O RURAL COMO REPRESENTATIVO DE BRASIL EM A SUCESSORA, DE CAROLINA NABUCO

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18286011


Carolyne Dornelles Melo1


RESUMO
Tomando o romance A Sucessora, de Carolina Nabuco, como objeto de estudo, a investigação debruça-se sobre a hipótese de a caracterização rural assumir um caráter representativo de brasilidade, como se o que tem origem no campo, no interior do país, fosse mais “brasileiro” que aquilo que é urbano; no caso, aquilo que vê-se no Rio de Janeiro, então capital do país. Faz-se jus observar que este romance foi publicado na Década de 30, comumente referenciada como Segunda Geração do Modernismo e à qual atribui-se como característica notória a verve engajada, ou ainda, de denúncia social, dos seus romances mais conhecidos. O que esta pesquisa visa demonstrar é que, apesar dessas serem questões mais delineadas dentro da obra, o social, na medida em que possa ser entendido como a representação do que é o Brasil e como isto compõe a própria psicologia da personagem, que sente-se inferiorizada por não ter modos estrangeiros, não deixa de ser, também, algo característico da Segunda Geração do Modernismo, não sendo cabível, portanto, a dicotomia estabelecida entre romances “engajados” e “de cunho psicologizante”.
Palavras-chave: Romance de 30. Brasil. Nacionalismo.

ABSTRACT
The Rural as Representative of Brazil in A Sucessora by Carolina Nabuco ABSTRACT Using Carolina Nabuco's novel A Sucessora as a case study this investigation focuses on the hypothesis that rural characterization assumes a representative character of Brazilianness as if what originates in the countryside, in the interior of the country, were more Brazilian than what is urban; in this case, what is seen in Rio de Janeiro, then the capital of the country. It is worth noting that this novel was published in the 1930s, commonly referred to as the Second Generation of Modernism, and to which is attributed as a notable characteristic the engaged verve or even social denunciation, of its best-known novels. What this research aims to demonstrate is that, although these issues are more clearly outlined within the work, the social aspect, insofar as it can be understood as a representation of what Brazil is and how this shapes the very psychology of the character, who feels inferior for not having foreign manners, is also a characteristic of the Second Generation of Modernism. Therefore, the established dichotomy between "engaged" and "psychologizing" novels is not applicable.
Keywords: Novel of the 1930s. Brazil. Nationalism.

INTRODUÇÃO

Carolina Nabuco (Rio de Janeiro, 1890-1981) foi uma escritora e tradutora brasileira, filha do político e eminente abolicionista Joaquim Nabuco, do qual escrevera a biografia, sendo este seu primeiro livro publicado, em 1929. Recebeu, em 1978, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, mesmo ano em que seu livro mais conhecido, A Sucessora, foi adaptado por Manoel Carlos como uma telenovela pela TV Globo.

Nascida em fins do século XIX, quando adulta Nabuco encontra espaço como escritora. Sua estreia nas letras coincide com as mudanças do final dos anos 20, após o advento do Modernismo no Brasil e prestes a iniciar aquela que consagrou-se definir como Segunda Geração do Modernismo, a Geração de 30, caracteristicamente identificada pelas produções de cunho social e político arraigado.

As primeiras décadas do século XX foram marcadas, no Brasil, pela tentativa de modernizar-se, o que afetou de forma indelével hábitos e relações sociais na sociedade brasileira, sobretudo a então capital do Brasil, Rio de Janeiro, e São Paulo. Em um país que há poucas décadas tinha findado a escravização de negros como principal força de trabalho, que começava a receber massas de imigrantes europeus e tentava, a todo custo, urbanizar-se, as camadas mais pobres da população, tanto do campo quanto da cidade, ficavam relegados à marginalização, condenados a condições precárias de trabalho e saúde, conforme atestam cronistas da época, tais como Monteiro Lobato e Alcides Maya, a título de exemplo.

O Brasil convulsionava com as transformações tecnológicas que aconteciam, enquanto ainda enfrentava as chagas de movimentos messiânicos levantados pelos desfavorecidos, como Canudos e Contestado. A Belle Époque foi momento de tensão e reconfiguração de uma República que engatinhava, de um povo que tentava entender-se como povo, o que, como mencionado, foi tema para cronistas e matéria para especulações literárias, vide a obra de um autor como Lima Barreto.

Após 1922 e o marco do Modernismo paulista com sua busca por uma arte e literatura genuinamente brasileira, a literatura brasileira se encaminharia, nos anos 30, para, dialeticamente, representar e refletir, por meio da ficção, as agruras que afligiam o povo brasileiro – ou assim convencionou-se entender este período, dados alguns dos seus nomes mais proeminentes, como Jorge Amado e Graciliano Ramos, que tomaram o sofrimento dos povos pobres do Nordeste, vítimas de infortúnios sociais e geográficos, como matéria para sua obra.

Além disso, em um contexto de modernização, parte da literatura também voltou o olhar para um retrato da decadência de alguns tipos de produção, como a de cana, no caso de José Lins do Rego, e do cacau, no caso do já citado Jorge Amado. Faz-se jus ressaltar, também, que neste contexto de decadência de modos de produção que outrora enriqueceram coronéis no Nordeste, de seca que dizimava centenas de pessoas cujas vidas já estavam condenadas a de exploração de sua força de trabalho e falta de condições básicas, a migração do espaço rural para o urbano também será um dos motes tidos como característicos de romances dos anos 30. Por outro lado, escritores do sul do país ocupar-se-iam das mazelas a que os pobres e suburbanos de uma cidade como Porto Alegre estavam sujeitos, resumindo, grosso modo, temáticas que permeiam as obras desta época de Erico Veríssimo e Dyonélio Machado, por exemplo.

Uma das obras incontornáveis do que se denominou Geração de 30, O Quinze, de Rachel de Queiroz, é, geralmente, elencado dentre as obras de denúncia da seca que afetava aqueles historicamente oprimidos e marginalizados no Nordeste, que migravam para a cidade visando chegar ao Sudeste, onde esperançavam encontrar oportunidades de vida. Todavia, conforme demonstrado por Bueno (2006), as obras seguintes desta autora não se limitaram a uma temática regionalista; em verdade, tampouco sua obra de estreia, ora mencionada, limitava-se a tal. Havia, em sua produção, espaço para a investigação psicológica dos personagens também.

Essa dimensão psicologizante é observável em outros autores do período, tais como o já mencionado Erico Veríssimo, e outros, como Lúcio Cardoso. Carolina Nabuco, em A Sucessora, deita o olhar sobre a dimensão psicológica de Marina, protagonista do romance. Valendo-se de elementos como o terror psicológico que a moça sente em relação ao retrato da primeira mulher de seu esposo, assombrada por ocupar o lugar de sucessora de alguém em muito diversa de si e que a faz sentir-se inferior em relação a ela, Marina é assombrada pela memória desta mulher que conhece apenas por um retrato e pelo que os outros dizem dela.

Com base nos romances citados anteriormente, evidencia-se como a literatura deste período deslocou-se do Rio de Janeiro para outras partes do Brasil. Não que isso fosse de alguma forma inédito na história do país, mas é durante os anos 30 que os escritores que mais produziram (e mais venderam) foram justamente os de outras regiões. Em um momento de transição do agrário para o industrial (ou do que parecia que ia ser uma transição), com as velhas fazendas em decadência mas cujos proprietários ainda detinham o capital político e social de um país erguido sob o jugo da escravidão e da posse de terra, era inevitável falar do campo.

A Sucessora, escrito por uma autora herdeira de uma dessas oligarquias cuja árvore genealógica remonta ao período das Capitanias Hereditárias, embora faça do sofrimento psíquico o seu tema principal e seja ambientado na cidade, também fala do campo, ao seu modo. Fala do campo porque é o trabalho rural que sustentou a família de Marina (evidentemente, o trabalho daqueles que eram empregados na fazenda a serviço da família); fala do campo porque, embora herdeira deste mundo decadente, e talvez justamente por isso, mesmo sentindo-se deslocada no próprio ambiente rural pela sua condição de sinhazinha culta, é a sua relação com a terra de origem que paira como estigma sobre Marina, alimentando um horror que ela sente por julgar-se inadequada, da mesma forma que um país fundado na violência agrária tenta industrializar-se para ser equiparado aos países europeus, que tiveram uma constituição histórica completamente outra.

O sentimento de inadequação, alimentado pelo que os outros dizem, e o desejo de ser exatamente o que já se é, são pontos convergentes entre Marina e a representação do Brasil comum na literatura brasileira (esta mesma, por vezes entendida como algo que esteve em formação por não se reconhecer nunca como essencialmente brasileira, ao mesmo tempo que não se considerava a par do que se produzia no norte global).

“VEIO-LHE UM GRANDE ORGULHO DE BRASILEIRA”: O BRASIL DE MARINA

Escrito e publicado em um contexto turbulento na literatura nacional, na medida em que a literatura abarca e extrapola problemas do cotidiano brasileiro e que os escritores dividir-se-ão entre engajados e os que enfocam a individualidade de seus personagens, A Sucessora, a despeito do propósito de tomar os sentimentos e pensamentos de Marina como mote, toma, também, a questão nacional como tema, ao abrir margem para pensarmos que Marina, descendente de família tradicional rural, pouco afeita à modismos e ostentações, sente-se inferiorizada quando ocupa o lugar de uma mulher enaltecida por seus modos e costumes europeizados.

Sendo Marina uma moça de origem rica, porém interiorana, afeita a vestidos de algodão e que leva, para a cidade, objetos de baixo valor monetário mas de grande estima, tais como bruxas de pano feitas por mulheres que trabalham na casa de sua família, esta sente-se deslocada quando vai para a capital do país, Rio de Janeiro, e é comparada constantemente à Alice, reconhecida por sua fineza e modos europeus, além do apego a objetos ostentatórios.

Tomando as relações entre os personagens como material, objetiva-se tornar visível como nesta obra o nacional é tomado como elemento crucial para diferenciar as personagens, e como este nacional está, em A Sucessora, relacionado ao ambiente rural.

Apesar de sua origem de moça rica, falante de duas línguas estrangeiras em um contexto em que a educação formal é muito restrita, Marina, crescida na Fazenda Santa Rosa sob a rigidez de uma educação católica imposta por sua mãe, é pouco afeita a objetos de luxo e ostentação, preferindo ocupar-se de leituras e não dispensando tempo enfeitando-se.

Mas era só intelectualmente que se sentia superior às meninas de sua idade. A educação na fazenda fazia-a parecer uma menina de convento. (...)Não sabia conversar com outras meninas, de modas e de namorados; ficava constrangida diante das ironias colegiais e dos cochichos maliciosos, mas quando um grupo de homens discutia livros Marina chegava-se a eles e saía-se com comentários felizes. (Nabuco, 2018, pp. 21-22).

Com esta personalidade que é descrita no decorrer da obra, após sua chegada na casa de Roberto, seu marido (que agora também passa a ser sua casa), Marina será atormentada pelo seu lugar de segunda esposa – para ela, atormentada pelo quadro que um pintor francês fizera da primeira esposa; talvez, seja possível apreender que o tormento a que a moça é submetida seja fruto de suas próprias inseguranças, mas não é este o objeto de análise do presente trabalho.

Marina chega em sua nova casa, no Rio de Janeiro, após passar a lua-de-mel em Buenos Aires. Seu marido, Roberto Steen, é quinze anos mais velho e um industrial muito rico. Viúvo, sua primeira mulher, Alice, morrera de uma doença rápida e brutal, que lhe roubou a vida que dedicara à alta sociedade carioca e às compras na Europa. O relacionamento entre Marina e Roberto começara meses depois, quando este, em visita às terras da família de Marina a fim de comprar parte delas, conquistara a moça. Não há, no romance, muito espaço para investigação psicológica em relação à Roberto: o foco é Marina. O que se sabe sobre outros personagens é pelo que estes pensam em relação ao que Marina pensa, embora o romance seja narrado em 3ª pessoa. Assim, o Roberto que o romance apresenta é um homem rico, descendente de europeus que conquistaram sua fortuna no Brasil e, então, ele dedica-se a tomar parte da alta sociedade, visitando e recebendo visitas diariamente, indo à Europa com frequência. À esposa de Roberto cabe, portanto, o papel de anfitriã.

Marina representa um tempo passado: sua riqueza vem de gerações passadas, ligadas à exploração da terra; Roberto, por sua vez, representa o novo, pois sua fortuna, além de recente, tem origem na indústria, em um país que busca modernizar-se. O apreço de Marina pelas coisas da terra é demonstrado em diversos momentos, tais como ao chegar no palacete em que passaria a viver e, ignorando a opulência deste, ocupa-se a admirar as palmeiras e flores como lírios e rosas que estão no jardim, não lhe despertando interesse flores mais raras, como o crisântemo.

Havia, no grande vestíbulo em que entraram, altos ramos de lírios e de rosas. Marina, com uma exclamação, dirigiu-se para eles. Roberto chamou sua atenção para outras flores mais raras, uns enormes crisântemos de estufa, mas ela os achou inverossímeis e frios. (Nabuco, 2018, p. 10, grifo nosso).

Na casa de Roberto, que agora também é sua, deparar-se-á com um retrato de Alice, pintado por Verron, um artista francês. Este quadro será objeto de tormento para Marina posteriormente, quando ficar obcecada pela ideia de que a pintura de Alice a julga e condena, rejeitando-a pela sua incapacidade de ser uma dona-de-casa à altura do que a primeira fora.

Para a nova casa, Marina leva consigo seus livros, gastos pelo uso, suas bonecas velhas, costuras, fotografias, almofadas bordadas e uma velha cruz que pertencera a seu pai. Miudezas que são repelidas pelo ambiente luxuoso e elegante à que pertence, onde nomes de modistas, tipos de perfumes e tecidos são valorizados. A casa em que agora vive, porém, em nada lhe remete ao Brasil.

Marina procurava compreender, para inteirar-se nela, a atmosfera desta casa em que tudo era novo, reluzente e caro, formando um conjunto frio, onde nada lembrava o Brasil. (...) Neste novo Brasil, para ela desconhecido, eles eram, pela fortuna, príncipes. (Nabuco, 2018, p. 28).

Das relações com as pessoas que a cercam, aquela que demonstrará empatia por sua situação de segunda esposa que está sob a sombra da falecida, será Isabel, sua criada. Embora não haja uma relação de amizade entre as duas, esta última é fiel a Marina, tendo crescido servindo à esta última.

Isabel, uma mulatinha da fazenda que crescera a seu serviço, retirava os objetos das malas um por um e colocava-os a esmo pelo quarto, entulhando as mesinhas delicadas, envergonhando as sedas e os charões. Isabel avaliara o apego de Marina a tudo isso no momento das arrumações em Santa Rosa, quando sua sinhazinha começou declarando que ia levar muito pouca coisa e acabou por trazer tudo. (Nabuco, 2018, p. 24).

Os criados que já pertenciam a casa, por outro lado, lembraram a Marina constantemente o quanto ela diverge da sua antecessora, sendo esta o parâmetro para o modo como a casa deve ser conduzida, não sobrando, enfim, espaço para Marina tornar a casa sua também.

Os criados nunca a [Alice] julgavam. A eles também seu encanto subjugara. A casa corria ainda sob suas ordens no mecanismo complicado e meticuloso a que ela dera impulso.Marina preferia que assim fosse, consciente de sua inexperiência para dirigir por normas europeias um interior tão vasto. Sua mãe lhe havia aconselhado que aprendesse com os criados, e ela os achara muito inclinados a ensinar. Antônio, que era o próprio poder conservador encarnado em copeiro, um dia respondera a uma indicação de Marina:
- Madame não queria assim. (Nabuco, 2018, p. 78).

Isabel se tornaria, então, vínculo com sua terra, com sua origem, e também vínculo com crendices e superstições, uma vez que a criada, em outras passagens do livro, terá contato com práticas desta ordem, trazendo não apenas elementos de mistério e fantasioso à obra, mas também da relação comumente brasileira com a religiosidade, em que o catolicismo em muitos casos funde-se a crenças de origem africana.

Germana, irmã de Roberto, coordena a casa do irmão, e frequentemente fará críticas às escolhas e hábitos da nova cunhada, lembrando-a do lugar que ocupa na sociedade e do que espera-se da mulher de alguém da estirpe de Roberto Steen. Germana é, em certa medida, representativa de um certo ideal de civilização pautado no que está em voga na Europa, tanto é que a arte brasileira só lhe saltara aos olhos quando o estrangeiro passou a valorizá-la.

Germana dava uma importância preponderante às pequenas questões de sociedade e de etiqueta. Seus ideais de elegância pautavam-se nos usos de outras terras mais adiantadas na arte de gastar fortunas. Dividia os brasileiros em duas espécies – os viajados, acostumados à Europa, e os outros, os caipiras. Brasileirismos de maneiras eram, para ela, inadmissíveis. (Nabuco, 2018, p. 27)

Apesar de se sentir destoante do mundo a que o marido e a cunhada pertencem, Marina também quer tomar parte nele. Seu incômodo é não necessariamente pela sua origem, mas sim por não interessar-se genuinamente pelo que interessa à elite carioca. Sente-se à margem de Alice, esposa perfeita e símbolo de mulher elegante e de personalidade da época, não por pura e simplesmente sentir-se inferior, mas por, entendendo-se como diferente dela, tem ciência que essa diferença a exclui do círculo social a que o marido pertence – e que ela, como esposa, tem o dever de pertencer também.

Dentre os elementos que reforçam esta hipótese, além dos objetos que escolhera levar consigo e da sua admiração por plantas comuns ao Brasil, Marina recusa, por exemplo, ser tratada por “Madame” pela sua consciência de brasileira, não lhe cabendo, portanto, um termo usado no francês, diferentemente de Alice, que era reconhecida como Madame Steen.

Isabel aprendera com os outros criados a chamar Alice de Madame. Marina não quisera este título. Fora sua primeira ordem na casa de Roberto. Na própria noite de sua chegada, corrigira Antônio:

– Não diga Madame. Diga Dona Marina. – E logo, segundo o seu costume, virara-se para Roberto, a justificar-se: - Nós não somos franceses. Somos brasileiros. (Nabuco, 2018, p. 77).

Outro destes elementos é o personagem de Miguel, primo de Marina e que fora seu noivo. Embora intelectualmente Miguel sempre lhe parecera interessante, Marina jamais nutrira por ele qualquer sentimento romântico ou um afeto maior do que o entre primos, mas aceitara toma-lo como noivo por conveniência, pressão por parte de sua mãe e por não querer magoar o primo. Contudo, após conhecer Roberto rompera com ele, que passa a recusar-se a lhe dirigir palavra. Retomam contato tempos depois, com Miguel indo visitá-la em sua casa.

Miguel tornara-se jornalista e está desiludido com o papel que a imprensa exerce na sociedade brasileira, em razão de conflitos que vem enfrentando com um rapaz no jornal em que trabalha. Os conflitos giram em torno, basicamente, das visões que cada um tem sobre o papel do jornal em relação ao seu público: Miguel é polemista e escreve textos agressivos, de ataques contra o que julga errado, enquanto o seu chefe vê no jornal um meio para incentivar o patriotismo. Se este último vê o jornal como instrumento de formação do povo, o primeiro recusa-se ao papel de formador, pois escreve aquilo que entende que o povo quer ler. Neste momento, o primo definirá a si mesmo como um velho Brasil que agoniza, ao que Marina reage se identificando.

– Sou um anacronismo vivo – disse Miguel –, e não pode haver nada mais cruel. É a tragédia dos velhos, mas a mim colheu-me na mocidade. Eu sou o velho Brasil, o Brasil agonizante.
- Eu também, Miguel! Eu também sou o velho Brasil. Você sabe como eu fui criada... Santa Rosa... Este meio em que vivo não é o meu. Eu ainda não o compreendo. (Nabuco, 2018, p. 111).

Neste encontro, que acontece na sala em que o quadro de Alice está exposto, Miguel beijará Marina, que recuará, rompendo, mais uma vez, o laço entre eles. Entretanto, a partir deste momento Marina, que já receava e se sentia aflita perante o quadro, agora passará a se sentir assombrada por ele, como se Alice estivesse prestes a persegui-la.

A relação de Marina com o quadro é uma crescente durante o livro, pois o quadro é, em si, a representação daquela que Marina jamais conseguirá ocupar o lugar. Essa tensão culmina no momento do beijo, quando então Marina começará a ficar obcecada pela ideia de Alice a perseguindo e a casa se tornará incômoda para ela o tempo todo, prejudicando sua saúde e roubando-lhe a paz. Por acreditar que ninguém lhe acreditaria se contasse o tormento que um quadro lhe está fazendo, Marina sofre em silêncio. A dimensão psicológica do sofrimento de Marina ganhará, em certa medida, tons do horror gótico para ser descrita.

Se no início do romance a protagonista já trazia incômodo com o quadro, este se tornará o símbolo de toda inadequação que Marina sente no palacete de Paissandu. Tudo ali lhe é hostil, mas o foco dela está no quadro. Embora chegue a elaborar em muitos momentos quão deslocada sente-se no ambiente urbano, frequentando as rodas sociais de Roberto, que sempre lhe parecem fúteis e superficiais, essa angústia é projetada no retrato de Alice – afinal, a falecida fora, em vida, a representação do ideal da mulher moderna, com sua vivacidade e estilo. Tanto que, é a fama de Alice, que chegara até Marina quando ainda era moça através de Adélia, que precede a chegada de Roberto. Antes de sequer tê-lo visto, Marina já era ciente de sua existência como “marido de Alice Steen”.

Atormentada pelo quadro, Marina buscara conforto na confissão a um padre e, não sendo suficiente, vai para a fazenda da mãe, sem avisar a ninguém. Corta, abruptamente, seu vínculo com a casa que associa a Alice – e a tudo que jamais será porque jamais fora, antes de Roberto, sua pretensão ser tal.

Enquanto vai embora da casa do marido, dirigindo-se à estação de trem em um taxi pois recusara-se até a usar o carro que Alice usava, contempla as praias do Rio e lhe invade a sensação de orgulho por ser brasileira.

A beleza da praia do Flamengo entrou-lhe pela vista e os sentidos como um inebriante. Nessa hora já estava esquecido o calor tórrido da véspera, o calor que era como uma maldição sobre o litoral brasileiro. (...) Veio-lhe um grande orgulho de ser brasileira, diante do quadro que nenhum outro no mundo podia superar. Lembrou-se de ter pensado, quando vinha ao Rio como forasteira, que neste panorama as dores e aflições se deveriam dissolver pela simples influência da beleza ambiente. Fora engano! Senão, suas pequeninas misérias não poderiam ter levantado as ínfimas cabeças. Mas agora, sob o efeito da paz estranha, sentia a magia do Rio plenamente. “Minha terra”, pensou, com exaltação. (Nabuco, 2018, p. 151).

Na estação, enquanto aguarda o trem, observará as pessoas que por ali transitam, a diversidade de cores e raças desta gente, descrita pelo uso de estereótipos raciais. Apesar disso, desse uso de estereótipos para caracterizar as gentes que observa transitar por ali, Marina olha para elas com ternura, ternura esta que aparece depois de meses de angústia e que surge de maneira espontânea.

Na fazenda Santa Rosa, novamente ficará admirada com a grandiosidade da natureza do Brasil. Em paz, no dia seguinte Marina encontrará Roberto, que fora em sua busca. Nesta altura, a protagonista que tanto se esforçara para ser aceita e agradar ao marido, recusa-se a voltar para o Rio de Janeiro e para a casa que dividiam. Nenhum dos lados cede, mas Marina descobrirá estar grávida, o que une novamente o casal, que por recomendação médica, embarcará em viagem para a Europa. Lá, Marina reconcilia-se com sua paz de espírito e com o lugar que ocupa enquanto segunda esposa, tão diferente da primeira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nota-se, portanto, como a questão da brasilidade ganha relevo nesta obra quando Marina sente-se deslocada em relação ao mundo do marido e inadequada quando comparada à esposa anterior por valorizar aquilo que é feito pela gente com quem convive, além do gosto pelas plantas brasileiras. Neste aspecto, o rural ganha dimensão desse nacional almejado, enquanto o ambiente urbano é um ambiente artificial e estranho ao seu próprio povo e história.

Além disso, as relações de trabalho e raça também são questões que aqui nos interessam, por entendê-las como questões pertinentes à própria noção de Brasil e que foram, também, tema para a produção literária dos anos 30.

Em relação ao trabalho como força produtiva, este é característico, com exceção de Miguel, dos subalternos. Na casa da fazenda há muitos empregados, ex-escravos e descendentes de escravos que ali cresceram. Outros tantos abrigaram-se ali em troca de trabalho e proteção de Dona Emília, mãe de Marina. A relação entre eles é de troca de favores, pois o narrador descreve o trabalho que fazem como pouco, que apenas os dá o que precisam. Miguel, por outro lado, não precisa, mas trabalha por ver nisso o meio para atribuir-lhe sentido à vida, após a desdita de Marina. O trabalho de Roberto é pouco descrito, por ser proprietário.

O trabalho não é, portanto, um tormento para Marina. Diferente de outros romances dos anos 30, a aflição, aqui, é psicológica e atinge uma mulher burguesa de origem oligárquica, restrita a um mundo que estranha por não reconhecer nele o valor que a alta sociedade urbana atribui. Há neste romance a relação entre campo e cidade, mas quem transita de um para outro não o faz fugindo da fome ou por ter sua força de trabalho explorada – pelo contrário, para ela, o campo é um refúgio e espaço de paz. Portanto, embora haja um movimento de migração por parte da protagonista, essa é desejada por razões que não são a sobrevivência. Tanto que, quando o tormento do quadro atinge seu ápice, ela retorna ao campo, retorno este que, para um retirante que tentava escapar da fome e da falta de perspectiva, significaria a morte – para Marina, é bem o contrário: é no retorno ao campo que descobre-se grávida, portadora, enfim, da vida.

Mais do que obra cuja proposta é desvelar a angústia de uma mulher sob a sombra da memória de outra que julga superior a si, A Sucessora representa que a dimensão psicológica, nos anos 30, tinha intercessão com questões então na ordem do dia, como as relações de trabalho, o nacionalismo e o entender-se como brasileiro em um meio que valorizava o estrangeiro e o cada vez mais moderno.

Pode-se concluir que o desfecho do romance, com o apaziguamento de Marina, que acontece quando verbaliza para Roberto sua angústia e este a acolhe, decidindo que irão retirar, enfim, o quadro do palacete, é como se fosse uma conclusão não da superação do rural e prevalência do urbano, mas a harmonia entre ambos, que gera, enfim, o Brasil.

Marina, que durante todo seu sofrimento pensava na fazenda, no passado, na sua própria origem, realçava o contraste entre campo e cidade, as diferenças de costumes, hábitos e valores predominantes em cada um, quando enfim decide romper com essa angústia e ir embora do palacete de Paissandu, olha, pela primeira vez, com ternura para a cidade do Rio de Janeiro e as suas gentes. Nesse deslocamento, aproxima-se mais do povo, atenta-se mais ao que povoa a caracteriza a cidade, porém isso não a demove de sua resolução.

Roberto, indo atrás da esposa da fazenda e acolhendo sua angústia, sendo ele um representante do Brasil novo, o Brasil que almejava ser industrial, moderno e, sobretudo, mais parecido com o europeu (o que Roberto o era, em razão de sua descendência flamenga), ao reconhecer Marina, reconhece o passado e as feridas dela. Não impõe-se sobre ela, não exige que ela adeque-se ao seu mundo: faz concessões para que ela retorne ao seu.

Se Marina e Roberto são representantes de ideias de Brasil opostos, uma ligada ao antigo e rural, outro ao novo e urbano, é do choque entre estes ideais que surge algo novo. A síntese desta dialética é algo outro, nem aquilo nem isso, mas algo que traz consigo elementos de ambos os lados. Não é por acaso, conclui-se, que o que sela a paz do casal (e demarca a vitória de Marina sobre Alice) seja justamente a descoberta da gravidez.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SÜSSEKIND, Flora. Cinematógrafo de Letras: literatura, técnica e modernização no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.


1 Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. E-mail: [email protected]