O USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO: FUNDAMENTOS ÉTICOS DA ATUAÇÃO DOCENTE
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18341782
Eliene Rodrigues Machado1
RESUMO
A crescente incorporação da Inteligência Artificial (IA) nos contextos educacionais tem provocado transformações significativas nas práticas pedagógicas, exigindo uma reflexão ética aprofundada sobre o papel do docente. Este artigo tem como objetivo analisar os fundamentos éticos que devem orientar a atuação docente no uso da IA na educação, considerando princípios como responsabilidade, equidade, transparência, privacidade e promoção da autonomia discente. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica, fundamentada em estudos recentes sobre ética, educação e tecnologias digitais. Conclui-se que a IA pode contribuir significativamente para o processo educativo, desde que seu uso seja mediado por uma prática docente ética, crítica e comprometida com o desenvolvimento humano e social.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Ética; Prática Docente; Educação; Tecnologias Educacionais.
ABSTRACT
The increasing incorporation of Artificial Intelligence (AI) in educational contexts has led to significant transformations in pedagogical practices, requiring an in-depth ethical reflection on the role of teachers. This article aims to analyze the ethical foundations that should guide teaching practice in the use of AI in education, considering principles such as responsibility, equity, transparency, privacy, and the promotion of learner autonomy. The research is characterized as qualitative, with a bibliographic approach, based on recent studies on ethics, education, and digital technologies. It is concluded that AI can contribute significantly to the educational process, provided that its use is mediated by an ethical, critical teaching practice committed to human and social development.
Keywords: Artificial Intelligence; Ethics; Teaching Practice; Education; Educational Technologies.
1. INTRODUÇÃO
A Inteligência Artificial (IA) tem se consolidado como uma das principais tecnologias emergentes do século XXI, promovendo mudanças profundas nos modos de produzir conhecimento, trabalhar, comunicar-se e aprender. Seu avanço acelerado, impulsionado pelo aumento da capacidade computacional, pela disponibilidade massiva de dados e pelo desenvolvimento de algoritmos cada vez mais sofisticados, tem impactado diferentes áreas da sociedade, incluindo de forma significativa o campo educacional. No contexto da educação, a IA vem sendo incorporada por meio de plataformas adaptativas, sistemas de recomendação de conteúdos, ferramentas de correção automatizada, tutores virtuais, assistentes de escrita e análise de dados educacionais, entre outras aplicações.
Essas tecnologias têm sido frequentemente associadas à promessa de inovação pedagógica, eficiência nos processos de ensino-aprendizagem e personalização do percurso formativo dos estudantes. A possibilidade de adaptar conteúdos às necessidades individuais, acompanhar o desempenho em tempo real e oferecer feedback imediato é apresentada como um avanço relevante frente aos modelos tradicionais de ensino. Contudo, ao mesmo tempo em que amplia possibilidades pedagógicas, a inserção da IA na educação suscita questionamentos éticos, pedagógicos e sociais que não podem ser negligenciados.
Entre as principais preocupações estão o risco de redução da educação a processos meramente técnicos, a substituição indevida da mediação humana por sistemas automatizados, a opacidade dos algoritmos utilizados, a coleta e o uso massivo de dados pessoais de estudantes e professores, bem como a reprodução de desigualdades e vieses já existentes na sociedade. Tais questões evidenciam que a adoção da IA no ambiente escolar e universitário não é neutra, exigindo reflexão crítica e posicionamento ético por parte dos profissionais da educação.
Nesse cenário, a atuação docente assume papel central. O professor não é apenas um usuário de tecnologias, mas um agente pedagógico responsável por mediar, contextualizar e orientar o uso da IA de acordo com princípios educacionais, éticos e sociais. Cabe ao docente decidir quando, como e com que finalidade essas ferramentas serão utilizadas, garantindo que elas contribuam efetivamente para a aprendizagem e para a formação integral dos estudantes, sem comprometer valores fundamentais como a autonomia, o pensamento crítico, a equidade e o respeito à dignidade humana.
A prática docente, historicamente orientada por princípios éticos, como o compromisso com o desenvolvimento do educando, a justiça social e a responsabilidade pedagógica, precisa agora dialogar com novos desafios impostos pelas tecnologias inteligentes. O uso da IA demanda do professor não apenas competências técnicas, mas também uma postura ética crítica, capaz de problematizar os limites e as implicações dessas ferramentas no processo educativo. Nesse sentido, a ética deixa de ser um aspecto periférico e passa a constituir elemento estruturante da integração da IA na educação.
Além disso, o contexto educacional contemporâneo é marcado por profundas desigualdades sociais e digitais, especialmente em países como o Brasil. O acesso desigual às tecnologias, à conectividade e à formação adequada pode ampliar ainda mais as disparidades educacionais se a IA for adotada de forma acrítica ou excludente. Assim, discutir os fundamentos éticos da atuação docente no uso da IA implica também refletir sobre inclusão, justiça social e direito à educação de qualidade para todos.
Outro aspecto relevante refere-se à formação docente. Muitos professores ainda não receberam preparação adequada para lidar com tecnologias baseadas em IA, o que pode gerar insegurança, resistência ou uso inadequado dessas ferramentas. Dessa forma, torna-se fundamental compreender a ética não apenas como um conjunto de normas, mas como um princípio orientador da prática pedagógica, capaz de subsidiar decisões conscientes e responsáveis frente às inovações tecnológicas.
Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo discutir os fundamentos éticos que devem nortear a atuação docente no uso da Inteligência Artificial na educação. Busca-se analisar de que maneira princípios como responsabilidade, transparência, equidade, proteção de dados, autonomia e promoção do pensamento crítico podem orientar práticas pedagógicas comprometidas com uma educação humanizadora. Ao destacar desafios e possibilidades, pretende-se contribuir para o debate acadêmico e educacional sobre o papel do professor em um cenário cada vez mais mediado por tecnologias inteligentes.
2. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO
A Inteligência Artificial (IA) pode ser compreendida como um conjunto de sistemas computacionais capazes de realizar tarefas que, tradicionalmente, exigiriam inteligência humana, como reconhecimento de padrões, tomada de decisão, resolução de problemas e aprendizagem a partir de grandes volumes de dados. Segundo Russell e Norvig, a IA envolve o desenvolvimento de agentes inteligentes capazes de perceber o ambiente e agir de maneira racional para alcançar determinados objetivos. Essa definição evidencia o potencial dessas tecnologias para operar em contextos complexos, como o educacional.
No campo da educação, a IA tem sido aplicada de diferentes formas, incluindo plataformas de aprendizagem adaptativa, sistemas de recomendação de conteúdos, correção automatizada de avaliações, análise de dados educacionais (learning analytics), tutores inteligentes e assistentes virtuais. Essas aplicações permitem acompanhar o desempenho acadêmico dos estudantes em tempo real, identificar dificuldades de aprendizagem e oferecer intervenções pedagógicas mais personalizadas. Para autores como Bacich e Moran, o uso de tecnologias digitais, incluindo a IA, pode contribuir para metodologias mais ativas e centradas no estudante, ampliando o engajamento e a autonomia no processo de aprendizagem.
Outro aspecto relevante é a ampliação do acesso ao conhecimento. Ferramentas baseadas em IA podem favorecer a inclusão educacional ao oferecer recursos de acessibilidade, como leitores automáticos de texto, legendas inteligentes e tradução automática, beneficiando estudantes com deficiência ou em contextos multilíngues. Além disso, em ambientes de educação a distância, a IA pode atuar como suporte pedagógico contínuo, reduzindo barreiras geográficas e temporais.
Apesar dessas potencialidades, diversos estudiosos alertam para os riscos e limitações associados ao uso indiscriminado da IA na educação. Um dos principais desafios refere-se à dependência excessiva de sistemas automatizados, que pode comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da autonomia intelectual dos estudantes. Conforme aponta Freire, a educação deve promover a formação de sujeitos críticos e conscientes, e não a mera adaptação a sistemas técnicos. Nesse sentido, o uso acrítico da IA pode reforçar práticas educativas bancárias, nas quais o estudante assume papel passivo.
Outro risco significativo diz respeito à redução da interação humana nos processos educativos. A relação pedagógica entre professor e estudante é elemento essencial da educação, pois envolve dimensões afetivas, sociais e éticas que não podem ser plenamente substituídas por máquinas. A substituição da mediação docente por sistemas automatizados pode empobrecer o processo educativo e desumanizar a aprendizagem.
Além disso, a IA pode reproduzir e até intensificar desigualdades sociais existentes. Sistemas algorítmicos são treinados a partir de dados que refletem contextos sociais marcados por desigualdades, preconceitos e exclusões. Como destaca a UNESCO, sem critérios éticos claros, a IA pode reforçar vieses discriminatórios, afetando negativamente grupos historicamente marginalizados. Soma-se a isso a desigualdade no acesso às tecnologias digitais, que pode ampliar o fosso educacional entre estudantes de diferentes realidades socioeconômicas.
Há também preocupações relacionadas à privacidade e à proteção de dados educacionais. O uso de plataformas baseadas em IA envolve a coleta, o armazenamento e o processamento de grandes volumes de dados pessoais de estudantes e professores. A ausência de políticas claras e de práticas responsáveis pode resultar em violações de privacidade e uso inadequado dessas informações, contrariando princípios éticos e legislações vigentes.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível uma atuação docente consciente, crítica e ética. O professor desempenha papel fundamental na mediação do uso da IA, sendo responsável por avaliar a pertinência pedagógica dessas tecnologias, orientar os estudantes quanto ao seu uso responsável e garantir que a IA esteja a serviço da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Assim, mais do que dominar ferramentas tecnológicas, o docente precisa compreender seus impactos sociais, éticos e pedagógicos, assumindo uma postura reflexiva frente às transformações digitais no campo educacional.
3. FUNDAMENTOS ÉTICOS DA ATUAÇÃO DOCENTE NO USO DA IA
Responsabilidade Pedagógica
A responsabilidade pedagógica constitui um dos fundamentos centrais da atuação docente no uso da Inteligência Artificial na educação. O professor é o principal responsável pelas escolhas metodológicas, didáticas e tecnológicas que orientam o processo de ensino-aprendizagem, devendo assegurar que tais escolhas estejam alinhadas aos objetivos educacionais, ao projeto pedagógico da instituição e às necessidades formativas dos estudantes. Nesse sentido, a adoção de ferramentas baseadas em IA não pode ocorrer de forma acrítica, nem motivada apenas por conveniência, pressão institucional ou modismos tecnológicos.
Segundo Freire, o ato de ensinar é um ato ético e político, que exige do educador compromisso com a formação integral do educando e com a transformação da realidade social. Aplicado ao contexto da IA, esse princípio implica que o professor deve refletir criticamente sobre os impactos pedagógicos e sociais das tecnologias utilizadas, avaliando se elas contribuem efetivamente para a aprendizagem significativa ou se apenas reforçam práticas mecanizadas e instrumentais.
A responsabilidade pedagógica também envolve a definição clara das finalidades do uso da IA. Ferramentas tecnológicas devem ser compreendidas como meios, e não como fins em si mesmas. Conforme destacam Bacich e Moran, a tecnologia só produz efeitos positivos na educação quando integrada a propostas pedagógicas coerentes, intencionais e centradas no estudante. Assim, cabe ao docente planejar o uso da IA de modo articulado ao currículo, às metodologias ativas e às estratégias de avaliação, garantindo coerência entre tecnologia e objetivos formativos.
Outro aspecto relevante refere-se à supervisão e à mediação do uso da IA pelos estudantes. O professor não pode abdicar de seu papel formativo, transferindo responsabilidades pedagógicas para sistemas automatizados. Ao contrário, deve acompanhar, orientar e problematizar o uso dessas ferramentas, estimulando os estudantes a compreenderem seus limites, potencialidades e implicações éticas. Essa mediação é essencial para evitar a dependência excessiva da IA e para promover o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.
Além disso, a responsabilidade pedagógica implica avaliar continuamente os resultados do uso da IA no processo educativo. O docente deve observar se as tecnologias adotadas favorecem a inclusão, a participação e a aprendizagem de todos os estudantes, ou se acabam produzindo exclusões, desigualdades ou superficialidade cognitiva. De acordo com a UNESCO, a integração da IA na educação deve ser guiada por princípios éticos e pedagógicos claros, assegurando que as decisões tecnológicas estejam sempre subordinadas aos valores educacionais e ao bem-estar dos aprendizes.
Dessa forma, a responsabilidade pedagógica do docente no uso da IA consiste em assumir uma postura crítica, reflexiva e ética diante das inovações tecnológicas, reconhecendo que a qualidade da educação não depende da sofisticação das ferramentas utilizadas, mas da intencionalidade pedagógica e do compromisso ético que orientam sua prática.
Equidade e Inclusão
A promoção da equidade e da inclusão constitui um dos princípios éticos fundamentais da prática docente e assume relevância ainda maior no contexto do uso da Inteligência Artificial na educação. Historicamente, a educação tem como compromisso reduzir desigualdades e garantir o direito à aprendizagem para todos, respeitando as diferenças sociais, culturais, econômicas e cognitivas dos estudantes. Nesse sentido, o uso da IA deve ser orientado por uma perspectiva ética que assegure oportunidades educacionais justas e inclusivas, evitando a ampliação das desigualdades já existentes.
A equidade difere da simples igualdade, pois pressupõe o reconhecimento das diferentes condições de partida dos estudantes e a adoção de estratégias pedagógicas capazes de atender às suas necessidades específicas. No uso da IA, isso implica considerar fatores como acesso à infraestrutura tecnológica, conectividade, letramento digital e condições socioeconômicas. Em contextos marcados por desigualdade social, como o brasileiro, a adoção indiscriminada de tecnologias baseadas em IA pode aprofundar o fosso educacional entre aqueles que possuem acesso pleno aos recursos digitais e aqueles que enfrentam limitações materiais e estruturais.
Além do acesso desigual, outro desafio ético relevante refere-se aos vieses algorítmicos. Sistemas de IA são desenvolvidos e treinados a partir de grandes volumes de dados que refletem contextos sociais historicamente marcados por preconceitos, discriminações e exclusões. Conforme alertam estudos recentes, algoritmos podem reproduzir e até intensificar desigualdades relacionadas a gênero, raça, classe social e deficiência, impactando negativamente a trajetória educacional de determinados grupos. A UNESCO destaca que, sem uma abordagem ética e inclusiva, a IA pode reforçar estigmas e marginalizações, contrariando os princípios fundamentais da educação como direito humano.
Nesse contexto, a atuação docente é essencial para garantir que o uso da IA não reproduza práticas excludentes. O professor deve adotar uma postura crítica diante das tecnologias utilizadas, questionando seus critérios de funcionamento, seus impactos sobre diferentes perfis de estudantes e sua adequação aos objetivos pedagógicos. Isso inclui avaliar se as plataformas de IA consideram a diversidade cultural e cognitiva dos alunos, se oferecem recursos de acessibilidade e se permitem adaptações pedagógicas necessárias à inclusão.
A inclusão educacional também envolve a atenção às necessidades de estudantes com deficiência. Ferramentas de IA podem contribuir significativamente para a acessibilidade, por meio de recursos como leitores de tela inteligentes, legendas automáticas, reconhecimento de voz e tradução em tempo real. No entanto, para que esses recursos cumpram sua função social, é indispensável que o docente compreenda suas potencialidades e limitações, integrando-os de forma planejada e ética às práticas pedagógicas. Conforme aponta Mantoan, a inclusão não se resume à presença física do estudante na escola, mas à garantia de condições efetivas de participação e aprendizagem.
Outro aspecto relevante diz respeito à justiça social e à democratização do conhecimento. A prática docente ética deve assegurar que a IA seja utilizada como instrumento de ampliação de oportunidades educacionais, e não como mecanismo de seleção, exclusão ou controle. O professor, como mediador do processo educativo, precisa orientar os estudantes quanto ao uso crítico e responsável dessas tecnologias, promovendo reflexões sobre seus impactos sociais e estimulando a consciência ética e cidadã.
Ademais, a promoção da equidade no uso da IA requer políticas institucionais claras e formação continuada dos docentes. A ausência de diretrizes pode levar a usos fragmentados e desiguais das tecnologias, beneficiando apenas determinados grupos. Assim, cabe ao professor também atuar de forma colaborativa com a instituição, contribuindo para a construção de práticas pedagógicas inclusivas e socialmente responsáveis.
Dessa forma, a equidade e a inclusão no uso da Inteligência Artificial na educação dependem diretamente de uma atuação docente ética, crítica e comprometida com a justiça social. Ao reconhecer as limitações e os riscos das tecnologias inteligentes, o professor pode potencializar seus benefícios, assegurando que a IA esteja a serviço de uma educação democrática, humanizadora e acessível a todos.
Transparência e Explicabilidade
A transparência e a explicabilidade configuram-se como princípios éticos essenciais da prática docente, especialmente no contexto do uso da Inteligência Artificial na educação. Tradicionalmente, a ética educacional exige clareza nos objetivos de ensino, nos critérios de avaliação e nas metodologias adotadas, de modo que os estudantes compreendam os processos que orientam sua aprendizagem. Com a incorporação de sistemas baseados em IA, essa exigência torna-se ainda mais relevante, uma vez que muitas dessas tecnologias operam por meio de algoritmos complexos e, frequentemente, opacos.
A transparência refere-se à necessidade de tornar visível o uso da IA no processo educativo, informando aos estudantes quando, como e para quais finalidades essas ferramentas estão sendo empregadas. Já a explicabilidade diz respeito à possibilidade de compreender, ao menos em termos gerais, os critérios e lógicas que orientam o funcionamento dos sistemas de IA, especialmente quando influenciam decisões pedagógicas, como recomendações de conteúdo, avaliações automatizadas ou monitoramento do desempenho acadêmico.
No âmbito da prática docente, a ausência de transparência pode comprometer a confiança na relação pedagógica e gerar sentimentos de insegurança, desmotivação ou injustiça por parte dos estudantes. Conforme destaca a UNESCO, o uso ético da IA na educação exige que alunos e professores compreendam o papel dessas tecnologias e seus impactos nos processos de ensino-aprendizagem, evitando decisões automatizadas que não possam ser questionadas ou compreendidas. A educação, enquanto prática emancipadora, não pode se apoiar em mecanismos que reproduzam uma lógica de “caixa-preta”, na qual os sujeitos desconhecem os fundamentos das decisões que os afetam.
A explicabilidade também está diretamente relacionada à justiça e à equidade nos processos avaliativos. Sistemas de correção automatizada ou de análise de desempenho, quando utilizados sem critérios claros, podem gerar avaliações percebidas como arbitrárias ou discriminatórias. Nesse sentido, cabe ao professor garantir que os critérios utilizados pelas ferramentas de IA sejam compatíveis com os objetivos pedagógicos e que os estudantes tenham acesso às informações necessárias para compreender como suas produções são analisadas. Segundo Luckesi, a avaliação educacional deve ser um processo formativo, dialógico e transparente, orientado para a aprendizagem, e não um instrumento de controle ou punição.
Outro aspecto relevante diz respeito ao desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes. Ao explicitar o funcionamento e os limites das ferramentas de IA, o docente contribui para a formação de sujeitos capazes de questionar tecnologias, compreender seus impactos sociais e éticos e utilizá-las de maneira consciente. A transparência, nesse sentido, não se limita à informação técnica, mas envolve uma abordagem pedagógica que problematiza o uso da IA, estimulando reflexões sobre seus benefícios, riscos e implicações sociais.
Além disso, a transparência no uso da IA está relacionada à responsabilidade institucional e docente. Professores precisam estar cientes das políticas educacionais e das diretrizes éticas que orientam a adoção dessas tecnologias, assegurando que seu uso esteja em conformidade com princípios legais e pedagógicos. A ausência de clareza institucional pode levar a práticas fragmentadas e incoerentes, dificultando a construção de uma cultura educacional ética no uso da IA.
A prática docente ética exige, portanto, que o professor atue como mediador crítico, traduzindo o funcionamento das tecnologias inteligentes para os estudantes e garantindo espaços de diálogo sobre sua utilização. Conforme Freire, o diálogo é elemento central do processo educativo e condição para a construção do conhecimento. Aplicado ao contexto da IA, o diálogo favorece a compreensão compartilhada das tecnologias e fortalece a relação pedagógica baseada na confiança e no respeito mútuo.
Dessa forma, a transparência e a explicabilidade no uso da Inteligência Artificial na educação não são apenas exigências técnicas, mas princípios éticos fundamentais da atuação docente. Ao tornar visíveis os processos mediados por IA e ao explicitar seus critérios e limites, o professor contribui para uma educação mais justa, democrática e comprometida com a formação crítica e cidadã dos estudantes.
Promoção da Autonomia e do Pensamento Crítico
A promoção da autonomia e do pensamento crítico constitui um dos pilares centrais da prática docente ética e um dos principais desafios no contexto do uso da Inteligência Artificial na educação. A IA deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio ao processo de ensino-aprendizagem, e não como substituta do esforço intelectual, da reflexão ou da construção ativa do conhecimento por parte do estudante. Nesse sentido, cabe ao professor orientar o uso dessas tecnologias de modo a favorecer aprendizagens significativas, críticas e emancipatórias.
A autonomia do estudante está diretamente relacionada à sua capacidade de tomar decisões conscientes sobre seu processo de aprendizagem, estabelecer objetivos, avaliar informações e produzir conhecimento de forma autoral. Conforme destaca Freire, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou construção. Aplicado ao uso da IA, esse princípio implica que o docente deve evitar práticas pedagógicas que reduzam o estudante a mero consumidor de respostas prontas geradas por sistemas automatizados, comprometendo o desenvolvimento da autonomia intelectual.
O uso acrítico da IA pode levar à dependência tecnológica, na qual o estudante passa a delegar processos cognitivos complexos como análise, síntese e argumentação a ferramentas automatizadas. Esse cenário representa um risco ético e pedagógico, pois limita o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de resolução de problemas. Segundo Moran, as tecnologias digitais só contribuem para a aprendizagem quando utilizadas de forma ativa, reflexiva e integrada a propostas pedagógicas que estimulem o protagonismo do estudante.
Nesse contexto, o papel do professor é fundamental para mediar o uso da IA de maneira pedagógica e ética. O docente deve propor atividades que incentivem a problematização, a análise crítica das respostas fornecidas pelos sistemas de IA e a comparação entre diferentes fontes de informação. Ao invés de proibir o uso dessas ferramentas, a prática docente ética busca integrá-las de forma orientada, transformando-as em objeto de reflexão e aprendizagem crítica.
A promoção do pensamento crítico também envolve a discussão sobre os limites, vieses e implicações sociais da IA. Ao compreender como essas tecnologias são desenvolvidas, treinadas e utilizadas, os estudantes tornam-se mais conscientes de seus impactos e mais preparados para atuar de forma responsável na sociedade digital. A UNESCO enfatiza que a educação deve capacitar os aprendizes não apenas a usar tecnologias, mas a compreendê-las criticamente, exercendo cidadania digital e responsabilidade ética.
Além disso, a criatividade constitui dimensão essencial da formação humana e não pode ser substituída por processos automatizados. Embora a IA possa auxiliar na geração de ideias, organização de informações e apoio à escrita, cabe ao professor estimular produções autorais, projetos criativos e atividades que valorizem a originalidade e a expressão pessoal dos estudantes. A prática docente ética deve reconhecer a IA como suporte, e não como fonte exclusiva de produção intelectual.
Outro aspecto relevante refere-se à avaliação da aprendizagem. O uso da IA em atividades avaliativas exige critérios claros que valorizem o processo, a reflexão e a autoria do estudante. Avaliações centradas apenas no produto final podem favorecer o uso inadequado de ferramentas automatizadas, enquanto abordagens formativas, reflexivas e processuais contribuem para o desenvolvimento da autonomia e do pensamento crítico.
Dessa forma, a promoção da autonomia e do pensamento crítico no uso da Inteligência Artificial na educação depende de uma atuação docente ética, intencional e reflexiva. Ao orientar o uso consciente dessas tecnologias, o professor contribui para a formação de sujeitos críticos, criativos e autônomos, capazes de utilizar a IA como aliada na construção do conhecimento, sem abdicar de sua responsabilidade intelectual e cidadã.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A incorporação da Inteligência Artificial na educação representa uma das transformações mais significativas do cenário educacional contemporâneo, trazendo consigo possibilidades inovadoras, mas também desafios éticos complexos. Ao longo deste artigo, buscou-se analisar os fundamentos éticos que devem orientar a atuação docente no uso da IA, destacando princípios essenciais como responsabilidade pedagógica, equidade e inclusão, transparência e explicabilidade, proteção de dados, bem como a promoção da autonomia e do pensamento crítico dos estudantes.
Os resultados da reflexão teórica evidenciam que a IA, por si só, não garante melhorias no processo educativo. Seu potencial pedagógico depende diretamente da mediação docente e da intencionalidade ética que orienta sua utilização. O professor assume papel central nesse contexto, não apenas como usuário de tecnologias, mas como agente crítico, responsável por integrar a IA de forma coerente aos objetivos educacionais e aos valores humanizadores da educação.
Observou-se que o uso indiscriminado ou acrítico da IA pode reforçar desigualdades sociais, comprometer a autonomia discente, reduzir a interação humana e obscurecer processos avaliativos e decisórios. Por outro lado, quando orientada por princípios éticos sólidos, a IA pode contribuir para a personalização da aprendizagem, a inclusão educacional, o desenvolvimento de competências críticas e a ampliação do acesso ao conhecimento.
Dessa forma, torna-se imprescindível investir na formação ética, pedagógica e tecnológica dos docentes, bem como na construção de políticas institucionais claras que regulamentem o uso da IA na educação. A ética, nesse contexto, não deve ser compreendida como um conjunto de restrições, mas como um princípio orientador capaz de assegurar que as tecnologias estejam a serviço do desenvolvimento humano, da justiça social e da formação cidadã.
Conclui-se, portanto, que a atuação docente ética é condição indispensável para que a Inteligência Artificial contribua positivamente para a educação. Ao assumir uma postura crítica, reflexiva e comprometida com valores democráticos, o professor fortalece uma educação humanizadora, capaz de dialogar com as inovações tecnológicas sem abdicar de seu papel formativo e social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACICH, Lilian; MORAN, José. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 22. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
RUSSELL, Stuart; NORVIG, Peter. Artificial intelligence: a modern approach. 4. ed. New York: Pearson, 2021.
UNESCO. Artificial Intelligence and Education: Guidance for Policy-makers. Paris: UNESCO, 2021.
1 Mestranda em ciências da educação Instituição: Uninter em Assunção. E-mail: [email protected]