REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784398061
RESUMO
A presente pesquisa tem como intencionalidade discorrer sobre o tema “O processo de luto e a importância da relação terapêutica sob a perspectiva da Análise do Comportamento”, para tanto pergunta investigativa: “Como o processo de luto pode ser compreendido, a partir da Análise do Comportamento, considerando as variáveis ambientais e as alterações comportamentais envolvidas e a importância da relação terapêutica nesse processo?”. Com o objetivo de analisar o processo de luto como um fenômeno comportamental a partir da perspectiva da Análise do Comportamento. Entre os objetivos específicos, pretende-se descrever o conceito de luto na literatura behaviorista e discutir como a Análise do Comportamento compreende comportamentos, pensamentos, emoções e relações interpessoais no contexto do luto, e identificar estratégias de manejo utilizadas pelos psicólogos na construção da relação terapêutica. A presente pesquisa será desenvolvida a partir de uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo. Conclui-se que a pesquisa possibilitou compreender o luto como um fenômeno multideterminado, influenciado por variáveis ambientais, repertório de vida e contexto sociocultural, evidenciando a relevância desse entendimento para o manejo clínico e para o fortalecimento da relação terapêutica.
Palavras-chave: Luto; Análise do comportamento; Psicologia; Manejo; Relação terapêutica.
ABSTRACT
This research aims to discuss the topic "The grieving process and the importance of the therapeutic relationship from the perspective of Behavior Analysis," addressing the investigative question: "How can the grieving process be understood through Behavior Analysis—considering the environmental variables and behavioral changes involved, as well as the importance of the therapeutic relationship in this process?" The study seeks to analyze the grieving process as a behavioral phenomenon from the perspective of Behavior Analysis. Specific objectives include describing the concept of grief in behaviorist literature, discussing how Behavior Analysis understands behaviors, thoughts, emotions, and interpersonal relationships within the context of grief, and identifying management strategies used by psychologists to build the therapeutic relationship. This research employs a qualitative approach of an exploratory-descriptive nature. The study concludes that it is possible to understand grief as a multi-determined phenomenon influenced by environmental variables, life repertoire, and sociocultural context, highlighting the relevance of this understanding for clinical management and the strengthening of the therapeutic relationship.
Keywords: Grief; Behavior Analysis; Psychology; Management; Therapeutic relationship.
1. INTRODUÇÃO
O luto constitui uma experiência inerente à condição humana, caracterizada pelo conjunto de respostas desencadeadas diante da perda de um vínculo significativo. Embora seja frequentemente associado à morte de um ente querido, esse processo também pode decorrer de outras experiências de ruptura, como o término de relacionamentos, a perda de papéis sociais ou mudanças importantes no ciclo de vida. Trata-se de um fenômeno complexo e multideterminado, cuja manifestação é influenciada pela história de aprendizagem do indivíduo, pelas contingências ambientais e pelos aspectos culturais que permeiam a experiência da perda (Fonseca; Santos; Freire, 2022).
Na Psicologia, diferentes referenciais teóricos buscam compreender o processo de luto e suas repercussões sobre o comportamento humano. Entre eles, a Análise do Comportamento, fundamentada no Behaviorismo Radical, compreende o comportamento como resultado das interações estabelecidas entre o organismo e o ambiente, sendo continuamente influenciado pelas consequências produzidas ao longo da história de vida do indivíduo (Skinner, 2003). Sob essa perspectiva, o luto pode ser compreendido como um fenômeno comportamental decorrente das alterações nas contingências ambientais produzidas pela perda, uma vez que a ausência de uma pessoa significativa modifica fontes de reforçamento, relações interpessoais e repertórios comportamentais anteriormente estabelecidos (Neno, 2003; Fonseca; Santos; Freire, 2022).
Essa compreensão amplia as possibilidades de análise do processo de luto ao considerar que pensamentos, emoções e comportamentos são influenciados pelas contingências que compõem a história de aprendizagem de cada indivíduo. Dessa forma, a vivência da perda não pode ser entendida como um processo uniforme ou linear, mas como uma experiência singular, que exige reorganizações comportamentais diante das mudanças provocadas pela ausência de importantes fontes de reforçamento (Oliveira, 2014).
A relevância deste estudo está relacionada à frequência com que o processo de luto constitui demanda nos contextos de atendimento psicológico e à necessidade de ampliar a produção de conhecimento sobre esse fenômeno sob a perspectiva da Análise do Comportamento. Considerando que as perdas fazem parte do ciclo vital e podem produzir impactos significativos no repertório comportamental dos indivíduos, torna-se fundamental reunir evidências que contribuam para uma compreensão mais aprofundada do tema e subsidiem práticas clínicas fundamentadas, respeitando a singularidade da experiência de cada pessoa enlutada.
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar o processo de luto como um fenômeno comportamental sob a perspectiva da Análise do Comportamento, descrevendo sua compreensão na literatura behaviorista, discutindo os comportamentos, pensamentos, emoções e relações interpessoais envolvidos nesse processo e evidenciando a importância da relação terapêutica no manejo clínico de indivíduos enlutados. Espera-se que os resultados contribuam para o fortalecimento da prática psicológica baseada na Análise do Comportamento, oferecendo subsídios teóricos para a atuação clínica e incentivando o desenvolvimento de novas pesquisas sobre o processo de luto e suas implicações para a Psicologia.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. A Análise do Comportamento e o Processo de Luto
A Análise do Comportamento constitui uma abordagem psicológica fundamentada nos princípios do Behaviorismo Radical, desenvolvidos por B. F. Skinner. Essa perspectiva busca compreender o comportamento humano a partir das relações estabelecidas entre o organismo e o ambiente, considerando que as ações dos indivíduos são influenciadas pelas consequências produzidas ao longo de sua história de interação com o mundo.
Segundo Skinner (2003, p. 31), “os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação”. Essa afirmação evidencia um dos principais pressupostos da abordagem analítico-comportamental: o comportamento é resultado de uma relação dinâmica entre indivíduo e ambiente, sendo constantemente selecionado pelas consequências que produz.
Nesse sentido, a Análise do Comportamento propõe uma compreensão funcional do comportamento humano, buscando identificar as relações de dependência entre eventos ambientais e respostas emitidas pelo indivíduo. Conforme descrito por Neno (2003), a análise funcional tem como objetivo investigar os fenômenos comportamentais a partir da identificação de padrões de repetição entre variáveis, analisando os efeitos das consequências sobre o comportamento. Dessa maneira, compreender um repertório comportamental implica considerar os processos de aprendizagem, as contingências de reforçamento e as experiências acumuladas pelo sujeito ao longo de sua vida.
A história de contingências de reforçamento possui papel fundamental nessa compreensão, uma vez que muitos comportamentos apresentados pelos indivíduos foram estabelecidos e mantidos em contextos anteriores.
Guilhardi (2013) destaca que a análise da história de vida do sujeito possibilita identificar a função de determinados comportamentos e compreender como tais respostas passaram a integrar o repertório do indivíduo. Assim, eventos marcantes, como perdas, separações e morte de pessoas significativas, produzem impactos importantes nas relações entre o sujeito e o ambiente, ocasionando mudanças em seu repertório comportamental.
A morte, enquanto fenômeno natural e inevitável, atravessa a experiência humana de maneira universal. Entretanto, embora seja um evento inerente à vida, sua compreensão e aceitação são influenciadas pelas práticas culturais e pelos significados construídos socialmente ao longo do tempo. Na perspectiva analítico-comportamental, a morte pode ser compreendida como a interrupção definitiva das interações entre o organismo e o ambiente.
Fonseca, Santos e Freire (2022) apontam que, em nível ontogenético, a morte representa o encerramento da possibilidade de o organismo produzir comportamentos e ser afetado pelas consequências de suas ações. Já em nível cultural, diferentes sociedades desenvolvem formas próprias de lidar com a morte, estabelecendo crenças, rituais e modos específicos de expressão do sofrimento.
A vivência da morte costuma mobilizar diferentes respostas emocionais e comportamentais tanto no indivíduo que enfrenta sua própria finitude quanto naqueles que lidam com a perda de alguém significativo. Fraley (1998) afirma que pensar sobre a morte pode gerar sentimentos de impotência diante das limitações impostas pelas contingências biológicas relacionadas ao fim da vida. Dessa forma, a morte frequentemente é associada a sofrimento, medo, insegurança e alterações no repertório comportamental dos indivíduos envolvidos nesse processo.
Como consequência da perda, emerge o luto, compreendido como uma reação natural frente a ruptura de vínculos significativos. O luto envolve fatores biológicos, sociais e culturais, sendo vivenciado de maneira singular por cada indivíduo. Holmes e Rahe (1967) descrevem o luto como um processo de adaptação às novas contingências estabelecidas após a perda, exigindo reorganizações comportamentais diante da ausência da pessoa falecida.
A Análise do Comportamento, o luto pode ser entendido como um fenômeno multideterminado, relacionado às alterações nas contingências ambientais decorrentes da perda. Quando um vínculo significativo é rompido, diversos estímulos anteriormente presentes deixam de existir, ocasionando mudanças importantes na rotina, nas relações interpessoais e nas fontes de reforçamento disponíveis ao indivíduo. Pessoas significativas frequentemente funcionam como fontes constantes de reforçamento social, afeto, apoio emocional e organização da vida cotidiana. Assim, sua ausência modifica diretamente as contingências às quais o indivíduo estava submetido.
Fonseca, Santos e Freire (2022) definem o luto como “uma reação de estresse relacionado a uma perda”, sendo influenciado pela intensidade do vínculo estabelecido, pela história de vida do sujeito e pelas variáveis culturais presentes em seu contexto. Dessa maneira, não existe uma forma única ou universal de vivenciar o luto, uma vez que diferentes indivíduos respondem de maneiras distintas às experiências de perda.
Ao longo da literatura psicológica, diversos modelos buscaram explicar o processo de luto. Entre eles, destaca-se o modelo das fases do luto, proposto por Kübler-Ross (1996), que descreve respostas frequentemente observadas em indivíduos enlutados: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A fase de negação caracteriza-se pela dificuldade em acreditar na perda; a raiva envolve sentimentos de revolta, ressentimento e culpabilização; a barganha refere-se às tentativas de negociação diante da perda; a depressão é marcada por tristeza intensa, isolamento e sofrimento emocional; e a aceitação representa a reorganização gradual da vida diante da ausência do ente querido.
Entretanto, apesar de amplamente difundido, o modelo das fases do luto não deve ser compreendido de maneira rígida ou linear. As respostas comportamentais relacionadas ao luto não seguem necessariamente uma ordem cronológica específica, podendo ocorrer simultaneamente ou variar conforme a história de vida e as contingências presentes no ambiente do indivíduo. Dessa forma, a Análise do Comportamento busca compreender o luto de maneira funcional e contextualizada, considerando a singularidade da experiência de cada sujeito.
Nessa perspectiva, pensamentos, emoções e sentimentos também são compreendidos como comportamentos, ainda que privados. Skinner (1953/2003) aponta que eventos privados não estão desvinculados das contingências ambientais, sendo influenciados pela história de aprendizagem do indivíduo e pelas consequências produzidas em seu ambiente social. Assim, sentimentos frequentemente associados ao luto, como tristeza, culpa, vazio, saudade, ansiedade e desesperança, são compreendidos como respostas comportamentais relacionadas às contingências decorrentes da perda.
As alterações comportamentais presentes no luto podem manifestar-se de diferentes maneiras, envolvendo mudanças em pensamentos, falas, ações e relações interpessoais. Muitos indivíduos apresentam isolamento social, alterações na rotina, dificuldades de concentração, mudanças no sono, redução do interesse por atividades anteriormente reforçadoras e dificuldades de adaptação à nova realidade. Tais respostas não devem ser compreendidas apenas como sintomas emocionais, mas como comportamentos influenciados pelas contingências estabelecidas após a perda.
Além disso, alguns autores compreendem o luto operacionalmente como um processo de extinção. Segundo Bravin e Gimenes (2013) e Oliveira (2014), repertórios anteriormente mantidos pela presença da pessoa falecida deixam de produzir os reforçadores que sustentavam determinados comportamentos. Assim, ocorre uma quebra na relação entre comportamento e consequência, fazendo com que respostas relacionadas ao vínculo perdido diminuam em frequência ou sofram reorganizações diante da ausência definitiva do ente querido.
As relações interpessoais também passam por transformações significativas durante o processo de luto. A perda de alguém importante implica não apenas na ausência física do indivíduo, mas também na ruptura de contingências estabelecidas ao longo da convivência.
Muitas atividades cotidianas deixam de ocorrer, rotinas são modificadas e novas demandas comportamentais surgem. Dessa maneira, o indivíduo enlutado frequentemente necessita construir novos repertórios comportamentais para adaptar-se às mudanças impostas pela perda.
Outro aspecto relevante no processo de luto refere-se aos comportamentos de fuga e esquiva diante da dor da perda. Durante o enlutamento, muitos indivíduos evitam entrar em contato com estímulos relacionados ao falecido, como objetos pessoais, lugares frequentados pela pessoa ou lembranças associadas à relação vivenciada. Hayes (2004) descreve esse fenômeno como esquiva experiencial, caracterizada pelas tentativas de evitar pensamentos, emoções e eventos privados considerados aversivos.
Segundo o autor, a comunidade verbal frequentemente ensina o indivíduo a evitar ou controlar emoções consideradas negativas, favorecendo repertórios de esquiva diante do sofrimento.
Entretanto, embora tais respostas possam produzir alívio imediato, elas tendem a manter o sofrimento a longo prazo, uma vez que impedem o contato direto com as contingências relacionadas à perda e dificultam o processo de adaptação.
2.2. As Contingências Relacionadas Ao Processo de Luto
Na perspectiva analítico-comportamental, o luto pode ser compreendido como uma reação desencadeada pela ruptura de vínculos significativos e, consequentemente, pela perda de importantes fontes de reforçamento presentes na vida do indivíduo (Oliveira, 2014).
Embora frequentemente associado à morte de um ente querido, o luto não se restringe a esse contexto. Kovács (2008) destaca que diferentes experiências de perda podem desencadear processos de enlutamento, como o término de relacionamentos, a saída dos filhos da residência familiar, a aposentadoria, a perda do emprego ou mudanças relacionadas ao ciclo do desenvolvimento humano.
Ao perder uma fonte significativa de reforçamento, as contingências ambientais sofrem alterações importantes. Hoshino (2006) afirma que o indivíduo deixa de ter acesso a elementos que anteriormente produziam bem-estar, exigindo adaptações frentes à nova realidade.
Nascimento et al. (2015) esclarecem que a pessoa falecida deixa de compor o ambiente do enlutado, não podendo mais atuar como estímulo antecedente sinalizador de reforçamento. Dessa forma, diversos comportamentos anteriormente mantidos pela interação com essa pessoa passam a ter maior probabilidade de entrar em extinção, uma vez que deixam de produzir as consequências reforçadoras que os sustentavam (Martin & Pear, 2009).
As manifestações comportamentais do luto podem ocorrer de diferentes maneiras. Worden (1991) descreve que indivíduos enlutados frequentemente apresentam sentimentos como tristeza, culpa, ansiedade, raiva e, em alguns casos, alívio.
Além disso, podem surgir reações físicas, como fadiga, falta de energia, dores musculares e hipersensibilidade a estímulos sonoros, bem como reações cognitivas caracterizadas por preocupação excessiva, descrença, sensação da presença da pessoa falecida e pensamentos recorrentes relacionados à perda. Também são observados comportamentos como choro, isolamento social, alterações no sono, mudanças no apetite e agitação.
Entretanto, apesar dessas manifestações serem frequentemente observadas, a vivência do luto permanece singular, variando de acordo com a história de vida, os vínculos estabelecidos e as contingências presentes na vida de cada indivíduo.
A compreensão do luto também exige considerar os três níveis de seleção do comportamento descritos por Skinner (1981): filogênese, ontogênese e cultura. Enquanto a filogênese refere-se aos aspectos biológicos e evolutivos da espécie, a ontogênese diz respeito à história individual de aprendizagem e às experiências acumuladas ao longo da vida. Já a cultura envolve as práticas sociais compartilhadas por determinado grupo. Assim, a forma como cada pessoa vivencia, expressa e elabora o luto sofre influência desses três níveis, o que contribui para a diversidade de respostas observadas diante das situações de perda.
Em alguns casos, as mudanças produzidas pela perda podem tornar-se tão aversivas que o indivíduo encontra dificuldades para entrar em contato com a realidade da ausência e com os sentimentos decorrentes do processo de luto. Quando isso ocorre, podem surgir obstáculos à elaboração da perda, dificultando a adaptação às novas contingências ambientais. Franco (2021) descreve que, nessas situações, o sofrimento pode assumir características persistentes, incluindo intensa sensação de vazio, dificuldade de aceitar a perda, lembranças invasivas do falecido e comprometimentos significativos na continuidade da vida cotidiana. Esse fenômeno é frequentemente descrito como luto complicado ou luto não elaborado.
No contexto clínico, o manejo do luto dentro da Terapia Comportamental busca auxiliar o indivíduo a entrar em contato com as contingências relacionadas à perda, favorecendo o desenvolvimento de novos repertórios comportamentais. Worden (2018) descreve que uma das principais tarefas do luto consiste na aceitação da realidade da perda, permitindo que o sujeito reconheça gradualmente a ausência definitiva da pessoa falecida.
2.3. Relação Terapêutica e Processo de Luto Como Manejo Clínico
Para que o processo terapêutico seja efetivo, a relação estabelecida entre terapeuta e cliente assume papel central no manejo clínico do luto. Moriyama et al. (2014), Tsai et al. (2011), Franks (2007), Delliti (2002) e Banaco e Zamignani (1999) destacam que a construção de uma relação genuína, respeitosa e acolhedora favorece a expressão dos sentimentos relacionados à perda, possibilitando que o cliente compartilhe experiências, dificuldades e aspectos de sua história de vida frequentemente associados ao sofrimento.
Nesse contexto, destaca-se o conceito de audiência não punitiva, proposto por Skinner (1953/2000), segundo o qual o terapeuta oferece um ambiente em que o cliente possa expressar seus pensamentos, sentimentos e comportamentos sem receio de julgamentos ou punições. Ao encontrar um espaço seguro para falar sobre sua dor, o indivíduo pode entrar em contato com experiências frequentemente evitadas em outros contextos sociais, favorecendo a diminuição de respostas de esquiva e ampliando as possibilidades de enfrentamento da perda. Conforme apontam Alves e Isidro-Marinho (2010) e Silva e De-Farias (2010), a ausência de julgamento por parte do terapeuta contribui para o enfraquecimento de controles aversivos associados à expressão do sofrimento.
A literatura aponta que uma das principais queixas de pessoas enlutadas refere-se à dificuldade de encontrar espaços de escuta. Kovács (2012) ressalta que familiares e amigos frequentemente evitam conversar sobre a perda ou demonstram impaciência diante da persistência do sofrimento, limitando a possibilidade de expressão dos sentimentos relacionados ao luto. Nesse cenário, o setting terapêutico pode constituir um importante contexto de acolhimento, no qual o cliente encontra condições favoráveis para falar sobre sua dor, elaborar significados e compreender os impactos da perda sobre sua vida.
Além disso, o terapeuta pode atuar como importante fonte de reforçamento positivo, auxiliando o cliente no desenvolvimento de novos repertórios comportamentais e na ampliação de comportamentos mais adaptativos diante das mudanças decorrentes da perda (Alves & Isidro-Marinho, 2010). Basso e Wainer (2011) destacam que a transmissão de apoio, confiança e acolhimento favorece a percepção de segurança por parte do cliente, fortalecendo a aliança terapêutica e contribuindo para o processo de mudança comportamental.
Por fim, o trabalho clínico com demandas relacionadas ao luto exige do profissional constante reflexão acerca de suas próprias concepções sobre morte, perdas e finitude. Oliveira (2014) destaca que o terapeuta necessita desenvolver repertórios que lhe permitam lidar tanto com suas próprias questões quanto com o sofrimento apresentado pelos clientes. Dessa forma, torna-se possível oferecer um acompanhamento ético, sensível e tecnicamente fundamentado, respeitando a singularidade de cada experiência de enlutamento e favorecendo a construção de novas formas de adaptação diante da perda.
Nesse processo, o psicoterapeuta possui um papel fundamental ao auxiliar o paciente na compreensão de seus comportamentos, emoções e pensamentos relacionados ao luto. A escuta acolhedora, a empatia e o respeito à singularidade da experiência do sujeito configuram-se como elementos essenciais para o manejo clínico adequado. Fonseca, Santos e Freire (2022) ressaltam que o terapeuta deve considerar os aspectos culturais, religiosos e sociais envolvidos na forma como o indivíduo interpreta a morte e vivência o sofrimento.
Além disso, cabe ao profissional evitar a invalidação das respostas emocionais do paciente, reconhecendo que o luto é um processo singular e de tempo indeterminado. A atuação clínica deve possibilitar que o indivíduo compreenda os impactos da perda sobre seu repertório comportamental e desenvolva gradualmente novas formas de adaptação diante das mudanças impostas pela ausência do ente querido.
Dessa maneira, compreender o luto sob a perspectiva da Análise do Comportamento contribui para ampliar as possibilidades de análise e intervenção no contexto clínico, favorecendo práticas mais sensíveis, éticas e eficazes diante das demandas relacionadas ao sofrimento e ao enlutamento. Além disso, o aprofundamento teórico acerca dessa temática possibilita maior compreensão sobre os impactos comportamentais decorrentes da perda, fortalecendo a atuação dos profissionais da Psicologia no manejo clínico de indivíduos enlutados.
3. CONCLUSÃO
A presente pesquisa permite compreender o processo de luto como um fenômeno comportamental multideterminado, influenciado pelas contingências ambientais, pela história de aprendizagem e pelo contexto sociocultural do indivíduo. Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, o luto é compreendido como um processo de reorganização comportamental decorrente da ruptura de vínculos significativos, evidenciando que as respostas emitidas pelo indivíduo não seguem um padrão único, mas variam de acordo com sua história de vida e com as condições ambientais às quais está exposto.
Os objetivos propostos são alcançados ao descrever o conceito de luto na literatura behaviorista, discutir a compreensão dos comportamentos, pensamentos, emoções e relações interpessoais envolvidos nesse processo e evidenciar a importância da relação terapêutica como elemento essencial para o manejo clínico de indivíduos enlutados. Dessa forma, a questão norteadora da pesquisa é respondida ao demonstrar que a Análise do Comportamento oferece uma compreensão funcional do luto, possibilitando identificar as contingências relacionadas à perda e subsidiar intervenções clínicas mais contextualizadas.
As hipóteses inicialmente apresentadas são confirmadas ao evidenciar que o processo de luto constitui um fenômeno multideterminado, que não se manifesta de forma linear ou uniforme entre os indivíduos e cuja adaptação depende da reorganização das contingências ambientais, da história de reforçamento e das interações sociais estabelecidas após a perda.
Como contribuição teórica, o estudo amplia a compreensão do luto sob a ótica da Análise do Comportamento ao reunir e sistematizar evidências científicas sobre o tema. No âmbito prático, reforça a importância da atuação do psicólogo na construção de uma relação terapêutica acolhedora, ética e fundamentada, favorecendo o desenvolvimento de repertórios comportamentais mais adaptativos frente às mudanças impostas pela perda.
Entre as limitações da pesquisa, destaca-se a utilização exclusiva de estudos publicados em língua portuguesa e o recorte temporal adotado para a seleção dos artigos, fatores que podem restringir a abrangência dos achados. Recomenda-se que futuras investigações ampliem as bases de dados consultadas, incluam publicações internacionais e desenvolvam pesquisas empíricas que aprofundem a compreensão das estratégias de manejo clínicos utilizados no atendimento de indivíduos enlutados, contribuindo para o fortalecimento da produção científica e da prática psicológica fundamentada na Análise do Comportamento.
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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Docente do Curso de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR. E-mail.: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail