REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784404220
RESUMO
A praia de São José da Coroa Grande está localizada a 123km da capital Recife, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. O presente estudo teve como objetivo investigar e comparar a evolução temporal da linha de construção na zona costeira do município, nos períodos de 2006, 2014, 2018, 2022 e 2023, com ênfase na análise da Área não Edificante a fim de mitigar os impactos naturais e antrópicos que a afetam. Para o monitoramento da evolução temporal da linha de construção foram utilizadas imagens de satélites dos anos de 2006, 2018 e 2022, obtidas por meio da plataforma Google Earth pro; e imagens de VANT para o ano de 2023, perfazendo um levantamento de 18 anos. Foi estabelecida como linha de construção às infraestruturas urbanas situadas mais próximas da linha de costa. Utilizou-se o Sistema Digital de Análise do Litoral (DSAS) para os cálculos. A área de estudo foi dividida em três setores: Setor 1 (sul), Setor 2 (centro) e Setor 3 (norte). Foram realizados 3 perfis topográficos com GNSS-RTK durante a maré baixa de sizígia. Para o estabelecimento da Área Não Edificante, levaram-se em conta os impactos decorrentes do aumento do nível do mar e a aplicação dos princípios da lei de Bruun (1962). O Setor 1 reflete maior interferência antrópica, com construções próximas à linha de costa, apresentando no período 2006-2022 um deslocamento máximo de 101,00m. Os perfis topográficos apresentaram maior rebaixamento na região do estirâncio médio e inferior no Setor 3. Os dados obtidos para a área não edificante, utilizando os dados do relatório IPCC de 2013, indicam para o cenário 8.5 em 2100: deslocamento de 53,28m no Setor 1, 55,39m no Setor 2 e 33,28m no Setor 3. Os resultados demonstraram variações significativas na linha de construção da área não edificante e costeira, refletindo tanto processos naturais quanto antrópicos, com crescimento irregular das infraestruturas urbanas e projeções preocupantes de recuo da linha de costa até 2100. Esses dados são essenciais para o planejamento urbano e a implementação de estratégias de mitigação dos impactos ambientais futuros.
Palavras-chave: Zona Costeira; Linha de Construção; Geotecnologias; Área não Edificante.
ABSTRACT
The beach of São José da Coroa Grande is located 123km from the capital Recife, in the Zona da Mata Sul of Pernambuco. This study aimed to investigate and compare the temporal evolution of the construction line in the coastal zone of the municipality, during the periods of 2006, 2014, 2018, 2022 and 2023, with emphasis on the analysis of the Non-Building Area in order to mitigate the natural and anthropogenic impacts that affect it. For monitoring the temporal evolution of the construction line, satellite images from the years 2006, 2018 and 2022 were used, obtained through the Google Earth Pro platform; and UAV images for the year 2023, totaling an 18-year survey. The construction line was established as the urban infrastructures located closest to the coastline. The Digital Shoreline Analysis System (DSAS) was used for calculations. The study area was divided into three sectors: Sector 1 (south), Sector 2 (center) and Sector 3 (north). Three topographic profiles were carried out with GNSS-RTK during spring low tide. For the establishment of the Non-Building Area, the impacts resulting from sea level rise and the application of the principles of Bruun's law (1962) were taken into account. Sector 1 reflects greater anthropogenic interference, with constructions close to the coastline, presenting in the period 2006-2022 a maximum displacement of 101.00m. The topographic profiles showed greater lowering in the middle and lower foreshore region in Sector 3. The data obtained for the non-building area, using data from the 2013 IPCC report, indicate for the 8.5 scenario in 2100: displacement of 53.28m in Sector 1, 55.39m in Sector 2 and 33.28m in Sector 3. The results demonstrated significant variations in the construction line of the non-building and coastal area, reflecting both natural and anthropogenic processes, with irregular growth of urban infrastructures and worrying projections of coastline retreat until 2100. These data are essential for urban planning and the implementation of strategies to mitigate future environmental impacts.
Keywords: Coastal Zone; Construction Line; Geotechnologies; Non-Building Area.
INTRODUÇÃO
A dinâmica da zona costeira é um campo de estudo essencial para compreender as transformações que afetam as áreas litorâneas, influenciadas por uma série de fatores como processos naturais, mudanças climáticas e atividades humanas, influenciando sobremaneira a área não edificante subsidiada por estudos de erosão costeira. Bulões (2020) disserta que, os processos que ocorrem na dinâmica costeira causam impacto na paisagem, como a erosão costeira. Esse fenômeno resulta na perda de sedimentos e no recuo da linha de costa, afetando ecossistemas, o ambiente praial e as comunidades adjacentes a esses locais.
Pitombeira e Aleme Romcy (2023), destaca que, dentre os fatores, o desconhecimento dos bens públicos e dos seus recursos ambientais, a falta de integração entre os setores governamentais e da sociedade implica, resulta em um cenário, onde os espaços costeiros são alterados, na maior parte do território brasileiro.
De acordo com Martins et al (2016), o litoral do estado de Pernambuco possui aproximadamente 187 km de extensão, sendo composto, principalmente, por praias arenosas e com variadas morfologias, destacando-se no âmbito turístico por sua beleza peculiar. Nas últimas décadas, a erosão costeira tem se tornado um problema de magnitude crescente nas praias do litoral central de Pernambuco, e as causas dessa erosão são a elevação do nível médio do mar (NMM), o crescimento das atividades econômicas presentes na costa, como, o turismo e a ocupação do ambiente praial (Costa e Oliveira, 2009).
O município de São José da Coroa Grande, localizado no litoral de Pernambuco, Brasil, tem sido objeto de crescente interesse, devido às significativas mudanças observadas zona costeira ao longo do tempo. A zona costeira de São José da Coroa Grande é caracterizada por uma combinação complexa de processos naturais, como a ação das marés, correntes oceânicas e variações climáticas sazonais, bem como influências antrópicas decorrentes do crescimento urbano e intervenções costeiras. A compreensão desses fatores é importante para avaliar as implicações das mudanças observadas na área não edificante, que desempenha um papel importante na preservação da biodiversidade, na proteção contra erosão e no equilíbrio ecológico local.
Nessa seara, Soares Junior et al (2019) destacam a importância de estabelecer limites legais de ocupação nas áreas de transição entre os ambientes marinho e o continental como medida necessária para controlar e restringir atividades que possam resultar em impactos ambientais. No contexto brasileiro, o limite estabelecido refere-se aos terrenos da Marinha do Brasil, definidos como 33 metros, medidos em direção à retroterra a partir da preamar máxima de sizígia, conforme estipulado no Decreto-Lei N° 3.438, de 17 de julho de 1941. Entretanto, a determinação precisa deste limite é desafiadora e, em muitas regiões, a largura de 33 metros revela-se insuficiente para garantir a preservação adequada das áreas litorâneas.
Com relação à área não edificante, Madruga (2022), afirma que o crescimento econômico decorrente da chegada de novos empreendimentos urbanos resulta em uma crescente modificação do ambiente litorâneo, devido à valorização imobiliária. Os trechos litorâneos são os mais valorizados, e tem como consequência uma ocupação desordenada, além disso, a urbanização da orla do município de São José da Coroa Grande, não atende a distância mínima da zona não edificante, instrumento instituído pela Lei Estadual Nº 14.258/2010, que define a distância mínima de uso e a ocupação da orla a partir da linha de preamar em direção ao continente (Madruga, 2022).
As mudanças climáticas, o aumento do nível do mar, a intensificação das tempestades e a alteração dos padrões de circulação oceânica, têm exacerbado a erosão costeira e alterado significativamente a dinâmica das áreas não edificantes. Além disso, ações humanas, como a urbanização desordenada, a construção de infraestruturas costeiras e a exploração de recursos naturais têm intensificado os impactos negativos sobre estas regiões.
Ao analisar a evolução da zona costeira e identificar a área não edificante, permite-se avaliar o espaço costeiro que está propenso aos efeitos das mudanças na paisagem em função processos naturais, como as mudanças climáticas, permitindo assim amenizar seus efeitos sobre o espaço construído.
Assim, este estudo visa investigar e comparar a evolução espaço temporal da linha de ocupação na zona costeira em cinco períodos distintos: 2006, 2014, 2018, 2022 e 2023, com ênfase na análise da área não edificante. Tais análises temporais permitem compreender as mudanças e tendências que moldaram a paisagem costeira, da praia de São José da Coroa Grande-PE, ao longo de décadas, contribuindo para a compreensão dos processos e impactos que afetam a região não edificante. Compreender a evolução espaço temporal do ambiente costeiro é necessário para o desenvolvimento de estratégias eficazes na gestão e preservação ambiental da costa, visando mitigar os efeitos adversos, promover a resiliência das comunidades costeiras e dos ecossistemas associados.
MATERIAL E MÉTODOS
Área de Estudo
A área de estudo compõe o litoral sul de Pernambuco o qual é parte integrante do município de São José da Coroa Grande, localizado no extremo sul do estado (Figura 1), faz fronteira com o estado de Alagoas, conforme (MMA, 2018). A área de estudo possui aproximadamente, 9,9 km de orla, entre as coordenadas UTM 262000 Em – 266000 Em e 9018000 Nm – 9014000 Nm (Figura 9), limita-se ao norte pelo Rio Una, onde se observa um pontal, e ao sul, pelo Rio Persinunga, constituída por praias arenosas, Praia da Várzea do Una, Praia de Gravatá e Praia da Coroa Grande, e também pela presença das piscinas naturais. Barreto (2015) destaca, que a orla do município está dividida em duas áreas, a área urbana ao sul e a área dos distritos da Várzea do Una e Abreu do Una ao norte. Na parte sul, encontra-se a sede onde há uma maior concentração e aceleração da urbanização que se dá do litoral para o interior.
Figura 1. Mapa de localização da área de estudo
A área de estudo para uma melhor compreensão do deslocamento da linha de construção foi dividida em três setores, Setor 1, localizado ao sul da área, faz divisa com o estado de Alagoas; o Setor 2, localizado ao centro, correspondendo à região mais urbanizada e o Setor 3, localizado ao norte da área, faz divisa como o município de Tamandaré. Para a divisão dos três segmentos levou-se em consideração a mudança de direção da costa, e a sua morfologia litorânea, apresentando o setor 2, um pontal, com uma maior proeminência em direção offshore, e os segmentos 1 e 2, apresentam um maior deslocamento em direção onshore (Figura 2). Dessa forma a Figura 11 apresenta a divisão em setores, referente ao presente estudo. No setor 1 representa a região mais ao norte da costa; o setor 2, região central; e o setor 3, região mais ao sul da praia, divisa com o Estado de Alagoas.
Figura 2. Mapa de setorização da área de estudo
A localização da área de estudo está contida em baías que enfrentam processos erosivos devido a alterações no suprimento sedimentar, como destacado por Muehe (2018). Essas mudanças muitas vezes são resultado de fatores predominantemente naturais, como a presença de correntes longitudinais divergentes a partir de um mesmo setor, formando duas células de deriva litorânea. Esse fenômeno é observado em praticamente todas as praias localizadas ao sul do estado de Pernambuco, incluindo Serrambi, Tamandaré, Guadalupe e São José da Coroa Grande (Muehe, 2018).
Geologia e Geomorfologia
A Bacia Sedimentar de Pernambuco, localizada na região costeira do estado, desempenha um papel importante na configuração geológica e geomorfológica do litoral sul pernambucano. O município de São José da Coroa Grande está localizado nessa área, integrando a Bacia Sedimentar do estado, segundo Lima Filho (1998). Essa bacia insere-se dentro de um contexto mais amplo de formações sedimentares do Nordeste brasileiro, sendo marcada por depósitos Quaternários que evidenciam variações no nível do mar ao longo do tempo (CPRH, 2003).
A Bacia Pernambuco, como definida por Lima Filho (1998), abrange a área de estudo na faixa costeira sul de Pernambuco, sendo parte integrante de uma bacia sedimentar marginal localizada entre o Lineamento Pernambuco e o Alto de Maragogi- Barreiros, com uma área de aproximadamente 900 km², é uma formação alongada na direção N40E, com cerca de 12 km de sua porção emergida. Ela é delimitada ao sul pelo Alto de Maragogi, ao norte pelo Lineamento Pernambuco, e a oeste por falhas normais com o Maciço Pernambuco/Alagoas. Este último é composto por granitos, gnaisses e magmáticos de idade pré-cambriana, que estão cobertos pelas rochas sedimentares que preenchem a bacia, através de discordância (Lima Filho, 1998).
Imagens Satélites e VANT
Para o monitoramento da evolução temporal da linha de construção serão utilizadas imagens satélites de diferentes décadas, do ano de 2006, 2014, 2018 e 2022, e as imagens de VANT levantadas foi realizada durante o ano de 2023,pela pesquisa do projeto “Processos morfodnâmicos, sedimentológicos e geomorfológicos na plataforma continental interna a praia de São José da Coroa Grande, litoral Sul de Pernambuco, Nordeste do Brasil.” perfazendo um levantamento de18 anos.As imagens satélites utilizadas foram dos anos de 2006, 2014, 2018 e 2022, obtidas por meio da plataforma Google Earth pro. A imagem “A” correspondente ao ano de 2006, a “B”, 2014, a “C” 2018 e a “D” 2022.
Extração da Linha Construção
A pesquisa em questão estabeleceu a linha de construção como infraestruturas urbanas situadas mais próximas da costa, seguindo uma direção paralela à linha de costa Araújo, (2021). Para determinar a evolução da linha de ocupação ao longo do tempo, foram empregadas imagens de satélite e imagens geradas pelo mapeamento com VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado).
A linha de costautilizada neste trabalho será extraída da pesquisa de pós-doutorado de Eduardo Paes Barreto(2014), obtida com técnica de posicionamento relativo dinâmico, com uma taxa de gravação de 5s, para garantir a obtenção dos pontos das coordenadas.
Cálculo da Linha de Construção
A linha de construção, é objeto de estudo em diversas análises geográficas e geológicas(Araújo, 2016). No contexto da pesquisa em questão, a linha de ocupação do ano 2006será adotada como referência para os cálculos subsequentes, utilizando-se o Sistema Digital de Análise do Litoral (DSAS) presente no software ArcGIS 10.1, desenvolvido pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
O DSAS é uma ferramenta disponibilizado de forma grátis pela agência americana para o oceano e atmosfera (NOAA), esta permite fazer uma análise cartográfica quantitativa das taxas de alteração costeira (recuo ou acréscimo),estas taxas são importantes para a compreensão da tendência da dinâmica da costa e o seu comportamento ao longo dos anos, permitindo assim, uma boa planificação e gestão dos ambientes costeirosMadore, (2014).
O DSAS requer series históricas de linhas de costa de anos diferentes para obter dados e resultados, (estas podem apresentar intervalos de 5 anos). A linha de ocupação segue nesta pesquisa o mesmo processo do cálculo de deslocamento da linha costa, sendo vectorizadas nas imagens de satélites, fotografias aéreas, levantamento por GPS, etc. (Manual DSAS, 2017).
De realçar que cada linha tem seus atributos uma coluna de Incerteza/Uncertanity e de Data/Date1. O DSAS requer dados com projeção de sistema de coordenadasem UTM e o uso da mesma projeção para todos os dados.(Manual DSAS, 2017).
Todos os dados a serem utilizados no DSAS devem estar integrados numa base de dados/Geodatabase incluindo linha de base/Baseline (Manual DSAS, 2017).
Por meio do DSAS, é possível realizar o cálculo das taxas de avanço e recuo da linha de ocupação ao longo dos anos, proporcionando uma compreensão mais abrangente das mudanças na configuração da costa ao longo do tempo.
Essa abordagem metodológica permite agrupar e analisar os dados obtidos para cada setor costeiro, considerando medidas como média, mediana, máximo, mínimo e desvio padrão, visando identificar padrões e tendências na evolução da linha de ocupação em estudo.
Assim, a aplicação do DSAS e a análise dos dados obtidos revelam insights valiosos sobre a dinâmica da linha de ocupação, fornecendo informações para o planejamento e a gestão costeira em áreas suscetíveis a mudanças ambientais e climáticas.
Transectos são linhas ou faixas retas usadas em estudos científicos para amostrar ou observar características de uma determinada área,essas linhas podem ser terrestres, aquáticas ou aéreas, dependendo do ambiente em estudo. Geralmente, os transectos são estabelecidos de forma sistemática para garantir uma amostragem representativa da área de estudoMadore (2014).
Levantamento dos Perfis Topográficos com GNSS
Os perfis topográficos foram obtidos através do levantamento de campo realizada na praia de São José da Coroa Grande. O equipamento foi fornecido pelo programa PPCGTG da UFPE para o levantamento de três perfis de praia, coletando informações sobre a morfologia praia, a fim de ser utilizada para o cálculo da área não edificante, bem como, para as características da morfologia da praia. Foram realizados 3 perfis topográficos ao longo do arco praial nas praias de São José, no dia 18 de novembro de 2024, durante baixa-mar da maré de sizígia, conforme a localização na (Figura 3).
Os perfis topográficos foram realizados através de caminhamento, com o uso do equipamento GNSS-RTK (Global Navigation Satellite System - Real-Time Kinematic) CHCNAV e o software Landstar. A técnica consiste no posicionamento RTK (Cinemática em Tempo Real), para fornecer coordenadas (x, y) e o valor da altitude (z), em tempo real com alta precisão, geralmente em faixas de centímetros. Permitindo assim, observar a morfologia costeira ao longo do tempo, um aspecto essencial para a gestão de riscos associados à erosão e sedimentação (Mills et al., 2005).
Figura 3. Mapa de localização dos perfis topográficos dos setores 1, 2 e 3
Cálculo da área não edificante
A profundidade de fechamento do perfil para o cálculo da área não edificante será realizada através da equação de Hellermeier (1981), correspondendo à fórmula:
Onde:
d1 = profundidade de fechamento do perfil (m);
Hs = altura anual das ondas significativas (m);
σ = desvio padrão das ondas significativas (m).
Os registros referentes à altura anual das ondas significativas serãoobtidos a partir do PNBOIA (Programa Nacional de Boias da Marinha), abrangendo a zona litorânea sul do Estado de PernambucoAraújo (2021).
Para estabelecer a extensão da faixa de segurança nas praias (denominada área não edificante), levam-se em conta exclusivamente os impactos decorrentes do aumento do nível do mar, (Araújo, 2021),procedeu-se à aplicação dos princípios da lei de Bruun, datada de 1962, mediante a utilização da equação:
Onde:
R = recuo erosivo da linha de costa devida à elevação do nível do mar (m)
S = elevação do nível do mar (m)
L = Largura do perfil ativo (m) distância horizontal entre H e d1
H = altura do perfil ativo (m) determinado pela expressão H=h + (1, 75.d1) sendo:
h = Altura da feição emersa (topo do cordão litorâneo, topo da duna).
1, 75 é a estimativa do aumento médio do nível dos oceanos.
G = Proporção de material erodido que se mantém no perfil ativo considerado neste trabalho como sendo igual a 1.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Área não Edificante
A zona costeira é um ambiente dinâmico e vulnerável devido à sua localização geográfica, atributos paisagísticos e valorização socioeconômica, podeser entendida como um lugar de grande concentração demográfica e de grande pressão antrópicae pode ser definida, ainda, como faixa de terra com variações em sua largura (Lira et al. 2015).
A vulnerabilidade erosiva costeira, observada na zona costeira,devido a crescente urbanização, promovem ações preventivas, para essa área de transição entre o meio marinho e o continental, é de fundamenta importância delimitar as áreas não edificantes, a fim de limitar as atividades antrópicas que promovam impactos negativos no domínio costeiro Soares Junior et al (2019).
Entre os impactos das mudanças climáticas, destaca-se a subida doNível Médio do Mar (NMM), que têm como conseqüências os impactos ambientais observados na morfologia costeira, nas inundações, na erosão da linha de costa, e perda de ambientes, como praias, dunas e manguezais, bem como, socioeconômicos Braga et al.(2020). As projeções do Painel Intergovernamentais de Mudanças Climáticas-IPCC 2013, 2014, em seu Quinto Relatório AR5, sobre o aumento de um metro do Nível do Mar NM até 2100 preveem um cenário de impactos nas cidades e ecossistemas costeirosBraga et al. (2020).
Nessa pesquisa os dados do aumento médio do nível do mar nos anos de 2050 e 2100 para o cálculo da área não edificante foram extraídos do 5th Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), em 2013, tabela 1. O AR5(Quinto Relatório de Avaliação), que apresenta quatro cenários (Representative Concentration Pathways - RCP) para a elevação do nível médio do mar. Esses possíveis cenários de futuro irão depender da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera. Os RCP’s 2.6 e 8.5 preveem um aumento do nível do mar variando de 0,22m e 0,25 para os 2050 e 0,44 e 0,74 para o ano de 2100. Os resultados observados na pesquisa se encontram representados na tabela 2.
Tabela 1. Aumento médio global do nível do mar (m) em relação a 1986–2005 em 1 de janeiro nos anos indicados. Valores apresentados como mediana e intervalo provável.
A Tabela 2 mostra a análise dos cenários de estimativa do recuo da costa para a área não edificante nos anos de 2050 e 2100, diante dos cenários 2.6 e 8.5 do 5º Relatório de Avaliação do IPCC, nos valores mínimos de 0,22 m para o cenário 2.6 e 8.5 para o período de 2050; e o aumento do nível do mar de 0,44 m, também para o cenário de 2.6 e 8.5 durante o período de 2100. nos setores 1,2 e 3. Apresentando assim, uma perspectiva otimista e pessimista diante as possibilidade futuras do incremento do Dióxido de Carbono na atmosfera avaliada pelo 5º relatório do IPCC, teria como conseqüência as previsões no aumento da temperatura atmosférica, no nível das águas oceânicas, aos quais estão diretamente relacionados nas mudanças climáticas globais.
Tabela 2. Estimativa do recuo da área não edificante para os anos de 2050 e 2100 nos Cenários 2.6 e 8.5, do 5º Relatório de Avaliação do IPCC nos setores 1, 2 e 3.
Os resultados dos valores de recuo da área não edificante mostraram um recuo da costa para o cenário 2.6 (Tabela 2 e figura 4 ) os valores variaram entre 19,04 e 20,25. Sendo observado uma diferença em torno de 1,25 m de recuo entre os setores 1 e 2, e para os setores 2 e 3, um valor aproximado de 0,77 m para a previsão de 2050. Nesse contexto percebe-se que há crescente aumento na retrogradação da linha de costa em direção de sul para o norte, sendo mais significativo ao centro do setor 2, representado pelo pontal da Praial de São José da Cora Grande (Figura 5).
Figura 4. Estimativas dos valores de recuo da área não edificante para os anos de 2050 e 2100 nos Cenários 2.6 e 8.5 - A) setor 1; B) Setor 2; C ) Setor 3.
Figura 5. Mapas das Estimativas do Recuo da Área Não Edificante para o Ano de 2050 no Cenário 2.6 do 5º Relatório de Avaliação do IPCC nos Setores, 1, 2 e 3.
Em relação a previsão 2.6 para o ano de 2100, observa-se um aumento expressivo nas estimativas, com os valores aproximados do dobro em relação a 2050, mas, com um crescimento proporcional entre os setores (Tabela 2). Os valores observados ficaram entre 38,09 a 40,51 m (Tabela 2 e Figura 6). Esse cenário indica uma intensificação do recuo da área não edificante ao longo do tempo, sendo o Setor 2 o que mais se destaca devido ao seu valor mais alto, o que pode apontar para uma maior vulnerabilidade ou impacto nessa região (Figura 6). Na direção de sul para o norte se observa que os setores 2 e 3 serão os mais impactados, pois a linha de ocupação, encontra-se dentro da área não edificante apartir do cenário 2.6 para o ano de 2050, que corresponde a um cenário mais otimista (Figuras 5 e 6).
Figura 6. Mapas das estimativas do recuo da área não edificante para o ano de 2100 no Cenário 2.6 do 5º Relatório de Avaliação do IPCC, nos setores 1, 2 e 3.
No cenário 8.5, para o ano de 2050, ao comparar os três setores, percebe-se variação dos entre 21,64m a 23,02 m (Tabela 2), alcançando um percentual de aumento aproximado de 12 a 14% de recuo nos setores, principalmente no Setor 2. Esse Setor por ser o mais urbanizado, irradia para o norte do Setor 1 e para o sul do Setor 3, as suas proporções tanto de ocupação urbana, bem como, a retrogradação da área edificante (Tabela 2 e Figura 7), revelando que as áreas não edificante irão sofrer um maior impacto da elevação do nível do mar já no médio prazo. Esse processo pode levar à expansão da área da pós-praia em direção ofshore e, conseqüentemente, ao aumento da retrogradação, afetando diretamente as edificações situadas ao longo da costa, principalmente nos setores 2 e 3 ou a instalação de um intenso processo erosivo no Setor 2 e o aumento desse processo, no qual já foi observado no setor 3, representado por um perfil menos extenso e com a presença de processo erosivo ao norte da área de estudo.
Figura 7. Mapas das estimativas do recuo da área não edificante para o ano de 2050no Cenário 8.5 do 5º Relatório de Avaliação do IPCC nos setores, 1, 2 e 3.
No cenário 8.5, para o ano de 2100, a comparação entre os setores revela variações significativas nos valores de retrogradação. Os setores atingiram valores entre 64,05m e 68,13 m de retrogradação da área não edificante (Tabela 2), com processos erosivos em toda a extensão da área de estudo. Esses resultados sugerem que os setores 2 (68,13 m) e o Setor 3(65,53 m)estarão mais expostos a processos erosivos e impactos ambientais do que o setor 1, que registrou um recuo de 64,05m. Como na análise anterior dos cenários 2.6 e 8.5 nos períodos de 2050 e 2100, houve um aumento progressivo na retrogradação da área não edificante, com variações entre os cenários, em um aumento para mais de 68% (Figura 8), no cenário 2.6 e 8.5 para o período de 2050; 2.6 e 8.5 no período de 2100, demonstrado na Figura 8. Os resultados contraídos para os três setores indicam uma elevação significativa do nível do mar ons anos de 2050 para o ano de 2100, entre os cenários, em todos os setores, destacando o impacto acumulativo na área não edificante no longo prazo (Figuras 8 e 9).
Portanto, é fundamental a adoção de estratégias eficazes de gestão costeira, visando reduzir os impactos previstos e preservar a integridade da área não edificante de São José da Coroa Grande. Medidas como a reavaliação das diretrizes de ocupação do solo, projetos de recuperação costeira e a redução das emissões de gases de efeito estufa são essenciais para mitigar os impactos da elevação do nível do mar nas próximas décadas.
Figura 8. Variações entre os cenários, 2.6 e 8.5 (%) para a área não edificante no período de 2050; e 2.6 e 8.5 para o período de 2100 nos Setores 1, 2 e 3.
Figura 9. Mapas das estimativas do recuo da área não edificante para o ano de 2100 no Cenário 8.5 do 5º Relatório de Avaliação do IPCC nos setores, 1, 2 e 3.
A literatura destaca que expansões rápidas, especialmente em áreas ao norte de maior variação, podem resultar em impactos ambientais significativos, como erosão do solo, perda de biodiversidade e pressão sobre recursos naturais Clemente et al.(2018). Assim, futuras intervenções devem considerar políticas de mitigação, buscando acompanhar o desenvolvimento com práticas de conservação ambiental.
Os resultados dos três setores representam uma retrogradação, sendo mais evidente nos setores 2 e 3, para os dois cenários 2.6 e 8.5, nos anos de 2050 e 2100, corroborando com o que Soares et al (2019) relata que em seu estudo, que a vulnerabilidade classificada como alta há uma redução de áreas de praia, inexistência de pós-praia, e a presença de obras de contensão ao longo da costa. Segundo Batista (2019) a configuração espacial pode estar relacionada à influência de variáveis ambientais, como a presença de corpos d'água, condições topográficas, ou à pressão antrópica, como expansão urbana ou agrícola.
Estudos anteriores, como os de Muehe (2018) e Cooper e Pilkey (2012), corroboram essa tendência ao apontarem que a elevação do nível do mar tem sido um dos principais fatores para o aumento da erosão em regiões costeiras.O comportamento da retrogradação da área não edificante sugere que, mesmo em um horizonte de médio prazo, indicam que, com o aumento do nível médio do mar podem resultar em uma erosão acelerada, comprometendo a estabilidade da área não edificante e ampliando as restrições para o uso e ocupação do solo Souza et al.(2020).
Manso et al (2013) afirmam que a determinação da zona não edificante a partir da linha de preamar máxima permitiu estimar as distâncias mínimas para uso e ocupação da faixa costeira, mesmo em um cenário otimista (ENM = 0,18 m), pode ocorrer uma retrogradação de 23,39 m na linha de costa, valor próximo das variações sazonais anuais da praia do Porto (PE).
CONSIDERAÇÕES
Os Setores 1, 2 e 3 da praia de São José da Coroa Grande mostraram uma evolução dinâmica e importante da linha de construção ao longo dos anos pesquisados, evidenciando interações entre causas da natureza ações do homem. O aumento das construções e a intensidade do uso do solo apontam um processo contínuo de urbanização, o qual incide diretamente na região da linha de costa e na vulnerabilidade marinha desses setores.
A área não edificante estudadas no Setor 1 da praia de São José da Coroa Grande evidenciaram uma evolução dinâmica e significativa da linha de construção ao longo dos anos estudados, refletindo as interações entre fatores naturais e antrópicos. O crescimento acelerado das construções e a intensificação do uso do solo indicam um processo contínuo de urbanização, que influencia diretamente na configuração da linha de costa e na vulnerabilidade ambiental do setor.
O estudo temporal e espacial da estimativa do recuo da costa na área não edificante de São José da Coroa Grande para os anos de 2050 e 2100, considerando os cenários 2.6 e 8.5 do 5º Relatório do IPCC demonstraram que os resultados indicam um aumento progressivo na erosão e na retrogradação da linha de costa, especialmente nos setores 2 e 3, com valores mais elevados nesses trechos. No cenário 2.6, o recuo chega a 20,25 m em 2050 e a 40,51 m em 2100, enquanto no cenário 8.5, os valores atingem 23,02 m e 68,13 m, respectivamente. A intensificação desses processos ao longo do tempo destaca a vulnerabilidade da área. Estudos anteriores confirmam essa tendência, evidenciando a influência do aumento do nível do mar e da ação antrópica na erosão costeira, conforme demonstrado nos cálculos executados.
Os cálculos demonstraram que as projeções deste estudo evidenciam a vulnerabilidade crescente da área não edificante de São José da Coroa Grande diante da elevação do nível do mar e da intensificação dos processos erosivos. A análise dos cenários 2.6 e 8.5 do IPCC reforça a necessidade de medidas preventivas para minimizar os impactos da retrogradação costeira, especialmente nos setores 2 e 3, que apresentam os maiores.
Diante desse contexto, é fundamental adotar estratégias de gestão costeira, incluindo a revisão das diretrizes de uso e ocupação do solo, a implementação de projetos de recuperação ambiental e projetos para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.Os cálculos estatísticos executados nesta pesquisa também demonstraram que , caso não haja providências iminentes para minimizar esses efeitos, há uma forte tendência de ocorrência desses efeitos da erosão costeira num futuro bem próximo.
Além disso, a integração de políticas públicas com base em estudos científicos pode contribuir para a conservação da faixa litorânea e a proteção das comunidades locais.Também é necessário que haja a continuidade das pesquisas sobre o trema da dinâmica da linha de costa sobre a área não edificante, essencial para aprimorar o planejamento territorial e garantir a sustentabilidade das regiões, tendo em vista que e os impactos das mudanças climáticas são cada mais freqüentes.
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1 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Ciências Geodésicas e Tecnologia da Geoinformação. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutora em GeoCiências. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutora em Engenharia Cartográfica. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutor em GeoCiências. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Ciências Geodésicas e Tecnologia da Geoinformação. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail