudar a manter o equilíbrio da criança evitando-se a ansiedade, facilitar o contato com seus pares, realizar a integração da personalidade, para que o contato verbal com os outros ocorra de forma inteligível. Além disso, o uso dos brinquedos cantados pode favorecer muito a compreensão dos aspectos referentes aos objetos transicionais (PARSONS, 2011).

A respeito disso, e importante compreender que os brinquedos cantados transportam a criança a um imaginário que a auxilia a estabelecer correlações entre a realidade e os conteúdos musicais.

Conti e Souza (2010, p. 80) explicam que:

O brinquedo cantado pode apresentar em seu conteúdo características dos objetos reais, mas transforma-se no instrumento para o domínio de situações penosas, difíceis e traumáticas. Para a criança, a importância do brinquedo é que o mesmo é substituível e permite a repetição de situações prazerosas e dolorosas que, ela por si mesma, não poderia reproduzir no mundo real. Ao longo da entrevista lúdica um mesmo brinquedo ou jogo adquire diferentes significados, baseado em todo o contexto, assim se interpreta uma brincadeira levando em consideração a situação analítica global.

Cientes disso, o profissional que utiliza os brinquedos cantados precisa entender que existem modalidades diversificadas para se atender uma criança no contexto terapêutico, mas isso deve ser determinado a partir de uma avaliação inicial feita do caso. O objetivo principal seria então o de identificar os problemas ou necessidades daquela criança e dos elementos que aprofundam sua dificuldade, levando em consideração sempre seu nível de aprendizagem e sua faixa etária, sua vivencia familiar e/ou social, culturais, familiares, psicológicas.

Uma vez que se tenha certeza da dificuldade da criança o profissional deve saber reconhecer a extensão em que aquilo esta afetando a aprendizagem ou as relações que o individuo estabelece com aqueles que fazem parte do seu cotidiano, para que se conheça então ate que ponto isso esta interferindo em sua vida.

Para isso, existem critérios que o psicólogo deve levar em consideração. Esses indicadores seriam capazes de orientar o profissional para prestar o devido apoio a criança, dando destaque ao processo terapêutico com os brinquedos cantados.

Schimidt e Nunes (2014, p. 21) explicam:

Devem ser analisados os seguintes indicadores: escolha e modalidades de brinquedos e brincadeiras, que indicam a forma como o ego manifesta a função simbólica que estrutura o seu brincar; a personificação que indica a capacidade de assumir e atribuir papéis de forma dramática; a motricidade que permite analisar a adequação da criança à etapa evolutiva que atravessa; a criatividade, elemento importante que demonstra a capacidade de vivenciar novas experiências; a capacidade simbólica que se expressa no brincar, que permite acesso as fantasias inconscientes; a tolerância a frustração, indicador importante que o psicólogo investiga a possibilidade de aceitar as instruções com as limitações que são impostas, e por fim a adequação à realidade.

Com base nesses critérios, o profissional estará preparado para atender adequadamente a medida em que novos aspectos e mudanças estruturais surgem com base na ação do terapeuta e com base nos brinquedos cantados.

Desse modo, levando-se em conta a necessidade da introdução dos brinquedos cantados no processo terapêutico, enquanto uma linguagem legítima de desenvolvimento torna-se imprescindível a formulação e efetivação de propostas que transformem em conhecimento prático e acessível aos profissionais diretamente responsáveis por utilizar os brinquedos cantados ao realizar o atendimento de crianças, ou seja, os psicólogos e todos aqueles interessados em compreender a ludicidade enquanto recurso eficiente e mediador, nas interações com indivíduos de diferentes faixas etárias na infância (ALVES, 2010).

Os materiais do ambiente onde se desenvolve um processo terapêutico com o uso dos brinquedos cantados podem consistir em objetos já elaborados ou em outros produzidos pelas próprias crianças. Assim, a utilização de uma bola, de um bastão, de cones ou mesmo de brinquedos eletrônicos pode ajudar a criança a desenvolver-se cognitivamente, culturalmente com base em atividades significativas fundamentadas nos brinquedos cantados.

Apesar de se reconhecer a importância das atividades terapêuticas e comum que muitos psicólogos ou psicoterapeutas não considerem a possibilidade de trabalhar com a ludoterapia no cotidiano da pratica profissional. Por isso, acredita-se que a utilização mais frequente de brinquedos cantados no atendimento de crianças facilitaria e dinamizaria o trabalho ludoterapêutico (CONTI; SOUZA, 2010).

Uma vez que os brinquedos cantados constitui um suporte que agrega a possibilidade de se trabalhar com vários conhecimentos de forma interativa e construtiva, compreende-se que esses recursos de interação-ação próprios, não somente da atividade terapêutica, mas da identidade social, cultural e lúdica.

Com a utilização regular e frequente dos brinquedos cantados, a criança pode dispor de forma rotineira, livre e criativa de diferentes meios de acesso à brincadeira. Com isso, o ambiente onde acontece o atendimento terapêutico pode possibilitar o auxilio psicológico mais pleno aos pacientes (CONTI; SOUZA, 2010).

O desenvolvimento da criança extrapola os limites do uso de brinquedos cantados, mas as possibilidades que estes recursos oferecem são significativas. Neste aspecto: brincar de forma espontânea, escolher livremente tanto os brinquedo e transformar o espaço. Enfim, construir seu mundo através dos brinquedos associados à música.

Segundo Schimidt e Nunes (2014, p. 45):

E nesse processo, a brincadeira impulsiona o sujeito para uma "zona de desenvolvimento proximal" onde há um esforço para projetar ações além do seu domínio real, fazendo com que a criança se esforce para alcançar um determinado objetivo que está adiante. Nesse caso, percebe-se que os brinquedos cantados servem como um estímulo importante para o desenvolvimento, pois no brincar a criança veste-se do personagem que quer ser, supera limitações e exercita avanços consideráveis assimilando novas descobertas.

De fato, uma proposta terapêutica que seja centrada na criatividade, na imaginação e na capacidade de encantar, centrada principalmente nos brinquedos cantados, pode auxiliar na articula de diversas emoções destacando-se uma convivência onde a tolerância as diferenças seja a regra.

Finalmente, as atividades com brinquedos cantados pode ser reconhecida como um recurso terapêutico que estimula a desenvolvimento humano em todas as suas dimensões (cognitiva, afetiva, social, cultural).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os brinquedos cantados tornam-se, na atualidade, recursos propícios para consolidar um trabalho terapêutico coroado de êxito, unindo prazer, ludicidade e criatividade, uma vez que a criança passa a se mostrar receptiva ao trabalho do Psicólogo, o que equivale dizer que o profissional deve ser favorável à inserção dessa estratégia terapêutica no cotidiano de sua prática.

Destaca-se que a realização de um trabalho com base nos brinquedos cantados requer um projeto pessoal maior do profissional quanto a sua proposta, considerável envolvimento quanto às mudanças necessárias para se adaptar as necessidades da criança, além de maior investimento nos recursos mais avançados, pois durante o desenvolvimento do estudo de revisão da literatura detectou-se que apesar da eficácia dos brinquedos cantados no processo terapêutico, atividades baseadas nos recursos lúdicos ainda não são implementadas de forma mais frequente. 

Para concluir, e importante considerar que os brinquedos cantados podem ser utilizados como elementos de ilustração prática que referenda a teoria, podendo inclusive no transcorrer do processo terapêutico agregar outros conhecimentos como a observância de regras, a transparência no diálogo, a promoção de vínculos de amor e afeto, a confiança, bem como a adesão a valores como o companheirismo, a afetividade, a disciplina e o compartilhamento de experiências.

Entretanto para que isso se concretize e necessário que outros trabalhos acadêmicos sejam elaborados e divulgados ajudando outros pesquisadores a trilhar caminhos possíveis no contexto da ludoterapia para auxiliar crianças no processo de desenvolvimento global. Além disso, a própria revisão da literatura indica a necessidade de se buscar a capacitação profissional continua, investindo sempre em recursos diferenciados para atender ao publico infantil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Antônio Viana de. A participação em atividades lúdica: o compartilhamento de responsabilidades. São Paulo: Cortez, 2010.

BARBOSA, Aparecida. A música como um instrumento lúdico de transformação. Periódico de Divulgação Científica da FALS Ano VI-Nº XIV- São Paulo. DEZ/ 2012.

BASTOS Luís A. É preciso Cantar: Musicoterapia, Cantos e Canções. Rio de Janeiro: Enelivros editora e livraria ltda, 2012. 

CERVO, A; BERVIAN, M. Metodologia do trabalho cientifico. 3 Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.

CONTI, Norma F; SOUZA, Alfredo. Para entender a criança: chaves psicanalíticas. Alfredo Souza: tradução de Erika Parlato - Oliveira, Roberta Ecleide O. São Paulo: Instituto Langage, 2010.

DIDONET, Cacilda Gonçalves. Brincar, o despertar cognitivo. Rio de Janeiro: Editora Sprint Ltda., 2004.

HOMEM, Catarina. A ludoterapia e a importância do brincar: reflexões de uma educadora de infância. Artigo do Caderno de Educação de Infância, nº 88, Dez/2009.

JAEGER, Eliza. Quando brincar é dizer: A experiência psicanalítica na infância. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 2006.

KISHIMOTO, Tizuko M. Brinquedo e brincadeira – uso e significações dentro de contextos culturais. in: SANTOS, Santa M. Pires dos. (org). Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 32.

LAKATOS, Eva Maria. Metodologia e pesquisa cientifica: Normatizações e procedimentos. São Paulo: Atlas, 2008.

LIMA, Ione Maria R. Brinquedos cantados. Rio de Janeiro: Editora Sprint ltda, 2013. 

MARINHO, Mary D. Brincadeiras espontâneas na primeira infância: Do nascimento aos seis anos. São Paulo: Editora Manole, 1992.

MINAYO, L. C. Metodologia da pesquisa cientifica: Teses, dissertações e artigos científicos. 2 Eds. São Paulo: Cortez, 2004. 

MOURA, Cynthia Borges de; VENTURELLI, Marlene Bortholazzi. Direcionamentos para a condução do processo terapêutico comportamental com crianças. Rev. bras. ter. comport. cogn.,São Paulo,v.6, n.1, jun. 2004. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151755452004000100. Acesso em: 02 de Março de 2017. 

PAIVA Carlos Daniel. Corpo, Música e terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda, 2010.

PALHARES, A. C. Seis estudos de psicologia. 24ªedição. 3ª reimpressão. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária Ltda, 2012.

PARSONS, Peter A. Vecino. Questões sobre o brincar cantando: Letra freudiana. Ano X, n.9. 2011. Disponível em: www.escolaletrafreudiana.com.br. Acesso em: 26 de Janeiro de 2017.

PICONEZ, Stela Conceição Bertholo. Piaget e o Desenvolvimento Infantil. Revista Educação e Realidade. Porto Alegre, 2012. 

PLACCO, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus editorial, 2003.

SANTOS, Santa Marli Pires. A ludicidade como ciência. Petrópolis: Vozes, 2007.

______. Brincadeira e música: Um encontro na aprendizagem. Petropolis: Vozes, 2008.

SCHIMITT, Leonardo C; NUNES, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 2014.

SILVA, Lucia Nazaré da. Brinquedos cantados. São Paulo: Cortez, 2010.

VERDERI, Carlos Daniel. Corpo, Música e terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda., 2012.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago editora Ltda., 1975.

ZABOLLI, Violeta Hemsy de et. al. Estudos de psicoterapia musical. São Paulo: Summus editorial, 2011.


¹ Trabalho de Pós Graduação em Psicologia Infantil e Ludoterapia.